| Nesta semana lemos a Parashat Bô (literalmente "Venha"), que traz as últimas três pragas que D'us mandou sobre os egípcios, quebrando completamente a resistência deles e culminando com a libertação do povo judeu. Há uma informação interessante, que não apareceu nas primeiras pragas, mas que se repete a partir da sexta praga: o endurecimento do coração do Faraó após ele não aguentar o sofrimento das pragas e decidir libertar o povo judeu. D'us aparentemente estava tirando o livre arbítrio do Faraó, como está escrito: "Pois Eu endureci o seu coração" (Shemot 10:1). Muitos comentaristas questionam: por que D'us endureceu o coração do Faraó, se isso tirou dele a possibilidade de libertar o povo judeu? Podemos responder através de uma parábola. Um judeu estava em litígio com um vizinho não-judeu, e o caso chegou diante de um juiz antissemita. O judeu enviou secretamente ao juiz um belo presente. O juiz lhe perguntou: "Como você ousa me enviar suborno, se na sua Torá está escrito que é proibido subornar um juiz?". O judeu respondeu: "Se você fosse judeu e dois judeus viessem para um julgamento, sua opinião em relação a ambos seria equilibrada e, assim, o julgamento seria verdadeiro. Neste caso, se uma das partes desse um suborno, estaria inclinando o coração do juiz a seu favor e o julgamento penderia em seu benefício. Mas quando um judeu e um não-judeu estão diante de um juiz antissemita, a opinião do juiz não é equilibrada, pois o coração do juiz já está inclinado para o lado do não-judeu. Neste caso, o suborno fará a balança da justiça voltar a ficar equilibrada". Esta parábola esclarece a questão do endurecimento do coração do Faraó. O verdadeiro desejo do Faraó era não libertar o povo judeu. Contudo, em razão do grande sofrimento que ele e seu povo experimentavam por causa das pragas, ele estava prestes a agir contra a sua própria vontade. Nessas condições, a libertação do povo judeu não seria considerada para o Faraó um arrependimento sincero, pois teria sido feito por coerção. Quando D'us endurecia o coração do Faraó, estava dando-lhe forças novamente. Desse modo, endurecer seu coração não foi para retirar o seu livre-arbítrio, ao contrário, foi para remover o temor das pragas, que desequilibrava suas decisões. Através do endurecimento do seu coração, o Faraó retornou à sua vontade própria, que era não libertar o povo judeu. Para que fosse considerado que o Faraó se arrependeu, isso deveria ser feito por sua escolha. Se ele fizesse apenas pelo temor das pragas, não seria eficaz para lhe trazer méritos e terminar com as pragas. Ainda assim resta um grande questionamento. Nossos sábios explicam que o arrependimento é eficaz mesmo quando vem por força dos sofrimentos. Assim nos ensina o Talmud (Menachot 53b): "No momento em que o Templo foi destruído, D'us encontrou Avraham, que estava de pé no Templo, e disse para ele: "O que faz o Meu amado em Minha Casa?". Avraham respondeu: "Vim por causa dos assuntos dos meus filhos". D'us disse: "Seus filhos pecaram e foram exilados". Avraham tentou argumentar: "Talvez tenham pecado por engano", mas D'us respondeu que foi intencional. Avraham ainda tentou de novo: "Talvez apenas uma minoria tenha pecado?", mas D'us respondeu que foi a maioria. Em certo momento, Avraham colocou as mãos na cabeça, começou a gritar e chorar, e disse: "Será que Seus filhos não têm conserto?". Saiu então uma Voz Celestial e disse: "D'us chamou o teu nome 'oliveira verdejante', bela de fruto formoso". Assim como a oliveira, cujo objetivo final está no seu fim, isto é, quando o fruto é colhido, assim também o povo judeu, o seu objetivo final está no seu fim, isto é, quando se arrependerem e voltarem". Mas como entender esta conversa de Avraham com D'us? O que estava afligindo tanto Avraham? E como D'us o consolou e o tranquilizou? A explicação é que Avraham teve medo que talvez o povo judeu não teria mais possibilidade de reparação, pois mesmo que retornassem em arrependimento, o fariam por causa dos sofrimentos do exílio. Em resposta, saiu uma Voz Celestial e o tranquilizou, garantindo que o arrependimento deles seria aceito, mesmo que viesse por causa dos sofrimentos. Na continuação do Talmud, o Rabi Yochanan questionou: "Por que Israel foi comparado à oliveira?". A resposta é que, da mesma forma que o azeite da azeitona é extraído por meio da prensagem, também o povo judeu retorna em arrependimento por meio da pressão dos sofrimentos. Assim como a prensagem não acrescenta azeite, mas apenas extrai o azeite que já existia dentro da azeitona, assim também o povo judeu, por meio dos sofrimentos, revela a sua vontade interior de fazer o que é correto, que até então estava oculta dentro deles. Além disso, a própria oliveira é amarga, e ela se adoça por meio do fogo. O fogo não acrescenta doçura, mas apenas remove a amargura que estava impregnada na oliveira, ficando a doçura do fruto que já existia antes. Assim também o povo judeu retorna em arrependimento por meio dos sofrimentos. Portanto, o arrependimento por causa dos sofrimentos não é a forma ideal, não é a maneira mais completa de arrependimento, mas funciona. Na realidade, um dos principais propósitos de D'us ao nos mandar sofrimentos é justamente despertar o nosso arrependimento pelos erros cometidos. Então, por que caso o Faraó tivesse libertado o povo judeu por causa dos sofrimentos, isso não seria considerado um arrependimento verdadeiro? Responde o Rav Yossef Dov Soloveitchik zt"l (Bielorrússia, 1820 - 1892), mais conhecido como Beis Halevi, que o arrependimento proveniente do sofrimento só é eficaz quando os sofrimentos despertam a pessoa de sua sonolência e ela compreende, com seu intelecto, o erro que cometeu, arrependendo-se plenamente do que fez. A prova se a pessoa realmente se arrependeu está no seu comportamento depois que o temor do sofrimento se afasta. Se mesmo então a pessoa não retorna mais à transgressão, pode-se dizer que realmente se arrependeu. Esse tipo de arrependimento verdadeiro proveniente do sofrimento é encontrado apenas nas pessoas que, em sua vontade interior, desejam seguir um caminho reto, e são apenas causas externas e seduções da má inclinação que as levam às transgressões. Essa é a natureza do povo judeu, um povo comprometido com a sua conexão espiritual. Por isso, o exílio e os sofrimentos removem a causa que os levou a pecar, os deixam com sua vontade interior pura. Por isso, não constituem para eles um impedimento para um arrependimento verdadeiro. Não é assim com os egípcios, como vimos no caso do Faraó, cuja vontade verdadeira era pecar. Deste modo, os sofrimentos que os atingiram não tinham força para revelar a vontade interior, ao contrário, levam a atos que não eram parte da sua natureza. A prova disso era o comportamento do Faraó depois que o terror dos sofrimentos passava, ele imediatamente voltava a proibir os judeus de sair. Este era o verdadeiro Faraó. Portanto, se os egípcios retornassem em arrependimento por causa dos sofrimentos, se assemelhariam àquele que adoça algo amargo ao lhe acrescentar algo doce de forma superficial. Mesmo que a doçura acrescentada prevaleça sobre a amargura, a ponto de ela já não ser mais percebida, ainda assim a amargura que existia não se alterou. Do mesmo modo, o arrependimento dos egípcios, quando ocorria por meio dos sofrimentos, não vinha de uma busca interior da verdade, mas decorria de uma força externa. Por isso, não era considerado arrependimento verdadeiro. Em vez de reclamar dos sofrimentos, devemos utilizar as dificuldades que surgem na vida como oportunidades para reflexão, crescimento e mudanças. D'us nos ama muito mais do que nós O amamos. Ele nos manda sofrimentos para consertarmos os nossos erros e melhorarmos como pessoas. São oportunidades de ouro para colocarmos para fora quem nós somos de verdade. SHABAT SHALOM R' Efraim Birbojm |
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