quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PEQUENAS FENDAS, GRANDES TRAGÉDIAS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BERESHIT 5787

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PEQUENAS FENDAS, GRANDES TRAGÉDIAS - PARASHAT BERESHIT 5787

“Um grande dique protegia a cidade das águas de um rio. Durante muitos anos, o dique, que havia sido muito bem construído, suportou fortes chuvas e grandes enchentes, e os moradores confiavam em sua resistência. Até que, certa manhã, um dos funcionários responsáveis pela manutenção percebeu uma pequena rachadura em uma das paredes do dique. Era estreita e quase imperceptível. Ele chamou seu superior e mostrou o problema, sugerindo que aquela rachadura fosse consertada o mais rápido possível. O superior demorou para localizar a pequena rachadura. Quando finalmente a encontrou, deu risada e disse:
 
- Isso? Não é nada! Essa rachadura é minúscula. Não há com o que se preocupar. Cuidaremos disso depois.
 
Os dias passaram e ninguém voltou mais ao assunto. A rachadura continuou ali. No início, ela realmente não parecia representar perigo algum, pois o dique continuava firme e a cidade seguia sua rotina normalmente. Por isso, a cada dia que passava, aquela pequena abertura parecia menos importante. Até que chegou uma temporada de chuvas muito fortes. O nível do rio começou a subir, a pressão da água aumentou e a pequena rachadura, no início tão insignificante, começou a se alargar. A água então passou a penetrar lentamente pela parede do dique. Quando os responsáveis perceberam o problema, tentaram agir, mas já era tarde demais. A pequena rachadura havia se transformado em uma grande abertura. A pressão tornou-se insustentável e, finalmente, parte do dique cedeu. A água invadiu violentamente a cidade e provocou uma enorme tragédia.
 
O prefeito exigiu uma perícia para descobrir as causas do rompimento daquele dique, que parecia tão seguro e sólido. Os antigos registros da manutenção foram encontrados e ficou claro que o problema havia sido identificado muito antes. A tragédia não começou no dia em que o dique rachou. Ela começou no dia em que alguém viu aquela pequena rachadura e decidiu que ela era pequena demais para merecer atenção.”
 
Assim também acontece em nossa vida. Normalmente o perigo não começa com uma grande queda espiritual. Às vezes, começa com algo tão pequeno que parece não merecer nossa atenção: uma pequena inclinação do coração ou um pequeno afastamento. Enquanto tudo está tranquilo, podemos pensar: “Qual é o problema? Continuo sendo uma boa pessoa. Continuo cumprindo Mitzvót. Essa pequena imperfeição não muda quem eu sou”. Mas a vida também nos coloca sob pressão. E quando essa pressão aumenta, aquilo que parecia insignificante pode revelar uma fraqueza muito maior. Por isso, o verdadeiro trabalho espiritual não é esperar o momento em que nossa espiritualidade começa a desmoronar. É ter a sensibilidade e a agilidade de olhar para dentro enquanto a rachadura ainda é pequena, e corrigi-la antes que se transforme em uma tragédia.

 

Nesta semana recomeçamos a leitura da Torá com o Sefer Bereshit, que trata sobre a criação do mundo e as primeiras gerações da humanidade, até os nossos Patriarcas, que representam a criação espiritual do mundo. Infelizmente, logo as primeiras gerações já tiveram um comportamento lamentável, cometendo grandes transgressões que levaram, em pouco tempo, D’us a se arrepender de ter criado o ser humano
 
E quem primeiro tropeçou foi Adam Harishon, o ser humano criado pelas próprias Mãos de D’us, o personagem principal do início da Parashat desta semana, Bereshit (literalmente “No início”). D’us viu que não era bom o homem estar sozinho e, por isso, em um imenso ato de bondade, criou para ele uma companheira, Chava, que além de sua incomparável beleza, foi dotada de uma incrível sabedoria. Adam e Chava viviam no Gan Éden, um lugar paradisíaco, e sua única proibição era comer do fruto da “Árvore do conhecimento do bem e do mal”. Mas Chava, após ter sido induzida pela serpente que também habitava no Gan Éden, acabou comendo do fruto proibido e levou para que Adam também comesse. D’us ficou furioso com Adam e Chava por eles não terem cumprido Seu mandamento, e imediatamente chamou Adam para prestar contas pelo seu erro. Adam então se justificou para D’us: “A mulher que Você me deu, ela me deu da árvore, e eu comi” (Bereshit 3:12).
 
Aparentemente Adam estava se justificando por seu erro de uma maneira correta, já que a própria Torá ressalta que foi Chavá quem comeu primeiro o fruto e o levou para Adam. Mas vemos, pela continuação da história, que a justificativa não foi suficiente. Adam foi duramente castigado por D’us, perdendo sua imortalidade e o direito de ficar no Gan Éden. Mas o que havia de errado na justificativa de Adam?
 
A resposta está no entendimento das palavras do Shemá, que lemos duas vezes ao dia: “Guardem-se, para que o seu coração não seja seduzido, e vocês se desviem e sirvam outros deuses” (Devarim 11:16). O Midrash ensina que destas palavras aprendemos que: “Assim que uma pessoa se afasta da Torá, ela vai e se apega à idolatria”.
 
De acordo com o Rav Natan Tzvi Finkel zt”l (Império Russo, 1849 - Israel, 1927), mais conhecido como Alter MiSlabodka, essa ideia parece distante da nossa compreensão. Pelo simples fato de uma pessoa se afastar por um instante da Torá, ela imediatamente se apega à idolatria? Não vemos isso acontecendo no nosso dia-a-dia! Então o que estas palavras do Shemá Israel estão nos ensinando? E como isso se conecta com o erro de Adam Harishon?
 
É conhecida a grandeza de Adam Harishon, que era extremamente sábio. Segundo o Midrash, D’us pessoalmente testemunhou isso quando disse aos anjos: “A sabedoria dele é maior do que a de vocês”. E mesmo depois de ter pecado com a “Árvore do Conhecimento”, ele continuava sendo grandioso em sua estatura espiritual e na força de sua compreensão, a ponto de Avraham Avinu, o gigante espiritual, ter desejado ser enterrado na Mearat HaMachpelá pois Adam estava enterrado ali.
 
De acordo com o Talmud (Shabat 55b), o pecado de Adam foi tão sutil que nem mesmo os anjos perceberam sua gravidade. Eles perguntaram a D’us: “Por que Você decretou a morte sobre o homem?”. E o próprio Adam, cuja sabedoria era maior do que a deles, não percebeu onde estava a raiz de seu pecado, a ponto de argumentar diante de D’us: “A mulher que Você me deu, ela me deu da árvore, e eu comi”. Aparentemente, sua intenção era dizer: “Você me deu esta mulher para me ajudar, e foi Você Quem deu a ela uma compreensão maior do que a minha; eu deveria, portanto, ouvir a voz dela”. Por que, então, ele foi castigado com punições tão terríveis, sendo expulso do Gan Éden e condenado, assim como todas as gerações posteriores, à morte?
 
Rashi
(França, 1040 - 1105) explica que para respondermos, precisamos analisar com mais profundidade a justificativa que Adam deu por ter cometido o seu grave erro. Quando ele afirmou: “A mulher que Você me deu”, ele estava sendo ingrato com D’us e com o bem que Ele lhe havia feito. Houve aqui uma negação da bondade de D’us. Ou seja, no fundo do coração de Adam havia algum tipo de falha no reconhecimento da bondade Divina. Os anjos não perceberam isso, e ele próprio também não sentiu. Mas D’us, que investiga o coração de cada criatura e conhece cada pensamento, revelou que havia algum tipo de imperfeição no interior de seu coração, proveniente de alguma característica ou pensamento negativo. Quando Ele perguntou a Adam: “Onde você está?” (Bereshit     3:9), obviamente que D’us sabia onde Adam estava. O Talmud (Sanhedrin 38b) explica que a expressão: “Onde você está?” significa “Para onde inclinou seu coração?”. Ou seja, D’us estava revelando que havia algum tipo de desvio pequeno, quase imperceptível, no coração de Adam.
 
E esse desvio, como um pequeno ponto e uma tênue mancha dentro do coração de Adam, criou raízes e produziu um fruto amargo em toda a humanidade. Depois de algumas gerações, quando veio a geração da Torre de Bavel, à qual D’us havia concedido grandes bondades, eles se rebelaram contra o Criador ao construir uma torre para subir aos céus e lutar contra Ele. Está escrito: “E D’us desceu para ver... aquilo que os Bnei HaAdam (filhos dos homens) construíram” (Bereshit 11:5). Mas por que está escrito “Filhos dos homens”? Por acaso eles eram filhos de jumentos e camelos? O Midrash responde que a linguagem “Bnei HaAdam” era uma referência a Adam Harishon, aquele mesmo que havia sido ingrato em relação às bondades que havia recebido de D’us. Naquele pequeno desvio no coração de Adam estava a raiz da qual surgiu a grande rebelião daquela geração contra D’us.
 
O Talmud (Sanhedrin 38b) ensina que “Adam tornou-se um herege”. É difícil compreender como um homem tão grande, cujo pecado nenhuma criatura havia sequer conseguido identificar, tenha feito uma transgressão com um aspecto de heresia ao comer o fruto da “Árvore do Conhecimento”! E como conciliar esta afirmação com o que afirma o Talmud (Eruvim 18b) de que Adam era um grande Chassid, isto é, fazia mais que D’us esperava dele?
 
A resposta é que, apesar de Adam realmente ter sido um grande Chassid e ter permanecido em um nível muito elevado durante todos os seus dias, e embora seu pecado tenha sido muito sutil, ainda assim, uma vez que em seu coração revelou-se algum tipo de desvio e houve uma interrupção em seu crescimento espiritual, isso foi considerado como uma heresia. A exigência feita ao ser humano não é apenas que ele não venha a cometer erros, mas também que, por meio de sua grande inteligência, ele não permita que sua percepção seja obscurecida. A pessoa não pode permitir que a escuridão se agarre a ela, ainda que minimamente.
 
As pessoas não costumam fazer grandes erros do dia para a noite. Em geral, é um processo de queda lenta e silenciosa, que começa com pequenas brechas no nosso temor a D’us. Por isso, nosso trabalho espiritual exige que façamos constantemente a nós mesmos a pergunta que D’us fez a Adam: “Onde você está?”, checando sempre nossas atitudes e pensamentos para, quando um pequeno desvio for identificado, imediatamente o consertarmos. Com reflexões diárias e pequenas atitudes, podemos manter nosso crescimento saudável.

SHABAT SHALOM

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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

MANUAL DE INSTRUÇÕES - SHABAT SHALOM M@IL - SHEMINI ATSÉRET E PARASHAT VEZÓT HABRACHÁ 5787

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MANUAL DE INSTRUÇÕES - SHEMINI ATSERET E PARASHAT VEZÓT HABRACHÁ 5787 (02/out/26)

“Em 19 de maio de 2012, Nadav Ben-Yehuda, um israelense de 24 anos, estava escalando o Monte Everest. Seu grande objetivo era chegar ao cume, a quase 8.850 metros de altitude, e tornar-se o israelense mais jovem a alcançar o topo da montanha. Porém, quando estava a aproximadamente 300 metros do cume, Nadav encontrou Aydin Irmak, um alpinista de 46 anos, que ele havia conhecido anteriormente no acampamento. Irmak estava voltando do cume quando passou mal e ficou caído na montanha, em condições extremas. Segundo o relato de Nadav, ele estava inconsciente, sem oxigênio, sem luvas e sem outros equipamentos essenciais. Nadav também contou que havia passado por dois corpos de alpinistas mortos antes de encontrar Irmak.
 
Nadav sabia que estava muito perto de realizar seu sonho. Mesmo assim, decidiu interromper sua própria subida e ajudar Irmak. Ele próprio descreveu sua decisão como “automática”. Disse que, naquele momento, não pensou na nacionalidade de Irmak, nem na glória de alcançar o cume. Pensou apenas que poderia salvar uma vida.
 
Nadav iniciou então a descida com Irmak. Segundo seu relato, ele prendeu o alpinista ao seu próprio equipamento e passou horas ajudando-o a descer até um acampamento em uma altitude mais baixa. A descida levou aproximadamente nove horas e, durante o percurso, Irmak alternava momentos de consciência e inconsciência. Durante a descida, Nadav ainda encontrou outro alpinista, da Malásia, em estado crítico, e conseguiu chamar a atenção de um grupo que subia para que lhe fornecessem oxigênio.
 
Nadav sofreu graves queimaduras causadas pelo frio, com vários dedos das mãos e dos pés afetados, e quase foi necessário amputá-los. Irmak também sofreu congelamento, mas ambos se recuperaram.
 
Nadav não chegou ao cume naquele dia. Ele abriu mão da possibilidade de realizar seu grande sonho para salvar uma pessoa em perigo. Irmak, por sua vez, declarou que, sem Nadav, teria morrido na montanha, e os dois passaram a se referir um ao outro como “irmãos”. Meses depois, Nadav foi homenageado pelo presidente de Israel, Shimon Peres, recebendo uma importante condecoração por sua atuação no resgate.
 
No Everest, a montanha mais alta do mundo, Nadav estava a poucos minutos de realizar um sonho que havia perseguido por anos. Mas, naquele momento, diante de uma vida humana em perigo, decidiu que havia algo mais importante do que chegar ao topo. Naquele dia, gigante de verdade não foi a montanha, foi Nadav”.
 
É isso o que D’us espera de nós, e é isso o que a Torá nos ensina: devemos ser capazes de colocar o que é correto acima dos interesses pessoais, o dever acima do conforto e o bem do próximo acima da nossa própria fama.

 

Nesta semana o Shabat coincide novamente com mais uma Festa do Calendário Judaico: Shemini Atseret, literalmente “O oitavo, dia da parada”. Apesar de Shemini Atseret vir logo depois de Sucót, sendo considerado o “oitavo dia de Sucót”, esta é uma Festa independente, com seus próprios simbolismos e significados. A prova disso é que em Shemini Atseret já não temos mais as Mitsvót da Sucá e dos Arbaat Haminim. Em Erets Israel, também neste dia comemoramos Simchat Torá, data na qual nossos sábios decidiram terminar o ciclo de leitura anual da Torá. Fora de Erets Israel, Simchat Torá é comemorado no dia seguinte (Yom Tov Sheni Shel Galuiot).
 
Em Simchat Torá nós lemos a última Parashá da Torá, Vezót HaBrachá, que traz as Brachót de Moshé Rabeinu para cada uma das Tribos, em seu último dia de vida. É uma Parashá que normalmente não é muito explorada, justamente por ser lida em um dia de danças e alegrias. Mas há ensinamentos muito preciosos, versículos que escondem mensagens muito profundas, verdadeiras joias que não podemos desperdiçar.
 
Por exemplo, Moshé elogiou a Tribo de Levi: “Que disse a respeito de seu pai e de sua mãe: “Não os vejo”; não reconheceu seus irmãos, nem conheceu seus filhos, pois eles observaram a Sua palavra e guardaram o Seu pacto” (Devarim 33:9). Mas o que nos ensinam estas palavras tão enigmáticas? Levi não era justamente a Tribo das pessoas mais elevadas espiritualmente, que se dedicavam ao estudo da Torá e ao autoaprimoramento? Então o que significa que eles “ignoraram seus pais, irmãos e filhos”?
 
O Rav Yochanan Zweig shlita explica que este versículo talvez possa nos ajudar a responder outro questionamento interessante. Nossos sábios (Avót 5:3) ensinam que Avraham Avinu foi submetido a dez testes de Emuná, e que teve sucesso em todos eles. De acordo com a maioria dos comentaristas, o último e mais difícil desses testes foi a Akeidá, quando Avraham foi ordenado por D’us a oferecer seu amado filho Yitzchak como um Korban. Mas surge um questionamento quando consideramos que este foi o teste mais difícil de Avraham. Embora, sem sombra de dúvidas, suas ações tenham representado uma expressão monumental de Emuná, elas não foram, de forma alguma, algo sem precedentes. Ao longo da história, até os dias atuais, muitas religiões exigiram de seus seguidores que provassem sua fé sacrificando seus próprios familiares. Inclusive, uma das idolatrias da época de Avraham Avinu, chamada “Molech”, consistia justamente em passar o próprio filho por uma fogueira. Então o que foi considerado tão especial e único no ato de Avraham?
 
O questionamento aumenta ainda mais quando entendemos as palavras de Moshé sobre a Tribo de Levi. De acordo com Rashi, a Tribo de Levi ter “ignorado” seus pais, irmãos e filhos demonstra que eles não demonstraram nenhum favoritismo. Isso se refere à resposta demonstrada pela Tribo de Levi quando Moshé convocou ajuda para eliminar aqueles que haviam adorado o Bezerro de Ouro. Sem levar em consideração os laços familiares, a Tribo de Levi matou todos aqueles que haviam cometido idolatria. Isso significa que também os homens de Levi tiveram a força de “sacrificar” seus próprios familiares. Então, qual foi a façanha incomparável realizada pelo nosso Patriarca Avraham?
 
A continuação das palavras de Moshé talvez traga uma resposta. O versículo afirma que a Tribo de Levi guardou o pacto de D’us. Rashi explica que isso se refere ao Brit Milá de seus filhos. O Talmud (Yevamot 71b) ensina que, durante todo o período em que permaneceram no deserto, os judeus deixaram de realizar o Brit Milá, pois temiam que o cansaço das viagens e as condições climáticas do deserto não permitissem que os ferimentos cicatrizassem, considerando que, portanto, a situação era de Pikuach Nefesh, ou seja, risco de vida. A única Tribo que continuou fazendo o Brit Milá em seus filhos foi a dos Leviim. Portanto, eles mantiveram o pacto.
 
Logo em seguida, o versículo ensina: “Eles ensinarão Teus julgamentos a Yaakov e Teu ensinamento a Israel” (Devarim 33:10). Isso significa que os Leviim seriam futuramente os juízes e professores de Torá do povo judeu. Mas qual foi o mérito dos homens da Tribo de Levi para terem sido os escolhidos para cargos de tanta importância e responsabilidade? Rashi explica que isso ocorreu “pois eles demonstraram sua dignidade”. O que significam estas palavras de Rashi? E qual é a conexão entre os três conceitos mencionados por Moshé na Brachá para a Tribo de Levi: as ações de aplicação da justiça após o Bezerro de Ouro, seu compromisso de fazer o Brit Milá em seus filhos mesmo no deserto e o fato de se tornarem professores e juízes do povo judeu?
 
O Rav Chaim ben Atar zt”l (Marrocos, 1696 - Israel, 1743), mais conhecido como Ohr HaChaim HaKadosh, explica que, ao demonstrarem firmeza e objetividade no cumprimento de seu dever, sem qualquer parcialidade, eles provaram ser dignos de se tornarem professores e juízes do povo judeu. A Torá está elogiando Levi por sua capacidade de se desconectar das fragilidades emocionais que obscurecem a capacidade de uma pessoa de tomar decisões imparciais e objetivas. Foi essa mesma qualidade que lhes permitiu superar o medo natural que um pai sente quando seu filho é submetido ao Brit Milá, principalmente quando isso precisa ser feito em condições adversas. Ao se “desligarem” emocionalmente de seus filhos, eles conseguiram agir de uma maneira que, de outra forma, seria impossível para um pai tomar esta atitude. Essa é justamente a técnica psicológica empregada pelos seguidores de outras religiões ao sacrificarem seus filhos em nome de uma “causa maior”: promover a desconexão emocional da pessoa com sua família.
 
Porém, com Avraham foi diferente. A Torá enfatiza que, quando Avraham foi ordenado a sacrificar seu filho, sua obediência não foi acompanhada por qualquer sinal de rompimento desse relacionamento; pelo contrário, ele demonstrou seu grande amor por Yitzchak. O Midrash, inclusive, relata que lágrimas escorriam de seu rosto enquanto ele preparava a faca para realizar o sacrifício. A grandeza do nosso Patriarca se manifesta em sua capacidade de realizar um ato que contrariava a própria natureza de uma relação entre pai e filho, mas sem se desligar emocionalmente de seu filho. A capacidade de cumprir a vontade de seu Criador sem qualquer conflito interior é o que torna as ações de Avraham incomparáveis.
 
Logo após terminarmos o ciclo de leitura da Torá em Simchat Torá, imediatamente recomeçamos a leitura do Sefer Bereshit, demonstrando o amor por todos os ensinamentos Divinos contidos na Torá. Com paixão, recomeçamos a leitura da Torá, para voltarmos mais uma vez ao início, à Criação do mundo e à formação do povo judeu por meio dos incríveis atos dos nossos Patriarcas. A Torá é a nossa vida, a nossa fonte de conhecimento, o que pode nos levar à perfeição. É por isso que em Simchat Torá dançamos abraçados à Torá. Quando estudamos sobre os Patriarcas, não são apenas histórias bonitas para contarmos aos nossos filhos. São ensinamentos de vida, de como devemos conduzir nossas vidas. Somente com estes ensinamentos conseguiremos, diante dos testes da vida, tomar as decisões corretas, racionalmente, e não emocionalmente.

SHABAT SHALOM E CHAG SAMEACH

R’ Efraim Birbojm

 

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