Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Chukat (literalmente “Estatutos”) e Balak. A Parashat Chukat traz alguns assuntos muito marcantes na história do povo judeu, como o falecimento de Miriam e de Aharon HaCohen, além do fatídico erro de Moshé com a pedra, que o impediu de entrar na Terra de Israel. Já a Parashat Balak fala sobre um dos personagens mais contraditórios da Torá: o profeta Bilaam, que por um lado tinha um nível espiritual equivalente ao de Moshé Rabeinu, mas que terminou se deixando dominar por seus desejos e pela busca de honra, fazendo atos muito baixos e vergonhosos.
Mas em que consistia esse potencial espiritual tão elevado de Bilaam? O Talmud (Brachót 7a) afirma que D’us manifesta Sua ira apenas durante um instante específico e muito breve a cada dia. Ao longo da história, apenas uma pessoa foi capaz de identificar com precisão o exato momento em que isso ocorre: Bilaam. O sucesso de Bilaam em amaldiçoar pessoas ou povos inteiros dependia justamente de identificar precisamente esse momento da ira Divina e pronunciar sua maldição naquele instante.
Foi justamente esta sua “habilidade espiritual” que chamou a atenção de Balak, rei de Moav. Balak viu o avanço do povo judeu no deserto, derrotando sucessivamente seus inimigos, e sentiu medo. Mas Balak entendeu que não era possível vencer o povo judeu apenas com uma guerra física. Bilaam então foi contratado por uma enorme quantia de ouro para o trabalho de destruir espiritualmente o povo judeu através de suas maldições.
Os Tossafotim, comentaristas do Talmud, fazem uma pergunta muito interessante. Se Bilaam tinha apenas alguns poucos instantes para pronunciar sua maldição, então o que ele poderia ter dito contra o povo judeu em um intervalo de tempo tão curto e que, ainda assim, produzisse o efeito devastador que ele desejava? Eles respondem que Bilaam queria pronunciar uma única palavra: “Kalem” (כלם), que significa: “Destrua-os”.
D’us, porém, tinha outros planos. Em vez de permitir que Bilaam pronunciasse “Kalem”, Ele rearranjou as letras e fez com que de sua boca saísse a palavra “Melech” (מלך), que significa “rei”. Assim, ao invés de proferir uma maldição, Bilaam acabou declarando: “E a aclamação do Rei está entre eles” (Bamidbar 23:21).
A priori, poderíamos pensar que não havia diferença na palavra que D’us fez Bilaam pronunciar, bastava que fosse anulada a maldição que ele tramava fazer contra o povo judeu. Talvez D’us poderia ter rearranjado as letras de outra maneira, formando, por exemplo, a palavra “Mikol” (מכל), que significa “de todos”, um termo que neste caso não teria nenhum sentido, seria algo aparentemente neutro.
Entretanto, o Rav Shmuel Eliezer Halevi Eidels zt”l (Polônia, 1555 - 1632), mais conhecido como Maharsho, observa que quando Moshé relembrou o episódio de Bilaam em seus discursos finais, ele disse: “Mas Hashem, teu D’us, transformou para vocês a maldição em Brachá” (Devarim 23:6). Isso significa que D’us não quis apenas silenciar Bilaam anulando sua maldição, e sim quis ativamente transformar a maldição dele em Brachá. Portanto, a escolha da palavra “Melech” não foi apenas uma forma de evitar uma maldição, e sim a transformação da própria maldição em Brachá para o povo judeu. Mas como a palavra “Melech” se configura em uma Brachá?
Para compreender plenamente essa ideia, precisamos primeiro entender a natureza de um Melech. O Rav Moshe Chaim Luzzato zt”l (Itália, 1707 - Israel, 1746) explica que as referências à Malchut de D’us indicam um atributo que engloba Seu papel como Criador do mundo e como Aquele que continua a sustentá-lo e conduzi-lo. O reinado de D’us representa Sua escolha de manter uma relação direta com a humanidade. Portanto, quando nos referimos a D’us como “Melech”, estamos expressando a relação entre D’us como governante e os seres humanos como Seus súditos.
Em uma observação fascinante, o Rav Yehuda Loew zt”l (Polônia, 1525 - República Checa, 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, aponta que essa ideia está insinuada nas próprias letras da palavra “Melech”. A letra “י” (Yud) corresponde ao número dez, o número mínimo necessário para formar um Minyan, uma congregação. As três letras seguintes do alfabeto são כ, ל e מ, (Chaf, Lamed e Mem), as letras que compõem a palavra “Melech” em ordem inversa. Isso nos ensina que o “Rei” se volta em direção ao “Yud”, isto é, em direção ao povo. Mais ainda, o rei não se relaciona apenas com a nação como um todo, mas também com cada indivíduo que a compõe em particular. O Yud, a menor das letras, representa cada indivíduo do povo.
Com base nessa compreensão da Malchut de D’us, podemos entender por que a palavra “Melech” constitui uma Brachá. Um rei possui uma relação com seu povo. Não há no mundo reinado sem povo. Quando Bilaam declarou que haveria um Melech entre o povo judeu, isso significava que D’us manteria Sua relação com Seu povo, e, consequentemente, a existência do povo judeu se tornaria indispensável. Em essência, Bilaam acabou pronunciando uma Brachá pela continuidade da existência do povo judeu e por sua relação única com D’us.
Mas há outro ensinamento importante que podemos aprender deste conceito de “Melech”. O Talmud (Brachót 58a) afirma que o rei judeu é uma representação neste mundo da Malchut de D’us. Portanto, a descrição da realeza Divina apresentada acima deve refletir-se, em certa medida, também na figura de um rei de Israel. Um verdadeiro rei não é alguém que permanece sentado no palácio, distante do povo. Um verdadeiro rei se preocupa com seus súditos e age em benefício deles. Encontramos diversas vezes que os reis de Israel repreendiam o povo, ensinavam Torá e saíam para a guerra lutando ao lado de seus irmãos.
A própria linguagem da Torá oferece uma interessante associação. A Torá utiliza constantemente o termo “Nessiim” para se referir aos líderes das Tribos de Israel. Da mesma forma, o título “Nassi” também é utilizado em relação ao rei do povo judeu. Curiosamente, a Torá também utiliza essa mesma palavra, Nessiim, para designar as nuvens do céu, como está escrito: “Ele faz subir as nuvens (Nessiim) dos confins da terra” (Tehilim 135:7). Mas por que o mesmo termo descreve tanto os líderes do povo judeu quanto as nuvens?
O Rav Shimshon Refael Hirsch zt”l (França, 1808 - Alemanha, 1888) explica que as nuvens se formam reunindo água da terra. Depois de se encherem, porém, elas não guardam essa água para si mesmas. Ao contrário, elas devolvem-na ao mundo sob a forma de chuva, que traz Brachá e vida. O mesmo deve ocorrer com um líder judeu verdadeiro. O povo concede-lhe honra, influência e autoridade. Contudo, isso não deve ser utilizado para o seu próprio benefício. A função do rei é devolver ao povo aquilo que recebeu, utilizando sua posição para ajudar e elevar seus súditos. Um governante que se preocupa genuinamente com seu povo e deseja manter uma ligação próxima com cada indivíduo é um verdadeiro líder.
Infelizmente, estamos acostumados com governantes corruptos e egoístas, preocupados com seus próprios projetos de honra e poder. Esta não é a forma que a Torá exige que um líder se comporte. Baruch Hashem tivemos em nossa história muitos modelos de liderança, como Moshé, David Hamelech e Shmuel Hanavi, gigantes espirituais que abriram mão de suas vidas pessoais para se dedicar às necessidades do povo judeu. Foi exatamente essa liderança que vimos no Chafetz Chaim, que colocava a necessidade de outro judeu acima da sua própria honra. Nossos líderes são uma enorme fonte de inspiração, que nos iluminam e orientam nossas vidas até hoje. São os faróis que nos guiam nesta época de tanta escuridão espiritual.Nesta semana lemos a Parashat Pinchás, na qual Moshé foi ordenado a se vingar dos Midianim por sua atitude abominável, por terem feito suas filhas seduzirem os homens do povo judeu e os convencerem a cometer idolatria e imoralidade, o que causou a morte de vinte e quatro mil homens. Esta “batalha de vingança” contra Midian somente ocorre na Parashat da semana que vem, Matot. Lá, novamente D’us ordena a Moshé para se vingar dos Midianim. Moshé reúne um exército de doze mil homens, que atacam Midian e matam os homens e os reis, mas poupam as mulheres e as crianças, que são trazidas como cativas. Quando Moshé viu isso, ficou furioso com os oficiais. Ele questionou: “Vocês mantiveram as mulheres vivas?” (Bamidbar 31:15). As mulheres de Midian, a causa de toda a tragédia, obviamente deveriam ter sido mortas!
Além das mulheres, os soldados voltaram com muitos espólios de guerra, inclusive utensílios utilizados para cozinhar. Este é o único lugar onde a Torá estabelece as leis de Kasherização de utensílios, nos ensinando os processos necessários para extração do gosto dos alimentos não-Kasher que ficaram absorvidos nos utensílios. Curiosamente, este ensinamento não foi transmitido ao povo judeu por Moshé, mas sim por seu sobrinho, Elazar, que era o novo Cohen Gadol, como está escrito: “Elazar, o Cohen, disse aos homens do exército que voltaram da batalha: ‘Este é o decreto da Torá que D’us ordenou a Moshé...’” (Bamidbar 31:21). Mas por que estas leis tão importantes da Torá não foram transmitidas por Moshé?
Rashi (França, 1040 - 1105) explica que, como Moshé ficou irritado, ele cometeu um erro. Embora a irritação fosse por razões legítimas, pois tratava-se de uma repreensão adequada por terem mantido vivas as mulheres de Midian, ainda assim, pelo fato de ter perdido a paciência, ele errou. Por esse motivo, os ensinamentos sobre a Kasherização dos utensílios de Midian foram transmitidos através de Elazar, e não através de Moshé.
Rashi cita vários incidentes ao longo da Torá nos quais Moshé também ficou irritado e, como resultado, esqueceu a Halachá. Um dos exemplos que Rashi cita é o incidente descrito na Parashat Chukat, quando o povo reclamou da falta de água e Moshé disse para eles: “Ouçam, seus rebeldes!” (Bamidbar 20:10). Esse incidente fez com que Moshé perdesse a oportunidade de entrar em Erets Israel. Novamente, por ter ficado irritado com o povo, Moshé cometeu um erro, batendo na rocha em vez de falar com ela. Percebemos, portanto, que diversas vezes Moshé repreendeu o povo de maneira dura e, apesar de ter as motivações adequadas, ele acabou esquecendo a Halachá.
Porém, esta maneira dura de Moshé repreender o povo não se encaixa com o início da Parashat Devarim: “Estas são as palavras que Moshé falou a todo Israel do outro lado do Yarden, no deserto, na Aravá, defronte ao Yam Suf, entre Paran e Tofel, e Lavan e Chatzerot, e Di-Zahav” (Devarim 1:1). Rashi explica que cada um dos lugares mencionados neste discurso alude a algum tipo de repreensão sutil que Moshé estava dando ao povo. Vemos aqui uma forma completamente diferente de repreender o povo! Onde estavam as duras broncas de Moshé?
Explica o Rav Yssocher Frand shlita que a resposta está na primeira palavra do Sefer Devarim, “Eleh” (אלה), que significa “Estas são”. Nossos sábios ensinam que a linguagem “Eleh” sempre exclui o que foi mencionado anteriormente. A Torá está nos ensinando algo incrível: Moshé entendeu seu erro e mudou. Eram suas últimas cinco semanas de vida. Moshé pensou: “Cometi alguns erros no passado. Um deles foi ter sido duro demais com o povo. Fui explícito demais nas minhas críticas a eles. Chamei-os de ‘Rebeldes’. Preciso mudar minha forma de criticá-los”. Por isso, em seus discursos de despedida, Moshé decidiu dar sua repreensão de forma sutil.
Existem duas maneiras de repreender uma pessoa. Quando alguém faz algo errado, você pode dizer a ele “Como você fez isso?” ou pode dizer “Como você fez isso?”. Quando a ênfase está na palavra “isso”, a implicação é que a pessoa fez algo terrível. Mas quando a ênfase está na palavra “você”, a implicação é que o ato talvez não seja tão terrível, mas que uma pessoa de tão grande estatura não deveria estar fazendo algo assim.
Este conceito também foi transmitido pelo mais sábio de todos os homens, Shlomo Hamelech: “Não repreenda um zombador, para que ele não te odeie; repreenda um sábio e ele o amará" (Mishlei 9:8). O entendimento mais simples deste versículo é que não devemos repreender uma pessoa que é zombadora, pois ela não quer melhorar e não está interessada em receber críticas, nem mesmo quando são construtivas, e odiará aquele que tentar repreendê-la. Mas o sábio, que quer sempre crescer e melhorar, amará aquele que apontar algo que ele pode consertar e melhorar. O Rav Yeshayahu HaLevi Horowitz zt”l (Boêmia, 1555 - Israel, 1630), mais conhecido como Shla Hakadosh, ensina uma lição ainda mais profunda. Ele ensina que o versículo não se refere a duas pessoas diferentes. Ao dar uma bronca em alguém, se eu tratar a pessoa como um zombador, ela vai me odiar. Porém, se eu tratá-la como um sábio, ela vai me amar. Portanto, Shlomo Hamelech está nos ensinando que, ao repreender uma pessoa, devemos tratá-la como um sábio, não como um zombador.
É isso que Moshé está nos transmitindo. No passado, ele havia adotado a abordagem de repreender o povo como se fossem zombadores, o que fica claro na linguagem “Ouçam, seus rebeldes!”. No entanto, agora, no fim da vida, ele pensou: “Vou mudar minha abordagem. Vou repreendê-los como sábios, apenas com termos discretos”.
A verdade é que repreender os outros não é algo que devemos fazer constantemente. O Rav Avraham Yeshayahu Karelitz zt”l (Bielorússia, 1878 - Israel, 1953), mais conhecido como Chazon Ish, escreve que hoje em dia não sabemos mais como repreender da maneira correta. A menos que a pessoa seja um rabino ou esteja em uma posição de autoridade, como um professor, não cabe a nós repreender o próximo, porque não sabemos como fazê-lo. No entanto, há uma área em que todos podemos, e devemos, repreender: na educação dos nossos filhos. A lição do Shla haKadosh é que existe uma forma certa de repreender nossos filhos e uma forma errada. A forma errada é repreendê-los como “zombadores”. Em vez disso, devemos apelar ao “sábio” dentro deles. Como Mishlei ensina: “Repreenda o sábio e ele o amará”.
Além disso, há outro ensinamento incrível. Moshé estava completando 120 anos. Ele estava na liderança do povo há quarenta anos, com muito sucesso. A maioria das pessoas que está em uma mesma função há quarenta anos, e com sucesso, pensaria consigo mesma: “Não há mais nada para aprender sobre como fazer isso melhor”. No entanto, Moshé, nas últimas semanas de vida, olhou para si mesmo e disse: “Cometi erros ao longo do caminho. Minhas repreensões às vezes foram fortes demais, pois fiquei irritado. Vou tentar uma abordagem diferente”.
Esta é uma lição para todos nós. Independentemente da nossa idade e da nossa experiência de vida, devemos estar sempre abertos a melhorar nossas habilidades interpessoais. Se Moshé, no fim de seus dias, pôde refletir e dizer “Tenho que mudar minha abordagem”, também precisamos sempre olhar para nós mesmos e dizer: “Preciso mudar minha abordagem”. Devemos tratar a todos como se fossem sábios, sem querer diminuir ninguém. Afinal, repreender alguém é uma Mitzvá apenas se estamos ajudando a construí-lo, não a destruí-lo. SHABAT SHALOM R’ Efraim Birbojm |
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