quarta-feira, 24 de maio de 2017

O VALOR DA TORÁ - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ BAMIDBAR E SHAVUÓT 5777

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O VALOR DA TORÁ - PARASHÁ BAMIDBAR E SHAVUÓT 5777 (26 de maio de 2017)

"Certa vez um pobre bateu na porta de Shimon, um grande erudito de Torá, um homem extremamente justo e piedoso. Quando Shimon viu que não tinha nada para dar ao pobre, ficou muito triste. Em total desespero, viu na mesa da sala uma pulseira de sua esposa. Achou que era uma pulseira simples, algo de pouco valor. Sem pensar duas vezes, pegou a pulseira e deu ao pobre, que agradeceu e foi embora.
 
Alguns minutos se passaram e a esposa de Shimon entrou em casa. Quando ela percebeu que a pulseira não estava na mesa, começou a procurar desesperada por toda a casa. Foi então que Shimon contou que um pobre faminto havia batido na porta e havia pedido dinheiro, mas como ele não tinha encontrado nada para dar ao pobre, acabou dando a pulseira. A mulher, não acreditando no que havia acabado de escutar, falou:
 
- Shimon, você ficou louco? Aquela pulseira valia muito dinheiro! Custou mais de R$ 500,00!
 
Quando Shimon escutou aquilo, imediatamente saiu correndo atrás do pobre, gritando. O pobre não estava muito longe quando viu Shimon correndo em sua direção, com o rosto desesperado. O pobre se assustou, achando que aquele homem havia se arrependido de sua doação e estava vindo pegar a pulseira de volta. Quase que instintivamente ele começou a correr, fugindo de Shimon. As pessoas da cidade, quando viram Shimon perseguindo o pobre aos berros, também se uniam à perseguição. Quando finalmente o pobre foi alcançado, ele gritou:
 
- Me deixem! Por que vocês estão me perseguindo? Eu não sou ladrão! Este homem me deu a pulseira, ela é minha!
 
Shimon tratou de acalmar os ânimos. Pediu desculpas a todos pelo transtorno causado. Depois, com uma voz tranquila e amigável, virou-se para o pobre e disse:
 
- Meu querido, D'us me livre querer pegar a pulseira de volta. Eu dei de coração, ela é sua. Eu estou correndo atrás de você apenas porque descobri que a pulseira é valiosa, muito mais do que eu imaginei. Portanto, quando você for vender, não peça menos do que R$ 500,00".
 
Esta é a essência de Shavuót, a Festa da entrega da Torá. Porém, mais do que nos entregar a Torá, D'us também quer que saibamos o verdadeiro valor dela, para que não a desprezemos ou a troquemos por coisas baratas.

Nesta semana começamos um novo livro da Torá, Bamidbar (literalmente "No deserto"). Neste livro são detalhados muitos acontecimentos importantes que ocorreram durante os 40 anos em que o povo judeu permaneceu no deserto, como o erro dos espiões, as constantes reclamações por água e comida e as guerras contra outros povos. A Parashá desta semana, Bamidbar, descreve a formação do povo judeu durante as viagens e a forma como acampavam, divididos em tribos, cada tribo com sua posição muito bem definida.
 
Quando refletimos sobre os 40 anos do povo judeu no deserto, algo nos chama a atenção. Foram anos de muitas dificuldades. O deserto é um local inóspito, difícil para o ser humano viver. É um local sem água, sem comida e com muitos perigos naturais. Além disso, D'us testou muitas vezes o povo judeu, fazendo-os acampar por longos períodos em locais não muito agradáveis, enquanto algumas vezes, quando chegavam a um oásis paradisíaco, ficavam apenas poucos momentos. Os judeus já haviam passado 210 anos como escravos, submetidos às maiores crueldades, com castigos físicos e psicológicos. Por que D'us não os tirou do Egito de uma maneira mais tranquila, sem tantas dificuldades?
 
A resposta está na próxima Festividade do calendário judaico, Shavuót, o dia da entrega da Torá no Monte Sinai. Na próxima 3ª feira de noite (30 de maio) começa a Festa de Shavuót e os homens do povo judeu têm o importante costume de passar a noite inteira acordados, estudando Torá. Mas a entrega da Torá não foi um evento simples, envolveu detalhes que nos ensinam lições preciosas. Por exemplo, quando Moshé fez uma "revisão" de toda a Torá, no livro de Devarim, ele trouxe um ensinamento interessante: "E disse (Moshé): "D'us veio do Sinai. Ele brilhou para eles desde Seir, tendo aparecido para eles desde o Monte Paran" (Devarim 33:2). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que este versículo se refere ao momento em que D'us, antes de entregar a Torá ao povo judeu, também a disponibilizou às outras nações do mundo. D'us ofereceu a Torá aos descendentes de Essav, que viviam na terra de Seir. Porém, quando eles descobriram que a Torá continha o mandamento de "Não assassinarás", eles a rejeitaram, argumentando que eles eram pessoas violentas por natureza e, portanto, não poderiam cumprir este mandamento. Algo similar aconteceu com os descendentes de Ishmael, que viviam no Monte Paran. Eles também rejeitaram a Torá ao escutar que ela continha o mandamento "Não furtarás", argumentando que o roubo era algo que já fazia parte de sua natureza.
 
Porém, este ensinamento precisa de esclarecimentos. Em primeiro lugar, estas duas Mitzvót que os outros povos rejeitaram, "Não matarás" e "Não furtarás", também fazem parte das "7 Mitzvót de Bnei Noach", que são as Mitzvót que todos os povos do mundo têm obrigação de cumprir. Portanto, se eles já estavam automaticamente obrigados a cumprir estas Mitzvót, por que as utilizaram como justificativa para não receber a Torá?
 
Além disso, as Mitzvót que aparecem nas "7 Mitzvót de Bnei Noach" são aparentemente muito mais rigorosas do que as Mitzvót da Torá. Por exemplo, de acordo com a Torá, se alguém furta, sua punição é pagar o dobro do valor furtado. Já as Mitzvót de Bnei Noach preveem uma punição capital para esta mesma transgressão, um castigo muito mais duro. Outra diferença importante é que, para uma pessoa ser condenada de acordo com a Torá, é necessário que o transgressor tenha sido previamente avisado de que seu ato é passível de castigo e que duas testemunhas tenham visto a transgressão. Isto não é exigido para aplicar uma punição de acordo com as Mitzvót de Bnei Noach. Portanto, por que os outros povos rejeitaram a Torá argumentando que eles não poderiam cumprir justamente as mesmas Mitzvót que eles já estavam obrigados a cumprir, e de uma maneira muito mais rigorosa?
 
A resposta está em um interessante ensinamento do Rambam (Espanha, 1135 - Egito, 1204), na introdução dos seus comentários sobre o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas). Ele faz o seguinte questionamento: Qual é o maior nível espiritual no nosso serviço Divino, quando naturalmente não temos o desejo de fazer uma transgressão ou quando temos um intenso desejo e, após uma intensa luta interna, finalmente conseguimos vencer nosso Yetser Hará (má inclinação) e cumprir a vontade de D'us? O Rambam chega à conclusão de que há na Torá duas categorias de Mitzvót negativas (transgressões que devemos evitar). Há transgressões que naturalmente sentimos a obrigação de evitá-las, pois entendemos que não evitá-las é algo intrinsecamente errado, como assassinar, roubar ou cometer adultério. A segunda categoria de Mitzvót são aquelas que não teríamos intelectualmente a consciência de que são proibidas e somente evitamos porque D'us nos proibiu, como cozinhar carne com leite e vestir roupas com Shaatnez (mistura de lã com linho).
 
Em relação às Mitzvót que não teríamos consciência de que são intrinsecamente erradas, o maior nível de cumprimento é, apesar de desejar transgredi-las, conseguir se conter porque D'us nos comandou, como diz o Midrash: 'Ensina o Rav Elazar ben Azaria: "A pessoa não deve dizer "Eu me abstenho de comer porco porque não gosto", e sim "Eu gosto de porco, é saboroso, mas eu não como apenas porque D'us me comandou a não comer"'. Já em relação às transgressões que naturalmente identificamos como sendo erradas, a Torá nos ordena a nem mesmo desejar fazê-las. A pessoa que evita fazer estes tipos de transgressão, mas no seu interior ainda deseja fazê-las, está cumprindo estas Mitzvót de maneira incompleta. O maior nível de cumprimento deste tipo de Mitzvá é a pessoa abominar estes atos errados em seu coração.
 
Explica o Rav Yohanan Zweig que a diferença entre as 613 Mitzvót da Torá e as 7 Mitzvót de Bnei Noach não é apenas quantitativa, mas também qualitativa. As 7 Mitzvót de Bnei Noach são essencialmente leis que garantem que a sociedade não se autodestruirá. Das pessoas que cumprem as Mitzvót de Bnei Noach é exigido apenas que elas façam ou deixem de fazer alguns tipos de atos, como não roubar ou não matar, mas não é exigido que elas transformem a Mitzvá em parte de suas próprias essências. Não há, nas Mitzvót de Bnei Noach, nenhuma obrigação em relação aos pensamentos e à sensibilidade. Já as Mitzvót da Torá são mais do que apenas garantias de uma sociedade harmônica e equilibrada. As Mitzvót da Torá exigem que nos transformemos em um reflexo do nosso Criador. Isto somente pode ser alcançado se incorporarmos as Mitzvót à nossa essência. Quando cumprimos o "Não furtarás", não estamos apenas deixando de cometer um crime, é exigido de um judeu que ele abomine o ato de furtar e que internalize isso em sua própria essência.
 
As Mitzvót que os outros povos do mundo rejeitaram na entrega da Torá se enquadram na categoria das que naturalmente sentimos que são erradas. Na realidade, todas as Mitzvót de Bnei Noach estão nesta categoria. Porém, enquanto os povos cumprem estas Mitzvót como sendo Mitzvót de Bnei Noach, eles não entram na proibição de desejar transgredi-las. O que D'us estava oferecendo para os outros povos era um nível completamente diferente de cumprimento das Mitzvót, que causaria neles uma mudança qualitativa como seres humanos. Há uma enorme diferença entre ser comandado a evitar transgredir algo e ser comandado a repudiar este ato em sua essência, isto é, até mesmo em pensamentos. Foi este novo nível, o cumprimento das Mitzvót de maneira que elas nos transformem, que os outros povos rejeitaram.
 
Quando D'us nos deu a Torá, Ele não nos deu apenas mandamentos. Ele nos deu a possibilidade de nos transformarmos em pessoas melhores, de quebrarmos os nossos traços de caráter negativos e transformá-los em características positivas. Isto não é algo fácil, exige trabalho e dedicação. A saída do povo judeu do Egito não foi através de um caminho fácil, pois D'us já estava nos preparando para uma vida de desafios e dificuldades, que é o que nos leva a um crescimento. O descanso e o comodismo podem ser agradáveis ao corpo, mas não nos leva a níveis mais elevados de espiritualidade.
 
Shavuót significa receber novamente a Torá em nossas vidas. Não somente o cumprimento dos mandamentos apenas como atos no nosso cotidiano, mas como ferramentas para nos transformar em pessoas mais justas, mais honestas, mais tranquilas e mais bondosas. Em Shavuót podemos reconhecer o maravilhoso presente que D'us nos deu, de valor inestimável. E esta nova energia conquistada em Shavuót pode, e deve, ser levada para o nosso ano inteiro.

Shabat Shalom e Chag Sameach

R' Efraim Birbojm

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quinta-feira, 18 de maio de 2017

TAPAS POR AMOR - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5777 

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TAPAS POR AMOR - PARASHIÓT BEHAR E BECHUKOTAI 5777 (19 de maio de 2017)

"Reuven era um garoto muito agitado. Infelizmente não escutava os conselhos e broncas de seus pais e estava sempre metido em terríveis confusões. Certa vez Reuven foi jogar futebol no gramado em frente à sua casa. Apesar de seu pai tê-lo advertido muitas vezes sobre o cuidado com os carros da rua, todas as vezes em que a bola caía no meio da rua ele saía correndo feito um louco e atravessava a rua sem nem mesmo olhar para os lados.
 
Da primeira vez em que a bola caiu na rua e Reuven atravessou sem olhar, um carro que estava passando teve que desviar com uma manobra arriscada. O motorista, muito irritado, parou o carro, abriu a janela e começou a gritar com Reuven, repreendendo-o por sua irresponsabilidade. Mas quando o carro partiu, Reuven simplesmente deu gargalhada do que havia acontecido. Alguns minutos depois a bola novamente caiu na rua e, sem pensar, Reuven foi mais uma vez atravessar de forma irresponsável. Um carro que passava naquele momento precisou dar uma freada brusca, deixando marcas de borracha no asfalto. O motorista saiu do carro, agarrou Reuven pelo braço e deu uma severa bronca nele. Porém, quando o motorista foi embora, mais uma vez o pequeno Reuven deu gargalhada, se divertindo com a situação. 
 
Porém, da terceira vez em que a bola caiu na rua e Reuven atravessou de maneira irresponsável, o motorista que vinha dirigindo precisou frear forte e desviar do garoto, quase causando um acidente mais grave. O homem saiu do carro com o rosto vermelho de raiva. Quando Reuven olhou para o motorista, ficou apavorado. Ele largou a bola no meio da rua e saiu correndo. Mas o motorista não deixou barato e saiu correndo atrás dele. Eles passaram por vários quintais, pularam várias cercas, até que, finalmente, Reuven se viu diante de um beco sem saída. Era o fim da linha, não havia mais para onde correr. O motorista então o alcançou e lhe deu uma bela surra por causa de seu ato irresponsável. Quem era este homem? Obviamente que era seu pai. Os outros motoristas ficaram irritados com o ato irresponsável de Reuven, mas somente um pai leva tão a sério atos perigosos dos filhos para querer que eles nunca mais se repitam. Um pai se irrita com atitudes perigosas de seu filho e dá duras broncas nele, mas isto é uma demonstração de amor, não de raiva".
 
Existe um paralelo do mundo material com o mundo espiritual. Quando D'us nos vê cometendo erros que podem colocar nossa vida eterna em risco, Ele chama a nossa atenção, como um Pai responsável que ama seus filhos.

Nesta semana lemos duas Parashiót, Behar (literalmente "Na montanha") e Bechukotai (literalmente "Nas Minhas leis"). A Parashá Behar fala sobre a Mitzvá de Shmitá, que nos ensina que devemos deixar os campos que se encontram na Terra de Israel "descansando" uma vez a cada 7 anos, sem arar, plantar ou ter qualquer proveito financeiro de suas colheitas. Esta Mitzvá sempre foi difícil de ser cumprida, principalmente se nos lembrarmos que antigamente dependíamos basicamente da agricultura para nossa sobrevivência. Mesmo assim, cumprir esta Mitzvá e "descansar" nosso campo por um ano inteiro é uma demonstração de Emuná de que é D'us que controla tudo e que é Dele que vem o nosso sustento.
 
Já a Parashá Bechukotai começa listando as Brachót (Bênçãos) que recebemos quando andamos nos caminhos corretos e cumprimos as Mitzvót contidas na Torá. Porém, depois disso a Parashá muda o tom e começa a descrever, de forma profunda e detalhada, as terríveis tragédias que futuramente atingiriam o povo judeu caso nos desviássemos dos comandos de D'us. Mas como pode ser que um D'us bondoso permite tantas tragédias e sofrimentos? Quando vemos esta parte da Parashá fora de contexto, podemos chegar a conclusões completamente equivocadas.
 
Imagine um dia no qual você está em casa, conversando tranquilamente com seus amigos, quando seu pai entra. Ele está visivelmente irritado e começa a se comportar com você de maneira estranha. Ele está muito bravo, quase descontrolado. Mesmo que você tenha esquecido de arrumar seu quarto ou tenha tirado uma nota baixa na escola, nada justificaria este tipo de reação dele. Com este comportamento ele se parece um total estranho, alguém que você nem conhece. Você chegaria à conclusão de que aquele na verdade não é seu pai, ou você procuraria alguma explicação lógica para o comportamento dele? Certamente tentaríamos entendê-lo. E mesmo que não conseguíssemos entender naquele momento, esperaríamos que ele futuramente viesse explicar seu comportamento atípico. Daríamos crédito ao nosso pai, pois ele certamente conquistou, ao longo dos muitos anos de convivência, a nossa confiança.
 
Assim acontece com o povo judeu. D'us nos tirou do Egito, nos salvou dos nossos inimigos, nos sustentou no deserto por 40 anos, nos deu a Sua Torá, um tesouro que pode ser utilizado para trazer vida ao mundo, e nos deu a Terra de Israel, uma terra especial e sagrada. Definitivamente parece que D'us é bom e se preocupa com o nosso bem estar. Ele já tem créditos conosco. Portanto, se de repente este mesmo D'us muda de tom e nos avisa que coisas terríveis nos atingirão, devemos também presumir que existe uma explicação e uma bondade por trás. Há coisas que entenderemos sozinhos durante a vida, outras teremos que esperar até um momento futuro no qual D'us mesmo colocará as coisas no seu devido contexto. Mas uma coisa podemos ter certeza: da mesma maneira que ocorre em relação aos nossos pais, sempre há um significado nos atos de D'us e, em última instância, tudo foi planejado com amor, para o nosso bem verdadeiro.
 
Parte da nossa falta de entendimento do contexto dos atos de D'us está na nossa falta de compreensão da gravidade dos nossos atos e do que é esperado de nós durante a vida. Imagine uma pessoa muito simples, do interior, que vem à cidade grande visitar seu amigo no hospital. O doente está em estado grave, respirando com a ajuda de aparelhos. Por causa do tubo em sua boca, o doente não consegue falar nada. O amigo, em um ato de "bondade", quer ajudá-lo a falar e tira o tubo de sua boca. Apesar das melhores intenções contidas neste ato, em alguns minutos o doente morre por falta de oxigênio. Pelo fato de o amigo não enxergar o quadro completo, ele não consegue entender a consequência dos seus atos. Aos seus olhos, ele está apenas ajudando seu colega, de maneira inofensiva, retirando de sua boca o tubo que o impedia de falar. Ele faz isso com a mesma naturalidade do que alguém que tira uma sujeira do casaco de seu companheiro. Sem perceber e sem entender as consequências de seu ato, ele cometeu um assassinato.
 
Da mesma maneira, sem saber e sem entender as conseqüências dos nossos atos, podemos estar até matando outras pessoas. Por exemplo, o Rav Isroel Meir HaCohen zt"l (Bieloríssia, 1838 - Polônia, 1933), mais conhecido como Chafetz Chaim, explica a gravidade do nosso Lashon Hará (causar danos a outras pessoas, que podem ser físicos, monetários ou psicológicos, através do mau uso da nossa fala). Ele diz que toda vez que alguém fala Lashon Hará, três pessoas morrem: aquele que fala, aquele que escuta e sobre quem está sendo dito coisas negativas. Porém, acabamos falando muito Lashon Hará sem perceber o mal que estamos causando ao mundo. Sempre temos justificativas para os nossos maus atos, sempre temos desculpas para enganar aos outros e a nós mesmos, nos convencendo de que o nosso ato não foi uma transgressão, e sim uma Mitzvá.
 
Mas pior do que o mal que causamos aos outros com nossas transgressões é o mal que causamos a nós mesmos. A forma como utilizamos equivocadamente nosso bem mais precioso, o tempo, se compara a uma pessoa que comprou um caríssimo computador de última geração e o utiliza como peso de papel, por não saber o que este computador pode produzir. Viver a vida sem ter a claridade de para onde estamos indo é uma forma lenta de suicídio, algo que muitas pessoas fazem sem perceber.
 
O povo judeu tem uma missão especial no mundo. Somos parte da "tripulação do barco da vida", o exército de D'us cuja principal missão é transmitir ao mundo o sentido da vida. Porém, infelizmente para D'us, para nós mesmos e para o mundo inteiro, esquecemos o nosso papel e pensamos que somos apenas passageiros do barco. Ao invés de ajudar o barco a chegar ao seu destino, passamos o dia jogando boliche no convés. Se não cumprimos o nosso papel, o barco pode acabar afundando. Mas D'us nunca vai deixar isto acontecer. Ele nunca vai deixar destruirmos a nós mesmos e ao Seu barco. Ele muitas vezes precisa nos relembrar que não somos apenas passageiros curtindo a viagem. Este é o ponto de partida para entender as dificuldades pelas quais o povo judeu passou durante sua história. Apesar de ser trágico, o antissemitismo acaba trazendo um benefício para nós. Nada tem mais força para unir o povo judeu do que as ameaças externas. Não é o que D'us gostaria de fazer, mas muitas vezes nós O deixamos "sem escolha".
 
Muitas pessoas questionam como D'us pôde permitir que tragédias tão grandes recaíssem sobre o povo judeu. A implicação filosófica para quem faz este tipo de pergunta é que talvez não exista D'us. Porém, imaginar isto é como o caso de um pai que tem um filho rebelde. Repetidas vezes o pai adverte o filho que, caso ele se comporte de maneira indesejável, receberá um duro castigo. Quando este filho desobedece a ordem do pai, ele fica surpreso por receber os castigos? Certamente que não, pois ele foi avisado. A única questão válida seria "Qual é o propósito destes castigos?". Mas certamente nunca viria à cabeça do filho a pergunta se o pai existe ou não. A verdade é justamente o contrário. Se o pai avisou que um castigo recairia sobre o filho caso ele fizesse coisas erradas, não há prova maior da existência e da autoridade do pai do que os castigos realmente acontecerem após os atos de rebeldia.
 
Explica o Rav Simcha Barnett que este é o entendimento por trás de todas as tragédias que recaíram sobre o povo judeu durante a história. Elas vieram justamente para comprovar a existência de D'us, não para negá-la. Como um povo poderia, durante os milênios de sua existência, passar por tantas tragédias e ainda se manter de pé, firme e forte, se não fosse por uma intervenção Divina? Portanto, a chave para colocar os sofrimentos do povo judeu na perspectiva correta é entender o contexto nos quais eles nos atingem e o papel fundamental do povo judeu no palco do mundo. Muitas vezes nos comportamos como um mensageiro que esqueceu sua mensagem. Mas D'us não desiste de Seus mensageiros. Por isso, algumas vezes Ele é "forçado" a nos dar um "tapa", para nos acordar do nosso sono espiritual e nos recordar do nosso papel de mensageiros. O mais impressionante é perceber que Ele nos avisou com antecedência que isto aconteceria.
 
Sem esta perspectiva correta, muitos acham que a forma de escapar do antissemitismo é sendo menos judeus, isto é, se assimilando e tentando se encaixar no mundo não judaico à nossa volta, abandonando de vez a nossa identidade e as nossas diferenças. É uma estratégia que talvez funcionaria com outros povos, mas não com o povo judeu. A Parashá Bechukotai afirma que a única maneira de prevenir as tragédias é sendo mais judeus. Através do estudo da Torá podemos entender o que D'us considera importante neste mundo. Somente então ficará mais fácil de entender as tragédias profetizadas na Parashá Bechukotai, que já se cumpriram diversas vezes durante a história do povo judeu. E com este entendimento também poderemos nos esforçar para viver a vida da maneira correta, de forma que poderemos receber as Brachót também profetizadas no início da Parashá.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm

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