quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

HONRANDO OS NOSSOS PAIS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BESHALACH 5786

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ASSUNTOS DA PARASHAT BESHALACH
  • Desvio da terra dos Plishtim.
  • O Faraó se arrepende e persegue os judeus.
  • A abertura do Mar.
  • A morte dos egípcios.
  • O Cântico do mar.
  • O Cântico das mulheres.
  • As águas amargas.
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HONRANDO OS NOSSOS PAIS - PARASHAT BESHALACH 5786 (30/Jan/26) 

O Rav Aharon Margalit shlita foi convidado para dar uma palestra em uma sinagoga, sobre o tema de "Kibud Av VeEm". Parte da palestra abordava a obrigação dos filhos de julgarem seus pais favoravelmente. Depois da palestra, um casal mais velho foi falar com ele. O marido, chamado Shmuli, respirou fundo e compartilhou com o rabino sua triste história. Ele contou que seu pai havia falecido dois meses antes. Ele deixou nove cópias do testamento: uma para cada um dos oito filhos, e a última foi entregue ao rabino da comunidade.
 
Após a Shivá, eles abriram o testamento, que detalhava todos os bens e posses do pai e como deveriam ser distribuídos. Quando chegou ao final da lista, Shmuli ficou paralisado, pois ele, o mais velho de todos os irmãos, não havia sido citado. Ele ficou absolutamente chocado, confuso e com um terrível sentimento de traição.
 
Shmuli sempre teve um excelente relacionamento com seu pai ao longo de toda a vida e, por isso, não entendia por que seu pai faria isso com ele. Os irmãos se davam muito bem, e um deles sugeriu simplesmente ignorar o testamento e redistribuir os bens incluindo Shmuli. No entanto, o próprio Shmuli recusou a ideia, dizendo que não queria receber nada que seu pai não quisesse que ele recebesse. Shmuli então disse ao rabino Margalit, com lágrimas nos olhos:
 
- Mais do que o aspecto financeiro, que me ajudaria muito, o que realmente me incomoda é não conseguir entender por que meu pai fez isso comigo. Desde aquele dia terrível em que lemos o testamento, eu não consigo comer, dormir nem trabalhar, por causa de todos os pensamentos horríveis que passam pela minha cabeça. Perdi 10 quilos e minha alegria de viver desapareceu. Eu não queria ir ao cemitério no Shloshim, mas meus irmãos me convenceram a ir com eles. Depois que eles saíram, fiquei lá sozinho e comecei a chorar, dizendo: "Pai, quero que você desça do Gan Eden e me diga por que fez isso comigo! Se você não vier, então me leve até você, porque eu não posso continuar assim". Esses pensamentos estão me consumindo completamente.
 
O rabino perguntou a Shmuli se ele tinha uma boa relação com o pai, e ele confirmou que eram muito próximos. O rabino então perguntou quantos filhos ele tinha. Ele disse que tinha doze filhos e já tinha casado todos eles. Ele também contou que havia enfrentado grandes dificuldades financeiras e confidenciava ao pai sobre os tempos difíceis que estava passando. O rabino perguntou se o pai o ajudava financeiramente. Shmuli respondeu:
 
- Meu pai era muito generoso. Ele me deu 50 mil dólares para o casamento de cada um dos meus filhos.
 
- Shmuli, preste atenção no que você está dizendo - falou o rabino, empolgado com o que acabara de descobrir - Isso significa que seu pai lhe deu 600 mil dólares. Pelo testamento, cada um de seus irmãos recebeu cerca de 300 mil dólares. Seu pai não apenas deu a você, ele lhe deu o dobro do que deu aos outros por você ser o primogênito!
 
Shmuli reconheceu a verdade no que o rabino estava dizendo. Ele então o abraçou e disse:
 
- Não tenho palavras para agradecer. Você acabou de tirar um peso enorme do meu coração. Só me pergunto por que meu pai não colocou isso no testamento.
 
- A pergunta é sobre você, não sobre ele - respondeu o rabino - Como você pôde deixar de perceber e valorizar tudo o que seu pai fez por você ao longo de sua vida? Ele lhe deu o dobro do que deu aos seus irmãos, e certamente acreditava que você jamais esqueceria disso. Seu problema de autoestima está explicado: você nunca conseguiu reconhecer de verdade o que seu pai fez por você.

Nesta semana lemos a Parashat Beshalach (literalmente "Quando enviou"), que começa descrevendo a saída triunfal do povo judeu do Egito. A Torá então nos conta que, quando o povo judeu estava saindo, enquanto as pessoas se preocuparam em pegar as riquezas dos egípcios, Moshé se envolveu pessoalmente no cumprimento de uma importante Mitzvá: a retirada do caixão de Yossef do Egito, para enterrá-lo na Terra de Israel, como está escrito: "Moshé levou consigo os ossos de Yossef, pois ele havia feito os filhos de Israel jurarem, dizendo: 'Certamente D'us visitará vocês, e então vocês levarão daqui com vocês os meus ossos" (Shemot 13:19).
 
Porém, se prestarmos atenção às palavras do versículo, uma questão óbvia é despertada. À primeira vista, a expressão "ossos" parece uma forma depreciativa de se referir ao corpo de um Tzadik. Por que a Torá não se referiu ao corpo de Yossef de uma maneira mais honrosa?
 
Sabemos que D'us julga cada pessoa de acordo com seu nível espiritual. Grandes Tzadikim são cobrados por desvios tão pequenos quanto um fio de cabelo, o que não ocorre com pessoas de nível espiritual inferior, que somente são cobradas por erros mais grosseiros. Na realidade, Yossef havia cometido um erro que, de acordo com o seu nível elevado, foi considerado algo grave. Quando os irmãos estiveram diante de Yossef, sem saber que ele era seu irmão, Yehudá referiu-se a Yaacov como sendo "nosso pai, seu servo". O Talmud (Sotá 13a) ensina que, pelo fato de Yossef ter permanecido em silêncio e permitido que Yehudá falasse dessa maneira a respeito de seu pai, Yossef passou a ser descrito como "ossos", inclusive ainda em vida.
 
Em outra afirmação sobre o mesmo episódio, o Talmud (Sota 13b) relata que, como punição por seu silêncio, Yossef perdeu dez anos de vida, e foi o primeiro entre os irmãos a falecer, apesar de ser um dos mais novos. Os dez anos de vida que ele perdeu são correspondentes às dez vezes em que ouviu seu pai ser chamado de "seu servo" e permaneceu em silêncio. Porém, o que nos chama mais a atenção é que ambas as afirmações do Talmud foram ditas em nome do mesmo sábio, o Rav Yehuda, o que aparentemente se configura como uma contradição. Por que Yossef teria sido punido duas vezes pelo mesmo erro?
 
O Rav Baruch HaLevi Epstein zt"l (Bielorrúsia, 1860 - 1941) explica que Yossef foi chamado de "ossos" pois, como um corpo descrito apenas como "ossos" indica que já ocorreu sua decomposição, a Torá utiliza esse termo como uma forma de punição a Yossef por sua falta de sensibilidade com a honra de seu pai.
 
Contudo, essa resposta é difícil de ser entendida, pois na Parashat Vayechi, Yossef se referiu a si mesmo como "ossos", como está escrito: "E Yossef fez os Filhos de Israel jurarem, dizendo: 'Certamente D'us os visitará, e vocês farão subir daqui os meus ossos" (Bereshit 50:25). Sendo assim, é impossível que o termo esteja sendo usado como punição, especialmente porque a referência trazida pelo Talmud de que Yossef foi chamado de "ossos" ainda em vida se refere justamente à ocasião em que ele próprio utilizou essa expressão para falar de si mesmo. Além disso, como o fato de Yossef ser chamado de "ossos" compensaria a desonra causada ao seu pai?
 
Responde o Rav Yochanan Zweig shlita que segundo o Talmud (Nidá 31a), os ossos de uma pessoa, que fornecem a estrutura física de seu corpo, são geneticamente transmitidos pelo pai. A palavra hebraica para "osso" é "etzem". A palavra "atzmiut", que descreve o senso de identidade essencial de uma pessoa, deriva da mesma raiz. Essa conexão indica que o indivíduo recebe do pai não apenas sua estrutura física, mas também sua estrutura psicológica básica, seu senso de identidade.
 
Esse senso de identidade se desenvolve quando a pessoa consegue se definir a partir de seus pais. Alguém que possui uma forte consciência de suas raízes encara a vida com mais confiança. Portanto, é fundamental identificar qualidades positivas em nossos pais às quais possamos aspirar, pois somente uma base sólida permite que nosso crescimento seja duradouro.
 
O erro de Yossef não resultou apenas em uma falta de honra em relação ao seu pai, mas também revelou uma falha na maneira como ele próprio se definia. Diminuir a estatura de seu pai indicava uma deficiência interna em si mesmo. Assim, quando Yossef percebeu que, por sua inação, havia possibilitado uma desonra ao seu pai, ele passou a se referir a si mesmo como "ossos". Uma vez que seus ossos e, em um nível mais profundo, sua própria identidade, provinham de seu pai, ele compensou essa falha definindo-se completamente a partir de seu pai. Agir dessa forma serviu tanto para reconhecer que ele havia desonrado seu pai quanto para corrigir a maneira como compreendia a si mesmo.
 
Conclui-se, portanto, que ser chamado de "ossos" não foi uma punição, mas sim a forma que Yossef encontrou para reparar sua falha. Consequentemente, não há contradição nos dois ensinamentos do Talmud, pois uma afirmação reflete a iniciativa de autocorreção de Yosef, enquanto a outra identifica sua punição.
 
Deste ensinamento fica um princípio importante para as nossas vidas. Temos a Mitzvá da Torá de honrar nossos pais. Uma das maneiras é sempre olhá-los de forma positiva e procurando suas qualidades, para que possamos sentir orgulho deles. Mas a Torá está nos ensinando algo incrível: a nossa própria personalidade será formada de acordo com a maneira como olhamos os nossos pais. Alguém que honra e admira seus pais tem muito mais chances de se tornar uma pessoa equilibrada e bem-sucedida. Procure sempre as qualidades e admire aqueles que nos deram o que temos de mais importante: a própria vida.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

 

Este E-mail é dedicado à Refua Shlema (pronta recuperação) de: Chana bat Rachel, Pessach ben Sima.
 
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

SOFRIMENTOS COM SIGNIFICADO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BÔ 5786

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ASSUNTOS DA PARASHAT BÔ
  • Gafanhotos: A 8ª Praga.
  • Escuridão: A 9ª Praga.
  • Preparativos para a Praga Final.
  • Rosh Chodesh.
  • Preparação do Cordeiro.
  • A Festa de Pessach.
  • Korban Pessach.
  • Morte dos Primogênitos: A Praga Final.
  • O Êxodo.
  • As Leis do Korban Pessach.
  • Deixando o Egito.
  • Relembrando o Êxodo.
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SOFRIMENTOS COM SIGNIFICADO - PARASHAT BÔ 5786 (23/jan/26)

Mark Borovitz nasceu em 1951, nos Estados Unidos, em uma família judia secular. Ele cresceu sem saber o que eram Mitzvót e nunca na vida havia estudado Torá nem participado da vida comunitária judaica. Quando era adolescente, sofreu uma perda marcante: a morte do pai, o "ponto de ruptura" que o deixou sem direção nem propósito. Com isso, ele se envolveu com a marginalidade urbana: roubos, golpes, fraudes e um ciclo de comportamento autodestrutivo que culminou em prisões repetidas e dependência de álcool e drogas.
 
No início da década de 1980, Borovitz estava preso no sistema penitenciário da Califórnia por utilizar cheques sem fundos e outros crimes. Foi nesse período que ele teve seu primeiro contato significativo com o judaísmo. Um dos prisioneiros que estava em sua cela, também judeu, apresentou-lhe ensinamentos da Torá que começaram a retratar sua própria situação: histórias de pessoas que erraram profundamente e depois se transformaram.
 
Quando foi libertado em 1988, Borovitz estava completamente transformado. Ele não havia desenvolvido apenas um interesse intelectual pelas tradições judaicas, mas a Torá passou a guiar suas decisões e sua identidade. Ele começou a trabalhar na "Beit T'Shuvah", um centro de reabilitação para dependentes químicos que combinava recuperação clínica com valores espirituais judaicos. Ele foi contratado para transmitir ensinamentos de Torá aos residentes do centro, pois sabia quanto esses conhecimentos haviam mudado sua vida. Agora ele queria oferecer a outros um caminho para superar os sofrimentos e a dependência por meio de valores espirituais. Ele iniciou serviços de Shabat, ensinava Torá e aplicava analogias das histórias da Torá à realidade dos participantes da reabilitação. As pessoas se identificavam com sua história pessoal, porque ele falava com honestidade sobre seus próprios erros e sofrimentos, e como isso o guiou ao encontro de um propósito espiritual.
 
Ele passou as décadas seguintes trabalhando não apenas com os residentes da "Beit T'Shuvah", mas também em contextos comunitários mais amplos, ajudando pessoas a encontrar sentido e sustentação espiritual em suas próprias lutas. Sua Teshuvá foi uma mudança interior profunda, ligada a um sofrimento real e à busca por significado que o conduziu a um compromisso de vida baseado na Torá. Sua trajetória demonstra que um sofrimento pessoal profundo pode ser um catalisador para reflexão, encontro de significado e transformação espiritual duradoura, levando não apenas à reconexão com práticas religiosas, mas também a uma vida dedicada a ajudar outros a superar suas próprias dores por meio de valores judaicos.

Nesta semana lemos a Parashat Bô (literalmente "Venha"), que traz as últimas três pragas que D'us mandou sobre os egípcios, quebrando completamente a resistência deles e culminando com a libertação do povo judeu. Há uma informação interessante, que não apareceu nas primeiras pragas, mas que se repete a partir da sexta praga: o endurecimento do coração do Faraó após ele não aguentar o sofrimento das pragas e decidir libertar o povo judeu. D'us aparentemente estava tirando o livre arbítrio do Faraó, como está escrito: "Pois Eu endureci o seu coração" (Shemot 10:1). Muitos comentaristas questionam: por que D'us endureceu o coração do Faraó, se isso tirou dele a possibilidade de libertar o povo judeu?
 
Podemos responder através de uma parábola. Um judeu estava em litígio com um vizinho não-judeu, e o caso chegou diante de um juiz antissemita. O judeu enviou secretamente ao juiz um belo presente. O juiz lhe perguntou: "Como você ousa me enviar suborno, se na sua Torá está escrito que é proibido subornar um juiz?". O judeu respondeu: "Se você fosse judeu e dois judeus viessem para um julgamento, sua opinião em relação a ambos seria equilibrada e, assim, o julgamento seria verdadeiro. Neste caso, se uma das partes desse um suborno, estaria inclinando o coração do juiz a seu favor e o julgamento penderia em seu benefício. Mas quando um judeu e um não-judeu estão diante de um juiz antissemita, a opinião do juiz não é equilibrada, pois o coração do juiz já está inclinado para o lado do não-judeu. Neste caso, o suborno fará a balança da justiça voltar a ficar equilibrada".
 
Esta parábola esclarece a questão do endurecimento do coração do Faraó. O verdadeiro desejo do Faraó era não libertar o povo judeu. Contudo, em razão do grande sofrimento que ele e seu povo experimentavam por causa das pragas, ele estava prestes a agir contra a sua própria vontade. Nessas condições, a libertação do povo judeu não seria considerada para o Faraó um arrependimento sincero, pois teria sido feito por coerção. Quando D'us endurecia o coração do Faraó, estava dando-lhe forças novamente. Desse modo, endurecer seu coração não foi para retirar o seu livre-arbítrio, ao contrário, foi para remover o temor das pragas, que desequilibrava suas decisões. Através do endurecimento do seu coração, o Faraó retornou à sua vontade própria, que era não libertar o povo judeu. Para que fosse considerado que o Faraó se arrependeu, isso deveria ser feito por sua escolha. Se ele fizesse apenas pelo temor das pragas, não seria eficaz para lhe trazer méritos e terminar com as pragas.
 
Ainda assim resta um grande questionamento. Nossos sábios explicam que o arrependimento é eficaz mesmo quando vem por força dos sofrimentos. Assim nos ensina o Talmud (Menachot 53b): "No momento em que o Templo foi destruído, D'us encontrou Avraham, que estava de pé no Templo, e disse para ele: "O que faz o Meu amado em Minha Casa?". Avraham respondeu: "Vim por causa dos assuntos dos meus filhos". D'us disse: "Seus filhos pecaram e foram exilados". Avraham tentou argumentar: "Talvez tenham pecado por engano", mas D'us respondeu que foi intencional. Avraham ainda tentou de novo: "Talvez apenas uma minoria tenha pecado?", mas D'us respondeu que foi a maioria. Em certo momento, Avraham colocou as mãos na cabeça, começou a gritar e chorar, e disse: "Será que Seus filhos não têm conserto?". Saiu então uma Voz Celestial e disse: "D'us chamou o teu nome 'oliveira verdejante', bela de fruto formoso". Assim como a oliveira, cujo objetivo final está no seu fim, isto é, quando o fruto é colhido, assim também o povo judeu, o seu objetivo final está no seu fim, isto é, quando se arrependerem e voltarem". Mas como entender esta conversa de Avraham com D'us? O que estava afligindo tanto Avraham? E como D'us o consolou e o tranquilizou?
 
A explicação é que Avraham teve medo que talvez o povo judeu não teria mais possibilidade de reparação, pois mesmo que retornassem em arrependimento, o fariam por causa dos sofrimentos do exílio. Em resposta, saiu uma Voz Celestial e o tranquilizou, garantindo que o arrependimento deles seria aceito, mesmo que viesse por causa dos sofrimentos. Na continuação do Talmud, o Rabi Yochanan questionou: "Por que Israel foi comparado à oliveira?". A resposta é que, da mesma forma que o azeite da azeitona é extraído por meio da prensagem, também o povo judeu retorna em arrependimento por meio da pressão dos sofrimentos. Assim como a prensagem não acrescenta azeite, mas apenas extrai o azeite que já existia dentro da azeitona, assim também o povo judeu, por meio dos sofrimentos, revela a sua vontade interior de fazer o que é correto, que até então estava oculta dentro deles. Além disso, a própria oliveira é amarga, e ela se adoça por meio do fogo. O fogo não acrescenta doçura, mas apenas remove a amargura que estava impregnada na oliveira, ficando a doçura do fruto que já existia antes. Assim também o povo judeu retorna em arrependimento por meio dos sofrimentos.
 
Portanto, o arrependimento por causa dos sofrimentos não é a forma ideal, não é a maneira mais completa de arrependimento, mas funciona. Na realidade, um dos principais propósitos de D'us ao nos mandar sofrimentos é justamente despertar o nosso arrependimento pelos erros cometidos. Então, por que caso o Faraó tivesse libertado o povo judeu por causa dos sofrimentos, isso não seria considerado um arrependimento verdadeiro?
 
Responde o Rav Yossef Dov Soloveitchik zt"l (Bielorrússia, 1820 - 1892), mais conhecido como Beis Halevi, que o arrependimento proveniente do sofrimento só é eficaz quando os sofrimentos despertam a pessoa de sua sonolência e ela compreende, com seu intelecto, o erro que cometeu, arrependendo-se plenamente do que fez. A prova se a pessoa realmente se arrependeu está no seu comportamento depois que o temor do sofrimento se afasta. Se mesmo então a pessoa não retorna mais à transgressão, pode-se dizer que realmente se arrependeu.
 
Esse tipo de arrependimento verdadeiro proveniente do sofrimento é encontrado apenas nas pessoas que, em sua vontade interior, desejam seguir um caminho reto, e são apenas causas externas e seduções da má inclinação que as levam às transgressões. Essa é a natureza do povo judeu, um povo comprometido com a sua conexão espiritual. Por isso, o exílio e os sofrimentos removem a causa que os levou a pecar, os deixam com sua vontade interior pura. Por isso, não constituem para eles um impedimento para um arrependimento verdadeiro. Não é assim com os egípcios, como vimos no caso do Faraó, cuja vontade verdadeira era pecar. Deste modo, os sofrimentos que os atingiram não tinham força para revelar a vontade interior, ao contrário, levam a atos que não eram parte da sua natureza. A prova disso era o comportamento do Faraó depois que o terror dos sofrimentos passava, ele imediatamente voltava a proibir os judeus de sair. Este era o verdadeiro Faraó.
 
Portanto, se os egípcios retornassem em arrependimento por causa dos sofrimentos, se assemelhariam àquele que adoça algo amargo ao lhe acrescentar algo doce de forma superficial. Mesmo que a doçura acrescentada prevaleça sobre a amargura, a ponto de ela já não ser mais percebida, ainda assim a amargura que existia não se alterou. Do mesmo modo, o arrependimento dos egípcios, quando ocorria por meio dos sofrimentos, não vinha de uma busca interior da verdade, mas decorria de uma força externa. Por isso, não era considerado arrependimento verdadeiro.
 
Em vez de reclamar dos sofrimentos, devemos utilizar as dificuldades que surgem na vida como oportunidades para reflexão, crescimento e mudanças. D'us nos ama muito mais do que nós O amamos. Ele nos manda sofrimentos para consertarmos os nossos erros e melhorarmos como pessoas. São oportunidades de ouro para colocarmos para fora quem nós somos de verdade.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

 

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