quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

COLETIVO VERSUS INDIVIDUAL - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BESHALACH 5780

Para dedicar uma edição do Shabat Shalom M@il, em comemoração de uma data festiva, no aniversário de falecimento de um parente, pela cura de um doente ou apenas por Chessed, favor entrar em contato através do e-mail efraimbirbojm@gmail.com.
   
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PARASHAT BESHALACH 5780:

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- Desvio da terra dos Plishtim.
- O Faraó se arrepende e persegue os judeus.
- A abertura do Mar.
- A morte dos egípcios.
- O Cântico do mar.
- O Cântico das mulheres.
- As águas amargas.
- Reclamação por comida.
- Man.
- Shabat.
- Água da Rocha.
- Amalek e a batalha eterna.

COLETIVO VERSUS INDIVIDUAL - PARASHAT BESHALACH 5780 (07 de fevereiro de 2020)

 
"Yossef, um jovem executivo que trabalhava em um banco, estava com esgotamento nervoso e sinais de depressão. Não sabendo como lidar com a situação, ele foi ao médico. Na busca por um diagnóstico, o médico começou a fazer algumas perguntas a Yossef. Em um primeiro momento, as perguntas eram sobre o estado de saúde dele. Porém, de repente, o médico começou a fazer perguntas estranhas:
 
- Como se chama o rapaz que trabalha ao seu lado no banco?
 
- Marcos - respondeu Yossef, sem entender o motivo daquela pergunta.
 
- E qual é o sobrenome dele? - continuou o médico.
 
- Eu não sei - respondeu Yossef, um pouco envergonhado.
 
- Sabe onde ele mora? - insistiu o médico.
 
- Não tenho ideia - respondeu Yossef, ainda mais confuso.
 
- O que ele faz quando não está na empresa? Ele estuda? Tem outros empregos?
 
- Também não sei - respondeu Yossef, já um pouco incomodado com aquelas perguntas.
 
- Yossef, acho que eu posso tentar ajudá-lo a superar este momento difícil, mas você tem que fazer o que eu lhe pedir, mesmo que não entenda. Em primeiro lugar, faça amizade com Marcos. Descubra quem ele é, o que gosta e o que almeja na vida, e faça alguma coisa para ajudá-lo. Além disso, faça amizade com o zelador do seu prédio. Descubra qual é o sonho da vida dele e tente ajudá-lo a realizar. Quero que você volte para novos exames dentro de dois meses.
 
Yossef saiu do consultório confuso. Realmente não havia entendido o que o médico queria dele. Achou que sairia dali com uma receita médica, mas saiu com tarefas que não pareciam ter nada a ver com os seus problemas. Porém, mesmo cético, resolveu seguir as orientações do médico. Afinal, não tinha nada a perder.
 
Ao final de dois meses, Yossef não voltou ao consultório médico. Porém, enviou ao médico um e-mail, transbordando de alegria e sem nenhum sinal de melancolia ou tristeza. Descrevia, em sua mensagem, a alegria de ter ajudado Marcos a passar no vestibular e de ter ensinado o zelador do seu prédio a ler e escrever, após mais de 50 anos sendo um completo analfabeto. No final da mensagem, Yossef escreveu: "Percebi que a verdadeira cura para os nossos problemas é pararmos de pensar somente em nós mesmos e nos transformarmos em remédios na vida dos outros".
 

"A alegria que levamos aos outros volta, em uma felicidade silenciosa, aos nossos próprios corações"

Nesta semana lemos a Parashat Beshalach (literalmente "E enviou"), que descreve a saída triunfal do povo judeu do Egito. Aquele Faraó, que havia questionado "Quem é D'us" quando Moshé veio pedir a libertação do povo judeu, estava completamente arrasado. Ele havia perdido seus escravos, havia sido duramente castigado com as 10 pragas e havia ficado sem suas riquezas, que foram levadas pelos judeus quando eles partiram.
 
Durante a descrição da saída do Egito, quando o povo judeu experimentava uma sensação única de êxtase, há um versículo que nos chama a atenção: "Moshé levou os ossos de Yossef com ele" (Shemot 13:19). Sabemos que a Torá não é apenas um livro de histórias, é um manual de como devemos nos comportar. O que esta atitude de Moshé nos ensina?
 
Ao pegar os ossos de Yossef, Moshé, o grande líder do povo judeu, estava cumprindo o juramento que os irmãos de Yossef havia feito para ele no seu leito de morte, de que levariam seu corpo para ser enterrado em Israel. Yossef sabia que seus irmãos não teriam força para enterrá-lo em Israel logo após o seu falecimento, como ele havia feito com seu pai, Yaacov, então ele os fez jurar que levariam seu corpo quando o momento da redenção chegasse. Mesmo que já haviam se passado mais de 200 anos da morte de Yossef, Moshé fez questão de cumprir o juramento. Os Midrashim explicam que não foi uma tarefa fácil encontrar o local onde os egípcios haviam ocultado o caixão de Yossef, mas mesmo isto não impediu Moshé de se esforçar no limite, mostrando o quanto ele estava determinado.
 
O Midrash acrescenta um detalhe ainda mais impressionante à atitude de Moshé. A preocupação dele em buscar o caixão de Yossef ocorreu no mesmo momento em que o resto do povo judeu estava preocupado em pedir riquezas aos egípcios, no momento da saída do Egito. O Midrash nos ensina que D'us, ao ver esta atitude de Moshé, de ter ido atrás do caixão de Yossef ao invés de ter ido atrás da riqueza dos egípcios, proclamou "O Chacham (sábio) toma para si as Mitzvót".
 
Se pararmos para refletir, perceberemos que este Midrash traz uma aparente contradição. A implicação destas palavras é que Moshé era um grande Tzadik, pois estava preocupado com o cumprimento das Mitzvót, enquanto o resto do povo estava apenas satisfazendo seus desejos materiais, movidos pela ganância. Parece que D'us estava dando um grande louvor a Moshé, mas, ao mesmo tempo, estava fazendo uma dura crítica à atitude do povo, de se conectar ao materialismo e desprezar a espiritualidade.
 
Porém, na Parashat da semana passada, D'us pediu a Moshé que falasse com os judeus e os instruíssem a pedir aos vizinhos egípcios objetos de valor antes de partirem do Egito. Por que era necessário pedir os objetos de valor? Explica o Talmud (Brachót 9a) que D'us havia profetizado para Avraham Avinu que seus descendentes sofreriam de forma muito dura durante uma época de escravidão, mas que sairiam de lá com uma grande riqueza. D'us não queria que Avraham reclamasse com Ele por ter cumprido a parte da profecia da escravidão, mas não ter cumprido a parte da profecia da grande riqueza. Portanto, o povo judeu não foi pedir os objetos de valor dos egípcios por causa de sua ganância, e sim para cumprir um comando explícito de D'us, isto é, uma Mitzvá. Então por que parece, através das palavras do Midrash, que o povo fez algo de errado enquanto Moshé fez algo louvável, se ambos estavam cumprindo a vontade de D'us? Além disso, por que o Midrash diz que Moshé foi considerado por D'us um "Chacham" por ter realizado a Mitzvá de cuidar dos ossos de Yossef, e não um "Tzadik" (Justo)?
 
Responde o Rav Yochanan Zweig que o povo judeu, ao recolher o dinheiro dos egípcios, realmente estava cumprindo uma Mitzvá. Porém, a diferença entre a Mitzvá feita pelo povo judeu e a Mitzvá feita por Moshé é que, enquanto Moshé estava preocupado com a sua responsabilidade comunitária, uma Mitzvá que envolvia todo o povo judeu e que não trazia nenhum benefício pessoal a ele, o resto do povo estava preocupado apenas com suas responsabilidades individuais, em fazer um ato que, no final de contas, traria um enorme benefício pessoal a cada um deles.
 
Isto quer dizer que a Torá está nos ensinando a importância de investirmos mais no coletivo e menos no individual. Obviamente que temos as nossas obrigações e responsabilidades individuais, mas nunca podemos nos esquecer também das nossas responsabilidades coletivas. Não fomos criados sozinhos em mundos individuais e, portanto, temos responsabilidades com as outras pessoas. D'us não entregou a Torá a um indivíduo que tinha méritos, mas para um povo inteiro, demonstrando que somos parte de um grupo e devemos também nos sentir responsáveis uns pelos outros.
 
Nem sempre esta escolha é fácil. É necessária uma grande objetividade para que uma pessoa consiga realizar uma Mitzvá que não a beneficia diretamente. Foi esta a grandeza que D'us percebeu em Moshé. Nos ensinam os nossos sábios: "Quem é o Chacham? Aquele que aprende de todas as pessoas" (Pirkei Avót 4:1). Portanto, Chacham é aquele que tem a objetividade de deixar de lado sua própria perspectiva e a predisposição para enxergar a situação na perspectiva dos outros. Por isto Moshé é descrito como sendo "Chacham" por seu comportamento, pois ele demonstrou conseguir pensar em prol dos outros, mesmo às custas de seu benefício pessoal.
 
Ao longo de nossas vidas, somos confrontados com escolhas que muitas vezes envolvem um difícil dilema:  devemos fazer atos que nos trazem benefícios pessoais ou atos que trazem benefícios aos outros? Algumas vezes as duas situações podem até mesmo envolver Mitzvót, tornando a decisão ainda mais difícil. A Parashat nos ensina que, se queremos um dia alcançar a grandeza de Moshé, precisamos aprender a pensar mais nos outros e menos em nós mesmos. A escolha somente será correta se for feita de maneira objetiva, isto é, não baseada apenas em nossos próprios interesses e agendas pessoais, mas levando em consideração o povo judeu como um todo.
 

SHABAT SHALOM

 

R' Efraim Birbojm

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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

ENXERGANDO O POTENCIAL - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BÔ 5780

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ASSUNTOS DA PARASHAT BÔ

- Gafanhotos: A 8ª Praga.
- Escuridão: A 9ª Praga.
- Preparativos para a Praga Final.
- Rosh Chodesh.
- Preparação do Cordeiro.
- A Festa de Pessach.
- Korban Pessach.
- Morte dos Primogênitos: A Praga Final.
- O Êxodo.
- As Leis do Korban Pessach.
- Deixando o Egito.
- Relembrando o Êxodo.
- A Consagração do Primogênito.

ENXERGANDO O POTENCIAL - PARASHAT BÔ 5780 (31 de janeiro de 2020)

 
"Rivka acordou cedinho e, ao olhar pela janela, viu que seu vizinho, o rabino da comunidade, estava atravessando a rua carregando um saco de lixo cheio. Ela percebeu que o rabino parou por alguns instantes, olhou para os lados e, ao constatar que não ninguém estava olhando, abriu a lata de lixo do vizinho da casa em frente e rapidamente jogou lá o seu lixo. Rivka achou estranha aquela atitude, mas não fez muito caso.
 
Porém, na manhã seguinte, a mesma cena se repetiu. Desta vez Rivka começou a ficar incomodada. Não era um absurdo o rabino, que estava sempre pregando na sinagoga a importância de sermos honestos em todos os nossos atos, enfatizando que não devemos roubar e nem nos aproveitarmos dos outros, estar jogando o seu próprio lixo na lata do vizinho da frente? Parecia uma enorme hipocrisia!

Quando Rivka viu pelo terceiro dia consecutivo a mesma cena, ela não aguentou. Saiu de casa e resolveu abordar o rabino, dando um flagrante nele. O rabino, ao ver a vizinha se aproximando justamente no momento em que colocava o seu lixo na lata do vizinho, se mostrou bastante desconcertado. Rivka então falou:

- Rabino, me desculpe, mas eu queria entender como pode o senhor sempre falar nos seus discursos na sinagoga sobre a importância da honestidade e, no final das contas, o senhor estar vindo toda manhã, enquanto todos ainda estão dormindo, para jogar o seu lixo na lata do vizinho? Isto não é ser hipócrita?

O rabino então deu um sorriso e começou a explicar sua atitude:
 
- Não se preocupe, não estou fazendo nada de errado. Nesta região há muitos ladrões que se aproveitam do momento em que as pessoas viajam para entrar em suas casas e furtar dinheiro, joias e equipamentos eletrônicos. O vizinho da frente viajou há duas semanas e eu estava muito preocupado que pessoas mal intencionadas pudessem perceber a ausência dele. Tive então uma incrível ideia. Todas as manhãs eu saio bem cedinho com duas sacolas de lixo. Uma delas eu jogo na minha lata de lixo, enquanto a outra eu jogo na lata de lixo dele. Sempre faço isso bem cedinho e me certifico que ninguém está vendo que sou eu que estou jogando. Desta maneira, quando as pessoas passam e veem a lata de lixo cheia, acham que nosso vizinho está em casa. Assim, eles vão procurar outra casa vazia para assaltar".

Na vida acabamos sendo precipitados ao julgarmos as pessoas apenas através de atos isolados. Precisamos nos esforçar para enxergar o potencial que existe dentro de cada um.

Nesta semana lemos a Parashat Bô (literalmente "Venha"), que descreve as últimas três pragas que atingiram o Egito e destruíram toda a infraestrutura do maior império da época, preparando o momento da saída do povo judeu rumo ao recebimento da Torá no Monte Sinai, após 210 anos de uma escravidão muito sofrida. Em resposta ao comportamento perverso dos egípcios, D'us os golpeou duramente com as pragas, fazendo-os sentir na pele a dor e o sofrimento que eles haviam causado aos judeus por tanto tempo.
 
Porém, não apenas os egípcios foram atingidos pelas pragas. Assim a Torá descreve a nona praga, a Praga da Escuridão: "Então Moshé estendeu a mão para o céu e houve uma escuridão densa sobre toda a terra do Egito por três dias" (Shemot 10:22). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que a escuridão, além de castigar os egípcios, também foi necessária para ocultar a morte de alguns judeus daquela geração, que eram pessoas más e não queriam sair do Egito. Estes judeus morreram durante os três dias de escuridão para que os egípcios não vissem sua morte e dissessem: "Os judeus também estão sendo golpeados com as pragas, como nós".
 
Entretanto, esta explicação de Rashi desperta um questionamento. Na verdade, toda aquela geração havia se desviado do caminho. A prova disto é que, de acordo com o Midrash, quando os judeus se aproximaram do Mar Vermelho, o Anjo do Mar não quis permitir que eles atravessassem, argumentando que os judeus não tinham méritos para serem salvos, já que eram adoradores de ídolos como os egípcios. Então, se todos eles haviam feito idolatria e se desviado dos caminhos corretos, por que apenas uma parte do povo judeu morreu na praga da escuridão, e não todo o povo? E se era para matá-los, por que D'us esperou até a nona praga?
 
Explica o Rav Yaacov Kamenetzky zt"l (Lituânia, 1891 - EUA, 1986) que, influenciados pelas duras condições da escravidão e pela confusão mental a qual eles estavam submetidos, realmente o povo judeu inteiro havia caído espiritualmente, a ponto de se envolverem até com idolatria. Porém, não foi este o motivo pelo qual D'us matou alguns judeus na Praga da Escuridão. Na abertura do Mar Vermelho, foi D'us que pessoalmente argumentou com o Anjo do Mar e afirmou que os judeus haviam transgredido de forma involuntária, e não por querer rebelar-se contra a vontade de Dele.
 
De acordo com o Rav Yaacov Kamenetzky, os judeus que morreram foram aqueles que não apenas não queriam mais ir embora do Egito, mas que também queriam impedir que o resto do povo saísse. Mas por que eles não queriam permitir que os outros judeus saíssem? Alguns comentaristas explicam que eles achavam que a escravidão deveria durar 400 anos, conforme havia sido profetizado para Avraham. Por isso, acreditavam que o momento de partir ainda não havia chegado. Eles não confiaram em D'us e temiam que, se fossem embora antes do momento certo, seriam mortos. A verdade é que o temor deles era embasado em um fundamento verdadeiro. Muitos membros da Tribo de Efraim, cerca de 300 mil pessoas, haviam tentado sair do Egito antes do momento certo, "forçando" a salvação, por terem feito um erro nos cálculos de quando seria o momento correto da redenção, e haviam morrido. Baseados na tragédia que se abateu sobre a Tribo de Efraim, estes judeus não acreditaram nas palavras de Moshé, de que D'us havia determinado que a hora da redenção havia chegado pelo mérito dos patriarcas. Eles começaram a influenciar outras pessoas, tentando dissuadi-las da ideia de sair. Foi por isso que D'us matou estas pessoas na Praga da Escuridão, para que eles não "contaminassem" o resto do povo com seu negativismo e não convencessem as outras pessoas a não saírem.
 
Porém, a morte de tantos judeus também teve um impacto sobre o resto do povo. A escuridão ocultou dos egípcios a morte dos judeus, mas não escondeu a tragédia do resto do povo, que certamente ficou chocado ao ver a morte de seus irmãos. Eles testemunharam os judeus sendo atingidos pela Praga da Escuridão com mais força do que os egípcios foram atingidos. Foi por isto que D'us "adiou" a morte destas pessoas, para que esta tragédia ocorresse apenas perto do momento da redenção e não houvesse tempo para desestimular os judeus.
 
Daqui aprendemos o cuidado que devemos ter com as influências que recebemos das pessoas em volta. Precisamos ser muito seletivos em relação a quem serão os nossos amigos e até mesmo os nossos vizinhos, pois recebemos influências o tempo inteiro, positivas ou negativas. Mesmo quando temos muita convicção de algo, influências externas podem fazer recair sobre nós dúvidas e questionamentos. Ao enxergarmos constantemente maus comportamentos, podemos acabar nos acostumando e considerando-os como sendo normais e aceitáveis.
 
Porém, há outro ensinamento incrível que aprendemos deste episódio da acusação do Anjo do Mar contra o povo judeu. Se realmente os judeus haviam se tornado idólatras, por que D'us os salvou? Pois embora o anjo só tenha conseguido enxergar a realidade atual do povo judeu, isto é, o quanto eles haviam despencado em seu nível espiritual, D'us conseguiu enxergar o enorme potencial deles. D'us sabia que aquela nação, mesmo estando em um nível espiritual tão baixo, no nível 49 de impureza, em sete semanas seria capaz de dizer "Naassê Ve Nishmá" (Nós faremos e entenderemos) durante a entrega da Torá.
 
Este potencial do povo judeu era algo interno, que o anjo não foi capaz de discernir. Rashi explica que o Mar Vermelho somente se abriu quando Moshé aproximou-se trazendo o caixão de Yossef. Qual é a conexão entre o caixão de Yossef e a abertura do mar? Ao mostrar ao anjo o caixão de Yossef, D'us queria provar que aquela nação merecia ser salva, pois a origem deles não estava enraizada em adoradores de ídolos, ao contrário, estava enraizada em grandes Tzadikim, que haviam superado imensas dificuldades para se manterem fieis às palavras de D'us. Yossef era rico, bonito e poderoso, e estava imerso dentro de uma sociedade completamente corrompida, porém ele não se corrompeu. D'us quis mostrar ao Anjo do Mar que assim seriam os seus descendentes, pessoas que conseguiriam vencer seus desafios e que estariam dispostos a dar a própria vida para cumprir a vontade de D'us.
 
Precisamos nos espelhar em D'us para que nosso comportamento em relação aos outros possa mudar. Infelizmente somos muito rápidos em julgar e rotular as pessoas, baseados apenas em falhas pontuais delas. Precisamos nos esforçar para julgarmos as pessoas de forma positiva, dando a elas o benefício da dúvida. Além disso, mesmo quando é certeza que uma pessoa cometeu um erro, ao invés de enxergá-la como um transgressor, devemos olhar para ela como alguém que tem um enorme potencial a ser desenvolvido. Desta maneira, não apenas estaremos sendo justos com a outra pessoa, mas estaremos chegando ao nível de nos comportarmos como D'us.
 

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

 
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

REFLEXÕES SINCERAS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT VAERÁ 5780


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ASSUNTOS DA PARASHAT VAERÁ

- Hashem garante novamente a Moshé que o povo será salvo.
- As 4 expressões de libertação.
- Genealogia de Moshé e Aharon.
- O cajado vira uma serpente.
- Sangue: A 1ª Praga.
- Rãs: A 2ª Praga.
- Piolho: A 3ª Praga.
- Hordas de animais selvagens: A 4ª Praga.
- Epidemia: A 5ª Praga.
- Sarna: A 6ª Praga.
- Granizo: A 7ª Praga.

REFLEXÕES SINCERAS - PARASHAT VAERÁ 5780 (24 de janeiro de 2020)

 
Durante a Guerra do Golfo, em 1991, houve um violento ataque de mísseis vindos do Iraque contra Ramat Gan, uma cidade muito próxima de Bnei Brak, na noite de Shabat. Um parente do Rav Elazar Man Shach zt"l (Lituânia, 1899 - Israel, 2001) foi falar com ele no dia seguinte, impressionado por ter percebido que os ataques atingiram a cidade de Ramat Gan, onde poucas pessoas cumprem Mitzvót, mas não atingiram a "cidade santa" de Bnei Brak, onde muitos se ocupam do estudo e do cumprimento da Torá. Este parente disse ao Rav Shach:
 
- Veja, Rav, que incrível. Estamos testemunhando o cumprimento das palavras do versículo: "E separarei a Terra de Goshen (onde viviam os judeus no Egito)... para que a praga dos animais ferozes não esteja lá, para que você saiba que eu sou D'us no meio da terra" (Shemot 8:18).
 
Porém, ao escutar isto, o Rav Shach balançou a cabeça e disse:
 
- A minha reação a este ataque foi exatamente o contrário. Reagi da mesma forma que o profeta Yoná. Quando ele estava em um barco, fugindo da missão que D'us lhe havia designado, e o barco foi atingido por uma forte tempestade, cada um dos marinheiros pegou seu pequeno ídolo e começou a rezar para ele. Porém, Yoná se levantou e anunciou: "É por minha causa que esta grande tempestade veio a vocês" (Yoná 1:12). Mas por que Yoná pensou isso? O barco estava cheio de idólatras, cujas atitudes certamente também desagradavam a D'us. Então por que ele assumiu que a tempestade era uma mensagem para ele?
 
- Por que você acha que os foguetes caíram justamente na noite de Shabat? - continuou o Rav Shach - As explosões ocorreram por volta das 19h00, um horário no qual as pessoas deveriam estar sentadas estudando Torá, revisando o que estudaram durante a semana. Porém, em vez disso, o que a maioria dos judeus de Bnei Brak estava fazendo? Estavam sentados, conversando. O fato dos foguetes terem caído na noite de Shabat bem ao lado de Bnei Brak foi uma mensagem Divina de que os judeus de Bnei Brak não estavam fazendo o que deveriam estar fazendo no Shabat. 
 
- É sempre mais fácil apontar o dedo para os outros como sendo a causa dos nossos problemas - concluiu o Rav Shach - É mais fácil pensar, quando ocorre alguma tragédia, que ela aconteceu por causa dos que estão mais afastados de D'us. É mais tentador pensar que o problema é deles e, portanto, a culpa também é deles. Porém, esta não é a forma de pensar da Torá. A Torá exige que uma pessoa julgue seus próprios atos antes de julgar os atos dos outros. Portanto, da mesma forma que o profeta Yoná disse "Por minha causa esta grande tempestade veio a vocês", mesmo estando rodeado por idólatras, assim nós também devemos nos comportar, e precisamos enxergar este ataque de mísseis como sendo por nossa culpa, não deles.

Nesta semana lemos a Parashat Vaerá (literalmente "E apareceu"), quando finalmente iniciou-se o processo de salvação do povo judeu da escravidão egípcia. D'us começou a mandar as pragas que, aos poucos, foram destruindo completamente toda a infraestrutura do maior império da época. Porém, apesar de toda a morte e destruição que as pragas causavam, o Faraó continuava em sua obstinação de não deixar o povo judeu sair. Em certo momento Moshé ameaçou o Faraó, afirmando que, caso ele se recusasse a libertar o povo judeu, D'us golpearia todo o país com uma peste que dizimaria todo o gado. Moshé ainda avisou ao Faraó: "D'us fará uma distinção entre o gado de Israel e o gado do Egito, de modo que nenhum animal morrerá dentre o gado dos Filhos de Israel" (Shemot 9:4). E foi exatamente o que aconteceu. Porém, apesar das palavras de Moshé, o Faraó ainda enviou uma delegação pessoal para investigar o que havia acontecido em Goshen. Eles viram com seus próprios olhos que nenhum animal dos judeus havia morrido durante aquela praga.
 
Isso não seria suficiente para derreter o coração endurecido de qualquer pessoa normal? Não seria razoável, depois de testemunhar este fenômeno milagroso, o Faraó desistir e libertar o povo judeu? Porém, qual foi a reação do Faraó? "O Faraó endureceu seu coração e ele não enviou o povo" (Shemot 9:7). O que significa este comportamento completamente ilógico do Faraó?
 
O Rav Simcha Zissel Ziv Broida zt"l  (Lituânia, 1824 - 1898), mais conhecido como Alter MiKelem, explica que se todo o gado do Egito tivesse morrido, o Faraó teria ficado realmente nervoso. Agora, porém, que o gado dos judeus não havia morrido durante a praga, o Faraó disse a si mesmo: "Não tem problema o gado egípcio ter morrido, eu ainda posso usar o gado dos judeus. Eu tenho espaço para manobras. Não me sinto acuado contra a parede. Já que tenho uma solução, por que me preocupar?".

O mesmo pode ser visto em relação à praga dos sapos. Quando o Faraó se rebaixou e pediu a Moshé que retirasse os sapos, D'us fez com que todos os sapos morressem. O Egito ficou completamente tomado de sapos mortos, exalando um cheiro insuportável. O versículo então declara qual foi a reação do Faraó: "E o Faraó viu que havia alívio, e ele endureceu seu coração" (Shemot 8:11). Mas a que alívio o versículo se refere? 
 
A explicação mais simples é que o Faraó se sentiu aliviado ao ver que a praga havia finalmente terminado. Porém, o Rav Shlomo Ephraim zt"l (Polônia, 1550 - Praga, 1619), mais conhecido como Kli Yakar, ressalta que a expressão "E o Faraó viu que havia alívio" não é repetida em nenhuma das outras pragas, mesmo depois que elas cessaram. Então o que significa "E viu que havia alívio"?
 
O Kli Yakar explica que em todas as outras pragas, quando elas terminavam, o problema se resolvia. A única praga na qual os problemas continuaram mesmo após o seu término foi a praga dos sapos, pois depois que a praga terminou, o país ficou infestado com montanhas de sapos mortos. Após o fim desta praga, o Faraó viu que havia um "alívio". A expressão "Harvachá", que pode ser traduzida como alívio, também significa "amplidão, espaço". O Faraó estava declarando que a praga dos sapos não o havia incomodado, pois o Egito era um país amplo, isto é, eles tinham muitas terras para onde escapar do cheiro dos sapos mortos.
 
A reação do Faraó diante das tragédias que assolaram todo o seu povo é impressionante. Depois dos sapos ele disse: "Não tem problema, podemos ir para as partes do país onde não há sapos fedendo". Depois da peste ele disse: "Não tem problema que os animais egípcios morreram, eu posso me virar com os animais dos judeus".  Como entender este tipo de reação? E o que isto ensina para as nossas vidas?
 
Explica o Alter MiKelem que estas reações do Faraó representam um padrão de comportamento encontrado entre os Reshaim (perversos). Eles têm uma "miopia" ao julgar o que está ocorrendo em suas vidas, de forma que conseguem apenas enxergar o "aqui e agora", sem pensar nas implicações futuras do que aconteceu. Se em determinado momento eles podem sair do problema, então eles assim o fazem, ignorando as implicações mais amplas de suas atitudes, mesmo que elas o levem a um final desastroso. Os Reshaim ignoram o futuro e o contexto verdadeiros das questões.
 
De acordo com o Rav Yssocher Frand, este ponto de vista do Faraó é compartilhado por outros Reshaim da história. Talvez uma das atitudes mais simbólicas deste tipo de comportamento foi apresentada por Essav. Ele voltou do campo, cansado e faminto.  Ele disse a Yaakov, que cozinhava: "Despeje em minha boca desta coisa muito vermelha, porque estou exausto" (Bereshit 25:30). Yaakov ofereceu a ele um prato de lentilhas, mas em troca pediu a primogenitura. Essav disse: "Eu vou morrer, então para que me serve a primogenitura?" (Bereshit 25:32). Essav demonstrou só se importar com o agora, sem pensar nas consequências futuras de seu ato.
 
Isto fica ainda mais evidente na resposta de Yaakov: "Jura-me, como este dia" (Bereshis 25:33). O que significa "como este dia"? Segundo o Rav Ovadia Sforno zt"l (Itália, 1475-1550), Yaakov estava dizendo ao seu irmão: "Essav, você é do tipo de pessoa que só está interessada no 'agora', no momentâneo. Você é alguém que não consegue distinguir entre os prazeres imediatos de uma tigela de sopa e o valor a longo prazo da primogenitura". Esta é a filosofia de vida de Essav. Esta é a filosofia de vida do Faraó. Esta é a filosofia de vida dos tolos que só estão interessados em comer, beber e aproveitar os prazeres momentâneos, sem refletir sobre o que ocorrerá no dia seguinte.
 
Infelizmente não são poucos os que atualmente vivem desta maneira. Jovens que entram no mundo das drogas por alguns instantes de prazer e pessoas cada vez mais ligadas aos prazeres gastronômicos, sem se importar com a saúde. Muitos vivem de maneira vã, se preocupando apenas com os prazeres imediatos, mas esquecendo do verdadeiro objetivo da vida. Vivem como se não houvesse amanhã, sem se importar com as futuras consequências de seus atos, sem refletir que as consequências dos nossos atos neste mundo serão eternas.
 
Além disso, esta atitude de não pensar na consequência futura dos nossos atos também impede a pessoa de enxergar seus erros, fazendo com que ela viva sempre de maneira a justificar suas atitudes, jogando sobre os outros a responsabilidade pelos fracassos. Pessoas assim nunca consertam seus erros, pois a culpa é sempre dos outros, nunca dela. Se há uma fuga, um "alívio" imediato, então não tem problema. Já a Torá nos ensina o contrário. Devemos assumir a responsabilidades pelos nossos atos. Ao invés de buscar a culpa nos outros, procurar o que nós podemos e devemos mudar. Refletir sobre as consequências de longo prazo dos nossos atos. Somente assim um dia poderemos consertar os nossos atos e chegar à perfeição.

 

SHABAT SHALOM


R' Efraim Birbojm

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