Nesta semana lemos a Parashat Haazinu (literalmente “Escutem”). Trata-se essencialmente de um Cântico de despedida de Moshé antes de sua morte, que contém também profecias. É uma espécie de “última grande mensagem de Moshé para o povo judeu”. A estrutura da Parashá é muito interessante: inicialmente Moshé chama os Céus e a Terra como testemunhas. Ele relembra as bondades de D’us no deserto e como Ele protegeu, cuidou e conduziu o povo judeu. Ele descreve então a futura ingratidão do povo. Depois de receberem todas aquelas bondades, o povo se afastaria de D’us e buscaria outras divindades. Moshé então anuncia as consequências: o afastamento de D’us traria sofrimento, exílio e dificuldades. Mas a Parashá não termina no desespero. Moshé conclui que D’us finalmente terá misericórdia. Quando o povo estiver em uma situação extremamente difícil, D’us se lembrará de Seu pacto e fará justiça aos inimigos de Israel.
Este ciclo de bondade Divina, ingratidão e transgressão por parte do povo, arrependimento e misericórdia Divina nos conecta com a nossa próxima parada do Calendário Judaico, Yom Kipur (início no pôr-do-sol de domingo, 20/set/26), o Dia do Perdão, que encerra um período de imensa conexão com D’us. Assim nos ensina o Kitsur Shulchan Aruch: “Os dias que vão desde Rosh Chodesh Elul até Yom Kipur são dias de aceitação. Embora durante todo o ano D’us aceite a Teshuvá daqueles que retornam a Ele com o coração sincero, ainda assim estes dias são mais especiais e particularmente propícios para a Teshuvá, por serem dias de misericórdia e dias de aceitação”. Mas por que esta época é tão especial e marcada por tanta proximidade com D’us? As datas judaicas são cíclicas. Os quarenta dias desde o início de Elul até Yom Kipur correspondem aos quarenta dias durante os quais Moshé implorou a D’us que perdoasse o povo judeu pelo pecado do Bezerro de Ouro. Como Moshé foi atendido favoravelmente e desceu do Monte Sinai no Yom Kipur com as novas Tábuas, esse período é conhecido como “Yemei Ratzon”, literalmente “dias de aceitação”, um período em que, mesmo que tenhamos nos afastado de D’us durante o ano, é possível reavivar nosso relacionamento com o Criador.
Durante esse período, a pessoa deve assumir sobre si Chumrót, isto é, “rigores” ou “maiores precauções” na observância das Mitsvót. Um exemplo trazido pelo Shulchan Aruch é que, mesmo pessoas que durante todo o ano comem pães preparados por não judeus, sem nenhuma supervisão, apoiando-se no fato de os ingredientes serem Kasher, devem ser mais rigorosos durante os Asseret Yemei Teshuvá. Mas o que causa perplexidade é o fato de que não encontramos nenhuma exigência de continuarmos com essas práticas mais rigorosas após os Asseret Yemei Teshuvá. Adotar práticas mais rigorosas somente durante esse período não é uma hipocrisia? A quem estamos tentando enganar? Que mensagem estamos transmitindo a D’us?
Talvez a resposta mais simples seja a ensinada pelo Talmud (Pessachim 50b): “A pessoa deve se ocupar sempre com a Torá e as Mitsvót, mesmo que seja ‘Não Lishmá’, pois, a partir do ‘Não Lishmá’ ela chegará ao ‘Lishmá’”. “Não Lishmá” significa cumprir as Mitsvót por motivações incorretas. Por exemplo, quando cumprimos apenas esperando recompensas. Porém, o Talmud está nos ensinando que ainda assim devemos cumprir as Mitsvót, pois, se começarmos, com o tempo acabaremos cumprindo com as motivações corretas. O mesmo se aplica no nosso caso. A pessoa que nesta época do ano assume sobre si Chumrót não está sendo hipócrita. Mesmo que ela não mantenha durante todo o ano todas as melhorias que assumiu sobre si, se ela levar ao menos uma parte, já é válido, pois aumentou sua conexão com o Criador.
Já o Rav Yohanan Zweig shlita se aprofunda e traz uma explicação brilhante para esta mudança de comportamento nesta época do ano. Ele explica que a palavra “Elul” é um acrônimo de “Ani Ledodi Vedodi Li” (Eu sou do meu amado e meu amado é meu). Esses dias são destinados a concentrarmos nossa atenção em nosso relacionamento com D’us. Se um homem dá flores à sua esposa todos os dias do ano e faz o mesmo no aniversário de casamento, ele não está expressando seu amor por ela naquela data especial. Em momentos destinados a expressar nossos sentimentos por aqueles que amamos, é necessária uma forma de expressão diferente daquela que utilizamos durante o resto do ano. Da mesma forma, quando queremos expressar a D’us nosso amor e nosso compromisso com Ele, precisamos ir além da nossa observância habitual para transmitir verdadeiramente nossos sentimentos. Por isso, assumimos compromissos adicionais somente nessa época do ano. Isso não é uma hipocrisia. É uma demonstração especial de amor e desejo de conexão.
Talvez esse seja o significado de assumir mais Chumrót nestes 40 dias de “Yemei Ratson”. A intenção é mostrar que este período de maior proximidade com D’us não é uma época qualquer. Queremos demonstrar a D’us que este período é diferente, que nosso relacionamento com Ele é importante para nós e que estamos dispostos a fazer algo além do habitual para nos aproximarmos Dele. As Chumrót podem até terminar depois de Yom Kipur, mas a mensagem que elas deixaram em nós não termina. O “Ani Ledodi” é uma iniciativa que deve partir de nós. Somos nós que precisamos dar o primeiro passo para nos aproximarmos de D’us, e somente então vem o “Vedodi Li”, a resposta de D’us. Agimos além do habitual justamente para comunicar algo que queremos que D’us perceba: nós queremos de verdade estar mais pertos Dele.
Finalmente, estas Chumrót também carregam um aspecto de Teshuvá, arrependimento por nosso comportamento muitas vezes displicente no cumprimento das Mitsvót durante o ano. O Talmud (Meguila 17b) ensina que existem duas formas de “Refuá” (cura): a cura de uma doença e a cura que vem depois da Teshuvá, como está escrito: “ele retornará e será curado” (Yeshayahu 6:10). A primeira é a cura que D’us concede ao corpo quando está doente. A segunda é uma cura mais profunda: a cura que vem depois que a pessoa reconhece seu erro e faz Teshuvá. Quando uma pessoa peca, sua alma é afetada, e a Teshuvá permite que ela se recupere e volte a se aproximar de D’us.
Mas existe uma outra dimensão nessa ideia. Às vezes, o pecado é apenas o sintoma de algo mais profundo. Existem hábitos, inclinações, fraquezas e circunstâncias internas que tornam determinada transgressão mais provável. A pessoa pode conseguir se arrepender sinceramente de um ato, mas ainda permanecer com as mesmas forças internas negativas que a levaram àquela transgressão. É justamente aqui que podemos entender uma segunda dimensão da “Refuá” proporcionada pela Teshuvá: D’us pode não apenas perdoar o pecado, mas também nos ajudar a tratar aquilo que estava por trás daquele pecado. É como uma pessoa que procura um médico por causa de uma febre. O médico pode baixar a febre, mas a verdadeira cura exige descobrir e tratar a causa da doença. Da mesma forma, a Teshuvá começa quando reconhecemos o pecado, mas pode chegar muito mais fundo: D’us pode nos ajudar a remover ou enfraquecer as raízes que nos conduziram àquele comportamento. Durante os Asseret Yemei Teshuvá, essa possibilidade se torna ainda mais concreta. Mas existe uma condição fundamental: precisamos assumir plena responsabilidade por nossas ações. A Teshuvá começa quando conseguimos dizer: “Eu fiz isso. Eu errei. A responsabilidade é minha”.
É justamente depois desse reconhecimento que podemos pedir algo ainda maior: “D’us, por favor, me ajude a mudar o que me levou a cometer estes erros”. Essa é a segunda “Refuá”: não apenas a cura do pecado cometido, mas a cura daquilo que pode nos levar a cometer novamente o pecado no futuro. Por isso, os Asseret Yemei Teshuvá não são apenas dias para olhar para trás e lamentar o que fizemos. São também uma oportunidade para olhar para dentro e perguntar: “O que precisa ser curado dentro de mim?”.
D’us é o nosso “Médico”. Não apenas Ele perdoa quem retorna, mas também pode nos ajudar a nos tornarmos pessoas melhores. Talvez essa seja justamente uma das maiores mensagens das Chumrót dos Asseret Yemei Teshuvá: não apenas pedir perdão pelo passado, mas permitir que D’us nos ajude a construir um futuro melhor. SHABAT SHALOM E TSOM KAL - GMAR CHATIMÁ TOVÁ R’ Efraim Birbojm |
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