quinta-feira, 15 de junho de 2023

MUDANDO A FORMA DE ENXERGAR - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ SHELACH 5783

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MENSAGEM DA PARASHÁ SHELACH

ASSUNTOS DA PARASHÁ SHELACH
  • Explorando a Terra de Israel.
  • Moshé reza por Yehoshua, seu Talmid.
  • Calev vai para Hevron.
  • 10 espiões voltam falando mal da Terra de Israel.
  • Histeria e choro do povo.
  • Ameaça de Destruição.
  • O Decreto dos 40 Anos no deserto.
  • Parte do povo tenta entrar "à força"
  • Oblações para Sacrifícios.
  • A Oferenda da Massa (Chalá).
  • Oferendas de Pecado Comunal por Idolatria (não intencional).
  • Oferendas de Pecado Individual por Idolatria (não intencional).
  • Idolatria intencional.
  • Mekoshesh: O homem juntando lenha no Shabat.
  • A Penalidade por violação do Shabat.
  • Shemá Israel.
  • Tzitzit.
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MUDANDO A FORMA DE ENXERGAR - PARASHÁ SHELACH 5783 (16/jun/2023)
 
"Moishe, um simpático senhor judeu, estava certa vez viajando em um trem. Ao seu lado estava sentado Chaim, outro senhor judeu. De repente, Moishe tirou da sua pasta um jornal e começou a ler. Quando Chaim olhou para o lado, quase desmaiou. Moishe simplesmente estava lendo um jornal nazista! Chaim ficou muito aborrecido. Elevando o tom de voz, ele questionou:
 
- Moishe, você ficou louco? Por que você está lendo um jornal nazista? Você está abandonando seus irmãos judeus?

Moishe, abrindo um sorriso, respondeu:
 
- Não é nada disso, fique tranquilo, eu vou te explicar o que está acontecendo. Eu costumava ler os jornais judaicos. Porém, o que eu encontrava? Notícias que contam que os judeus estão sendo perseguidos, que lojas judaicas estão sendo atacadas, que os judeus estão desaparecendo por causa da assimilação e dos casamentos mistos, que os judeus estão vivendo na pobreza, que judeus estão sendo esfaqueados. Eu não aguentava mais ler estes tipos de notícias, me deixavam deprimido. Então mudei para o jornal nazista. Agora, o que eu vejo? Notícias dizendo que judeus são donos de todos os bancos, que os judeus controlam a mídia, que os judeus são todos ricos e poderosos, que os judeus controlam o mundo. Estas notícias não são muito melhores?"
 
A mensagem triste e dolorosa é que a história não tem sido fácil para o povo judeu. Porém, de alguma maneira conseguimos manter nosso positivismo e nosso senso de humor.

Nesta semana lemos a Parashá Shelach (literalmente "envie"), que continua falando dos erros que o povo judeu cometeu no deserto. Vimos na Parashá da semana passada que eles "fugiram" do Monte Sinai, reclamaram do Man e exigiram carne. Porém, aqueles erros era apenas um indicador do afastamento espiritual do povo judeu. Já nesta semana vemos um dos piores erros cometidos pelo povo, que custou muito caro. Todos os homens entre vinte e sessenta anos, que haviam sido contados, foram proibidos de entrar na Terra de Israel. Por isso, todo o povo teve que passar 40 anos vagando pelo deserto, para que aquela geração falecesse e apenas uma nova geração tivesse o mérito de entrar na Terra de Israel.
 
Mas qual foi o erro tão grave que eles cometeram? Ao se aproximar de Israel, a Terra sagrada que D'us havia prometido, o povo começou a questionar o sucesso de sua conquista. Eles já deveriam saber, após todos os milagres da saída do Egito, que todo o sucesso, em tudo o que fazemos, depende apenas de D'us, e não do nosso esforço. Apesar de termos que fazer a nossa parte, para ocultar os milagres Divinos, ainda assim precisamos sempre ter a Emuná completa que tudo depende Dele, e apenas Dele. Porém, o povo exigiu que fossem enviados espiões, não para uma missão militar de reconhecimento, o que não teria nenhum problema, mas para que vissem se a terra era realmente boa e se conseguiriam conquistá-la. Isso foi, por si só, uma grande transgressão. D'us garantiu a Moshé que ele poderia enviar os espiões exigidos pelo povo, mas que as consequências seriam trágicas. O povo judeu havia escolhido a forma errada de se conduzir.
 
E foi assim que realmente aconteceu. Doze espiões, escolhidos entre os maiores do povo judeu, passaram quarenta dias conhecendo a terra e levantando informações. Quando os espiões finalmente voltaram, trazendo notícias sobre a terra, contaram coisas terríveis. Eles haviam visto pessoas morrendo o tempo todo, habitantes e frutos gigantes e cidades muito fortificadas. Além disso, eles não contaram o que viram para Moshé, em particular, para que ele tomasse as decisões corretas. Tudo foi relatado, com todos os detalhes, de forma extremamente negativa, diretamente para o povo.
 
A Torá nos relata que a reação do povo foi de desespero, com todos chorando e reclamando. O Talmud (Taanit 29a) nos diz que, pelo fato de o povo ter chorado à toa, sem motivo, foi decretado para as futuras gerações que aquele seria um dia de choro e tristeza com motivo. Este dia era Tishá be Av, o dia 9 do mês de Av. E as palavras de D'us se cumpriram em diferentes épocas da história, sendo esta data sempre marcada por tragédias, coletivas e individuais, do povo judeu. Tishá be Av ficou conhecido como o dia mais triste do ano, em especial pela destruição dos nossos dois Templos de Jerusalém.
 
Porém, este ensinamento desperta um enorme questionamento. Por que a Torá diz que choramos "à toa"? Não havia motivos para chorar? Os espiões relataram o que viram, isto é, uma terra difícil de ser conquistada, muitas pessoas morrendo e gigantes! Será que devemos "camuflar" notícias ruins apenas para não parecermos pessimistas?
 
Há uma expressão popular que diz: "Quem conta um conto aumenta um ponto". As pessoas gostam de exagerar em seus relatos e acrescentar detalhes que nunca aconteceram, dando novas cores para a história. Por isso, qualquer história normalmente contém informações a mais. Será que este foi o caso dos espiões? Eles eram mentirosos, que aumentaram a gravidade dos fatos e acrescentaram detalhes que não existiam?
 
A resposta é que não havia nenhuma mentira no relato deles, e nem mesmo exageros. Eles relataram exatamente o que viram. Porém, ainda assim, eles cometeram alguns erros. Em primeiro lugar, eles decidiram sozinhos que, a partir do que haviam visto, não havia forma de conquistar a Terra de Israel. Além disso, eles cometeram outro erro grave. Apesar de terem contado a verdade, eles deram uma ênfase muito maior nas informações desfavoráveis. Ao invés de colocar as informações aparentemente ruins dentro de um contexto, eles preferiram ressaltar apenas a parte negativa.
 
Em todas as situações que passamos na vida, há lados positivos e também dificuldades. Por isso, podemos sempre enxergar uma história de duas formas diferentes: focando no lado positivo ou no lado negativo. Por exemplo, imagine um filho que chega em casa com seu boletim. O pai, ansioso, abre e percebe que há duas notas abaixo da média e outras seis notas acima da média. Esse pai, quando for conversar com sua esposa, precisará descrever o boletim do filho. Ele poderá fazer isso de duas maneiras diferentes. Ele poderá contar que o filho foi muito bem, mas que teve dificuldade em duas matérias e precisa de reforço, ou poderá descrever que o filho é um caso perdido, que é um péssimo aluno e sem esperanças de que um dia vá melhorar. O boletim vai continuar sendo o mesmo, o que muda é a forma de ver e de descrever a situação.
 
Portanto, essa foi uma das principais fontes do erro trágico dos espiões. É verdade que eles viram coisas negativas, desafios grandes e difíceis. Porém, certamente eles também viram muitas coisas boas. E, na realidade, mesmo nas coisas "ruins" eles poderiam ter enxergado as bondades ocultas. A prova é que, dos doze espiões, apenas dez falaram mal da Terra, mas dois deles, Yehoshua bin Nun e Calev ben Yefune, falaram bem. Como pode ser, se eles viram as mesmas coisas? Yehoshua e Calev viram as dificuldades e os desafios, mas souberam colocar dentro do contexto. Eles souberam olhar a situação com Emuná. Eles não permitiram que as poucas coisas que pareciam negativas ofuscassem as coisas positivas, e por isso tiveram sucesso. O erro dos espiões foi, portanto, ter usado o pessimismo e  a visão negativa perante os acontecimentos, ao invés de ter refletido e procurado o lado positivo de cada situação. Isso vai contra a nossa verdadeira essência.
 
Em cada geração temos enfrentado perseguições e tentativas de extermínio. Mesmo nos nossos dias, quando vivemos uma época de relativa tranquilidade, não são raros os acontecimentos de violência contra judeus no mundo inteiro. Somos estereotipados e desumanizados. Os fatos são distorcidos e utilizados contra nós. Antissemitas afirmam que o Holocausto jamais aconteceu. Nações árabes privaram os judeus dos direitos básicos durante séculos, fizeram guerras contra o "Estado judeu", nos boicotaram, difamaram e discriminaram de todas as maneiras possíveis. E, então, eles vão à ONU pedir a condenação de Israel por racismo. Talvez nossos odiadores tenham sempre nos odiado porque os judeus são a consciência do mundo. A Torá ensinou grandes ideais, que muitos consideram ameaçadores. Por exemplo, que todos os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de D'us, que todos são responsáveis por seus atos, que devemos ter compaixão de todas as criaturas e que a generosidade deve ser superior à ganância.
 
Mas, apesar das condenações da ONU, do preconceito e boicotes contra Israel em todo o mundo, o povo judeu permanece sendo uma nação idealista, comprometida com um futuro mais brilhante. Como é possível que o povo judeu, em geral, seja caracterizado por um extremo otimismo e um estilo de vida positivo? Por que não desistimos da humanidade? Por que trabalhamos tanto para tornar o mundo melhor para todas as pessoas?
 
O segredo do sucesso do povo judeu é que, na nossa essência, temos Emuná. Apesar das condições difíceis, temos a certeza de um futuro melhor. Se não ficamos quebrados pelos milhares de anos de injustiças, ódio gratuito e perseguições, não ficaremos quebrados agora. Essa é a escolha que temos todos os dias: podemos olhar os desafios da vida e passar o dia reclamando e nos queixando das dificuldades, ou podemos olhar o lado positivo, colocar nossos problemas em um contexto maior. Ao invés de reclamarmos para D'us que temos um grande problema, podemos dizer aos nossos problemas que temos um grande D'us. Isso muda tudo. 

SHABAT SHALOM 

R' Efraim Birbojm

 
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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel Z"L, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
 
Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) de minha querida e saudosa tia, Léa bat Meir Z"L. Que possa ter um merecido descanso eterno.
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quinta-feira, 8 de junho de 2023

AGRADECIMENTO E RECONHECIMENTO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ BEHAALOTECHÁ 5783

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ASSUNTOS DA PARASHÁ BEHAALOTECHÁ
  • Acendendo a Menorá.
  • Inauguração dos Leviim.
  • Responsabilidade dos Leviim.
  • O primeiro Pessach no deserto (2º ano).
  • Pessach Sheni.
  • Sinais Divinos para iniciar as viagens.
  • As Trombetas.
  • Moshé convida Itró (Chovev) a se juntar ao povo judeu.
  • A Viagem do Sinai.
  • A Arca Parte (Nun invertido).
  • Queixas e o fogo Celestial.
  • Reclamação do Man e desejo por carne.
  • Moshé reclama com D'us do peso do povo e D'us escolhe 70 anciãos.
  • A Codorniz e a praga.
  • Lashon Hará de Miriam e Aharon sobre Moshé.
  • D'us ressalta o valor único de Moshé.
  • A Punição de Miriam (Tzaraat).
  • Miriam de Quarentena fora do acampamento e o povo espera.
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AGRADECIMENTO E RECONHECIMENTO - PARASHÁ BEHAALOTECHÁ 5783 (09/jun/23)
 
Na maternidade de um hospital de Israel, mais um momento mágico acontecia. Uma mulher havia dado à luz uma linda menininha. Porém, as enfermeiras estranharam muito, pois apesar de o bebê estar completamente saudável, havia sinais de preocupação e medo estampados na face da mãe. Ela começou a chorar compulsivamente e as enfermeiras, preocupadas, lhe pediram para contar o que a estava afligindo.
 
- Há nove anos eu me casei e, já na primeira gravidez, meu marido me "advertiu" para que eu lhe desse apenas filhos homens, e que eu não ousasse voltar do hospital trazendo uma menina - disse a mulher, aos prantos - No entanto, D'us tinha outros planos e nasceu uma menina. Assim também foi no parto seguinte, e no terceiro, até que chegamos a seis meninas, e nunca tivemos nenhum menino. Agora, na sétima gravidez, meu marido me disse: "Se dessa vez você também tiver uma menina, não precisa nem voltar para casa. Não vou querer nem você e nem o bebê!". E, no final das contas, nasceu mais uma menina. Eu não sei o que vou fazer!

A história comoveu o diretor do hospital. Ele foi tranquilizar a mulher e disse que, com a ajuda de D'us, tudo ficaria bem. O que ele fez? Apressou-se em ligar para o marido e disse com alegria que ele havia ganhado um menino. Não havia limites para a alegria do marido. Porém, antes de desligar o telefone, o diretor lhe disse para procurá-lo assim que chegasse ao hospital, pois tinha algo importante para dizer. O homem apressou-se e, assim que chegou ao hospital, antes mesmo de ver seu bebê, dirigiu-se ao escritório do diretor.
 
- Sente-se, por favor, e tome um copo de água - disse o diretor, com a voz muito séria - pois tenho algo muito grave para contar ao senhor. Veja bem, apesar do mérito de você ter ganhado um menino, ele nasceu com uma série de problemas. Os dedos das mãos infelizmente não poderão se movimentar. Ele também nasceu com problemas nas pernas, sendo uma maior que a outra. Mas estes são os problemas pequenos. Infelizmente ele tem um grave problema cerebral e uma lesão no coração. Seremos obrigados a submetê-lo, em poucos instantes, a uma complicada cirurgia de emergência. Mesmo que sobreviva, terá sequelas para sempre...
 
- Eu sou o culpado por tudo isso - disse o pai, em choque, sentindo uma dor terrível – eu causei sofrimento à minha esposa sem motivo e fui mal agradecido com D'us, que me proporcionou seis meninas lindas e saudáveis. O que haveria de tão ruim em ter mais uma menina saudável?

Ele abaixou a cabeça e começou a chorar amargamente. Então o diretor se levantou e disse bem alto:
 
- Mazal Tov! Na verdade você teve uma menina linda e completamente saudável!

Assim, o plano do diretor funcionou. O pai transbordou em alegria e agradeceu a D'us e à sua esposa pela sua filhinha saudável. Com muita sabedoria, o diretor havia conseguido fazer o homem perceber as Berachót que tinha na vida, além de ter contribuído para o Shalom Bait do casal.

Nesta semana lemos a Parashá Behaalotechá (literalmente "Quando você acender"), que continua descrevendo os principais acontecimentos do povo judeu no deserto. A verdade é que a partir desta Parashá, a Torá começa a descrever muitas transgressões que o povo judeu cometeu, que culminaram com o decreto de que aquela geração inteira não entraria na Terra de Israel. Entre as transgressões descritas nesta Parashá estão algumas reclamações do povo. Apesar de todas as bondades que eles recebiam, eles expressaram três queixas principais.
 
A primeira queixa não está explícita na Torá, apenas está escrito: "As pessoas passaram a buscar reclamações. Isso foi mau aos olhos de D'us" (Bamidbar 11:1). Por que eles estavam reclamando? Rashi (França, 1040 - 1105) explica que D'us, em Sua grande bondade, milagrosamente permitiu que o povo judeu completasse uma jornada de três dias em apenas um dia, para acelerar sua chegada à Terra de Israel, onde eles poderiam cumprir todas as Mitzvót da Torá. Porém, o povo começou a reclamar da árdua jornada que estavam sendo forçados a empreender.
 
A segunda queixa foi a insatisfação do povo com o Man, o alimento celestial milagrosamente fornecido a eles diariamente. Embora o Man suprisse todas as necessidades nutricionais e tivesse o sabor que eles desejassem, eles ainda tiveram a ousadia de expressar sua preferência pela "dieta" que tinham no Egito, enquanto ainda eram escravos, como está escrito "Lembramo-nos dos peixes que comíamos de graça no Egito, dos pepinos, das melancias, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos" (Bamidbar 11:5).
 
Finalmente, a terceira queixa foi em relação aos relacionamentos interfamiliares, que se tornaram proibidos quando eles aceitaram a Torá, como está escrito: "Moshé ouviu o povo chorando com suas famílias, cada um na entrada de sua tenda. D'us ficou muito irritado e Moshé considerou isso mau" (Bamidbar 11:10). Rashi explica que as famílias se reuniram e choraram na entrada de suas tendas para tornar pública sua queixa de que o casamento entre membros da família seria proibido daquele momento em diante.
 
É interessante perceber que todos estes motivos de reclamação não eram motivos válidos. O povo judeu tinha tudo o que precisava no deserto, como alimentação, roupas, proteção e espiritualidade. Então o que os motivou a reclamar tanto? Por que vemos tantas vezes pessoas que recebem tudo de bom, mas preferem transformar todo o positivo em negativo e, ao invés de agradecerem, reclamam?
 
Além disso, a Torá nos ensina que D'us, profundamente irritado com as reclamações sem motivo do povo, enviou um fogo para consumi-los. Uma das opiniões trazidas por Rashi é que entre os mortos estavam os líderes da geração, os setenta anciãos. Por que eles mereceram morrer? Na realidade, a transgressão que causou esta condenação de morte celestial havia ocorrido poucos dias antes da entrega da Torá no Monte Sinai. D'us havia se revelado em uma Visão profética para Moshé, Aharon, Nadav, Avihu e os setenta anciãos. Infelizmente Nadav, Avihu e os setenta anciãos "olharam para D'us", isto é, se comportaram de uma maneira desrespeitosa perante a Presença Divina, recebendo pena de morte celestial. Por que não foram mortos imediatamente? Para não estragar a alegria do recebimento da Torá. A morte de Nadav e Avihu ocorreu no dia da inauguração do Mishkan, enquanto a morte dos setenta anciãos aconteceu após as queixas, sete meses depois da revelação de D'us no Monte Sinai. Por que foi justamente nessa circunstância que os líderes foram punidos?
 
Quando uma pessoa recebe uma bondade, ela está obrigada a retribuir ao benfeitor. É interessante perceber que na língua portuguesa este conceito está implícito no nosso agradecimento. Dizemos "obrigado", o que significa que, ao receber uma bondade, devemos nos sentir obrigados a retribuir. Porém, antes de retribuir é fundamental reconhecer as bondades recebidas. A palavra "Lehodot", que significa "agradecer", também significa "reconhecer". Se a pessoa não reconhece, como vai agradecer e retribuir de forma completa? Isso faz parte de um conceito maior, chamado "Akarat HaTov", gratidão, saber reconhecer as bondades recebidas.
 
Porém, explica o Rav Yohanan Zweig shlita que sempre que alguém recebe uma bondade, passa por uma "luta interna". Por um lado queremos ser gratos com quem nos faz bondades, mas, ao mesmo tempo, não gostamos de nos sentir endividados. Por isso, de forma subconsciente, acabamos buscando uma perspectiva negativa em relação a tudo o que recebemos, pois, desta maneira, ao definir que recebemos menos, nos sentimos menos endividados. Essa é a fonte de toda a negação das bondades que recebemos. E é interessante perceber este fenômeno justamente nas pessoas que deveriam ser as mais agradecidas. Por exemplo, os alunos que mais reclamam na Yeshivá, encontrando defeitos na comida ou no dormitório, são justamente aqueles que pagam menos. As pessoas mais resmungonas são, na maioria das vezes, as que recebem as maiores e mais constantes bondades. Isso é uma maneira de diminuir, de forma subconsciente, a sensação de endividamento. Precisamos  trabalhar este traço de caráter. Alguém que não se esforça para ser uma pessoa grata acaba se tornando uma pessoa egoísta, pois, acostumada a não reconhecer o que recebeu de bom, ela acaba nunca retribuindo.
 
Isso vale em relação às pessoas, mas também vale em relação a D'us. Quem não costuma ser grato com as pessoas também não será grato com D'us e Suas infinitas bondades. Rashi explica que aqueles reclamões estavam apenas procurando uma desculpa para se afastarem de D'us. Por negarem toda a bondade que D'us havia feito, eles não sentiriam nenhuma responsabilidade de retribuir e, por isso, se sentiram confortáveis em romper o relacionamento.
 
Foi nesta circunstância que aqueles que "olharam para D'us" foram punidos. Seu erro original poderia ter sido desconsiderado, pois poderia ter sido interpretado como uma consequência de quererem estar mais próximos de D'us, como ensina o Talmud (Sanhedrin 105b): "O amor distorce os limites". No entanto, através das reclamações sem motivo, tornou-se evidente que eles não desejavam um relacionamento mais próximo com D'us. Foi só então que eles foram castigados por seu comportamento inadequado.
 
Essa é a importante lição da nossa Parashá: devemos fugir da ingratidão, este traço de caráter tão negativo. Precisamos aprender a ser gratos, reconhecendo as bondades recebidas e nos esforçando para retribuir. Isso vale em relação às pessoas à nossa volta, mas, principalmente, em relação a D'us, que nos faz bondades ilimitadas. 

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R' Efraim Birbojm

 
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