| Nesta semana começamos o terceiro Livro da Torá, Vayikrá, que foca no Serviço espiritual e em assuntos de pureza e impureza. No final do Sefer Shemot, a Torá descreveu a construção do Mishkan, o Templo Móvel, onde a Presença de D'us repousaria e o povo judeu poderia, através dos Cohanim, fazer seus Serviços espirituais. A Parashat desta semana, Vayikrá (literalmente "E chamou"), vem justamente descrever em detalhes um dos principais Serviços espirituais do povo judeu, considerado um dos pilares que sustenta o mundo: os Korbanót. Quando D'us quis começar a transmitir a Moshé as leis dos Korbanót, o convocou para que entrasse no Ohel Moed, como está escrito: "E Ele chamou a Moshé, e D'us falou com ele do Ohel Moed" (Vayikrá 1:1). Este versículo inicial da Parashá, apesar de parecer trivial, contém informações importantes sobre o valor de Moshé. O Midrash nos ensina a diferença entre os profetas do povo judeu e os profetas das nações. D'us não se revela às nações do mundo a não ser por meio de uma fala incompleta, como está escrito: "E D'us apareceu para Bilaam" (Bamidbar 23:4). O versículo utiliza a expressão "Vayikar", da mesma raiz da palavra "Mikrê", que significa um encontro casual. Mas para os profetas do povo judeu, D'us se revela com uma fala completa, como está dito: "E Ele chamou a Moshé", utilizando a expressão "Vayikrá". Além disso, a linguagem "Vayikar", como os profetas das nações eram convocados, está associada à impureza, como em "Mikrá Laila", uma impureza noturna (Devarim 23:11). Mas os profetas do povo judeu são convocados por D'us com uma linguagem de santidade, pureza e claridade, a mesma linguagem com a qual os anjos louvam D'us, como descrito pelo profeta: "E chamou um ao outro e disse" (Yeshayahu 6:3), onde é utilizada a linguagem "Vekará". Além disso, nossos sábios aprofundam ainda mais as diferenças entre Moshé e os profetas das nações. Enquanto os profetas tinham visões limitadas, através de nove "espelhos" (Aspaklariót), como se fossem filtros, que exigiam que a mensagem fosse decifrada e interpretada, Moshé tinha suas visões através de um único "espelho". Enquanto os profetas tinham suas visões através de um espelho turvo, Moshé via através de um espelho límpido, como está dito: "Não é assim com o Meu servo Moshé... Com ele Eu falo boca a boca; de forma clara, sem enigmas, e ele contempla a imagem de D'us" (Bamidbar 12:7,8). Percebemos quantas fontes da Torá demonstram a grandeza de Moshé, mesmo comparado aos maiores profetas das nações do mundo. Normalmente as pessoas muito grandes permitem que o sucesso suba à cabeça e se tornam arrogantes, olhando para os outros com desdém. Isso é muito comum ocorrer com artistas ou esportistas que se destacam em suas profissões. Mesmo pessoas sem grande valor social podem se comportar com extrema arrogância após alguns poucos momentos de fama. A Torá nos ensina que a grandeza verdadeira é justamente o contrário, é uma grandeza que vem junto com a humildade, como é o caso de Moshé. Ao lado da inigualável grandeza de Moshé, como descrita anteriormente, encontramos também sua humildade excepcional. O Midrash nos ensina que quando D'us se revelou a Moshé na sarça ardente, Moshé escondeu o rosto. D'us lhe disse: "E agora, vai; Eu te enviarei ao Faraó, e você tirará o Meu povo, os filhos de Israel, do Egito" (Shemot 3:10). D'us queria dizer que se ele não os salvasse, ninguém mais os salvaria. No Mar Vermelho, Moshé permaneceu de lado, até que D'us lhe disse: "Você, estenda a sua vara sobre o mar, e dividam-se as águas, e entrem os Filhos de Israel pelo meio do mar em terra seca" (Shemot 14:16). Novamente D'us quis dizer que se Moshé não abrisse o mar, ninguém o abriria. No Monte Sinai, Moshé também ficou de lado, até que foi chamado: "Suba a D'us" (Shemot 24:1), o que significava que se ele não subisse, ninguém mais subiria. Também no Ohel Moed ele permaneceu afastado até que D'us lhe disse: "Até quando você se rebaixará? Este momento espera apenas por você!". E de todo o povo judeu, apenas Moshé foi chamado de forma explícita: "E Ele chamou a Moshé, e D'us falou com ele do Ohel Moed" (Vayikrá 1:1). Também no Midrash encontramos sobre a humildade de Moshé: "Está escrito: 'A arrogância do homem o rebaixa, mas o humilde alcança honra' (Mishlei 29:23). Todo aquele que foge da honra, a honra o persegue. Moshé fugiu da honra quando disse: 'Quem sou eu para ir ao Faraó?' (Shemot 3:11), 'Por favor, envia por meio de outro' (Shemot 4:13), 'Não sou homem de palavras' (Shemot 4:10). D'us lhe disse: "Eu te garanto que será você que irá". Depois de cumprir sua missão, Moshé pensou que havia terminado seu trabalho, mas D'us continuou enviando-o repetidamente para outras missões. No final, foi ele que tirou o povo de Israel do Egito, abriu o mar, trouxe o Man, fez subir a água do poço, trouxe as codornizes para alimentar o povo, envolveu-os com as Nuvens de Glória e construiu o Mishkan. Mesmo assim, ele pensou: "Agora não há mais nada para eu fazer", e sentou-se. D'us lhe disse: "Você ainda tem uma grande missão: ensinar as leis de pureza e impureza, e como oferecer os Korbanót". Assim se cumpriram as palavras: 'O humilde será sustentado pela honra', isto se refere a Moshé, sobre quem está escrito: 'Você o coroou com honra e glória' (Tehilim 8:6)". Há um detalhe interessante na palavra "Vaikrá". A última letra, o "Alef", está escrita um pouco menor que as outras letras. Por que esta diferença? Explica o Rav Yaakov ben Asher zt"l (Alemanha, 1269 - Espanha, 1343), mais conhecido como Baal HaTurim, que Moshé queria escrever "וַיִּקָּר" (Vayikar), como no caso de Bilaam, indicando apenas um encontro casual, como se D'us não tivesse aparecido para ele de forma especial. Porém, D'us não concordou com Moshé e ordenou explicitamente que ele escrevesse a palavra completa, "Vayikrá", demonstrando que era um chamado único e especial. Ainda assim, Moshé encontrou uma forma de diminuir sua própria honra, escrevendo o Alef pequeno. Explica o Rav Meir Rubman zt"l (Lituânia - Israel, 1967) que o comportamento de Moshé era algo extraordinário. Sua profecia era superior à de todos os outros profetas, e ainda assim ele quis se apresentar como se estivesse no nível de Bilaam! A grandeza de Moshé não era apenas aos olhos das pessoas, mas também aos olhos de D'us, e ainda assim ele conseguia se manter humilde. Quão tolos são os que correm atrás da honra e da arrogância. Quanto mais tentam se engrandecer, mais se rebaixam, como está escrito: "A arrogância do homem o rebaixa" (Mishlei 29:23). Este foi também o fim de Bilaam. No início, ele se exaltava, como está escrito: "Ele ergueu sua parábola e disse: 'A palavra de Bilaam, filho de Beor, a palavra de um homem de olhos abertos. A palavra daquele que ouve os ditos de D'us e percebe os pensamentos do Altíssimo; que vê a visão do Todo-Poderoso" (Bamidbar 24:15,16). Mas, no final, caiu tanto que disse: "Que a minha alma morra a morte dos justos, e que o meu fim seja como o deles" (Bamidbar 23:10). O Targum Yerushalmi explica que Bilaam quis dizer "mesmo como o menor entre eles". Às vezes pensamos que pessoas são grandes por seus atos exteriores, mas logo a verdade vem à tona e o verdadeiro nível da pessoa é revelado. Bilaam se considerava um pilar do mundo e exigia que todos o honrassem, mas foi humilhado publicamente por um burro falante. Já Moshé fugia de qualquer tipo de honraria. Se rebaixava perante D'us e perante as pessoas. Quando era humilhado publicamente, como aconteceu com Korach e seus seguidores, ainda assim ele buscava a paz e o diálogo. Moshé fugiu da honra, mas a honra o alcançou. Os arrogantes podem ter seus quinze minutos de fama, mas é dos humildes a fama e o reconhecimento eternos. SHABAT SHALOM R' Efraim Birbojm |