sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

NÃO CUSTA NADA SONHAR - SHABAT SHAOM M@IL - PARASHAT TERUMÁ 5786

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PARASHAT TERUMÁ 5786



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ASSUNTOS DA PARASHAT TERUMÁ
  • Doações para a construção do Mishkan.
  • Aron Hakodesh e a Kaporet.
  • Shulchan.
  • Menorá.
  • 3 coberturas do Ohel Moed.
  • Tábuas (estrutura do Ohel Moed).
  • Parochet e Tela de entrada.
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NÃO CUSTA NADA SONHAR - PARASHAT TERUMÁ 5786 (20/fev/26)

"Kalman Samuels nasceu no Canadá e, ainda jovem, aproximou-se muito do judaísmo observante. Inspirado pelo ideal de construir uma vida dedicada à Torá, mudou-se para Israel e estabeleceu-se em Jerusalém. Ali formou família e iniciou uma vida simples, sustentada pelo estudo da Torá, idealismo e Emuná.
 
Porém, sua vida simples foi sacudida por um grave acontecimento. Pouco depois do nascimento de seu filho Yossi, um episódio transformou sua existência. O bebê recebeu a vacina tríplice (DTP), então aplicada rotineiramente. Entretanto, por algum motivo, o bebê desenvolveu uma reação neurológica grave. O quadro evoluiu para danos cerebrais severos, que deixaram Yossi cego, surdo e com comprometimento motor profundo. O impacto foi devastador. O jovem pai, que havia estruturado sua vida sobre convicções espirituais firmes, viu-se confrontado com um sofrimento inexplicável e permanente. Ele enfrentou um período intenso de crise espiritual. Não foi uma história romantizada de Emuná imediata, mas uma luta interior real. Ele passou por momentos de raiva, frustração e questionamentos profundos. Durante esse processo, tomou uma decisão que marcaria o rumo de sua vida: se conseguisse manter sua Emuná, dedicaria seus esforços para ajudar outras crianças com deficiência e suas famílias.
 
Nos anos seguintes, enquanto cuidava do próprio filho, algo que exigia atenção constante e cuidados complexos, Kalman começou a perceber algo adicional: além das dificuldades médicas, havia um enorme vazio social. Famílias com filhos deficientes em Israel enfrentavam isolamento, falta de serviços adequados e pouca inclusão. Muitas mães não tinham sequer algumas horas de descanso no dia. Havia escassez de programas estruturados que oferecessem terapias, suporte educacional e apoio emocional integrado. Uma visão então começou a se formar em sua cabeça: criar uma estrutura que não fosse apenas clínica, mas humana; que por um lado oferecesse tratamento profissional, mas também dignidade, inclusão e alegria. Assim nascia, em 1990, a organização "Shalva" (Israel Association for the Care and Inclusion of Persons with Disabilities), em Jerusalém. No início, funcionava de maneira extremamente modesta. Os recursos eram limitados, a equipe era pequena e a credibilidade ainda precisava ser construída. Samuels não vinha do mundo da gestão institucional e nem da filantropia internacional. Ele teve que aprender tudo, como captação de recursos, administração, relacionamento com doadores e articulação com autoridades públicas. Ele passou anos viajando, apresentando a visão da organização, contando a história de Yossi e explicando a necessidade urgente de um centro abrangente em Israel.
 
Sua causa não era muito popular no início. Deficiência ainda era um tema socialmente invisível. Convencer doadores exigia perseverança contínua. Mas, com o tempo, a estrutura foi crescendo. Programas terapêuticos foram ampliados. Serviços de reabilitação, apoio educacional, atividades recreativas e programas noturnos para aliviar a carga das famílias foram implementados. A organização passou a atender crianças de todos os setores da sociedade israelense, tanto religiosos quanto seculares, judeus e não judeus.
 
Décadas depois, essa visão culminou na construção do Shalva National Center em Jerusalém, um complexo de última geração, inaugurado em 2016, com dezenas de milhares de metros quadrados dedicados a terapias, educação, inclusão social e apoio familiar. O centro tornou-se referência internacional em atendimento multidisciplinar a pessoas com deficiência, e hoje atende milhares de famílias."
 

O aspecto mais notável da trajetória de Kalman Samuels não é o sucesso institucional, mas sua visão original, de transformar sofrimento pessoal em bondade coletiva. Ele construiu um modelo sustentável de inclusão social, com excelência profissional e respeito à dignidade humana. A organização nunca foi um projeto abstrato, pois foi construída a partir da experiência concreta de um pai diante da vulnerabilidade do próprio filho.

Nesta semana lemos a Parashát Terumá (literalmente "Porção"), que traz as instruções de D`us para Moshé sobre a construção do Mishkan, o Templo Móvel, tanto em relação à sua estrutura quanto aos seus utensílios sagrados. A Parashat descreve todos os detalhes construtivos e ressalta a utilização de materiais preciosos, resultando em uma construção magnífica.
 
Um dos utensílios sagrados mais impressionantes era a Menorá. Ela era composta de uma estrutura central e seis braços, com sete lamparinas no seu topo. Além de ser feita de uma única peça de ouro, que precisa ser martelada até atingir o formato desejado, ela também tinha muitos enfeites, em formato de botão, cálice e flor. No final da descrição da Menorá, o versículo diz: "E veja, e faça segundo o padrão que te foi mostrado no Monte" (Shemot 25:40). O Rav Yaacov ben Asher zt"l (Alemanha, 1269 - Espanha, 1343), mais conhecido como Baal HaTurim, faz um comentário enigmático sobre esse versículo. Ele diz que existem apenas três vezes em todo o Tanach em que um versículo começa com a palavra "Ureê" (E veja). As outras duas ocorrências estão no livro de Tehilim: "E veja filhos (nascidos) aos teus filhos, paz sobre Israel" (128:6) e "E veja se há em mim algum caminho mau; e guia-me pelo caminho da eternidade" (139:24). O Baal HaTurim explica que isso obviamente não é uma coincidência. Então qual é a conexão entre os três versículos?
 
Rashi (França, 1040 - França, 1105), quando comenta sobre o comando de construção da Menorá, explica que Moshé entendeu como construir todos os detalhes do Mishkan e de seus utensílios. Porém, a descrição da Menorá e todos os seus detalhes era tão complexa que Moshé ficou confuso. Para ajudar, D'us então lhe mostrou um modelo de fogo de como a Menorá deveria ser construída. No entanto, isso não foi suficiente, pois mesmo depois que Moshé viu a imagem da Menorá, ainda assim ele ainda não conseguiu construí-la. Finalmente, D'us instruiu Moshé a fazer com que Betzalel jogasse o ouro no fogo, e a Menorá milagrosamente se criou sozinha.
 
A pergunta que surge deste ensinamento é: D'us conhecia as capacidades de Moshé. Ele sabia, portanto, que no fim das contas, Moshé não seria capaz de construir a Menorá sozinho. Então por que D'us lhe pediu para fazer algo que ele não podia fazer? E, além disso, por que lhe mostrou uma visão da Menorá de fogo, se sabia que mesmo isso não seria suficiente para ajudá-lo a realizar sua missão de construir a Menorá?
 
O Rav Yssocher Frand shlita responde que era importante para Moshé ver o formato da Menorá, mesmo que ele não pudesse reproduzi-la, pois a pessoa precisa ter uma visão do que é requerido e esperado dela. Se não tem a visão, não se pode sequer começar. Ele traz esse conceito para a nossa realidade: a pessoa deve ter um sonho, mesmo que esse sonho não possa ser realizado. O mínimo necessário é a percepção de uma direção e de um objetivo na vida. A imagem inicial que D'us mostrou a Moshé foi a visão da Menorá. Moshé então estava ao menos ciente do "sonho", isto é, do objetivo final. Se mais tarde Moshé não pudesse construir a Menorá, então D'us o ajudaria, mas pelo menos Moshé sabia o que estava tentando alcançar.
 
De acordo com o livro Tomer Dvorá, tudo o que acontece no mundo depende de D'us. Uma pessoa não consegue nem mesmo levantar um dedo se D'us não estiver naquele momento fornecendo energia vital para ela. Existem algumas forças que D'us colocou na nossa natureza, que nos possibilita alcançar certos objetivos. Porém, existem muitas coisas na vida que estão além das nossas capacidades naturais e, nestes casos, precisamos de uma ajuda extra de D'us para alcançá-las. Contudo, para poder invocar esta ajuda extra, de forma a atingir esses sonhos, primeiro devemos possuir o sonho e a visão. Isso é o que aprendemos do versículo: "E veja, e faça segundo o padrão que te foi mostrado no Monte".
 
Nossos sábios nos dizem que filhos, vida e sustento dependem muito do Mazal, isto é, dos decretos de D'us. Por mais que pensemos diferente, na prática podemos fazer muito pouco em relação a quantos filhos teremos, que tipo de pessoas eles se tornarão no futuro, como será nossa vida e o nosso sustento. Essas são coisas para as quais fazemos nossos esforços, mas elas pertencem a D'us. Porém, precisamos ter o sonho por conta própria.
 
É isso o que David HaMelech está dizendo no Tehilim: "E veja se há em mim algum caminho mau; e guia-me pelo caminho da eternidade" (139:24). É como se ele estivesse dizendo a D'us: "Eu não sei o que Você tem reservado para mim, mas se não for o tipo de vida produtiva que eu sonho, isto é, se o caminho que Você preparou não for exatamente como eu imagino, então peço que esse caminho seja preenchido de conteúdo produtivo, de sentido e de realização, alinhado com o ideal que eu cultivo. Por favor, preencha-o de acordo com meus sonhos. Os sonhos são meus, isto é, a responsabilidade de sonhar é humana. O ideal de grandeza, produtividade e propósito não é delegado ao Céu, já que a iniciativa espiritual começa no ser humano.
 
Esta é a conexão que o Baal HaTurim está fazendo também com o versículo: "E veja filhos aos teus filhos; paz sobre Israel". Não sabemos o que veremos dos nossos filhos. Quem sabe o que será deles? Podemos tentar, nos esforçar, rezar, fazer tudo o que está ao nosso alcance, mas ninguém sabe o que acontecerá, pois existem muitos fatores que moldam e afetam uma criança. Mas devemos ter sonhos para os nossos filhos. Queremos ver os filhos dos nossos filhos. Queremos ver nossos netos compartilhando nossos valores. Queremos ver nossos filhos comprometidos com a Torá. Queremos que eles sejam tementes a D'us e honestos. Queremos ver que eles tenham filhos que compartilhem esses valores também. Isso é a definição de "paz sobre Israel."
 
Essas coisas nem sempre estão sob nosso controle para realizar, mas devemos ao menos ter os sonhos e os desejos, que nos levam às direções corretas e aos objetivos. Sonhar não custa nada, e é o começo de cada realização.

SHABAT SHALOM 

R' Efraim Birbojm

 

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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel Z"L, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
 
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R' Moishe Eliezer ben David Mordechai zt"l 

 
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DOANDO INDEPENDÊNCIA - SHABATSHALOM M@IL - PARASHAT MISHPATIM 5786

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PARASHAT MISHPATIM 5786



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ASSUNTOS DA PARASHAT MISHPATIM
  • O Escravo judeu.
  • "Venda" da filha e a escrava judia.
  • Assassinato.
  • Agressão e injúria aos pais.
  • Morte de Escravos.
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DOANDO INDEPENDÊNCIA - PARASHAT MISHPATIM 5786 (13/fev/26)

O Rav Israel Salanter zt"l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883), fundador do Movimento do Mussar, era conhecido não apenas por sua profundidade intelectual, a ponto de conseguir preparar um Shiur de duas horas em menos de cinco minutos, mas também por sua incrível preocupação com o próximo e sua sensibilidade em relação às dores e sofrimentos dos outros. Para ele, o estudo da Torá que não se traduzisse em refinamento do caráter e em responsabilidade social estava incompleto.
 
Certa vez, aproximou-se dele um homem visivelmente abatido. Suas roupas estavam gastas e o rosto marcado pela preocupação. Com voz baixa, pediu uma ajuda monetária. Explicou que sua situação era desesperadora e que não sabia como compraria comida para sua família nos próximos dias. O Rav Salanter ouviu atentamente. não o interrompeu, não fez perguntas apressadas e não correu para tirar dinheiro do bolso. Em vez disso, convidou o homem a sentar-se e começou a conversar com ele, com tranquilidade. Entre outros assuntos, perguntou sobre seu passado, seu trabalho, suas habilidades e sua rotina diária. Pouco a pouco, tornou-se claro que aquele homem não era incapaz de trabalhar. Ele estava apenas perdido, sem direção, esmagado por uma sequência de fracassos que haviam lhe roubado a confiança.
 
Ao final da conversa, o Rav Salanter fez algo incrível. Ele ajudou o homem necessitado a organizar suas ideias, orientou-o sobre como retomar seu trabalho, colocou-o em contato com uma pessoa da comunidade que precisava exatamente de alguém com as habilidades que ele tinha e garantiu-lhe uma oportunidade concreta de trabalho. Apenas então lhe deu também um empréstimo, para que pudesse se reerguer até receber seu primeiro salário. O homem saiu de lá renovado, com um belo sorriso naquele rosto antes tão caído e abatido.
 
Alguns dias depois, um dos alunos do Rav Salanter, que havia testemunhado a cena, perguntou respeitosamente:
 
- Rav, não teria sido mais simples e rápido dar-lhe uma quantia maior? O homem estava claramente necessitado. Por que gastou tanto tempo conversando com ele?
 
- Se eu lhe desse apenas dinheiro, ele voltaria em pouco tempo precisando de mais – respondeu o Rav Salanter, com serenidade - Eu teria aliviado sua dor por um momento, mas teria mantido ele dependente de mim. Ao ajudá-lo a se sustentar sozinho, devolvi-lhe algo muito maior do que dinheiro: devolvi-lhe a dignidade. Pois a maior bondade não é aquela que faz o outro precisar de você, mas aquela que faz com que ele não precise mais.

Nesta semana lemos a Parashat Mishpatim (literalmente "Leis"), que traz muitas leis práticas do nosso dia-a-dia, em especial no nosso relacionamento com o próximo. Esta Parashá vem logo depois da revelação de D'us no Monte Sinai, que lemos na semana passada, na Parashá Itró. Com esta justaposição, D'us nos ensina que Ele não espera de nós incríveis e admiráveis atos grandiosos, e sim pequenas demonstrações de retidão nos atos cotidianos. Por isso, a Parashá traz dezenas de Mitzvót do nosso dia-a-dia, em especial Mitzvót Bein Adam Lehaveiró, que nos obrigam a agir com o próximo com honestidade, bondade e sensibilidade. À medida que repetimos estes atos diariamente, os bons traços de caráter vão se internalizando e se transformando em parte da nossa natureza.
 
Uma das Mitzvót trazidas na nossa Parashá é a famosa obrigação de ajudar a levantar o burro de alguém que você odeia, que caiu por causa do excesso de carga, como está escrito: "Se você vir o burro do seu inimigo caído sob o peso da sua carga, você deixaria de ajudá-lo? Você deve ajudá-lo repetidamente junto com ele" (Shemot 23:5). A Torá está nos ensinando que somos obrigados a ajudar uma pessoa em dificuldades, mesmo quando nutrimos por ela uma forte antipatia. Em primeiro lugar, isso nos ajuda a trabalhar nossos traços de caráter, aprendendo a vencer o ódio, um sentimento tão negativo, causador de tantas tragédias. Mas, além disso, a Torá está tratando de um caso de ódio permitido. Por exemplo, alguém que odeia o dono do burro por ter testemunhado que ele fez certa transgressão e, por ser uma única testemunha, nada pôde fazer para puni-lo no Beit Din. Estamos falando, portanto, de um transgressor. Então por que ajudá-lo? Pois, através de boas influências e bons exemplos, talvez ele se arrependa de suas transgressões. Ver o comportamento exemplar de outra pessoa pode inspirá-lo e ajuda-lo a corrigir seus erros.
 
A expressão utilizada pela Torá para "Você deve ajudá-lo repetidamente junto com ele" é "Azov Taazov Imo". No entanto, o uso do termo "Azov" para descrever a ajuda que somos obrigados a oferecer é intrigante, pois "Azov" geralmente significa "deixar, abandonar", como encontramos no versículo "Não rebusque a tua vinha, nem recolha os frutos caídos da sua vinha; para o pobre e para o estrangeiro os deixará (Taazov). Eu sou Hashem, seu D'us" (Vayikrá 19:10). À primeira vista, isso poderia sugerir exatamente o oposto da mensagem pretendida pelo versículo da nossa Parashá, pois se traduzíssemos literalmente, estaríamos dizendo: "Se você vir alguém necessitando de ajuda, deixe-o". Por que a Torá escolheu utilizar uma palavra que parece ter uma conotação oposta para descrever o ato de ajudar?
 
Além disso, a pergunta fica ainda mais forte ao percebermos que a Torá utiliza o termo "Azov" também ao descrever o momento em que um homem deixa a casa de seus pais para constituir sua família: "Por isso, o homem deixará (Yaazav) seu pai e sua mãe e se unirá à sua esposa" (Bereshit 2:24). Certamente a Torá não está orientando o filho a abandonar seus pais no momento em que vai se casar. Por mais que o filho esteja prestes a assumir novas responsabilidades na vida, ainda assim ele continua com suas obrigações de honrar e temer seus pais por toda a vida. Então por que a Torá utiliza a linguagem "deixar seus pais" quando descreve a passagem de uma pessoa a uma nova fase de vida?
 
Explica o Rav Yochanan Zweig shlita que a razão pela qual o casamento é descrito como "deixar a casa dos pais" é para nos ensinar que o matrimônio exige que o indivíduo adquira independência. Enquanto ele estiver dependente dos pais, não conseguirá estabelecer um vínculo verdadeiro com sua nova esposa. Somente após adquirir esta independência ele estará apto a estabelecer um novo lar. Assim, o termo "Azov", neste caso, não significa abandonar os pais, e sim tornar-se independente deles.
 
Podemos então aplicar este mesmo conceito ao versículo que fala sobre Chessed na nossa Parashá. A maior ajuda que podemos oferecer a alguém necessitado é levá-lo a uma situação na qual ele já não precisará mais de ajuda. Ao fazer isso, estamos lhe concedendo independência e liberdade. A Torá nos ensina que, quando ajudamos o próximo, isso deve ser feito como um ato de "Azov", proporcionando ao beneficiado a capacidade de "nos deixar", isto é, de não depender mais da nossa ajuda. Obviamente que devemos suprir as necessidades imediatas de alguém que está em uma situação de extrema carência, mas não devemos nos contentar com isso, pois o ideal é dar ao necessitado a capacidade de se levantar e de andar novamente com as suas próprias pernas.
 
O Rambam (Hilchot Matanot Aniyim 10:7-14) explica que há oito níveis de Tzedaká. Quanto menos a pessoa envergonha o pobre que está recebendo a ajuda, maior é o nível da Tzedaká. O nível mais baixo é a pessoa que dá Tzedaká de cara feia, pois isso causa dor e vergonha ao pobre. O próximo nível é dar menos do que o pobre pediu, mas ao menos fazer isso com um sorriso no rosto. O nível acima é dar o que o pobre pediu, mas somente depois que ele pediu. Aqui também causamos dor e vergonha, pois a pessoa tem que se humilhar e expor sua situação difícil. Qual é o nível mais elevado de todos, a forma mais completa e meritória de dar Tzedaká? É alguém que sustenta uma pessoa que caiu na pobreza, dando-lhe um presente, um empréstimo, associando-se a ele em uma parceria ou providenciando-lhe um trabalho, de modo que sua mão seja fortalecida, para que não precise pedir esmola a outras pessoas. O Rambam está nos ensinando que o nível do Tzedaká aumenta conforme tiramos do pobre a vergonha e a humilhação. Este é exatamente o conceito da linguagem "Azov", ajudar de forma que o outro possa "nos deixar", isto é, não depender mais de nós, não ter que passar novamente pela vergonha de ter que pedir esmola. Portanto, a maior ajuda é aquela que torna desnecessárias ajudas futuras.
 
Por que é tão difícil chegar ao maior nível de Tzedaká? Pois praticar atos de bondade nos faz bem, nos dá uma sensação de termos cumprido nosso objetivo. Pelo lado do doador, há um sentimento de preenchimento. Porém, precisamos ter sensibilidade com aquele que recebe. É incompleto doar algo somente depois de a pessoa necessitada já ter se humilhado para pedir, e fazer com que tenha que pedir de novo e de novo. Essa doação vem acompanhada de um sentimento de vergonha e, portanto, diminui o mérito da Mitzvá. 
 
Assim fica mais claro o incrível comportamento do Rav Israel Salanter, que ilumina o sentido profundo do versículo: "Azov Taazov Imo". A Torá escolheu a palavra "Azov" para nos ensinar que a verdadeira ajuda é aquela que permite ao outro "se afastar", seguir seu caminho com forças próprias. O Chessed que a Torá exige não cria dependência, mas restaura a autonomia; não humilha, mas reconstrói; não prende o necessitado ao benfeitor, mas o devolve à sua dignidade. Esse é o Chessed que transforma, não apenas a situação imediata, mas a vida inteira de uma pessoa. Esse é o Chessed que devemos sempre buscar fazer.

SHABAT SHALOM 

R' Efraim Birbojm

 

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