Nesta semana lemos a Parashat Reê (literalmente “Veja”), na qual Moshé novamente adverte o povo sobre os perigos do contato com os povos da Terra de Israel que, por serem idólatras e imorais, poderiam nos afastar dos caminhos de D’us. A Parashá começa com a reiteração de Moshé sobre a diferença entre seguir a vontade de D’us e se desviar dela: “Veja, coloco hoje diante de vocês a Brachá e a maldição” (Devarim 11:26).
Porém, há algo na linguagem do versículo que nos chama a atenção. Se a Torá está nos mostrando os dois caminhos que temos na vida, deveria estar escrito “a Brachá ou a maldição”, isto é, um ou outro. Então por que está escrito “a Brachá e a maldição”, como se fizessem parte de uma mesma realidade.
A resposta está nas palavras de um interessante Midrash: “Disse o Rabi Elazar: a espada e o livro desceram unidos dos Céus”. O Rav Yerucham Halevi Leibovitz zt”l (Bielorússia, 1873 - 1936) explica que nossos sábios nos revelaram aqui um segredo extraordinário a respeito do fundamento e da essência da Torá: ela é, ao mesmo tempo, um livro e uma espada. Mas o que isso significa?
A explicação é a seguinte: o castigo aplicado àquele que se desvia do caminho da Torá não é algo secundário, e o mesmo vale para a recompensa. Ambos estão contidos na própria essência da Torá. A mesma Torá, que é um “livro” para quem segue seus caminhos, transforma-se, em um instante, em uma “espada” caso a pessoa se desvie, ainda que minimamente, de seu caminho. Isso ocorre porque a Torá nos foi entregue com um equilíbrio extremamente preciso. É como alguém que manuseia um explosivo muito sensível, de modo que o menor contato inadequado pode provocar uma enorme explosão. Conforme diz o profeta: “Se estiverem dispostos e obedecerem, comerão o melhor da terra; mas, se recusarem e se rebelarem, serão devorados pela espada” (Yeshayahu 1:19,20). Isto ensina que nossa situação é como alguém que está suspenso por um fio: de um lado “comerão o melhor da terra” e, ao mesmo tempo, do outro lado “serão devorados pela espada”.
Em seu livro Chovot HaLevavot, o Rav Bahya ibn Paquda zt”l (Espanha, 1050 - 1120) ensina: “Pode-se dizer que a sabedoria, quando é conduzida por seu caminho correto, torna-se a cura para toda enfermidade. Porém, quando dele se desvia, transforma-se em uma enfermidade abrangente, que não possui cura nem remédio”. Por que a Torá foi comparada ao fogo, como está escrito: “’Por acaso Minha palavra não é como fogo?’ - diz D’us” (Yirmiyahu 23:29)? Pois, por um lado, a Torá ilumina nossos olhos com sua luz, mas, ao mesmo tempo, queima aquele que se desvia de seu caminho. A Torá é o segredo da vida, a cura para toda enfermidade. Porém, no instante em que a pessoa se desvia, ela se transforma em uma enfermidade para a qual não há cura.
Podemos encontrar um exemplo disso na vida cotidiana. A temperatura natural do corpo humano é indispensável e necessária para nossa sobrevivência. Sem o calor do corpo não há vida. Porém, esse mesmo calor, que é justamente o segredo da vida física do homem, caso ultrapasse a medida adequada, pode provocar a morte. Isso significa que o mesmo calor que dá vida também pode acabar sendo a causa da morte. Assim também acontece com a Torá, que foi comparada ao fogo. Quando está na medida correta, ela concede vida. Quando essa medida deixa de existir, ou seja, quando a pessoa não segue o seu caminho, ela passa a queimar.
Compreende-se, portanto, a conclusão do Chovot HaLevavot: “Por isso, tome cuidado para não desviar seus passos do caminho dos patriarcas e da trilha dos primeiros...”. É uma advertência para que jamais brinquemos com fogo. Da mesma forma que se adverte alguém que segura um explosivo para que jamais brinque com ele, pois corre enorme perigo, assim também somos advertidos para sermos cuidadosos em nossas escolhas.
O Rav Moshe Chaim Luzzato zt”l (Itália, 1707 - Israel, 1746), mais conhecido como Ramchal, escreve: “Aquele que caminha pelo mundo sem refletir... é como um cego que anda à beira de um rio, cujo perigo é certamente muito grande...”. “À beira do rio” significa que basta um pequeno desvio para que a pessoa caia. Da mesma forma, quem trilha o caminho da Torá sem reflexão corre o risco de um pequeno desvio produzir enormes consequências.
O Midrash nos acrescenta: “Veja, eu coloco hoje diante de vocês a Brachá e a maldição’. Disse Rabi Elazar: desde o momento em que D’us pronunciou estas palavras no Monte Sinai, naquele mesmo instante se cumpriu o versículo: ‘Da boca do Altíssimo não procedem nem os males nem os bens’ (Eichá 3:38). Pelo contrário, o mal vem por si mesmo sobre quem pratica o mal, e o bem vem por si mesmo sobre quem pratica o bem”. Assim funciona a Torá: quando a pessoa guarda o seu caminho, ela restaura a alma, alegra o coração e ilumina os olhos. Porém, quando a pessoa se desvia do seu caminho, a própria Torá transforma-se em uma grande chama que queima e consome até as fundações. E isso está explicitamente dito nas palavras do Talmud (Yoma 72b): “Se for merecedor, a Torá se torna para ele um elixir da vida; se não for merecedor, a Torá torna-se para ele um veneno mortal”.
Portanto, tão importante quanto o estudo da Torá e o cumprimento das Mitzvót é o nosso trabalho de Midót, o nosso aprimoramento pessoal. Talvez pareça um exagero falar que a Torá sem o equilíbrio necessário é um veneno, mas a história nos deu dois exemplos marcantes do quanto isto é verdadeiro. Há dois personagens centrais na vida dos dois primeiros reis de Israel: Shaul Hamelech e David Hamelech. Eles tinham dois conselheiros muito sábios, entre os maiores do Sanhedrin, o Grande Tribunal, chamados respectivamente Doeg e Achitofel. Apesar do seu profundo nível de conhecimento da Torá, Doeg acabou se tornando um assassino, matando pessoalmente quase todos os Cohanim da cidade de Nov, incluindo o Cohen Gadol. Ele morreu jovem, aos 34 anos, cumprindo as palavras de David Hamelech: “Homens sanguinários e enganadores não chegarão à metade de seus dias” (Tehilim 55:24). Já Achitofel, cujos conselhos geniais eram comparáveis às respostas Divinas do Urim VeTumim, acabou apoiando o príncipe Avshalom em sua rebelião contra seu pai, David Hamelech. Achitofel aconselhou Avshalom a ter relações com as concubinas de seu pai, um ato gravíssimo de imoralidade, e a matar seu próprio pai. No final, Achitofel acabou se matando enforcado.
O ponto em comum entre Doeg e Achitofel é que eram pessoas extraordinariamente sábias, gigantes no estudo da Torá, mas que perderam sua parte no Mundo Vindouro por causa de seu caráter, que os levou a cometer atos abomináveis. Eles demonstram que mesmo a genialidade no estudo da Torá não é suficiente para garantir que a pessoa terá um comportamento adequado. Obviamente que não é possível cumprir a vontade de D’us sem o estudo da Torá, sem conhecer as Mitzvót e seus detalhes. Porém, o trabalho de Midót é um complemento fundamental ao estudo de Torá. É a nossa garantia de que a Torá não será apenas um estudo, mas uma aplicação na prática da Vontade Divina, que nos levará à perfeição em todas as áreas da vida. SHABAT SHALOM R’ Efraim Birbojm |