Nesta semana lemos a Parashat Nassó (literalmente “Conte”), que traz diversos ensinamentos importantes, tais como a Sotá e o Nazir, e termina com as doações dos Nessiim na inauguração do Mishkan, quando o Nassi de cada Tribo trouxe sua oferenda em um dia diferente.
Um dos assuntos tratados na nossa Parashá é os “Matanót Kehuná”, isto é, presentes que D’us nos ordenou darmos aos Cohanim. Como eles se dedicavam apenas a cuidar das necessidades espirituais do povo judeu, como os Serviços do Beit Hamikdash, então D’us incumbiu o restante do povo de ajudá-los em seu sustento, nos ordenando a dar a eles 24 tipos diferentes de presentes, entre eles algumas partes dos Korbanót e uma parte da nossa colheita, conhecida como Terumá, que após ser separada se torna uma comida sagrada. Sobre estes “presentes sagrados” que damos aos Cohanim, a nossa Parashá traz o seguinte versículo: “E as coisas sagradas de cada homem serão suas. Aquilo que um homem der ao Cohen será seu” (Bamidbar 5:10)
Porém, se analisarmos com cuidado as palavras deste versículo, perceberemos que ele desperta uma dúvida. Se a Torá nos ordenou a darmos as coisas sagradas aos Cohanim, por que o versículo diz “as coisas sagradas de cada homem serão suas”? Rashi (França, 1040 - 1105) explica que como os presentes do Cohen já foram explicitamente mencionados, poderíamos pensar que eles podem vir e tomá-los à força. Por isso, a Torá declarou que o benefício, isto é, o direito de decidir a qual Cohen ele deseja entregá-las, pertence ao proprietário.
Já o Rav Israel Meir HaCohen zt”l (Bielorússia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, explica que neste versículo há uma alusão a um princípio fundamental e importante que toda pessoa deve lembrar a cada instante de sua vida: a verdadeira riqueza do homem consiste exclusivamente dos frutos de seu esforço espiritual. Isso significa que os assuntos de santidade com os quais ele se ocupa, tais como Torá, Mitsvót, Tefilá e Chessed, constituem suas aquisições verdadeiras e eternas, acompanhando-o tanto em vida quanto após sua morte. Somente “suas coisas sagradas” constituem uma posse verdadeira. Todo o resto, isto é, as ações e ocupações mundanas realizadas sob a influência do Yetzer Hará, não constitui uma aquisição verdadeira. São como amigos falsos, que aparentam lealdade e afeição, mas cujo vínculo é apenas temporário e, na hora da aflição, o abandonam à própria sorte.
Sobre esse conceito, nossos sábios trouxeram uma parábola interessante: um homem tinha três amigos: Reuven, Shimon e Levi. Reuven era profundamente amado por ele, e parecia-lhe que esse amor era recíproco. Também Shimon era considerado um bom amigo, embora não tão íntimo quanto Reuven. Já com Levi sua relação era mais distante do que com os outros, e ele jamais dera grande importância ao vínculo entre eles. Certo dia, o homem foi convocado a comparecer diante do rei. O motivo da convocação era desconhecido, e ele ficou apavorado com o que poderia lhe acontecer. “Talvez tenham me denunciado”, pensou, “e, nesse caso, posso ser condenado à morte”. Em sua aflição, voltou-se aos seus amigos, pedindo-lhes que o acompanhassem ao rei e intercedessem em seu favor. Para sua grande surpresa, Reuven, que ele considerava ser seu amigo mais fiel, recusou-se a acompanhá-lo. Também Shimon concordou apenas em acompanhá-lo até os portões do palácio, mas deixou claro desde o início que não iria além. Sem alternativa, o homem procurou Levi. Embora, após a recusa dos dois amigos mais próximos, fosse natural imaginar que o terceiro certamente também não aceitaria, Levi, para sua surpresa, concordou de bom grado em acompanhá-lo ao rei e ainda prometeu fazer todo o possível para defendê-lo.
Como trazemos esta parábola à nossa realidade? O dinheiro e os bens materiais, tão queridos ao homem, são comparáveis a Reuven. Durante toda a vida da pessoa, a riqueza se apresenta como uma grande amiga e nos engana. O homem imagina que, por meio do dinheiro e da honra, estará protegido contra sofrimentos e dificuldades. Porém, o dia da morte, momento em que a verdadeira amizade é posta à prova, revela a realidade, conforme ensinaram os nossos sábios: “Pois, na hora da partida do homem deste mundo, não o acompanham nem prata, nem ouro, nem pedras preciosas ou pérolas, mas apenas Torá e boas ações” (Pirkei Avót 6:9). Os familiares e amigos são comparáveis a Shimon na parábola. Eles não abandonam a pessoa no momento da morte. Choram por ela e a acompanham até o túmulo. Porém, ali se despedem dela e a deixam seguir sozinha.
O livro Yalkut Lekach Tov explica, com base nessa parábola, o seguinte versículo: “Esteja preparado pela manhã, e subirá pela manhã ao Monte Sinai e se apresentará diante de Mim no topo do monte. Nenhum homem subirá com você, ninguém será visto em lugar algum do monte, nem mesmo o rebanho e o gado pastarão diante daquele monte” (Shemot 34:2,3). Este mundo é comparado à noite, enquanto o Mundo Vindouro é comparado ao dia. O amanhecer se refere ao momento em que a pessoa chega ao mundo da verdade. Durante toda a vida, o homem deve se preparar para esse momento, pois naquele dia “você se apresentará diante de Mim no topo do monte”, isto é, a pessoa se apresentará diante de D’us para ser julgada por seus atos. “Nenhum homem subirá com você” significa que amigos e parentes queridos não nos acompanharão neste momento, teremos que ir sozinhos. Eles nos acompanharão até o túmulo, mas não além. “Ninguém será visto em lugar algum do monte” significa que não devemos depositar nossa esperança na ajuda de ninguém. “Nem mesmo o rebanho e o gado pastarão diante daquele monte” significa que até mesmo a nossa riqueza, que imaginávamos ser uma amiga fiel, não nos ajudará, pois ela sequer chegará diante do monte. Somente “Torá e boas ações”, como ensinado no Pirkei Avót, são como o Levi da parábola, os amigos fiéis que continuam acompanhando o homem até diante do Trono Celestial.
Muitas pessoas não percebem a profundidade dessa “amizade” e nem o tamanho da salvação que Torá e as boas ações trazem ao homem. Essa é a razão pela qual, na parábola, Torá e as boas ações são representadas pelo amigo aparentemente menos importante. “E as coisas sagradas de cada homem serão suas” vem nos lembrar e ensinar quem são nossos verdadeiros companheiros, amigos e defensores, prontos para falar bem de nós diante do Criador. Eles permanecem conosco para sempre, “serão suas”. Nossa obrigação, portanto, é cultivar essa amizade: multiplicar “amigos” assim durante os dias de nossa vida e desfrutar de sua companhia todos os dias.
O final do versículo, “aquilo que o homem der ao Cohen”, complementa esse ensinamento. A Torá nos ensina a direcionar nossos recursos para fins espirituais, pois, de toda a riqueza material do homem, nada restará após sua morte. Somente aquilo que foi investido em Tsedaká e Chessed “será seu”. Ou seja, esse dinheiro é verdadeiramente seu e permanecerá seu para sempre. Ficará guardado para ele e nenhum ladrão poderá levar embora. Se queremos investimentos bons, seguros e de excelente retorno, em vez de investir em ações na bolsa, vale a pena investir em boas ações. Esse investimento é realmente seguro e garantido. SHABAT SHALOM R’ Efraim Birbojm |