Nesta semana lemos a Parashá Vaiechi (literalmente "E viveu"), terminando o primeiro Livro da Torá, Bereshit. A Parashá fala sobre o falecimento de Yaacov, nosso último patriarca, após passar 17 anos no Egito junto com seu filho Yossef. Por 22 anos Yaacov passou por uma profunda tristeza, achando que Yossef havia morrido, mas depois de tanto sofrimento Yaacov pôde viver muitos anos de alegrias junto com seus filhos e descendentes. Pouco antes de Yaacov falecer, Yossef foi avisado que ele estava muito doente e correu com seus dois filhos, Efraim e Menashé, para se encontrar com seu pai. Yaacov deu uma Brachá para Efraim e Menashé, elevando-os ao nível de "Tribos", como seus filhos. Yaacov também disse para Yossef: "E eu te dei uma porção a mais que seus irmãos, que tomei da mão dos Emorim com a minha espada e com o meu arco" (Bereshit 48:22). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que como Yossef estava se esforçando muito para organizar o enterro de seu pai, que não queria de jeito nenhum ser enterrado no Egito, então Yaacov lhe deu um presente, uma herança, um local onde futuramente Yossef seria enterrado. Qual era esta herança? A cidade de Shechem. Nossos sábios trazem explicações interessantes sobre este versículo, esclarecendo que as palavras "espada" e "arco" não devem ser entendidas literalmente, e sim se referem a armas utilizadas em uma luta espiritual. De acordo com o Midrash, as armas utilizadas são as Mitzvót e as boas ações. Já Unkelos, que traduziu a Torá para o Aramaico, as armas utilizadas são dois tipos diferentes de Tefilá, uma chamada "Tzluti" e outra "Bahuti". O ponto em comum entre estas duas explicações é que, embora o entendimento mais simples do versículo se refira a uma luta física de Yaacov contra seus inimigos, na verdade ele se refere a armas espirituais. Porém, estas explicações não são simples de serem entendidas. O que levou nossos sábios a tirarem o versículo da Torá do seu entendimento mais simples? Se o versículo pode ser entendido literalmente como uma guerra, uma batalha física envolvendo armas de verdade, por que explicar que se trata de armas espirituais? O Rav Yaacov Kanievsky zt"l (Ucrânia, 1899 - Israel, 1985), mais conhecido como Steipler, explica que se Yaacov estivesse utilizando as palavras "espada" e "arco" no seu entendimento mais simples e óbvio, isto é, de armas de verdade, ele deveria ter mencionado inicialmente o arco e só depois a espada. É sabido que nas guerras inicialmente há uma batalha à distância, utilizando armas de longo alcance, que são lançadas contra o inimigo, e somente depois as batalhas se tornam combates face a face, com armas de curto alcance. Pelo fato de Yaacov ter precedido a espada, que é uma arma de guerra para ataques de perto, ao arco e flecha, que é uma arma de ataque de longe, então nossos sábios entenderam que não se tratava de armas para uma guerra material, e sim armas espirituais, utilizadas na guerra contra o nosso Yetser Hará. Mas ainda precisamos entender as analogias utilizadas pelos nossos sábios. Por que o Midrash entende que "arco" e "espada" se referem a "Mitzvót e bons atos", enquanto Unkelos entende que "arco e espada" se referem a dois tipos diferentes de Tefilá? Qual é a conexão entre as armas e estes conceitos espirituais? Quando falamos sobre nossa principal guerra espiritual, a guerra contra o nosso Yetser Hará, precisamos saber que é uma guerra diferente de todas as outras guerras. O Yetser Hará exerce sua influência negativa sobre o ser humano desde o momento em que ele sai do ventre de sua mãe, como ensinam os nossos sábios do Talmud (Sanhedrin 91b), que trazem a conversa entre Antoninus e Rabi Yehuda Hanassi. Antoninus questionou a partir de quando a má inclinação domina uma pessoa. Ele mesmo respondeu que era desde o momento em que a pessoa sai do ventre. O Rabi Yehuda HaNassi aprovou a resposta e disse que há um versículo que apoia este ensinamento: "O pecado paira na entrada" (Bereshit 4:7), indicando que é desde o momento do nascimento, quando o recém-nascido emerge da entrada do ventre de sua mãe, que a má inclinação o domina. Portanto, o início da guerra deve ser justamente com a espada, para expulsar o Yetser Hará de dentro de nós. Depois que a pessoa já se esforçou muito e recebeu apoio Celestial, conseguindo tirar de dentro de si o Yetser Hará, ela ainda não pode baixar a guarda. Ela deve ficar alerta o tempo todo e atirar à distância toda vez que perceber que o Yetser Hará se aproxima novamente, garantindo que ele nunca mais retorne. Foi a isso que Yaacov se referia quando disse "com a minha espada e com o meu arco". Ele estava dizendo: "Pelos méritos de eu ter lutado contra o meu Yetser Hará, de perto e de longe, e por ter cumprido as Mitzvót e feito bons atos". Já Unkelos explica que as palavras do versículo "com a minha espada e o meu arco" se referem a dois diferentes tipos de rezas, uma chamada "Tzluti' e outra "Bahuti". Para explicar este conceito, o Rav Yitzchak Zeev Soloveitchik zt"l (Bielorússia, 1886 - Israel, 1959), mais conhecido como Brisker Rav, explica que há dois tipos de Tefilá: a primeira é a Tefilá que foi definida pelos "Anshei Knesset HaGuedolá", mais conhecida como "Amidá" ou "Shmone Essrê", enquanto a segunda é a Tefilá particular que nós fazemos, de forma individual e com as nossas próprias palavras. Mas como isso se conecta com as palavras "espada" e "arco"? Existe uma diferença fundamental entre a espada e o arco. A espada é muito afiada e, por isso, ela mesma tem o poder para matar e cortar. Mas o mesmo não ocorre com as flechas disparadas através do arco, elas não têm poder de causar dano sozinhas, pois não são tão afiadas quanto uma espada. A capacidade de matar com o arco e flecha, portanto, está na força daquele que puxa a corda do arco e lança a flecha com força em direção ao alvo. Uma diferença semelhante também existe entre os dois tipos de Tefilót descritas anteriormente. A Amidá é uma Tefilá sagrada por si só, independente de quem a reza. Portanto, todos têm a oportunidade de que sua Tefilá suba nos níveis espirituais mais elevados e seja atendida. Já em relação à Tefilá individual há um interessante ensinamento do Talmud (Baba Batra 116a), que qualquer pessoa que tenha uma pessoa doente em casa deve ir a um sábio e pedir a ele que reze, para despertar compaixão Celestial sobre o doente. Ou seja, em uma Tefilá particular não há nenhuma garantia que cada indivíduo terá sua Tefilá atendida e, portanto, é melhor que ela seja feita por um sábio, que tenha mais méritos e mais chances de ser atendido. Por isso a Amidá se compara a uma espada, isto é, algo que funciona por si só, independente de quem a empunha. Já a Tefilá particular se compara a um arco, isto é, algo que funciona apenas de acordo com quem o utiliza. Temos muitas guerras na vida, mas nenhuma é tão difícil quanto a guerra contra o nosso Yetser Hará. Como já nascemos com ele nos influenciando para o mal, o primeiro passo é nos esforçarmos para tirar ele de dentro de nós. E nesta vida não há descanso, pois mesmo quando o vencemos uma vez, ele não desiste e nos ataca outras vezes, de outras maneiras. Sua principal tática é roubar nossa "munição", que são as nossas armas espirituais. É uma luta que travaremos a vida inteira, e não podemos nunca baixar a guarda. Não há férias contra o Yester Hará. Somente com nossas verdadeiras munições, que são o estudo de Torá, o cumprimento das Mitzvót e as Tefilót pedindo para que D'us nos ajude, conseguiremos vencer o Yetser Hará e mantê-lo longe de nós. SHABAT SHALOM R' Efraim Birbojm |