Nesta semana lemos a Parashá Vayakel (literalmente "E reuniu"), que começa a descrever a construção do Mishkan na prática, já que nas Parashiot anteriores a Torá havia trazido apenas os comandos de D'us. Os materiais foram doados de forma voluntária e aqueles que se ofereceram de coração para os trabalhos foram escolhidos. É interessante perceber que na Parashá, em relação aos construtores do Mishkan, há uma repetição da expressão "sábio de coração". Por exemplo, está escrito "E todo homem sábio de coração dentre vocês virá e fará" (Shemot 35:10). Também em relação ao trabalho das mulheres a mesma expressão é utilizada: "E toda mulher sábia de coração fiava com as mãos" (Shemot 35:25). E em outros lugares da Parashá isso se repete, como em "Encheu-os de sabedoria de coração" (Shemot 35:35), "E todo homem sábio de coração" (Shemot 36:1) e "E fizeram todos os sábios de coração" (Shemot 36:8). Mas o que significa esta expressão? Não é algo equivocado associar a sabedoria com o coração? Afinal, o lugar da sabedoria não é o cérebro? Explica o Rav Yehuda Leib Chasman zt"l (Lituânia,1869 - Israel, 1935) que essa associação da sabedoria com o cérebro, tida como certa por muitas pessoas, é completamente equivocada. Costumamos chamar de "sábio" todo aquele que possui intelecto, mesmo que seu coração não esteja com ele, isto é, mesmo que sua conduta de vida e seu comportamento cotidiano não estejam de acordo com sua sabedoria. Consideramos uma pessoa como sendo sábia apenas por ela falar palavras inteligentes. É comum inclusive ouvir as pessoas dizendo: "O que importa são as ideias dele, não suas ações. O principal é podermos usufruir de sua grande sabedoria e compreensão". Mas esse pensamento é profundamente equivocado, pois não distingue entre alguém que apenas carrega sabedoria e alguém que vive com entendimento e discernimento verdadeiros, que é o verdadeiro sábio. Mas por que a sabedoria precisa estar presente também nos atos? Para entendermos este conceito, vamos trazer um exemplo prático. Como reagiríamos se nos deparássemos com um grande especialista em botânica, que sabe identificar cada planta e discernir quais são comestíveis e saudáveis e quais são venenosas e perigosas? Em um primeiro momento o trataríamos com a máxima reverência, em respeito aos seus muitos conhecimentos. Nos aconselharíamos com ele e respeitaríamos muito suas opiniões. Porém, o que aconteceria se ele publicamente escolhesse comer justamente as plantas que contêm veneno? Há alguma dúvida que tal pessoa seria imediatamente desqualificada para ser médica ou conselheira? Não duvidaríamos da validade de sua sabedoria? Certamente que sim, pois seus atos não estão de acordo com sua sabedoria intelectual. De que adianta toda a sua sabedoria se ele não a aplica na prática, nem mesmo em prol de seu próprio bem estar? O mesmo se aplica a nós. Aquele cujas ações contradizem seu conhecimento se comporta como um jumento carregando livros de sabedoria nas costas. O peso dos livros não lhe acrescenta nenhuma sabedoria. Portanto, podemos definir que sábio não é aquele que "carrega" sabedoria intelectual, e sim aquele que a aplica para o bem, como diz o versículo: "O sábio teme e se afasta do mal" (Mishlei 14:16). E onde está o temor? No coração, que sente e coloca na prática a força do intelecto. Por isso, a Torá vincula a sabedoria ao coração. O Talmud (Shabat 31b) explica que temor e sabedoria são uma coisa só. Assim como a sabedoria só nasce do temor, o temor só pode surgir da sabedoria, pois eles são uma só entidade, como ensinam nossos sábios: "O temor a D'us é sabedoria" (Yov 28:28) e "O início da sabedoria é o temor a D'us" (Mishlei 1:7). E como o lugar do temor é o coração, não faz sentido dizer que o cérebro é sábio. É por isso que a Torá repete tantas vezes na Parashá a expressão "sábio de coração". Mas qual é a conexão na prática entre o temor e a sabedoria? Por exemplo, aquele que tem temor não interrompe seu estudo com assuntos vãos. Também o seu medo de cometer transgressões vai levá-lo a estudar mais, para garantir que não cometerá erros na Halachá. Também, por temer a D'us, esta pessoa nunca desprezará a sabedoria infinita do Criador. E, finalmente, a pessoa com temor a D'us também respeita os sábios de Torá, pois sabe que precisa deles para aprender os ensinamentos de Torá que o conectarão a D'us. Shlomo Hamelech vai mais longe e ensina: "No final, tudo tendo sido ouvido, tema a D'us e guarde Seus mandamentos, pois isso é todo o homem" (Kohelet 12:13). Shlomo Hamelech está nos ensinando que somente aquele que teme a D'us é digno de ser chamado de "homem". É evidente que uma pessoa cujo coração está vazio de sabedoria, mesmo que ela esteja toda concentrada em sua mente, não tem vantagem sobre um animal. Mas será que não é um exagero comparar uma pessoa sem sabedoria no coração a um animal? Infelizmente, não. Tomemos como exemplo o famoso profeta Bilaam. Por um lado, ele possuía tanta sabedoria que, de acordo com o Talmud (Brachot 7a), era comparável com a de Moshé. Por outro, ele era extremamente perverso, dominado pelos desejos e prazeres do mundo material, e por isso se comportava pior do que um animal. Onde estava, portanto, sua sabedoria? Era apenas sabedoria da mente, mas não do coração. O problema é que o ser humano, por natureza, distorce e corrompe a verdade. Ele diz a si mesmo: "É óbvio que sou um grande sábio, portanto, certamente também sou temente a D'us". Esse raciocínio por si só já é prova da falta de sabedoria, pois se a base da sabedoria é o temor a D'us, o verdadeiro temor se expressa em um temor real e uma reverência profunda, e quem de fato teme a D'us não confia em sua própria sabedoria. É justamente esse medo que leva o temente a alcançar a sabedoria, como está escrito: "O princípio da sabedoria é o temor a D'us; bom entendimento para todos os que a praticam" (Tehilim 111:10). O Rav Meir Rubman zt"l (Israel, século 20) explica que, portanto, para cumprir tudo o que D'us ordenou, não basta ter sabedoria intelectual, é necessário ser "sábio de coração". Isso significa que ele deve ser sábio em sua essência interior, em seus sentimentos. Isso se assemelha a alguém que possui um depósito cheio de remédios. Essa posse, por si só, não garante sua cura. Para se curar, ele precisa ingerir os remédios, e só então eles terão efeito. O mesmo ocorre com a Torá, que é o remédio contra o Yetzer Hará, como afirma o Talmud (Kidushin 30b): "Eu Criei o Yetzer Hará, e Eu criei a Torá como antídoto para ele". Mas apesar de a Torá ser uma cura, ela é como um medicamento, isto é, apenas cura a alma quando o homem a "ingere", isto é, a internaliza profundamente, em seus sentimentos e em seu coração. Portanto, quem deseja avaliar seu próprio nível de sabedoria deve primeiro medir seu nível de temor a D'us. Se uma pessoa quiser saber se a sabedoria da Torá penetrou de fato em seu coração ou se ainda permanece apenas na sua mente, ela deve observar o quanto teme cometer transgressões. Por exemplo, um verdadeiro temente a D'us evita alimentos com possível proibição de Kashrut com a mesma força que teria evitado uma comida potencialmente contaminada com veneno. O medo do veneno nos faz tremer. Se esse mesmo temor não estiver presente diante de uma transgressão, então é sinal de que o temor ainda não está enraizado em nosso coração, está apenas em nossa mente. Este teste é ainda mais real quando a pessoa está sozinha, apenas ela e D'us. Neste momento ela demonstrará se realmente tem temor a D'us, ou apenas medo de manchar publicamente sua honra. O estudo de Mussar é o meio mais adequado para incutir o temor no nosso coração. Pedimos diariamente na nossa Tefilá: "Coloca em nosso coração o entendimento, a sabedoria, para ouvir, aprender, ensinar, guardar, cumprir e realizar todas as palavras da Sua Torá". Pedimos a D'us que coloque sabedoria em nosso coração, não apenas em nossa mente, para que um dia possamos ser sábios de verdade. SHABAT SHALOM R' Efraim Birbojm |