sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

INTEIRO E NÃO PELA METADE - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ MISHPATIM 5775




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INTEIRO E NÃO PELA METADE - PARASHÁ MISHPATIM 5775 (13 de fevereiro de 2015)
"Certa vez Eliezer, um jovem estudante de Torá, aprendeu uma grande lição sobre como fazer Chessed (bondade) com os necessitados. Ele foi convidado para comer uma Seudá (refeição) de Shabat na casa do Sr. Stern (nome fictício), no mesmo Shabat em que o dono da casa também tinha convidado um homem pobre para a Seudá. Após o primeiro prato, onde apenas alguns pedaços de pão e saladinhas haviam sido servidos, o Sr. Stern animadamente começou a cantar músicas de Shabat. Uma música, duas músicas, três músicas se passaram, mas a animação do Sr. Stern não passava. Já na quinta música o pobre, não aguentando mais de fome, desabafou:

- Por favor, chega de músicas e vamos para o próximo prato de comida!

O Sr. Stern olhou para o pobre, incrédulo, e respondeu rispidamente:

- Por favor, um pouco de Derech Eretz (bons modos), meu amigo!

A esposa do Sr. Stern, que estava na cozinha, ao escutar a discussão na sala, entrou e disse para o marido:

- Querido, não entendi. Você convidou este senhor para te ouvir cantando, para ensiná-lo a se portar com Derech Eretz ou para alimentá-lo?" (História Real).

Quando fazemos bondades, precisamos fazer de maneira completa, dando a cada um o que ele realmente necessita, e não o que nós achamos que é importante.
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Nesta semana lemos a Parashá Mishpatim, que traz muitas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), entre elas algumas Mitzvót associadas ao empréstimo de dinheiro, como está escrito: "Quando você emprestar dinheiro para o Meu povo, para a pessoa pobre que estiver com você, não se comporte com ele como um credor; não coloque juros sobre ele. E se você pegar as roupas do seu companheiro como garantia, até o por do sol você deve devolver a ele, pois é a única vestimenta dele, é a roupa para sua pele, com o que ele se deitará? Porque se ele gritar para Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso" (Shemot 22:24-26).

Superficialmente, estes versículos nos ensinam algumas Mitzvót simples e fáceis de serem entendidas. Porém, se refletirmos um pouco, nos despertam alguns questionamentos. Em primeiro lugar, vemos que a Torá incluiu outras Mitzvót, como a Mitzvá de devolver o objeto penhorado e a proibição de cobrar juros, junto com a Mitzvá de emprestar dinheiro, como forma de garantir que o Chessed (bondade) seja feito de maneira completa. Mas por que a Torá se preocupou com isso? O importante não é apenas fazer bondade, mesmo que não seja de forma completa?

Além disso, estas Mitzvót associadas ao empréstimo de dinheiro também despertam questionamentos. Por exemplo, está escrito "não se comporte com ele como um credor". Explica o Rav Shlomo Itzchaki zt"l (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, que se sabemos que a pessoa está passando por dificuldades no momento e é incapaz de devolver o empréstimo, não devemos pressioná-la mesmo que tenha chegado o prazo do pagamento. Ao contrário, Rashi ressalta que devemos fazê-la se sentir como se o empréstimo nunca tivesse acontecido, para não envergonhá-la. Mas este ensinamento é estranho, pois se chegou a data combinada para o pagamento, por que o credor não pode cobrar a dívida? É errado querer receber o próprio dinheiro de volta?

Outro ponto intrigante é a proibição de cobrar juros. Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ensina o quanto cobrar juros é grave. De acordo com o Midrash, sempre que alguém comete uma transgressão, os anjos do Céu tentam procurar méritos para o transgressor, para aliviar as consequências espirituais. Mas se a transgressão for a cobrança de juros, os anjos não procuram nenhum mérito para o transgressor. Porém, por que cobrar juros é proibido, se uma pessoa que está em uma situação difícil, precisando urgentemente de dinheiro, não se importa em pagar um pouco a mais quando estiver em uma situação mais confortável? Apesar disso, por algum motivo a Torá proíbe, de maneira muito rigorosa, o empréstimo a juros, mesmo que seja com taxas muito baixas. Por que tanta rigorosidade se, afinal, a pessoa fez uma bondade com o próximo necessitado?

Finalmente aprendemos dos versículos que, ao pegarmos uma roupa como garantia de pagamento de um empréstimo, se esta for a única roupa que a pessoa tem para usar, somos obrigados a devolver nos momentos em que ela necessitar da roupa. Por exemplo, se a garantia for um cobertor, ele pode ficar na posse do credor durante o dia, mas todas as noites o cobertor deve ser devolvido para que a pessoa possa se cobrir. Porém, esta lei aparentemente anula todo o propósito do devedor deixar um objeto como garantia, pois se ele pode continuar utilizando o objeto normalmente todas as vezes em que necessitar, ele fica muito menos motivado a pagar o empréstimo. Apesar de parecer contraditório, mesmo assim a Torá exige que o objeto penhorado seja devolvido ao seu dono sempre que ele precisar. Portanto, qual é a lógica destas Mitzvót associadas à Mitzvá de emprestar dinheiro ao necessitado e o que elas vêm nos ensinar?

Explica o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) que a Parashá está nos ensinando a como fazer Chessed da maneira correta. O ponto em comum  entre todas estas leis é que elas ressaltam a importância de, quando fazemos um ato de Chessed, fazê-lo da maneira mais completa possível, pois um Chessed "defeituoso" diminui muito seu impacto positivo sobre a pessoa que recebe. Por isso, mesmo esta incrível Mitzvá de emprestar dinheiro para alguém necessitado precisa ser feita com extremo cuidado, sem pressionar de nenhuma maneira a pessoa. Mas não vemos o mesmo nível de cobrança com a pessoa que nem mesmo faz Chessed. Como pode ser que o "meio Chessed" pode ser mais grave do que não fazer Chessed?

Há um ensinamento interessante e enigmático do Talmud (parte da Torá Oral) que talvez nos ajude a responder esta pergunta. O Talmud (Sotá 13b) afirma que uma pessoa que começa uma Mitzvá mas não a termina é punido de uma maneira muito severa. Porém, por que um castigo tão duro para alguém que pelo menos começou a Mitzvá, se aquele que não faz nada da Mitzvá não é punido de maneira tão rígida? Explica o Rav Moshe Shterenbuch shlita que nosso julgamento depende da claridade que temos sobre o que é certo e o que é errado. Quanto maior a claridade, maior o nível de cobrança. Aquele que iniciou uma Mitzvá demonstra que, por querer cumpri-la, ele aprecia o valor da Mitzvá. Portanto, se ele deixa de terminá-la, é como se estivesse desprezando algo que ele sabe que é muito elevado e importante, e por isso o castigo é tão severo. Já aquele que nem começou a Mitzvá é considerado alguém que ainda não entende a importância das Mitzvót, que não tem claridade, e por isso é julgado de uma maneira mais leniente.

De acordo com o Rav Chaim Shmulevitz, o mesmo se aplica aos atos de Chessed. Quanto mais a pessoa sabe o verdadeiro valor do Chessed e sua importância, mais rigidamente ele é tratado caso não faça o Chessed da maneira correta. É por isso que aquele que cobra juros, que pressiona o devedor ou que não devolve o objeto tomado como garantia, apesar de apreciar o valor de um ato de Chessed, ao mesmo tempo despreza este ato ao fazê-lo de maneira incompleta, pois junto com a bondade vem algum tipo de sofrimento ao devedor. Já aquele que nem se ocupa em fazer bondades demonstra que não entendeu o valor verdadeiro deste ato e, por isso, é tratado de forma menos rigorosa.

Portanto, fica um importante ensinamento para as nossas vidas: quando decidimos fazer Chessed com outra pessoa, é muito importante nos esforçarmos ao máximo para aumentar os efeitos positivos deste Chessed e não deixar que nenhuma mancha diminua o verdadeiro valor deste belo ato. Parece algo teórico, mas este conceito certamente se aplica a muitas situações cotidianas. Por exemplo, quando alguém nos pede uma ajuda ou qualquer tipo de favor e nós, apesar de aceitarmos, o fazemos com relutância, demonstrando que não estamos fazendo com muita vontade. Embora seja de qualquer maneira uma bondade, esta relutância causa certo incômodo naquele que pediu o favor, pois ele se sente desconfortável de ter causado um inconveniente. Por isso devemos sempre nos esforçar para ajudar os outros com um sorriso no rosto, mesmo quando nos pedem algo difícil ou trabalhoso. Isto aumenta muito os benefícios do Chessed que fazemos, pois além de ajudar a pessoa necessitada, não a deixamos com a consciência pesada por ter nos incomodado.

O mesmo se aplica quando damos uma Tzedaká (caridade) para um pobre. Temos que saber que é humilhante para uma pessoa ter que pedir dinheiro, e se damos a Tzedaká com a cara fechada, como se fosse um grande peso, a ajuda vem com uma carga negativa. Por isso, sempre que damos Tzedaká, devemos fazer com um sorriso no rosto. O próprio Talmud (Baba Batra 9b) afirma que aquele que dá Tzedaká sem entusiasmo recebe 6 Brachót, mas aquele que dá com um sorriso e com alegria recebe 17 Brachót, quase o triplo! Isto acontece pois aquele que faz Chessed sem entusiasmo diminui muito o efeito da sua bondade, enquanto aquele que faz Chessed com um sorriso demonstra o quanto ele realmente valoriza o ato de ajudar o próximo. Quando nos importamos de verdade com os necessitados, D'us também se preocupa com as nossas necessidades. Mas se ignoramos o que os outros necessitam, certamente também nossas próprias necessidades serão ignoradas por D'us.

O versículo termina com as palavras "porque se ele gritar para Mim, Eu escutarei, pois Eu sou misericordioso", para nos ensinar que, mesmo se fizermos uma grande bondade, se junto com isso causarmos também sofrimento e humilhação para a pessoa beneficiada, então seremos cobrados. Daqui aprendemos que não adianta fazermos "meias bondades" na vida. Se queremos de verdade ajudar alguém, deve ser como todo nosso coração e com toda a nossa força, com um sorriso no rosto, para que aquele que recebe as bondades possa se sentir feliz de maneira completa, e não pela metade.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O BEM ESTAR DOS OUTROS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ ITRÓ 5775




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O BEM ESTAR DOS OUTROS - PARASHÁ ITRÓ 5775 (06 de fevereiro de 2015)
"O Sr. Johnson pediu para conversar com seu supervisor e foi convidado a ir à sala dele. O Sr. Johnson estava com uma expressão séria no rosto quando entrou, e começou a falar:

- Chefe, tenho um pedido importante para fazer. Amanhã minha esposa está planejando fazer uma grande arrumação e limpeza em casa. Ela me pediu ajuda, e me deixou responsável pela limpeza da garagem e do sótão, e certamente será um trabalho duro, que inclui empurrar móveis pesados de um lado para o outro, empacotar coisas e jogar muito lixo fora. Além disso, ela me disse que precisa de ajuda para cuidar das crianças, mantê-las ocupadas, dar comida e banho nelas. Por isso, preciso que você me dispense amanhã do trabalho para que eu possa ajudá-la.

- Johnson - respondeu o chefe - você é um ótimo funcionário e eu entendo a necessidade de sua esposa. Porém, infelizmente estamos atualmente com poucos funcionários e não temos ninguém para te substituir. Por isso, não posso te dispensar de jeito nenhum amanhã, me desculpe.

Para a surpresa do supervisor, que esperava uma reação de nervosismo e irritação, Johnson imediatamente abriu um enorme sorriso, deu um grande abraço no supervisor e disse:

- Obrigado, chefe. Sabia que eu podia contar com você..."

Será que nos nossos relacionamentos estamos realmente preocupados com as necessidades dos outros e sempre buscando formas de ajudar, ou preferimos buscar formas de nos isentar das nossas responsabilidades?
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 Nesta semana lemos a Parashá Itró. Entre outros assuntos, a Parashá traz os Dez Mandamentos, entregues ao povo judeu na primeira e última vez na história da humanidade na qual D'us se revelou a um povo inteiro. Estes mandamentos são fundamentais para a nossa conduta, tanto em relação à D'us quanto em relação ao próximo. D'us dividiu os Mandamentos em duas tábuas, cinco Mandamentos baseados no nosso relacionamento com Ele e cinco Mandamentos baseados no nosso relacionamento com o próximo, justamente para nos ensinar como o nosso relacionamento com o próximo é tão importante aos olhos de D'us.

O primeiro mandamento, que é a base para todas as Mitzvót da Torá, nos chama a atenção em seus detalhes. Está escrito: "Eu sou Hashem, teu D'us, que te tirou do Egito" (Shemot 20:2). Este Mandamento exige de nós Emuná, a crença de que existe um Criador, que criou todo o Universo e controla cada pequeno detalhe de tudo o que ocorre com "Hashgachá Prati" (Supervisão Particular). Mas por que está escrito que Hashem é o D'us que nos tirou do Egito? Não teria sido mais apropriado Hashem ter se definido como o D'us que criou o Universo? Se D'us é definido como o Criador, isto O coloca como o único responsável por toda a existência, mas se Ele é definido como Aquele que nos tirou do Egito, isto O coloca apenas como o responsável por um evento histórico, algo muito menor, que não expressa a verdadeira grandeza Dele. Portanto, por que utilizar esta expressão logo no primeiro Mandamento?

O Rav Shlomo Itzchaki zt"l (França, 1040 - 1105), mais conhecido como Rashi, traz duas explicações. Em primeiro lugar, Rashi explica que é como se D'us estivesse dizendo ao povo judeu: "Eu sou o D'us que tirou vocês do Egito, e isto já é razão suficiente para que vocês sirvam a Mim". Aparentemente Rashi está explicando que nós somos obrigados a servir a D'us pelo fato Dele ter nos salvado da tirania do Faraó. Rashi traz também outra explicação, baseada em um Midrash (parte da Torá Oral) que afirma que quando D'us estava punindo os egípcios, Ele apareceu ao povo judeu como um "homem de guerra", enquanto no Monte Sinai, no momento da entrega da Torá, Ele apareceu como um "homem idoso cheio de misericórdia". Como havia o risco de o povo judeu achar que existiam duas divindades independentes, então D'us fez questão de afirmar "Eu sou o D'us que tirou vocês do Egito", isto é, existe apenas um único D'us, que se manifestou de forma diferente nas duas ocasiões. D'us estava se identificando no Monte Sinai como sendo aquela mesma força que havia tirado o povo judeu do Egito, para desfazer qualquer mal entendido.

Porém, há algo aparentemente contraditório nas duas explicações trazidas por Rashi. Se o Midrash afirma que D'us apareceu para o povo judeu no Monte Sinai como um idoso cheio de misericórdia, então como este idoso misericordioso estava afirmando que o povo judeu deveria se subjugar a Ele? Não parecem ideias contrárias, alguém demandando subserviência e, ao mesmo tempo, sendo um ancião misericordioso?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está no entendimento correto das palavras do Rashi. Quando o povo judeu saiu do Egito, iniciou-se um relacionamento do povo com D'us. A primeira resposta do Rashi não significa que a base do nosso relacionamento com D'us é que nós devemos a Ele nossa fidelidade por Ele ter nos salvado do Egito. Ao contrário, Rashi está explicando que a base para qualquer relacionamento saudável é que cada uma das partes se preocupe com o bem estar do outro. O fato de Hashem ter nos tirado do Egito reflete Sua compaixão e o cuidado com o povo judeu e é, portanto, a pedra fundamental do relacionamento. O que Rashi está nos ensinando é que a expressão "isto já é razão suficiente para que vocês sirvam a Mim" significa que é apropriado que o ato de D'us, de nos ter tirado do Egito, seja a base para que sirvamos a Ele, pois foi a demonstração do Seu comprometimento e da Sua preocupação com o nosso bem estar. Por isso a Torá afirma que, a partir daquele momento, era a nossa vez de mostrar o nosso comprometimento.

O relacionamento criado no Monte Sinai entre D'us e o povo judeu é descrito pelos nossos sábios como um casamento e, portanto, deveria refletir um caráter de exclusividade. Se estivesse declarado que D'us é o Criador do Universo, isto não indicaria nenhuma preocupação especial e única com o povo judeu, e por isso não poderia ser a pedra fundamental do casamento entre os dois. Já a saída do Egito, que foi feita única e exclusivamente para o povo judeu, é a base apropriada para nossa conexão eterna.

Esta Parashá nos traz um incrível ensinamento sobre o nosso relacionamento com D'us que também deve ser utilizado em todos os nossos relacionamentos humanos. A base de qualquer relacionamento, para que ele seja sincero, verdadeiro e duradouro, precisa ser a vontade de fazer o bem, de querer ajudar o outro, e não uma motivação egoísta, de pensar no que podemos ganhar com o relacionamento. Não são raras as histórias de pessoas ricas, cheias de "amigos", que ficaram sozinhas após terem perdido seu dinheiro. Por que isto acontece? Pois não eram amigos verdadeiros, eram apenas oportunistas querendo aproveitar e "sugar" tudo o que fosse possível. O amigo de verdade é aquele que quer o seu bem, que quer fazer algo por você, não aquele que quer apenas receber.

Isto não se aplica apenas nos relacionamentos de amizade, mas também é a base para um casamento verdadeiro e duradouro. O primeiro casamento registrado na Torá é o de Adam e Chavá (Adão e Eva), enquanto eles ainda estavam no Gan Éden. Quando D'us criou o mundo, havia apenas Adam, e D'us exclamou: "Não é bom o homem estar sozinho; farei para ele uma companheira correspondente a ele" (Bereshit 2:18). Mas esta afirmação de D'us é difícil de ser entendida. Há um Midrash (parte da Torá Oral) que afirma que Adam estava em um lugar paradisíaco, com os anjos servindo-o com as melhores iguarias e cuidando de todas as suas necessidades. Então por que D'us afirmou que não era bom o homem estar sozinho? O que faltava para ele? Respondem os nossos sábios que realmente não faltava nada para Adam receber, mas mesmo assim ainda faltava algo para ele ser completo: alguém com quem ele pudesse fazer bondades. Enquanto Adam não tinha Chavá, ele não podia se comportar como D'us, que apenas faz bondades sem receber nada em troca. Cada vez que nos comportamos como D'us, nos conectamos a Ele e nos preenchemos, enquanto toda vez que nos comportamos ao contrário de D'us, nos desconectamos Dele e aumentamos ainda mais o nosso vazio existencial.

A essência de um casamento verdadeiro é quando há comprometimento entre as partes, quando o foco de cada um é visar o bem estar do outro, buscar maneiras de como fazer bondades, não apenas querer receber e ter proveito. Hoje em dia há muitos divórcios, pois as pessoas perderam até mesmo a claridade de qual é o propósito do casamento. O casamento se tornou algo egoísta, uma tentativa de preencher o que nos falta. Mas tudo isso vem da falta de claridade de que o que nos preenche de verdade é o que fazemos e doamos para os outros, não o que recebemos.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

VIVENDO COM RESPONSABILIDADE - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ BESHALACH 5775




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VIVENDO COM RESPONSABILIDADE - PARASHÁ BESHALACH 5775 (30 de janeiro de 2015) 
"Numa granja, havia uma galinha que se destacava das outras por sua coragem, espírito de aventura e ousadia. Ela não tinha limites, pois sentia a responsabilidade de ser um exemplo para as outras galinhas. Suas atitudes contagiavam e motivavam. O dono da granja, porém, não apreciava estas qualidades e estava aborrecido com ela.

Um dia, o dono da granja fincou um bambu no meio do campo, amarrou nele uma extremidade de um barbante e a outra extremidade ele amarrou no pé daquela galinha.  Desse modo, de repente, o mundo tão amplo da galinha foi reduzido a exatamente até onde o barbante lhe permitia chegar.  A galinha tentou se libertar algumas vezes, mas depois desistiu. E assim começou a passar seus dias ali, ciscando, comendo e dormindo, dia após dia, até que se acomodou. De tanto andar nesse círculo, a grama que era verde foi desaparecendo e ficou somente terra.  Era interessante ver delineado um círculo perfeito em volta dela.  Do lado de fora, onde a galinha não podia chegar, a grama verde. Do lado de dentro, só terra.

Depois de um tempo, o dono da granja teve dó da galinha, pois ela era tão agitada e corajosa, mas havia se tornado uma ave pacata. Então ele cortou o barbante que a prendia pelo pé e a soltou. Agora a galinha estava livre, o horizonte novamente seria seu limite, ela poderia ir para onde quisesse. Mas a galinha, mesmo solta, não ultrapassava o limite que ela própria havia criado em sua cabeça.  Só ciscava e andava dentro do círculo, no seu limite imaginário. Olhava para o lado de fora, mas não tinha coragem suficiente para se "aventurar" a ir até lá.  Preferiu ficar do lado conhecido, em sua zona de conforto. Esqueceu-se de sua responsabilidade de ser um exemplo e, com o passar do tempo, envelheceu e ali morreu".

Quando nos acomodamos e aceitamos passivamente que as dificuldades da vida nos derrubem, terminamos sem forças para lutar. Temos que viver com garra, com a vontade de vencer os desafios, com a responsabilidade de nos tornarmos um exemplo para o mundo. Isto nos dará a energia que precisamos para alcançar o sucesso. 
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Na Parashá desta semana, Beshalach, o povo judeu havia sido libertado pelo Faraó, após ele ter sentido na pele a tremenda força de D'us, demonstrada através das 10 pragas que destruíram o Egito. Mas a felicidade do povo judeu durou pouco, pois mais uma vez D'us endureceu o coração do Faraó, fazendo-o decidir perseguir os judeus para novamente escravizá-los. Tudo isto ocorreu para que D'us pudesse terminar o processo de libertação do povo judeu. No Mar Vermelho, quando D'us abriu o mar para o povo judeu e fechou-o sobre os egípcios, matando-os e deixando seus corpos à mostra na praia, os judeus puderam ter a certeza de que a escravidão egípcia havia terminado, física e psicologicamente, para sempre.

A abertura do Mar Vermelho é um dos eventos mais importantes da história do povo judeu, no qual D'us quebrou as leis da natureza para nos salvar, demonstrando o amor infinito que Ele sente por nós. Quando lemos os versículos que descrevem a travessia do mar, parece ter sido um evento tranquilo, sem muitas dificuldades. Mas os nossos sábios ensinam que houve um grande desafio, só superado pela coragem de uma das Tribos de Israel.

De acordo com a Tossefta (Parte do Talmud - Tratado de Brachót, 4:16), quando os judeus chegaram ao Mar Vermelho, divididos em 12 Tribos, se depararam com um mar revolto e perigoso. Começou então uma imensa discussão para saber quem seria a primeira Tribo a entrar no mar, cada Tribo tentando tirar de si a responsabilidade e tentando empurrá-la para as outras Tribos. Finalmente os membros da Tribo de Yehudá decidiram pular na água e enfrentar o desafio, santificando o Nome de D'us. De acordo com a Tossefta, isto foi tão valoroso que é considerado uma das atitudes que deu à Tribo de Yehudá o mérito de se tornar a Tribo dos reis de Israel. Pelo fato da Tribo de Yehudá ter agido de forma tão proativa e corajosa, estando disposta a encarar o enorme desafio enquanto as outras tribos preferiram ficar procurando desculpas para se esquivar de sua responsabilidade, ela foi recompensada com o mérito eterno de liderar o povo judeu.

A palavra "responsabilidade" muitas vezes nos causa um sentimento negativo, pois normalmente é difícil e desconfortável assumir responsabilidades. Dá trabalho, traz novas preocupações e desafios. Preferimos continuar tranquilos em nossa "zona de conforto", e por isso tentamos evitar assumir posições de responsabilidade durante a vida. Porém, esta busca de conforto não é compatível com a visão judaica da vida. Ao contrário de ser algo negativo, assumir responsabilidades é algo que nos energiza e nos dá forças. De acordo com o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979), a Tribo de Yehudá decidiu entrar no mar pois se sentiu pessoalmente responsável pelo resto do povo judeu e entendeu que deveria cumprir a obrigação que recaía sobre ela. Neste momento, justamente por este sentimento de responsabilidade em relação ao resto do povo, ela se tornou a maior de todas as Tribos de Israel. Imediatamente as pessoas da Tribo de Yehudá receberam uma força e um poder adicional, que permitiu a elas ter a coragem de entrar no mar e fazer com que o grande milagre da abertura das águas acontecesse, possibilitando ao povo judeu inteiro atravessar com segurança o mar completamente seco. Por tomar sobre si a responsabilidade, a Tribo de Yehudá meritou receber um dos mais importantes papéis dentro do povo judeu e se tornar, para sempre, a Tribo dos reis de Israel.

O Rav Chaim Shmulevitz zt"l traz uma prova do quanto uma pessoa que assume responsabilidades na vida é vista com bons olhos por D'us. O Talmud Yerushalmi (Bikurim 3:3) afirma que três tipos de pessoas são dignas de receber expiação por todos os seus pecados: um sábio, um "chatan" (pessoa recém-casada) e alguém que subiu em grandeza. O Talmud traz uma passagem da Torá para comprovar que o "chatan" é perdoado por seu pecados: "E foi Essav a Ishmael, e tomou para si (como esposa) Machlat, filha de Ishmael" (Bereshit 28:9). O Talmud questiona esta passagem, pois o nome da filha de Ishmael era Bassmat, não Machlat. Então por que a Torá não escreveu o nome verdadeiro dela? Pois a palavra "Machlat" tem a mesma raiz de "Mochel", que significa "perdoar". Isto nos ensina que, no dia do casamento de Essav com Bassmat, ele foi perdoado por todos os pecados que havia cometido na vida.

Mas como entender este ensinamento do Talmud? Essav era um completo Rashá (malvado), que praticava as piores transgressões possíveis e imagináveis, e em nenhum momento a Torá diz que ele se arrependeu dos seus maus atos. Sabemos que mesmo no dia de Yom Kipur, o Dia do Perdão, nossos erros não são perdoados a não ser que estejamos sinceramente arrependidos de todos eles. Então como pode ser que, mesmo sem esforço e sem nenhum tipo de arrependimento, as transgressões de Essav foram perdoadas?

Responde o Rav Chaim Shmulevitz zt"l que o que há de único e especial em um homem recém-casado é que ele aceitou sobre si a responsabilidade de cuidar de sua esposa, e não há nada maior do que alguém que recebe sobre si o jugo da responsabilidade. Por isso um "chatan" recebe uma "Siata Dishmaia" (Auxílio dos Céus) especial, para ajudá-lo a ter sucesso em cumprir sua nova obrigação na vida, e ele é perdoado por todos os seus pecados para que possa deixar para trás seu passado e consiga fazer jus à sua nova responsabilidade assumida. Receber sobre si um novo nível de responsabilidade é um feito tão grande que a pessoa merita ser vista por D'us como alguém que recomeça a vida com uma folha nova, em branco, na qual ela literalmente recomeça a escrever sua história em um novo nível de existência. Foi por isso que Essav, mesmo sem nenhum arrependimento, foi perdoado por seus pecados no momento em que se casou.

A medida de quanto uma pessoa está disposta a receber sobre si responsabilidades é um dos fatores determinantes da grandeza que ela atingirá na vida. D'us nos deu o livre arbítrio para que possamos utilizá-lo de forma a nos responsabilizarmos por cumprir nossas obrigações. O livre arbítrio é, em essência, a habilidade de fazer escolhas, de decidir mudar, de querer crescer e atingir nosso potencial verdadeiro. Se uma pessoa faz esta escolha, então ela se torna uma nova criatura, cujo passado foi deixado para trás. É uma oportunidade de recomeçar e de ganhar novas forças para atingir o sucesso.

É verdade que às vezes a responsabilidade pode ser vista como um peso, algo que nos restringe e nos força a fazer coisas que não queremos nem gostamos de fazer. Mas o ato da Tribo de Yehudá nos ensina o contrário. Foi justamente a característica de tomar sobre si a responsabilidade, de se preocupar com o resto do povo, que permitiu que eles atingissem a grandeza. Quando a tribo de Yehudá se deparou com o mar revolto diante deles, eles fizeram a decisão de tomar sobre si a responsabilidade, ao invés de procurar jogá-la sobre os outros. Quando eles receberam sobre si cumprir a obrigação que recaía sobre eles, a Tribo de Yehudá se elevou a um nível muito mais alto.

O mesmo vale para cada um de nós. Se tivermos a coragem de ousar e nos levantarmos para assumir nossas reais responsabilidades na vida, pensando em tudo o que podemos fazer pelas nossas famílias e pelo mundo, certamente atingiremos uma grandeza que nunca poderíamos nem mesmo sonhar. Que possamos aproveitar as oportunidades que surgem na vida para que, ao receber as responsabilidades que recaem sobre nós, possamos atingir o nosso verdadeiro potencial.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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