Nesta semana lemos a Parashat Emor (literalmente “Diga”), que traz diversos assuntos importantes, tais como a santidade e as responsabilidades especiais dos Cohanim e do Cohen Gadol, além de algumas leis sobre os Korbanót, Chaguim, acendimento da Menorá e os Lechem HaPanim, pães que ficavam a semana toda sobre a Shulchan de ouro no Mishkan e eram posteriormente substituídos por pães novos.
Há algo que chama a atenção na nossa Parashá. No meio da descrição dos Chaguim que comemoramos ao longo do ano, a Torá introduz um assunto aparentemente fora de contexto: a obrigação de deixar “Peá” e “Léket” para os necessitados, como está escrito: “Quando fizerem a colheita de sua terra, não colherá completamente os cantos de seu campo, nem recolherá as espigas caídas de sua colheita; para o pobre e para o estrangeiro as deixará. Eu sou Hashem, seu D’us” (Vayikrá 23:22). Mas por que a Torá interrompeu o assunto dos Chaguim para falar destes presentes aos pobres e necessitados? Além disso, por que o versículo termina com as palavras “Eu sou Hashem, seu D’us”?
Nos Chaguim o povo judeu oferecia, tanto individualmente quanto coletivamente, diversos Korbanót especiais no Beit Hamikdash, como o Korban Mussaf, coletivo, e o Korban Chaguigá, individual. Rashi explica que aquele que deixa o Leket, Shichechá e Peá para os pobres, cumprindo a Mitzvá da maneira como deve ser, é considerado como se tivesse reconstruído o Beit HaMikdash e oferecido nele os seus Korbanót. Isso demonstra o quão querido é para D’us ajudar os pobres.
Estas são Mitzvót associadas aos campos da terra de Israel. O proprietário deveria deixar uma parte de sua produção para os pobres e para os estrangeiros, pessoas com mais dificuldades de conseguir seu sustento. Leket, Shichechá e Peá são três presentes que a Torá ordenou ao agricultor deixar para os necessitados. Leket são as espigas que caem durante a colheita e não podem mais ser recolhidas pelo proprietário; Shichechá são os feixes que o agricultor esquece no campo no momento em que reúne sua colheita. Ao lembrar-se, não deve voltar novamente para recolher, pois já não lhe pertence mais. Peá é a extremidade do campo, que deve ser deixada sem ser colhida para que os pobres possam entrar e recolhê-la. Através destas Mitzvót a Torá nos ensina a desenvolvermos a nossa sensibilidade, a sentirmos a dificuldade do próximo e a desenvolvermos nossa misericórdia. Os feixes esquecidos, as espigas que caem durante a colheita e os cantos do campo pertencem aos necessitados.
Inclusive, este conceito nos conecta com a próxima Festa do Calendário judaico, a Festa de Shavuot, na qual lemos a “Meguilat Ruth”, a descrição da vida de Ruth, uma princesa de Moav que se converteu ao judaísmo, se casou com um grande Tzadik chamado Boaz e se tornou a bisavó de David Hamelech. Quando Ruth e sua sogra Naomi voltaram de Moav para Eretz Israel, elas estavam desamparadas e sem recursos, não tinham nem mesmo o que comer. Ruth, que era muito bondosa, se prontificou a ir atrás de comida para alimentar também sua sogra. Como Ruth conheceu Boaz, união da qual futuramente descenderá o Mashiach? Justamente nos campos de Boaz, onde Ruth foi recolher Leket, Shichechá e Peá, os presentes que a Torá reservou aos necessitados.
Mas há um detalhe muito interessante. Rashi comenta que as palavras do versículo “as deixará” nos ensinam que devemos deixar que os próprios necessitados recolham a colheita. Isso significa que o dono do campo não tem a permissão de ajudá-los. À primeira vista, isso parece surpreendente. Qualquer pessoa diria que o proprietário deveria ajudar os pobres, oferecendo ferramentas ou até mesmo recolhendo as espigas de trigo para eles. Afinal, isso pareceria mais bondoso do que deixar que eles façam a colheita sozinhos. Mas a Torá diz exatamente o contrário e nos ordena a não ajudá-los. Por quê?
Em primeiro lugar, a Torá está nos ensinando um importante fundamento psicológico. Quando um pobre recebe uma doação sem ter se esforçado nada, a doação vem com um gosto amargo, acompanhada de um sentimento de vergonha. Normalmente a pessoa tem muito mais prazer ao usufruir de algo pelo qual se esforçou. Assim nos ensina o Talmud (Baba Metsia 38a): “A pessoa prefere um Kav (medida de volume) dele do que nove Kabim do seu companheiro”. Fazer esforço com as próprias mãos traz dignidade para a pessoa e faz com que ela dê valor para as coisas que recebe. O valor pode ser o mesmo, mas ele vem com honra, não com vergonha.
Explica o Rav Yssocher Frand que a Torá ter ordenado que o pobre faça sozinho o seu esforço traz outro benefício. Quando o proprietário se apressa em ajudar o pobre, ele pode, ainda que inconscientemente, transmitir a seguinte mensagem: “Veja, eu estou lhe dando um presente”. Mas isso não é verdade! Leket, Shichechá e Peá não são presentes do proprietário aos necessitados. Desde o momento em que caem ou são deixados no campo, já pertencem ao pobre. O dono do campo não está doando nada, ele está apenas reconhecendo que aquilo nunca foi realmente seu. Se ele participar da coleta, estará agindo como se fosse o proprietário daqueles bens, e o necessitado pode sentir-se em dívida, como se estivesse recebendo um favor pessoal. A Torá quer exatamente o oposto. Por isso a Torá enfatiza: “Deixa-os para eles”, isto é, permita que eles recolham sozinhos, com dignidade, sem constrangimento e sem a sensação de dependência.
Essa mensagem não é apenas para o necessitado, mas também para o dono do campo. A Torá está nos ensinando que aquele trigo não vem da mão do proprietário, ele vem diretamente da mão de D’us. A pessoa não deve sentir nenhum tipo de orgulho por estar doando, como se tivesse feito um ato grandioso. Ele deve doar com humildade, com a certeza de que foi D’us quem lhe concedeu a oportunidade de praticar bondade com os necessitados. Por isso o versículo conclui: “Eu sou Hashem, seu D’us”. Rashi explica que é como se D’us estivesse dizendo ao dono do campo: “Se você deixar os necessitados recolherem por si mesmos, Eu sou o D’us fiel que vou te recompensar”. D’us quer que o agricultor lembre que Ele é o verdadeiro dono de tudo, e da mesma forma que deu ao dono do campo sua colheita, foi Ele que também deu uma parte aos necessitados.
Essa lição não é apenas sobre Leket, Shichechá e Peá. É uma lição sobre toda a Tzedaká e o Chessed que fazemos com os outros. Quando ajudamos alguém, não devemos pensar: “Estou dando do meu dinheiro”. Na realidade, D’us nos nomeou administradores de recursos que, em última instância, pertencem a Ele. É como o bancário, em cujas mãos passam milhares de reais todos os dias, mas nada daquele dinheiro é realmente dele. Somos como pessoas responsáveis por um fundo beneficente. O dinheiro não é nosso, fomos encarregados apenas de distribuí-lo corretamente.
Essa perspectiva transforma completamente a Mitsvá de Tsedaká. Não somos benfeitores magnânimos, somos apenas mensageiros, intermediários do Criador do mundo. O pobre não está recebendo alimentos da nossa mesa, e sim, da mesa de D’us. Não há por que sentir orgulho pelo nosso desprendimento e muito menos esperar algo em troca dos pobres.
O agricultor, ao deixar Leket, Shichechá e Peá, não está fazendo um favor ao pobre. Aquela porção da colheita nunca lhe pertenceu por completo. D’us apenas a colocou sob seus cuidados, para que chegasse ao destinatário correto. Somos administradores, não proprietários absolutos. E talvez essa seja a verdadeira definição de riqueza: não aquilo que está em nossas contas bancárias, mas aquilo que, através da caridade, já enviamos para a eternidade. SHABAT SHALOM R’ Efraim Birbojm |