Nesta semana lemos a Parashat Ki Tetsê (literalmente “Quando você sair”), que traz dezenas de Mitzvót, em sua maioria “Bein Adam Lechaveró”, tais como devolver objetos perdidos, pagar os salários dos funcionários na data certa, deixar parte das colheitas aos pobres e sempre utilizar pesos e medidas aferidos.
Porém, entre tantas Mitzvót que entendemos sua motivação, há uma que é bastante enigmática: a Mitzvá de “Shiloach HaKen”, de espantar a ave-mãe antes de pegar seus ovinhos ou filhotinhos no ninho, como está escrito: “Você deve espantar a mãe, e os filhotes poderá pegar para você” (Devarim 22:7). Aparentemente, o principal ensinamento desta Mitzvá é que a Torá nos proíbe sermos cruéis com os animais.
Há também uma Mishná (Brachót 5:3) relacionada a este assunto, mas que é difícil de ser entendida: “Aquele que diz, a respeito (da Mitzvá) do ninho do pássaro: ‘Sua misericórdia alcança o ninho do pássaro’, deve ser silenciado”. Esta Mishná nos deixa perplexos, pois está nos ensinando que associar esta Mitsvá com a bondade de D’us em relação aos animais é algo tão errado que devemos silenciar quem faz isso.
Porém, o que há de errado com essa ideia? Será que podemos enxergar nesta Mitsvá algo diferente da misericórdia de D’us com os animais? Afinal, esta Mitsvá é uma expressão extraordinária de misericórdia, compaixão e consideração pelos sentimentos da ave-mãe. Não existe, nas leis das nações do mundo, algo semelhante em nobreza! Afinal, mesmo as leis de proteção à natureza em geral foram estabelecidas em benefício próprio do ser humano, para garantir que não haverá escassez de recursos naturais. A Torá, porém, exige de nós a proteção da ave-mãe, algo que não está relacionado às necessidades humanas, presentes ou futuras. Por que, então, aquele que diz: “Sua misericórdia alcança o ninho do pássaro” deve ser silenciado?
Nossos sábios destacam uma semelhança entre a Mitsvá de “Shiloach HaKen” e a Mitsvá de “Honrar o pai e a mãe”. Sobre honrar o pai e a mãe está escrito: “Para que se prolonguem os seus dias e para que seja bom para você” (Devarim 5:16). Sobre enviar a ave-mãe está escrito: “Para que seja bom para você e prolongue seus dias” (Devarim 22:7). Com a Mitsvá de espantar a ave-mãe aprendemos a honrar o papel da maternidade, pois a Torá falou somente sobre uma ave que está sobre os filhotes ou os ovos e desempenha o papel de mãe.
Além disso, chama a atenção perceber que a Torá está prometendo uma recompensa extraordinária, vida longa e boa, para quem cumpre esta Mitzvá. O Midrash se espanta com tamanha recompensa, já que se refere à Mitsvá de Shiluach HaKen como sendo “a mais fácil entre as Mitsvót fáceis”. O Midrash questiona o motivo pelo qual justamente uma Mitsvá tão simples recebe uma recompensa tão grande, semelhante àquela prometida pela Mitsvá de honrar o pai e a mãe, uma Mitsvá tão difícil. O Rabi Elazar então responde que há algo muito mais profundo nessa Mitsvá. Ao mandar a ave-mãe embora, estamos reconhecendo o papel que ela desempenha na continuidade da criação. Afinal, ela se ocupou com “a honra do mundo e seu conserto”, cuidando de sua descendência e contribuindo para a continuidade da vida no mundo. Por isso, D’us determinou que, mesmo sendo apenas uma ave, ela seja poupada. Uma pessoa que tem esta sensibilidade, esta preocupação com a continuidade do mundo, merece uma recompensa extraordinária.
Uma ideia mais profunda se revela quando examinamos os detalhes das leis desta Mitsvá. Nossos sábios distinguem entre aves domésticas e aves que vivem livres do domínio humano. Isso é aprendido das palavras “quando acontecer de você encontrar” (Devarim 22:6), excluindo uma ave que já estava à disposição da pessoa dentro de casa. Também aprendemos que a obrigação se limita ao momento em que a mãe está protegendo seus filhotes. Depois que a mãe é afastada, de acordo com a Mitsvá, é permitido capturá-la.
O Rambam (Maimônides) ensina, sobre esta Mitzvá, que é proibido utilizar a vantagem de força e domínio que o ser humano possui sobre o animal justamente quando o animal não pode se salvar e fugir, devido ao instinto natural da maternidade, que prende a mãe aos seus filhotes. É permitido ao ser humano capturar os filhotes, pois, por sua natureza, eles já se encontram em uma situação de falta de proteção; mas não a mãe, que, na realidade, poderia salvar a si mesma, mas se coloca em perigo e não foge por causa de seus filhotes. Seria um ato de crueldade, uma falta de sentimentos de bondade e misericórdia, se o homem aproveitasse sua vantagem decorrente da dedicação de uma mãe por seus filhotes.
O Rav Chanoch Ehrentreu zt”l conclui que, por meio de Mitsvót como esta, a Torá deseja nos educar e nos orientar. Se em relação a um pássaro, que não possui entendimento e consciência, e faz tudo por instinto, é exigido de nós tamanha consideração, quanto mais em relação às pessoas. A Torá está nos ensinando a não se aproveitar de uma pessoa que se encontra em uma situação de fragilidade, na qual não consegue se defender.
Com esse entendimento podemos finalmente compreender as palavras da Mishná. A Torá nos deu esta Mitsvá para nos afastar da crueldade e nos educar para a bondade e a misericórdia, o amor e a delicadeza da alma, pois, como diz o Midrash: “As Mitsvót não foram entregues a não ser para aperfeiçoar as criaturas através delas”. Se é proibido ferir um pássaro que está desempenhando o sagrado papel da maternidade, com muito mais razão devemos honrar e valorizar devidamente nossos pais, que foram criados à imagem de D’us. Nisso, já podemos encontrar uma semelhança entre as duas Mitsvót: o respeito pela maternidade.
Não se pode dizer, portanto, que fomos ordenados sobre a Mitsvá de espantar a ave-mãe por misericórdia de D’us pelo pássaro. Isso talvez fosse apropriado para um legislador humano, que deseja proteger os seres vivos. Mas D’us não precisa da ajuda dos seres humanos para proteger Suas criaturas. É por isso que aquele que diz: “Sua misericórdia alcança o ninho do pássaro” deve ser silenciado, pois não é pelo ninho do pássaro que D’us sente misericórdia, mas por nós, os seres humanos. Por isso, Ele nos deu esta Mitsvá, para plantar em nosso coração sentimentos de bondade e boas características, para nos aperfeiçoar.
Há dois pontos muito importantes neste ensinamento. Em primeiro lugar, ele esclarece quais devem ser nossas prioridades na vida. A Torá, em diversos lugares, nos ordena a sermos misericordiosos com os animais e até mesmo com as árvores. Mas não devemos usar este sentimento para inverter a ordem de prioridades e colocar as necessidades dos animais e das árvores na frente das necessidades humanas. Muitos sentem dó de cachorros abandonados e se mobilizam para que eles encontrem um lar, mas não tomam nenhuma atitude para ajudar pessoas que dormem na rua. Há também ativistas que lutam pelas causas da natureza, mas apoiam o Hamas e seus atos terroristas. Há algo muito errado em alguém defender a vida dos animais, mas não se importar com vidas humanas inocentes. É uma total falta de clareza sobre o que é o principal e o que é o secundário.
Além disso, é incrível perceber o potencial da Torá para nos transformar em pessoas melhores. A Torá não é composta de mandamentos que devemos cumprir sem pensar e refletir. Ao contrário, um dos principais benefícios de cumprirmos as Mitzvót é justamente o quanto elas podem nos moldar e nos purificar. Por exemplo, através de Mitzvót como a Tsedaká, alguém que é mesquinho por natureza aprende a se desapegar de seus bens em prol dos outros. Ser uma boa pessoa não é algo que cai do céu; é necessário esforço e investimento. As Mitzvót são o nosso treinamento diário, para que nossos “músculos espirituais” possam realmente se desenvolver. SHABAT SHALOM – QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA R’ Efraim Birbojm |
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Por favor, deixe aqui a sua pergunta ou comentário sobre o texto da Parashá da semana. Retornarei o mais rápido possível.