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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

ESTAR CANSADO NÃO É UMA OPÇÃO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT TOLDOT 5786

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ESTAR CANSADO NÃO É UMA OPÇÃO - PARASHAT TOLDOT 5786 (21/nov/2025)

Um rei bondoso havia ordenado a construção de um palácio magnífico, feito com enormes blocos de pedra. Dois homens foram contratados para trabalhar na obra. O trabalho era árduo, pois consistia em carregar pedras pesadas e empurrar carrinhos ladeira acima, repetindo o mesmo esforço dezenas de vezes ao dia.
 
À distância, os dois trabalhadores pareciam estar se esforçando igualmente. Porém, de perto, a diferença entre eles era enorme. O primeiro carregador caminhava arrastando os pés. Seu rosto estava sempre tenso, suas sobrancelhas franzidas. Em poucos minutos de trabalho, ele já resmungava: "Por que tudo isso? Para que serve? Minha vida é só carregar pedras, nada muda!". A cada viagem, ele se sentia mais pesado. E mesmo antes do meio-dia, já estava completamente exausto. Não apenas cansado, mas derrotado. Ele vivia cansado, não apenas o corpo, mas a alma estava sem forças.
 
O segundo carregador, por outro lado, estava sempre feliz. Trabalhava no mesmo ritmo que o outro trabalhador, sob o mesmo sol, com as mesmas pedras, mas havia algo diferente no olhar dele, uma luz tranquila, uma espécie de alegria silenciosa. Ele assobiava enquanto empurrava o carrinho e carregava as pedras. Às vezes até cantava. Parecia que o cansaço não o alcançava.
 
Certo dia, alguém que observava a obra não resistiu e perguntou ao primeiro carregador por que ele parecia estar sempre tão esgotado. Ele respondeu, irritado:
 
- Você não vê? Carrego pedras o dia todo! Pedras inúteis! Pedras sem sentido! Odeio meu trabalho!
 
A mesma pessoa então procurou o segundo carregador e perguntou como ele conseguia fazer o mesmo esforço que o outro e não parecer tão cansado. O homem limpou o suor da testa e respondeu com um sorriso simples, mas profundo:
 
- Eu não estou carregando pedras. Eu estou ajudando a construir o palácio do rei."
 
Quando você sabe qual é o propósito do seu esforço, cada pedra se torna leve. O peso só machuca quando não faz sentido. E assim acontece conosco também. Dois caminhos podem ter o mesmo esforço, as mesmas dificuldades, o mesmo peso, mas quem vê um propósito maior encontra forças que outros não encontram. O cansaço físico existe para todos, mas o cansaço da alma nasce quando a vida está vazia de sentido.

Nesta semana lemos a Parashat Toldot (literalmente "Gerações"), que continua contando um pouco da vida do nosso segundo casal de patriarcas, Ytzchak e Rivka, e em especial o momento em que Rivka engravidou de gêmeos, após passar muitos anos sem conseguir ter filhos. A Parashat então descreve o nascimento e os "primeiros passos" do nosso terceiro patriarca, Yaacov, e a difícil convivência com seu irmão gêmeo, Essav. Eles escolheram caminhos opostos na vida. Enquanto Yaacov escolheu os caminhos de retidão, seguindo os passos de seu pai e seu avô, Essav escolheu o caminho das transgressões, tornando-se uma vergonha para a família.
 
Porém, nem sempre foi assim. Nossos sábios explicam que até os treze anos de idade os dois irmãos tinham comportamentos muito parecidos, não era possível perceber que eles seguiriam caminhos tão diferentes. E o auge da diferença entre os irmãos foi atingido aos quinze anos de idade, quando Essav chegou a um nível tão grande de maldade que D'us quis poupar Avraham de ver no que seu neto havia se transformado, levando-o embora do mundo cinco anos antes do que ele estava destinado a viver.
 
No próprio dia do falecimento de Avraham, a Torá descreve algo interessante sobre Essav: "E Essav voltou do campo e estava cansado (Ayef)" (Bereshit 25:29). Esta é a primeira vez na Torá que encontramos a utilização da palavra "Ayef", indicando que alguém estava cansado. Mas por que a Torá não utilizou esta expressão anteriormente? Por exemplo, em relação a Avraham, não houve nenhum momento em que ele se sentiu cansado? Se examinarmos a vida dele, certamente encontraremos muitos motivos para ele estar exausto e, mesmo assim, a Torá nunca afirma que ele estava "Ayef".
 
Quando Avraham já não era mais tão jovem, ele teve que deixar sua casa e sua família, abrir mão de tudo e viajar para Eretz Knaan. Lá, foi confrontado com uma época de fome e precisou descer para o Egito, onde sua esposa Sara foi sequestrada. Após retornar a Eretz Knaan, ele se envolveu no que foi literalmente a "Primeira Guerra Mundial" para salvar seu sobrinho Lót, que havia sido sequestrado. Na sequência, Sara foi novamente sequestrada na terra dos Plishtim, certamente mais um momento de muito estresse. Finalmente, Avraham teve filhos já em idade avançada, mas precisou expulsar seu filho Ishmael de casa e enfrentou o trauma de quase ter sacrificado seu filho Ytzchak. Em resumo, Avraham teve uma vida dura, longa e extremamente cansativa. Apesar disso, a Torá nunca descreve Avraham como "cansado". Já Essav, que não passou por tantos testes quanto Avraham, é a primeira pessoa sobre quem encontramos a palavra "Ayef" escrita. O que isso nos ensina?
 
O Rav Yssocher Frand shlita explica que "Ayef" não se trata apenas de um cansaço que podemos resolver com uma boa noite de sono. Ayef se trata de estar cansado das dificuldades da vida. Avraham, apesar dos testes e dificuldades, nunca quis se aposentar e nem desistir. O fato de "Ayef" aparecer pela primeira vez em relação a Essav nos ensina que estar cansado da vida não é um conceito judaico.
 
Mas por que Avraham nunca desistiu? Por que ele nunca ficou "Ayef"? Se a vida de uma pessoa está envolvida com espiritualidade, com Torá e Mitzvót, então há uma Brachá especial: "Mas os que depositam suas esperanças em D'us renovarão suas forças; subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão" (Yeshayahu 40:31). Isso significa que aqueles que fazem Avodat Hashem não ficam cansados. A Avodat Hashem, na verdade, revigora. Às vezes podemos ter frustrações na vida, e a pessoa pode pensar que está ficando sem forças, mas a Brachá é que, de fato, isso não acontecerá. Ela conseguirá, através da sua conexão com a espiritualidade, renovar suas energias. Foi isso o que aconteceu com Avraham.
 
Porém, o mesmo não se aplica quando se trata de alguém como Essav, cujo foco principal da vida era estar no campo, "caçando". Essav abandonou completamente a sua espiritualidade. Nossos sábios dizem que, no mesmo dia em que Essav voltou reclamando que estava cansado, ele havia acabado de cometer cinco crimes hediondos, incluindo as três piores transgressões: idolatria, assassinato e relações ilícitas. Portanto, não é surpresa que ele tenha voltado dizendo que estava cansado. Se a vida de uma pessoa está vazia de espiritualidade, se ela não tem propósito, é muito fácil se desgastar. Quando alguém fica o dia inteiro jogando cartas, rapidamente se cansa de jogar cartas. Mas aqueles que confiam em D'us não se cansarão nem se fatigarão.
 
Os nossos sábios são um grande exemplo de como isto é verdade na prática, não apenas na teoria. Por exemplo, o Rav Moshe Feinstein zt"l (Império Russo, 1895 - EUA, 1986) viveu até os noventa anos. Quando sua saúde enfraqueceu e ele foi levado ao hospital pouco antes de falecer, literalmente em seu leito de morte, ele comentou: "Não tenho mais forças". Logo depois ele faleceu. Naquele momento, seu propósito espiritual e sua missão haviam se cumprido. Quando a missão de vida de alguém está completa, não restam mais forças. Mas até aquele momento, embora tivesse 90 anos e estivesse doente, ele cumpriu as palavras "os que depositam suas esperanças em D'us renovam suas forças". Já o Rav Yossef Shalom Elyashiv zt"l (Lituânia, 1910 - Israel, 2012), que viveu até os 102 anos, era tão dedicado ao estudo que passava mais de 18 horas por dia aprendendo Torá, mesmo em idade avançada. Um visitante certa vez perguntou como ele conseguia estudar tantas horas sem parecer exausto, especialmente aos 100 anos. O Rav Elyashiv respondeu simplesmente: "Quando se ama algo, não se cansa". Seus filhos relatam que, já muito idoso, ele ainda acordava antes do amanhecer para estudar, e quase nunca tirava férias ou fazia pausas longas. Finalmente, o Rav Elazar Menachem Man Shach zt"l (Lituânia, 1899 - Israel, 2001) foi o Rosh Yeshivá de Ponivezh até mais de 100 anos de idade. Quando tinha quase 100 anos, alguns alunos sugeriram que talvez fosse hora de diminuir o ritmo e se aposentar. Ele respondeu: "A Torá não se aposenta. A minha vida é a Torá. Se eu parar, quem cuidará dela?". Mesmo com uma idade avançada, ele discursava durante horas na Yeshivá, com voz firme e clareza, e participava de reuniões decisivas para dirigir o mundo da Torá.
 
Muitas vezes, nossos grandes sábios, apesar da idade avançada, têm forças para permanecer de pé e falar por horas. Mesmo já bem idosos, encontram forças para cuidar das necessidades da comunidade. De onde vem essa resistência? A resposta é que estar cansado não é um conceito judaico. Essav pode ficar cansado e parar, mas não Avraham.
 
Obviamente que às vezes nos sentimos cansados com as dificuldades da vida. Sofremos constantemente com as aparentes injustiças, com a violência das grandes cidades, com as preocupações com os nossos filhos e com a volta cada vez mais forte do antissemitismo. Mas a história mostra que um judeu não desiste diante das dificuldades. Ele reforça a sua Emuná e continua nas suas lutas, com forças renovadas. Os judeus sobreviveram às perseguições, expulsões e massacres. Sobreviveram à inquisição, aos pogroms e ao Holocausto. Às vezes perderam batalhas dolorosas, mas nunca perderam a guerra. Pois nós herdamos a força dos nossos patriarcas, que nos ensinaram que quando estamos cansados nós descansamos, mas nunca desistimos.

SHABAT SHALOM 

R' Efraim Birbojm

 

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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel Z"L, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
 
Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) de minha querida e saudosa tia, Léa bat Meir Z"L. Que possa ter um merecido descanso eterno.
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quinta-feira, 28 de novembro de 2024

NÃO HÁ NADA GARANTIDO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ TOLDOT 5785

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R' Moishe Eliezer ben Dvora Chana

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MENSAGEM DA PARASHÁ TOLDOT

ASSUNTOS DA PARASHÁ TOLDOT
  • Ytzchak e Rivka fazem Tefilá.
  • Rivka engravida.
  • Bebê se mexe.
  • Profecia.
  • Nascimento de Yaacov e Essav.
  • Venda da primogenitura.
  • Fome na terra.
  • Ytzchak e os Plishtim.
  • Disputa pelos poços.
  • O Casamento de Essav.
  • Ytzchak fica cego.
  • Ytzchak dá a Brachá de primogenitura para Yaacov.
  • Ytzchak dá Brachá para Essav.
  • Yaacov vai para a casa de seu tio Lavan procurar uma esposa.
  • Essav se casa com a filha de Ishmael.
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NÃO HÁ NADA GARANTIDO - PARASHÁ TOLDOT 5785 (29/nov/24)
 
"Carla era uma dona de casa de primeira viagem. Recém casada, ainda não se sentia à vontade com os serviços domésticos, em especial com a culinária caseira, mas se esforçava. Certo dia, Carla sentiu um cheiro delicioso de comida vindo da casa de Suzana, sua vizinha. Nunca tinha sentido um cheiro tão bom! Ficou com água na boca, mas estava com vergonha de ir pedir a receita. De noite, tomou coragem, bateu na porta da vizinha e falou:

- Por favor, você poderia me dar a receita do que você cozinhou hoje de tarde? Estava um cheiro delicioso!

- Claro que sim - respondeu Suzana, muito prestativa - Vou agora mesmo buscar meu caderno de receitas.

Quando ela voltou, Carla anotou tudo, com muito cuidado para não esquecer nenhum ingrediente. Ela mal podia esperar para preparar aquele prato delicioso para o seu querido marido. Correu para a cozinha, separou os ingredientes e começou a cozinhar. Porém, o cheiro não estava tão bom quanto o da vizinha. E, quando finalmente o prato ficou pronto, foi uma enorme decepção. O gosto estava longe de ser ao menos agradável. Será que Suzana havia se enganado e passado a receita errada? Muito nervosa, Carla foi desabafar com a vizinha. Suzana, no entanto, conferiu a receita e viu que estava tudo correto. Ela não entendeu o que havia dado errado. Para acalmar Carla, Suzana se comprometeu a ir no dia seguinte cozinhar junto com ela. Carla, mais tranquila, agradeceu.

No dia seguinte, Suzana entrou na casa de Carla, que estava começando a separar os ingredientes. Porém, Suzana quase desmaiou com o que viu. Carla estava prestes a colocar os caros ingredientes em uma panela imunda, com restos de comida grudados do dia anterior. Era por isso que sua comida ficava horrorosa! Suzana deu risada, e com muita paciência, ensinou para Carla que não adiantava escolher os melhores e mais caros ingredientes se a panela utilizada não estivesse bem limpa."

Parece uma situação surreal, mas infelizmente fazemos isso com a nossa espiritualidade. Muitas vezes nos dedicamos ao estudo da Torá e ao cumprimento das Mitzvót, ingredientes muito preciosos. Porém, se os nossos traços de caráter não forem refinados, o resultado final certamente não será o desejado.

 

Nesta semana lemos a Parashá Toldot (literalmente "Gerações"), que continua falando sobre a formação espiritual do povo judeu, através do nascimento dos filhos do nosso segundo patriarca, Ytzchak, como está escrito: "E estas são as gerações de Ytzchak, filho de Avraham; Avraham gerou a Ytzchak" (Bereshit 25:19). No final da Parashá da semana passada, Chaie Sara, Ytzchak havia se casado com uma mulher muito pura e correta, chamada Rivka, e a nossa Parashá recorda este casamento, como está escrito: "E Ytzchak tinha quarenta anos quando tomou por esposa Rivka, filha de Betuel, o arameu, de Padan Aram, irmã de Lavan, o arameu" (Bereshit 25:20).
 
Entretanto, ao observarmos com atenção estes dois primeiros versículos da Parashá, há algo que contrasta muito. Um nos recorda que Ytzchak era filho de Avraham, um dos pilares do mundo, aquele que representava a bondade, a misericórdia e a honestidade. É um grande orgulho ser um descendente de Avraham e poder contribuir e dar continuidade a tudo o que ele construiu. Porém, a família de Rivka já havia sido descrita na Parashá Chaie Sara. Por que recordar novamente que ela era filha de Betuel e irmã de Lavan, dois trapaceiros, desonestos e perversos, que usavam toda a sua sabedoria e o seu poder para fazer o mal? Esta recordação não era uma vergonha para ela?
 
Além disso, o versículo introdutório da Parashá traz uma aparente redundância ao afirmar que "E estas são as gerações de Ytzchak, filho de Avraham; Avraham gerou a Ytzchak". Não é óbvio que, se Ytzchak era filho de Avraham, então Avraham gerou a Ytzchak? Rashi explica a necessidade desta aparente redundância. Esta foi uma resposta da Torá aos zombadores da geração, que lançaram calúnias quanto à legitimidade da linhagem de Yitzchak. Mas qual era o argumento dos zombadores?
 
Na Parashá Vaierá, a Torá descreveu um dos momentos difíceis da vida de Avraham. Após a destruição de Sdom, Avraham decidiu mudar-se para um novo lugar e foi viver na cidade de Guerar, na terra dos Plishtim. A beleza de Sara era tão chamativa que ela foi novamente sequestrada e levada ao palácio de Avimelech, o rei dos Plishtim, exatamente como havia acontecido no Egito. Porém, mais uma vez D'us protegeu Sara e castigou Avimelech com uma praga, fazendo com que ele não conseguisse nem mesmo encostar o dedo nela. D'us então apareceu para Avimelech em um sonho e mandou-o devolver imediatamente Sara para seu marido, Avraham, e pedir para que ele, que era um profeta, rezasse pela sua cura. E assim Avraham fez, rezou por Avimelech e ele se curou.
 
Pouco tempo depois, Avraham foi agraciado com o nascimento de seu filho Ytzchak, um gigantesco milagre, já que ele tinha 100 anos, enquanto Sara tinha 90 anos e já tinha perdido há muitos anos a capacidade natural de gerar uma vida em seu ventre. Porém, ao invés de enxergarem a Mão de D'us neste milagre, o que disseram os zombadores da época? Eles alegaram que, uma vez que Sara não havia concebido por muitos anos enquanto estava casada com Avraham, mas engravidou imediatamente após passar a noite no palácio de Avimelech, então Yitzchak havia sido claramente gerado por Avimelech, e não por Avraham. É por isso que a Torá precisou reiterar que Yitzchak era filho de Avraham.
 
Mas por que a Torá achou necessário refutar os zombadores? O que a opinião deles importa para nós? Além disso, os detalhes da gravidez de Sara e o momento no qual ela deu à luz Yitzchak foram amplamente abordados na Parashá Vaieirá. Então por que apenas na Parashá desta semana, que começa com Yitzchak já com sessenta anos de idade, a Torá se incomodou em reafirmar que Ytzchak era filho de Avraham?
 
Explica o Rav Yochanan Zweig que a Torá precisou vir derrubar o argumento dos zombadores pois eles realmente tinham uma lógica que parecia válida. Após a reiteração de Avraham como pai de Yitzchak, a Torá relata que Yitzchak teve dois filhos, Yaakov e Essav. Yaacov escolheu o caminho do bem e da espiritualidade, e passava o tempo todo se dedicando ao estudo da Torá e ao aprimoramento dos seus traços de caráter, semelhante a Avraham e Ytzchak. Já Essav escolheu o caminho do mal e do materialismo excessivo, e passava o tempo todo caçando e enganando as pessoas. O comportamento de Essav reforçava as alegações dos zombadores, pois era difícil entender como alguém que era biologicamente parente de Avraham pudesse ser tão perverso. Portanto, os zombadores argumentaram que Yitzchak só poderia ser filho de Avimelech, pois em seu comportamento Essav se parecia muito mais com Avimelech do que com Avraham. Essav foi o progenitor de Amalek, que é descrito na Torá como "e ele não temeu a D'us" (Devarim 25:18). Este é o mesmo atributo com o qual Avraham definiu o povo dos Plishtim, como está escrito: "E Avraham disse: 'Pois eu pensei: Certamente não há temor de D'us neste lugar'" (Bereshit 20:11), dando ainda mais credibilidade à teoria de que Avimelech, rei dos Plishtim, era o avô de Essav. Portanto, nesta conjuntura, a Torá considerou necessário refutar as acusações maliciosas dos zombadores, que ameaçavam minar a herança e a santidade do povo judeu. Isso só foi feito quando Ytzchak tinha 60 anos, pois foi quando Essav nasceu.
 
Se pararmos para refletir sobre o argumento dos zombadores, aprenderemos algo incrível sobre a nossa espiritualidade. Da mesma maneira que uma pessoa herda materialmente as características de seus pais, poderíamos pensar que isso também acontece espiritualmente. Simplificando um pouco as complexas questões genéticas, pais loiros de olhos azuis vão ter filhos loiros de olhos azuis. Da mesma forma, esperaríamos que pais Tzadikim tivessem filhos Tzadikim. Era isso o que os zombadores acreditavam. Porém, isso não se aplica espiritualmente, pois não existe herança de espiritualidade. É verdade que uma criança que cresceu em uma casa equilibrada, sendo influenciada por bons atos o tempo todo, tem mais chances de fazer escolhas corretas na vida. Porém, em última instância, todos os seres humanos exercem seu livre arbítrio. Por isso encontramos muitos casos de filhos de Tzadikim que se desviaram do caminho. Apesar da retidão de Ytzchak, um verdadeiro "Korban" de D'us, seu filho Essav se tornou um tremendo perverso.
 
O contrário também pode acontecer, isto é, filhos de pessoas perversas podem se superar e se tornar pessoas de destaque em bondade. Foi justamente o que aconteceu com a nossa matriarca Rivka, que veio de uma casa de trapaceiros desonestos. É por isso que a Torá faz questão de recordar quem eram os parentes dela. Não para envergonhá-la, ao contrário, para dar a ela os devidos méritos. Rivka veio de uma casa com maus exemplos. Certamente sua educação foi completamente corrompida. Ela tinha tudo para ser uma pessoa desonesta e egoísta. Porém, Rivka conseguiu quebrar os traços de caráter negativos que estavam intrínsecos nela. Ela fez as escolhas corretas na vida e se tornou uma das matriarcas. E ela conseguiu fazer mais do que anular suas más características, ela teve a força de usar os maus traços de caráter com os quais havia sido educada para fazer o bem. Os trapaceiros conseguem "entrar na cabeça" de suas vítimas e, de forma muito sábia, enganá-las. Já Rivka conseguia "entrar na cabeça" das pessoas para entender como ajudá-las da melhor forma possível, onde elas realmente precisavam.
 
Fica desta Parashá, portanto, um ensinamento muito importante: não há nada garantido na educação dos nossos filhos. Por isso, além de obviamente nos esforçarmos para transmitir a eles o temor a D'us e o amor pelas Mitzvót, principalmente através do exemplo pessoal, precisamos também rezar muito por eles, pedindo a D'us que os iluminem em suas escolhas de vida. Podemos orientá-los, ensiná-los e educá-los, mas no final das contas a escolha será apenas deles mesmos.

SHABAT SHALOM 

 R' Efraim Birbojm

 

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