quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIGASH 5769

BS"D

TIRANDO UM PESO DAS COSTAS - PARASHÁ VAIGASH 5769 (02 de janeiro de 2009)

O professor pediu para que os alunos trouxessem para a escola batatas e uma bolsa de plástico, para realizarem uma atividade diferente durante a aula. Então ele pediu para que os alunos separassem uma batata para cada pessoa por quem sentiam alguma mágoa, escrevessem os seus nomes nas batatas e as colocassem dentro da bolsa. Algumas das bolsas ficaram muito pesadas.

A tarefa consistia em, durante uma semana, levar a todos os lados a bolsa com as batatas. Naturalmente as batatas foram se deteriorando com o tempo. Além disso, o incômodo de carregar o dia inteiro aquela bolsa mostrava-lhes o tamanho do peso diário que a mágoa ocasiona. E ao colocar a atenção na bolsa para não esquecê-la em nenhum lugar, os alunos deixavam de prestar atenção em outras coisas que eram mais importantes.

Este é o preço que pagamos todos os dias por mantermos a raiva, a bronca e a negatividade. Quando damos importância ao que os outros nos fizeram de mal ou às promessas não cumpridas, nossos pensamentos enchem-se de mágoa, aumentando o stress e roubando nossa alegria. Perdoar e deixar estes sentimentos irem embora é a única forma de trazer de volta a paz e a tranquilidade.

Jogue fora suas "batatas".
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Na Parashá desta semana, Vaigash, após ver que seus irmãos realmente estavam arrependidos de tê-lo vendido, Yossef finalmente se revelou para eles. Os irmãos mal puderam abrir a boca, pela vergonha do que tinham feito e pelo medo de que Yossef, agora o segundo homem mais poderoso do Império Egípcio, teria a oportunidade de se vingar de forma dura, pois certamente deveria ter guardado rancor no coração pelos últimos 22 anos de sofrimentos. Mas Yossef fez justamente o contrário, tratou-os com carinho e consolou-os dizendo: "Não fiquem tristes nem irritados com vocês mesmos por terem me vendido para cá, pois para manter vocês foi que D'us me mandou diante de vocês" (Bereshit 45:5).

Ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que D'us já havia decretado e revelado para Avraham que o povo judeu seria escravizado no Egito, como está dito: "Saiba que seus descendentes serão estrangeiros em uma terra que não será deles. E eles os farão servir e os afligirão por 400 anos. E também a nação a qual eles servirão, Eu a julgarei" (Bereshit 15:13). Como todo escravo, os judeus deveriam ter sido levados ao Egito amarrados em correntes. Yossef estava explicando aos irmãos que a sua venda era parte dos planos Divinos, uma forma que D'us havia encontrado para que Yaacov não precisasse descer forçado ao Egito e pudesse ir de forma honrada. Os irmãos tinham sido apenas um instrumento nas mãos de D'us para cumprir a vontade Dele. Com isso Yossef tranquilizou seus irmãos, mostrando que não havia guardado nenhum rancor.

Mas se é assim, se todos os nossos atos se encaminham automaticamente para cumprir a vontade de D'us, então por que D'us julgou os egípcios e os castigou tão duramente durante a saída do Egito, com as 10 pragas e o afogamento no Mar Vermelho? Afinal, eles estavam apenas cumprindo a vontade de D'us de que os judeus fossem escravos e sofressem com a opressão! Ensinam os nossos sábios que D'us utiliza a livre escolha das pessoas para cumprir a Sua vontade. Se está decretado que uma pessoa deve perder dinheiro, D'us a coloca junto com outra pessoa que, por sua livre escolha, quer roubar. Assim cumpre-se o decreto da pessoa perder dinheiro, mas o ladrão também é punido, pois roubou por sua vontade e escolha.

O mesmo ocorreu com a escravidão do povo judeu. É verdade que os judeus tinham que passar pela escravidão e pelos sofrimentos, mas os egípcios não o fizeram com a intenção de cumprir o que D'us havia decretado, e sim escolheram, por sua má índole, fazer o mal ao povo judeu. D'us somente juntou o povo judeu, que tinha que ser escravizado, com os egípcios, que queriam escravizar. Por isso, apesar de terem cumprido a vontade de D'us, os egípcios foram duramente punidos.

Somos responsáveis por todos os nossos atos, e apesar de que sempre a vontade de D'us se cumpre, seremos cobrados pelo mau uso da nossa livre escolha. Portanto, Yossef não estava dizendo aos irmãos: "Ei, relaxem, vocês não fizeram nada de grave". Ele quis apenas enfatizar que não havia guardado mágoas, apesar deles terem sim cometido um erro ao vendê-lo ao Egito. Ele quis deixar claro aos irmãos que, apesar do erro deles, a vontade de D'us em última instância estava sendo cumprida, e portanto não havia motivos para vingança nem rancor.

Se tivermos este nível de claridade, podemos evitar duas graves transgressões da Torá: "Não se vingue e não guarde rancor" (Vayikrá 19:18). Explica o Sefer HaChinuch que sentimos rancor e vontade de vingança quando alguém nos faz mal e nos machuca. Porém o rancor e a vingança são proibidos pela Torá pois são um grave erro de entendimento. Ninguém pode fazer mal ao outro sem que tenha sido decretado pelo Criador do mundo. Alguém se vinga ou guarda rancor de um oficial de justiça por ter recebido das mãos dele uma cobrança judicial? Óbviamente que não, pois todos sabem que o decreto veio de um juiz, o oficial é apenas um intermediário. Por isso, quando alguém nos faz causa um sofrimento, temos que ter claro que foram os nossos maus atos que causaram isso, e D'us já havia nos decretado este sofrimento. Por isso não temos que pensar em vingança contra o agressor, já que ele não é a causa, é apenas um intermediário; a causa são os nossos próprios maus atos. O que sim podemos fazer é justiça, não com as próprias mãos, mas de acordo com os ensinamentos da Torá.

Isso não é uma tarefa fácil, principalmente quando vemos o povo judeu ser diariamente atacado com mísseis ou bombardeado pela imprensa mundial, claramente anti-semita. Mas é justamente o momento de colocar no coração que nosso problema não é o Hamas, nem os palestinos, nem os jornalistas, eles são apenas instrumentos de D'us. O nosso verdadeiro problema é o ódio gratuito dentro do povo judeu e o nosso afastamento das Mitzvót. Sabendo olhar da maneira correta os acontecimentos, poderemos utilizar nossas energias para eliminar a raiz do problema, ao invés de ficar sempre focando no que é apenas a consequência e não a causa.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm

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