sexta-feira, 20 de abril de 2012

SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ SHEMINI 5772

BS"D

AMIGO DE VERDADE - PARASHÁ SHEMINI 5772 (20 de abril de 2012)



"No meio da guerra, após um duro combate contra o exército inimigo, um soldado se aproxima do capitão e faz um pedido dramático:



- Senhor, o meu amigo não regressou do campo de batalha. Peço autorização para ir procurá-lo.



- Autorização negada - respondeu o oficial - Não quero que você arrisque sua vida por um homem que provavelmente está morto. Já perdemos muitos homens hoje.



O soldado, ignorando a proibição, saiu em busca do amigo. Uma hora depois regressou, muito ferido, carregando o corpo do amigo. O oficial, ao ver a gravidade dos ferimentos de seu soldado, ficou furioso:



- Eu avisei que ele estava provavelmente morto! Por que fez esta tolice? Diga-me, valeu a pena quase perder a vida apenas para trazer um corpo?



O soldado ferido conseguiu, juntando todas as suas forças, dar um sorriso e responder:



- Claro que valeu, senhor! Quando o encontrei, ele ainda estava vivo. Ainda houve tempo para que ele olhasse nos meus olhos e dissesse: "Amigo, eu tinha a certeza de que você viria"



Podemos ter na vida muitos colegas. Colegas de trabalho, colegas de classe, a turma do futebol. Mas amigos de verdade temos poucos. Pois amigo de verdade é aquele que chega quando todos já foram embora.



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Um dos assuntos tratados na Parashá desta semana, Shemini, é a Kashrut, as leis alimentares que determinam quais os tipos de alimentos podemos consumir e quais são proibidos. Mas desde o começo do livro de Vayikrá a Torá estava falando sobre os Korbanót (sacrifícios) oferecidos no Templo Sagrado. Por que a Torá trouxe o assunto de Kashrut logo após os Korbanót? Pois da mesma maneira que os Korbanót são parte importante do nosso serviço a D'us e da nossa conexão espiritual, assim também é a Kashrut. A comida não-Kasher impurifica nosso coração e nos desconecta da nossa espiritualidade.



A Torá ensina, para cada tipo de animal, quais são os sinais de Kashrut para que possam ser consumidos. Por exemplo, para os animais domésticos, os sinais são a presença de um casco completamente fendido e a característica fisiológica de serem ruminantes, como a vaca e o carneiro. Nos peixes, os sinais são a presença de escamas e de barbatanas, como o atum e o linguado. Já em relação às aves é diferente, pois a Torá não apresenta sinais de Kashrut para as aves, apenas lista 20 espécies que não são Kasher, como está escrito: "Estes vocês devem considerar uma abominação entre os pássaros, eles não deverão ser comidos – eles são detestáveis: a águia, o abutre, a águia do mar... o corvo e sua espécie, a avestruz..., o falcão e sua espécie... a coruja... a cegonha... (Vaikrá 11:13,19)".



Qual o sentido das leis de Kashrut? Na Torá existem dois tipos de lei, os "Chukim" e os "Mishpatim". Os "Chukim" são as leis que D'us nos comandou, mas que intelectualmente, por causa de nossas limitações, não conseguimos entendemos qual a lógica Divina. Já os "Mishpatim" são as leis que conseguimos intelectualmente entender seu sentido, como as Mitzvót de honrar os pais e não matar. A Kashrut se enquadra nos "Chukim", isto é, trata-se de uma Mitzvá que cumprimos apenas por sabermos que foi o Criador do Universo que nos comandou, para cuidarmos da nossa alma.



Mas nossos sábios explicam que mesmo nos "Chukim" existe um entendimento lógico superficial que conseguimos captar. Por exemplo, o Ramban (Nachmânides) diz que todas as aves listadas entre as proibidas para o consumo têm um ponto em comum: são aves com má índole. A grande maioria são aves de rapina, que atacam com violência outras aves e animais para se alimentar. Segundo o Ramban, se uma pessoa consumisse a carne de alguma destas aves, absorveria também este desejo de violência e o comportamento animalesco, e devemos nos afastar destas terríveis características.



Mas nesta lista de aves há uma que aparentemente foge da explicação oferecida pelo Ramban: a cegonha, cujo nome em Lashon Hakodesh é "Chassida", que também significa "bondosa". O nome de todos os animais foi dado por Adam Harishon (Adão), após D'us ter terminado a criação do mundo. Adam olhou cada animal e, com um entendimento profundo, percebeu qual a característica principal de cada um deles, e de acordo com esta característica os nomeou. Por que a cegonha recebeu o nome de "Chassida"? Segundo o Talmud (Chulin 63a), este nome vem do fato da cegonha fazer bondade com seus companheiros e repartir entre eles a sua comida. Portanto, se ela tem esta característica tão boa, por que está na lista dos pássaros proibidos e abomináveis? Onde encontramos na cegonha a má índole mencionada pelo Ramban?



Explica o Rav Ytschak Meir Rothenberg Alter, mais conhecido como Chidushei Harim, que a cegonha faz bondades apenas com os seus companheiros, mas não com os pássaros das outras espécies. Fazer bondades com os amigos não torna ninguém especial, pois até mesmo os bandidos fazem bondades com as pessoas queridas. O que nos torna diferentes é fazer bondades com todos, sem distinção, de forma irrestrita. Fazer bondades apenas como os amigos não é uma bondade verdadeira, é uma bondade baseada em um sentimento egoísta e, portanto, uma característica indesejável para o povo judeu, o povo descendente de Avraham Avinu, cuja tenda era aberta em todas as direções para que pudesse fazer bondades com todos os que passavam por sua casa, sem nenhum tipo de distinção.



O Rav Yohanan Sweig acrescenta que há um entendimento ainda mais profundo de qual é a má característica da cegonha, que ajuda a entender um ensinamento do Talmud (Torá Oral). Está escrito no Talmud (Kidushin 49b) que cada local do mundo tem propensão a desenvolver certas características de comportamento. Um dos exemplos que o Talmud cita é a Babilônia, onde as pessoas tinham a característica de ser bajuladores, algo muito desprezado pela Torá. Como prova de que os babilônios eram bajuladores, o Talmud traz um versículo que descreve uma visão do profeta Zecharia, na qual duas mulheres com asas de cegonha traziam uma vasilha para a Babilônia. Rashi, comentarista da Torá e do Talmud, explica que aprendemos do versículo que os babilônios eram bajuladores pelo fato das asas das mulheres serem asas de cegonha. Mas por que aprendemos esta característica tão detestável justamente da cegonha?



Responde o Rav Yohanan Sweig com um fundamento muito importante do judaísmo. A palavra "amigo", em Lashon Hakodesh, é "Chaver", da mesma raiz de "Chibur", que significa "conectar-se". Quanto maior a amizade entre duas pessoas, maior a conexão entre elas e, portanto, maior a perda da independência das duas partes, pois o comprometimento em um relacionamento vem acompanhado de obrigações. Em uma amizade verdadeira, a pessoa deve estar sempre disponível para ajudar o amigo nos momentos de necessidade, não por bondade, mas por obrigação. Por isso, quando alguém sente que o que faz por um amigo é uma bondade, isto significa que ele entrou no compromisso com egoísmo, querendo manter sua independência, querendo manter o controle do relacionamento. Quando a Torá diz que a cegonha "faz bondade com seus amigos", significa que ela sente que cada coisa que faz pelos amigos é uma bondade. Portanto, ela não representa uma boa característica, ao contrário, representa o egoísmo, a falsidade e a falta de comprometimento.



Como isto se conecta com a bajulação? Se pararmos para refletir um pouco, a bajulação é nada mais do que uma forma de enganação no relacionamento entre duas pessoas. A bajulação é o ato de dar à outra pessoa uma falsa sensação de realidade. É um ato de manipulação, de egoísmo, uma tentativa de manter o controle do relacionamento para que seja sempre do seu jeito. Esta má característica vem do mesmo egoísmo que leva uma pessoa a não se comprometer em uma amizade. Esta é a característica da cegonha, certamente algo nada positivo e nem um pouco desejável para nós.



Fica para nós estes dois grandes ensinamentos que aprendemos da cegonha. Em primeiro lugar, que a bondade é verdadeira apenas quando nos preocupamos com todos, de forma irrestrita, e não apenas com aqueles que são mais próximos. Precisamos trabalhar para sentir a dor e a necessidade de todos. E em segundo lugar, temos que criar relacionamentos verdadeiros de amizade, nos quais entendemos nossas obrigações e as nossas responsabilidades. Este ensinamento também certamente se aplica ao casamento, onde um relacionamento verdadeiro deve ser baseado na premissa de um comprometimento mútuo, no qual cada ajuda que damos ao outro não é uma bondade, e sim uma obrigação.



O cuidado com a Kashrut é, entre outros motivos, uma maneira de cuidar das nossas boas características. Mas certamente que a alimentação Kasher deve vir acompanhada de um trabalho ativo de refinamento das nossas características. Não adianta apenas comer Kasher e ser grosseiro ou egoísta com os outros. Somente com estes dois elementos juntos, a boa alimentação e o trabalho constante para refinar nosso caráter, poderemos chegar ao mesmo nível de bondade e perfeição que chegaram os nossos patriarcas.



SHABAT SHALOM



R' Efraim Birbojm

quinta-feira, 12 de abril de 2012

SHABAT SHALOM M@IL - PESSACH II 5772

BS"D



EXPULSANDO A ESCURIDÃO - PESSACH II 5772 (13 de abril de 2012)



"Certa vez um rei muito sábio decidiu procurar um bom marido para sua filha preferida. Buscava um jovem que tivesse diversas boas qualidades, mas entre elas a que ele mais desejava era a sabedoria. Para isso, criou um desafio e anunciou que aquele que vencesse poderia casar-se com sua filha. Qual era o desafio? O pretendente deveria encher o salão principal do palácio com alguma substância leve e sem gastar muito tempo.



Vários candidatos se apresentaram para tentar vencer o desafio e conquistar o mérito de casar-se com a princesa. O primeiro trouxe uma enorme quantidade de penas, mas apesar de seu imenso esforço e vontade, o tempo passou e ele não conseguiu encher o salão inteiro. Já o segundo tentou encher o salão com uma seda fina, porém também desistiu após algum tempo. E assim centenas de pessoas tentaram encher o salão com os mais diversos materiais, mas não conseguiram. O rei, ao ver o fracasso de todos, ficou desesperado. Será que ninguém venceria o desafio? Será que não encontraria o marido ideal para sua filha?



Certo dia, um pretendente entrou no palácio. Para a surpresa de todos, ele vinha de mãos vazias. O rei então questionou:



- Meu jovem, se você não traz nada nas mãos, como pretende vencer o desafio? Com o que você vai encher o meu salão?



O jovem rapaz não respondeu, apenas pediu aos ajudantes do rei que apagassem completamente as luzes do salão. Quando o salão ficou completamente tomado pela escuridão, o jovem rapaz tirou uma pequena vela do bolso e a acendeu. A luz preencheu imediatamente todo o salão, expulsando a escuridão. O jovem havia vencido o desafio"



O mundo está repleto de maus atos, que se comparam à escuridão. Chegamos a ficar sem esperanças de ver um mundo melhor, mais justo e mais feliz. Mas temos que saber que cada bom ato que fazemos se compara a uma vela, que mesmo sendo pequena, tem o poder de expulsar a escuridão.



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Na noite desta quinta feira (12 de abril) novamente é Yom Tov, no qual comemoramos o sétimo dia de Pessach. O Yom Tov é um dia com mais Kedushá (Santidade), no qual, como no Shabat, nos abstemos de certas atividades criativas. Entendemos porque D'us determinou que o primeiro dia de Pessach fosse Yom Tov, já que neste dia ocorreu a saída do Egito. Mas o que houve de especial no sétimo dia de Pessach, que justifica outro Yom Tov?



Mesmo depois dos judeus terem saído do Egito, após as 10 pragas devastadoras, a escravidão não havia terminado definitivamente. Eles ainda se sentiam escravos, pois apesar de já terem escapado do local de escravidão, sabiam que os egípcios poderiam persegui-los através do deserto para levá-los de volta. E os judeus estavam certos, pois foi justamente isto que ocorreu. Os judeus ainda não haviam se afastado muito quando o Faraó, sem medo das consequências, juntou 600 charretes de guerra e seus melhores homens e partiu em sua perseguição. Os judeus viram-se completamente cercados: dos lados, o deserto inóspito, cheio de animais perigosos. Diante deles, o Mar Vermelho, instransponível. E atrás deles, o bem treinado exército egípcio, declarando guerra contra eles. Foi então que D'us preparou o grande final, abrindo o mar para que os judeus passassem em terra firme e fechando-o sobre os egípcios, matando todo o exército e libertando definitivamente os judeus.



Mas como podemos entender esta obstinação do Faraó? Será que ele era tão tolo? Depois de ter presenciado as 10 pragas, após ter visto que D'us tem poder infinito e controle sobre toda a natureza, o Faraó não sabia que seu exército seria facilmente esmagado? Após sentir a mão pesada de D'us na morte dos primogênitos, ele foi pessoalmente permitir aos judeus que saíssem do Egito, então por que voltou a perseguir os judeus, alheio às terríveis consequências que certamente viriam?



A Torá explica que mais uma vez D'us endureceu o coração do Faraó, e somente por isso ele O desafiou novamente. Em outras palavras, o grande milagre da abertura do mar precisava acontecer, a para garantir que aconteceria, D'us forçou o Faraó a perseguir os judeus. Mas por que foi necessário mais este milagre? Afinal, se todo o propósito de D'us ter quebrado as leis da natureza nas 10 pragas era libertar o povo judeu do Egito, o propósito já havia sido alcançado. Então por que foi necessário endurecer o coração do Faraó mais uma vez? O que o milagre da abertura do mar acrescentou ao povo judeu?



Outra pergunta que surge é em relação à reação do povo judeu após a morte do exército egípcio. Quando eles viram os egípcios mortos na praia, imediatamente fizeram um cântico de louvor a D'us, chamado "Shirat Haiam" (Cântico do mar). Antes eles estavam encolhidos de medo, mas agora eles comemoravam, cantando de alegria. Porém, há um Midrash (parte da Torá Oral) que parece contraditório com a reação do povo judeu. O Midrash conta que quando os egípcios morreram, os anjos também se alegraram e começaram a cantar. Imediatamente D'us interrompeu a comemoração dos anjos e disse: "Minhas criaturas estão morrendo e vocês querem fazer cânticos de louvor para Mim?". Como podemos entender este Midrash? Se D'us deu uma bronca nos anjos por causa da falta de sensibilidade deles, por que a Torá não criticou o povo judeu pelo mesmo motivo? Além disso, o "Shirat Haiam" foi inserido no texto de Shacharit (reza da manhã). Se este cântico é algo indesejável para D'us, por que o repetimos todos os dias?



Para responder estas perguntas, precisamos antes entender o que são os anjos. Em Lashon Hakodesh (língua com a qual D'us criou o mundo e escreveu a Torá), a palavra "anjo" é "Malach", que também significa "mensageiro". Um anjo é uma criatura cuja única função é cumprir a missão designada por D'us. O nome da cada anjo representa a sua essência, isto é, a missão para a qual ele foi criado. Por exemplo, o anjo Rafael é o anjo da cura ("Refua" é "cura" em Lashon Hakodesh). Os anjos, portanto, não tem livre escolha. Um entregador do correio que está a caminho de entregar um pacote não precisa decidir se a pessoa merece ou não receber a encomenda, ele deve apenas cumprir a sua função. Assim também os anjos devem cumprir exatamente o que D'us comandou, nem a mais nem a menos. Eles não precisam desenvolver um senso de justiça, de certo e errado, de bom e mal. Por isso era desnecessário, e até mesmo inapropriado, que eles cantassem de alegria diante da morte das criaturas de D'us.



Os seres humanos, ao contrário, foram criados com livre escolha. Nossas escolhas entre o bem e o mal fazem muita diferença. Nós precisamos trabalhar para desenvolver o senso de justiça e a vontade de lutar para que o bem vença o mal, como diz David Hamelech: "Aqueles que amam D'us odeiam o mal" (Salmos 97:10). Por isso para o povo judeu era apropriado, necessário e até mesmo digno de louvor expressar a alegria quando a justiça foi feita e eles viram o bem derrotando o mal.



Mas o que havia de diferente entre o milagre da abertura do mar e os milagres das 10 pragas no Egito? Nas 10 pragas, o povo judeu era apenas um espectador, completamente passivo, não estava em guerra contra o mal. Já na abertura do mar houve uma declaração de guerra entre os egípcios e o povo judeu. D'us queria, com a abertura do mar e a morte dos egípcios diante dos olhos de todo o povo, colocar no coração de cada judeu a noção de justiça, da necessidade de lutar pelo bem. E nossos sábios fixaram este cântico na Tefilá diária justamente para que possamos sempre refletir sobre a necessidade de fazer o bem e lutar contra o mal.



Vivemos sonhando com um mundo onde o mal não existe, onde todos fazem o bem e a paz reina. Não é uma utopia, pois este é o propósito do mundo, é a realidade na qual um dia certamente chegaremos. Mas não podemos viver sonhando, precisamos viver na realidade de que o mal ainda existe e precisamos lutar contra ele. Martin Luther King, um grande líder negro dos Estados Unidos, eternizou uma frase interessante: "Pior do que a maldade dos perversos é o silêncio dos justos". Não podemos nos acomodar, não podemos enxergar a maldade como algo normal e aceitável. Não podemos nos trancar em nossas casas e viver como se o mal não existisse lá fora.



Mas como se luta contra o mal? Praticando ativamente o bem. Através de atos de Chessed (bondades), do cumprimento das Mitzvót e do refinamento das nossas características pessoais, como a paciência e a humildade. Dizia o Rav Noach Weinberg zt"l, que dedicou a vida para trazer judeus de volta ao judaísmo, que uma de suas maiores motivações era lembrar que os nazistas, a serviço do mal, mataram 6 milhões de judeus. Eles se esforçavam, pensavam o tempo inteiro em como ser mais eficientes, em como matar mais judeus de uma só vez. O Rav Noach Weinberg dizia que se o mal conseguiu destruir a vida de 6 milhões de judeus, precisamos nos esforçar com toda a nossa energia para que, através do bem, possamos trazer muito mais do que 6 milhões de judeus de volta aos caminhos da bondade e do conhecimento da Torá e das Mitzvót. Não é suficiente apenas boas intenções, precisamos de esforço e determinação.



Fomos ensinados que não somos especiais, que somos apenas "mais um tijolo na parede". Mas a verdade é que o futuro do mundo está nas mãos de cada um de nós. Cada alma é uma vela na escuridão. Cada alma pode iluminar a vida de muitas pessoas à sua volta. Pois toda a escuridão do mundo não pode extinguir a luz de uma pequena vela acesa. Por isso, cada pequeno bom ato vale muito.



Que em Pessach cada um de nós possa sair de sua própria escravidão, e que possamos acender a nossa própria vela para iluminar, inicialmente as pessoas à nossa volta, e aos poucos o mundo inteiro.



CHAG SAMEACH E SHABAT SHALOM



R' Efraim Birbojm

quinta-feira, 5 de abril de 2012

SHABAT SHALOM MAIL - PESSACH 5772

BS"D



PENSANDO NOS OUTROS - PESSACH 5772 (06 de abril de 2012)



"O pai do Rav Paysach Krohn procurava cumprir com perfeição a Mitzvá de "Achnassat Orchim" (receber convidados). Ele preparou no sótão de sua casa um local especial para receber hóspedes, com tudo o que era necessário para que o convidado tivesse tranquilidade e se sentisse à vontade. Muitas personalidades de Torá passaram pela sua casa e desfrutaram de sua recepção calorosa. E ele fazia questão de não cobrar nada dos seus convidados pela estadia.



Porém, com o Rav Shalom Shwadron, mais conhecido como "O Maguid de Yerushalaim", foi diferente. Assim que ele chegou aos Estados Unidos, foi convidado para ficar na casa do pai do Rav Paysach Krohn, mas ele se recusou a ficar sem pagar pela estadia. Após muita insistência, o dono da casa concordou em cobrar. Fez as contas e, para a surpresa do Rav Shalom Shwadron, pediu um valor extremamente alto. Mas como ele sabia que não encontraria nenhum outro lugar onde ficaria tão confortavelmente instalado, aceitou.



Com o tempo, uma grande amizade se criou entre o Rav Shalom Shwadron e a família do Rav Paysach Krohn. Passados cinco meses, o Rav Shalom Shwadron decidiu que era hora de voltar para Israel. No dia da partida, toda a família acompanhou o ilustre hóspede até o navio que o levaria de volta para casa. Na privacidade da cabine do Rav Shalom Shwadron, o pai do Rav Paysach Krohn estendeu para ele um envelope cheio de dinheiro. Diante da expressão de dúvida do Rav Shalom Shwadron, ele explicou:



- Este é o dinheiro dos últimos cinco meses de aluguel que você me pagou. Eu nunca tive intenção de receber um único centavo deste dinheiro, ao contrário, nós é que deveríamos ter pago por tudo o que recebemos de você durante este período. Todo o dinheiro que eu recebi foi diretamente colocado neste envelope.



O Rav Shalom Shwadron foi pego tão de surpresa que sua única reação foi rir e perguntar:



- Se você nunca teve intenção de receber o dinheiro, então por que cobrou um valor tão alto?



O pai do Rav Paysach Krohn respondeu com um largo sorriso no rosto:



- Eu quis te deixar à vontade para que utilizasse tudo o que havia em casa. Se eu tivesse pedido um valor baixo, você acharia que pagou pouco e ficaria receoso em utilizar o telefone, a eletricidade e a comida. Mas ao pedir um valor alto, eu tive a certeza de que você usaria tudo o que precisava sem nenhum tipo de constrangimento.



Então, com lágrimas nos olhos, os dois se abraçaram e se despediram"  



Este é um exemplo do que a Torá exige em relação à forma como devemos fazer bondades, procurando entender realmente o que o outro necessita. Quando convidamos alguém em nossa casa, naturalmente a pessoa se sente inibida. Devemos fazer de tudo para que nossos convidados se sintam à vontade.



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O próximo Shabat coincide com a festa de Pessach, a época do ano em que revivemos a libertação da escravidão egípcia, depois de mais de dois séculos de sofrimentos, humilhações e trabalhos pesados. Na primeira noite (e fora de Israel também na segunda noite) reunimos nossas famílias e amigos e, com muita alegria, fazemos o Seder de Pessach, seguindo os 15 passos da Hagadá. Um dos passos centrais é o "Maguid", no qual lemos em voz alta os textos que recontam todos os detalhes da escravidão e a posterior salvação do povo judeu.



Começamos o "Maguid" com o texto "Ha Lachmá Aniá" (Este é o pão da pobreza). Neste texto nós convidamos todo aquele que tem fome, que venha e coma conosco, e todo aquele que necessita de um lugar para comer o Korban Pessach (sacrifício de Pessach), que venha e participe conosco. Em outras palavras, começamos o Seder de Pessach com um gesto muito bonito, convidando todos os pobres e necessitados a participarem das comemorações conosco.



Mas este convite traz consigo uma série de questionamentos. Em primeiro lugar, este convite é feito no local errado, pois quando o fazemos, já estamos na privacidade de nossas casas, onde nenhum pobre pode escutar. Por que não fazemos o convite em voz alta na sinagoga, anunciando a todos que nossa casa está aberta a qualquer um que queira participar? Além disso, o convite é feito no momento errado, apenas depois do Kidush, e aquele que não escutou o Kidush não pode participar da refeição. Se o intuito é receber convidados no momento do "Há Lachmá Aniá", por que o convite não é feito antes do Kidush? E finalmente, o Korban Pessach não precisava ser oferecido individualmente, ele podia ser oferecido por um grupo de pessoas. Durante o Seder, o Korban que havia sido oferecido era dividido entre todos os participantes do grupo, de forma que todos recebiam uma parte para comer. Mas a Halachá (lei judaica) ensina que se uma pessoa quisesse comer do Korban Pessach oferecido por certo grupo, ela já deveria fazer parte do grupo no momento em que o animal era sacrificado. Então por que convidar para comer do nosso Korban Pessach uma pessoa estranha, que não fazia parte do grupo no momento do sacrifício, já que ela não poderia, de acordo com a Halachá, comer deste Korban?



A explicação mais simples é que, na verdade, o convite é apenas simbólico. Existe uma Mitzvá chamada "Kimcha d'Pischa", que consiste em levantar fundos para que todo judeu possa ter um Seder de Pessach honrado, mesmo os mais carentes. Muitas pessoas e instituições participam desta importante Mitzvá, ajudando a recolher fundos e distribuí-los entres os necessitados. Todo judeu tem a obrigação de se preocupar com os outros judeus e participar desta importante Mitzvá. Quando finalmente chegamos ao Seder de Pessach, simbolicamente convidamos todos os necessitados, pois por termos ajudado os pobres a terem um Seder honrado, é considerado como se estivéssemos convidando-os para nossa própria mesa.



Mas segundo o Rav Yohanan Sweig, há uma explicação mais profunda. Ensina o Talmud (Baba Batra 98b) que não é correto um convidado trazer outro convidado. Este ensinamento é uma grande lição de "bons modos". Quando uma pessoa recebe um convite para comer em algum lugar, não pode trazer consigo um amigo sem a permissão do dono da casa. A única exceção a esta regra é se o convidado for alguém importante e honrado, e neste caso ele pode trazer outro convidado mesmo sem pedir permissão ao dono da casa.



Mas como este conceito se conecta com o "Ha Lachmá Aniá" da Hagadá? Explica o Rav Yohanan Zweig que o Seder de Pessach é a celebração da salvação do povo judeu e, por isso, esta noite deve ser muito especial para todos os judeus. Mas em geral, quem está passando o Seder como convidado em outra casa se sente um pouco inibido, não consegue se sentir totalmente à vontade. Para evitar este sentimento e incentivar que todos participem bastante nesta noite, começamos o Seder permitindo que os nossos convidados convidem outras pessoas. Assim, fazemos com que todos se sintam pessoas honradas, para que possam participar de maneira mais espontânea. Nesta noite cada judeu deve se sentir como se tivesse saído pessoalmente do Egito, e por isso é imprescindível que os convidados se sintam confortáveis, para que falem livremente e possam cumprir a Mitzvá de recontar a saída do Egito, como diz o versículo "E contarás ao seu filho neste dia" (Shemot 13:8). Portanto, o convite do "Ha Lachmá Aniá" é feito para os convidados já presentes, para que se sintam completamente à vontade, e não para os convidados que estão ausentes.



Daqui vemos a importância de deixar nossos convidados à vontade e fazer de tudo para evitar qualquer tipo de constrangimento. Nossos sábios levaram este ensinamento muito a sério e constantemente o aplicaram na prática. Por exemplo, o Rav Yom Tov Heller, mais conhecido como Tossafot Yom Tov, costumava derramar vinho na toalha limpa durante o Seder de Pessach, para que seus convidados, caso acidentalmente derramassem vinho, não se sentissem envergonhados.



A verdade é que não devemos utilizar este ensinamento apenas para o Seder de Pessach, devemos praticá-lo em todas as áreas de nossas vidas. Devemos desenvolver nossa sensibilidade em relação aos outros, sentir a necessidade do próximo, buscar fazer as bondades de forma completa, não apenas com os nossos convidados, mas com todos à nossa volta. Somente quando cada judeu realmente se preocupar com o próximo teremos o mérito de ver o cumprimento das últimas palavras da Hagadá: "No próximo ano em Jerusalém reconstruída". Que elas se cumpram, com a ajuda de D'us e a nossa contribuição, ainda este ano.



SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VE SAMEACH



R' Efraim Birbojm

quarta-feira, 28 de março de 2012

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ TZAV 5772

BS"D

PARA CIMA E PARA BAIXO AO MESMO TEMPO - PARASHÁ TZAV 5772 (30 de março de 2012)

"Um grupo de garotos estava reunido sob uma imensa árvore, admirando sua altura. Entre eles estava Shmuel, um garoto muito bonzinho e de coração puro. Um dos garotos teve a idéia de fazer uma competição para ver quem conseguia subir mais alto na árvore, e todos concordaram.

A competição começou e, um a um, os garotos tentavam subir, mas passada certa altura, eles caíam. Apenas Shmuel não desistiu. Com coragem e persistência ele foi subindo, pouco a pouco, até chegar ao topo da árvore, vencendo a competição.

A mãe de Shmuel, que estava acompanhando tudo sentada em um banco próximo à árvore, perguntou:

- Shmuel, por que todos os meninos caíram no meio, mas você conseguiu ir até o final?

Shmuel respondeu com um sorriso no rosto:

- Quando os outros meninos estavam tentando chegar ao topo, percebi que todos cometiam o mesmo erro. Quando eles estavam bem alto, olhavam para baixo e, vendo a altura que estavam, se apavoravam e caíam.

- Mas eu fiz diferente - continuou Shmuel - Eu olhei o tempo inteiro para cima. E como meus olhos estavam voltados sempre para cima, por mais alto que eu subisse, eu sentia que ainda estava baixo. Assim eu consegui reunir forças e tranquilidade para chegar até o topo da árvore"

Precisamos viver com a coragem de olhar sempre para cima, investindo no nosso crescimento. Aquele que olha só para baixo fica preso no chão e não consegue atingir o seu potencial. Mas aquele que olha para cima consegue chegar no topo.

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A Parashá desta semana, Tzav, começa com uma Mitzvá pouco convencional, chamada "Trumat HaDeshen". Em que consistia esta Mitzvá? Antes de começar os serviços matinais no Templo, o Cohen (sacerdote) precisava remover todas as cinzas que haviam sobrado das oferendas do dia anterior. Em outras palavras, o Cohen, que era alguém espiritualmente muito elevado, precisava fazer uma faxina, algo aparentemente degradante para sua posição de líder espiritual. Por que uma Mitzva tão "baixa" para alguém tão elevado?

Explica o Kli Yakar, comentarista da Torá, que as cinzas serviam para recordar o Cohen de Avraham Avinu, que reconheceu que o ser humano veio do pó e das cinzas, como ele falou para D'us: "Sou apenas pó e cinzas" (Bereshit 18:27). Isto significa que, justamente pelo Cohen ser alguém tão elevado, era importante que ele colocasse humildade em seu coração, refletindo que o ser humano, no fim das contas, não é nada.

Além deste ensinamento da nossa Parashá, existem na Torá diversas fontes que ressaltam a natureza baixa do ser humano. Por exemplo, o Pirkei Avót diz: "Saiba de onde você veio e para onde você vai... De onde você veio? De uma gota pútrida. E para onde você vai? Para um lugar de pó, vermes e larvas" (Avót 3:1). Há outro Pirkei Avót que ressalta a mesma idéia: "Seja muito, muito baixo de espírito, porque a esperança do ser humano são as larvas" (Avót 4:4).

Vemos, através destas diversas fontes, que o ser humano precisa constantemente se rebaixar e se sentir como se fosse um nada, o pó da terra. Mas há neste conceito uma aparente contradição, pois há diversos ensinamentos que, ao contrário, ressaltam justamente a grandeza inerente do ser humano, como diz o Talmud: "Aquele que salva uma vida, a Torá considera como se tivesse salvado o mundo inteiro" (Sanhedrin 37a). O próprio Pirkei Avót, que ressaltou o lado baixo do ser humano, também ensina o seu lado de grandeza: "O ser humano é precioso, pois ele foi criado à imagem de D'us" (Avót 3:18). O que significa esta contradição? Afinal, o ser humano é uma criatura elevada e preciosa ou uma criação de natureza baixa e desprezível?

Explica o Rav Yehonatan Gefen que não há nenhuma contradição. Os diferentes ensinamentos dos nossos sábios são, na realidade, dois enfoques diferentes sobre o ser humano. Um tipo de ensinamento enfoca a parte material, enquanto o outro enfoca a parte espiritual. Quando nossos sábios ressaltam a natureza baixa do ser humano, se referem ao corpo, aos desejos materiais, que são passageiros. Quando ressaltam a grandeza do ser humano, se referem à nossa alma, de grandeza infinita, uma parte de D'us que temos dentro de cada um de nós.

Mas por nossos sábios escreveram estes ensinamentos de maneira a nos dar a impressão de que existe uma contradição? Pois devemos constantemente utilizar estes dois enfoques juntos no nosso trabalho espiritual. Como fazer isso? Lembrando-se sempre que temos, por um lado, um gigantesco potencial espiritual, mas que por outro lado nossa passagem pelo mundo material é limitada, pois do pó viemos e ao pó voltaremos, e toda nossa oportunidade de crescimento deve ser atingida durante nossa vida limitada. Portanto, devemos aproveitar cada segundo para preencher nosso potencial enquanto ainda temos tempo. 

Outro motivo pelo qual nossos sábios trazem os dois lados do ser humano é para nos ensinar que precisamos viver com equilíbrio, pois se focarmos em apenas um deles, é muito fácil desviar do caminho correto. Por exemplo, sem a lembrança de que somos apenas pó e cinzas, podemos nos tornar arrogantes. Mas o outro lado é ainda mais perigoso. Sem a consciência de que somos seres elevados, criados à imagem e semelhança de D'us, uma pessoa pode tornar-se depressiva e deixar de dar valor à sua própria essência. É um dos motivos pelo qual vemos cada vez mais pessoas tristes e sem motivação na vida.

Outro efeito negativo de esquecer nosso lado espiritual elevado é a pessoa se conectar aos desejos materiais com tanta intensidade que passa a se comportar como um animal, completamente controlada por suas vontades.

Portanto, podemos perceber que estes dois enfoques, de que temos um lado baixo e um lado elevado, devem ser usados juntos em várias áreas da vida. Mas infelizmente na área de educação das crianças, uma das mais importantes na formação de pessoas equilibradas e felizes, acabamos negligenciando este conceito e focando muito mais no lado negativo do que no lado positivo. Por exemplo, quando os pais e educadores veem uma criança fazendo algo errado, dão uma enorme bronca, focando apenas no erro e questionando as qualidades da criança, destruindo assim seus pilares de auto-estima. A criança se sente um verdadeiro Rashá (malvado) após ter cometido uma pequena transgressão, e pode levar este trauma para toda sua vida, destruindo seu potencial.

Como é a forma correta de repreender uma criança que fez algo errada? Conta o Rav Avraham Twersky que seu pai era um grande modelo de educador. Quando o Rav Twersky era pequeno e fazia algo errado, seu pai o repreendia, mas com um tom calmo e utilizando as seguintes palavras em Yidish: "Ess Past Nisht" (isto não lhe fica bem). O que ele transmitia ao filho com estas palavras? Que aquela transgressão, algo baixo, não combinava com o seu caráter elevado. A sua alma era simplesmente muito preciosa para ser exposta ao risco de se sujar ou se estragar. Isto transmitia para o filho o quanto seu erro, motivado pelos desejos do corpo, era feio. Mas ao mesmo tempo não o deixava esquecer de sua grandeza espiritual.

Portanto, o equilíbrio ideal é o que descreve o Talmud: "Sempre a mão esquerda deve afastar e a mão direita deve aproximar" (Sotá 47a). A mão esquerda representa o julgamento estrito, enquanto a mão direita representa a bondade. Mesmo quando tivermos que dar uma bronca em alguém, a parcela negativa da bronca deve ser sempre menor do que a parcela positiva. Muitos utilizam na prática este ensinamento através da "crítica sanduíche", isto é, sempre uma bronca deve ser precedida por um elogio e deve ser terminada com outro elogio. Assim, a pessoa sente que a bronca foi dada por amor e não sente seu ego ferido. Alcançamos assim nosso objetivo de ajudar a corrigir o erro do próximo e contribuir para construir uma pessoa melhor, sem precisar demolir tudo antes.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

quarta-feira, 21 de março de 2012

SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ VAYIKRÁ 5772


BS"D



VOCÊ E SUAS PARTES - PARASHÁ VAYIKRÁ 5772 (23 de março de 2012)



"Na época da destruição do Primeiro Beit Hamikdash (Templo Sagrado), D'us instruiu um de seus anjos que fosse a Jerusalém e pintasse a letra "Taf" em sangue na testa de todos os Reshaim (malvados), significando que eles estavam marcados para a morte. Já em relação aos Tzadikim (justos), D'us instruiu o anjo que pintasse em suas testas a letra "Taf" em tinta, indicando que eles seriam poupados da destruição. Então o Atributo da Justiça apresentou-se diante de D'us e questionou:



- Por que os Tzadikim serão poupados da destruição?



- Pois eles cumprem a Minha vontade e andam nos Meus caminhos – respondeu D'us.



- Mas D'us – contestou o Atributo da Justiça – eles convivem com os Reshaim e nada fazem para que eles abandonem as transgressões e voltem aos caminhos corretos! Eles não protestam e nem os criticam.



- Você está certo – explicou D'us – Mas Eu sei que são pessoas tão malvadas que, mesmo se os Tzadikim dessem grandes broncas nos Reshaim e os tentassem trazê-los de volta, não teriam sucesso.



- Você sabe, D'us, pois Seus conhecimentos são infinitos – argumentou o Atributo da Justiça – mas eles não sabiam que se dessem broncas elas seriam ignoradas e cairiam em ouvidos fechados. E mesmo assim não tentaram fazer nada pelos Reshaim.



Aos escutar aquele argumento, D'us foi obrigado a aceitar a acusação do Atributo da Justiça. Imediatamente mandou que o anjo descesse para Jerusalém e marcasse todas as pessoas com o "Taf" em sangue, inclusive os Tzadikim, que nada fizeram pelos Reshaim" (Talmud Shabat 55a)



Há um famoso Midrash (parte da Torá Oral) que compara o povo judeu a um cordeiro. Qual a conexão? Se o cordeiro é atingido em uma parte do corpo, todos os outros órgãos também sentem a pancada e a dor se espalha por todo o corpo. Assim também ocorre espiritualmente com o povo judeu: quando um comete uma transgressão, o povo inteiro sente. Todos os judeus são parte de uma unidade, tanto para o bem, dividindo os méritos conquistados, quanto para o mal, pagando juntos pelas transgressões cometidas.



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Nesta semana começamos o terceiro livro da Torá, Vayikrá. E na Parashá da semana, Vayikrá, a Torá descreve diversos tipos de Korbanót (sacrifícios) que eram oferecidos pelo povo judeu para D'us. Um dos Korbanót chamava-se "Korban Chatat" e era trazido por uma pessoa que havia cometido certos tipos de transgressão. O propósito deste Korban era justamente expiar a pessoa pelo pecado que ela havia cometido.



A Parashá começa com uma regra geral sobre os Korbanót: "Quando um homem dentre vocês oferecer um Korban para D'us, do animal, do gado e do rebanho oferecerá os Korbanót deles" (Vayikrá 1:2). Mas há algo estranho neste versículo, pois ele começa no singular, falando de uma pessoa que oferece um sacrifício para D'us, mas termina no plural, falando de sacrifícios de várias pessoas. O que mudou entre o começo e o final do versículo?



Uma das grandes dificuldades que temos para entender conceitos espirituais é o fato de vivermos em uma sociedade guiada apenas por valores materiais e imediatistas. Quando nos aprofundamos nos ensinamentos da Torá, descobrimos que fomos enganados a vida inteira na nossa forma de ver o mundo. Por exemplo, crescemos com a certeza de que somos seres individuais, desconectados das outras pessoas. E com este pensamento nos tornamos individualistas e competimos contra todos, com todas as nossas forças, para alcançar nossos objetivos. Cada vez mais as empresas, em busca de produtividade e lucro, procuram formas de criar ambientes mais competitivos, resultando em verdadeiras "selvas" dentro dos escritórios, com um tentando engolir o outro em busca de sucesso. Não é suficiente apenas subir para chegar ao topo, também é necessário derrubar a pessoa ao lado.



Já o judaísmo ensina que a idéia de que somos seres individuais é uma grande enganação. Diz o Midrash (parte da Torá Oral) que "todo judeu é fiador dos outros judeus". O que isto significa?



Quando uma pessoa pede dinheiro emprestado, o credor exige sempre uma garantia de que o empréstimo será pago. Uma das maneiras de garantir a devolução do dinheiro é incluir na transação um fiador, isto é, alguém que se responsabiliza pelo devedor. No caso do devedor não pagar a dívida na data combinada, é o fiador que precisa pagar.



O que ocorre quando alguém comete uma transgressão? Ele mancha sua alma. E enquanto a alma estiver suja e manchada, não é possível entrar nos mundos espirituais mais elevados. Portanto, a pessoa precisa limpar sua alma caso ela cometa uma transgressão. Os Korbanót eram uma maneira de expiar pelo pecado e limpar a alma. Atualmente não temos mais os Korbanót, mas ainda podemos limpar nossa alma através do arrependimento sincero. Outra maneira é através dos sofrimentos, tanto sofrimentos físicos neste mundo quanto sofrimentos espirituais depois que sairmos deste mundo. Teoricamente cada um precisaria limpar apenas suas próprias transgressões, mas não é tão simples assim.



Explica o livro Tomer Dvora, do Rav Moshe Cordovero, que todos os judeus estão espiritualmente conectados. Isto significa que dentro da alma de cada pessoa há uma parte da alma de cada judeu do mundo. Portanto, quando cometemos uma transgressão, não apenas manchamos nossa própria alma, mas também parte da alma de todos os judeus. E a parte que nós temos dentro dos outros também é manchada quando alguém comete uma transgressão. Esta nossa parte que está dentro dos outros e se manchou também precisa de expiação. Neste sentido, todo judeu é fiador dos outros judeus, pois a "conta" será dividida entre todos.



Portanto, esta é a explicação da mudança de linguagem utilizada no versículo, que começa no singular e termina no plural. Toda vez que uma pessoa trazia um Korban para expiação de seus pecados, não apenas para si mesma ela trazia, mas para expiação de todo o povo judeu, que havia "participado" com ela em sua transgressão.



Este conceito pode ser extrapolado para outras áreas da vida. Muitas vezes vemos uma pessoa que está feliz por alguma conquista e não sentimos nenhuma alegria por ela. Outras vezes vemos pessoas passando por difíceis sofrimentos e não nos solidarizamos. Isto ocorre por não entendermos que estamos todos conectados e, portanto, as alegrias dos outros são nossas próprias alegrias e as tristezas dos outros são as nossas próprias tristezas. Também devemos nos preocupar com o bem estar das outras pessoas e que todos do povo judeu conheçam um pouco mais da Torá e das Mitzvót. Não adianta apenas nós mesmos conhecermos e andarmos no caminho correto, pois enquanto houver um único judeu afastado da espiritualidade, a "conta" será dividida entre todos.



Esta é a explicação mais profunda da Mitzvá de "Ame ao próximo como a ti mesmo", pois, da mesma forma que nos amamos e cuidamos de nós mesmos, devemos amar e cuidar da parte da nossa própria alma que está dentro de todos os outros judeus do mundo. Se não cuidarmos, na hora do acerto de contas espiritual descobriremos que nosso débito é bem maior do que imaginamos. Por isso, faça sua parte.



SHABAT SHALOM



R' Efraim Birbojm

quinta-feira, 15 de março de 2012

SHABAT SHALOM M@IL - PARASHIÓT VAYAKEL E PEKUDEI 5772

BS"D

 

DÊ O EXEMPLO – PARASHIÓT VAYAKEL E PEKUDEI 5772 (16 de março de 2012)

 

"Paulo, torcedor fanático de futebol, levava seus dois filhos para o jogo do seu time do coração. Na bilheteria, perguntou o preço do ingresso.

 

- Acima de 12 anos o ingresso é R$ 20,00. Entre 7 e 12 anos o ingresso custa R$ 10,00. Até 6 anos a entrada é gratuita -  informou o rapaz da bilheteria.

 

O rapaz viu os dois garotos, pareciam pequenos. Perguntou a idade deles, com a certeza de que o pai responderia que os dois tinham menos de 6 anos. Mas, para sua surpresa, Paulo respondeu:

 

- Um deles tem quatro e o outro tem sete anos.

 

- O senhor poderia ter dito que o mais velho tem só 6 anos - disse o rapaz da bilheteria - Ele é pequeno, eu não desconfiaria. Assim você teria economizado 10 reais.

 

Paulo abriu um sorriso e respondeu:

 

- Você talvez nunca ficaria sabendo a idade verdadeira, mas meus filhos com certeza sabem. E o mau exemplo ficaria gravado na cabeça deles para sempre. Eu ganharia 10 reais, mas perderia muito mais. Perderia a incrível oportunidade de ensinar a importância da honestidade para os meus filhos"

 

Reclamamos da desonestidade dos políticos e dirigentes. Abominamos as notícias de desvios de dinheiro e corrupção. Mas será que somos honestos nos nossos atos cotidianos? Que exemplo passamos aos nossos filhos quando fazemos nossos pequenos atos de "malandragem"?

 

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Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Vayakel e Pekudei, terminando o segundo livro da Torá, Shemót. Enquanto as Parashiót Terumá e Tetzavê descreveram com detalhes todas as ordens de D'us de como deveria ser a construção do Mishkan (Templo Móvel), isto é, as instruções teóricas, nas Parashiót lidas nesta semana são descritos todos os detalhes da execução do Mishkan na prática.

 

O Mishkan foi construído com materiais nobres, como ouro, prata e pedras preciosas. De onde vieram todos estes materiais? Foram doados pelo povo judeu. Apesar de serem materiais muito caros, os judeus não mediram esforços e, com enorme boa vontade, doaram todos os materiais necessários.

 

Na verdade, a generosidade do povo judeu foi tão grande que Moshé, avisado pelos artesãos responsáveis pela construção do Mishkan, pediu para que o povo parasse de doar, já que a quantidade necessária de materiais havia sido atingida. Após o anúncio de Moshé, a Torá traz um versículo interessante: "E o trabalho (de doação do povo) era suficiente para todo o trabalho, para fazê-lo. E sobrou" (Shemot 36:7). Este versículo desperta duas grandes perguntas. Em primeiro lugar, há uma enorme contradição, pois se o versículo diz que havia suficiente, por que logo depois diz que sobrou? Além disso, o que foi feito com estas sobras?

 

Os materiais doados foram utilizados em todas as partes do Mishkan. Na estrutura, nos utensílios, nos tecidos e nas roupas dos Cohanim (sacerdotes). Mas o maior desejo das pessoas era que sua doação fosse utilizada na construção do Aron Hakodesh (Arca Sagrada), utensílio que continha as tábuas dos 10 mandamentos e o Sefer Torá escrito pessoalmente por Moshé Rabeinu. Este utensílio era tão importante que ficava no "Kodesh Hakodashim", o lugar mais sagrado dentro do Mishkan, onde apenas o Cohen Gadol (Sumo sacerdote) podia entrar, e somente em Yom Kipur, o dia mais sagrado do ano. Moshé começou a se preocupar com os doadores dos materiais que, ao passarem pelo Mishkan, pensariam: "com o meu ouro foi feito o Aron Hakodesh", o que causaria neles um sentimento de Gaavá (orgulho).

 

Mas será que Moshé realmente precisava se preocupar? E se o povo sentisse Gaavá, qual o problema? Ensina o livro Orchot Tzadikim (Psicologia dos Justos) que a Gaavá é considerada por D'us uma abominação. A pessoa orgulhosa se sente melhor que os outros e acaba achando que não precisa nem mesmo de D'us. E assim D'us diz sobre os orgulhosos: "Eu e ele não podemos viver no mesmo mundo". Portanto, se as pessoas que doaram os materiais para o Mishkan sentissem Gaavá, isto seria uma grande contradição com o propósito de sua construção. O Mishkan era uma morada para D'us, isto é, uma maneira de trazer a presença Divina para o mundo material, e definitivamente as pessoas orgulhosas e a presença de D'us são duas coisas que não combinam.

 

Moshé não ficou de braços cruzados vendo o povo judeu transgredir. O que ele fez para ajudar o povo a não sentir Gaavá? Ele propositalmente pediu que as pessoas doassem um pouco a mais de material do que era necessário para a construção. O que sobrou foi empilhado e deixado em um local bem visível, onde todos que passavam pelo Mishkan podiam enxergar. Por que? Para que, quando vissem, pensassem que era sua doação que não havia sido aceita por D'us. Isto "derrubava" o coração da pessoa, pois ela imaginava que D'us estava descontente por alguma transgressão que ela havia cometido. A consequência é que a pessoa se arrependia de todas as suas transgressões e colocava humildade em seu coração, fugindo da terrível característica de Gaavá.

 

Quando pensamos nas características de um líder, infelizmente as primeiras idéias que vêem à nossa cabeça são corrupção, desejo pelo poder e interesses próprios. Parece que o normal é um líder não se importar de verdade com o seu povo. Mas a Torá nos deu um presente: um modelo de um líder verdadeiro, que nos ensinou, não apenas com suas palavras, mas principalmente com seus atos, quais características um verdadeiro líder deve possuir.

 

Em primeiro lugar, o que nos chama a atenção é a honestidade de Moshé. Assim diz o versículo sobre a doação dos materiais nobres: "E pegaram da frente de Moshé toda a doação que trouxeram os Filhos de Israel" (Shemot 36:3). O que significa "da frente de Moshé"? As pessoas traziam suas doações para a tenda de Moshé e de lá eram levadas para o local da construção do Mishkan. Se Moshé quisesse ser desonesto, poderia pegar o que quisesse para si mesmo, pois estava tudo na porta de sua casa. E ele poderia pegar sem peso na consciência, bastava convencer a si mesmo que merecia enriquecer por todo seu esforço em prol do povo judeu.

 

Mas Moshé venceu qualquer tipo de tentação. Além de não pegar absolutamente nada para si mesmo, Ele ainda avisou quando as doações já estavam suficientes, para que as pessoas parassem de doar. E a Torá ainda ressalta que Moshé, apesar de estar acima de qualquer suspeita, fez questão de prestar contas de todos os gastos, mostrando que tudo o que foi doado foi devidamente utilizado na construção do Mishkan, como está escrito "Estas são as contas do Mishkan..." (Shemot 38:21).

 

Em segundo lugar, nos impressiona a preocupação verdadeira de Moshé com o povo. Se as pessoas iriam sentir Gaavá, o que ele perderia com isso? Nada. Porém, ele se preocupou com o povo e fez de tudo para afastá-los das transgressões. Isto demonstra o grande amor de Moshé pelo povo judeu e a responsabilidade que ele sentia de ser, antes de tudo, um grande professor e educador do povo. Sua preocupação com o bem estar das pessoas era verdadeira e sincera, como deve ser a de um líder de verdade.

 

Na realidade estes ensinamentos não são apenas para os líderes. A honestidade e a preocupação com o próximo devem ser as bases de todo ser humano. Julgamos os políticos desonestos e interesseiros, mas se estivéssemos lá, será que faríamos diferente? Como nos comportamos nos pequenos testes do cotidiano? Quando recebemos troco a mais no banco, quando estamos presos no congestionamento e vemos o acostamento completamente livre, quando temos a oportunidade de falar pequenas mentiras para ganhar um pouco mais de dinheiro, como reagimos? São estes os momentos nos quais podemos verificar se somos realmente tão honestos como pensamos ou se há ainda um grande trabalho pela frente.

 

SHABAT SHALOM

 

R' Efraim Birbojm

 

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