sexta-feira, 16 de outubro de 2026

QUEM SALVA QUEM? - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT NOACH 5787

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QUEM SALVA QUEM? - PARASHAT NOACH 5787 (16/out/26)

“Um israelense, muito afastado da religião, estava dirigindo seu carro na estrada com sua família quando, de repente, o veículo parou por falta de gasolina. Ele ficou cerca de meia hora esperando ajuda, sem saber como voltaria para casa, até que Yehudá, um homem religioso, passou e viu a família com crianças em dificuldades. Ele parou e prontamente se ofereceu para buscar gasolina. O pai de família quis pagar pela ajuda, mas Yehudá recusou o dinheiro, afirmando que era uma Mitsvá e que ele não estava disposto a perder o mérito dela. Então, o pai de família lhe disse, emocionado:
 
- Eu sou de Beeri, um Kibutz não religioso na fronteira com Gaza. Até hoje eu nunca tinha conhecido uma pessoa religiosa. Tenho até um adesivo no meu carro que diz “Atropele um religioso”. Tenho vergonha desse adesivo e vou removê-lo agora, na sua frente. Muito obrigado pela sua ajuda!
 
Os dois se despediram. Na manhã seguinte, Yehudá telefonou para saber se a família havia chegado bem. Eles tiveram uma conversa agradável, na qual demonstraram respeito e apreço mútuos. E, a partir daquele dia, as conversas se tornaram frequentes. Todas as sextas-feiras, Yehudá telefonava, conversavam por alguns minutos e ele contava uma boa história para o Shabat. Isso continuou por seis meses. Certo dia, em uma das conversas, o homem não religioso perguntou:
 
- Não se ofenda, mas vocês não ficam entediados no Shabat? Vocês passam o dia inteiro apenas rezando e comendo, sem fazer nada. Não é chato?
 
- Por que você não vem passar um Shabat conosco, em Bnei Brak? - respondeu Yehudá, com bom humor - Assim, poderá ver por si mesmo. Vamos recebê-los com alegria e com uma comida deliciosa. O que você tem a perder?
 
O homem não religioso disse que conversaria com a esposa. No final, eles aceitaram o convite e ficaram de marcar uma data. Isso aconteceu pouco antes de Rosh Hashaná. Yehudá então consultou o Rav Chaim Zaid shlita, seu rabino:
 
- Rav, convidei uma família não religiosa de um Kibutz no Sul para passar um Shabat conosco. Mas quando seria o melhor dia para recebê-los e garantir que tenham uma boa experiência?
 
Os dois começaram a pensar juntos. Rosh Hashaná é um dia repleto de Tefilót e poderia ser cansativo. Yom Kipur e Sucót também não eram boas opções. Por fim, decidiram que o ideal seria convidá-los para Simchat Torá. A família poderia conhecer não apenas a observância do Shabat, mas também uma festividade especial e alegre. As crianças ainda poderiam receber presentes e doces na sinagoga e, assim, ter uma experiência marcante.
 
Havia, porém, um problema. Yehudá já havia prometido ao pai que iria até a casa dele, em Sderot, para passarem Simchat Torá juntos. O rabino lhe sugeriu que convidasse seu pai para também vir a Bnei Brak. Assim, poderia estar com ele e, ao mesmo tempo, receber a família de Beeri. E foi isso o que Yehudá fez.
 
E qual foi o resultado? Muitas vidas foram salvas. Aquele Simchat Torá aconteceu no fatídico 7 de outubro de 2023. A casa da família de Beeri foi completamente queimada. Além disso, se Yehudá tivesse ido a Sderot, como havia planejado inicialmente, teria ficado na casa de seu pai, que morava em frente à delegacia de polícia, local que foi tomado pelos terroristas. Infelizmente, a região foi palco de uma tragédia, e centenas de judeus foram brutalmente assassinados. Porém, por causa de um ato de bondade, três famílias foram salvas.”
 
Vejam que incrível a Providência Divina! Um homem ficou parado na estrada, sem gasolina, e não imaginava que aquele seria justamente o motivo pelo qual sua vida seria salva. Outro homem parou para ajudar, sem imaginar que, por meio daquela Mitsvá, sua própria vida e a vida de seu pai também seriam salvas. Na realidade, sempre que ajudamos alguém, no fundo não sabemos quem está ajudando quem.

 

A Parashat Noach, que lemos nesta semana, descreve que, após a queda espiritual da humanidade, D’us decretou sua destruição através de um Dilúvio. Apenas Noach encontrou graça aos olhos de D’us e mereceu ser salvo. E assim o versículo descreve o decreto de destruição do mundo: “Pois, daqui a mais sete dias, farei chover sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites, e apagarei da face da terra todos os seres que criei. E Noach fez tudo o que D’us lhe havia ordenado” (Bereshit 7:4,5).
 
O entendimento mais simples das palavras “E Noach fez tudo o que D’us lhe havia ordenado” é que Noach construiu a Arca exatamente como D’us havia comandado, com todos os seus detalhes. No entanto, não é assim que Rashi (França, 1040 - 1105) explica o versículo. Ele interpreta a expressão como uma referência ao fato de que Noach foi até a entrada da Arca. Mas qual seria a importância de a Torá escrever este detalhe? O que há de significativo nesta informação?
 
Além disso, o Talmud (Bava Kama 60a) ensina que, quando é concedida permissão ao Anjo da Destruição para destruir, ele não distingue entre o Tsadik e o Rashá, isto é, o Tsadik não está automaticamente protegido. Então, por que Noach e sua família foram salvos, se aquele era um momento de fúria Divina?
 
O Rav Yissocher Frand explica que a resposta começa com um famoso Midrash, segundo o qual Avraham Avinu perguntou a Shem, filho de Noach: “Como vocês conseguiram se salvar das águas do Dilúvio, da grande ira Divina que estava presente no mundo naquela época?”. Shem respondeu: “Não sei por que fomos salvos. Tudo o que sei é que, durante todo o ano do Dilúvio, nossa única ocupação foi cuidar dos animais, dia e noite”. Há outro Midrash que é ainda mais explícito, e ensina que Eliezer, servo de Avraham, perguntou a Shem: “O que vocês faziam na Arca?”. Shem respondeu: “Os animais que comiam à noite, nós nos ocupávamos de alimentá-los à noite; os animais que comiam durante o dia, nós nos ocupávamos de alimentá-los durante o dia”. Isso significa que, durante todos os doze meses, nem Noach nem seus filhos experimentaram uma boa noite de sono.
 
Estes Midrashim estão nos transmitindo uma informação muito importante: Noach foi salvo porque teve misericórdia dos animais. Foi por esse mérito que ele sobreviveu ao Dilúvio. A misericórdia humana desperta a misericórdia Divina. Isso também responde a outra pergunta. Por que o Anjo da Destruição poupou Noach e sua família? Esta foi a resposta que Shem estava dando a Avraham e a Eliezer: “fomos salvos por uma única razão: pois tivemos misericórdia dos animais”.
 
Com base nisso, podemos responder outra pergunta. O Midrash afirma que, no final das contas, o decreto contra a geração do Dilúvio foi selado por causa do pecado do roubo. Porém, a geração do Dilúvio praticou atos muito piores do que roubar uns dos outros. Seus integrantes se envolveram em todo tipo de perversão. É verdade que roubar não é algo bom, mas o fato de que “a terra estava corrompida” (Bereshit 6:11) por causa de perversões e imoralidade, a ponto de essa corrupção influenciar até mesmo os animais, parece ser muito pior! Se havia estes tipos de comportamentos imorais por toda a sociedade, como se explica que o decreto final tenha sido motivado pelo roubo? Por que esse foi o motivo decisivo, a gota d’água que fez o balde transbordar?
 
A resposta é que, se eles tivessem praticado todas essas outras ações terríveis, mas fossem bons e misericordiosos uns com os outros, o mérito da misericórdia deles os teria salvado. E, mesmo que isso não garantisse uma salvação completa, D’us ainda teria aplicado a punição gradualmente, ao longo de um período prolongado, e não teria destruído o mundo inteiro em questão de dias. Mesmo quando as pessoas fazem coisas muito erradas, se elas ao menos agem corretamente com seus semelhantes, isso contribui muito para protegê-las da punição.
 
A conclusão de tudo isso nos oferece uma maneira extraordinária de enxergar o Dilúvio. Afinal, quem salvou quem na história de Noach e a Arca? Pensávamos que Noach havia salvado os animais, pois os levou consigo na Arca e preservou a vida deles. No entanto, com base nestes Midrashim, aprendemos que aconteceu justamente o contrário: foram os animais que salvaram Noach! Como ele teve misericórdia dos animais, e a misericórdia humana desperta a misericórdia Divina, Noach não foi submetido à regra de que, uma vez concedida ao Anjo da Destruição a permissão para destruir, ele não distingue entre Tsadikim e Reshaim.
 
Quando Rashi ensina que as palavras “E Noach fez tudo o que D’us lhe havia ordenado” significam que Noach foi até a entrada da Arca, ele está nos transmitindo que o simples ato de caminhar até a Arca separou Noach de toda a sua geração. Ao caminhar em direção à Arca, ele estava dizendo ao restante de sua sociedade corrupta: “Não quero ter nada a ver com vocês”. Ao se separar daquela geração, Noach assumiu a tarefa de se preparar para salvar o mundo. Segundo Rashi, o fato de ele ter ido até a Arca demonstrou sua misericórdia e seu senso de responsabilidade em preservar a vida dos animais. Foi isso que salvou sua vida.
 
Que lição incrível podemos trazer para as nossas vidas! Todas as vezes que ajudamos uma pessoa pobre, sentimos que fizemos muito por ela. Mas, de acordo com o ensinamento da nossa Parashá, na verdade foi a pessoa pobre que nos fez uma grande bondade, ao nos dar a oportunidade de praticar atos de Chessed e, assim, nos conectarmos a D’us e alcançarmos salvações. Portanto, ao ajudar um pobre, lembre-se: é você que precisa agradecer a ele.

SHABAT SHALOM E CHAG SAMEACH

R’ Efraim Birbojm

 

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PEQUENAS FENDAS, GRANDES TRAGÉDIAS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BERESHIT 5787

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PEQUENAS FENDAS, GRANDES TRAGÉDIAS - PARASHAT BERESHIT 5787

“Um grande dique protegia a cidade das águas de um rio. Durante muitos anos, o dique, que havia sido muito bem construído, suportou fortes chuvas e grandes enchentes, e os moradores confiavam em sua resistência. Até que, certa manhã, um dos funcionários responsáveis pela manutenção percebeu uma pequena rachadura em uma das paredes do dique. Era estreita e quase imperceptível. Ele chamou seu superior e mostrou o problema, sugerindo que aquela rachadura fosse consertada o mais rápido possível. O superior demorou para localizar a pequena rachadura. Quando finalmente a encontrou, deu risada e disse:
 
- Isso? Não é nada! Essa rachadura é minúscula. Não há com o que se preocupar. Cuidaremos disso depois.
 
Os dias passaram e ninguém voltou mais ao assunto. A rachadura continuou ali. No início, ela realmente não parecia representar perigo algum, pois o dique continuava firme e a cidade seguia sua rotina normalmente. Por isso, a cada dia que passava, aquela pequena abertura parecia menos importante. Até que chegou uma temporada de chuvas muito fortes. O nível do rio começou a subir, a pressão da água aumentou e a pequena rachadura, no início tão insignificante, começou a se alargar. A água então passou a penetrar lentamente pela parede do dique. Quando os responsáveis perceberam o problema, tentaram agir, mas já era tarde demais. A pequena rachadura havia se transformado em uma grande abertura. A pressão tornou-se insustentável e, finalmente, parte do dique cedeu. A água invadiu violentamente a cidade e provocou uma enorme tragédia.
 
O prefeito exigiu uma perícia para descobrir as causas do rompimento daquele dique, que parecia tão seguro e sólido. Os antigos registros da manutenção foram encontrados e ficou claro que o problema havia sido identificado muito antes. A tragédia não começou no dia em que o dique rachou. Ela começou no dia em que alguém viu aquela pequena rachadura e decidiu que ela era pequena demais para merecer atenção.”
 
Assim também acontece em nossa vida. Normalmente o perigo não começa com uma grande queda espiritual. Às vezes, começa com algo tão pequeno que parece não merecer nossa atenção: uma pequena inclinação do coração ou um pequeno afastamento. Enquanto tudo está tranquilo, podemos pensar: “Qual é o problema? Continuo sendo uma boa pessoa. Continuo cumprindo Mitzvót. Essa pequena imperfeição não muda quem eu sou”. Mas a vida também nos coloca sob pressão. E quando essa pressão aumenta, aquilo que parecia insignificante pode revelar uma fraqueza muito maior. Por isso, o verdadeiro trabalho espiritual não é esperar o momento em que nossa espiritualidade começa a desmoronar. É ter a sensibilidade e a agilidade de olhar para dentro enquanto a rachadura ainda é pequena, e corrigi-la antes que se transforme em uma tragédia.

 

Nesta semana recomeçamos a leitura da Torá com o Sefer Bereshit, que trata sobre a criação do mundo e as primeiras gerações da humanidade, até os nossos Patriarcas, que representam a criação espiritual do mundo. Infelizmente, logo as primeiras gerações já tiveram um comportamento lamentável, cometendo grandes transgressões que levaram, em pouco tempo, D’us a se arrepender de ter criado o ser humano
 
E quem primeiro tropeçou foi Adam Harishon, o ser humano criado pelas próprias Mãos de D’us, o personagem principal do início da Parashat desta semana, Bereshit (literalmente “No início”). D’us viu que não era bom o homem estar sozinho e, por isso, em um imenso ato de bondade, criou para ele uma companheira, Chava, que além de sua incomparável beleza, foi dotada de uma incrível sabedoria. Adam e Chava viviam no Gan Éden, um lugar paradisíaco, e sua única proibição era comer do fruto da “Árvore do conhecimento do bem e do mal”. Mas Chava, após ter sido induzida pela serpente que também habitava no Gan Éden, acabou comendo do fruto proibido e levou para que Adam também comesse. D’us ficou furioso com Adam e Chava por eles não terem cumprido Seu mandamento, e imediatamente chamou Adam para prestar contas pelo seu erro. Adam então se justificou para D’us: “A mulher que Você me deu, ela me deu da árvore, e eu comi” (Bereshit 3:12).
 
Aparentemente Adam estava se justificando por seu erro de uma maneira correta, já que a própria Torá ressalta que foi Chavá quem comeu primeiro o fruto e o levou para Adam. Mas vemos, pela continuação da história, que a justificativa não foi suficiente. Adam foi duramente castigado por D’us, perdendo sua imortalidade e o direito de ficar no Gan Éden. Mas o que havia de errado na justificativa de Adam?
 
A resposta está no entendimento das palavras do Shemá, que lemos duas vezes ao dia: “Guardem-se, para que o seu coração não seja seduzido, e vocês se desviem e sirvam outros deuses” (Devarim 11:16). O Midrash ensina que destas palavras aprendemos que: “Assim que uma pessoa se afasta da Torá, ela vai e se apega à idolatria”.
 
De acordo com o Rav Natan Tzvi Finkel zt”l (Império Russo, 1849 - Israel, 1927), mais conhecido como Alter MiSlabodka, essa ideia parece distante da nossa compreensão. Pelo simples fato de uma pessoa se afastar por um instante da Torá, ela imediatamente se apega à idolatria? Não vemos isso acontecendo no nosso dia-a-dia! Então o que estas palavras do Shemá Israel estão nos ensinando? E como isso se conecta com o erro de Adam Harishon?
 
É conhecida a grandeza de Adam Harishon, que era extremamente sábio. Segundo o Midrash, D’us pessoalmente testemunhou isso quando disse aos anjos: “A sabedoria dele é maior do que a de vocês”. E mesmo depois de ter pecado com a “Árvore do Conhecimento”, ele continuava sendo grandioso em sua estatura espiritual e na força de sua compreensão, a ponto de Avraham Avinu, o gigante espiritual, ter desejado ser enterrado na Mearat HaMachpelá pois Adam estava enterrado ali.
 
De acordo com o Talmud (Shabat 55b), o pecado de Adam foi tão sutil que nem mesmo os anjos perceberam sua gravidade. Eles perguntaram a D’us: “Por que Você decretou a morte sobre o homem?”. E o próprio Adam, cuja sabedoria era maior do que a deles, não percebeu onde estava a raiz de seu pecado, a ponto de argumentar diante de D’us: “A mulher que Você me deu, ela me deu da árvore, e eu comi”. Aparentemente, sua intenção era dizer: “Você me deu esta mulher para me ajudar, e foi Você Quem deu a ela uma compreensão maior do que a minha; eu deveria, portanto, ouvir a voz dela”. Por que, então, ele foi castigado com punições tão terríveis, sendo expulso do Gan Éden e condenado, assim como todas as gerações posteriores, à morte?
 
Rashi
(França, 1040 - 1105) explica que para respondermos, precisamos analisar com mais profundidade a justificativa que Adam deu por ter cometido o seu grave erro. Quando ele afirmou: “A mulher que Você me deu”, ele estava sendo ingrato com D’us e com o bem que Ele lhe havia feito. Houve aqui uma negação da bondade de D’us. Ou seja, no fundo do coração de Adam havia algum tipo de falha no reconhecimento da bondade Divina. Os anjos não perceberam isso, e ele próprio também não sentiu. Mas D’us, que investiga o coração de cada criatura e conhece cada pensamento, revelou que havia algum tipo de imperfeição no interior de seu coração, proveniente de alguma característica ou pensamento negativo. Quando Ele perguntou a Adam: “Onde você está?” (Bereshit     3:9), obviamente que D’us sabia onde Adam estava. O Talmud (Sanhedrin 38b) explica que a expressão: “Onde você está?” significa “Para onde inclinou seu coração?”. Ou seja, D’us estava revelando que havia algum tipo de desvio pequeno, quase imperceptível, no coração de Adam.
 
E esse desvio, como um pequeno ponto e uma tênue mancha dentro do coração de Adam, criou raízes e produziu um fruto amargo em toda a humanidade. Depois de algumas gerações, quando veio a geração da Torre de Bavel, à qual D’us havia concedido grandes bondades, eles se rebelaram contra o Criador ao construir uma torre para subir aos céus e lutar contra Ele. Está escrito: “E D’us desceu para ver... aquilo que os Bnei HaAdam (filhos dos homens) construíram” (Bereshit 11:5). Mas por que está escrito “Filhos dos homens”? Por acaso eles eram filhos de jumentos e camelos? O Midrash responde que a linguagem “Bnei HaAdam” era uma referência a Adam Harishon, aquele mesmo que havia sido ingrato em relação às bondades que havia recebido de D’us. Naquele pequeno desvio no coração de Adam estava a raiz da qual surgiu a grande rebelião daquela geração contra D’us.
 
O Talmud (Sanhedrin 38b) ensina que “Adam tornou-se um herege”. É difícil compreender como um homem tão grande, cujo pecado nenhuma criatura havia sequer conseguido identificar, tenha feito uma transgressão com um aspecto de heresia ao comer o fruto da “Árvore do Conhecimento”! E como conciliar esta afirmação com o que afirma o Talmud (Eruvim 18b) de que Adam era um grande Chassid, isto é, fazia mais que D’us esperava dele?
 
A resposta é que, apesar de Adam realmente ter sido um grande Chassid e ter permanecido em um nível muito elevado durante todos os seus dias, e embora seu pecado tenha sido muito sutil, ainda assim, uma vez que em seu coração revelou-se algum tipo de desvio e houve uma interrupção em seu crescimento espiritual, isso foi considerado como uma heresia. A exigência feita ao ser humano não é apenas que ele não venha a cometer erros, mas também que, por meio de sua grande inteligência, ele não permita que sua percepção seja obscurecida. A pessoa não pode permitir que a escuridão se agarre a ela, ainda que minimamente.
 
As pessoas não costumam fazer grandes erros do dia para a noite. Em geral, é um processo de queda lenta e silenciosa, que começa com pequenas brechas no nosso temor a D’us. Por isso, nosso trabalho espiritual exige que façamos constantemente a nós mesmos a pergunta que D’us fez a Adam: “Onde você está?”, checando sempre nossas atitudes e pensamentos para, quando um pequeno desvio for identificado, imediatamente o consertarmos. Com reflexões diárias e pequenas atitudes, podemos manter nosso crescimento saudável.

SHABAT SHALOM

R’ Efraim Birbojm

 

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