quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A PORTA MAIS LARGA DO MUNDO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ BESHALACH 5778






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Scheindel bat Tzvi Mendel z"l e Bentzion ben Yoshua z"l


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A PORTA MAIS LARGA DO MUNDO - PARASHAT BESHALACH 5778 (26 de janeiro de 2018)
Um homem com roupas esfarrapadas parou na frente de um pequeno bar, tirou do bolso um metro, mediu a porta e começou a falar em voz alta: "Dois metros de altura por oitenta centímetros de largura". Admirado, como se não acreditasse no que o metro indicava, mediu-a de novo. Tornou a medi-la várias vezes. Curiosas, as pessoas que passavam por ali começaram a parar. Primeiro um pequeno grupo, depois uma multidão. Olhavam, curiosos, o homem que media sem parar a porta do bar. O homem então olhou para a multidão e exclamou, impressionado:

- Parece mentira. Esta porta mede apenas dois metros de altura por oitenta centímetros de largura. No entanto, por ela passou todo o meu dinheiro, meu carro, o pão dos meus filhos. Passaram os meus móveis e a minha casa. E não foram somente os bens materiais. Por ela também passou a minha saúde e toda a felicidade do meu lar. Além disso, passaram também a minha dignidade e os meus sonhos. Todos os meus planos de vida passaram por esta porta, dia após dia, gole por gole.

- Hoje eu não tenho mais nada - continuou o homem - Nem família, nem saúde, nem esperança. Mas quando passo na frente desta porta, ainda ouço o chamado da bebida, aquela que é a responsável pela minha desgraça. Ela ainda me chama insistentemente, dizendo "Só mais um copo! Só hoje! Uma dose apenas!". Ainda escuto sua sugestão zombadora: "Beba só socialmente". Esta era a senha, esta era a isca. E mais uma vez eu caía na armadilha, dizendo para mim mesmo: "Quando eu quiser, eu paro". Isso é o que muita gente pensa, mas isto é uma mentira. É a pior mentira, pois é mentir para si mesmo. Eu comecei com um copo, mas hoje a bebida me dominou completamente. É por isso que eu lhes digo: esta porta, a porta do vício, é a porta mais larga do mundo! Ela tem enganado muita gente. Por esta porta, de aparência tão estreita, pode passar tudo o que temos de mais importante na vida. Hoje eu sei dos malefícios do vício, mas muita gente ainda não sabe. Ou sabe e finge que não sabe, para não admitir que está sob o domínio dos seus vícios.

Visivelmente amargurado, aquele homem se afastou, a passos lentos, deixando para as pessoas que o escutaram motivos de profundas reflexões. Tudo em excesso é ruim. Tudo sem controle faz mal

Nesta semana lemos a Parashat Beshalach (literalmente "Quando enviou"), que descreve a triunfal saída do povo judeu do Egito, após 210 anos de terrível escravidão. Porém, a alegria do povo judeu não durou muito. Sem saber que tudo fazia parte dos planos de D'us, que ainda guardava o castigo final para os egípcios, os judeus se depararam com um mar intransponível diante deles e perceberam, aterrorizados, que os egípcios os perseguiam para levá-los de volta à escravidão. Desesperados, eles gritaram para D'us e reclamaram com Moshé. D'us então comandou que eles entrassem no mar, algo que parecia ilógico. Somente quando eles deram os primeiros passos foi que aconteceu o incrível milagre da Abertura do Mar Vermelho, diante dos olhos de milhões de testemunhas.

Além disso, após atravessarem o mar, os judeus puderam testemunhar a destruição final do exército egípcio, quando o mar fechou-se sobre eles, afogando-os e lançando seus corpos na praia. A Torá então afirma que "Naquele dia D'us libertou Israel das mãos do Egito, e Israel viu as pessoas mortas na praia" (Shemot 14:30). Porém, este versículo desperta um grande questionamento. Se a Abertura do Mar ocorreu somente no sétimo dia após a saída do Egito, então por que a Torá enfatiza que "Naquele dia D'us libertou Israel das mãos do Egito"? A libertação já não havia ocorrido quando eles saíram do Egito?

Explica o Ibn Ezra (Espanha, 1092 - 1167), famoso comentarista da Torá, que mesmo depois de já terem saído do Egito, os judeus ainda sentiam muito medo do Faraó, e somente se sentiram completamente livres do jugo egípcio quando viram a destruição final deles. Isto significa que o sentimento de serem dominados pelos egípcios não se dissipou quando eles escaparam. Foi somente naquele dia, quando viram os egípcios destruídos, que eles puderam realmente se libertar completamente de sua autoimagem de "Escravos do Faraó".

Uma ideia similar é transmitida na Hagadá de Pessach, que afirma: "Fomos escravos do Faraó no Egito. Hashem, nosso D'us, nos tirou de lá com mão forte. E se D'us não tivesse tirado nossos pais do Egito, nós, nossos filhos e os filhos dos nossos filhos seríamos escravos do Faraó no Egito". Mas como a Hagadá pode afirmar que seríamos escravos até hoje, se o Império Egípcio já se desintegrou há milhares de anos? Uma possível resposta é que a Hagadá não está se referindo a uma escravidão física no Egito, e sim a um elemento psicológico de submissão ao Faraó e seu povo. Nós certamente já teríamos nos tornado fisicamente livres, mas nunca teríamos escapado e superado a dominação egípcia. Ao contrário, teríamos sido libertados de forma "padrão" com a desintegração do Império Egípcio, porém teria sido uma libertação apenas parcial, pois nunca teríamos quebrado a nossa autoimagem de um povo controlado por outras nações, que não é livre para se expressar de uma maneira plena.

Apesar de se referir a um evento ocorrido há mais de 3 mil anos, este ensinamento é atual e importante, pois traz as bases de como vencer o desafio de lidar com forças negativas que exercem poder sobre nós. Isto não incluiu apenas a proximidade de pessoas abusivas, que tentam nos controlar de maneira não saudável, mas também os vícios destrutivos e outras armas do Yetser Hará (Má inclinação), como o desejo desenfreado. O que a saída do povo judeu do Egito e a Abertura do Mar podem nos ensinar na prática nesta área?

Em primeiro lugar, aprendemos que há dois estágios distintos no processo de se libertar das influências negativas. O primeiro estágio é escapar da fonte de negatividade, da mesma forma que o povo judeu saiu fisicamente do Egito. O segundo estágio é superar completamente ou eliminar a fonte de negatividade, o que ocorreu através da destruição do exército egípcio no mar. Embora escapar da fonte de dominação seja um estágio extremamente importante, ainda é insuficiente para libertar completamente a pessoa, pois ela só se torna completamente livre quando consegue atingir o segundo estágio. É por isso que a Torá ressalta que "Naquele dia D'us libertou Israel das mãos do Egito", pois foi somente quando o povo judeu viu os egípcios mortos na praia, isto é, quando as força de negatividade foram completamente destruídas, que o povo judeu foi capaz de se libertar completamente da escravidão egípcia.

Por que este ensinamento é tão importante? De acordo com o Rav Yehonasan Gefen, a maioria das pessoas não sabe que existem dois estágios para se libertar de vícios destrutivos. Para sair de um vício, o primeiro passo é a pessoa reconhecer em que estágio ela se encontra. É muito importante uma pessoa ter claro quando ela ainda se encontra em uma situação na qual não superou completamente sua submissão a algum tipo de influência negativa, pois tudo o que ela fez foi escapar momentaneamente do vício. Esta é uma das estratégias utilizadas para libertar pessoas de certos vícios, fazendo com que elas tenham claridade de que o que elas conseguiram por enquanto foi apenas uma fuga, um primeiro estágio, mas que o processo ainda não está completo. Por exemplo, pessoas que pararam de fumar, mesmo há muitos anos, ainda continuam se definindo como "fumantes". Desta maneira, elas estão constantemente lembrando a si mesmas dos riscos de uma recaída nas armadilhas do vício e, portanto, cuidadosamente evitam até mesmo um único cigarro. Por outro lado, se uma pessoa ainda está no primeiro estágio, mas se convence de que não há mais nenhum resquício de seu vício, então ela se sente pronta para fumar um cigarro com a certeza de que isto não a afetará. Porém, na maioria dos casos, um único e "inofensivo" cigarro é o suficiente para impulsionar a pessoa novamente para as garras do seu perigoso vício.

É possível que estes dois estágios estejam aludidos nas explicações que o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) dá ao explicar os diferentes níveis de Teshuvá (arrependimento). O Rambam, nas "Leis de Teshuvá", afirma que a Teshuvá completa somente pode ser atingida quando a pessoa é colocada exatamente na mesma situação na qual ela previamente tropeçou, mas desta vez ela consegue superar o seu Yetser Hará. Já um nível mais baixo de Teshuvá é quando a pessoa passa pelos 4 estágios necessários (arrependimento, abandonar o erro, confissão e o comprometimento com o futuro), porém ainda não chegou ao nível de superar completamente seu Yetser Hará e, caso passasse pela mesma situação, provavelmente cairia de novo. Provavelmente o Rambam está explicando que o primeiro estágio de Teshuvá se refere a escapar deste Yetser Hará, enquanto o segundo estágio de Teshuvá, a Teshuvá completa, se refere a superar completamente este Yester Hará.

Porém, na prática, como é possível atingir este segundo estágio? Como podemos nos libertar completamente de forças negativas que nos cercam e exercem tanto poder sobre nós, como os desejos e os vícios? Obviamente que não é uma tarefa simples e cada caso necessita de uma análise particular e de uma estratégia específica. Entretanto, há dois pontos esclarecedores que aprendemos da Abertura do Mar. Não foram os judeus que destruíram os egípcios, foi D'us quem destruiu. Isto nos ensina que está além da capacidade humana superar completamente o nosso Yetser Hará, como afirmam os sábios do Talmud (Kidushin 30b): "Diz Rabi Shimon ben Levi: 'O Yetser do ser humano se fortalece e tenta destruí-lo todos os dias... e se não fosse pela ajuda de D'us, não seriamos capazes de derrotá-lo'". Isto significa que, para derrotarmos o nosso Yetser e as forças que nos bloqueiam, precisamos pedir ajuda para D'us.

Por outro lado, também aprendemos do evento da Abertura do Mar que não podemos meramente ficar sentados, aguardando a salvação de D'us. Quando Moshé rezou para D'us, Ele respondeu que Moshé deveria parar de rezar e o povo deveria entrar no mar. Somente depois que o povo deu seus primeiros passos foi que o mar se abriu. Portanto, é essencial a pessoa ter a consciência do enorme esforço, autocontrole e força de vontade exigidos para realmente superar completamente um vício.

Portanto, fica a lição de que é impossível vencer o Yetser Hará e os nossos vícios sem a ajuda de D'us. Por outro lado, a pessoa deve estar disposta a fazer um esforço, para mostrar a D'us que realmente tem vontade de mudar, de melhorar, de escapar daquilo que a bloqueia. Quando a pessoa demonstra para D'us que está preparada, então D'us faz o resto. Somente com esta combinação, a consciência do nosso estágio, a reza para D'us e o nosso próprio esforço, poderemos nos libertar completamente de tudo o que não nos deixa crescer.  

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

É ENSINANDO QUE SE APRENDE - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ BÔ 5778






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É ENSINANDO QUE SE APRENDE - PARASHÁ BÔ 5778 (19 de janeiro de 2018)
A Sra. Thompson era uma professora experiente do sexto ano. Ela tinha o costume de, no primeiro dia de aula, dizer aos alunos que gostava de todos igualmente. No entanto, ela sabia que isto não seria verdade naquele ano, já que na primeira fila estava sentado um garoto chamado Teddy. A professora havia escutado coisas muito negativas sobre ele. Sabia que ele não se dava bem com os colegas de classe e vinha muitas vezes para a escola com roupas sujas e cheirando mal. Teddy provavelmente seria daquele tipo de aluno que ela sentiria até mesmo prazer em lhe dar notas vermelhas ao corrigir suas provas e trabalhos.

Para piorar, no primeiro dia de aula todos os alunos haviam trazido para ela presentes de boas-vindas. Eram presentes simples, mas embrulhados em papéis coloridos e brilhante, exceto o de Teddy, que estava enrolado em um papel marrom de supermercado. Quando a Sra. Thompson abriu o pacote dele e retirou uma pulseira faltando algumas pedras e um vidro de perfume pela metade, os outros alunos deram gargalhadas. Para não envergonhá-lo ainda mais, ela agradeceu o presente, pôs a pulseira no braço e passou um pouco do perfume.

No final do dia, quando todos os alunos já tinham saído, a Sra. Thompson começou a ler a ficha escolar de cada um deles. A ficha de Teddy chamou muito sua atenção. A professora do primeiro ano havia escrito que ele era um menino alegre, brilhante e simpático, com trabalhos sempre em ordem e muito caprichoso. Porém, ela leu nos anos seguintes que a mãe de Teddy estava muito doente, o que começou a afetar seu desempenho escolar. Até que ela chegou às anotações do quarto ano, onde estava registrado que a mãe de Teddy havia falecido, um terrível golpe para ele. A partir daí Teddy se tornou distraído e desinteressado, com graves problemas com os outros alunos.

A Sra. Thompson parou de ler, envergonhada. Sentiu-se ainda pior quando lembrou-se dos presentes que os alunos haviam dado de manhã. Teddy havia ficado até um pouco mais tarde na escola, somente para dizer a ela: "Você está cheirosa como a mamãe". Agora ela entendia o que ele quis dizer com aquela frase. Depois que todos os professores já haviam saído, a Sra. Thompson chorou por muito tempo. Em seguida, ela decidiu a mudar completamente sua maneira de ensinar e passou a dar mais atenção aos seus alunos, especialmente a Teddy. Com o passar do tempo ela notou que ele só melhorava. Quanto mais ela lhe dava carinho e atenção, mais ele se animava. Ao finalizar o sexto ano, Teddy era o melhor aluno da classe.

Cinco anos depois, a Sra. Thompson recebeu uma carta de Teddy, na qual ele contava que havia concluído o segundo grau como o terceiro melhor aluno da turma e que, apesar de ter conhecido excelentes professores, ela continuava sendo a melhor professora que ele tivera na vida. Mais cinco anos e ela recebeu outra carta de Teddy, dizendo que, apesar das dificuldades, ele estava se formando na faculdade. Mais uma vez ele aproveitou para ressaltar que a Sra. Thompson continuava sendo a melhor professora da sua vida. Depois disto, outros quatro anos se passaram e ela recebeu uma carta, desta vez com Teddy contando sobre seu doutorado e suas pretensões de crescer na carreira. A carta terminava com a afirmação de que ela ainda era a sua melhor professora. Mas agora a assinatura dele era mais longa: Doutor Theodore F. Stoddard.

Na primavera seguinte, Teddy escreveu que havia conhecido uma garota e iria se casar. Explicou que seu pai havia falecido alguns anos atrás e ele queria convidar a Sra. Thompson para entrar com ele na cerimônia e sentar-se no lugar que era reservado para a mãe do noivo. A Sra. Thompson aceitou, lisonjeada, o convite. No grande dia, a Sra. Thompson usou aquela pulseira com algumas pedras faltando e passou um pouco do perfume que Teddy havia lhe dado de presente no sexto ano. Quando os dois se encontraram, choraram por um longo tempo. Teddy então falou:

- Obrigado por acreditar em mim e me fazer sentir importante, demonstrando que eu podia fazer a diferença.

A Sra. Thompson, com lágrimas nos olhos, respondeu de volta:

- Teddy, foi você quem me mostrou que eu poderia fazer a diferença. Eu não sabia ensinar até conhecer você.

Na Parashá desta semana, Bô (literalmente "Venha"), D'us mandou sobre o Egito as últimas três pragas, que destruíram completamente toda a estrutura física e psicológica dos egípcios. O Faraó, derrotado e humilhado, finalmente permitiu que os judeus partissem em liberdade. Porém, antes de D'us mandar as últimas três pragas, Ele fez uma "introdução" sobre qual seria o objetivo delas: "Para que você conte nos ouvidos dos seus filhos e dos filhos dos seus filhos o que Eu fiz ao Egito, e Minhas maravilhas que Eu coloquei sobre eles. E então vocês saberão que Eu sou D'us" (Shemot 10:2).

Se prestarmos atenção neste versículo, perceberemos que ele desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, aparentemente D'us está afirmando que mandou as pragas apenas para que tivéssemos "material" para contar aos nossos filhos. Mas as pragas não foram uma forma de castigar os egípcios por todo o mal que eles nos fizeram? Então por que a Torá escreve que as pragas são "para que você conte aos seus filhos"?

Além disso, todos nós acreditamos em D'us, mas apesar disso estamos sempre lidando com uma difícil questão: como aumentar nossa Emuná (fé)? Aparentemente as palavras finais do versículo estão nos ensinando uma fórmula de como se conectar a D'us: contando aos nossos filhos os milagres que ocorreram no Egito. Porém, há algo contraditório nas palavras do versículo, pois ele começa nos ordenando a transmitir aos nossos descendentes os milagres que ocorreram na saída do Egito, aparentemente para que eles tenham Emuná. Porém, no fim do versículo, a Torá conclui que "vocês saberão", e não "eles saberão". Como entender esta contradição? A transmissão é para desenvolver a Emuná nos nossos descendentes ou em nós mesmos?

Explicam os nossos sábios que obviamente um dos principais motivos pelos quais D'us mandou as 10 pragas foi para castigar os egípcios. A prova disso é que os castigos foram "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), isto é, cada castigo veio de maneira minuciosamente calculada para que algum mau ato dos egípcios fosse vingado. Por exemplo, os egípcios faziam com que os escravos judeus tivessem que ir para as florestas caçar animais ferozes. Para que este trabalho se tornasse mais divertido para os egípcios, os judeus tinham que caçar animais como leões, tigres e ursos com as próprias mãos, pois eles não recebiam nenhum tipo de arma para isto. Certamente muitos judeus morreram, de forma dolorosa, devorados por animais ferozes. Medida por medida, na quarta praga D'us fez com que milhares de animais ferozes entrassem nas casas dos egípcios, causando caos, morte e destruição.

Porém, além de serem um castigo aos egípcios, os milagres e sinais da saída do Egito presentes nas pragas, que quebraram abertamente as leis da natureza, deveriam estabelecer para o povo judeu uma nova base de Emuná em D'us. Esta Emuná, presente no coração daquela geração que testemunhou os milagres com seus próprios olhos, deveria ser transmitida, de pai para filho, para as futuras gerações. Mas a Torá está nos ensinando outro fundamento importante sobre o que ocorre quando ensinamos algo a outras pessoas: o ensinamento acaba se internalizando em nós mesmos. Quando alguém transmite Emuná aos seus filhos, no final das contas esta Emuná acaba se enraizando em seu próprio coração e se tornando mais real. Desta maneira a Emuná começa a deixar de ser apenas uma crença não palpável para se tornar um conhecimento, algo mais racional e menos emocional. A Torá está nos ensinando que, ao ensinar aos outros sobre a existência de D'us e Seu envolvimento no mundo, a Emuná da pessoa se torna cada vez mais forte e palpável.

Mas por que a Torá nos comanda a ensinar aos nossos descendentes sobre os milagres, ao invés de nos comandar a estudar sobre os milagres, se o propósito é internalizá-los em nossos próprios corações? Um famoso psiquiatra chamado William Glasser certa vez fez um estudo sobre absorção de conteúdo. A conclusão do estudo é a "pirâmide de aprendizagem", na qual as porcentagens de conteúdo absorvido variam de acordo com a forma que interagimos com o conteúdo. Por exemplo, quando lemos, absorvemos 10% do conteúdo. Quando escutamos, absorvemos 20%. Quando assistimos algo, absorvemos 30%. Quando vemos e escutamos, absorvemos 50%. Quando discutimos um assunto com outras pessoas, absorvemos 70%. Quando fazemos atos na prática, absorvemos 80%. Quando ensinamos o conteúdo aos outros, absorvemos impressionantes 95%. Este estudo apenas vem comprovar o que os nossos sábios do Talmud (Taanit 7a) já haviam afirmado há mais de dois mil anos: "Diz o Rabi Chanina: Aprendi muito com os meus professores, mais ainda com os meus colegas, mas foi dos meus alunos que eu mais aprendi". Portanto, quando alguém está ensinando algo aos outros, em última instância ele está ensinando algo a si mesmo.

Diferente de outras línguas, em hebraico os verbos "estudar" e "ensinar" vêm da mesma raiz, "Lamed". A pessoa que ensina, o "Melamed", na verdade é alguém que está estudando de uma maneira mais intensa, profunda e com mais paixão. De acordo com o judaísmo, o ato de ensinar certamente também é um processo profundo de estudo.

A forma com a qual o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) nos ensina a Mitzvá de "Talmud Torá" (estudar Torá) também nos transmite a mesma ideia. Ele afirma que "D'us nos comandou a estudarmos Torá e a ensinarmos". Isto significa que estudar e ensinar Torá não são dois mandamentos separados. Na realidade, não cumprimos plenamente nossa obrigação de estudar Torá se não a ensinamos aos outros. Isto não significa que todo judeu deve procurar trabalho na área de ensino. A Torá apenas não nos isenta de procurarmos oportunidades de dividir nossos conhecimentos com outras pessoas, em especial pessoas de nossas famílias e, principalmente, os nossos próprios filhos.

Portanto, para que possamos estudar de maneira verdadeira, para que nosso estudo possa se tornar uma parte significativa de nossas vidas, devemos também ensinar Torá aos outros. Cada geração é um elo da cadeia de transmissão ininterrupta da Torá entregue a Moshé e da Revelação de D'us no Monte Sinai. Devemos receber as informações das gerações passadas e nos esforçar para transmitir este conhecimento às futuras gerações. Esta é a obrigação de "Talmud Torá", o estudo da Torá. E o maior presente é que, quanto mais transmitimos estes conhecimentos aos outros, mais ele se aprofunda em nossos próprios corações.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

SENTINDO A DOR DO PRÓXIMO COMO SE FOSSE SUA - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ VAERÁ 5778






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SENTINDO A DOR DO PRÓXIMO COMO SE FOSSE SUA - PARASHÁ VAERÁ 5778 (12 de janeiro de 2018)

"O Rav Elazar Menachem Man Shach zt"l (Lituânia, 1899 - Israel, 2001), o Rosh Yeshivá (Diretor Espiritual) da Yeshivá de Ponovitch, em Bnei Brak, era um homem extremamente ocupado, tanto com os assuntos da Yeshivá quanto com o atendimento ao público em geral. Um rabino muito próximo dele percebeu que, mesmo quando a Yeshivá estava de férias e o Rav Shach não estava dando aulas, ele não aproveitava nem mesmo alguns dias para viajar um pouco e descansar. Então o rabino perguntou a ele:

- Rav, se os alunos não estão e não há aulas para dar, por que você não viaja um pouco para descansar?

O Rav Shach, abrindo um sorriso, respondeu:

- Além das aulas que eu dou na Yeshivá, as portas da minha casa estão sempre abertas para quem procura ensinamentos de Torá, respostas para suas perguntas, aconselhamentos ou simplesmente uma Brachá. Muitas pessoas querem dividir comigo os sofrimentos e dificuldades que estão passando na vida. Algumas pessoas eu consigo ajudar, outras infelizmente tudo o que eu posso fazer é escutá-las atentamente enquanto elas abrem seus corações. Porém, mesmo para estas pessoas, eu sei que apenas por estar escutando eu já estou ajudando a aliviar um pouco da carga que elas carregam.

- Por isso - continuou o Rav Shach - se eu sair para viajar, mesmo que seja por alguns poucos dias, o que as pessoas com problemas farão? Com que elas conversarão? Quem elas procurarão para abrir seus corações? Eu prefiro ficar aqui, caso alguém precise de mim".

Durante a história, muitos judeus abriram mão do seu descanso e de sua comodidade em prol de ajudar outras pessoas. Esta é, certamente, uma das maiores contribuições do povo judeu ao mundo: ensinar até onde pode chegar a nossa compaixão e a nossa misericórdia pelo próximo.

Na Parashá desta semana, Vaerá (literalmente "E apareceu"), D'us mandou Moshé se revelar diante do povo judeu como sendo o líder escolhido para a iminente salvação da dura escravidão egípcia. Porém, a escravidão havia sido tão pesada e os judeus haviam passado por sofrimentos tão terríveis e longos que eles não conseguiam acreditar nas palavras de Moshé, de que realmente o momento da salvação havia chegado e que a escravidão terminaria, como está escrito: "E Moshé falou assim aos Filhos de Israel, mas eles não puderam escutá-lo, por causa da angústia de espírito e por causa da dura escravidão" (Shemot 6:9).

Porém, este versículo é difícil de ser entendido. Justamente quando as pessoas estão desesperadas é mais fácil para elas acreditarem na salvação. Os diversos falsos salvadores que surgiram na história do povo judeu e conseguiram atrair milhares de seguidores sempre vieram em épocas nas quais havia dificuldades, como perseguições e extermínios. Então por que o versículo afirma que as dificuldades da escravidão e a angústia que o povo judeu sentia eram os motivos pelos quais o povo não conseguia acreditar que Moshé era o salvador?

Além disso, há outra pergunta interessante que surge quando refletimos sobre a escravidão do povo judeu. Nossos sábios ensinam que todos os judeus foram escravizados, com exceção da Tribo de Levi, que se dedicava ao estudo da Torá e ao trabalho de auto aperfeiçoamento. Um dos motivos é que a escravidão começou de maneira astuta, quando Faraó convocou os judeus a ajudarem na construção do Egito, com uma demonstração de sua fidelidade ao império egípcio. Na ânsia de conseguirem a sonhada emancipação, os judeus abraçaram com vontade a oportunidade. No início eles foram remunerados pelo trabalho de construção, mas aos poucos o trabalho foi se transformando em escravidão. Todos os judeus caíram na armadilha do Faraó, com exceção dos judeus da Tribo de Levi, que preferiram ficar na cidade de Goshen, separados dos egípcios, se dedicando à sua espiritualidade.

Porém, esta explicação ainda não é suficiente para entender o motivo pelo qual a tribo de Levi não foi escravizada. Se o Faraó era um governante tão cruel e insensível, que chegou ao ponto de assassinar friamente bebês judeus e atirá-los vivos no rio, por que ele deixou que uma Tribo inteira ficasse isenta do trabalho pesado? Mesmo que a Tribo de Levi não caiu na armadilha do Faraó, por que ele não os escravizou à força?

Explica o Rav Yonasan Eibeshitz zt"l (Polônia, 1690 - Alemanha, 1764) que a resposta está em um interessante aspecto da psicologia do ser humano. Normalmente as pessoas não se importam com os sofrimentos que atingem os outros. Alguém que não está imerso no mesmo sofrimento que seu companheiro não consegue sentir de verdade a sua dor. O Faraó havia sido informado por seus astrólogos que o salvador do povo judeu viria da Tribo de Levi. A lógica do Faraó é que uma pessoa que não tivesse passado pela escravidão não seria capaz de salvar os outros escravos. Em primeiro lugar, pois não se importaria de verdade com os sofrimentos deles. Além disso, ele não seria capaz de "politicamente" convencer as pessoas a estarem sob seu comando, pois elas desconfiariam da sua capacidade de liderá-los pelo fato dele não ter estado junto com elas nos momentos de sofrimento. Em outras palavras, os judeus não confiariam que alguém da Tribo de Levi realmente se importava com eles.

O Rav Yonasan Eibeshitz explica que este é o entendimento das palavras do versículo "E Moshé falou assim a Bnei Israel, mas eles não puderam escutar a ele, por causa da angústia de espírito e por causa da dura escravidão". As pessoas não conseguiram escutar Moshé pelo fato dele nunca ter passado pela angústia da escravidão. E, realmente, Moshé havia vivido até aquele momento cercado de luxos e tranquilidade. Por isso, apesar do desespero, as pessoas não estavam dispostas a escutá-lo e nem deixá-lo se tornar seu salvador.

A lógica do Faraó parece genial. Então, o que deu errado em seus planos? O erro do Faraó é que ele subestimou o que a Torá ressalta como sendo o mais notável traço de caráter de Moshé Rabeinu: a preocupação com o próximo. Antes de D'us revelar que Moshé seria o líder do povo judeu, a primeira descrição da Torá sobre ele é que "Moshé cresceu e saiu para ver seus irmãos e observar sua opressão" (Shemot 2:11). "Moshé cresceu" significa que ele havia se tornado um ministro importante e respeitado na Casa do Faraó. Ele poderia ter continuado em sua vida de luxos, honra e poder. Certamente Moshé teria recitando alguns capítulos de Tehilim (Salmos) pela salvação dos seus irmãos, sentado em uma cadeira de ouro, mas nada mais além disso.

Porém, Moshé não se acomodou em sua vida de luxos. A Torá ressalta que ele saiu para ver seus irmãos. Ele jogou tudo para cima quando viu um egípcio golpeando um judeu e, mesmo sabendo que a lei egípcia castigava um assassinato com a pena de morte, ele não temeu as consequências e matou o egípcio para salvar a vida de um judeu desconhecido. Ao colocar sua vida em risco, Moshé estava ativamente participando na miséria e no drama vivido pelos seus irmãos escravos. Com aquele ato, Moshé demonstrou que não estava apenas preocupado com o sofrimento dos judeus de uma forma geral, mas com cada indivíduo em particular.

A Torá também descreve que Moshé veio intervir na briga entre dois judeus, protegendo aquele que seria agredido. Moshé demonstrava assim sua característica de "Nossê BeÓl Haveiró" (carregar o peso do seu companheiro). Em Midian, ele também se levantou para defender as filhas de Itró dos pastores que queriam fazer mal a elas, demonstrando mais uma vez que não tolerava opressão. Finalmente, a Torá nos conta que ele serviu água para os rebanhos das filhas de Itró, demonstrando sua incrível preocupação com cada criatura e seu coração imensamente bondoso.

Explica o Rav Yssocher Frand que foi por isso que o plano do Faraó falhou. Sua lógica estava correta, pois a maioria das pessoas realmente não abandonaria uma vida de tranquilidade para se preocupar com seus irmãos. Ao não escravizar a Tribo de Levi, o Faraó quis causar com que o salvador do povo não se importasse como deveria com a dor dos seus irmãos escravizados e não estivesse disposto a abrir mão de sua tranquilidade para fazer algo pelo próximo. O que ele não contava era que o salvador e líder do povo judeu, Moshé Rabeinu, seria alguém com o incrível atributo de se sensibilizar de verdade diante do sofrimento dos outros. Apesar de nunca ter sido escravizado, ele sentia a dor dos seus irmãos de maneira tão aguda como se ele tivesse passado pessoalmente pelos sofrimentos e privações da escravidão. Mesmo sendo um ministro, ele não podia ficar sentado no palácio enquanto seus irmãos sofriam. Assim começou a brilhar a luz do salvador do povo judeu.

Durante toda a nossa história tivemos muitos modelos de líderes que sentiram a dor dos seus irmãos e abriram mão de suas comodidades em prol dos outros. Mas este maravilhoso traço de caráter não é algo encontrado apenas nos líderes. Até mesmo pessoas simples do povo conseguiram sair do comodismo e do egoísmo para fazer mais pelo próximo. Como fazem atualmente os voluntários da Hatzalá, que saem do meio da refeição de Shabat para salvar vidas de desconhecidos. Ou como fazem as pessoas que arrecadam dinheiro para os pobres, que se humilham ao pedir dinheiro de porta em porta para trazer um pouco de conforto aos outros. Estes representam de verdade o povo judeu, o povo da bondade, o povo da misericórdia.

O povo judeu foi salvo do primeiro exílio por causa da característica de "Nossê BeÓl Haveiró". Quanto mais esta característica for encontrada dentro do povo, mais rápido terminaremos também o nosso último exílio.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm
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