quinta-feira, 23 de abril de 2026

DOIS BODES E DOIS DESTINOS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHIÓT ACHAREI MOT E KEDOSHIM 5786

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PARASHAT ACHAREI MÓT
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  • O Serviço de Yom Kipur.
  • Sacrifício de animais fora do Mishkan.
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  • Mitzvá de cobrir o sangue derramado na Shechitá.
  • Viva pelas Mitzvót
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  • Idolatria de Molech
  • Outras Relações Proibidas.
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  • Proibição de Idolatria.
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DOIS BODES E DOIS DESTINOS - PARASHIÓT ACHAREI MOT E KEDOSHIM 5786 (24/abr/26)

“Yossef e Simcha eram dois amigos aventureiros que partiram juntos em uma longa jornada. No início, caminhavam lado a lado, conversando e compartilhando expectativas. Após algum tempo, porém, chegaram a uma bifurcação. Um caminho era largo, bem pavimentado e agradável aos olhos. O terreno era regular, como se convidasse as pessoas a seguirem por ali sem esforço. O outro caminho, porém, era estreito, íngreme, cheio de pedras e curvas. Já de longe parecia exigir esforço, paciência e resistência.
 
Yossef não gostava muito de se esforçar. Sem hesitar, escolheu o caminho fácil. Virando-se para Simcha, sorriu com ironia e disse: “Para que complicar? Veja como este caminho é melhor. É muito mais fácil e agradável”.
 
Simcha não estava assim tão convencido. O caminho difícil realmente não era atraente, mas havia algo nele que parecia mais verdadeiro. Acabou escolhendo o segundo caminho, e os amigos se separaram. 
 
No início, parecia claro quem havia feito a escolha certa. Yossef avançava rapidamente. O caminho era confortável, quase prazeroso. Ele caminhava com leveza, sem obstáculos, sem esforço. De vez em quando, olhava para o outro caminho e, ao ver Simcha subindo com dificuldade, gritava: “Seu tolo! Você escolheu sofrer à toa!”.
 
No outro caminho, Simcha realmente avançava devagar e às vezes até escorregava. Como cada passo exigia esforço, precisava parar para recuperar o fôlego. O caminho parecia piorar. Mesmo assim, ele continuava.
 
O tempo passou. A estrada fácil de Yossef começou, quase imperceptivelmente, a descer. No início, isso parecia até uma vantagem, pois envolvia ainda menos esforço e mais velocidade. Mas a descida foi se tornando cada vez mais acentuada, mais rápida, mais difícil de controlar. Até que, de repente, o caminho simplesmente terminou. Sem aviso, sem saídas. Um abismo profundo se abriu diante dele.
 
Já o caminho de Simcha, embora difícil, continuava subindo. Curva após curva, pedra após pedra, ele levava Simcha cada vez mais alto. Até que, finalmente, após muito esforço, o caminho se abriu. Diante dele havia uma cidade, linda, segura, iluminada. Um lugar de estabilidade e propósito. Naquele momento, ficou claro que não era questão de quem avançava mais rápido ou de forma mais confortável, e sim para onde cada caminho levava.”
 
Nem todo caminho fácil leva a um bom destino, e nem todo caminho difícil representa uma perda.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Acharei Mót (literalmente “Depois da morte”) e Kedoshim (literalmente “Sagrados”). A Parashá Acharei Mót descreve os Serviços do Cohen Gadol no dia mais solene e sagrado do ano: Yom Kipur, o Dia do Perdão, no qual podemos nos arrepender dos nossos erros e receber expiação. Já a Parashá Kedoshim traz dezenas de Mitzvót, principalmente “Bein Adam Lechaveiro”, nos ensinando que a santidade verdadeira não está nos grandes atos, e sim nos pequenos detalhes do cotidiano.
 
Na Parashat Acharei Mót, a Torá descreve uma cerimônia muito enigmática. Dois bodes eram trazidos diante do Cohen Gadol e sorteados. Um seria escolhido “Para Hashem” e o outro “Para Azazel”. Após este sorteio, cada um dos bodes tomava um rumo diferente. Enquanto um era oferecido no Mizbeach, o outro era atirado do alto de um penhasco. Mas o que esta cerimônia nos ensina? Qual é a mensagem que D’us está transmitindo também para as futuras gerações que já não podem mais cumprir esta Mitzvá na prática?
 
O Rav Shimshon Refael Hirsch zt”l (França, 1808 - Alemanha, 1888) nos ensina que, a partir da descrição da Mitzvá realizada com os dois bodes e todos os seus detalhes, é possível extrair um conceito profundo. Ambos os bodes deveriam ser iguais na aparência, na altura, no valor e deveriam ser adquiridos juntos. Porém, a sorte determinava o destino dos dois bodes e, a partir daquele momento, seus caminhos se separavam.
 
O bode sobre o qual caia a sorte “Para Hashem” era oferecido como um Korban. Ele era abatido com santidade e pureza. Seu sangue era recolhido em um recipiente e levado ao interior do Kodesh Hakodashim, onde era aspergido entre as barras do Aron Hakodesh. Depois, o sangue era aspergido também sobre a Parochet, a cortina que ficava diante do Kodesh Hakodashim, e sobre o Mizbeach de ouro. Sua carne era queimada fora do acampamento, em um lugar puro.
 
O segundo bode, porém, não era oferecido como Korban, e “permanecia vivo”. Se esse bode tivesse pensamentos, provavelmente se alegraria por ter recebido a sorte de permanecer vivo e não ser abatido e queimado. Comparando sua situação com a de seu companheiro, ele se sentiria orgulhoso. Ele olharia para o outro e diria: “Vejam a diferença entre nós dois: ele subiu ao Mizbeach sagrado, mas perdeu a vida, enquanto eu estou vivo!”. E quando o conduzissem em direção às montanhas fora de Jerusalém, aumentaria ainda mais seu orgulho, enchendo-se de alegria por “merecer” sair do espaço restrito do Beit Hamikdash e caminhar, acompanhado de pessoas importantes, no “mundo livre” do deserto. O auge de sua realização seria quando o levassem até o topo do penhasco. Lá de cima, com o nariz empinado, lançaria mais um olhar de desprezo e até de “dó” por seu companheiro já abatido.
 
É claro que, se esse bode soubesse a verdadeira razão pela qual havia sido levado até ali e se percebesse o que estava prestes a lhe acontecer, não se entregaria a esses pensamentos ilusórios. Um empurrão desde a encosta íngreme o faria cair e, ao chocar-se com a montanha, suas ilusões e seus membros se despedaçariam e se espalhariam por toda parte. Somente então todos entenderiam quem era o verdadeiramente afortunado.
 
Essa descrição da Torá sobre os dois bodes representa a dinâmica do livre-arbítrio. Dois caminhos iguais estão abertos diante de cada judeu. Um é o caminho da Torá e das Mitzvót, que conduz aqueles que o seguem a se aproximarem de D’us. O segundo é o caminho daqueles que vivem uma vida vazia, cheia de desejos e materialismo, distantes do estudo da Torá e do cumprimento das Mitzvót. O primeiro caminho exige, às vezes, sacrifícios: abrir mão de certos desejos e aceitar limitações impostas pelas leis da Torá. Mas tudo vale a pena quando considerado à luz do nosso verdadeiro objetivo: nos aproximar de D’us. De fato, aqueles que seguem o caminho de D’us alcançam a verdadeira felicidade, neste mundo e no Mundo Vindouro. Mas aqueles que escolhem o caminho da libertinagem e do desejo, embora pareça que vivem uma vida livre e cheia de prazeres, seu fim é ruim e amargo. Às vezes, parece que eles estão certos e que suas vidas são mais belas e agradáveis. Mas, assim como o “sucesso” do bode “Para Azazel” desaparece rapidamente ao rolar do alto do penhasco, também a prosperidade dos perversos é passageira.
 
Trazer esses dois bodes em Yom Kipur nos lembra da luta eterna que ocorre dentro de cada um de nós. O Yetzer Hará tenta conduzir o homem pelo caminho do bode “Para Azazel”, enquanto o Yetzer Hatov o incentiva a subir pelo caminho que leva à Casa de D’us. A lição que devemos extrair dessa imagem é a clara compreensão de que o florescimento dos perversos é apenas momentâneo, mas seu fim é extremamente amargo. Já o Tzadik “florescerá como a tamareira” (Tehilim 92:13), pois mesmo que seus frutos demorem a surgir, ainda assim se cumprirá nele as palavras: “Ainda produzirão frutos na velhice, serão viçosos e vigorosos” (Tehilim 92:15)
 
O tema dos dois bodes também pode servir para nós como um exemplo de como nosso comportamento durante Yom Kipur pode mudar completamente a nossa eternidade. Segundo o Rav Yossef Tzvi Salant zt”l (Lituânia, 1786 - Israel, 1866), a Torá ordena que ambos os bodes fossem iguais no início, mas no final tornavam-se completamente diferentes. Um deles se elevava ao nível mais alto possível para um Korban. Em contraste, o segundo era enviado a um local desolado e seu fim era o despedaçamento de seus membros contra as rochas, um destino desonroso que jamais seria dado a um Korban.
 
Uma situação semelhante pode ocorrer também entre duas pessoas que estão no mesmo nível e são semelhantes em todos os aspectos. Um deles aproveita o dia sagrado de Yom Kipur e faz Teshuvá completa, se arrependendo de seus pecados com todo o coração. Se sua Teshuvá é por amor, seus pecados intencionais tornam-se méritos. A esse tipo de pessoa alude o bode “Para Hashem”, que entra no Kodesh Hakodashim, o centro da Presença Divina. Seu companheiro, por outro lado, não desperta para fazer Teshuvá nem mesmo em Yom Kipur. Embora o cálculo de seus pecados e méritos seja exatamente igual ao do primeiro, a perda dessa oportunidade extraordinária de fazer Teshuvá em Yom Kipur inclina a balança para o lado negativo, e ele é inscrito entre os perversos. Como uma transgressão leva a outra, ele vai se afastando de D’us e de Sua Torá, até que seu fim será a destruição. A isso alude o bode enviado “Para Azazel”, uma terra de desolação.
 
Da Mitzvá dos bodes devemos refletir e extrair um importante ensinamento de vida: assim como inicialmente não era possível distinguir qual bode seria “Para Hashem” e qual seria “Para Azazel”, assim também ocorre com as pessoas que estão lado a lado em Yom Kipur. Não é possível perceber quem viverá e quem morrerá, quem será destinado para D’us e quem para Azazel. Somente D’us conhece nossos pensamentos e intenções. Ele conhece os segredos de cada ser e recebe todo aquele que retorna de coração, que se aproxima e se conecta a Ele. E, através disso, essa pessoa merece vida verdadeira e uma existência voltada a fazer o bem, todos os seus dias.
 

SHABAT SHALOM

R’ Efraim Birbojm

 

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NÃO SÃO APENAS PALAVRAS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHIÓT TAZRIA E METSORÁ 5786

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NÃO SÃO APENAS PALAVRAS - PARASHIÓT TAZRIA E METSORÁ 5786 (17/abr/26)

Don Alfonso trabalhava no palácio do rei como escriba oficial. Sua função era de enorme responsabilidade, pois ele redigia os decretos reais, documentos que podiam determinar o destino de uma pessoa, inclusive decisões de vida ou morte. Cada palavra que ele escrevia carregava um grande peso. Cada assinatura representava autoridade, pois, ao final de cada documento, vinha o selo do rei, o símbolo máximo de poder.
 
No início, Don Alfonso exercia sua função com temor e responsabilidade. Suas mãos até tremiam quando escrevia, consciente de que não estava lidando simplesmente com tinta e papel, mas com o destino de muitas vidas. Porém, com o passar do tempo, a rotina tornou tudo comum e ele começou a negligenciar sua responsabilidade. E aquilo que antes lhe inspirava reverência passou a parecer sem importância.
 
Em certos momentos de tédio, quando o palácio estava silencioso e não havia nada para fazer, Don Alfonso começou a brincar com sua própria função. Pegava folhas em branco, redigia decretos fictícios e escrevia ordens como se tivessem sido ordenadas pelo rei. E então, com um sorriso leve, como uma criança levada, caminhava até a janela alta do palácio e lançava os papéis ao vento. As folhas voavam, giravam no ar e desapareciam entre as ruas da cidade. Ele pensava consigo mesmo: “Que mal isso pode fazer? São apenas palavras vazias. Não têm consequência alguma”.
 
Dia após dia, ele repetia esse comportamento, sempre com a mesma leviandade, com a certeza de que nada daquilo teria consequências negativas. Até que, algum tempo depois, coisas estranhas começaram a acontecer no reino. Primeiro, de forma sutil. Um homem foi preso sem explicações claras. Depois, outro teve suas propriedades confiscadas sem justificativas. Mais adiante, surgiram relatos ainda mais graves, de punições severas sendo executadas com base em ordens oficiais. O clima na cidade mudou. Medo e insegurança começaram a se espalhar. Ninguém entendia de onde vinham aquelas decisões. Os oficiais, quando questionados, respondiam com convicção: “Estamos apenas cumprindo decretos do rei”.
 
O rei, preocupado, pediu que fosse iniciada uma investigação, até que a verdade veio à tona: alguns daqueles papéis lançados ao vento por Don Alfonso haviam sido encontrados por pessoas da cidade. Pensando que se tratavam de documentos verdadeiros, entregaram aos oficiais. Ao recebê-los, os oficiais consideraram que eram ordens autênticas e as executaram com total seriedade, pois carregavam a autoridade da assinatura real.
 
Don Alfonso foi imediatamente levado diante do rei. Agora, não havia mais aquele sorriso infantil em seu rosto. Ele tremia e gaguejava: “Eu... eu nunca quis que isso acontecesse... eu só estava brincando... eram apenas palavras...”. O rei o olhou fixamente, demonstrando a gravidade da situação, e disse:
 
- Você escreve com a minha assinatura, e ainda assim acha que suas palavras são apenas vento?”
 
O mesmo ocorre quando usamos uma das ferramentas mais importantes que D’us nos deu - a fala - de forma leviana, sem nos importarmos com as consequências, pensando: “Que mal pode fazer? São apenas palavras...”. A fala é como uma “assinatura de D’us”, algo que Ele deu apenas ao ser humano. Utilize-a de forma consciente.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Tazria (literalmente “Concebe”) e Metsorá (literalmente “Pessoa acometida por Tsaráat”). Ambas falam sobre a Tsaráat, uma doença espiritual cujo sintoma eram manchas brancas que apareciam na pele, e era causado por diferentes transgressões. Quando as manchas apareciam, a pessoa deveria procurar um Cohen para que ele diagnosticasse se realmente era Tsaráat ou não.
 
Uma das principais causas da Tsaráat era o Lashon Hará, difamar outra pessoa e, através disso, causar-lhe danos, que podem ser monetários, psicológicos, físicos e até mesmo espirituais. Infelizmente, o Lashon Hará é algo muito “natural” em nossa sociedade. Jornalistas não se importam em expor pessoas sem investigar se as informações são verdadeiras e sem medir as consequências de suas revelações. O pior é que este tipo de jornal e programa de televisão sensacionalista é extremamente bem-sucedido em atrair público. Afinal, quem não gosta de uma boa fofoca? Por isso, estamos tão acostumados com o Lashon Hará que já não temos nenhum “freio” em nossa boca. Tratamos com leviandade algo que é muito sério e que pode ter consequências negativas graves.
 
Por exemplo, o Midrash ensina algo impactante em relação ao Lashon Hará: “Há aqueles que pecam na terra, mas não pecam nos Céus; há aqueles que pecam nos Céus, mas não pecam na terra; porém, aquele que fala Lashon Hará peca tanto nos Céus quanto na terra, como está escrito: ‘Eles colocam sua boca nos Céus, e sua língua percorre a terra’ (Tehilim 73:9)”. O Midrash revela a gravidade extraordinária do pecado de Lashon Hará: quem o transgride causa danos tanto nos mundos superiores quanto nos mundos inferiores. Mas o que significa pecar nos Céus e pecar na terra?
 
O Rav Yossef Dov Soloveitchik zt”l (Bielorrússia, 1820 - 1892), mais conhecido como Beis HaLevi, explica que na geração do Dilúvio, a corrupção moral da humanidade foi tão intensa que influenciou até os animais e a própria terra. Isso ocorre porque a raiz do ser humano está ligada à terra, como está escrito “E D’us formou o homem do pó da terra” (Bereshit 2:7). Portanto, há uma interação entre o homem e o mundo físico. Pecados físicos, como imoralidade, cuja raiz está no corpo, afetam o mundo material. 
 
Por outro lado, os pecados que têm origem na mente e no intelecto, cuja raiz está na alma, causam destruição nos mundos superiores. O Talmud (Sanhedrin 96b) traz um ensinamento interessante sobre a destruição do nosso Templo Sagrado: “Uma Voz Celestial disse a Nevuchadnetzar: ‘Você queimou uma casa já queimada e moeu farinha já moída’”. Tanto Nevuchadnetar quanto Tito apenas destruíram a parte física do Beit Hamikdash. Porém, a parte espiritual, que é a verdadeira fonte de sustentação, já havia sido destruída. Explica o Rav Chaim Vologziner zt”l (Lituânia, 1749 - 1821) que Nevuchadnetzar e Tito, que não tinham acesso às fontes espirituais elevadas, não conseguiriam causar danos nos mundos superiores. Portanto, quem destruiu o Beit Hamikdash celestial foi o próprio povo judeu, através do Lashon Hará.
 
O poder da fala é único, pois ele representa a conexão direta entre o corpo e a alma. A Torá diz: “E D’us formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas uma alma de vida, e o homem tornou-se um ser vivo” (Bereshit 2:7). Unkelos, em sua tradução da Torá para o aramaico, traduziu o versículo como: “E o homem tornou-se um espírito falante”. Ou seja, a fala é a expressão da alma através das ferramentas do corpo.
 
O Rav Yitzchk Hutner zt”l (Polônia, 1906 – Estados Unidos,1980) explica que a fala é chamada de “Haflaá”, que significa “maravilha”, pois nela reside o fenômeno extraordinário da união entre o espiritual e o físico. Por isso, justamente na fala, o campo de escolha é tão intenso: “A vida e a morte estão nas mãos da língua” (Mishlei 18:21). O ser humano é composto de corpo e alma, e através das suas escolhas ele pode subir ou cair.
 
Com base nisso, o Midrash pode ser entendido de forma clara: “Há quem peque na terra” refere-se a pecados do corpo, tais como desejos, etc., que afetam os mundos inferiores; “há quem peque nos Céus” refere-se a pecados do pensamento, que afetam os mundos superiores; “mas quem fala Lashon Hará peca nos Céus e na terra”, pois a fala envolve simultaneamente o corpo e a alma.
 
O Rav Yitzchak Pinchas Goldwasser shlita vai além e diz que as manchas de Tsaráat vêm principalmente como consequência dos pecados da fala. O Midrash lista vários exemplos: prometer Tsedaká publicamente e não cumprir, falar Lashon Hará, fazer promessas e não cumprir, mentir, testemunhar falsamente, causar discórdia entre as pessoas (Rechilut) e zombaria. Por que justamente os pecados da fala recebem esse tipo de punição?
 
A singularidade do ser humano como “ser falante” é tão fundamental que o Talmud (Sanhedrin 99b) sugere que todo o propósito da criação do homem pode ser o uso da fala. A própria palavra “Medaber” (falante) é sinônimo de “ser humano”. Isso ocorre porque a fala deriva diretamente da “alma de vida” que D’us soprou no homem, algo que os animais não possuem. Portanto, quando alguém usa mal sua fala, isso revela desprezo pela própria essência espiritual que lhe foi concedida. Em outras palavras, em vez de ver sua alma como o essencial e a fala como a expressão da sua alma, a pessoa passa a enxergar o corpo como o principal, banalizando o seu potencial espiritual. Por isso, a correção é fazer com que o corpo se torne secundário aos olhos da pessoa.
 
As manchas de Tsaráat não tinham como objetivo principal causar dor física, mas sim quebrar o orgulho do corpo. O Midrash descreve que o aspecto do Metsorá se tornava repulsivo, tanto para os outros quanto para a própria pessoa acometida pela doença. Naquele estado deplorável, a pessoa era forçada a voltar-se para o seu interior. Ela começa a perceber que o corpo é apenas uma “roupa” temporária, que a aparência externa é passageira, e que o essencial é a alma, que permanece pura e intocada pela Tsaráat.
 
Essa é a verdadeira cura para o pecado da fala: quando o homem passa a se identificar com sua Neshamá, a “alma de vida”, ele automaticamente passa a valorizar e santificar o seu poder da fala. Em uma geração com tanta escuridão, até a menor luz se torna extremamente significativa. Que possamos santificar nossa fala, algo que carrega a “assinatura de D’us”, e possamos sempre falar com a responsabilidade que esta atividade exige.

SHABAT SHALOM

R’ Efraim Birbojm

 

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