quinta-feira, 8 de março de 2012

SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ KI TISSÁ 5772

BS"D

 

NÃO CONDENE DE FORMA PRECIPITADA - PARASHÁ KI TISSÁ 5772 (09 de março de 2012)

 

Um pai desejava ensinar aos seus quatro filhos uma importante lição a respeito de julgamentos precipitados. Assim, enviou cada um deles, em uma estação diferente do ano, para observar uma determinada árvore que estava plantada em uma terra distante. O primeiro filho chegou no inverno, o segundo na primavera, o terceiro no verão e o quarto no outono. Quando voltaram, cada um tentou descrever a árvore que havia visto.

 

O primeiro informou que a árvore era feia, seca e retorcida. O segundo, indignado com o que havia escutado de seu irmão, disse que a árvore não tinha nada de seca, ao contrário, estava carregada de botões, cheia de promessas. O terceiro filho contestou a descrição dos dois irmãos e afirmou que viu uma árvore coberta de flores, com um cheiro doce e de incrível beleza. Finalmente, o quarto filho falou que ninguém soubera descrever a árvore de maneira correta, pois era uma árvore frutífera, carregada de frutas e de vida. Os quatro irmãos começaram então a discutir, cada um tentando provar que estava certo, mas não chegavam a nenhuma conclusão. O pai precisou intervir. Ponderado, explicou:

 

- Vocês todos estão certos. A diferença é que cada um julgou a árvore apenas de acordo com a época do ano em que a viram. Vocês viram a árvore de forma limitada e tomaram decisões precipitadas.

 

- Na vida - continuou o pai - também é assim. Quase sempre somos precipitados nos julgamentos. Para julgar com acerto, compete-nos observar com atenção e procurar, antes de decidir, informações detalhadas.

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Na Parashá esta semana, Ki Tissa, a Torá descreve uma das maiores transgressões cometidas pelo povo judeu: a construção do bezerro de ouro. Foi algo tão grave que D'us decidiu destruir todo o povo, fato que não aconteceu somente graças à intervenção de Moshé e à Teshuvá (arrependimento) de todo o povo.

 

Mas este episódio levanta muitos questionamentos, pois é difícil entender como os judeus puderam fazer um bezerro de ouro 40 dias depois da revelação de D'us no Monte Sinai. Será que eles realmente fizeram idolatria? Lendo a Torá de maneira superficial, parece que sim. Mas quando deixamos escapar importantes detalhes, comprometemos todo o entendimento do que foi transmitido por D'us. E um exemplo clássico disso é o episódio do bezerro de ouro.

 

Observando com cuidado os versículos, percebemos muitas dificuldades e contradições. Por um lado parece óbvio que o povo fez idolatria. Por exemplo, inicialmente a Torá diz explicitamente que foi isto o que o povo pediu para Aharon: "Nos faça um deus que ande na nossa frente" (Shemot 32:1). Há também adiante outro versículo explícito: "Eles disseram: este é o seu deus, Israel, que te tirou da terra do Egito" (Shemot 32:4).

 

Porém, por outro lado parece que não foi idolatria, pois logo depois está escrito "Um festival para D'us amanhã" (Shemot 32:5). Se estavam criando uma nova religião com um novo deus, a festa deveria ser para o bezerro de ouro, não para D'us! Além disso, as pessoas querem deuses da guerra, da fertilidade e até mesmo do amor. Não é muito pouco os judeus pedirem um novo deus cuja única função seria andar diante deles? E finalmente, se Moshé era apenas o líder do povo, será que sua morte justificava a criação de uma nova religião com um novo deus?

 

Há também algumas outras dificuldades nos versículos. Por exemplo, assim D'us avisou para Moshé que o povo havia pecado: "Seu povo, que você trouxe da terra do Egito, se corrompeu" (Shemot 32:7). O povo era de Moshé? Foi ele quem decidiu tirar o povo do Egito?

 

Finalmente, há algumas dificuldades em relação ao castigo aplicado ao povo. Primeiro está escrito que Moshé, ao ver o bezerro de ouro, ficou muito bravo. Ele moeu o bezerro até virar um pó fino, espalhou sobre a água e fez os judeus beberem (Shemot 32:19). Que tipo de castigo é esse? Além disso, mais adiante a Torá fala sobre 3 mil mortos, executados com espadas pelos homens da tribo de Levi (Shemot 32:26-28). E alguns versículos depois, a Torá fala da morte dos transgressores através de uma praga (Shemot 32:35). Por que tantos castigos diferentes para a mesma transgressão?

 

Ensina o Rav Dovid Gottlieb que a chave para começar a entender tantas contradições é saber que não houve um único pecado, mas diferentes pecados, cometidos por diferentes pessoas.

 

O problema começou quando Moshé subiu no Monte Sinai e avisou que voltaria depois de 40 dias. Mas devido a um erro na contagem feita pelo povo, ele não desceu na data esperada. Acreditando que ele havia morrido, os judeus entraram em pânico, pois viam Moshé como o intermediário entre eles e D'us. Desde a saída do Egito, a interação de D'us com o povo sempre veio através de Moshé. As pragas começaram e terminam através dele, o Mar Vermelho abriu e fechou ao comando dele. Sem Moshé, o povo se sentiu desconectado de D'us. Era necessário urgentemente escolher um novo intermediário e criar uma nova conexão com D'us. Por que uma estátua? Pois acharam que se fosse novamente alguém de carne e osso, quando esta pessoa morresse, novamente teriam uma crise.

 

É por isso que o versículo ressalta que era um festival para D'us, pois eles não pretendiam criar uma nova religião, não faria sentido 40 dias depois da revelação de D'us. O que eles queriam era uma nova conexão com D'us, que eles acharam que havia sido interrompida. Esta foi a intenção da grande maioria do povo.

 

Então o que significa o versículo "Eles disseram: este é o seu deus, Israel, que te tirou da terra do Egito"? Dentro do povo havia um pequeno grupo que ultrapassou a "linha vermelha" e realmente fez idolatria. Quem fazia parte deste grupo? Na descrição da saída do Egito há um versículo que ajuda a responder: "E também uma grande multidão subiu com eles, e rebanho e gado, e uma posse de animais muito grande" (Shemot 12:38). Que grande multidão era esta? Eram egípcios que ficaram impressionados com os milagres das pragas e quiseram se juntar ao povo judeu. Moshé aceitou levá-los junto com o povo, mas D'us não deixou, pois sabia que a única motivação deles era o medo do castigo, não havia amor pelos caminhos corretos. Mesmo assim Moshé insistiu e finalmente D'us concordou, mas avisou que seria responsabilidade de Moshé caso ocorressem problemas. Foi por isso que D'us disse que o povo que pecou era "o seu povo", que Moshé, sob sua própria responsabilidade, havia decidido tirar do Egito.

 

Estes egípcios não haviam se arrependido de coração de todos os seus pecados e, portanto, ainda estavam conectados com suas idolatrias. Infelizmente eles conseguiram enganar também alguns judeus, que começaram com a idéia de uma nova conexão com D'us, mas acabaram também cruzando a linha vermelha da idolatria. Porém, nem todos os que cometeram idolatria pecaram da mesma maneira e, por isso, foram castigados de maneiras diferentes.

 

Para um Beit Din (Tribunal) aplicar a pena de morte em uma pessoa que cometeu transgressões puníveis com morte, como idolatria, há duas condições: é necessário que a transgressão tenha sido vista por pelo menos duas testemunhas e que o transgressor tenha sido advertido, antes da transgressão, de que seu ato seria punido com morte.

 

Uma parte daqueles que cometeram idolatria o fizeram diante de testemunhas e após terem sido advertidos. Foram os 3 mil que a Torá descreve que receberam como punição a morte com espadas. Outra parte transgrediu diante de testemunhas, mas sem ter recebido advertência. Portanto, este segundo grupo, que não podia ser morto através do Beit Din, morreu através de uma praga. Houve ainda um terceiro grupo que fez idolatria sem testemunhas, isto é, não demonstraram através de seus atos, apenas o fizeram em seus corações. Como saber quem havia se comportado desta maneira? A água com ouro era um "teste interno", para aqueles que fizeram a transgressão escondidos. Quem havia feito idolatria em seu coração morreu ao beber a água.

 

E como explicar o versículo que diz "Nos faça um deus que ande na nossa frente", já que este versículo, pelo contexto, certamente se refere a um pedido feito pela maioria do povo? A resposta é que o termo utilizado neste versículo, "elohim", significa tanto "deus" quanto "intermediário". O mesmo termo é utilizado, por exemplo, quando D'us mandou Aharon acompanhar Moshé no encontro com o Faraó, como está escrito: "Ele será para você uma boca e você será para ele elohim" (Shemot 4:16). Certamente Moshé não seria um deus para Aharon, e sim um intermediário entre ele e o faraó. Se fosse realmente um deus que o povo judeu estava construindo, iriam esperar muito mais dele. Como a intenção era apenas ter um intermediário, o único propósito do bezerro de ouro era andar na frente deles, isto é, guiá-los, da mesma forma que Moshé, um intermediário de D'us, fazia.

 

A conclusão é que a maioria do povo judeu cometeu, ao contrário do que parecia, apenas um crime "filosófico", isto é, tomou decisões que D'us não havia pedido e de maneira que Ele não havia ensinado. Eles quiseram inventar uma nova conexão. Mas D'us não nos pediu para criarmos nada novo, pois não decidimos nada aqui. D'us nos deu livre escolha, mas é Ele, e apenas Ele, Quem decide o que é certo ou errado e como as coisas devem ser feitas.

 

Portanto, a pergunta "Como os judeus puderam fazer idolatria 40 dias depois do Sinai?" é um equívoco.  Eles erraram, um erro considerado por D'us como algo muito grave, mas não foi idolatria. Então por que D'us não ensinou explicitamente este conceito? Um dos motivos é para nos deixar um ensinamento muito importante: nunca devemos julgar pessoas ou situações apenas pelas aparências. Se lemos a Torá de forma superficial, parece que todo o povo cometeu idolatria. Mas quando nos aprofundamos e entendemos todas as dificuldades e contradições dos versículos, aprendemos que foi uma transgressão que, apesar de séria, era muito menor do que idolatria.

 

Da mesma forma erramos quando vemos alguém com atitudes que não concordamos e somos rápidos em julgar para o mal, sem antes verificar o que ocorreu. Sempre consideramos que foi muito mais grave do que realmente foi e não procuramos os motivos que podem ter levado a pessoa a cometer este erro. Julgamos de maneira precipitada e sem todos os dados em mãos.

 

O Pirkei Avót nos ensina o comportamento correto: "Julgue toda pessoa para o bem" (Pirkei Avót 1:6). Mas a tradução literal seria "Julgue toda a pessoa para o bem". O que significa julgar toda a pessoa? Que quando julgamos alguém, não podemos julgar de maneira superficial, temos que conhecer os detalhes. Se uma pessoa está mal-humorada, pode ser que acabou de perder o emprego, bater o carro ou perder dinheiro. Da mesma maneira que gostaríamos que os outros levassem em consideração nossas dificuldades quando fazemos algo errado, assim devemos nos esforçar para procurar sempre motivos de como julgar os outros para o bem.

 

SHABAT SHALOM

 

R' Efraim Birbojm

 

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