quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A FONTE DO NOSSO SUSTENTO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT VAIERÁ 5787

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A FONTE DO NOSSO SUSTENTO - PARASHAT VAIERÁ 5787 (30/out/26)

“Havia um vilarejo onde viviam duas famílias judias, em casas uma em frente à outra. O dono de uma das casas era um homem bondoso e hospitaleiro, enquanto o dono da outra era um homem malvado e mesquinho. Certa vez, Berale, um judeu muito pobre, chegou ao vilarejo. Desesperado de fome, dirigiu-se à casa do homem mesquinho e implorou por um prato de comida. O homem respondeu com escárnio:
 
- Comida? Não está escrito na Torá: “Com o suor do seu rosto comerá pão”? Trabalhe, e eu lhe darei comida.
 
Sem outra opção, o pobre começou a trabalhar. O homem cruel o obrigou a trabalhar em jejum, cortando uma enorme pilha de lenha. Após um dia duro de trabalho, quando o pobre mal conseguia ficar de pé, de fome e cansaço, o homem mesquinho finalmente lhe disse:
 
- Muito bom o serviço. Uma refeição o espera na casa do outro lado da rua. É só entrar e comer. Você merece.
 
Na casa da frente, o dono bondoso e hospitaleiro oferecia aos necessitados uma mesa farta e uma cama confortável para repousar. Berale comeu, satisfeito, e passou a noite ali. Na manhã seguinte, seguiu seu caminho. Algum tempo depois, encontrou outros pobres e, durante a conversa, contou-lhes o que havia acontecido.
 
- Valeu todo o esforço só para comer aquela comida deliciosa - disse Berale.
 
- Você é um tolo! - disseram os outros pobres, dando gargalhada. - Você foi enganado! Se tivesse ido diretamente à segunda casa, teria recebido a mesma comida, sem precisar trabalhar tanto!”
 
O Rav Yaakov Kranz zt”l (Lituânia, 1740 - Polônia, 1804), mais conhecido como o Maguid MiDubno, explica que, às vezes, trabalhamos demais para conseguir um pouco mais de dinheiro, esquecendo que o nosso sustento vem de D’us e que Ele pode enviá-lo das formas mais inesperadas. Se nos voltássemos diretamente a D’us, com Tefilá e Emuná, talvez encontrássemos a solução muito antes, sem tanto esforço desgastante e sofrimento.

Nesta semana lemos a Parashat Vaierá (literalmente “E apareceu”), que começa descrevendo o incrível nível de segurança do nosso patriarca Avraham, cuja tenda era conhecida por estar aberta em todas as direções, oferecendo a todos os viajantes a comida, a água e uma sombra para descansar. Herdamos de Avraham Avinu a hospitalidade e a preocupação com os necessitados.
 
A vontade de Avraham de ajudar era tão grande que superava as dores do seu Brit-Milá, feito aos 99 anos. D'us então os invejosos beduínos, que eram anjos disfarçados, para que Avraham pudesse fazer hold com eles, algo que o preenchia. Antes de irem embora, um dos beduínos profetizou a Avraham: "E ele disse: 'Certamente voltarei a você nesta mesma época, no ano que vem, e é que Sara, sua esposa, terá um filho'. E Sara estava ouvindo à entrada da tenda, que ficou atrás dele" (Bereshit 18:10). Qual foi a ocorrência de Sara ao escutar que seria mãe aos 90 anos? "E Sara riu consigo a mesma, dizendo: 'Depois de eu ter envelhecido, terei novamente a juventude? E, além disso, meu marido é velho!'" (Bereshit 18:1 2).
 
Porém, D'us não gostou da ocorrência de Sara, como está escrito: "E D'us disse a Avraham: 'Por que Sara riu, dizendo: 'Será que realmente darei à luz, sendo que já estou velha?'. Será que existe algo impossível para D'us?'" (Bereshit 18:13,14). Rashi explica que ela olhou para o próprio ventre e disse: “É possível que estas entranhas possam carregar um filho?”. Mas por que D'us ficou bravo?
 
O Midrash explica que isso pode ser comparado a alguém que tinha em suas mãos duas peças desgastadas de metal. Ele as levou a um ferreiro e perguntou: “Você consegue consertá-las?”. O ferreiro respondeu: “Se eu consigo criá-las desde o início, como não conseguiria consertá-las?”. Assim também aqui, D'us disse: “Se fui capaz de criar o ser humano desde o início, como não seria capaz de fazê-lo retornar aos dias de sua juventude?”.
 
O ponto principal é que Sara e Avraham já eram idosos, e a possibilidade de terem um filho parecia naturalmente impossível. Foi o caráter praticamente impossível situação que levou Sara a dar risada. Porém, o Midrash ensina que, para D'us, restaurar a juventude não é mais difícil do que criar a vida.
 
Mas ainda assim é difícil entender por que Sara foi repreendida. Ela olhou para o próprio corpo e disse: “É possível que estas entranhas possam carregar um filho?”. Afinal, ela não sabia que aqueles visitantes eram anjos e que aquelas palavras eram proféticas! Por isso, aos olhos dela, aqueles homens estavam apenas dando um Brachá, em agradecimento pela hospitalidade. Ela simplesmente não acreditou na Brachá que eles queriam parecer algo impossível de acontecer. Por que, então,  ela foi repreendida por ter dado risada? Não seria um acontecimento natural de qualquer pessoa que escutasse uma notícia “absurda” como esta?
 
O Ramban zt"l (
Espanha, 1194 - Israel, 1270) explica que D'us a repreendeu por ela ter considerado algo como sendo impossível de acontecer. Você pode tudo. Ele criou o ventre e, se essa for à Sua vontade, Ele pode rejuvenescer o ventre envelhecido. Sara deveria ter acreditado e aqui: "Amén! Que D'us faça assim!".
 
O Rav Yechezkel Levenstein zt”l (Polônia, 1895 - Israel, 1974) aprofunda as palavras do Ramban. Ele explica que as obrigações de quem possui uma Emuná plena é acreditar que tudo acontece pela vontade de D'us, e que todas as leis da natureza existentes na Criação nada mais são do que a manifestação da Mão Divina. Portanto, mesmo que Sara achou que estava ouvindo apenas uma Brachá comum, proferida por pessoas comuns, ela deveria ter dito: "Amém! Que D'us faça assim!”.
 
É isso que significa a expressão: “Acaso existe algo impossível para D'us?”. Assim como D'us criou o mundo e, com humildade ilimitada, renova continuamente a obra da Criação, Ele também pode alterar todas as leis da natureza. A cada instante, uma nova Criação se revela diante de nossos olhos. O fato de D'us não se altera constantemente as leis da natureza decorre de não sermos merecedores de que esses protetores leis sejam selecionados por nossa causa. Por isso, é dizer “Amén, que D’us faça assim!” diante de qualquer situação, mesmo diante daquela situação que parece impossível de acontecer. Ao dizer essas palavras, a pessoa pede a D'us que a torne merecedora de que a própria ordem da Criação seja alterada em seu favor.
 
Concluímos, portanto, que a Emuná exige que não nos desesperemos em nenhuma situação. Mesmo uma pessoa gravemente doente não deve perder a esperança, como ensina o Talmud (Brachót 10a): “Mesmo que uma espada afiada esteja encostada no pescoço de uma pessoa, ela não deve desistir da misericórdia Divina”. Isso significa que, para sair de uma situação como essa, devemos intensificar nossos Tefilót, para que realmente mereçamos uma fartura de misericórdia Divina. As palavras do Midrash sobre o versículo “Acaso existe algo impossível para D'us?” devem ser entendidas como se D'us estivesse afirmando: “Criar o ventre como ele é originalmente Eu consigo, mas devolvê-lo aos dias da juventude Eu não consigo?!”.
 
Devemos refletir sobre nossa própria situação e considerar o quanto estamos distantes daquele nível de Emuná pelo qual Sara foi repreendida. Quando a salvação ainda não aparece no horizonte, nossa Emuná se mostra insuficiente. A Emuná plena consiste em acreditar que, mesmo quando aparentemente toda esperança se esgotou, convidamos confiar em D'us e dizer: “Que Ele faça assim!”. Isso não é apenas uma demonstração de devoção excepcional, algo além do esperado, mas um princípio básico entre os fundamentos da Emuná, pelo que cada um de nós é responsabilizado. Nenhum de nós pode se esquivar dessas obrigações alegando “como podemos alcançar o nível de Sara?”,pois esse é o nível exigido de cada um de nós.
 
À luz dessas ideias, podemos compreender também as palavras dos nossos sábios: “Diante de Quem você terá de prestar contas e apresentar seu julgamento? Diante do Rei dos reis” (Avot 3:1). Nossas sabedorias estão ensinando que, até mesmo nas situações nas quais, aos olhos humanos, não parece haver nenhuma esperança ou possibilidade de salvação, D'us poderá nos cobrar em Seu julgamento, questionando: “Por que vocês não acreditaram na Minha salvação?”. Afinal, estamos diante do Rei dos reis, e, para Ele, não existe diferença entre uma situação em que há causas e possibilidades naturais de salvação e outra na qual elas estão ausentes.
 
Na verdade, nossa situação é ainda pior: mesmo quando enxergamos causas e possibilidades de salvação, não atribuímos nossa esperança de sermos salvos a D'us, mas a outros fatores. Tudo isso está incluído nas palavras do profeta: “E o justo viverá pela sua Emuná” (Chabakuk 2:4).
 
É evidente que a Emuná é algo integrado, sem divisões nem abordagens. Quando uma pessoa não acredita na possibilidade de D'us de alterar as leis da natureza, ela acaba limitando, aos seus olhos, a capacidade Dele, que é Todo-Poderoso. Nesse caso, sua Emuná deixa de ser uma Emuná verdadeira.
 
Devemos saber e acreditar que o poder de D'us não possui quaisquer limitações e que Ele é capaz, em um único instante, de criar uma perna para uma pessoa que nasceu sem ela ou uma mão para alguém que a perdeu. O único impedimento é uma pessoa não ser merecedora de que D'us realize milagres abertos em seu favor. Que sejamos sempre merecedores dos milagres Divinos, através dos nossos bons atos, da nossa Emuná e da nossa Tefilá.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

 

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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

NUNCA PERCA A SENSIBILIDADE - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT LECH LECHÁ 5787

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NUNCA PERCA A SENSIBILIDADE - PARASHAT LECH LECHÁ 5787 (23/out/26)
 
“O Rav Israel Salanter zt”l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883) chegou certa vez a uma cidade em pleno inverno. Os líderes da comunidade, honrados com a visita de um dos grandes mestres de Torá da geração, prepararam-lhe uma hospedagem confortável, onde poderia descansar tranquilamente durante sua estadia. Ao passear pela cidade, porém, o Rav Salanter deparou-se com uma realidade muito dura. Famílias pobres viviam em condições precárias, enfrentando o frio intenso sem a proteção adequada. No abrigo destinado aos necessitados, doentes e viajantes sem recursos, as condições eram especialmente difíceis: o vento entrava pelas frestas e o ambiente oferecia pouca proteção contra as baixas temperaturas.
 
O Rav Salanter procurou saber por que aquela situação ainda não havia sido resolvida. Afinal, os responsáveis pela comunidade certamente conheciam as condições em que aquelas pessoas viviam. Por que, então, os reparos necessários ainda não tinham sido feitos?
 
Foi naquele momento que sua atitude chamou a atenção de todos. O Rav Salanter decidiu que não ficaria confortavelmente instalado enquanto os pobres da cidade continuassem sofrendo com aquelas condições. Ele queria que a comunidade compreendesse que o sofrimento daquelas pessoas não poderia ser tratado como algo secundário. Por isso, resolveu se hospedar naquele abrigo, junto aos pobres, até que a comunidade resolvesse o problema. Ele não quis aceitar um conforto que faltava àquelas pessoas.
 
A situação era conhecida. Os necessitados estavam ali, diante dos olhos de todos. O problema não era a falta de informação, mas o fato de que aquela realidade havia se tornado parte da paisagem cotidiana. Aquilo que deveria despertar indignação e urgência já não provocava a reação necessária. O Rav Salanter, porém, não havia perdido essa sensibilidade. Onde os outros já estavam acostumados a enxergar uma situação habitual, ele continuava enxergando o sofrimento de seres humanos que precisavam de ajuda.”
 
Uma das maiores tragédias da humanidade é quando nos tornamos insensíveis e nos acostumamos com aquilo que deveria nos indignar, como quando o mendigo vira parte da paisagem urbana, a corrupção vira aceitável e o roubo vira parte do nosso cotidiano.

 

Nesta semana lemos a Parashat Lech Lechá (literalmente “Vá por você”), que começa a descrever com detalhes a vida de Avraham Avinu, o nosso primeiro patriarca. De Avraham recebemos como herança espiritual a força para superarmos os testes que surgem em nossas vidas. Avraham não se tornou uma grande luz para as futuras gerações simplesmente por ter nascido com uma missão especial. Ao longo de sua vida, ele trabalhou constantemente para se elevar espiritualmente, superar suas próprias limitações e se desconectar dos traços de caráter negativos. Apesar de passar por situações muito difíceis, como uma época de fome, o sequestro de sua esposa, uma grande guerra e a ordem de sacrificar seu próprio filho, Avraham nunca questionou D’us. Ao contrário, através de cada teste e dificuldade ele se conectava ainda mais à sua espiritualidade.
 
Um dos difíceis testes de Avraham foi ele ter que abandonar sua própria casa e sua comodidade para ir a uma terra estranha. D’us prometeu que, ao chegar lá, ele receberia muitas Brachót. Avraham confiou em D’us e cumpriu o comando, deixando para trás tudo o que tinha. Porém, o que aconteceu quando Avraham chegou a Erets Knaan? Uma grande fome. Onde estava a Brachá que D’us havia prometido? Mas Avraham nunca questionou, nem mesmo em pensamento. Ele simplesmente pegou sua família e foi ao Egito em busca de comida.
 
No caminho para o Egito, a Torá descreve algo estranho que ocorreu: “E aconteceu que, quando estavam prestes a entrar no Egito, ele (Avraham) disse à sua esposa Sarai: ‘Eis que agora sei que você é uma mulher de bela aparência... Por favor, diga que você é minha irmã... para que minha vida seja preservada graças a você’” (Bereshit 12:11,13). Avraham pediu a Sara que dissesse que era sua irmã, para protegê-lo dos egípcios, que poderiam cobiçá-la e matá-lo caso descobrissem que ele era seu marido. Os valores dos egípcios eram tão deturpados que, em vez de respeitarem o casamento, poderiam assassinar o marido para se apoderarem da esposa.
 
Porém, esse acontecimento desperta alguns questionamentos. Em primeiro lugar, por que a Torá achou importante nos informar que essa conversa aconteceu quando Avraham e Sara já estavam próximos de seu destino, como está escrito “quando estavam prestes a entrar no Egito”? Além disso, como pode ser que uma questão de tamanha gravidade não tenha sido discutida antes? Avraham deixou para discutir um assunto que envolvia risco de vida apenas quando estava prestes a entrar em uma terra habitada por pessoas imorais?
 
Rashi tenta responder este questionamento ao explicar o que significa que Avraham percebeu a beleza excepcional de Sara só ao se aproximarem do seu destino. É uma informação difícil, já que, normalmente, quando duas pessoas se conhecem, a aparência física é uma das primeiras coisas que percebem uma na outra, e eles já estavam casados há muito tempo. O que ocorreu para que a beleza de Sara fosse percebida naquele momento?
 
Uma explicação de Rashi é que Avraham certamente já tinha percebido a beleza de sua esposa. Porém, devido às dificuldades de uma viagem, é normal que a aparência da pessoa se torne menos atraente. No entanto, Avraham percebeu que Sara manteve a sua beleza mesmo durante a viagem, e foi isso que lhe chamou a atenção.
 
Rashi traz ainda outra explicação. Avraham já havia percebido a beleza de Sara, mas ele sentiu que havia chegado o momento em que deveriam se preocupar com isso, pois eles estavam prestes a chegar no Egito, um lugar de pessoas com feições pouco atraentes, que não estavam acostumados a ver uma mulher muito bonita.
 
A terceira explicação de Rashi é talvez a mais interessante. Avraham e Sara eram pessoas tão recatadas e espiritualizadas que realmente Avraham não havia percebido a beleza física de Sara até aquele momento. Então, o que ocorreu para que a percepção de Avraham mudasse?
 
Explica o Rav Yochanan Zweig shlita que a terra do Egito era conhecida pela má índole de seus habitantes, pessoas materialistas, entregues aos próprios desejos. Em geral, uma pessoa que vive em uma sociedade decadente acaba sendo influenciada por ela, mesmo que não se envolva pessoalmente em nenhum comportamento perverso. Esta situação se compara a uma pessoa que entra em um curtume, local com cheiro muito forte e desagradável. Mesmo que a pessoa não adquira nada, ainda assim suas roupas absorverão o cheiro ruim do lugar.
 
É isso o que os nossos sábios ensinaram ao afirmar: “Afaste-se de um mau vizinho e não se associe a uma pessoa perversa” (Avót 1:7). Por que em relação ao mau vizinho está escrito “afaste-se”, e não apenas “não se associe”?
Pois o mau vizinho, aquele que já está perto, certamente vai nos influenciar negativamente. Por isso, a única solução é nos afastarmos. Talvez isso explique o que ocorreu com Avraham. Ele estava em um nível tão elevado que olhava sua esposa de uma maneira apenas espiritual, sem sequer perceber o quão ela era fisicamente bonita. Ao se aproximar do Egito, Avraham recebeu influências negativas do comportamento materialista dos egípcios, a ponto de perceber a beleza física de sua esposa, algo que nunca havia lhe chamado a atenção.
 
Entretanto, o versículo diz explicitamente que, quando Avraham reparou na beleza de Sara, eles ainda estavam se aproximando, isto é, não haviam nem mesmo entrado em contato com os egípcios. Então como Avraham já havia recebido influências negativas? O Rav Yochanan Zweig responde que talvez a Torá esteja nos ensinando que, embora um Tzadik do calibre de Avraham não se deixasse arrastar pela imoralidade da sociedade, esse ambiente ainda exercia uma influência sutil sobre ele. Mesmo que ele ainda nem sequer vivesse naquela sociedade, a simples proximidade já o afetava.
 
Este é um ensinamento impressionante, atual e importante para as nossas vidas e para a educação dos nossos filhos. Uma das grandes dificuldades da natureza humana é que, muitas vezes, sabemos que algo está errado. Porém, quando convivemos com determinada realidade, deixamos de sentir a mesma necessidade de reagir. O ambiente não precisa nos convencer explicitamente a mudar nossos valores, basta que nos acostumemos com aquilo que antes nos incomodava. É justamente por isso que precisamos proteger nossa sensibilidade interior. Não basta perguntar se estamos fazendo algo errado. Precisamos também perguntar se continuamos percebendo o que é certo e o que é errado, e se ainda nos incomodamos com aquilo que deveria nos incomodar.
 
Talvez isso se conecte com o início da nossa Parashá, na qual D’us mandou Avraham se afastar de sua casa e de sua família. Avraham precisava abandonar as influências que haviam marcado sua vida até então para construir uma identidade espiritual própria. E essa missão não terminou quando ele deixou sua terra natal. Mesmo depois de se tornar um grande Tzadik, ele continuava precisando estar atento às influências que poderiam afetá-lo.
 
Isso nos ensina algo fundamental: não basta tomar uma decisão correta uma vez na vida. Não basta decidir que queremos ser pessoas boas e educar nossos filhos com determinados valores. Precisamos renovar essas escolhas constantemente. O verdadeiro “Lech Lechá” talvez seja justamente isso: ter a coragem de perguntar a nós mesmos se estamos vivendo de acordo com aquilo em que acreditamos ou se, aos poucos, estamos nos tornando aquilo que o ambiente ao redor nos ensina. Às vezes, para nos aproximarmos de quem realmente queremos ser, precisamos nos afastar daquilo que está nos afastando de nós mesmos.

SHABAT SHALOM

R’ Efraim Birbojm

 

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