quarta-feira, 3 de julho de 2019

SENTINDO A DOR DO PRÓXIMO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT KORACH 5779

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Este e-mail é dedicado à alegria do Bar Mitzvá do meu querido filho, Moshe Meir. Mazal Tov!


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SENTINDO A DOR DO PRÓXIMO - PARASHAT KORACH 5779 (05 de julho de 2019)

 
"A Sra. Leslie estava fazendo compras no supermercado. A situação da família estava muito difícil, pois o seu marido estava desempregado, vivendo apenas de pequenos bicos. A Sra. Leslie pegou apenas os produtos essenciais. Quando o caixa do supermercado passou todos os produtos, mostrou para a Sra. Leslie o total. Ela começou a tirar o dinheiro da bolsa e contou as notas. Para sua enorme vergonha, a conta tinha dado 55 dólares, 10 dólares a mais do que ela tinha na carteira. Ela se sentiu muito humilhada naquele momento. Pediu desculpas para o caixa do supermercado e assumiu que não tinha dinheiro suficiente e, por isso, precisaria tirar alguns produtos que já estavam na sacola. O que a Sra. Leslie mais desejava naquele momento era sumir de vergonha. De repente, o cliente que estava logo atrás na fila do caixa se aproximou. Ele estendeu uma nota de 10 dólares para o homem do caixa e informou que era para completar o que faltava das compras daquela senhora. Apesar do gesto nobre daquele homem, a Sra. Leslie não quis aceitar. Em um tom firme, ela disse:
 
- Por favor, não precisa se incomodar. Muito obrigado, mas eu não posso aceitar este dinheiro.
 
Porém, o homem abriu um grande sorriso e disse:
 
- Por favor, deixe-me contar uma história. Minha mãe está há muito tempo internada no hospital. Eu a visito todos os dias e levo para ela flores, para alegrar seu dia. Porém, ontem ela me deu uma grande bronca. Ela falou que era um grande desperdício todos os dias gastar dinheiro com flores. Ela então me disse que, se eu quisesse realmente deixá-la feliz, eu deveria fazer todos os dias alguma bondade com o dinheiro das flores.
 
- Então, por favor, aceite - concluiu o homem, emocionado - Estas são as flores de hoje da minha mãe..."
 
Nem sempre é fácil se preocupar com o problema dos outros, principalmente quando nós também estamos passando por dificuldades. Mas é isto que torna o ser humano uma criatura tão especial: a capacidade de se lembrar dos outros e, ao mesmo tempo, se esquecer dos seus próprios problemas.

Nesta semana lemos a Parashat Korach, que traz um incrível e profundo ensinamento sobre a força da inveja e da honra sobre o ser humano, atingindo até mesmo pessoas espiritualmente mais elevadas. Korach, o primo de Moshé, tinha um potencial espiritual gigantesco. Porém, por inveja e honra, ele organizou uma "Machloket" (disputa) contra Moshé e Aharon, colocando dúvidas na cabeça do povo sobre a escolha Divina dos dois maiores líderes do povo judeu. Alegando querer o bem e a união do povo, Korach começou, através de zombaria, a questionar o papel central de Moshé e Aharon, alegando que todos do povo eram espiritualmente elevados e tinham o direito de serem líderes. A consequência foi trágica, com a morte milagrosa de todos os participantes da Machloket. Korach e os outros líderes, junto com suas famílias, foram engolidos por uma boca que se abriu na terra, enquanto seus 250 seguidores foram queimados vivos por um fogo celestial.
 
Moshé tentou de tudo para restabelecer a paz. Passou por cima de sua própria honra e tentou conversar com os líderes da rebelião, apesar de estar sendo humilhado publicamente. Com humildade, tentou convencê-los de que aquela rebelião não era apenas contra ele e Aharon, e sim contra D'us, quem os havia escolhido. Quando Moshé viu que não havia mais nada a se fazer, e diante de um possível "Chilul Hashem" (quando o Nome de D'us é manchado), ele fez um pedido para D'us: "Se estes homens morrerem como todos os homens morrem, e o destino de todos os homens ocorrer a eles, então será um sinal de que não foi D'us que me enviou." (Bamidbar 16:29). De acordo com o Talmud (Nedarim 39b), Moshé estava afirmando para D'us que, se Korach e seus seguidores morressem de uma maneira natural, de forma que fossem visitados enquanto estivessem doentes, deitados em seus leitos de morte, Korach seria inocentado aos olhos do povo e as pessoas acreditariam que ele estava certo. Por isso, Moshé pediu a D'us que eles tivessem uma morte milagrosa e repentina.
 
Porém, como entender este ensinamento do Talmud? Qual é a conexão entre a forma da morte dos rebeldes e a transgressão que eles estavam cometendo? Uma morte natural, logo após a Machloket com Moshé, já não seria suficiente para que ficasse claro para todo o povo judeu que Moshé estava certo e Korach estava errado?
 
Além disso, a conexão entre visitar os doentes e a história da rebelião de Korach não é clara. Moshé afirmou a D'us que, caso Korach morresse de uma forma natural, isso seria uma justificativa para sua afirmação de que Moshé estava abusando de sua posição. No entanto, não havia nenhuma necessidade de mencionar as visitas a um doente que morre de forma natural. Por que então o Talmud acrescentou este detalhes quando descreveu uma possível morte natural de Korach e seus seguidores?
 
Outro questionamento surge quando o Talmud (Nedarim 39b) afirma que, baseado no pedido de Moshé, de que D'us não permitisse que Korach e seus seguidores tivessem uma morte natural para que não recebessem visitas, aprendemos a Mitzvá de "Bikur Cholim", visitar os doentes. Mas este evento trágico é a melhor fonte para a Mitzvá de visitar os doentes?
 
Finalmente, há outras duas passagens no Talmud que citam outras fontes da Torá para a Mitzvá de Bikur Cholim. Em relação ao versículo "e você (Moshé) lhes fará saber o caminho que eles devem seguir" (Shemot 18:20), o Talmud (Baba Metzia 30b) declara que esta é a fonte da Torá para a Mitzvá de Bikur Cholim. Já o Talmud (Sotá 14a) afirma que, três dias após Avraham ter feito seu Brit-Milá, o dia mais dolorido, D'us veio visitá-lo com o intuito de fazer Bikur Cholim. O Talmud ensina que, pelo fato de D'us visitar os doentes, somos obrigados a fazer o mesmo, pelo princípio da Torá de "E você deverá seguir o Seu caminho" (Devarim 28:9). Mas por que são necessárias tantas fontes diferentes para a Mitzvá de Bikur Cholim?
 
De acordo com o Rav Shmuel Eliezer Halevi Eidels zt"l (Polônia, 1555 - 1632), mais conhecido como Maharshó, as duas últimas fontes citadas se referem ao mesmo conceito. "Andar nos caminhos de D'us" significa "imitá-lo". Um aspecto da obrigação de Bikur Cholim é derivado da nossa obrigação de nos assemelharmos a D'us. Portanto, da mesma forma que D'us visitou Avraham quando ele estava doente, assim também temos a obrigação de visitar os doentes, cumprindo o conceito de "andar nos Seus caminhos". Portanto, a essência da Mitzvá de Bikur Cholim é colocar em prática o nosso lado de bondade e misericórdia com o próximo. E para isto devemos nos espelhar em D'us, que criou o mundo com o único propósito de fazer bondade. A Torá inteira está repleta de bondades que D'us fez, tanto a indivíduos quanto a povos inteiros, e por isso temos em quem nos espelhar para buscarmos sempre a bondade.
 
Explica o Rav Yohanan Zweig que a Parashat Korach nos apresenta um novo aspecto da Mitzvá de Bikur Cholim: a obrigação de sentirmos empatia, isto é, sentirmos a dor dos outros. Um pré-requisito para a empatia é a capacidade de uma pessoa se concentrar no sentimento de parentesco e conexão que todos nós, seres humanos, compartilhamos. Ao sermos capazes de identificarmos as outras pessoas como sendo parte de uma "grande família", podemos chegar ao nível de compartilhar a dor e confortar uns aos outros.
 
Korach é descrito por nossos sábios como um "Baal Machloket", uma pessoa que causa desunião. Alguém que apresenta esta característica foca apenas nos aspectos das pessoas que geram conflito, e isto é o contrário da empatia. Uma pessoa que conduz a vida de tal maneira não sente empatia pelos outros e, como resultado, também não recebe de volta a empatia de ninguém. Korach afirmava que era Moshé quem estava criando divisões dentro do povo judeu, enquanto ele se proclamava o "lutador pela igualdade e pela união do povo". Foi por isso que Moshé fez um pedido tão fora do comum para D'us. Ele queria publicamente desmentir as afirmações de Korach. Moshé pediu a D'us para que Korach não morresse de uma maneira natural, pois se ele ficasse acamado, receberia visitas. Porém, um "Baal Machloket", que não demonstra empatia com os outros, Midá Kenegued Midá (medida por medida) não merece receber a empatia de ninguém.
 
Com este entendimento fica claro por que o Talmud cita a história de Korach como fonte para a Mitzvá de Bikur Cholim. A Torá está se concentrando no segundo aspecto da Mitzvá, que é a obrigação de sentirmos empatia. A história de Korach é o cenário ideal para transmitir essa mensagem, pois seu comportamento é um contraste, é o exemplo de alguém que se tornou insensível com as dores e necessidades dos outros.
 
O principal motivo de cumprirmos as Mitzvót é porque D'us, o nosso Criador, nos comandou. Porém, D'us também nos deu sentimentos. Não devemos viver como robôs, fazendo atos sem nenhum tipo de emoção. Em especial, quando se refere às Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e o seu companheiro), é importante sentir a dor e a necessidade dos outros. Por exemplo, em Purim temos a Mitzvá de "Matanót Laevionim" (doar dinheiro aos necessitados, para que possam cumprir a Mitzvá de fazer uma refeição festiva em honra de Purim). Pessoas que vêm se aconselhar sobre como cumprir corretamente esta Mitzvá normalmente perguntam: "Quanto preciso doar para sair da obrigação". A pergunta é, de certa maneira, equivocada. Não devemos pensar somente em "sair da obrigação". Devemos pensar que há um necessitado que não tem dinheiro suficiente nem mesmo para fazer uma refeição festiva em Purim. A pergunta correta é: "Quanto é o mínimo que eu preciso doar para ajudar um necessitado a ter uma refeição decente em Purim".
 
Quando vemos duas pessoas ajudando um necessitado, o ato é o mesmo, mas a intenção pode ser completamente diferente. A pessoa pode pensar apenas em si mesma, ou pode sentir a dor do seu companheiro. Pouco a pouco, nos importando com cada ser humano, vamos desenvolvendo a empatia pelos outros e nos afastando do egoísmo. O egoísmo que, infelizmente, encurtou a vida de Korach e de todos os seus seguidores.

 
SHABAT SHALOM

 

R' Efraim Birbojm

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quinta-feira, 27 de junho de 2019

HUMILDADE COM AUTOESTIMA - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT SHELACH LECHÁ 5779






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HUMILDADE COM AUTOESTIMA - PARASHAT SHELACH LECHÁ 5779 (28 de junho de 2019)

"Um burrinho voltava da roça com um carregamento de lenha. O caminho era estreito e cheio de obstáculos. O burrinho caminhava devagar, humildemente, com as orelhas caídas e murchas. Como a carga era larga, ocupava quase toda a largura do caminho. Justamente quando ele estava na parte mais estreita da estrada, encontrou um belo cavalo que vinha no sentido contrário. Era realmente um belo animal, que marchava orgulhosamente com a cabeça erguida, usando sobre o lombo uma bela manta de lã e um freio de ouro.

- Olá, coisa feia! - gritou o cavalo - Saia já da estrada, pois eu quero passar! Não vê quem eu sou?

O pobre burrinho, humildemente, nada respondeu. Não poderia voltar e nem liberar a estrada. Encostou-se o mais que pôde no barranco, mas mesmo assim o cavalo não poderia passar com facilidade. O cavalo forçou o passo, avançando impetuosamente. Tentou passar com tanta fúria que se raspou na lenha que o burrinho transportava. Rasgou a manta de lã e também o próprio couro, ficando ferido. Aquela ferida acabou infeccionando e, mesmo tratando com os mais caros medicamentos, depois daquele acidente ele nunca mais foi um cavalo garboso, pois ficou feio com aquele enorme defeito bem visível. Para sua infelicidade, foi vendido a um pequeno fazendeiro, que precisava de um cavalo para puxar uma pesada carroça.

A partir de então, sua vida tornou-se muito diferente. Com tanto trabalho, ficou magro e surrado. Tinha que puxar a carroça horas por dia. Certa vez, encontrou-se novamente com o burrinho. Ao ver o estado em que estava aquele cavalo, anteriormente tão orgulhoso, o burrinho ergueu a cabeça, levantou as orelhas, encheu o peito e disse:

- Por favor, vossa senhoria pode passar primeiro! O caminho está livre para você passar com sua pesada carroça. Eu desejo que tenha sempre ótimos dias como este de hoje! Que tenha boa e longa vida neste seu novo trabalho".

É importante ser humilde. Porém, às vezes, diante de pessoas que querem nos diminuir, devemos erguer a cabeça e sentir orgulho de quem somos. Não são os outros que definem o nosso verdadeiro valor, somos nós mesmos.

Nesta semana lemos a Parashat Shelach Lechá (literalmente "Envie para você"), que descreve uma das maiores tragédias da história do povo judeu. Após entregar a Torá no Monte Sinai, D'us queria que os judeus fossem imediatamente para a Terra de Israel, onde poderiam cumprir na totalidade as Mitzvót que haviam recebido. O povo, porém, não confiou em D'us. Apesar Dele ter prometido, desde Avraham Avinu, que daria a Terra de Israel ao povo judeu, a terra do leite e mel, o povo preferiu mandar espiões para checar. Esta falta de Emuná (fé) acabou custando caro. Apesar dos 12 espiões enviados terem sido escolhidos entre as pessoas mais elevadas do povo, 10 deles voltaram falando mal da Terra de Israel, afirmando que não seria possível conquistá-la. Isto causou uma histeria no povo e um duro decreto de D'us: aquela geração não teria mais o mérito de entrar na Terra de Israel.

Um dos únicos espiões que conseguiu escapar da grave transgressão foi Yehoshua bin Nun, o fiel aluno de Moshé. Mesmo diante do incrível impacto negativo do relato dos outros espiões, ele manteve sua Emuná inabalável. Qual foi o "segredo" de Yehoshua para conseguir passar neste teste tão difícil, no qual pessoas tão grandes tropeçaram?

Antes do envio dos espiões, há um versículo que chama a atenção: "Aqueles eram os nomes dos homens que Moshé enviou para espiar a terra. Porém, Moshé mudou o nome de Hoshea Bin Nun para Yehoshua" (Bamidbar 13:16). Por que Moshé mudou o nome do seu aluno antes de enviá-lo nesta difícil missão?

Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que a mudança do nome foi o reflexo da Tefilá (reza) que Moshé fez pelo seu aluno, pedindo a D'us que o salvasse do tropeço dos espiões. De acordo com o Rav Yonatan ben Uziel zt"l (viveu há cerca de 2.000 anos), quando Moshé percebeu que seu aluno era extremamente humilde, ele mudou o seu nome para Yehoshua. Mas por que Moshé sentiu a necessidade de fazer esta mudança no nome de Yehoshua somente depois de reconhecer a grande humildade dele? E por que justamente o acréscimo da letra "Yud"?

Em hebraico, a palavra "traço de caráter" é "Midót". Porém, a palavra "Midót" também significa "medidas". Todos os traços de caráter podem ser utilizados de forma positiva, desde que estejam na medida correta. De acordo com o livro Orchót Tzadikim ("Psicologia dos Justos") mesmo os melhores traços de caráter, como a humildade e a vergonha, também têm um lado negativo, enquanto mesmo os piores traços de caráter, como o orgulho e o descaramento, também podem ser utilizados de uma maneira positiva e construtiva.

Apesar da humildade ser um dos traços de caráter mais valorizados por D'us, ainda assim há um lado muito perigoso nela. Explica o Rav Moshé Schreiber zt"l (Alemanha, 1762 - Eslováquia, 1839), mais conhecido como Chatam Sofer, que quando alguém é muito humilde, pode chegar a se sentir insignificante no contexto de sua importância particular no mundo e pode vir a acreditar que nada do que faz é realmente valioso. Esta pessoa pode inclusive começar a negligenciar suas realizações, pois em algum nível pode acreditar que as coisas que faz não valem nada. Além disso, a pessoa que é humilde demais também pode não ter a coragem para enfrentar os outros em sua comunidade, mesmo quando isto é necessário e importante, como quando Reshaim (pessoas ruins) estão causando danos e é necessário que pessoas se levantem contra elas.

Quando Moshé percebeu o incrível nível de humildade de seu aluno, teve medo que ele não passaria no teste dos espiões e, por isso, mudou seu nome para Yehoshua, acrescentando uma letra "Yud" no início do seu nome, para que, desta maneira, seu nome começasse com as letras "Yud" e "Hei", que formam um dos Nomes de D'us. Cada um dos Nomes de D'us representa alguma característica Dele. O nome "Yud" e "Hei" representa a grandeza e o poder de D'us. Moshé queria acrescentar em Yehoshua uma espécie de "arrogância positiva", o orgulho de fazer o que é certo. Quando a pessoa é humilde demais, não encontra forças para lutar pelo que é certo e bom. De fato, a palavra em hebraico para arrogância é "Gaavá", cuja "guemátria" (valor numérico) é 15, a mesma "guemátria" do nome de D'us formado pelas letras "Yud" e "Hei". Moshé sabia que Yehoshua precisaria lutar contra uma influência muito forte e sua humildade seria, neste caso, uma desvantagem. Então Moshé rezou para que ele fosse forte e não fosse atingido pelo que aconteceria ao seu redor. Por isso seu nome precisou ser mudado.

A necessidade da pessoa se sentir única e especial no mundo é algo profundamente importante para os seres humanos. E, de fato, cada um de nós foi criado fisicamente e emocionalmente único. Apesar de haver mais de 7 bilhões de pessoas no mundo, não há duas pessoas com as mesmas impressões digitais. A capacidade de sermos diferentes vem da força da nossa personalidade, composta até mesmo por um pouco de arrogância. Mas Yehoshua não tinha nada de arrogância. Há um Midrash (parte da Torá Oral) que nos ensina que inicialmente Yehoshua não era nem mesmo respeitado pelo povo judeu. Muitas pessoas o consideravam um tolo, por ele não ser um "Ben Torá" (profundo estudioso da Torá). O tempo inteiro ele estava ao lado de Moshé, honrando-o e sentando-se aos seus pés para escutar seus ensinamentos. A própria Torá define Yehoshua como sendo o "assistente de Moshé" (Bamidbar 11:8). O mérito de Yehoshua ter crescido tanto foi justamente ele ter anulado completamente seu "eu" e ter se tornado o assistente de Moshé. Mesmo mais tarde em sua vida, quando ele foi comparado à lua, refletindo a luz de Moshé, que era comparado ao sol, as pessoas se sentiram envergonhadas. Por isso, Moshé entendeu que precisava tomar uma atitude, para que a humildade de Yehoshua não o derrubasse. Yehoshua aprendeu a transformar o fato de ser o "assistente de Moshé", isto é, alguém que vivia para os outros, em algo que era original e único, algo que era um feito especial, que só ele podia realizar. Yehoshua conseguiu, com esta "pitada" de arrogância, lutar contra a maioria dos espiões que penderam para o lado negativo.

Nossa matriarca Sara originalmente tinha uma letra "Yud" em seu nome, Sarai. Mas D'us mudou seu nome para Sara, substituindo o "Yud" por um "Hei". O Midrash nos ensina que aquele "Yud" retirado de Sara foi dado a Yehoshua. Sara significa "mulher nobre", enquanto Sarai significa "minha mulher nobre". Ao perder seu "Yud", Sara foi tirada de sua posição de uma grande mulher voltada a si mesma para se tornar uma grande mulher que lideraria e serviria à humanidade toda. Por isso seu nome passou, da forma mais pessoal "minha mulher nobre", para "mulher nobre", algo mais geral. Yehoshua, ao contrário, entraria em uma situação na qual sua capacidade de manter sua força interior seria primordial. Há momentos em que não podemos pensar nos outros. Há momentos em que somos obrigados a defender o que é certo. Yehoshua precisava que o "Yud" lhe desse forças para lutar contra o perigo da missão dos espiões. Caso eles falassem mal da Terra de Israel, ele precisaria de forças para se levantar e ir contra a maioria. No final, foi justamente o "Yud" extra que salvou Yehoshua de um enorme tropeço.

Na realidade, todos nós precisamos deste "Yud" extra em nossas vidas. A lição que fica desta Parashat é que a força que precisamos para vencer as dificuldades da vida vem de uma autoestima saudável. Cada pessoa deve saber que pode e deve lutar contra a maré quando esta maré estiver puxando-a para um iminente afogamento. Cada pessoa deve saber que ele é único, importante e especial, mas sem nunca esquecer de ser humilde. O Rav Bunim MiPeshischa zt"l (Polônia, 1765 - 1827) ensina que cada pessoa precisa andar com dois pedaços de papel no bolso. Em um bolso ele deve ter um papel que diz: "Eu sou pó e cinzas" (Bereshit 18:27). Porém, no outro bolso ele deve ter um papel que diz: "Todo o mundo foi criado apenas para mim" (Talmud Sanhedrin 37a). Com este equilíbrio entre a humildade e a autoestima, a pessoa pode lutar contra as dificuldades da vida e, com esforço, pode atingir a perfeição.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm       
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quinta-feira, 20 de junho de 2019

CONSTÂNCIA E COERÊNCIA -SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BAHAALOTECHÁ 5779

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VÍDEO DA PARASHAT BEHAALOTECHÁ

CONSTÂNCIA E COERÊNCIA - PARASHAT BAHAALOTECHÁ 5779 (21 de junho de 2019)

 
"Yossef mudou-se para Israel. Como não tinha dinheiro para pagar o aluguel de um apartamento sozinho, ele decidiu procurar outros jovens para ter com quem dividir as contas. Recebeu o convite de um grupo de rapazes mais religiosos que estavam com um quarto sobrando em casa. A localização era ótima e seria muito bom ter novos companheiros de casa que também cumpriam Mitzvót. Yossef aceitou na hora.
 
Porém, a alegria de Yossef não durou muito tempo. Como ele gostava muito de leite, sempre deixava uma garrafa na porta da geladeira para beber quando tivesse vontade. Mas começou a perceber que tinha algum "sócio" dentro da casa, que também gostava de beber seu leite. Yossef tentou julgar a situação de forma positiva. Talvez a pessoa não sabia que o leite era particular. Teve então a ideia de colocar uma etiqueta com seu nome na garrafa de leite, para que as pessoas soubessem que era particular. Porém, o "sócio" ainda continuava dividindo com ele seu leite. Yossef não desistiu de julgar a situação de forma favorável. Provavelmente a pessoa viu o nome na garrafa de leite, mas não entendeu que era proibido aos outros. Yossef então foi mais direto. No próximo leite que comprou, escreveu seu nome em letras garrafais, além de "Proibido beber sem autorização". Desta maneira, não haveria dúvidas de que não havia permissão de beber daquele leite.
 
No dia seguinte, a decepção. Mesmo com a etiqueta, o leite havia sido bebido. Era um total descaso! A pessoa estava bebendo o leite, mesmo sabendo que não havia permissão do dono! Yossef resolveu inovar. Tirou uma cópia do versículo da Torá onde aparecia a proibição de roubo e colou no rótulo do leite. Embaixo, escreveu em uma etiqueta: "Usar objetos dos outros sem permissão é roubo". Assim, ficou tranquilo que a advertência funcionaria. Mas sua tranquilidade durou até a manhã seguinte. Durante a noite, alguém havia bebido seu leite. Ao invés de se desesperar, Yossef teve uma ideia original. Comprou um leite no dia seguinte, arrancou a parte do rótulo onde aparecia o carimbo da Hashgachá (Supervisão Rabínica) e colocou uma etiqueta onde estava escrito "Atenção: Chalav Stam" (Leite sem Supervisão Rabínica). A partir deste dia nunca mais ninguém mexeu no seu leite..."
 
Quando a pessoa se importa em ser rigoroso em uma Mitzvá rabínica, mas ignora uma Mitzvá da Torá, isto mostra uma inconsistência no seu Serviço a D'us. O mesmo ocorre quando a pessoa é extremamente rigorosa nas Mitzvót "Bein Adam LaMakom" (Entre ela e D'us), mas acaba não dando a devida atenção às Mitzvót "Bein Adam LeHaveiró" (Entre ela e seu companheiro). Precisamos na vida de equilíbrio e constância.

A Parashat desta semana, Behaalotechá, traz vários assuntos importantes, como a Mitzvá do acendimento diário da Menorá, os sinais Divinos para iniciar e interromper as viagens do povo judeu no deserto, além de alguns erros graves do povo, individuais e coletivos, como a reclamação por comida e o Lashon Hará (maledicência) feito por Miriam.
 
Porém, há algo único e especial nesta Parashat, que a diferencia de todas as outras Parashiót da Torá. No meio da descrição de alguns dos graves erros cometidos pelo povo judeu, há uma "pausa". A narrativa é bruscamente interrompida pelos versículos: "Quando a Arca Sagrada viajava, Moshé dizia: 'Levante-se, D'us, e deixe que Seus inimigos sejam dispersos. Que aqueles que Te odeiam fujam de diante de Você'. E quando ela descansava, ele dizia: 'Volte, D'us, aos milhares de miríades de Israel'". (Bamidbar 10:35,36).
 
De acordo com o Talmud (Shabat 116a), estes dois versículos, que são "isolados" do resto do texto por duas letras "Nun" invertidas, foram colocados fora do seu lugar correto para criar uma interrupção entre três episódios nos quais o povo judeu cometeu graves transgressões. O primeiro episódio foi quando o povo judeu saiu apressado do Monte Sinai, após a entrega da Torá, correndo "como crianças que fogem da escola", isto é, aliviados que, ao se afastar do Monte Sinai, não receberiam mais Mitzvót. O segundo episódio ocorreu quando, após viajar sem interrupção por três dias, o povo reclamou e lamentou o ritmo frenético através do qual D'us os estava conduzindo pelo deserto. Já o terceiro episódio foi a reclamação sobre o "Man", a comida milagrosa que caía do Céu, seguido de uma exigência por carne.
 
Mas por que foi necessária esta interrupção? Uma vez que a repetição tripla de uma conduta constitui uma "Chazaká", isto é, a definição de um novo padrão de acordo com a lei judaica, então a Torá não quis escrever os três episódios em sequência, para que o povo judeu não passasse por uma mudança negativa de status. Porém, por que a interrupção foi inserida entre a primeira transgressão e a segunda, e não entre a segunda e a terceira? Além disso, por que a interrupção foi criada com estes dois versículos? E, finalmente, por que os versículos são delimitados justamente com a letra "Nun", e por que ela aparece invertida?
 
Segundo o Rav Zev Leff, a explicação está no entendimento da importância da constância no Serviço a D'us. O Serviço a D'us ideal é descrito no versículo: "Se você observar com cuidado todo mandamento que eu comando a você hoje, amando a Hashem, teu D'us, e andando nos Seus caminhos todos os dias" (Devarim 19:9). Explica o Rav Avraham ben Meir zt"l (Espanha, 1092 - 1167), mais conhecido como Ibn Ezra, que a expressão "todos os dias" significa "sem interrupção, com consistência e constância". O Talmud (Brachót 6b) diz que se alguém vem regularmente para a sinagoga rezar e um dia se ausenta, D'us questiona a sua ausência. Se ele não tem uma justificativa aceitável, então ele é punido. Porém, o mesmo não se aplica a alguém que nunca vai à sinagoga, isto é, ele não é questionado e examinado da mesma maneira. Por que? ,Pois ele nunca demonstrou ter a capacidade de comparecer de forma regular e constante. Porém, aquele que vem todos os dias demonstra que tem a capacidade de ser constante. Quando ele simplesmente decide não ir um dia, sem uma boa justificativa, ele é cobrado de forma mais rigorosa, pois perdeu o incrível potencial da constância.
 
Isto nos permite entender o motivo pelo qual a Torá fez a separação entre o versículo que descreve a partida precipitada do povo judeu do Monte Sinai e o versículo das reclamações sobre o ritmo rápido que eles estavam viajando. Quando o povo judeu correu do Monte Sinai para evitar a possibilidade de D'us acrescentar mais Mitzvót, então D'us disse: "Meus filhos, se vocês têm tanta energia para correr do Monte Sinai, vamos aproveitar esta energia para chegar mais rápido ao seu destino final, a Terra de Israel". Porém, imediatamente o povo judeu reclamou que não tinha força e resistência para correr tanto. Essa foi a "autocondenação" final do povo judeu: a inconsistência. É como se D'us tivesse falado ao povo judeu: "Meus filhos, vejam que interessante. Para fugir da Torá vocês têm resistência e força. No entanto, para ir para Israel, onde vocês podem cumprir muitas Mitzvót que Eu entreguei, vocês não têm a mesma capacidade?" Para minimizar esta inconsistência, algo grave aos olhos de D'us, a Torá escolheu fazer uma interrupção entre estes dois episódios.
 
Por que a separação foi feita justamente com a letra "Nun" invertida? Nos ensina o Talmud (Shabat 104a) que a letra "Nun" representa a fidelidade e a constância. Portanto, o "Nun" invertido representa o grande erro do povo judeu: a inconsistência e autocontradição. E justamente estes dois versículos foram escolhidos para fazer a interrupção pois eles descrevem o antídoto para a falta de constância. O versículo nos ensina que quando a "Nuvem Divina", que representava a Presença de D'us, começava a subir e partir, isto era um sinal da vontade de D'us que o povo judeu retomasse sua jornada. Moshé então proclamava "Levante-se, D'us". Esta proclamação era uma confirmação da vontade de D'us e uma expressão do desejo de Moshé de subjugar suas vontades perante a vontade de D'us. Da mesma forma, quando a Arca descansava, Moshé novamente proclamava: "Volte, D'us", aceitando a vontade Divina de interromper a viagem.
 
As viagens do povo judeu no deserto eram um grande teste de Emuná (fé). Haviam lugares mais agradáveis, outros menos agradáveis. Haviam dias em que o povo judeu estava mais disposto a caminhar, outros em que os judeus estavam mais cansados. Porém, mesmo assim, eles sempre seguiam a vontade de D'us. Estarmos sempre dispostos a cumprir o que D'us nos comandou, mesmo nos dias em que é mais difícil, em que estamos cansados ou sem vontade, é a fórmula para alcançarmos a constância no nosso Serviço Divino.
 
O Rav Shimshon Raphael Hirsch zt"l (França, 1808 - Alemanha, 1888) comenta que esta Parashat marca o fim de uma época da história judaica e o início de uma nova época, cheia de reclamações, rebeldias e transgressões do povo judeu. Estas atitudes negativas acabaram levando ao pecado dos espiões e culminou, futuramente, na destruição do Beit Hamikdash (Templo Sagrado) e o exílio do povo judeu. A raiz de todo esse infortúnio foi a incapacidade de ser consistente em nosso Serviço a D'us. Portanto, nosso trabalho deve ser direcionado a corrigir esta falha, de modo que as letras "Nun" invertidas fiquem mais uma vez de pé, expressando nossa máxima seriedade e constância. Somente então teremos a oportunidade de voltar a Jerusalém, ao nosso Beit Hamikdash reconstruído, para servir a D'us no nosso máximo potencial.
 
SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm       

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