Nesta semana lemos a Parashat Shoftim (literalmente “Juízes”), que traz muitas Mitzvót, especialmente na área de “Bein Adam Lehaveiro”, nos ensinando a importância de aprimorarmos nosso relacionamento com o próximo e aprendermos a respeitar e preservar os bens e a honra dos outros.
Um dos assuntos mais difíceis de entender na Torá são os Korbanót. Talvez, por envolverem a morte de animais e estarem tão distantes da nossa realidade, este assunto nos incomode tanto. Porém, precisamos saber que uma das principais funções dos Korbanót é trazer expiação pelas nossas transgressões, tais como o Korban Chatat e o Korban Asham, oferecidos quando cometemos certas transgressões específicas, ou o Korban Olá, cuja oferenda também proporciona expiação por Mitsvót que deixamos de cumprir. Se não fossem os Korbanót, as consequências dos tropeços que cometemos seriam muito piores.
O Talmud (Arachin 16a) traz duas transgressões como exceção, cuja expiação não pode ser alcançada através dos Korbanót comuns. Essas duas transgressões são o assassinato, cuja expiação vem através da “Eglá Arufá”, e o Lashon Hará, cuja expiação vem através do “Ktoret” (incenso oferecido no Beit Hamikdash).
A Parashá desta semana fala sobre a cerimônia da “Eglá Arufá”, um procedimento estabelecido pela Torá para o caso de um homem ser encontrado morto no campo, entre várias cidades, sem que se saiba quem o matou. Quando o corpo era encontrado, os anciãos e juízes das cidades próximas saíam para determinar, por meio de uma medição, qual era a cidade mais próxima do local do onde estava o corpo. A cidade considerada responsável devia trazer uma novilha, uma vaca jovem, que nunca tivesse trabalhado nem carregado jugo. Os anciãos levavam a novilha a um local de terra não cultivado, e ali seu pescoço era quebrado. Em seguida, os anciãos lavavam as mãos sobre o corpo da novilha e declaravam que suas mãos não haviam derramado o sangue do homem assassinado e que seus olhos não o haviam visto. Nossos sábios explicam que era uma declaração de que eles não haviam sido negligentes com a vítima. Significa que, caso tivessem deixado a vítima partir sem alimento ou acompanhamento, carregariam parte da culpa pelo assassinato.
Há um detalhe interessante no versículo final sobre o assunto da Eglá Arufá: “E você eliminará o sangue inocente dentre vocês fazendo aquilo que é correto aos olhos de D’us” (Devarim 21:9). Mas o que significa que o sangue inocente será eliminado com esta cerimônia? Isso por acaso trará o morto de volta à vida?
O significado mais simples desse versículo é que, ao cumprir a Mitsvá da Eglá Arufá, a pessoa está “fazendo aquilo que é correto aos olhos de D’us” e, dessa maneira, expiando o pecado do derramamento de sangue inocente. A cerimônia da Eglá Arufá expressa uma ideia profunda: mesmo quando o assassino não é encontrado, a sociedade não pode simplesmente considerar o assassinato um “problema sem solução”. Uma mancha espiritual foi criada. Os líderes da cidade mais próxima precisavam assumir a responsabilidade, demonstrar que não foram negligentes e pedir a D’us expiação pelo sangue inocente derramado.
Já o Rav Avraham ben Meir zt”l (Espanha, 1092 - 1167), mais conhecido como Ibn Ezra, oferece uma interpretação alternativa e inovadora desse versículo. Ele estuda o versículo como sendo uma advertência: você deve fazer aquilo que é correto aos olhos de D’us, isto é, cumprir as Mitsvót em geral, pois, dessa maneira, D’us fará com que nenhum sangue inocente seja derramado no meio de vocês.
Na verdade, o que o Ibn Ezra está explicando aqui é a aplicação do princípio “a recompensa por uma Mitsvá é outra Mitsvá” (Avót 4:2). O versículo, portanto, significa: “Vocês, participantes do Tribunal Judaico, devem cumprir as Mitsvót, pois desta forma será evitado que sangue inocente seja derramado. Por exemplo, cumpram a Mitsvá de acompanhar os viajantes e de garantir que as necessidades daqueles que estão viajando sejam atendidas. Se as pessoas justas, os estudiosos de Torá e os anciãos fizerem aquilo que deve ser feito, então todos os níveis da sociedade se comportarão adequadamente e sangue inocente não será derramado”.
Assim também ensinava o Rav Israel Salanter zt”l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883): “Quando fazem Lashon Hará em Vilna, a consequência é a profanação do Shabat em Paris”. O que ele estava nos ensinando? Vilna era a “Jerusalém da Lituânia”, e a Lituânia era a “Terra de Israel da Europa”. Vilna tinha a reputação de ser o lar de grandes estudiosos e líderes da Torá. Naturalmente, as pessoas dali mantinham um alto nível de observância das Mitsvót. Quais eram, então, suas transgressões? Elas acabavam cometendo a transgressão, difícil de ser evitada: falar de maneira inadequada sobre seus semelhantes. Mas a consequência desse erro não ficava restrita apenas às pessoas de Vilna. Qualquer enfraquecimento espiritual em Vilna produzia um “efeito bola de neve” em todo o mundo judaico. Portanto, em uma cidade como Paris, onde a comunidade judaica já naquela época tinha um comportamento muito mais permissivo, a consequência poderia ser a ocorrência de transgressões muito mais graves, como a profanação do Shabat.
É exatamente assim que o Ibn Ezra interpreta o versículo que fecha o assunto da Eglá Arufá: “Se você deseja garantir que não haverá sangue inocente derramado em sua terra, então você deve elevar o nível espiritual da sociedade como um todo, cumprindo até mesmo os mandamentos mais “comuns”, como acompanhar seus hóspedes, praticar atos de bondade e cumprir aquilo que é correto aos olhos de D’us”.
As pessoas costumam reclamar e dizer: “O país está decaindo moralmente”; “a moralidade está terrível”; “a sociedade é imoral”, etc. E, muitas vezes, ainda caímos no erro de pensar: “Isso não diz respeito a mim. O que eu posso fazer? Estou fazendo aquilo que devo fazer. Faço minhas rezas diárias, estudo Torá, cumpro as Mitsvót. Eu estou bem!”. Porém, a lição é que, se realmente fizermos aquilo que devemos fazer, então, em um nível metafísico, isso terá um efeito sobre o mundo inteiro. Mas, ao contrário, se falarmos Lashon Hará em Vilna, em Monsey, em São Paulo, em Jerusalém ou onde quer que vivamos, isso terá um efeito prejudicial e poderá permitir que os piores tipos de transgressão sejam cometidos em outros lugares.
Conclui o Rav Yssocher Frand shlita que a cerimônia da Eglá Arufá, portanto, carrega um ensinamento extremamente importante e atual. A Torá não permite que nos escondamos atrás da frase “Não fui eu”. Mesmo os anciãos da cidade mais próxima, que certamente não haviam cometido o assassinato, precisavam sair, se posicionar e declarar diante de D’us que haviam feito sua parte. Isso significa que não basta sermos “bons” isoladamente. A responsabilidade de elevar a sociedade como um todo é algo que pode garantir que “sangue inocente não seja derramado”, e recai sobre cada um de nós. Não como espectadores distantes de um mundo em decadência, mas como participantes ativos, cujo Serviço espiritual pessoal, feito com sinceridade, tem o poder de proteger não apenas a nós mesmos, mas o povo judeu inteiro.
Devemos nos importar mesmo com os pequenos detalhes, pois nenhuma Mitsvá é pequena demais. Ao cuidarmos da nossa fala e das nossas ações, estamos, de fato, cuidando do mundo inteiro. É a nossa responsabilidade social: garantir que não apenas nós estejamos bem, mas também todos à nossa volta. SHABAT SHALOM – QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA R’ Efraim Birbojm |