quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

NÃO CHORE SOBRE O VINHO DERRAMADO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT ITRÓ 5786

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NÃO CHORE SOBRE O VINHO DERRAMADO - PARASHAT ITRÓ 5786 (06/fev/26)

Estava tudo preparado para o Bar Mitzvá do jovem Itai, que aconteceria em Simchá Torá, na cidade israelense de Sderot. Após meses de preparação, Itai estava feliz que seus amigos e familiares viriam prestigiar sua leitura da Torá na sinagoga. Porém, naquela manhã, todos foram acordados de uma maneira diferente. Os habitantes de Sderot estavam acostumados com sirenes, mas naquele dia havia algo estranho no ar, pois as sirenes não paravam de tocar. Em seguida, barragens de mísseis começaram a cruzar o céu de Sderot. Mas o pior foi quando chegaram as notícias de que terroristas do Hamas haviam se infiltrado na cidade. Era o fatídico dia 7 de outubro de 2023. 
 
O Bar Mitzvá de Itai foi cancelado e, naquela semana, a família de Itai, assim como outros moradores de Sderot, foi transferida e hospedada em um hotel. Itai estava muito triste. Por que isso havia acontecido justamente no dia do seu Bar Mitzvá, para o qual ele havia se preparado tanto? O dia mais esperado de sua vida havia se transformado em uma grande decepção! Por que D'us havia feito isso com ele? Ele não queria brincar com os outros meninos, passava o dia inteiro quieto no seu canto e às vezes chorava. Ninguém conseguia consolá-lo.
 
Certo dia, uma terapeuta voluntária veio ao hotel onde Itai estava hospedado e se ofereceu para atender pessoas que precisavam de apoio psicológico. Disseram a ela que havia no hotel um menino cujo Bar Mitzvá havia sido cancelado e que estava muito mal. Ela sentou-se para conversar com Itai, mas logo ele já estava chorando. Repetia insistentemente a pergunta "Por que justamente a minha festa tinha que ser estragada? Por que mereci isso?". A terapeuta então pediu para ele contar sobre o dia do Bar Mitzvá. Itai começou a contar toda a história, desde o momento em que havia acordado com as sirenes, e acabou mencionando um detalhe muito interessante. Seu tio estava servindo no exército de Israel, mas havia recebido folga naquele Simchá Torá para poder participar do Bar Mitzvá de Itai. E, naquela manhã, por volta das seis da manhã, ele recebeu uma mensagem no seu rádio informando sobre uma invasão do Hamas na região. Imediatamente ele correu para a sinagoga, avisou o Gabai para não abrir as portas e o orientou a mandar todos os frequentadores de volta para suas casas e a procurarem um abrigo seguro, pois haviam terroristas na região. A terapeuta imediatamente interrompeu Itai e disse:
 
- Preste atenção no que você está me contando. Você está triste pois D'us não permitiu que você tivesse seu Bar Mitzvá como você tanto sonhou. Mas D'us te deu algo muito maior! Em mérito do seu Bar Mitzvá, não só a sua família foi salva, mas toda a sua Kehilá de Sderot, simplesmente porque o seu tio estava lá para o seu Bar Mitzvá. Se seu tio não estivesse lá, vocês não teriam a informação preciosa de se trancarem para se proteger. Tudo precisa ser enxergado a partir de um prisma positivo, sabendo que D'us está sempre ao nosso lado, nos protegendo.
 
Ao escutar aquelas palavras, Itai se consolou e voltou a brincar normalmente com seus colegas. Seu Bar Mitzvá não havia sido como ele sonhara, mas havia ajudado a salvar a vida de centenas de pessoas.

Nesta semana lemos a Parashat Itró, que traz um assunto importante: os Dez Mandamentos, entregues por D'us ao povo judeu no Monte Sinai, após a saída do Egito. Porém, a entrega não ocorreu imediatamente, pois foram necessários 49 dias de preparação espiritual para limpar toda a impureza que eles haviam adquirido no Egito.
 
De acordo com o livro Orchot Chaim, todo o corpo das leis da Torá está incluído nos Dez Mandamentos. Isso significa que os Dez Mandamentos são como os "Avot das Mitzvót", isto é, as categorias primárias, assim como as "39 Avot Melachot" em relação às leis de Shabat. Os Dez Mandamentos são, portanto, os "Avot" de toda a Torá. Mas como podemos trazer este conceito para algo mais prático em nossas vidas?
 
Nas leis de Havdalá, o Rav David ben Shmuel HaLevi zt"l (Ucrânia, 1586 - 1667), mais conhecido como Taz, cita o costume de encher o copo antes da Havdalá de modo que o vinho transborde pela borda do cálice. Qual é o motivo desse costume? Nossos sábios mencionam o conceito de "Toda casa na qual o vinho não é derramado como a água não tem sinal de Brachá". Mas o Taz esclarece que certamente nossos sábios não estão nos incentivando a literalmente derramarmos vinho como se fosse água, pois isso seria "Bal Tashchit", a proibição de desperdiçar. Em geral não há Bal Tashchit em relação à água, mas certamente há em relação ao vinho. É inconcebível que fôssemos instruídos a derramar um bom vinho como se fosse água.
 
Explica o Taz que o ensinamento dos nossos sábios é em relação ao nosso comportamento. Quando alguém derrama uma garrafa de água, ele não faz disso um caso. Da mesma forma, se você tem uma garrafa de vinho caro e seu filho a derrama no chão, não faça disso um drama. Quando algo se quebra em sua casa, não perca a calma. Um episódio desses não deve fazer você perder a paciência.
 
Os nossos sábios não estavam falando apenas em relação a uma garrafa de vinho. Os filhos quebram louças, os cônjuges derrubam copos, nós desperdiçamos comidas. Não fique tão transtornado com esse tipo de situação. Mesmo que haja um prejuízo, acidentes acontecem. Se o vinho derramou, o copo quebrou ou a porcelana lascou, não chore por isso. A reação natural das pessoas é se irritar com essas coisas. Os nossos sábios, buscando minimizar essa reação instintiva, disseram: "Toda casa na qual o vinho não é derramado como a água não verá sinal de Brachá". Essa é a atitude correta quando algo derrama, quebra ou estraga. É um mau sinal quando o derramamento de vinho causa mais crise em uma casa do que o derramamento de água.
 
É isso que o Talmud (Sotá 3b) nos ensina: "Rav Chisda disse: 'A raiva em uma casa é como um verme nas sementes de gergelim'". Assim como o verme consome o gergelim, a raiva destrói a estrutura da casa. Da mesma forma que o verme, ao consumir as sementes, causa um prejuízo, assim também alguém perder a cabeça em casa causa um estrago. E a perda não se limita ao valor do que foi quebrado ou danificado, pois se a pessoa perde a calma em casa, D'us também a punirá com mais perdas. Porém, sabemos que uma das características mais marcantes de D'us é que, tanto nos castigos quanto nas recompensas, Ele utiliza Sua característica de Midá Kenegued Midá, isto é, Ele retribui medida por medida. Qual é a Midá Kenegued Midá neste caso?
 
Explica o Rav Yssocher Frand shlita que quando algo se quebra em uma casa e o dono sofre um prejuízo, se ele tiver Emuná de verdade, reconhecerá que foi D'us quem quis que isso acontecesse. Era a vontade de D'us, de acordo com Seus cálculos abrangentes e perfeitos, que a pessoa sofresse essa perda. Então, por que ficar bravo? Com quem ele está ficando bravo? A pessoa pode se irritar com seu filho ou com seu cônjuge, mas, na verdade, não foram eles a causa verdadeira da perda, e sim apenas instrumentos nas mãos de D'us. Se a pessoa tivesse Emuná verdadeira, se comportaria como David HaMelech quando foi duramente ofendido por Shimi ben Guerá. Quando questionado por que ele não tomava uma atitude mais dura, David respondeu: "Ele está me amaldiçoando porque D'us lhe disse: 'Amaldiçoe David'. Quem pode então dizer: 'Por que você fez isso?'" (Shmuel II 16:10).
 
Nossa atitude diante de um vidro quebrado ou um vinho derramado deve ser a seguinte reflexão: "Por algum bom motivo D'us fez isto acontecer. Se essa perda veio da Mão de D'us, então por que ficar chateado?". Se a pessoa fica brava, é porque pensa que está no controle, acha que é ela que decide e determina seus lucros e prejuízos. D'us então diz: "Eu vou mostrar para você quem está no controle", e traz dificuldades financeiras à casa desta pessoa, para que ela entenda que D'us é a fonte da estabilidade financeira. Por outro lado, se a pessoa não perde a paciência com essas situações e as aceita com serenidade, como sendo algo que estava destinado a acontecer, essa Emuná será um sinal de Brachá, pois D'us irá repor a perda sofrida como recompensa.
 
Essa é uma das grandes mensagens transmitidas pelos Dez Mandamentos. Eles começam com a Mitzvá de "Eu sou Hashem, teu D'us" (Shemot 20:2) e terminam com a Mitzvá de "Não cobiçarás" (Shemot 20:14). "Eu sou Hashem, teu D'us" é a Emuná na teoria, enquanto a Emuná na prática é "Não cobiçarás". Quando cobiçamos o que é do próximo, estamos dizendo "Eu gostaria de ter uma casa assim, um carro assim, uma esposa assim. Eu quero isso!". Essa Mitzvá de "Não cobiçarás" é a Emuná colocada na prática, pois é viver com a certeza de que já temos exatamente tudo aquilo que D'us quer que tenhamos. D'us não quer que tenhamos aquela casa. Ele não quer que tenhamos aquele carro. Ele não quer que tenhamos aquela esposa. Já temos o que precisamos e, portanto, o que não temos é sinal de que não precisamos para o nosso trabalho espiritual neste mundo.
 
O Orchot Chaim acrescenta que, se toda a Torá está incluída nos Dez Mandamentos, então a última Mitzvá, o "Não cobiçarás", ensina que quem a transgride está, em última instância, transgredindo toda a Torá. A Torá se resumiria a estas palavras: "Não cobiçarás a casa do teu próximo". Isso não pode ser apenas algo da boca para fora. Precisamos acreditar de verdade que tudo emana de D'us, inclusive toda a nossas riquezas materiais e posses, nossos bons e maus momentos, nossos lucros e perdas. Tudo vem Dele. Uma pessoa com uma Emuná tão arraigada jamais ficará com raiva. Já a pessoa que transgride o "Não cobiçará" acabará também tropeçando em outras Mitzvót, como o "Não matará", o "Não roubará" e principalmente o "Eu sou Hashem, teu D'us".
 
Em sentido inverso, a lição do Taz é que toda casa na qual o vinho é derramado como água, isto é, onde se encara o vinho derramado como se fosse apenas água, algo que não justifica aborrecimentos, verá um sinal de Brachá como resultado de sua Emuná. Tudo o que D'us faz é para o nosso bem, mesmo quando ainda não conseguimos enxergar isso. Ele nos demonstra constantemente Sua bondade. Nossa tarefa é reconhecer essas bondades no dia a dia e confiar Nele também nos momentos em que a bondade ainda está oculta, certos de que ela está lá.

SHABAT SHALOM 

R' Efraim Birbojm

 

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

HONRANDO OS NOSSOS PAIS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BESHALACH 5786

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HONRANDO OS NOSSOS PAIS - PARASHAT BESHALACH 5786 (30/Jan/26) 

O Rav Aharon Margalit shlita foi convidado para dar uma palestra em uma sinagoga, sobre o tema de "Kibud Av VeEm". Parte da palestra abordava a obrigação dos filhos de julgarem seus pais favoravelmente. Depois da palestra, um casal mais velho foi falar com ele. O marido, chamado Shmuli, respirou fundo e compartilhou com o rabino sua triste história. Ele contou que seu pai havia falecido dois meses antes. Ele deixou nove cópias do testamento: uma para cada um dos oito filhos, e a última foi entregue ao rabino da comunidade.
 
Após a Shivá, eles abriram o testamento, que detalhava todos os bens e posses do pai e como deveriam ser distribuídos. Quando chegou ao final da lista, Shmuli ficou paralisado, pois ele, o mais velho de todos os irmãos, não havia sido citado. Ele ficou absolutamente chocado, confuso e com um terrível sentimento de traição.
 
Shmuli sempre teve um excelente relacionamento com seu pai ao longo de toda a vida e, por isso, não entendia por que seu pai faria isso com ele. Os irmãos se davam muito bem, e um deles sugeriu simplesmente ignorar o testamento e redistribuir os bens incluindo Shmuli. No entanto, o próprio Shmuli recusou a ideia, dizendo que não queria receber nada que seu pai não quisesse que ele recebesse. Shmuli então disse ao rabino Margalit, com lágrimas nos olhos:
 
- Mais do que o aspecto financeiro, que me ajudaria muito, o que realmente me incomoda é não conseguir entender por que meu pai fez isso comigo. Desde aquele dia terrível em que lemos o testamento, eu não consigo comer, dormir nem trabalhar, por causa de todos os pensamentos horríveis que passam pela minha cabeça. Perdi 10 quilos e minha alegria de viver desapareceu. Eu não queria ir ao cemitério no Shloshim, mas meus irmãos me convenceram a ir com eles. Depois que eles saíram, fiquei lá sozinho e comecei a chorar, dizendo: "Pai, quero que você desça do Gan Eden e me diga por que fez isso comigo! Se você não vier, então me leve até você, porque eu não posso continuar assim". Esses pensamentos estão me consumindo completamente.
 
O rabino perguntou a Shmuli se ele tinha uma boa relação com o pai, e ele confirmou que eram muito próximos. O rabino então perguntou quantos filhos ele tinha. Ele disse que tinha doze filhos e já tinha casado todos eles. Ele também contou que havia enfrentado grandes dificuldades financeiras e confidenciava ao pai sobre os tempos difíceis que estava passando. O rabino perguntou se o pai o ajudava financeiramente. Shmuli respondeu:
 
- Meu pai era muito generoso. Ele me deu 50 mil dólares para o casamento de cada um dos meus filhos.
 
- Shmuli, preste atenção no que você está dizendo - falou o rabino, empolgado com o que acabara de descobrir - Isso significa que seu pai lhe deu 600 mil dólares. Pelo testamento, cada um de seus irmãos recebeu cerca de 300 mil dólares. Seu pai não apenas deu a você, ele lhe deu o dobro do que deu aos outros por você ser o primogênito!
 
Shmuli reconheceu a verdade no que o rabino estava dizendo. Ele então o abraçou e disse:
 
- Não tenho palavras para agradecer. Você acabou de tirar um peso enorme do meu coração. Só me pergunto por que meu pai não colocou isso no testamento.
 
- A pergunta é sobre você, não sobre ele - respondeu o rabino - Como você pôde deixar de perceber e valorizar tudo o que seu pai fez por você ao longo de sua vida? Ele lhe deu o dobro do que deu aos seus irmãos, e certamente acreditava que você jamais esqueceria disso. Seu problema de autoestima está explicado: você nunca conseguiu reconhecer de verdade o que seu pai fez por você.

Nesta semana lemos a Parashat Beshalach (literalmente "Quando enviou"), que começa descrevendo a saída triunfal do povo judeu do Egito. A Torá então nos conta que, quando o povo judeu estava saindo, enquanto as pessoas se preocuparam em pegar as riquezas dos egípcios, Moshé se envolveu pessoalmente no cumprimento de uma importante Mitzvá: a retirada do caixão de Yossef do Egito, para enterrá-lo na Terra de Israel, como está escrito: "Moshé levou consigo os ossos de Yossef, pois ele havia feito os filhos de Israel jurarem, dizendo: 'Certamente D'us visitará vocês, e então vocês levarão daqui com vocês os meus ossos" (Shemot 13:19).
 
Porém, se prestarmos atenção às palavras do versículo, uma questão óbvia é despertada. À primeira vista, a expressão "ossos" parece uma forma depreciativa de se referir ao corpo de um Tzadik. Por que a Torá não se referiu ao corpo de Yossef de uma maneira mais honrosa?
 
Sabemos que D'us julga cada pessoa de acordo com seu nível espiritual. Grandes Tzadikim são cobrados por desvios tão pequenos quanto um fio de cabelo, o que não ocorre com pessoas de nível espiritual inferior, que somente são cobradas por erros mais grosseiros. Na realidade, Yossef havia cometido um erro que, de acordo com o seu nível elevado, foi considerado algo grave. Quando os irmãos estiveram diante de Yossef, sem saber que ele era seu irmão, Yehudá referiu-se a Yaacov como sendo "nosso pai, seu servo". O Talmud (Sotá 13a) ensina que, pelo fato de Yossef ter permanecido em silêncio e permitido que Yehudá falasse dessa maneira a respeito de seu pai, Yossef passou a ser descrito como "ossos", inclusive ainda em vida.
 
Em outra afirmação sobre o mesmo episódio, o Talmud (Sota 13b) relata que, como punição por seu silêncio, Yossef perdeu dez anos de vida, e foi o primeiro entre os irmãos a falecer, apesar de ser um dos mais novos. Os dez anos de vida que ele perdeu são correspondentes às dez vezes em que ouviu seu pai ser chamado de "seu servo" e permaneceu em silêncio. Porém, o que nos chama mais a atenção é que ambas as afirmações do Talmud foram ditas em nome do mesmo sábio, o Rav Yehuda, o que aparentemente se configura como uma contradição. Por que Yossef teria sido punido duas vezes pelo mesmo erro?
 
O Rav Baruch HaLevi Epstein zt"l (Bielorrúsia, 1860 - 1941) explica que Yossef foi chamado de "ossos" pois, como um corpo descrito apenas como "ossos" indica que já ocorreu sua decomposição, a Torá utiliza esse termo como uma forma de punição a Yossef por sua falta de sensibilidade com a honra de seu pai.
 
Contudo, essa resposta é difícil de ser entendida, pois na Parashat Vayechi, Yossef se referiu a si mesmo como "ossos", como está escrito: "E Yossef fez os Filhos de Israel jurarem, dizendo: 'Certamente D'us os visitará, e vocês farão subir daqui os meus ossos" (Bereshit 50:25). Sendo assim, é impossível que o termo esteja sendo usado como punição, especialmente porque a referência trazida pelo Talmud de que Yossef foi chamado de "ossos" ainda em vida se refere justamente à ocasião em que ele próprio utilizou essa expressão para falar de si mesmo. Além disso, como o fato de Yossef ser chamado de "ossos" compensaria a desonra causada ao seu pai?
 
Responde o Rav Yochanan Zweig shlita que segundo o Talmud (Nidá 31a), os ossos de uma pessoa, que fornecem a estrutura física de seu corpo, são geneticamente transmitidos pelo pai. A palavra hebraica para "osso" é "etzem". A palavra "atzmiut", que descreve o senso de identidade essencial de uma pessoa, deriva da mesma raiz. Essa conexão indica que o indivíduo recebe do pai não apenas sua estrutura física, mas também sua estrutura psicológica básica, seu senso de identidade.
 
Esse senso de identidade se desenvolve quando a pessoa consegue se definir a partir de seus pais. Alguém que possui uma forte consciência de suas raízes encara a vida com mais confiança. Portanto, é fundamental identificar qualidades positivas em nossos pais às quais possamos aspirar, pois somente uma base sólida permite que nosso crescimento seja duradouro.
 
O erro de Yossef não resultou apenas em uma falta de honra em relação ao seu pai, mas também revelou uma falha na maneira como ele próprio se definia. Diminuir a estatura de seu pai indicava uma deficiência interna em si mesmo. Assim, quando Yossef percebeu que, por sua inação, havia possibilitado uma desonra ao seu pai, ele passou a se referir a si mesmo como "ossos". Uma vez que seus ossos e, em um nível mais profundo, sua própria identidade, provinham de seu pai, ele compensou essa falha definindo-se completamente a partir de seu pai. Agir dessa forma serviu tanto para reconhecer que ele havia desonrado seu pai quanto para corrigir a maneira como compreendia a si mesmo.
 
Conclui-se, portanto, que ser chamado de "ossos" não foi uma punição, mas sim a forma que Yossef encontrou para reparar sua falha. Consequentemente, não há contradição nos dois ensinamentos do Talmud, pois uma afirmação reflete a iniciativa de autocorreção de Yosef, enquanto a outra identifica sua punição.
 
Deste ensinamento fica um princípio importante para as nossas vidas. Temos a Mitzvá da Torá de honrar nossos pais. Uma das maneiras é sempre olhá-los de forma positiva e procurando suas qualidades, para que possamos sentir orgulho deles. Mas a Torá está nos ensinando algo incrível: a nossa própria personalidade será formada de acordo com a maneira como olhamos os nossos pais. Alguém que honra e admira seus pais tem muito mais chances de se tornar uma pessoa equilibrada e bem-sucedida. Procure sempre as qualidades e admire aqueles que nos deram o que temos de mais importante: a própria vida.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

 

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