quinta-feira, 7 de maio de 2020

ACERTO DE CONTAS COM D’US – SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT EMOR 5780


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- Penalidade por Blasfêmia.
ACERTO DE CONTAS COM D'US - PARASHAT EMOR 5780 (08 de maio de 2020)

Um homem apareceu certa vez diante do Rav Israel Salanter zt"l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883) com o rosto bastante machucado. Ele relatou ao rabino que havia discutido com um vizinho e que, no calor do momento, o outro judeu havia perdido a cabeça e lhe dado uma surra. O Rav Salanter, chocado de ver aquele rosto todo machucado, imediatamente pediu para que o agressor fosse chamado. O homem chegou com medo e vergonha, pois sabia que a conversa não seria agradável. O Rav Salanter, com a expressão muito séria, disse:

- Você sabe que cometeu duas transgressões muito graves?

- Duas? - perguntou o homem, sem entender - Sei que perdi a cabeça e machuquei meu vizinho. Estou muito arrependido e envergonhado. Porém, foi a única coisa que eu fiz de errado. Não fiz duas transgressões!

- Infelizmente você fez duas transgressões graves. A primeira foi que você agrediu e machucou outra pessoa. Quando Moshé presenciou dois judeus discutindo e viu que um deles tinha levantado a mão para golpear seu companheiro, imediatamente chamou aquele homem de "Rashá" (perverso). E, além disso, você cometeu outra transgressão que também é muito grave. Durante o tempo em que você estava machucando outra pessoa, você poderia estar estudando Torá ou fazendo atos de bondade. Este desperdício de tempo se configura em outra transgressão muito grave".

Não apenas os erros que cometemos são transgressões. A perda da oportunidade de ter feito coisas boas no momento em que fizemos coisas ruins também é transgressão. As oportunidades que perdemos não voltam.
Nesta semana nós lemos a Parashat Emor (literalmente "Fale"), que continua a tratar de assuntos de pureza e impureza espiritual. A Parashá começa com as seguintes palavras: "E disse D'us a Moshé: 'Fale aos Cohanim, filhos de Aharon, e diga a eles: Vocês não devem se contaminar com uma pessoa morta dentre seu povo'" (Vayikrá 21:1). A Parashá então continua descrevendo muitas leis específicas para os Cohanim e para o Cohen Gadol, cujo propósito era mantê-los em um nível maior de pureza, já que eles eram os responsáveis pelos Serviços espirituais do povo judeu e deveriam ser vistos como modelos de santidade.

Porém, além do entendimento mais simples das palavras iniciais da Parashá, há um interessante Midrash que traz um enfoque diferente. O Midrash descreve que D'us mostrou a Moshé cada geração e seus juízes, cada geração e seus reis, cada geração e seus sábios e cada geração e seus ladrões. D'us mostrou a imagem de Shaul HaMelech e de seu filho Yonathan, dois grandes Tzadikim, pessoas espiritualmente muito elevadas, morrendo através da espada durante uma batalha com os Plishtim (Filisteus). Moshé, ao ver aquela cena, questionou D'us: "Por que o primeiro rei do povo judeu deveria morrer de maneira tão desonrosa, através da espada?". D'us então respondeu a Moshé: "Por que você está reclamando comigo? Shaul massacrou Nov, a cidade dos Cohanim. Fale aos Cohanim!"

D'us estava se referindo a um trágico incidente que ocorreu na história do povo judeu. Shaul HaMelech tinha sob seu comando um homem chamado Doeg, que era o chefe dos pastores do reinado. Ele era um homem muito sábio, porém extremamente invejoso, especialmente em relação a David HaMelech. Em certo momento do seu reinado, Shaul HaMelech pensou que David HaMelech estava se rebelando contra ele e passou a persegui-lo com a intenção de matá-lo. David HaMelech precisou fugir para salvar sua vida e buscou refúgio na cidade de Nov, onde viviam os Cohanim. Achimelech, o Cohen Gadol, sem saber que David HaMelech estava sendo perseguido por Shaul HaMelech, forneceu pão a ele. Doeg estava presente naquele momento e, quando Shaul HaMelech mencionou em seu palácio sobre a rebeldia de David HaMelech, ele aproveitou para fazer um Lashon Hará (malediscência) sobre os Cohanim, contando que eles haviam dado refúgio a David HaMelech mesmo sabendo que ele era um rebelde contra o rei. Sem verificar a fundo esta história, Shaul HaMelech acreditou no relato de Doeg e, em um ato desmedido, mandou matar todos os Cohanim de Nov. Portanto, de acordo com o Midrash, as palavras iniciais da Parashá, "Fale aos Cohanim", é a resposta de D'us ao questionamento de Moshé em relação à morte violenta e desonrosa de Shaul HaMelech. D'us quis dizer a Moshé: "Você quer saber por que Shaul morreu desta maneira? Pergunte aos Cohanim de Nov, assassinados por ordem de Shaul".

Porém, este Midrash desperta um enorme questionamento. De acordo com o entendimento mais superficial, a causa da morte violenta e prematura de Shaul HaMelech foi sua atitude de mandar matar os Cohanim de Nov. Porém, este Midrash parece contradizer a razão explícita trazida pela Torá para a morte de Shaul HaMelech. De acordo com o que está escrito no Tanach (Sefer Shmuel), ele desobedeceu ao comando de D'us, transmitido através do profeta Shmuel, de exterminar os homens, mulheres, crianças e animais do povo de Amalek, um povo que representa a escuridão do mundo, a negação da Supervisão Divina e da espiritualidade. Apesar da ordem simples e direta de D'us, Shaul poupou Agag, o rei de Amalek. Certamente seu ato foi embasado em nobres intenções, mas seu ato de "bondade" equivocada teve como resultado a germinação de Haman, descendente de Agag, um inimigo implacável que quase causou o extermínio do povo judeu nos dias de Mordechai e da Rainha Esther, séculos mais tarde. O Tanach então nos ensina que quando o profeta Shmuel viu o que Shaul HaMelech havia feito, desrespeitando a ordem de D'us, informou que alguém que não obedece a D'us não merece ser rei e, por causa disso, ele perderia seu reinado. Portanto, se o motivo da morte de Shaul HaMelech e da perda do seu reinado está explícito na Torá, por que o Midrash conectou a morte de Shaul com o massacre dos Cohanim de Nov, algo que não está escrito na Torá como causa de sua morte prematura?

Responde o Rav Yssocher Frand que o principal erro de Shaul HaMelech foi, de fato, não ter exterminado o povo de Amalek, conforme D'us havia ordenado. Apesar das suas melhores intenções, ele quase causou o extermínio do povo judeu ao ter racionalizado seus atos. Porém, ele poderia ter recebido uma punição mais leve e uma morte menos dolorosa. Shaul HaMelech poderia ter argumentado que ele não queria ter sido desobediente, que seu ato não havia sido uma rebeldia contra D'us, mas que sua atitude havia sido motivada pelo seu coração de manteiga e pela sua enorme compaixão pelas criaturas, que não haviam permitido que ele matasse o rei Agag. Tal argumento não o teria inocentado de sua grave transgressão, mas poderia ter atenuado a sua culpa de alguma forma. No entanto, o massacre dos Cohanim em Nov fechou todas as portas para este tipo de argumento. Onde estava seu coração de manteiga quando ele atacou Nov, pessoas inocentes, que não tinham feito mal a ninguém? Onde estava sua misericórdia quando ele exterminou todos os Cohanim de uma cidade? Isto demonstrou que a falha em matar o rei Agag não foi devido a uma compaixão incontrolável e, portanto, sua culpa não foi diminuída. Quando D'us respondeu o questionamento de Moshé com as palavras "Fale aos Cohanim", Ele estava ensinando que, apesar de muitas vezes termos muitas desculpas que justificam nossos erros, nossos próprios atos acabam demonstrando nossas verdadeiras intenções.

Este Midrash nos ensina algo profundo sobre o julgamento de D'us em relação aos nossos atos neste mundo. Sempre temos uma desculpa na ponta da língua para justificar nossos erros. Por que não viramos a noite estudando Torá em Shavuót? Pois estamos muito cansados. Mas D'us vê quando viramos a noite em uma festa. Por que não damos Tzedaká aos necessitados? Pois a situação econômica do país está difícil. Mas D'us vê quando escolhemos comprar o melhor modelo de Iphone. Por que não estudamos mais Torá durante o nosso dia? Pois não temos tempo. Mas D'us vê quantas horas por dia gastamos nas redes sociais ou assistindo vídeos que não agregam valor em nossas vidas. É isto o que ocorrerá no julgamento do Tribunal Celestial quando sairmos deste mundo. Chegaremos com uma sacola cheia de justificativas por todos os nossos erros, mas D'us nos mostrará, através do filme das nossas próprias vidas, que as justificativas não passavam de desculpas e, automaticamente, todos os argumentos serão derrubados. Os nossos próprios atos acabam contradizendo as nossas justificativas. Este conceito chama-se "Din e Cheshbon", literalmente "Julgamento e Contas".

Além disso, o conceito de "Din e Cheshbon" também tem outra implicação prática. "Din" representa o mau ato cometido, enquanto "Cheshbon" representa o acerto de contas que será feito das coisas positivas que a pessoa poderia ter feito enquanto estava envolvida em suas transgressões. Quando fazemos um mau ato, o problema não está apenas no ato que fizemos, mas também no desperdício do nosso potencial. No mesmo momento em que estamos fazendo coisas erradas ou desperdiçando nosso tempo com coisas que não agregam absolutamente nenhum valor, poderíamos estar aproveitando este tempo para alcançarmos o nosso objetivo neste mundo, que é o nosso crescimento espiritual. Ao invés de utilizar nossa boca para falar Lashon Hará, poderíamos estar utilizando-a para estudar Torá ou para dizer palavras de incentivo aos outros. Ao invés de passar uma hora acompanhando a vida dos outros no Facebook, poderíamos estar lendo um livro com ensinamentos de Torá que nos transformariam em pessoas melhores. Temos um potencial gigantesco, mas acabamos desperdiçando-o, e não nos arrependemos por isso.

Precisamos ser sinceros com as nossas atitudes. Sempre temos mil argumentos para justificar os nossos atos ou as nossas omissões. Porém, não podemos esquecer que é possível enganar os outros, até mesmo enganar a nós mesmos, mas não podemos enganar D'us.
 
SHABAT SHALOM
 
R' Efraim Birbojm

 

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quinta-feira, 30 de abril de 2020

TRAZENDO LUZ PARA OS OUTROS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHIÓT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5780


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ASSUNTOS DAS PARASHIÓT
PARASHAT ACHAREI MÓT
 
- Lembrança da morte dos filhos de Aharon, Nadav e Avihu.
- O Serviço de Yom Kipur.
- Sacrifício de animais fora do Mishkan.
- Proibição de comer sangue.
- Mitzvá de cobrir o sangue derramado na Shechitá.
- Relacionamentos proibidos.
- Idolatria de Molech
- Outras Relações Proibidas.
- Santidade de Eretz Israel.
PARASHAT KEDOSHIM
 
- Leis de Santidade.
- Honrar os pais.
- Shabat.
- Proibição de Idolatria.
- Leis de Korbanót.
- Ajuda aos necessitados (Leket, Shichechá e Peá).
- Honestidade nos negócios.
- Não desviar a justiça.
- Ame ao próximo como a si mesmo.
- Misturas proibidas (Kilaim e Shaatnez).
- Orlá.
- Proibição de fazer tatuagem.
- Não envergonhar os estrangeiros.
- Casamentos proibidos e castigos.

TRAZENDO LUZ PARA OS OUTROS - PARASHIÓT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5780 (01/maio/2020)

 
Daniel era um rapaz que gostava muito de refletir sobre a vida. Certa vez, no meio de uma aula de filosofia, ele resolveu fazer uma pergunta ao professor:
 
- Sei que não é uma pergunta simples. Mas, afinal, qual é o significado da vida?
 
O professor, um senhor idoso muito sábio, parou por alguns instantes para pensar em como responder de uma maneira simples e direta uma pergunta assim tão complexa. Ele então pegou no bolso a sua carteira e tirou de dentro dela um espelho redondo pequeno. Mostrou aos alunos e disse:
 
- Caros alunos, quando eu era pequeno, passei por uma guerra. A situação estava muito difícil, chegamos até mesmo a passar fome. Certo dia, caminhando por uma estrada em busca de um pouco de comida, encontrei os pedaços quebrados de um espelho. Provavelmente alguma motocicleta tinha se acidentado naquele lugar. Tentei encontrar todos os pedaços e juntá-los, mas não foi possível. Então guardei somente o pedaço maior e esfreguei-o em uma pedra, deixando-o redondo. Comecei a brincar com ele e fiquei fascinado ao descobrir que podia refletir a luz em lugares escuros, onde o sol não alcançava: em buracos profundos, fendas e dentro de armários. Aquilo virou um jogo para mim: levar luz aos lugares mais inacessíveis. Sempre que surgia uma oportunidade, eu tirava este espelhinho do bolso e continuava com o desafio do jogo.
 
- Quando cresci - continuou o professor - percebi que aquilo não era apenas uma brincadeira de criança, mas uma metáfora para o que eu poderia fazer com a minha vida. Percebi que não sou uma fonte de luz, mas com o que tenho, posso refletir a luz nos lugares escuros deste mundo, sobretudo nos corações das pessoas. Quem sabe outras pessoas me vejam fazendo isso e também resolvam fazer o mesmo. É para isso que eu vivo. Este é o significado da vida".
 
D'us fez um mundo com bilhões de pessoas, para entendermos que não fomos criados apenas para cuidar de nós mesmos, mas também para trazer um pouco de luz para os outros.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Acharei Mót (literalmente "Depois da morte") e Kedoshim (literalmente "Sagrados"). A Parashat Acharei Mót fala sobre os Serviços feitos pelo Cohen Gadol em Yom Kipur, o "Dia da Expiação", quando todo o povo judeu se arrependia de suas transgressões e D'us, em Sua infinita Misericórdia, perdoava o povo. Um dos Serviços mais importantes realizado pelo Cohen Gadol era a oferenda de um incenso dentro do Kodesh Hakodashim, o local mais sagrado do Templo. A Parashat também fala sobre outros cuidados com a santidade do povo judeu e a advertência para não nos contaminarmos através de comportamentos imorais. Já a Parashat Kedoshim nos ensina a receita para alcançarmos a santidade. Ao trazer muitas leis "Bein Adam Lechaveiró" (entre a pessoa e seu companheiro), a Parashat ensina que o caminho para a santidade também deve ser trilhado através de um comportamento adequado com as pessoas, e não apenas com D'us. A Parashat fala sobre a importância da justiça, da honestidade, da caridade com os necessitados e do amor ao próximo, que deve ser tão importante quanto o amor que sentimos por nós mesmos.
 
Normalmente em Yom Kipur estamos muito focados nos erros que cometemos em relação à D'us. Tanto por causa das Mitzvót que deixamos de cumprir quanto por causa das transgressões que cometemos, motivados pelos nossos desejos, nos arrependemos de todo coração e nos comprometemos a melhorar nosso comportamento. Porém, em nosso cotidiano, também transgredimos muito em relação ao próximo, mas acabamos não dando tanta importância para isto. O Talmud (Yomá 85b) afirma que Yom Kipur não pode expiar as transgressões "Bein Adam Lechaveiró" até que a pessoa tenha pedido perdão ao seu companheiro e tenha consertado, dentro do possível, o erro cometido. Por exemplo, se alguém roubou algo, o arrependimento só é considerado completo quando o ladrão devolve o objeto roubado (ou o seu valor) e pede perdão, tanto para a vítima quanto para D'us. Ao juntar a Parashá que fala sobre Yom Kipur com a Parashá que traz leis "Bein Adam Lehaveiró", talvez D'us esteja nos indicando o quanto devemos nos preocupar com nosso comportamento em relação ao próximo e o quão grave é negligenciarmos nossos relacionamentos interpessoais.
 
A Parashat Kedoshim começa com as seguintes palavras: "E disse D'us a Moshé: Fale com a congregação inteira dos Filhos de Israel e diga a eles: 'Sejam pessoas sagradas, pois Eu, Hashem, seu D'us, sou Sagrado'" (Vayikra 19:1,2). Porém, algo nestes versículos chama a atenção. Sabemos que na Torá não há nem mesmo uma única letra escrita de maneira desnecessária. Por que a Torá quis ressaltar que este comando de D'us, de que devemos ser pessoas sagradas, foi transmitido ao povo judeu quando estavam todos reunidos, a congregação inteira?
 
Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que este comando de D'us foi realmente declarado na presença de toda a congregação de Israel, pois a maioria dos ensinamentos fundamentais da Torá depende dela, ou seja, estão contidos neste comando de "Sejam sagrados". Já de acordo com o Rav Moshé Schreiber zt"l (Alemanha, 1762 - Eslováquia, 1839), mais conhecido como Chatam Sofer, destes versículos aprendemos que, para alcançarmos a santidade, não é preciso se isolar e se afastar do resto da sociedade. Pelo contrário, o ensinamento de sermos pessoas sagradas foi declarado em público justamente para nos ensinar que uma pessoa deve aprender a se santificar comportando-se adequadamente com as outras pessoas. Isto é percebido pelo próprio conteúdo da Parashá, que é voltado ao relacionamento correto, honesto e bondoso com o próximo.
 
Temos uma noção completamente equivocada sobre o que significa santidade. Muitos imaginam que a única forma de uma pessoa adquirir santidade é através do total afastamento dos assuntos mundanos. Muitos acham que o ideal é buscar retiros espirituais e adotar uma vida de total isolamento, pois somente assim conseguirão alcançar a verdadeira espiritualidade. Porém, D'us está nos transmitindo, no início da Parashat Kedoshim, que a santidade verdadeira somente pode ser alcançada quando vivemos entre outras pessoas. Por que? Pois é muito fácil ser honesto quando não interagimos com ninguém. É muito simples não falar Lashon Hará quando não convivemos com outras pessoas. Não há nenhuma dificuldade em manter a calma quando não há ninguém em volta nos incomodando. A verdadeira santidade está justamente em conviver com as pessoas e, ainda assim, conseguir ser honesto, guardar a nossa fala e viver com tranquilidade e respeito ao próximo.
 
Um rapaz certa vez perguntou ao Rav Avraham Yeshayahu Karelitz zt"l (Bielorússia, 1878 - Israel, 1953), mais conhecido como Chazon Ish, se era aconselhável ele se isolar para estudar Torá, de forma que não teria nenhuma distração ou interrupção. A pergunta era realmente interessante, pois sabemos que não há nada tão valioso quanto o estudo de Torá, e o isolamento certamente favorece a concentração no estudo. Porém, para a surpresa de todos, o Chazon Ish respondeu ao rapaz: "Meu coração não pode acreditar que, estando isolados de todos, você possa fazer uma verdadeira aquisição da Torá. Certamente a vida em sociedade e a proximidade dos amigos lhe ajudarão a adquirir, de forma verdadeira, os ensinamentos da Torá".
 
Viver em sociedade faz bem para nós. Podemos receber ajuda, incentivo e apoio das pessoas em volta. Porém, a vida em sociedade é fundamental para um dos principais pilares da Torá, que é podermos praticar bondades. Não podemos fazer bem a ninguém estando isolados. Portanto, de certa forma, aquele que quer se isolar do mundo para tornar-se uma pessoa mais sagrada está se comportando de maneira egoísta, pois está preocupado apenas com o seu próprio crescimento espiritual. Não é isto o que D'us quer de nós. Não viemos ao mundo para ganharmos sozinhos nenhuma corrida. Viemos ao mundo para ganharmos a corrida todos juntos e unidos.
 
Quando D'us fez todas as criaturas, criou-as em grandes quantidades. Porém, Adam Harishon, o primeiro ser humano, foi criado sozinho. D'us então disse: "Não é bom o homem estar sozinho" (Bereshit 2:18). Mas por que não era bom o homem estar sozinho? Ele estava no Gan Éden, sendo servido pelos anjos, em contato direto com D'us e podendo desenvolver sua espiritualidade! O que faltava para ele? Explicam nossos sábios que faltava para Adam a possibilidade de fazer bondades. Nosso papel neste mundo é emularmos D'us em todos os Seus atos. Da mesma maneira que Ele é bondoso, nós devemos ser bondosos. Da mesma forma que Ele é misericordioso, nós devemos ser misericordiosos. D'us faz bondades o tempo inteiro sem receber nada em troca. Esta é a forma de sermos pessoas sagradas, semelhantes à D'us. É isto que D'us quis dizer quando afirmou que nos criou "à Sua imagem e semelhança". Ele não se referia à semelhança física, e sim ao nosso potencial de bondade. Ao ajudar o próximo e nos preocuparmos com os outros, estamos nos comportando como D'us.
 
A única forma de fazermos bondades é vivendo em sociedade, interagindo com as pessoas, ajudando e desenvolvendo nossa sensibilidade. Foi isto o que nos ensinou o Rabi Akiva, ao afirmar que o versículo desta Parashá, "Ame ao próximo como a si mesmo" (Vayikra 19:18), é um dos principais fundamentos da Torá. E toda vez que levamos luz aos outros, no final somos nós mesmos que acabamos sendo iluminados.
 

"A felicidade que levamos aos outros volta, em uma alegria silenciosa, aos nossos próprios corações"

 

SHABAT SHALOM
 

R' Efraim Birbojm

 
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quinta-feira, 23 de abril de 2020

QUEM QUER VIDA? - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHIÓT TAZRIA E METSORÁ 5780

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PARASHIÓT TAZRIA E METSORÁ 5780:

São Paulo: 17h24                   Rio de Janeiro: 17h12 
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VÍDEO DAS PARASHIÓT TAZRIA E METSORÁ
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ASSUNTOS DAS PARASHIÓT
 
Tazria
 
- Impureza ao dar à Luz.
- A Tzaráat.
- Carne viva numa mancha.
- Tzaráat numa infecção.
- Tzaráat na queimadura.
- Pedaço de calva.
- Manchas brancas turvas.
- Calvície.
- Descoloração das roupas.
Metsorá
 
- Purificação de um Metsorá.
- A Oferenda do Metsorá pobre.
- Descoloração nas casas.
- Fluxos Masculinos.
- Fluxos Femininos.
 

QUEM QUER VIDA? - PARASHIÓT TAZRIA E METSORÁ 5780 (24 de abril de 2020)

 
"Rodrigo ligou para seu amigo Joel, pedindo a indicação de um bom fotógrafo para a festa de Bar Mitzvá do seu filho. Joel deu a ele o contato de Rubens, um excelente fotógrafo, que cobrava preços muito razoáveis.
 
- Ouvi falar dele - disse Rodrigo - Mas também ouvi coisas muito negativas sobre ele. Escutei que ele foi recentemente contratado para tirar fotos de um Bar Mitzvá, mas que chegou quase no final. Ele deixou de fotografar as melhores partes da festa. Não contrataria uma pessoa assim tão irresponsável!
 
- Você tem certeza que é verdade o que está me contando? - perguntou Joel, sem acreditar no que estava escutando. Ele conhecia bem Rubens, sabia que era um profissional muito sério e de boa índole.
 
- Tenho certeza absoluta. Era a banda do Rafael que estava tocando naquela festa, e foi ele que me contou sobre o fotógrafo. E conheço também outra pessoa que estava presente na festa e confirmou tudo.
 
- Talvez tenha sido um imprevisto, uma força maior - disse Joel, tentando julgar o fotógrafo favoravelmente.
 
- Não acredito que haja nenhum motivo justificável para o atraso dele. Ele deveria ter saído mais cedo de casa, prevendo um pneu estourado ou um congestionamento. Se ele não chegou a tempo, com certeza foi negligente! Não há nada que justifique tamanho atraso de um fotógrafo!  
 
Quando Joel desligou o telefone, estava em um dilema. Ele gostava muito de Rubens, mas será que poderia continuar recomendando o trabalho de alguém que não era confiável? No dia seguinte, decidiu verificar a história por conta própria. Ligou para Rafael, o músico da banda, e verificou que a história era verdade. Joel ficou profundamente decepcionado com Rubens e estava decidido a não indicá-lo a mais ninguém. Por obra do destino, no dia seguinte Joel encontrou Rubens na sinagoga. Incomodado, ele foi direto ao ponto e perguntou:
 
- É verdade que você chegou quase no final de um Bar Mitzvá, deixando a família sem o registro de muitos momentos felizes?
 
- Sim, é verdade - respondeu Rubens - Mas por que você está me perguntando isto?
 
Joel explicou que o havia indicado para a festa de um amigo, mas a pessoa havia recusado por causa de seu ato irresponsável naquele Bar Mitzvá. Rubens olhou para ele, incrédulo, e depois explicou o que havia acontecido:
 
- Que loucura! Que Lashon Hará terrível! O trabalho não era meu! O fotógrafo que havia sido contratado para o trabalho simplesmente não apareceu. Recebi uma ligação de emergência no meio da festa, para que eu fosse para lá imediatamente e tentasse salvar a situação. Apesar de estar muito ocupado naquele momento, larguei tudo o que estava fazendo e corri o mais rápido possível. Eu nem cobrei nada, fiz como um favor pessoal a eles.
 
Joel sentiu-se envergonhado. Por que não tinha sido mais cuidadoso? Por que havia acreditado tão rápido naquele Lashon Hará? Pediu perdão a Rubens por ter desconfiado dele e imediatamente ligou para seus amigos, para impedir que eles continuassem contando aquela mentira para outras pessoas" (História Real)
 
O Lashon Hará pode destruir vidas e prejudicar o sustento de pessoas honestas. Cuidado com a sua fala.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Tazria (literalmente "Concebe") e Metsorá (literalmente "Pessoa contaminada com a doença Tzaráat"), cujo ponto em comum é uma doença espiritual chamada Tzaráat, que além de manchar a pessoa espiritualmente, também apresentava uma manifestação física, que eram manchas na pele da pessoa. O principal motivo para o aparecimento da Tzaráat era a terrível transgressão da Lashon Hará, falar de forma negativa sobre as pessoas, causando perdas financeiras, psicológicas, sociais ou espirituais. Uma das provas que a Lashon Hará estava diretamente conectada com a Tsaráat está nas palavras iniciais da Parashat Metsorá: "D'us falou com Moshé e disse: 'Esta deve ser a lei do Metsorá, no dia de sua purificação'" (Vayikrá 14:1,2). A palavra "Metsorá" descreve a pessoa que contraiu a doença espiritual de Tsaráat. O Midrash diz que a palavra "Metsorá" na realidade é a contração das palavras "Motsi Shem Rá", que literalmente significa "Aquele que traz um mau nome", isto é, aquele que denigre o seu companheiro.
 
O Talmud (Avodá Zará 19b) traz um ensinamento muito interessante em relação aos cuidados com a nossa fala. O Rav Alexandri andava pelas ruas da cidade e anunciava "Quem quer vida?". As pessoas, pensando que tratava-se da descoberta de algum elixir de vida longa, aglomeravam-se ao redor dele e diziam: "Nos dê vida". O Rav Alexandri então citava um versículo dos Salmos: "Quem é o homem que deseja a vida?... Guarda a sua língua do mal..." (Tehilim 34:13,14). Ele explicou ainda que, para as pessoas que pensam que a melhor maneira de guardar a língua é dormindo, o versículo continua e diz "Afaste-se do mal e faça o bem" (Tehilim 34:15), e explicou que não há "bem" exceto a Torá, como diz o Shlomo HaMelech, o mais sábio de todos os homens: "Pois Eu dei a vocês um bom ensinamento, não abandonem a Minha Torá" (Mishlei 4:2). Mas qual é a conexão entre a Torá e evitar a Lashon Hará?
 
A resposta está em uma história muito parecida, descrita em um Midrash, porém com algumas pequenas diferenças. Um vendedor ambulante costumava viajar de cidade em cidade, nas vizinhanças da cidade de Tsipori, e assim ele anunciava: "Quem quer o elixir da vida?". As pessoas, ao escutarem o que ele estava anunciando, achavam que ele estava vendendo algo milagroso, um elixir que garantia vida longa, e por isso se amontoavam ao seu redor. O Rav Yanai, que estava sentado estudando, chamou o vendedor ambulante para entrar e vender-lhe o elixir. O vendedor ambulante disse ao Rav Yanai que ele e pessoas como ele não precisavam do elixir. Mesmo assim o Rav Yanai insistiu mais uma vez. O vendedor ambulante foi até ele, pegou um livro de Salmos e mostrou-lhe os versículos "Quem é o homem que deseja a vida? Guarda sua língua do mal... Afaste-se do mal e faça o bem". O Rav Yanai disse então que durante toda a sua vida nunca havia entendido o significado daqueles versículos até a vinda daquele vendedor ambulante.
 
Este Midrash desperta muitos questionamentos. Em primeiro lugar, por que o vendedor ambulante precisou mostrar ao Rav Yanai o versículo escrito dentro do livro, se o Rav Yanai era um grande erudito e certamente sabia aquele versículo de cor? Além disso, o que o vendedor ambulante acrescentou ao Rav Yanai no entendimento do versículo, a ponto de ele dizer que não havia entendido o versículo até aquele momento? E, finalmente, se aquele homem era realmente um vendedor ambulante, de que servia ao seu negócio que as pessoas se amontoassem ao seu redor, escutassem um ensinamento de ética e fossem embora sem comprar nada? Se a profissão dele era sair pelas ruas apenas dando "sermões", carregando uma cesta nos ombros para fingir que era um vendedor ambulante, por que o Midrash o chamou de vendedor ambulante?
 
Explica o Rav Yaacov Kamenetzky zt"l (Lituânia, 1891 - EUA, 1986) que aquele homem citado pelo Midrash era realmente um vendedor ambulante, mas além de ter poções entre suas mercadorias, ele também tinha textos de Torá para vender e, para atrair compradores para os seus textos, ele gritava: "Quem quer o elixir da vida?". A prova disso é que o vendedor ambulante dizia "Quem quer o elixir da vida?", enquanto o Rav Alexandri dizia apenas "Quem quer vida?". Isto vem nos ensinar que proteger a língua do mal é a própria vida, enquanto o texto de Torá é o elixir da vida. Quando o Rav Yanai pediu para ver o elixir da vida, ele já sabia que guardar a língua representava a vida, mas ele não sabia como fazer para guardar a língua da maneira correta. O vendedor ambulante mostrou a ele o elixir, isto é, o texto de Torá, e este foi o fato novo para o Rav Yanai, de que o estudo da Torá é o elixir da vida, a "poção mágica" contra o Lashon Hará. Esta era a intenção do vendedor ambulante quando disse ao Rav Yanai que ele não precisava do elixir, isto é, dos textos de Torá, pois ele já estava sentado estudando Torá. É  por isso que o Rav Yanai ficou tão surpreso e disse que não sabia o quão simples era cumprir o que o versículo ensinava.
 
Nossos sábios ensinam que o povo judeu disse a D'us: "Já que Você nos advertiu tantas vezes na Torá sobre a severidade de falar Lashon Hará, Você também precisa nos dar um "freio" para as nossas bocas". D'us então respondeu: "Eu lhes dei a Minha Torá. Se vocês gastarem seu tempo aprendendo-a, não falarão Lashon Hará". Uma das maiores armas do Yetser Hará é a ignorância. Aquele que não estuda Torá se assemelha àquele que entra em um jogo de futebol sem saber as regras. Da mesma forma que o mundo material tem regras, assim também funciona no mundo espiritual. Se não as conhecemos, certamente as estamos descumprindo.
 
Nos ensina Shlomo HaMelech: "Morte e vida estão no poder da língua" (Mishlei 18:21). Se o homem utiliza o poder da fala para dizer palavras da Torá, incentivar pessoas ou repreender aqueles que fazem transgressões para ajudá-las a adquirir mais méritos espirituais, então esta pessoa está trazendo vida para ela e para o mundo inteiro. Por outro lado, se ela usa o poder da fala para se envolver em calúnias, afastar pessoas e criar intrigas, ela traz morte para o mundo e para si mesma. Através do estudo da Torá nós crescemos e nos transformamos em pessoas melhores. A Torá nos ensina qual deve ser o nosso comportamento em cada situação e como enxergar as coisas de forma positiva. Através de palavras bondosas nós construímos as pessoas. Portanto, está no estudo da Torá e no uso correto das palavras o verdadeiro poder de construir um mundo melhor.
 

SHABAT SHALOM
 

R' Efraim Birbojm

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