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sexta-feira, 26 de junho de 2026

O REINADO NO CÉU E NA TERRA - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHIÓT CHUKAT E BALAK 5786

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PARASHIÓT CHUKAT E BALAK 5786


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PARASHAT CHUKAT

  • A Vaca Vermelha
  • A morte de Miriam e reclamação por falta de água.
  • Água da Rocha - Erro e castigo de Moshé e Aharon.
  • Encontro com Edom.
  • A morte de Aharon.
  • Confrontação com Canaan (Amalek).
  • A reclamação, as Serpentes e o Mastro de cobre.
  • Jornadas Posteriores.
  • Cântico do Poço.
  • Confrontações com Sichon e Og.

PARASHAT BALAK
  • Balak, rei de Moav, contrata Bilaam
  • Bilaam pede permissão a D’us.
  • Mula de Bilaam e o anjo no caminho.
  • 3 tentativas de amaldiçoar o povo judeu convertidas em 3 Brachót.
  • A transgressão do povo judeu com as mulheres de Midian.
  • A transgressão pública de Zimri (Shimon) e Kosbi (Midian)
  • O zelo de Pinchás (Levi).
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O REINADO NO CÉU E NA TERRA - PARASHIÓT CHUKAT E BALAK 5786 (26/jun/26)

“Em Radin, na Polônia, o inverno era muito rigoroso. As noites eram longas e o frio penetrava pelas frestas das casas. Para muitas famílias pobres, conseguir lenha suficiente para aquecer o lar era uma preocupação constante.
 
O Rav Israel Meir HaCohen zt”l (Biellorússia, 1838 - POlônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, sabia que entre os mais necessitados da cidade estavam algumas viúvas, que enfrentavam grandes dificuldades para obter lenha para seus fogões e aquecer suas casas durante os meses mais frios do ano. Em vez de limitar-se a arrecadar fundos ou delegar a tarefa a outras pessoas, o Chafetz Chaim acompanhava pessoalmente, de forma discreta, a situação dessas mulheres. Procurava descobrir quem estava precisando de ajuda, organizava a entrega da lenha de forma reservada e envolvia-se para garantir que nenhuma delas ficasse sem aquecimento.
 
Certa vez, moradores da cidade o viram carregando toras de madeira com as próprias mãos. Não havia qualquer sinal de honra ou distinção em sua aparência. O grande líder do povo judeu caminhava pelas ruas como um simples trabalhador, ocupado em levar lenha para quem precisava. As pessoas ficaram surpresas. Afinal, tratava-se do Chafetz Chaim, cuja influência e grandeza na Torá eram reconhecidas em todo o mundo judaico. Alguém então lhe perguntou por que ele estava realizando pessoalmente um trabalho que poderia facilmente ser realizado por outra pessoa. Sua resposta foi simples e direta:
 
- Se uma viúva está com frio, isso não pode esperar nada. Isso precisa ser resolvido agora.”
 
A resposta do Chafetz Chaim revela muito mais do que um ato de bondade. Mostra a essência de um verdadeiro líder. O Chafetz Chaim não enxergava apenas uma necessidade comunitária, ele enxergava uma pessoa sentindo frio naquele momento. E quando a necessidade de outro judeu se tornava real diante de seus olhos, não havia espaço para discursos, planejamentos ou adiamentos, era preciso agir. Talvez seja essa a definição de liderança: não a grandeza de quem está acima dos outros, mas a sensibilidade de quem se sente responsável por eles.

Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Chukat (literalmente “Estatutos”) e Balak. A Parashat Chukat traz alguns assuntos muito marcantes na história do povo judeu, como o falecimento de Miriam e de Aharon HaCohen, além do fatídico erro de Moshé com a pedra, que o impediu de entrar na Terra de Israel. Já a Parashat Balak fala sobre um dos personagens mais contraditórios da Torá: o profeta Bilaam, que por um lado tinha um nível espiritual equivalente ao de Moshé Rabeinu, mas que terminou se deixando dominar por seus desejos e pela busca de honra, fazendo atos muito baixos e vergonhosos.
 
Mas em que consistia esse potencial espiritual tão elevado de Bilaam? O Talmud (Brachót 7a) afirma que D’us manifesta Sua ira apenas durante um instante específico e muito breve a cada dia. Ao longo da história, apenas uma pessoa foi capaz de identificar com precisão o exato momento em que isso ocorre: Bilaam. O sucesso de Bilaam em amaldiçoar pessoas ou povos inteiros dependia justamente de identificar precisamente esse momento da ira Divina e pronunciar sua maldição naquele instante.
 
Foi justamente esta sua “habilidade espiritual” que chamou a atenção de Balak, rei de Moav. Balak viu o avanço do povo judeu no deserto, derrotando sucessivamente seus inimigos, e sentiu medo. Mas Balak entendeu que não era possível vencer o povo judeu apenas com uma guerra física. Bilaam então foi contratado por uma enorme quantia de ouro para o trabalho de destruir espiritualmente o povo judeu através de suas maldições.
 
Os Tossafotim, comentaristas do Talmud, fazem uma pergunta muito interessante. Se Bilaam tinha apenas alguns poucos instantes para pronunciar sua maldição, então o que ele poderia ter dito contra o povo judeu em um intervalo de tempo tão curto e que, ainda assim, produzisse o efeito devastador que ele desejava? Eles respondem que Bilaam queria pronunciar uma única palavra: “Kalem” (כלם), que significa: “Destrua-os”.
 
D’us, porém, tinha outros planos. Em vez de permitir que Bilaam pronunciasse “Kalem”, Ele rearranjou as letras e fez com que de sua boca saísse a palavra “Melech” (מלך), que significa “rei”. Assim, ao invés de proferir uma maldição, Bilaam acabou declarando: “E a aclamação do Rei está entre eles” (Bamidbar 23:21).
 
A priori, poderíamos pensar que não havia diferença na palavra que D’us fez Bilaam pronunciar, bastava que fosse anulada a maldição que ele tramava fazer contra o povo judeu. Talvez D’us poderia ter rearranjado as letras de outra maneira, formando, por exemplo, a palavra “Mikol” (מכל), que significa “de todos”, um termo que neste caso não teria nenhum sentido, seria algo aparentemente neutro.
 
Entretanto, o Rav Shmuel Eliezer Halevi Eidels zt”l (Polônia, 1555 - 1632), mais conhecido como Maharsho, observa que quando Moshé relembrou o episódio de Bilaam em seus discursos finais, ele disse: “Mas Hashem, teu D’us, transformou para vocês a maldição em Brachá” (Devarim 23:6). Isso significa que D’us não quis apenas silenciar Bilaam anulando sua maldição, e sim quis ativamente transformar a maldição dele em Brachá. Portanto, a escolha da palavra “Melech” não foi apenas uma forma de evitar uma maldição, e sim a transformação da própria maldição em Brachá para o povo judeu. Mas como a palavra “Melech” se configura em uma Brachá?
 
Para compreender plenamente essa ideia, precisamos primeiro entender a natureza de um Melech. O Rav Moshe Chaim Luzzato zt”l (Itália, 1707 - Israel, 1746) explica que as referências à Malchut de D’us indicam um atributo que engloba Seu papel como Criador do mundo e como Aquele que continua a sustentá-lo e conduzi-lo. O reinado de D’us representa Sua escolha de manter uma relação direta com a humanidade. Portanto, quando nos referimos a D’us como “Melech”, estamos expressando a relação entre D’us como governante e os seres humanos como Seus súditos.
 
Em uma observação fascinante, o Rav Yehuda Loew zt”l (Polônia, 1525 - República Checa, 1609), mais conhecido como Maharal de Praga, aponta que essa ideia está insinuada nas próprias letras da palavra “Melech”. A letra “י” (Yud) corresponde ao número dez, o número mínimo necessário para formar um Minyan, uma congregação. As três letras seguintes do alfabeto são כ, ל e מ, (Chaf, Lamed e Mem), as letras que compõem a palavra “Melech” em ordem inversa. Isso nos ensina que o “Rei” se volta em direção ao “Yud”, isto é, em direção ao povo. Mais ainda, o rei não se relaciona apenas com a nação como um todo, mas também com cada indivíduo que a compõe em particular. O Yud, a menor das letras, representa cada indivíduo do povo.
 
Com base nessa compreensão da Malchut de D’us, podemos entender por que a palavra “Melech” constitui uma Brachá. Um rei possui uma relação com seu povo. Não há no mundo reinado sem povo. Quando Bilaam declarou que haveria um Melech entre o povo judeu, isso significava que D’us manteria Sua relação com Seu povo, e, consequentemente, a existência do povo judeu se tornaria indispensável. Em essência, Bilaam acabou pronunciando uma Brachá pela continuidade da existência do povo judeu e por sua relação única com D’us.
 
Mas há outro ensinamento importante que podemos aprender deste conceito de “Melech”. O Talmud (Brachót 58a) afirma que o rei judeu é uma representação neste mundo da Malchut de D’us. Portanto, a descrição da realeza Divina apresentada acima deve refletir-se, em certa medida, também na figura de um rei de Israel. Um verdadeiro rei não é alguém que permanece sentado no palácio, distante do povo. Um verdadeiro rei se preocupa com seus súditos e age em benefício deles. Encontramos diversas vezes que os reis de Israel repreendiam o povo, ensinavam Torá e saíam para a guerra lutando ao lado de seus irmãos.
 
A própria linguagem da Torá oferece uma interessante associação. A Torá utiliza constantemente o termo “Nessiim” para se referir aos líderes das Tribos de Israel. Da mesma forma, o título “Nassi” também é utilizado em relação ao rei do povo judeu. Curiosamente, a Torá também utiliza essa mesma palavra, Nessiim, para designar as nuvens do céu, como está escrito: “Ele faz subir as nuvens (Nessiim) dos confins da terra” (Tehilim 135:7). Mas por que o mesmo termo descreve tanto os líderes do povo judeu quanto as nuvens?
 
O Rav Shimshon Refael Hirsch zt”l (França, 1808 - Alemanha, 1888) explica que as nuvens se formam reunindo  água da terra. Depois de se encherem, porém, elas não guardam essa água para si mesmas. Ao contrário, elas devolvem-na ao mundo sob a forma de chuva, que traz Brachá e vida. O mesmo deve ocorrer com um líder judeu verdadeiro. O povo concede-lhe honra, influência e autoridade. Contudo, isso não deve ser utilizado para o seu próprio benefício. A função do rei é devolver ao povo aquilo que recebeu, utilizando sua posição para ajudar e elevar seus súditos. Um governante que se preocupa genuinamente com seu povo e deseja manter uma ligação próxima com cada indivíduo é um verdadeiro líder.
 
Infelizmente, estamos acostumados com governantes corruptos e egoístas, preocupados com seus próprios projetos de honra e poder. Esta não é a forma que a Torá exige que um líder se comporte. Baruch Hashem tivemos em nossa história muitos modelos de liderança, como Moshé, David Hamelech e Shmuel Hanavi, gigantes espirituais que abriram mão de suas vidas pessoais para se dedicar às necessidades do povo judeu. Foi exatamente essa liderança que vimos no Chafetz Chaim, que colocava a necessidade de outro judeu acima da sua própria honra. Nossos líderes são uma enorme fonte de inspiração, que nos iluminam e orientam nossas vidas até hoje. São os faróis que nos guiam nesta época de tanta escuridão espiritual.

SHABAT SHALOM 

R’ Efraim Birbojm

 

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quinta-feira, 17 de julho de 2025

NEM TUDO É O QUE PARECE - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ BALAK 5785

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NEM TUDO É O QUE PARECE - PARASHÁ BALAK 5785 (11/jul/25)

Era uma manhã clara e quente em Nova York. Como sempre, executivos, vendedores, corretores e consultores caminhavam rapidamente pelas ruas movimentadas de Manhattan, apressados para não perder nenhuma oportunidade. Entre eles estava Avraham, um empresário judeu ortodoxo, que tinha uma importante reunião marcada para antes das 9h00 em um famoso edifício comercial da região.
 
A reunião havia sido marcada com semanas de antecedência. Era uma chance rara de fechar um contrato que poderia mudar o rumo de sua carreira. Naquela manhã, Avraham vestiu seu melhor terno, pegou sua pasta e saiu de casa, confiante de que tudo daria certo. Para não correr riscos, decidiu sair um pouco mais cedo.
 
Ao sair, ele rapidamente chamou um táxi. Entrou e deu o endereço ao motorista. Porém, por algum motivo que até hoje ele não entende, o motorista não seguiu a rota correta. Ao invés de ir rumo ao sul, para o centro financeiro, o táxi seguiu para o norte. Ao perceber, Avraham começou a reclamar, mas o motorista parecia confuso, falava pouco inglês e não entendia o que Avraham dizia. Era desesperador, mas eles não conseguiam se comunicar.
 
Quando finalmente o motorista entendeu o erro, já estavam muito longe. O trânsito agora estava carregado e o relógio implacável. O suor escorria, e Avraham consultava o relógio a cada minuto, sentindo que um grande negócio escapava de suas mãos. Finalmente, sem mais chances de chegar na hora, ligou para o escritório e ouviu o inevitável: "Não podemos esperar. A reunião está cancelada".
 
Frustrado, nervoso, humilhado e com um senso de fracasso, ele pediu que o taxista o levasse de volta para casa. Estava irritado consigo mesmo, com o motorista, com o universo. Ele chegou em casa por volta das 9h20. Jogou a pasta no sofá, soltou o nó da gravata e ligou o rádio para escutar as notícias e tentar se distrair. Foi então que escutou uma notícia da qual nunca mais se esqueceria. Um avião havia se chocado contra a Torre Norte do World Trade Center. Logo depois, outro avião atingiu a Torre Sul. Era o dia 11 de setembro de 2001.
 
Avraham começou a tremer. A Torre Norte era onde sua reunião deveria ter acontecido. Ela foi atingida exatamente no horário em que ele estaria na reunião. O escritório onde o encontro estava marcado estava nos andares superiores da Torre Norte, justamente onde o impacto e as chamas tornaram a fuga impossível.
 
Naquele instante, tudo mudou. O que antes era raiva virou perplexidade. O que era decepção virou tremor. E o que parecia um erro revelou-se uma salvação com assinatura Divina. Dias depois, Avraham encontrou o Rav Paysach Krohn shlita e, com lágrimas nos olhos, contou: "Na hora, eu pensei: 'Como D'us pode estar fazendo isso comigo? Eu precisava tanto dessa reunião!'. Mas, agora, eu só consigo agradecer. D'us me mandou um anjo com sotaque estranho e um péssimo senso de direção. E esse anjo salvou a minha vida".
 
Quantas vezes, em nossas vidas, as coisas parecem dar errado quando, na verdade, estão dando muito certo, só que de um jeito que ainda não conseguimos enxergar?

Nesta semana lemos a Parashá Balak, que descreve um dos personagens de personalidade mais complexa de toda a Torá: Bilaam. Por um lado, ele tinha um nível espiritual compatível com o de Moshé, podendo se aconselhar com D'us sempre que quisesse, além de ter o dom de amaldiçoar ou abençoar povos inteiros. Mas, por outro lado, ele se entregava à busca de honra, luxúria e prazeres, mesmo moralmente abomináveis. Por exemplo, ele aceitou a proposta de Balak, rei do povo de Moav, de amaldiçoar o povo judeu, incluindo mulheres, crianças e idosos.
 
Apesar de D'us ter falado para Bilaam explicitamente que ele não deveria amaldiçoar o povo judeu, já que era um povo abençoado, ainda assim ele foi. D'us então mandou um anjo para impedir que a jumenta na qual Bilaam montava continuasse o caminho, como está escrito: "Bilaam levantou-se cedo, selou sua jumenta e acompanhou os emissários de Moav. A ira de D'us se acendeu porque ele foi, e D'us colocou um anjo no caminho para impedi-lo" (Bamidbar 22:22). Que anjo era esse? Rashi (França,1040 - 1105)
 identifica o ser celestial como um "anjo de misericórdia". D'us tentou impedir Bilaam, pois queria evitar que ele fizesse algo que o conduzisse à sua autodestruição. Caso ele fosse amaldiçoar o povo judeu, estaria se envolvendo em uma conduta que o levaria à morte.
 
Porém, o próximo versículo diz: "A jumenta viu o anjo de D'us parado na estrada, com a espada desembainhada na mão" (Bamidbar 22:23). A imagem aterrorizante de um anjo com a espada desembainhada não combina com nosso conceito de "anjo de misericórdia". Talvez esperaríamos um ser angelical com auréola na cabeça e um sorriso, não uma espada. Então, como entender que este anjo assustador era um anjo de misericórdia?
 
O Rav Avraham Yaacov Pam zt"l (Lituânia, 1913 - EUA, 2001) explica que um anjo de misericórdia pode se apresentar sob diferentes formas e disfarces. Inclusive, às vezes ele pode parecer a criatura mais assustadora que já vimos. Como isso é possível? O que define a misericórdia de um anjo não é a sua aparência, e sim a sua função. O papel deste anjo era deter Bilaam, para o bem dele. E, para cumprir sua missão, ele fez o que era necessário. O aspecto misericordioso do anjo não está na aparência, e sim no fato de ele estar impedindo alguém de causar dano a si mesmo, não importando qual disfarce utilize para isso.
 
O Rav Pam trazia este conceito aos seus alunos da Yeshivá para explicar como lidar com as decepções da vida. Como muitos de seus alunos já estavam em idade de se casar, ele explicava que várias desilusões poderiam ocorrer no processo de buscar a pessoa certa. Um jovem pode conhecer uma moça e achar que este é o melhor Shiduch que poderia encontrar. Ele fica empolgado, cheio de expectativa, e então algo acontece e tudo desmorona. De repente, o iminente "Lechaim" é cancelado. Naturalmente, o rapaz e sua família ficam muito abalados e desapontados. Por que D'us fez isso? Ela parecia ser a pessoa perfeita! Tudo estava indo tão bem! O Rav Pam ensinava que mesmo nestas situações devemos ter uma Emuná completa. Isso inclui saber que muitas vezes na vida uma decepção momentânea foi a melhor coisa que poderia ter nos acontecido. D'us sabe muito mais do que nós. Ele sabia que aquela primeira pessoa não era a certa. O verdadeiro par, mais adequado, só apareceria depois. No momento em que o Shiduch desmorona, tudo parece uma tragédia, um desastre, como um anjo com sua espada desembainhada diante de nós. Mas, na verdade, trata-se de um anjo de misericórdia.
 
O anjo da misericórdia nem sempre vem com uma auréola na cabeça. Às vezes, ele se apresenta de forma assustadora. Na forma de um fracasso, de uma oportunidade perdida, de um cancelamento de voo. Nós enxergamos somente o momento, o instante, mas D'us enxerga longe. Ele sabe a verdadeira consequência das nossas escolhas. Às vezes o anjo de misericórdia vem vestido de tropeços, parece um anjo de destruição. Porém, ao nos impedir de nos prejudicarmos com nossas escolhas, ele cumpre com sucesso sua "missão de misericórdia".
 
E isso obviamente não se aplica apenas a casamentos. Isso vale para todas as áreas da vida. Nos negócios, empregos ou investimentos, nos qual a pessoa coloca muitas esperanças, apenas para ver tudo fracassar. A expectativa inicial é seguida de um balde de água fria. Quem nunca passou por isso? Mas, muitas vezes, aquela frustração de curto prazo, que levou a pessoa a mudar seus planos ou metas, se revela mais tarde como a maior Brachá que poderia ter ocorrido.
 
Um exemplo marcante provavelmente mudou a história do judaísmo americano. Antes de o Rav Yaacov Kamenetzky zt"l (Lituânia, 1891 - EUA, 1986) vir para os Estados Unidos, ele se candidatou a um cargo rabínico em uma cidade da Europa. Após passar por entrevistas e criar uma enorme expectativa, ele acabou perdendo a vaga para outro candidato. O Rav Kamenetzky ficou extremamente desapontado. Precisando de sustento, não teve escolha a não ser viajar para a América. Por um tempo, esteve em Seattle, Washington, e depois em Toronto. Terminou sua saga em Nova York, na Yeshivá Torá Vadaat, onde se tornou seu grande Rosh Yeshivá, inspirando ao longo dos anos milhares de alunos. Por outro lado, o rabino que ficou com a vaga na Europa, bem como todos os habitantes da cidade onde o Rav Kamenetzky queria trabalhar, foram dizimados pelos nazistas.
 
Se prestarmos atenção, encontraremos histórias assim em nossas vidas. Quantas vezes criamos expectativas, mas nos frustramos com fracassos. Pensamos que estávamos sendo bloqueados pelo Yetzer Hará, que nossos planos estavam sendo arruinados por "forças do mal". Mas muitas vezes nos enganamos, pois aquele que julgamos ser o Yetzer Hará pode ser, na verdade, um anjo de misericórdia.
 
O tempo mostrou que D'us tinha planos muito maiores para o Rav Kamenetsky, mesmo quando diante dele estava um anjo com a espada desembainhada. Mas é preciso tomar cuidado para também não nos decepcionarmos caso futuramente a Brachá que esperávamos não apareça. Se a pessoa perdeu uma oportunidade, ela deve saber que isto foi o melhor que deveria acontecer, mesmo caso não consiga futuramente enxergar a Brachá. Muitas coisas apenas entenderemos após sairmos deste mundo, quando D'us se revelará e as luzes se acenderão, nos permitindo enxergar o quadro completo. As Brachót não necessariamente estão onde imaginamos. O sucesso não está sempre onde esperamos. Devemos confiar, com plena tranquilidade, que tudo o que D'us faz é para o bem. Nós somos limitados, mas Ele vê o todo. Suas Brachót podem vir disfarçadas, mas certamente virão.

SHABAT SHALOM

 R' Efraim Birbojm

 

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