quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

HONESTIDADE NÃO TEM PREÇO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT TERUMÁ 5780

Para dedicar uma edição do Shabat Shalom M@il, em comemoração de uma data festiva, no aniversário de falecimento de um parente, pela cura de um doente ou apenas por Chessed, favor entrar em contato através do e-mail efraimbirbojm@gmail.com.
   
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PARASHAT TERUMÁ 5780:

São Paulo: 18h16                   Rio de Janeiro: 18h02 
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ASSUNTOS DA PARASHAT TERUMÁ

- Doações para a construção do Mishkan (3 Terumót: ½ Shekel obrigatório, para as bases; ½ Shelek obrigatório, para os Korbanót; doação não obrigatória dos materiais de construção).
- O Aron Hakodesh e a Kaporet.
- A Shulchan.
- A Menorá.
- As 3 coberturas do Ohel Moed.
- As Tábuas (Estrutura do Ohel Moed).
- Parochet e Tela de entrada.
- O Mizbeach.
- O Pátio.

HONESTIDADE NÃO TEM PREÇO - PARASHAT TERUMÁ 5780 (28 de fevereiro de 2020)


Na pequena cidade de Santo Antônio da Platina, norte do Paraná, a honestidade de uma criança emocionou um funcionário da Companhia Paranaense de Energia, João Cândido da Silva Neto, de 57 anos. Era dia de trabalho e, como fazia todos os dias, ele estava se deslocando até a casa de uma família para cortar a eletricidade em razão da falta de pagamento. Para ele, o corte de eletricidade era uma atividade desagradável em qualquer circunstância. Apesar de ser obrigado a cumprir seu trabalho, lhe doía o coração, em especial quando se deparava com uma família carente, que se desesperava ao descobrir que ficaria sem energia.

Naquele dia não foi diferente. Ao chegar ao local para onde havia sido mandado, encontrou uma mulher sentada em um banco de madeira, junto com três crianças descalças, diante de uma casa de madeira bem velha. A mulher perguntou a João, com o olhar triste, se ele tinha vindo cortar a eletricidade. João balançou a cabeça afirmativamente, embora o coração quisesse dizer "não". A mulher então implorou para que ele não cortasse a luz, pois apesar de estar com duas contas atrasadas, estava para receber seu salário no dia 9. João então avisou, para a surpresa da mulher, que aquele dia era o dia 9. Ele informou que precisaria fazer o desligamento de qualquer maneira, mas se ela fizesse o pagamento naquele dia, ele voltaria ainda no final da tarde para religar. E assim ficou combinado.
 
Quando João terminou o desligamento, começou a atualizar as informações do serviço no tablet da empresa. Neste momento, as três crianças descalças se aproximaram dele e pediram R$ 1,00 para cada uma. João se apiedou delas e procurou nos bolsos alguma moeda, mas não encontrou. Acabou dando a um dos meninos, chamado Eugênio, uma nota de R$ 5,00, e pediu que ele dividisse o dinheiro com seus irmãos. Os olhos de Eugênio brilharam ao ver tanto dinheiro. João saiu de lá com o coração pesado ao ver o estado da casa na qual aquela família morava, demonstrando extrema pobreza. Como ficariam ainda sem luz?
 
Para a sua alegria, João recebeu no fim do dia o aviso do religamento da eletricidade daquela família. Conforme havia prometido, ele foi imediatamente ao local para "devolver a luz" àquelas pessoas tão pobres. Era seu momento de redenção, após um dia com tantas tristezas.
 
Ao ouvir o barulho da caminhonete, todos saíram eufóricos. O menino Eugênio veio até João e disse, muito alegre: "Ainda bem que você voltou!". João pensou que ele estivesse feliz pela luz que seria religada, mas este não era o motivo da alegria do menino pobre. Ele abriu sua mãozinha suja e suada, mostrando uma nota amassada de R$ 2,00, e exclamou: "Moço, toma seu troco!". Ao devolver aquele dinheiro, o pequeno menino deu um incrível exemplo de honestidade e responsabilidade. João não quis receber o troco de volta, disse que havia dado tudo para ele dividir entre os irmãos. Mas o pequeno menino insistiu e disse:
 
- Moço, era só um real pra cada um! Já dividi o dinheiro com meus irmãos, sobraram dois reais. Eles são seus.
 
João emocionou-se naquele dia. No momento em que nosso país vive uma monstruosa crise moral, onde as instituições governamentais estão todas contaminadas pela corrupção, aparece um menino todo sujo e nos faz acreditar que a humanidade ainda tem jeito. Naquele dia, João chorou de alegria. Como já não fazia há muito tempo, naquela noite ele dormiu feliz.

A Parashat desta semana, Terumá (literalmente "Porção"), descreve a construção do Mishkan (Templo Móvel) e seus utensílios sagrados. A Parashat começa contando sobre a arrecadação dos materiais necessários para todas as partes do Mishkan e, em seguida, descreve o comando de D'us para a construção do Aron HaKodesh (Arca Sagrada), da Menorá, da Shulchan (Mesa de ouro, onde eram oferecidos 12 pães chamados "Lechem Hapanim"), das Ieriót (coberturas de tecido e couro), dos Krashim (Tábuas que formavam as paredes do Mishkan), do Mizbeach (Altar de sacrifícios), das cortinas internas e externas e da área do pátio externo.
 
Sabemos que a ordem das Parashiot não são aleatórias e, portanto, a própria sequência na qual D'us as escreveu também transmite importantes informações. Por que D'us escreveu sobre a construção do Mishkan e seus utensílios logo depois da Parashat Mishpatim?
 
Explica o Ramban zt"l (Nachmânides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270) que a Parashat da semana passada, Mishpatim,  trouxe dezenas de Mitzvót e seus detalhes, em especial Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (da pessoa com seu companheiro), que fazemos constantemente no nosso dia-a-dia, como auxiliar alguém que precisa de ajuda, dar Tzedaká aos pobres, devolver um objeto perdido e ser honesto nos negócios.

Quando D'us entregou a Torá, Ele criou um relacionamento com o povo judeu, um pacto que envolvia as duas partes. Ele afirmou que nos transformaria em Sua nação caso andássemos nos Seus caminhos, como está escrito: "E agora, se você ouvir a Minha voz e guardar o Meu pacto, você será um tesouro para Mim entre todas as nações... Você será para Mim um reino de sacerdotes e uma nação sagrada" (Shemot 19:5,6). Andar nos caminhos de D'us significa se comportar da maneira correta mesmo nos pequenos detalhes do cotidiano. Através do cumprimento das dezenas de Mitzvót contidas na Parashat Mishpatim, o povo judeu estava demonstrando sua disposição de aceitar a Torá e manter o "contrato" firmado com D'us no Monte Sinai.
 
As Mitzvót nos santificam, nos elevam e nos conectam a D'us. Por isso, quando o povo judeu recebeu as Mitzvót cotidianas e começou a cumpri-las, imediatamente tornou-se um povo sagrado. Desta maneira, este povo também tornou-se merecedor de um Mishkan, isto é, que a Presença de D'us habitasse constantemente entre eles. É por isso que logo após as Mitzvót da Parashat Mishpatim, D'us ordenou que eles construíssem um Mishkan. Da mesma maneira que eles podiam constantemente servir a D'us através das pequenas Mitzvót cotidianas, então D'us decidiu morar constantemente entre eles.
 
D'us é infinito, está acima do tempo, do espaço e da matéria. Ele pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, pois não tem nenhum tipo de limitação. Então qual é a ideia de que Ele "habita" em um determinado lugar? A resposta é que D'us realmente não precisa de uma "residência". Porém, Ele cria lugares, objetos e momentos que são sagrados com o intuito de facilitar com que possamos "sentir" Sua presença, nos conectar a Ele e experimentar Sua Santidade. Isto é apenas uma forma de D'us querer se manifestar através de algo material, tornando um lugar, um objeto ou um momento do ano mais especial.
 
Este conceito pode ser percebido em um pequeno detalhe do comando de D'us na construção do Mishkan. Assim está escrito: "Construa para Mim um Mishkan, para que Eu possa morar dentro deles" (Shemot 25:8). Por que "dentro deles", ao invés de "dentro dele"? O "eles" refere-se ao povo judeu e suas casas. O objetivo das Mitzvót é fazer com que cada pessoa e cada casa se transforme em pequenas moradias da Presença de D'us. No judaísmo não há separação entre a sinagoga, o lar, a família, o trabalho e o lazer. A Torá e seus valores servem para criar um relacionamento com D'us que se aplica a todos os momentos das nossas vidas.
 
O Mishkan é uma ferramenta e um veículo para nos ajudar a trazer a Presença Divina a este mundo de forma constante, não apenas em momentos esporádicos. O Mishkan é uma "repetição em pequena escala" do que ocorreu no Monte Sinai. Assim como no Monte Sinai as pessoas estavam todas ao redor da montanha, no deserto os judeus se organizavam ao redor do Mishkan. Da mesma forma que no Monte Sinai D'us falava diretamente com Moshé, no Kodesh Hakodashim D'us também falava diretamente com Moshé, por cima do Aron HaKodesh. O Mishkan era a forma de mantermos a conexão máxima, uma repetição constante do evento da entrega da Torá. No Monte Sinai houve o casamento entre D'us e o povo judeu. Não era a intenção de D'us formar conosco um vínculo tão forte no Monte Sinai e não dar continuidade a este relacionamento. O Mishkan é a continuação dessa proximidade, onde e quando estivermos. E mesmo quando o Templo Sagrado deixa de existir fisicamente, D'us pode repousar dentro de cada um de nós, em nossas casas e em nosso cotidiano, pois cada Mitzvá e cada pequeno ato de honestidade é a forma de mantermos nossa conexão com D'us.
 
O Rav Yossef Dov Soloveitchik zt"l (Bielorrússia, 1820 - 1892), mais conhecido como Beis HaLevi, traz outra razão pela qual a Parashat Terumá, que fala do Mishkan, vem logo após a Parashat Mishpatim. A Parashat Terumá começa pedindo às pessoas que contribuam com ouro, prata e os outros materiais necessários para a construção do Mishkan. Quando fazemos uma doação, de onde vem o dinheiro? É o fruto do nosso trabalho. Por isso, a pessoa deve conhecer bem as leis sobre transações comerciais e sobre propriedade para ter certeza de que não está fazendo nada de errado em seus negócios. A Tzedaká feita com dinheiro juntado através de ganhos ilícitos não é uma Mitzvá, é uma transgressão. Este é o conceito ensinado pelos nossos sábios de "Mitzvá Habá BeAveirá" (Uma Mitzvá que vem através de uma transgressão). Para doar para a construção de um "Mishkan", precisamos ter a certeza de que cumprimos as Mitzvót cotidianas da Parashat Mishpatim.
 
Às vezes ocorrem grandes acontecimentos ou decisões. Porém, o principal das nossas vidas são os pequenos acontecimentos cotidianos. É em cada pequeno ato que definimos quem somos de verdade. Os pequenos atos do cotidiano trazem santidade para nossas casas, nossas famílias, nosso trabalho e nossos momentos de lazer. O nosso 3º Beit HaMikdash precisa em breve ser reconstruído em Jerusalém. Porém, antes disso, ele deve ser reconstruído dentro de cada um de nós.
 

 SHABAT SHALOM
 

R' Efraim Birbojm

Este E-mail é dedicado à Refua Shlema (pronta recuperação) de: Chana bat Rachel, Pessach ben Sima, Rachel bat Luna, Eliahu ben Esther, Moshe ben Feigue, Laila bat Sara, Eliezer ben Shoshana, Mache bat Beile Guice, Feiga Bassi Bat Ania, Mara bat Chana Mirel, Dina bat Celde, Celde bat Lea, Rivka Lea bat Nechuma, Mordechai Ben Sara, Simcha bat Shengle.
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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel Z"L, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
 
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

AJUDANDO O OUTRO A SE AJUDAR - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT MISHPATIM 5780

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ASSUNTOS DA PARASHAT MISHPATIM

- O Escravo judeu.
- "Venda" da filha e a escrava judia.
- Assassinato.
- Agressão e injúria aos pais.
- Morte de Escravos.
- Penas por agressão física.
- Morte causada por um animal.
- Autodefesa.
- Danos com animais.
- Danos com fogo.
- Os 4 tipos de Shomrim.
- Sedução.
- Práticas Ocultas.
- Idolatria e Opressão.
- Empréstimo de Dinheiro.
- Aceitação da Autoridade.
- Justiça.
- Animais Perdidos.
- Animal Caído.
- Shalosh Regalim.
- Promessas e Instruções.
- A Terra.
- Selando a Aliança.
- Aceitação da Autoridade (Naasê Ve Nishmá).
- Visão de D'us

AJUDANDO O OUTRO A SE AJUDAR - PARASHAT MISHPATIM 5780 (21 de fevereiro de 2020)

 
"Um mendigo aproximou-se de um grande sábio que estava rodeado por seus discípulos. Parecia, pela sua aparência, que ele não comia uma refeição decente há um bom tempo. O sábio encheu-se de misericórdia diante daquele homem magro e sujo. O mendigo, quase chorando, falou:
 
- Por favor, ajude-me com um pouco de dinheiro para que eu possa comprar comida, pois todos na minha casa estão passando fome.
 
O sábio retirou do bolso duas moedas valiosas e estendeu ao mendigo. Porém, antes de entregá-las, disse:
 
- Preste muita atenção. Estou te dando duas moedas de valor alto. Com a primeira moeda eu quero que você compre comida para sua família, será suficiente para mais de uma semana. Porém, com a outra moeda eu quero que você compre um machado para cortar lenha.
 
O mendigo quase chorou de alegria. Agradeceu muito ao sábio e saiu correndo para comprar comida. Assim que o mendigo se afastou, um dos discípulos mais próximos do sábio questionou:
 
- Por que você deu a ele dinheiro para comprar um machado, se tudo o que ele pediu foi apenas dinheiro para comprar comida?
 
- Você está certo - respondeu o sábio - mas hoje você vai aprender uma grande lição de vida. A comida é para que ele possa alimentar sua família agora, resolvendo o problema imediato da fome. Já o machado é para que ele possa conseguir se sustentar sozinho e receber, daqui para frente, seu dinheiro de forma honrosa".
 
Chessed nem sempre é apenas resolver o problema imediato dos outros. O verdadeiro Chessed é ajudar de maneira que a situação de necessidade nunca mais se repita.

Logo após a entrega da Torá no Monte Sinai, descrita na Parashat da semana passada, Itró, a Torá vem nos ensinar a como aplicá-la na prática. A Parashat desta semana, Mishpatim (literalmente "Juízos"), contém dezenas de Mitzvót relacionadas com a harmonia da vida em sociedade, em especial aquelas que nos ensinam o cuidado com as posses dos outros, conforme dizem nossos sábios: "Que o dinheiro do seu companheiro seja querido para você como o seu próprio dinheiro" (Pirkei Avót 2:12). Por exemplo, a Torá descreve as leis referentes a danos diretos e indiretos causados a outra pessoa e a obrigação de devolver objetos perdidos. Por que esta Parashat, contendo apenas leis cotidianas, vem logo depois da incrível revelação de D'us no Monte Sinai, um evento extremamente espiritual? Para nos ensinar que o cuidado com o próximo é algo sagrado, que não devemos olhar como pequenos atos cotidianos de materialismo, e sim como grandes atos de espiritualidade, com o potencial de transformar o ser humano em uma criatura elevada.
 
Por exemplo, uma das leis contidas nesta Parashat demonstra a preocupação com toda a criação de D'us, conforme está escrito: "Se você vir o burro de alguém que você odeia caído sob o seu fardo, você deixará de ajudá-lo? Você deve ajudá-lo repetidamente, com ele" (Shemot 23:5). Esta Mitzvá nos ensina, em primeiro lugar, a termos compaixão dos animais e a fazermos um esforço ativo para evitar causar qualquer tipo de sofrimento desnecessário a eles. O versículo descreve uma situação na qual um animal não aguentou a carga que estava levando nas costas, caiu e não consegue levantar-se sozinho. Neste caso, devemos ajudar o animal a levantar-se, não apenas uma vez, mas quantas vezes forem necessárias.
 
Além deste lado de empatia exigido pela Torá em relação aos animais, nos ensinando que devemos ter misericórdia de todas as criaturas, há outro importante ensinamento neste versículo. Somos obrigados a ajudar uma pessoa que está em uma situação difícil mesmo quando não gostamos dela. E a maior novidade deste ensinamento é que, segundo o Talmud (Pessachim 113b), o versículo trata do ódio em relação a um transgressor que fez atos reprováveis, isto é, um ódio permitido pela Torá. Mesmo assim, a Torá quer despertar o lado humano das pessoas e fazer com que a misericórdia prevaleça sobre qualquer outro tipo de sentimento.
 
Porém, há outro detalhe neste versículo que chama a atenção. O termo utilizado pela Torá para nos ordenar a ajudarmos o dono do burro caído é "Azóv". O problema é que este termo normalmente é utilizado para transmitir a ideia de "abandone, deixe", como encontramos no versículo que descreve a Mitzvá de deixar aos pobres os cantos do campo e parte da produção que caiu no chão durante a colheita, como está escrito "Você a deixará (Taazóv) para os pobres" (Vayikrá 23:22). Se o significado tradicional da palavra "Azóv" é "abandone", então isto traz um sentido oposto ao desejado pela Torá, como se a Mitzvá fosse abandonar o animal caído, quando a Torá quer ensinar justamente o contrário. Então por que está escrito o termo "Azóv", que significa "abandone", e não o termo "Azór", que significa literalmente "ajude"?
 
Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está em outro versículo da Torá no qual o termo "Azóv" é utilizado: "Portanto, o homem deve deixar seu pai e sua mãe para conectar-se à sua esposa" (Bereshit 2:24). O que este versículo vem nos ensinar, que o homem deve abandonar seus pais para poder se casar? Certamente que não, pois mesmo casado o homem continua tendo a obrigação de honrar seus pais e, portanto, nunca deve abandoná-los. A razão pela qual o casamento é descrito em termos de "deixar os pais" é para nos ensinar que o casamento exige do indivíduo que ele separe-se de seus pais para que possa adquirir sua própria independência. Isto dará a ele a noção de responsabilidade necessária para transformar-se em um chefe de família, e somente então estará pronto para estabelecer um novo lar com sua esposa. Portanto, aprendemos deste versículo que o termo "Azóv" não significa apenas "deixar, abandonar", mas também significa "tornar-se independente e responsável por seus atos".
 
Aplicando este entendimento ao versículo que fala sobre ajudar o burro caído, entendemos por que a Torá utilizou o termo "Azóv" quando se refere a ajudar alguém com alguma necessidade. Quando queremos ajudar outra pessoa, não é suficiente apenas termos boa vontade. Precisamos utilizar também a nossa sabedoria e a nossa sensibilidade, pois fazer bondade ao próximo nos causa alegria e nos dá uma sensação de elevação, mas ao mesmo tempo causa um sentimento negativo, de constrangimento, a quem recebe. Por isso, a maior assistência que podemos dar a uma pessoa necessitada é levá-la a uma situação de vida na qual ela não mais precisará da assistência dos outros, isto é, poderá conseguir seu próprio sustento de forma honrosa. Ao fazer isso, estamos dando a ela independência. A Torá está nos ensinando que, quando ajudamos o próximo, isso deve ser feito como um ato de "Azóv", dando ao outro a capacidade de nos deixar, isto é, de não precisar mais de nossa ajuda, conforme diz o ditado "Não dê o peixe a um pobre. Dê a ele uma vara e ensine-o a pescar".
 
Este conceito também é ressaltado pelo Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) em suas leis referentes à Tzedaká. Ele afirma que existem oito níveis diferentes no ato de Tzedaká. O nível mais baixo é quando a pessoa doa, porém faz isto sem vontade. As pessoas sentem quando alguém doa sem vontade, pois normalmente isto é feito com uma cara fechada, causando dor para quem recebe. O segundo nível é aquele que doa menos do que o necessário, apesar de doar de coração. Neste caso, apesar da boa vontade, a ajuda não consegue suprir a necessidade do outro. O terceiro nível é aquele que doa apenas depois que o necessitado vem pedir, um ato que tem a grande desvantagem de causar um sentimento de inferioridade naquele que pede. O quarto nível é aquele que doa diretamente na mão do pobre, mas antes dele vir pedir, sendo extremamente louvável o ato de evitar que o pobre tenha que se rebaixar. O quinto nível é doar de forma que o pobre saiba de quem recebe, mas quem doa não saiba para quem está doando. Este tipo de doação tem a grande vantagem de não envolver sentimentos de honra e a sensação de que o outro está nos devendo algo, já que não sabemos quem está sendo beneficiado. O sexto nível é doar de forma que quem está doando sabe para quem doou, mas quem recebeu não sabe de quem recebeu. Neste caso, a grande vantagem é evitar a humilhação de quem recebe e a sensação de que ele está em dívida com alguém. O sétimo nível é doar de forma que aquele que doa não sabe para quem dou, enquanto o pobre não sabe de quem recebeu, como é o caso daquele que doa para uma instituição de caridade séria e honesta, que distribui o dinheiro arrecadado entre os necessitados. Desta maneira, garante-se que não haverá sentimentos de honra de um lado e nem de humilhação do outro lado. Finalmente, o maior de todos os níveis de Tzedaká é apoiar uma pessoa que empobreceu e ajudá-la, na forma de uma doação, de um empréstimo, oferecendo uma sociedade ou até mesmo "criando" um trabalho, de maneira a fortalecer o pobre até o ponto de ele conseguir andar com suas próprias pernas e não precisar mais pedir ajuda.
 
Ajudar o próximo é um ato muito nobre, mas que necessita de muita sabedoria e sensibilidade. Nós gostamos muito de ajudar, pois isto nos assemelha e nos conecta espiritualmente a D'us, já que a Sua essência é sempre doar sem receber nada em troca. Porém, não podemos esquecer que os atos de bondade precisam ser feitos com a intenção correta e da maneira correta. Quando doamos, o principal não é usar a carteira, e sim a cabeça e o coração. Precisamos sentir de verdade a necessidade dos outros. Precisamos nos colocar no lugar da outra pessoa e refletir: "Se eu estivesse nesta situação, como eu gostaria de ser ajudado?". Desta maneira, estaremos fazendo um ato que nos eleva e, ao mesmo tempo, também eleva e alegra o coração do próximo.
 

 SHABAT SHALOM
 

R' Efraim Birbojm

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

NÃO ESQUEÇA DE OLHAR PARA BAIXO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT ITRÓ 5780

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PARASHAT ITRÓ 5780:

São Paulo: 18h27                   Rio de Janeiro: 18h13 
Belo Horizonte: 18h11                  Jerusalém: 16h49
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ASSUNTOS DA PARASHAT ITRÓ
 
- Yitró escuta e vem se juntar ao povo judeu.
- Nome dos filhos de Moshé.
- Moshé conta a Ytró os detalhes do que ocorreu no Egito.
- O conselho de Yitró.
- Requerimento para a liderança.
- Chegada ao Monte Sinai.
- Preparação para receber a Torá.
- A revelação de D'us.
- Os Dez Mandamentos:

1º Mandamento: Eu sou D'us;
2º Mandamento: Não terá outros deuses;              
3º Mandamento: Não falar o nome de D'us em vão;
4º Mandamento: Guardar o Shabat;               
5º Mandamento: Honrar pai e mãe;
6º Mandamento: Não matarás;
7º Mandamento: Não cometer adultério;
8º Mandamento: Não roubar (não sequestrar);
9º Mandamento: Não dar falso testemunho;
10º Mandamento: Não cobiçar.

- Leis sobre a construção de um Altar.

NÃO ESQUEÇA DE OLHAR PARA BAIXO - PARASHAT ITRÓ 5780 (14 de fevereiro de 2020)

 
O Sr. Alberto era um homem orgulhoso e prepotente. Ele era muito rico e tinha uma linda esposa e três filhos. Mas apesar de tudo de bom que tinha na vida, ele possuía um coração egoísta e voltado apenas para si mesmo. Ele vivia em uma mansão luxuosa e possuía muitos empregados, mas os tratava muito mal. Também em sua enorme fábrica ele desrespeitava os funcionários, constantemente atrasando o salário deles e humilhando-os publicamente. Resumindo, o Sr. Alberto achava que era melhor do que os outros seres humanos.
 
Certo dia, ele e sua linda família foram a um grande supermercado próximo de sua residência. Em um momento de descuido, enquanto ele verificava com a esposa a lista de compras, sua filha mais nova, uma bebezinha, saiu do carrinho e, engatinhando, foi em direção ao banheiro do supermercado. Uma mulher encontrou aquela bebezinha linda e, com más intenções, raptou a criança e levou-a para sua casa.
 
Os pais procuraram desesperados pela filha por todo o supermercado. Pediram para anunciar no alto-falante, mas não adiantou nada. Foram na polícia, espalharam cartazes por toda a cidade e ofereceram uma enorme recompensa para quem trouxesse pistas sobre o paradeiro da filha, mas parecia que ela tinha evaporado.
 
Longe dali, a mulher que havia roubado a bebê estava radiante, pois agora ela tinha uma linda criança em seus braços. Com o passar dos anos, a criança cresceu e acreditou que aquela era sua verdadeira mãe. Na verdade, o Sr. Alberto e sua esposa já tinham perdido as esperanças de reencontrar a filha.
 
Porém, certo dia, tudo mudou. A mulher que tinha encontrado a menina ficou muito doente e precisou parar de trabalhar. Elas passaram a viver de forma bem precária e a pequena menina precisou ir para as ruas pedir esmolas para ajudar a alimentar a mulher e a comprar os remédios para que ela pudesse melhorar. Porém, apesar dos esforços, a mulher faleceu. A menina estava agora sozinha no mundo. Continuava sua vida miserável, a mendigar pelas ruas da cidade. Certo dia ela se deparou com o Sr. Alberto saindo da fábrica. Teve a impressão de que conhecia aquele homem de algum lugar. Foi até ele pedir alguns trocados, já que a fome estava apertando. Ele ignorou aquela menina suja, que ousava se dirigir a ele. A menina insistiu, mas como o Sr. Alberto continuou ignorando-a, ela segurou no braço dele. O Sr. Alberto, em um ato impensado, empurrou a menina ao chão de forma brutal. Com o golpe, ela caiu, bateu a cabeça e desmaiou. O Sr. Alberto não teve a dignidade nem mesmo de socorrer aquela criança que, na verdade, era sua própria filha. Os empregados da fábrica, ao verem aquela cena, correram para socorrer a menina. Levaram-na para o hospital e avisaram a esposa do Sr. Alberto sobre o ocorrido. A esposa, envergonhada com a atitude do marido, imediatamente comprou um buquê de flores e foi pessoalmente ao hospital entregar para a menina agredida. Qual não foi a sua surpresa ao se deparar com a menina dormindo e perceber que ela tinha um rosto conhecido. Olhando com atenção, percebeu a marca de nascença no lado direito do rosto, próximo à orelha. Foi quando constatou a realidade: aquela era sua filha desaparecida! Que enorme alegria. Abraçou a menina e levou-a de volta para casa. Porém, para o Sr. Alberto, aquele não foi um momento feliz. Para ele, foi uma enorme vergonha, que precisou carregar pelo resto da vida, a cada vez que olhava para a filha e se lembrava de como a havia tratado.
 
Aquela situação foi uma tapa na cara do Sr. Alberto, por toda a sua prepotência e arrogância. Finalmente a vida havia lhe dado uma tremenda lição. Que bom seria se as pessoas soubessem que ninguém é melhor do que ninguém. Somos todos iguais e precisamos respeitar nosso semelhante acima de tudo.

Nesta semana lemos a Parashat Itró, que traz três temas principais: a vinda de Itró, o sogro de Moshé, para se juntar ao povo judeu; a entrega da Torá no Monte Sinai; e as leis sobre a construção de um Mizbeach (Altar de sacrifícios). Porém, qual é a conexão entre estes três assuntos?
 
A Parashat se inicia com Itró vindo ao encontro de Moshé. Quando ele chegou ao acampamento, mandou a seguinte mensagem para Moshé: "Eu, seu sogro Itró, estou vindo ao seu encontro; com sua esposa e seus dois filhos com ela" (Shemot 18:6). Por que Itró fez esta "introdução", dizendo que além dele também estavam vindo a esposa e os filhos de Moshé? Não era suficiente avisar que ele tinha chegado?
 
Rashi (França, 1040 - 1105) explica que Itró, com estas palavras, estava enviando a seguinte mensagem a Moshé: "Se você não quiser vir me cumprimentar, venha pela honra de sua esposa. E se você não quiser vir pela sua esposa, venha pelos seus dois filhos". Mas o que significam estas palavras de Rashi? Por que Itró considerou que Moshé não viria recebê-lo, e talvez nem para receber sua própria esposa?

Responde o Rav Simcha Zissel Ziv zt"l (Lituânia, 1824 - 1898), mais conhecido como Alter MiKelem, que Itró era um grande filósofo, um buscador sincero e honesto da verdade. Ele havia experimentado todas as formas de idolatria e, através do uso do seu intelecto, havia alcançado a consciência de que todas elas eram vazias e sem sentido. Finalmente, ele decidiu abraçar o monoteísmo ao constatar o poder de D'us. Porém, ele havia entendido D'us e a espiritualidade apenas em um nível intelectual. Antes de começar a estudar Torá, ele não sabia que era possível uma pessoa atingir um alto nível espiritual e, ainda assim, se manter conectado com as outras pessoas. Ele pensava que o material e o espiritual são dois objetivos opostos e, por isso, enviou a Moshé uma mensagem lembrando que ele deveria cumprimentar seu sogro. Caso ele não fosse suficientemente importante diante de alguém tão elevado espiritualmente, que viesse por sua esposa. Finalmente, se nem sua esposa fosse importante diante da grandeza de Moshé, que viesse pelos seus filhos. Ou seja, Itró estava sugerindo a Moshé: "Você pode ter atingido o ápice da espiritualidade, mas não esqueça de cumprir suas obrigações sociais".
 
O erro de Itró foi que ele ainda não havia entendido a verdadeira essência da Torá, que nos encoraja a alcançarmos altos níveis em ambas as esferas: nosso relacionamento com D'us e nosso relacionamento com o próximo. Não é uma tarefa fácil se destacar em ambas. É preciso muito esforço, mas esta é a nossa obrigação. D'us quis ressaltar isto ao nos entregar os 10 Mandamentos em duas Tábuas separadas, uma contendo Mitzvót "Bein Adam LaMakom" (entre a pessoa e D'us) e outra contendo Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu semelhante). As duas Tábuas ficavam lado a lado, demonstrando que não é possível alcançar espiritualidade verdadeira deixando de lado os relacionamentos humanos. Mesmo que uma pessoa atinja um nível espiritual elevado, ainda assim ela deve lembrar-se de suas obrigações com o próximo.
 
De acordo com o Rav Zelig Pliskin, este ensinamento é novamente ressaltado no final da Parashá, quando a Torá nos ensina algumas leis referentes à construção de um Mizbeach (altar de sacrifícios). Assim está escrito: "E quando você fizer um altar de pedras para Mim, não o edificará com pedras cortada, pois se você erguer sua espada sobre ela, será desonrada" (Shemot 20:22). Isto significa que as pedras tornariam o altar impróprio para o uso nas oferendas dos Korbanót (sacrifícios) caso fossem cortadas com objetos de ferro. Rashi explica que, como o altar serve para estabelecer a paz entre o povo judeu e D'us, era proibido usar em sua construção instrumentos de ferro, que normalmente estão associados à violência, como as espadas, que causam a guerra e encurtam a vida das pessoas. Se até mesmo em relação às pedras, que não veem, não escutam e não falam, mas estabelecem a paz, a Torá disse que não devemos erguer uma espada sobre elas, muito maior é aquele que consegue trazer a paz entre um homem e seu semelhante.
 
Além disso, a Parashá também nos ensina que o acesso ao topo do Mizbeach não deveria ser feito através de degraus, e sim através de uma rampa, com uma inclinação gradual. Rashi explica que se houvessem degraus, os Cohanim precisariam alargar seus passos, revelando diante dos degraus a sua nudez. Embora não era uma revelação real das partes íntimas do Cohen, já que uma das vestimentas dos Cohanim era um calção de linho que ele usava sob a túnica, mesmo assim o alargamento de seus passos se assemelhava à revelação da sua nudez, e isto seria considerado um desrespeito com o altar. Se em relação às pedras do altar, que não têm entendimento nem sensibilidade, a Torá diz que não podemos agir em relação a elas de maneira desrespeitosa, muito maior deve ser o nosso cuidado com a honra das pessoas. Não podemos agir com desrespeito com nenhum ser humano, que foi criado à imagem e semelhança de D'us.
 
O Talmud (Shabat 31a) conta que, certa vez, um homem que queria se converter ao judaísmo aproximou-se do grande sábio Hilel e pediu para que ele falasse toda a Torá enquanto ele aguardava em um pé só. Sem precisar pensar muito, Hilel proferiu as famosas palavras: "O que te incomoda, não faça aos outros. Esta é toda a Torá, o resto são comentários". O respeito ao próximo é a essência da Torá, é a atitude que a Torá espera de cada ser humano. Devemos tratar nosso semelhante com mais respeito do que trataríamos o Mizbeach no Beit Hamikdash. Quem visita o Kotel (Muro das Lamentações), que tem menos santidade do que o Altar, sente imediatamente a noção de respeito. Se alguém viesse jogar lama no Kotel, certamente todos os presentes correriam para detê-lo. Muito maior é a nossa obrigação de impedir que alguém jogue "lama verbal", que pode "sujar" a honra de outra pessoa. Pois é muito importante crescermos espiritualmente e nos conectarmos cada vez mais a D'us. Porém, ao mesmo tempo, não devemos nos desconectar das outras pessoas. Por mais alto que você possa chegar na vida, nunca se esqueça de se olhar para baixo, para nunca pisar em ninguém.
 

SHABAT SHALOM
 

R' Efraim Birbojm

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