Estamos chegando a mais uma parada no Calendário Judaico, a Festa de Shavuót (na noite do dia 21/mai/26), também conhecida como “Chag Matan Torá”, na qual revivemos a entrega da Torá no Monte Sinai. Neste dia somos julgados em relação ao nosso estudo de Torá e costumamos passar a noite acordados, estudando, demonstrando a D’us o quanto estamos ansiosos pelo recebimento da Torá. Mas será que realmente temos a consciência do quão importante a Torá é em nossas vidas?
Um detalhe interessante sobre a Festa de Shavuót é que ela sempre cai junto com a Parashat Bamidbar. Inclusive, um dos critérios que os nossos sábios utilizam para escolher quais Parashiót serão lidas juntas também leva isso em consideração. Mas qual é a conexão entre Shavuót e a Parashat Bamidbar, uma Parashat extremamente “técnica”, que trata principalmente da contagem do povo judeu no segundo ano em que estavam no deserto?
O Sefer Bamidbar começa com o seguinte comando de D’us para Moshé: “Faça a contagem de toda a congregação dos filhos de Israel segundo suas famílias... todo homem conforme sua contagem” (Bamidbar 1:2). No final do Sefer Bamidbar, mais especificamente na Parashat Pinchás, a Torá mais uma vez faz a contagem do povo, já no final dos quarenta anos de permanência no deserto. É por isso que o Sefer Bamidbar também é chamado de “Chumash HaPekudim” (o Livro das Contagens). Até mesmo na nomenclatura não judaica, este Livro da Torá é chamado de “Números”, porque começa e termina com contagens.
Mas por que D’us precisa contar o povo judeu, se Ele é Onisciente? E por que repetir algumas vezes a contagem? Rashi (França, 1040 - 1105) traz uma bela explicação sobre estas constantes contagens: “Por causa do carinho que D’us tem por eles, Ele os conta constantemente. Quando saíram do Egito, Ele os contou; depois do pecado do Bezerro de Ouro, Ele os contou para verificar quantos haviam sido perdidos; e quando fez Sua Presença Divina repousar sobre eles, Ele os contou. Como o Mishkan foi erguido no primeiro dia de Nissan, Ele os contou no primeiro dia de Iyar”. Em outras palavras, a contagem constante demonstra que D’us ama o povo judeu.
Por outro lado, há algo na contagem que, à primeira vista, parece contraditório com esta mensagem de amor. Existe um enorme perigo envolvido na contagem do povo judeu. Isso está explícito na Parashat Ki Tissá: “Quando você fizer o recenseamento dos Filhos de Israel conforme o seu número, cada homem dará a D’us expiação por sua alma ao serem contados, para que não haja epidemia entre eles quando forem contados” (Shemot 30:12). Contar o povo judeu de forma equivocada traz o risco de provocar uma epidemia. De fato, nos dias de David HaMelech, quando ele contou o povo judeu de forma direta, algo que é proibido pela Torá, houve uma terrível epidemia na qual setenta mil judeus morreram. Afinal, como devemos entender a contagem do povo judeu? É algo que devemos fazer porque demonstra nosso imenso valor diante do Criador do mundo e Seu amor por nós, ou é algo que traz um terrível risco de epidemia?
A resposta é que tudo depende de como a contagem é feita. A chave está na linguagem utilizada por D’us ao ordenar a contagem do povo: “Seú Et Rosh Kol Adat Bnei Israel”, que significa literalmente “Erga a cabeça de toda a congregação dos Filhos de Israel” (Bamidbar 1:2). Há inúmeras maneiras em hebraico de dizer “Conte”. Existem palavras tradicionais, como “Sefor” e “Menei”, entre outras. Certamente a forma mais peculiar de dizer “conte” é “Seú Et Rosh”, “Erga as cabeças”. Por que, então, dentre todas as expressões possíveis, a Torá escolheu justamente “Erga as cabeças”?
A resposta é que essa expressão nos ensina a como evitar o lado negativo da contagem. O perigo da contagem é que, ao contar uma massa de pessoas, a importância de cada indivíduo pode se perder. Quando alguém faz um recenseamento e conta 600 mil pessoas, isso pode minimizar a importância e a dignidade de cada indivíduo dentro desse conjunto. A Torá quer nos advertir: podemos ter 600 mil pessoas, mas cada uma delas é única e especial, e possui uma importância própria, algo que jamais deve ser esquecido.
Explica o Rav Yssocher Frand shlita que há um grande perigo existente nas multidões. Além da perda da identidade individual, algo que sempre ocorre nas grandes reuniões das massas, a multidão gera uma espécie de “mentalidade de rebanho”. Quando muitos do grupo começam a fazer algo, os outros acabam sendo arrastados atrás deles, mesmo que inicialmente não concordavam com tal atitude. Um exemplo que pode ser citado é a chamada “Mania das tulipas”. Na Holanda, no século XVII, as pessoas ficaram fascinadas pela beleza das tulipas, e aquilo se tornou a sensação do momento. Por isso, tulipas viraram a mercadoria mais desejada do mercado, e as pessoas gastavam fortunas por um único bulbo de tulipa, no que foi considerado a primeira “bolha especulativa” da história. Tulipas foram trocadas por terras e animais valiosos. Algumas variedades podiam custar mais que uma casa em Amsterdã. Isso continuou até que, de repente, alguém despertou e disse: “Pessoal, estamos falando de uma flor! Não faz sentido uma simples flor valer tanto!”. Por isso, hoje podemos entrar em uma floricultura e comprar uma dúzia de tulipas por um valor razoável.
O perigo das massas é, portanto, duplo. Em primeiro lugar, quando olhamos para uma multidão, não damos o devido valor aos indivíduos como pessoas únicas e especiais. As pessoas se tornam apenas “números”. Esse é um dos perigos de fazer parte da massa. Foi isso que os nazistas queriam causar ao tatuar números nos braços dos prisioneiros judeus: destruir a nossa identidade e a nossa individualidade. A partir de agora o judeu não era mais uma pessoa, era apenas um número.
O outro perigo é que as próprias pessoas perdem sua capacidade de pensar individualmente. Não é assim que um judeu deve agir. O Talmud (Brachót 58a) nos ensina: “Aquele que vê uma multidão de Israel deve recitar a Brachá: “Baruch Atá Hashem... Chacham HaRazim” (D’us, Fonte das Brachót, que conhece os segredos). Que louvor é este que estamos dando a D’us? Quando nós olhamos para uma multidão, tudo o que enxergamos é o grupo como um todo. Somos levados pela massa e deixamos de ver os indivíduos. Quando D’us olha para essa enorme multidão, mesmo assim Ele sabe exatamente o que está no coração de cada indivíduo. Ele sabe que cada pessoa é diferente, possui sua própria personalidade e tem seus próprios segredos. D’us vê cada pessoa naquela massa humana e conhece todos os seus segredos. Essa é a ideia de “erguer cada cabeça”: jamais esquecer a importância de cada indivíduo.
O Rav Yssocher Frand traz ainda outro aprendizado importante da linguagem peculiar “Erga a cabeça” utilizada para a contagem do povo judeu. O Midrash comenta que esta linguagem pode indicar tanto as maiores alturas quanto as maiores profundezas. Yossef, ao interpretar o sonho do copeiro-chefe, disse que o Faraó o restabeleceria à sua posição de honra usando a expressão: “Em três dias o Faraó erguerá sua cabeça” (Bereshit 40:13). Por outro lado, Yossef usou a mesma expressão “Em três dias o Faraó erguerá sua cabeça” (Bereshit 40:19) ao interpretar o sonho do padeiro-chefe, para informar a ele que o Faraó lhe cortaria a cabeça fora. A mesma linguagem pode significar crescimento e rebaixamento. Qual é o significado desta dualidade?
Segundo o Midrash, o uso desta linguagem específica no recenseamento indica que cada judeu possui, através de ter sido escolhido para receber a Torá, uma oportunidade muito especial, mas que é acompanhada de uma responsabilidade igualmente especial. As pessoas podem receber oportunidades extraordinárias e, com elas, alcançar os maiores níveis. Mas, se não lidarem corretamente com essa oportunidade e a desperdiçarem, ela poderá levar as pessoas a uma grande queda. Shavuót é o lembrete de que fazemos parte do povo que foi escolhido para receber a Torá no Monte Sinai e se tornar uma “Luz para as nações”. E dentro desta nação, mesmo que sejamos milhões, cada um tem a sua participação única e especial. A missão de cada judeu é única e intransferível. Não somos um número, somos pessoas que podem mudar o mundo. Que possamos aproveitar a oportunidade. CHAG SAMEACH E SHABAT SHALOM R’ Efraim Birbojm |