quinta-feira, 1 de junho de 2017

LIBERTE-SE DA ESCRAVIDÃO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ NASSÓ 5777

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LIBERTE-SE DA ESCRAVIDÃO - PARASHÁ NASSÓ 5777 (02 de junho de 2017)

"Joel estava tranquilamente sentado, conversando com um conhecido durante o Brit Milá do filho de um de seus melhores amigos da época de Yeshivá. Ele então percebeu que alguém havia se sentado na cadeira ao lado. Quando se virou para ver quem era, quase desmaiou. Ao seu lado estava sentado simplesmente um dos maiores rabinos da geração.


Joel ficou sem saber o que fazer e o que falar. Em Israel fazia muito calor naquela época e o rabino estava bastante suado. Querendo agradá-lo de alguma maneira, Joel encheu um copo com refrigerante de Cola gelado e ofereceu ao rabino. Ele agradeceu, mas recusou a bebida. Joel sabia que o motivo não era Kashrut, pois todos confiavam naquela Hashgachá (selo de supervisão rabínica). Então imaginou que o motivo era o cuidado com a saúde. Com uma agilidade impressionante, Joel conseguiu um copo novo e desta vez encheu com refrigerante de Cola diet. Porém, para a decepção de Joel, o rabino educadamente recusou novamente. Vendo que Joel havia ficado confuso, o rabino então explicou:


- Não se preocupe, não há nada de errado com a Hashgachá. Porém, desde cedo eu comecei a perceber que todos os que bebem refrigerante gostam tanto que acabam ficando quase dependentes. Isto me assustou um pouco. Então eu decidi que nunca na vida eu tomaria refrigerante, para não correr o risco de também acabar ficando viciado" (História real).


Existem duas formas de como utilizar os prazeres do mundo material: como uma ferramenta que nos ajuda em nossa elevação espiritual, ou como vícios que nos tornam escravos dos nossos desejos. A escolha está em nossas mãos.

Nesta semana lemos a Parashá Nassó (literalmente "Carregar"), que traz diversos assuntos, tais como a função de cada família da tribo de Levi em relação ao transporte do Mishkan (Templo Móvel) quando o povo judeu viajava, a cerimônia de Sotá, o voto do Nazir e a oferenda dos líderes de cada tribo na inauguração do Mishkan. Um dos assuntos mais interessantes é o Nazir, uma pessoa que recebia sobre si, de forma voluntária, um voto que a proibia de cortar o cabelo, de se impurificar com os mortos e do prazer de beber vinho. Porém, o conceito do Nazir é intrigante, pois há uma aparente indefinição da Torá se o ato de receber sobre si um voto de Nazir é algo positivo ou negativo.

 

Por um lado, a Torá define o Nazir como alguém que está em um alto nível de santidade, como está escrito: "Até que ele complete os dias de sua Nezirut em nome de D'us, ele deve ser sagrado" (Bamidbar 6:5). Porém, logo depois a Torá descreve o processo pelo qual o Nazir passava quando terminava seu voto, que incluía trazer um "Korban Chatat" (oferenda de expiação), um Korban trazido apenas quando a pessoa cometia certos tipos de transgressão. Mas o que o Nazir havia feito de errado? Rashi (França, 1040 - 1105) explica que a transgressão foi que o Nazir, ao se privar do prazer de beber vinho, causou sofrimento a si mesmo. Portanto, há aparentemente uma enorme contradição em relação ao ato da pessoa que recebeu sobre si o voto de Nazir. Ela fez uma grande Mitzvá ou de fato está cometendo uma transgressão?

 

Explica o Rav Avraham Grodzinski zt"l (Polônia, 1883 - Lituânia, 1944) que certamente o Nazir está fazendo uma Mitzvá. Quando uma pessoa sente uma atração não saudável em relação aos seus desejos físicos e considera necessário tomar a drástica atitude de fazer um voto de Nezirut, está fazendo um ato correto e louvável. Isto demonstra que a pessoa tem temor a D'us e quer se afastar a qualquer custo das transgressões. Entretanto, há um elemento de transgressão em seu ato que requer expiação. D'us criou o ser humano com um corpo e uma alma e, portanto, é proibido ao ser humano negligenciar qualquer um dos dois. Mesmo as pessoas mais elevadas espiritualmente não podem se descuidar de seu corpo. O trabalho do ser humano é, apesar de viver em um mundo material, interagir e elevá-lo. O Nazir sente que não pode fazer isto sem se abster do prazer de beber vinho. Apesar de ter agido corretamente, ele causa ao seu corpo um considerável desconforto, pois tem um certo nível de dependência do mundo físico e sofre ao se privar dos prazeres que o mundo pode oferecer. O Nazir é considerado uma pessoa "sagrada" por se submeter a este "ousado" processo de purificação. Mas, ao mesmo tempo, ele precisa trazer um "Korban Chatat" por ter causado sofrimento ao seu corpo.

 

Porém, a Torá descreve claramente o que D'us exige de nós: "Fale com toda a assembléia do povo judeu e diga para eles: 'Sejam sagrados'" (Vayikrá 19:2). De acordo com o Ramban (Espanha, 1194 - Israel, 1270), a Torá está nos ensinando que, para nos transformarmos em pessoas sagradas, não é suficiente cumprir as Mitzvót e, ao mesmo tempo, viver uma vida imersa em prazeres materiais. Segundo ele, para cumprir a Mitzvá de "Sejam sagrados", devemos nos abster dos prazeres físicos. O Ramban inclusive cita o Nazir como exemplo de santidade, justamente por ele se abster do prazer de beber vinho. O que mais nos chama a atenção no comentário do Ramban é que ele não faz absolutamente nenhuma alusão à transgressão cometida pela pessoa ao se abster dos prazeres físicos. Por que o Ramban não menciona nenhuma transgressão se, neste caso, a pessoa que quer se tornar "sagrada" também está causando sofrimentos ao seu corpo ao se abster de prazeres?

 

Além disso, o Rav Avraham Grodzinki esclarece que este comentário do Ramban se refere especificamente a um "Talmid Chacham" (estudioso de Torá em um nível espiritual elevado, acima das pessoas normais), alguém que se esforçou para se separar das luxúrias do mundo material. Mas qual é a diferença entre o Nazir, que comete uma transgressão ao se abster do vinho, e o Talmid Chacham, que não comete nenhuma transgressão ao se abster de ainda mais tipos de prazer?

 

A resposta é que há uma diferença fundamental entre a "Prishut" (separação do mundo físico) do Nazir e do Talmid Chacham. O Nazir é alguém que tem um intenso desejo físico pelos prazeres materiais mais baixos e básicos, como beber vinho. Para ele é algo doloroso evitar estes tipos de prazer e, portanto, quando ele se abstém, mesmo com as melhores intenções, é considerado que ele está fazendo uma transgressão por ter causado sofrimento a si mesmo. Em contraste, o Talmid Chacham não sente sofrimento ao evitar a busca de prazeres de forma desenfreada, pois ele não está preso aos desejos físicos. Ele tem um reconhecimento tão forte da natureza fútil e passageira dos prazeres físicos que para ele não é difícil nem doloroso se abster. Portanto, enquanto o Nazir necessita de expiação por ter causado a si mesmo sofrimento, a Torá não considera que o Talmid Chacham tenha cometido qualquer transgressão ao se abster dos prazeres mundanos.

 

Conclui o Rav Yehonasan Gefen que deste ensinamento da Parashá aprendemos um princípio fundamental: a forma ideal de se desvincular da dependência dos prazeres materiais não deve envolver um processo doloroso de autoprivação. Esta desconexão deve emanar de um senso da futilidade dos prazeres materiais ao compará-los com o nosso verdadeiro objetivo de alcançar os prazeres espirituais mais sublimes. Qualquer tentativa de se desvincular da dependência dos prazeres materiais que envolva processos muito dolorosos normalmente não traz resultados satisfatórios e duradouros. Talvez isto explique por que tantas pessoas decidem entrar em dietas intensas e altamente restritivas, mas a grande maioria acaba desistindo após pouco tempo. Quando a pessoa nega a si mesma os prazeres que a preenchem, isto causa uma grande aflição nela. A pessoa que está em dieta não se liberta do desejo pelos prazeres das comidas saborosas, normalmente o desejo inclusive aumenta. Então este processo de autoprivação não consegue durar por muito tempo. Se a pessoa utilizasse a abordagem da Torá, poderia melhorar sua saúde, comendo coisas mais saudáveis e de forma mais controlada, podendo perder peso sem nenhum tipo de sofrimento. Pois quando alguém se liberta da dependência dos prazeres físicos, então se abster deles se torna um processo indolor.

 

Mas como fazemos para alcançar este nível de autocontrole do "Talmid Chacham" e conseguir nos separarmos de prazeres físicos sem causar nenhum tipo de desconforto? A chave é desenvolver uma apreciação pela espiritualidade. Quanto mais claridade tivermos, quanto mais certeza de que o mundo material é passageiro e ilusório, enquanto o mundo espiritual é o que nos traz os prazeres verdadeiros e duradouros, automaticamente vamos dando menos valor para os prazeres momentâneos e vamos nos libertando da dependência do materialismo.

 

Com este conceito podemos entender um interessante ensinamento dos nossos sábios: "Este é o caminho da Torá: coma pão com sal, beba água sob medida e durma no chão; viva uma vida de privações e se esforce no estudo da Torá. E se você fizer assim 'Você será feliz e será bom para você' (Salmos 128:2). 'Você será feliz' neste mundo, e 'será bom para você' no Mundo Vindouro" (Pirkei Avót 6:4). A Mishná não está nos ensinando que, necessariamente, a única maneira de se tornar um Talmid Chacham é vivendo desta forma. A Mishná está nos ensinando que devemos desenvolver uma apreciação tão profunda pela Torá, em especial através do seu estudo, que os prazeres mais básicos se tornam sem sentido. Para uma pessoa aspirar ser um Talmid Chacham, ela deve estar disposta a levar uma vida de escassez. Assim, mesmo que a pessoa tenha acesso a um padrão de vida melhor, ela ainda vai ser capaz de focar nos prazeres mais elevados do estudo da Torá. Porém, se a pessoa sente uma tração muito forte pelo conforto físico, então será impossível para ela se dedicar da maneira adequada à Torá.

 

Acabamos de passar a Festa de Shavuót, na qual comemoramos a entrega da Torá no Monte Sinai. Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ensina que o povo judeu dormiu durante toda a noite que precedeu a entrega da Torá e teve que ser despertado por D'us. Por isso, atualmente temos o difundido costume dos homens passarem a noite inteira acordados, estudando Torá, para consertar o erro cometido pelos nossos antepassados. Mas qual é a fonte deste erro cometido pelo povo judeu? Apesar de eles terem demonstrado que estavam prontos para receber a Torá, a ponto de terem afirmado "Naasê Ve Nishmá" (Faremos e somente depois procuraremos entender), em certo nível eles estavam apreensivos com as implicações de receber a Torá. Eles sabiam que a Torá exigiria deles um nível mais alto de privações e uma cobrança maior. Esta apreensão se manifestou através do sono, que representa a "maior das fugas" dos desafios da vida. É comum que as pessoas, quando se sentem perturbadas ou depressivas, recorram ao sono como forma de escapar dos problemas. O povo judeu estava empolgado com a entrega da Torá, pois sabiam que ela daria a eles uma forma muito mais profunda e significativa de existência. Porém, no fundo eles sentiam uma dependência dos prazeres físicos que eles precisariam abandonar. Para consertar este erro, na noite de Shavuót nos privamos do nosso sono, demonstrando para D'us que o prazer de receber a Torá supera de longe a perda de confortos físicos, tais como uma boa noite de sono.

 

Aprendemos desta Parashá que há duas maneiras de se privar dos prazeres físicos. A privação forçada do Nazir, que causa um considerável desconforto, e a privação do Talmid Chacham, que não causa nenhum tipo de sofrimento. Nosso objetivo na vida é reduzir nossa dependência do mundo material através de uma apreciação cada vez maior pela espiritualidade. Através da Torá podemos nos desconectar da nossa pior prisão: aquela que não escraviza o nosso corpo, mas escraviza nossa cabeça. Somente com o estudo da Torá poderemos chegar ao nível de sermos livres de verdade.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm

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quarta-feira, 24 de maio de 2017

O VALOR DA TORÁ - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ BAMIDBAR E SHAVUÓT 5777

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O VALOR DA TORÁ - PARASHÁ BAMIDBAR E SHAVUÓT 5777 (26 de maio de 2017)

"Certa vez um pobre bateu na porta de Shimon, um grande erudito de Torá, um homem extremamente justo e piedoso. Quando Shimon viu que não tinha nada para dar ao pobre, ficou muito triste. Em total desespero, viu na mesa da sala uma pulseira de sua esposa. Achou que era uma pulseira simples, algo de pouco valor. Sem pensar duas vezes, pegou a pulseira e deu ao pobre, que agradeceu e foi embora.
 
Alguns minutos se passaram e a esposa de Shimon entrou em casa. Quando ela percebeu que a pulseira não estava na mesa, começou a procurar desesperada por toda a casa. Foi então que Shimon contou que um pobre faminto havia batido na porta e havia pedido dinheiro, mas como ele não tinha encontrado nada para dar ao pobre, acabou dando a pulseira. A mulher, não acreditando no que havia acabado de escutar, falou:
 
- Shimon, você ficou louco? Aquela pulseira valia muito dinheiro! Custou mais de R$ 500,00!
 
Quando Shimon escutou aquilo, imediatamente saiu correndo atrás do pobre, gritando. O pobre não estava muito longe quando viu Shimon correndo em sua direção, com o rosto desesperado. O pobre se assustou, achando que aquele homem havia se arrependido de sua doação e estava vindo pegar a pulseira de volta. Quase que instintivamente ele começou a correr, fugindo de Shimon. As pessoas da cidade, quando viram Shimon perseguindo o pobre aos berros, também se uniam à perseguição. Quando finalmente o pobre foi alcançado, ele gritou:
 
- Me deixem! Por que vocês estão me perseguindo? Eu não sou ladrão! Este homem me deu a pulseira, ela é minha!
 
Shimon tratou de acalmar os ânimos. Pediu desculpas a todos pelo transtorno causado. Depois, com uma voz tranquila e amigável, virou-se para o pobre e disse:
 
- Meu querido, D'us me livre querer pegar a pulseira de volta. Eu dei de coração, ela é sua. Eu estou correndo atrás de você apenas porque descobri que a pulseira é valiosa, muito mais do que eu imaginei. Portanto, quando você for vender, não peça menos do que R$ 500,00".
 
Esta é a essência de Shavuót, a Festa da entrega da Torá. Porém, mais do que nos entregar a Torá, D'us também quer que saibamos o verdadeiro valor dela, para que não a desprezemos ou a troquemos por coisas baratas.

Nesta semana começamos um novo livro da Torá, Bamidbar (literalmente "No deserto"). Neste livro são detalhados muitos acontecimentos importantes que ocorreram durante os 40 anos em que o povo judeu permaneceu no deserto, como o erro dos espiões, as constantes reclamações por água e comida e as guerras contra outros povos. A Parashá desta semana, Bamidbar, descreve a formação do povo judeu durante as viagens e a forma como acampavam, divididos em tribos, cada tribo com sua posição muito bem definida.
 
Quando refletimos sobre os 40 anos do povo judeu no deserto, algo nos chama a atenção. Foram anos de muitas dificuldades. O deserto é um local inóspito, difícil para o ser humano viver. É um local sem água, sem comida e com muitos perigos naturais. Além disso, D'us testou muitas vezes o povo judeu, fazendo-os acampar por longos períodos em locais não muito agradáveis, enquanto algumas vezes, quando chegavam a um oásis paradisíaco, ficavam apenas poucos momentos. Os judeus já haviam passado 210 anos como escravos, submetidos às maiores crueldades, com castigos físicos e psicológicos. Por que D'us não os tirou do Egito de uma maneira mais tranquila, sem tantas dificuldades?
 
A resposta está na próxima Festividade do calendário judaico, Shavuót, o dia da entrega da Torá no Monte Sinai. Na próxima 3ª feira de noite (30 de maio) começa a Festa de Shavuót e os homens do povo judeu têm o importante costume de passar a noite inteira acordados, estudando Torá. Mas a entrega da Torá não foi um evento simples, envolveu detalhes que nos ensinam lições preciosas. Por exemplo, quando Moshé fez uma "revisão" de toda a Torá, no livro de Devarim, ele trouxe um ensinamento interessante: "E disse (Moshé): "D'us veio do Sinai. Ele brilhou para eles desde Seir, tendo aparecido para eles desde o Monte Paran" (Devarim 33:2). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que este versículo se refere ao momento em que D'us, antes de entregar a Torá ao povo judeu, também a disponibilizou às outras nações do mundo. D'us ofereceu a Torá aos descendentes de Essav, que viviam na terra de Seir. Porém, quando eles descobriram que a Torá continha o mandamento de "Não assassinarás", eles a rejeitaram, argumentando que eles eram pessoas violentas por natureza e, portanto, não poderiam cumprir este mandamento. Algo similar aconteceu com os descendentes de Ishmael, que viviam no Monte Paran. Eles também rejeitaram a Torá ao escutar que ela continha o mandamento "Não furtarás", argumentando que o roubo era algo que já fazia parte de sua natureza.
 
Porém, este ensinamento precisa de esclarecimentos. Em primeiro lugar, estas duas Mitzvót que os outros povos rejeitaram, "Não matarás" e "Não furtarás", também fazem parte das "7 Mitzvót de Bnei Noach", que são as Mitzvót que todos os povos do mundo têm obrigação de cumprir. Portanto, se eles já estavam automaticamente obrigados a cumprir estas Mitzvót, por que as utilizaram como justificativa para não receber a Torá?
 
Além disso, as Mitzvót que aparecem nas "7 Mitzvót de Bnei Noach" são aparentemente muito mais rigorosas do que as Mitzvót da Torá. Por exemplo, de acordo com a Torá, se alguém furta, sua punição é pagar o dobro do valor furtado. Já as Mitzvót de Bnei Noach preveem uma punição capital para esta mesma transgressão, um castigo muito mais duro. Outra diferença importante é que, para uma pessoa ser condenada de acordo com a Torá, é necessário que o transgressor tenha sido previamente avisado de que seu ato é passível de castigo e que duas testemunhas tenham visto a transgressão. Isto não é exigido para aplicar uma punição de acordo com as Mitzvót de Bnei Noach. Portanto, por que os outros povos rejeitaram a Torá argumentando que eles não poderiam cumprir justamente as mesmas Mitzvót que eles já estavam obrigados a cumprir, e de uma maneira muito mais rigorosa?
 
A resposta está em um interessante ensinamento do Rambam (Espanha, 1135 - Egito, 1204), na introdução dos seus comentários sobre o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas). Ele faz o seguinte questionamento: Qual é o maior nível espiritual no nosso serviço Divino, quando naturalmente não temos o desejo de fazer uma transgressão ou quando temos um intenso desejo e, após uma intensa luta interna, finalmente conseguimos vencer nosso Yetser Hará (má inclinação) e cumprir a vontade de D'us? O Rambam chega à conclusão de que há na Torá duas categorias de Mitzvót negativas (transgressões que devemos evitar). Há transgressões que naturalmente sentimos a obrigação de evitá-las, pois entendemos que não evitá-las é algo intrinsecamente errado, como assassinar, roubar ou cometer adultério. A segunda categoria de Mitzvót são aquelas que não teríamos intelectualmente a consciência de que são proibidas e somente evitamos porque D'us nos proibiu, como cozinhar carne com leite e vestir roupas com Shaatnez (mistura de lã com linho).
 
Em relação às Mitzvót que não teríamos consciência de que são intrinsecamente erradas, o maior nível de cumprimento é, apesar de desejar transgredi-las, conseguir se conter porque D'us nos comandou, como diz o Midrash: 'Ensina o Rav Elazar ben Azaria: "A pessoa não deve dizer "Eu me abstenho de comer porco porque não gosto", e sim "Eu gosto de porco, é saboroso, mas eu não como apenas porque D'us me comandou a não comer"'. Já em relação às transgressões que naturalmente identificamos como sendo erradas, a Torá nos ordena a nem mesmo desejar fazê-las. A pessoa que evita fazer estes tipos de transgressão, mas no seu interior ainda deseja fazê-las, está cumprindo estas Mitzvót de maneira incompleta. O maior nível de cumprimento deste tipo de Mitzvá é a pessoa abominar estes atos errados em seu coração.
 
Explica o Rav Yohanan Zweig que a diferença entre as 613 Mitzvót da Torá e as 7 Mitzvót de Bnei Noach não é apenas quantitativa, mas também qualitativa. As 7 Mitzvót de Bnei Noach são essencialmente leis que garantem que a sociedade não se autodestruirá. Das pessoas que cumprem as Mitzvót de Bnei Noach é exigido apenas que elas façam ou deixem de fazer alguns tipos de atos, como não roubar ou não matar, mas não é exigido que elas transformem a Mitzvá em parte de suas próprias essências. Não há, nas Mitzvót de Bnei Noach, nenhuma obrigação em relação aos pensamentos e à sensibilidade. Já as Mitzvót da Torá são mais do que apenas garantias de uma sociedade harmônica e equilibrada. As Mitzvót da Torá exigem que nos transformemos em um reflexo do nosso Criador. Isto somente pode ser alcançado se incorporarmos as Mitzvót à nossa essência. Quando cumprimos o "Não furtarás", não estamos apenas deixando de cometer um crime, é exigido de um judeu que ele abomine o ato de furtar e que internalize isso em sua própria essência.
 
As Mitzvót que os outros povos do mundo rejeitaram na entrega da Torá se enquadram na categoria das que naturalmente sentimos que são erradas. Na realidade, todas as Mitzvót de Bnei Noach estão nesta categoria. Porém, enquanto os povos cumprem estas Mitzvót como sendo Mitzvót de Bnei Noach, eles não entram na proibição de desejar transgredi-las. O que D'us estava oferecendo para os outros povos era um nível completamente diferente de cumprimento das Mitzvót, que causaria neles uma mudança qualitativa como seres humanos. Há uma enorme diferença entre ser comandado a evitar transgredir algo e ser comandado a repudiar este ato em sua essência, isto é, até mesmo em pensamentos. Foi este novo nível, o cumprimento das Mitzvót de maneira que elas nos transformem, que os outros povos rejeitaram.
 
Quando D'us nos deu a Torá, Ele não nos deu apenas mandamentos. Ele nos deu a possibilidade de nos transformarmos em pessoas melhores, de quebrarmos os nossos traços de caráter negativos e transformá-los em características positivas. Isto não é algo fácil, exige trabalho e dedicação. A saída do povo judeu do Egito não foi através de um caminho fácil, pois D'us já estava nos preparando para uma vida de desafios e dificuldades, que é o que nos leva a um crescimento. O descanso e o comodismo podem ser agradáveis ao corpo, mas não nos leva a níveis mais elevados de espiritualidade.
 
Shavuót significa receber novamente a Torá em nossas vidas. Não somente o cumprimento dos mandamentos apenas como atos no nosso cotidiano, mas como ferramentas para nos transformar em pessoas mais justas, mais honestas, mais tranquilas e mais bondosas. Em Shavuót podemos reconhecer o maravilhoso presente que D'us nos deu, de valor inestimável. E esta nova energia conquistada em Shavuót pode, e deve, ser levada para o nosso ano inteiro.

Shabat Shalom e Chag Sameach

R' Efraim Birbojm

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