quarta-feira, 1 de junho de 2016

MUDANDO ATRAVÉS DA TORÁ - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BECHUKOTAI 5776

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MUDANDO ATRAVÉS DA TORÁ - PARASHAT BECHUKOTAI 5776 (03 de junho de 2016) 

Reb Pinchas era um Talmid Chacham (estudioso de Torá), e desde muito jovem já havia terminado todos os Tratados do Talmud (Torá Oral). Certo dia, chegaram aos seus ouvidos notícias sobre o Maguid de Mezeritch e seus incríveis ensinamentos. O Reb Pinchas se interessou em saber se o Maguid teria algo a acrescentar aos seus conhecimentos. Decidiu visitar o Maguid e preparou uma difícil questão talmúdica para testar sua erudição. Porém, após esperar horas na fila para falar com o Maguid, quando finalmente chegou a sua vez, não conseguiu nem abrir a boca. Assim que entrou na sala, o Maguid imediatamente lhe disse:
 
- Sugiro que você procure meu discípulo, o Reb Zusia. Certamente isso lhe trará muitos benefícios.
 
Reb Pinchas ficou profundamente decepcionado, pois aquela não era a experiência que ele havia imaginado. Mas mesmo assim decidiu procurar quem era o Reb Zusia. Quando chegou à casa dele, percebeu que o Reb Zusia não se parecia muito com um erudito de Torá. Partes do dia ele não estudava, apenas se sentava para recitar Tehilim (Salmos). Em um primeiro momento, o Reb Pinchas chegou a desprezar o Reb Zusia. Quando pediu a ele para que lhe ensinasse Torá, o Reb Zusia respondeu amavelmente que era incapaz de ensinar Torá para alguém tão erudito. No entanto, Reb Zusia tinha uma pergunta de Torá que talvez o Reb Pinchas pudesse ajudar a esclarecer. Pegou um volume do Talmud e, abrindo-o numa determinada página (Tratado de Brachót 47b), leu em voz alta: "Rav Huna disse: 'Nove podem combinar com um Aron Hakodesh (Arca Sagrada)'". O Talmud estava ensinando que, caso houvesse apenas nove judeus e fosse necessário um Minian (grupo de 10 judeus), o Aron Hakodesh poderia ser contado como a décima pessoa. O Talmud então pergunta: "Porém, o Aron Hakodesh é uma pessoa?" E, baseado neste questionamento, o Talmud reformula o ensinamento de uma maneira completamente diferente.
 
- Mas o Talmud não sabia, na hipótese levantada, que um Aron Hakodesh não é uma pessoa? - perguntou o Reb Zusia - Então o que o Talmud está querendo nos ensinar?"
 
Reb Pinchas nunca havia escutado uma pergunta tão estranha. Virou-se para ir embora, mas foi chamado de volta:
 
- Perdoe-me, mas acho que o Talmud está nos ensinando uma lição muito importante - disse o Reb Zusia - Um judeu não deve pensar que apenas por ser uma "Arca Sagrada ambulante", repleta de "Rolos da Torá", isso automaticamente faz dele uma "pessoa". Em outras palavras, o Talmud está nos ensinando que é possível que a pessoa seja um grande erudito e, mesmo assim, ainda não é garantido que tenha se tornado uma "pessoa".
 
- É isso que aprendemos aqui em Mezeritch - concluiu o Reb Zusia - a como usar a Torá para se tornar um "Mentsh" (gente). Não apenas a pessoa deve estudar Torá, mas a Torá deve ensiná-lo a ser uma "pessoa".
 
Reb Pinchas se envergonhou por sua arrogância. Compreendeu que, apesar de toda a Torá que conhecia, ainda faltava muito para se tornar "gente" de verdade.

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Na Parashat desta semana, Bechukotai (que literalmente significa "Meus decretos"), a Torá apresenta as condições necessárias para que D'us mande ao povo judeu paz e abundância: "Se vocês andarem com Meus decretos, e guardarem Meus mandamentos e cumpri-los" (Vayikrá 26:3). Isto significa que, quando cumprimos nossas obrigações e fazemos nossa parte, D'us faz a parte Dele e vivemos com tranquilidade. Na continuação da Parashat, a Torá traz as terríveis consequências de quando nos afastamos dos caminhos de D'us e abandonamos Suas Mitzvót.
 
Porém, deste versículo inicial da Parashat surge um questionamento: por que a Torá repete tantas vezes o mesmo conceito, dizendo que devemos andar com os decretos, guardar os mandamentos e cumprir os mandamentos? Estas três expressões não significam a mesma coisa? Explica Rashi que a primeira parte do versículo, "andar nos Meus decretos", não se refere ao cumprimento dos mandamentos, e sim à "amelut" no estudo da Torá. "Amelut" é mais do que simplesmente estudar Torá. "Amelut" é um nível de esforço e comprometimento muito maior, que envolve constância e dedicação. Já a segunda parte do versículo, "guardarem Meus mandamentos", está conectada com a primeira parte e refere-se à "amelut" na Torá com o propósito de guardar os seus mandamentos. A terceira parte, "e cumpri-los", refere-se ao cumprimento das Mitzvót na prática. Desta explicação de Rashi aprendemos que existem dois tipos de "amelut" na Torá: aquele que se esforça no estudo apenas pelo estudo, e aquele que se esforça no estudo para poder cumprir as Mitzvót.
 
Mas esta explicação de Rashi traz uma grande dificuldade de entendimento, pois implica que existe o conceito de "amelut" na Torá sem a intenção de realmente cumpri-la. Isto não parece ter muita lógica, pois o próprio conceito de "amelut" já sugere uma profunda apreciação da importância da Torá, ao ponto da pessoa estar disposta a um comprometimento e uma constância exemplares em busca do entendimento das palavras de D'us expressas na Torá. Podemos entender que alguém que estuda sem constância e sem seriedade pode estudar Torá sem a intenção de cumpri-la, pois sua forma descompromissada de estudo já demonstra o quanto a pessoa não entende o verdadeiro valor da Torá. Mas como entender alguém que verdadeiramente se esforça com constância e que estuda a Torá com "amelut" pode, ao mesmo tempo, não ter intenção de cumpri-la?
 
Uma pergunta semelhante surge quando analisamos um ensinamento que discute diferentes motivações pelas quais alguém estuda Torá: "Aquele que estuda com o intuito de ensinar, permitem que ele estude e ensine. E aquele que estuda com o intuito de cumprir, permitem que ele estude e ensine, guarde e cumpra" (Pirkei Avót 4:5). Os comentaristas explicam que "aquele que estuda com o intuito de cumprir" refere-se à pessoa que realmente deseja manter a Torá. Isto implica que "aquele que estuda com o intuito de ensinar" refere-se à pessoa que não tem intenção de cumprir as Mitzvót. Mas se este é realmente o caso, então por que D'us dá a esta pessoa o mérito de poder estudar e ensinar?
 
Responde o Rav Yehonasan Gefen que o conceito de "amelut na Torá sem a intenção de cumpri-la" não se refere a alguém que não tem interesse de cumprir as Mitzvót, e sim a alguém que não reconhece que a Torá que ele estuda deve mudá-lo internamente, em sua essência. Esta pessoa falha em fazer uma conexão entre seu estudo e seu serviço Divino diário. Ele certamente aprecia que o estudo da Torá é uma grande Mitzvá, mas não dá o próximo passo, que é perceber que a Torá que ele estuda deve influenciar e transformar seu comportamento em todos os aspectos da vida. Quando o Pirkei Avót diz sobre aquele que estudou para ensinar, trata-se certamente de alguém que também quer cumprir as Mitzvót, pois se não fosse assim, não mereceria o mérito de estudar e ensinar. A falha da pessoa é não estudar com o propósito de mudar a si mesma como ser humano e, por isso, a Torá acaba não tendo influência sobre suas ações cotidianas.
 
De acordo com o Rav Yehuda Arie Leib Alter zt"l (Polônia, 1847 - Alemanha, 1905), mais conhecido como Sfat Emet, é isto que pedimos todos os dias quando recitamos pela manhã o "Birkat HaTorá", a Brachá que pronunciamos uma vez por dia antes de estudarmos Torá. Nesta Brachá dizemos "D'us, adoce por favor as palavras da Sua Torá em nossas bocas". A palavra "adoce", em hebraico "Haarev", tem a mesma raiz da palavra "Erev", que significa "mistura". O que nós pedimos nesta Brachá é que a Torá, além de ser doce, também se misture à nossa essência e ao nosso ser, e não permaneça apenas como um conhecimento superficial.
 
Infelizmente não é incomum que as pessoas não consigam conectar o que elas estudam com suas vidas diárias. É por isso que nossos sábios sempre colocaram uma grande ênfase no fato que a Torá deve penetrar em nossa essência e afetar de maneira positiva nosso comportamento cotidiano. Por exemplo, o Rav Moshe Feinstein zt"l (Lituânia, 1895 - EUA, 1986) explicou que em muitos lugares o primeiro Tratado do Talmud estudado pelas crianças é "Baba Kama", que trata das leis de danos. Um dos motivos desta escolha é para inserir na criança, mesmo nas fases iniciais de sua vida, a sensibilidade com a propriedade dos outros. Isto significa que o propósito do estudo das crianças é muito mais abrangente do que simplesmente dar a elas conhecimento técnico, e engloba também transformá-las em pessoas mais pensantes, profundas e sensíveis com o próximo.
 
Este conceito, de permitir que a Torá mude a nós mesmos, não se limita apenas ao estudo de leis práticas. Nas Yeshivót (centros de estudo de Torá), por exemplo, na maior parte do tempo os estudantes estão se esforçando no estudo do Talmud, que não necessariamente foca em aprender o que fazer em situações práticas do cotidiano. Muitos ensinamentos do Talmud se referem a uma época em que ainda existia o Beit Hamikdash, e que não se aplicam mais atualmente. Mesmo assim, até o tipo de estudo que não pode ser aplicado na prática, se for abordado da forma correta, tem o poder de transformar a pessoa em um ser humano mais refinado. Devemos nos esforçar para, toda vez que aprendemos um novo ensinamento de Torá, refletir sobre o que é possível aprender em relação à forma como D'us olha o mundo, e tentar integrar esta atitude em nossa própria perspectiva de vida.
 
Nossa Parashat ensina o quanto é importante garantir que a Torá que nós trazemos ao nosso intelecto também alcance nossos corações, e isto deve transparecer em nossos atos e no nosso comportamento cotidiano. O primeiro estágio para termos sucesso nesta tarefa é simplesmente reconhecer que a Torá que estudamos deve nos transformar em pessoas diferentes, e o segundo estágio é parar para refletir e perceber se isto está ocorrendo na prática. Como aquele estudante de Torá que, após estudar dia e noite, terminou todos os Tratados do Talmud. Ele então comentou com o seu rabino: "Já passei por todo o Talmud". O rabino respondeu: "O que eu quero saber não é se você passou por todo o Talmud, e sim se todo o Talmud passou por você".

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel Z"L, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
 
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quarta-feira, 25 de maio de 2016

ENGANANDO A SI MESMO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT BEHAR 5776

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ENGANANDO A SI MESMO - PARASHAT BEHAR 5776 (27 de maio de 2016) 

Este é o "testamento ético" que um médico escreveu antes do seu falecimento, na expectativa de transmitir aos seus filhos os ensinamentos que ele aprendeu na vida:
 
"Meus queridos filhos, quando eu me formei na faculdade de Medicina, a minha grande ambição era me dedicar à pesquisa na área médica e descobrir a cura para uma grande enfermidade. Eu sentia que tinha o talento e as habilidades necessárias para fazê-l,o e queria fazer algo grandioso, algo importante, que melhoraria a saúde de inúmeras pessoas e prolongaria suas vidas. Eu queria ser médico no sentido literal da palavra. Mas eu também queria ter segurança financeira. Eu não queria me preocupar com as contas e com o financiamento de uma casa. Eu queria dar um padrão de vida confortável para a sua mãe. Então eu decidi abrir um consultório em um bairro de classe alta e praticar aí medicina durante dez ou quinze anos. Eu ganharia muito dinheiro e me aposentaria. Depois, eu estaria livre para dedicar a minha vida à pesquisa.
 
O que eu posso lhes dizer, meus filhos queridos? Vocês sabem o resto da história. A minha clínica foi muito bem-sucedida e eu ganhei muito dinheiro. Eu sempre adiava a minha aposentadoria para ganhar ainda mais dinheiro. Um ano se passou, depois outro e outro. Antes que eu me desse conta, eu passei os melhores anos da minha vida acumulando uma grande fortuna. E o meu sonho de encontrar uma cura? Eu sinto dizer que ele simplesmente continuou sendo isto: um sonho não realizado. Eu desperdicei os melhores anos da minha vida. Eu desperdicei os meus melhores talentos. Eu desperdicei uma oportunidade de ganhar a imortalidade. E tudo isto pelo quê? Por um pote de ouro.
 
O pior de tudo é que, olhando para trás, a sua mãe teria me apoiado na minha decisão de fazer pesquisa. Eu dizia para mim mesmo que eu fazia isto para dar a ela o padrão de vida que ela merecia, mas eu sabia que ela teria concordado em ter um padrão de vida mais simples, que ela teria me estimulado a perseguir os meus objetivos se eu tivesse pedido a ela.
 
Meus filhos queridos, o que eu posso dizer? O pote de ouro eu deixo para vocês. Deve ser suficiente para lhes libertar das preocupações financeiras. Não cometam o meu erro. Não passem as suas vidas preciosas enchendo o pote de ouro".
 
Explica o Rav Yssocher Frand que, após muitos anos de trabalho árduo, este médico compreendeu que desperdiçou décadas da sua vida na busca por riqueza material. Um tempo que poderia ter sido passado com a família ou na busca de ideais nobres foi direcionado na busca interminável por dinheiro. E este tempo nunca voltará...

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Nesta semana lemos a Parashat Behar (que literalmente significa "No Monte"). A Parashat começa descrevendo uma Mitzvá difícil de ser cumprida, e que tem um grande impacto na forma como nos relacionamos com D'us e como enxergamos o nosso trabalho neste mundo: a Mitzvá de "Shemitá" (Ano Sabático), que se aplica apenas às terras de Israel. Durante seis anos o povo judeu pode arar o campo, semear, irrigar e colher o produto do seu esforço. Porém, no sétimo ano, o ano de Shemitá, o povo judeu não pode arar, plantar e nem mesmo ter proveito financeiro dos frutos do seu campo. As portas de todos os campos devem ser abertas, para que os pobres e todos que tiverem vontade possam comer livremente das frutas. Isto nos ensina que o verdadeiro provedor de tudo o que temos é D'us, pois apesar de passarmos um ano inteiro sem cultivar o campo e sem vender as frutas, nunca faltou sustento ao povo judeu no ano de Shemitá em mais de 3.000 anos. A Torá inclusive nos garante que não apenas não haverá fome, mas também haverá uma grande abundância, como está escrito: "E Eu comandarei a Minha Benção para vocês no sexto ano, e a produção será equivalente a três anos" (Vayikrá 25:21).
 
Porém, o Talmud (Kidushin 20a) descreve as terríveis consequências àquele que não cumpre a Mitzvá de Shmitá e busca lucros com a venda de produtos agrícolas durante o sétimo ano. O Talmud também ressalta que a severidade dos castigos vai aumentando progressivamente caso a pessoa persista na transgressão. Por exemplo, aquele que desrespeitou as leis de Shmitá inicialmente começará a perder seus lucros, precisando vender seus móveis e outros objetos de sua casa para se sustentar. Posteriormente ela acabará sendo obrigada a vender até mesmo a terra que herdou de seus antepassados. As consequências dos seus atos vão aumentando em severidade, até que a pessoa se vê obrigada a se vender como escrava para fazer serviços em um templo de idolatria.

O Talmud ressalta que a razão pela qual as consequências se tornam mais severas é porque a pessoa não abandona a transgressão nem ao perceber os castigos que está recebendo. Por que a pessoa não se arrepende? Pois quanto mais a transgressão fica profundamente enraizada dentro do transgressor, é menos provável que ele sinta remorso por seus erros, como afirma o Talmud: "Quando uma pessoa repete o seu delito, ele torna-se permitido aos seus olhos".
 
Mas por que o Talmud resolveu transmitir este ensinamento justamente associado à Mitzvá de Shemitá, se isto se aplica a qualquer transgressão da Torá? Explica o Rav Yohanan Zweig que, para responder esta pergunta, antes precisamos entender o que leva alguém a desrespeitar a Mitzvá de Shemitá. A motivação mais óbvia seria o medo de não conseguir sustento no sétimo ano. Mas esta é uma motivação sem sentido, pois D'us prometeu abundância para todos aqueles que cumprirem a Mitzvá de Shemitá, garantindo que nada faltará para eles. E isto pôde ser verificado nos últimos três mil anos, quando o povo judeu cumpriu a Mitzvá e nada faltou. Então qual é a motivação verdadeira que leva alguém a transgredir esta Mitzvá?
 
A Torá nos ensina que "o ser humano foi criado para trabalhar" (Yov 5:7). Isto significa que o ser humano somente consegue se preencher através do seu esforço e de suas realizações. Por isso, o ser humano acaba se definindo justamente pelas ações através das quais ele busca seu preenchimento. Em condições ideais, o ser humano deveria receber esta sensação de preenchimento através dos seus esforços no serviço Divino. Porém, na maioria das vezes, a pessoa acaba se definindo de maneira completamente equivocada, através do produto do seu trabalho profissional. É por isso que uma das depressões que mais atingem a humanidade está relacionada justamente com a época em que as pessoas se aposentam. Como elas sentem que seu valor está diretamente ligado à sua produção profissional, a aposentadoria representa o fim do valor da pessoa e, por isso, muitos passam por sofrimentos psicológicos profundos quando param de trabalhar.
 
Com este conceito fica mais fácil entender a motivação por trás de quem transgride a Mitzvá de Shemitá. Aquele que trabalha com agricultura acaba se identificando com este trabalho da terra como se fosse parte da sua própria essência. Por isso, não é uma opção desejável ficar um ano inteiro parado, sem produzir nada, pois isto traz para a pessoa uma sensação de vazio existencial. Por outro lado, como a pessoa vê sua essência como uma consequência de seus atos, então fazer uma transgressão de maneira aberta e descarada também causaria na pessoa a mesma sensação de vazio, pois o definiria como sendo um transgressor. A única forma de fugir deste paradoxo é a pessoa racionalizar seus atos e procurar desculpas para encobrir sua transgressão, como assumir que está trabalhando por causa do medo de não ter sustento. Desta maneira, a pessoa pode se sentir tranquila, trabalhando na terra durante o sétimo ano, que é o que define a sua essência, e ao mesmo tempo sentindo que não está fazendo nada de errado.
 
Quando a pessoa se esforça para encobrir seus erros buscando racionalizações, normalmente ela entra na regra de "quando uma pessoa repete o seu delito, ele torna-se permitido aos seus olhos". Com isso a pessoa acaba se afundando cada vez mais na transgressão e se tornando cada vez mais insensível às consequências espirituais negativas. É por isso que a Shemitá é o cenário ideal para ensinar este conceito, pois justamente a racionalização dos erros é o que está por trás da transgressão da Shemitá. O medo de não ter sustento, apesar de D'us ter garantido que nada faltará, é apenas uma "justificativa racional" para tirar o peso na consciência da pessoa.
 
Desta Parashat ficam dois ensinamentos muito importantes. Em primeiro lugar, aprendemos que o nosso verdadeiro valor não deve ser definido através de nossos empregos e formação profissional. Não somos engenheiros, advogados ou médicos, somos seres humano, e temos dentro de nós uma alma eterna, que deseja cumprir sua missão e se conectar com D'us. Podemos gostar do que fazemos, mas nossas profissões devem ser vistas apenas como uma forma de termos o nosso sustento, de podermos ter a tranquilidade material suficiente para nos permitir fazermos o nosso serviço espiritual, e não como nossa meta na vida. Nosso valor verdadeiro é medido de acordo com o quanto estamos próximos do nosso preenchimento espiritual, que é o verdadeiro motivo pelo qual D'us nos colocou neste mundo. Os lucros que tivemos na empresa e o sucesso profissional não servirão para nada quando terminar o nosso tempo neste mundo. O que ficará para sempre serão as nossas bondades, as nossas contribuições para a humanidade. Não precisam ser atos grandiosos, pois mesmo pequenos bons atos ajudam a iluminar o mundo, e cada luz acesa com uma Mitzvá nunca mais se apagará.

Em segundo lugar, aprendemos o quanto precisamos ser sinceros com nossas atitudes na vida. D'us sabe quais são as nossas verdadeiras intenções, e Ele sabe quando estamos apenas buscando racionalizações e justificativas para os nossos erros. Na vida podemos enganar as outras pessoas, podemos até mesmo conseguir enganar a nós mesmos, mas nunca conseguiremos enganar a D'us, que enxerga até cada pequena vontade do nosso coração.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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(Observação: para Refua Shlema deve ser enviado o nome do doente e o nome da mãe. Para Leilui Nishmat, os Sefaradim devem enviar o nome do falecido e o nome da mãe, enquanto os Ashkenazim devem enviar o nome do falecido e o nome do pai).
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quarta-feira, 18 de maio de 2016

RENOVANDO AS FORÇAS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT EMOR 5776 





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RENOVANDO AS FORÇAS - PARASHAT EMOR 5776 (20 de maio de 2016) 
"Mark, um homem de negócios dos EUA, estava passando por muitas dificuldades financeiras na sua empresa. Parecia que nada mais dava certo: as vendas pararam, os fornecedores dificultavam cada vez mais as condições de pagamento e os funcionários, cansados dos atrasos salariais, começaram a pedir demissão um após o outro. Parecia que a empresa de Mark estava realmente fadada à falência. Certa manhã, em depressão e precisando espairecer um pouco, Mark foi dar uma volta no Central Park. Depois de caminhar um pouco, sentou-se em um dos bancos do parque, ao lado de um senhor de idade. Eles começaram a conversar e Mark acabou desabafando sobre a situação da sua empresa, contando sobre as dificuldades e o provável encerramento das atividades. Depois de ouvir aquele desabafo, o senhor tirou um talão de cheques da carteira, arrancou uma folha, escreveu algo e entregou a Mark. Quando ele olhou para o cheque, quase desmaiou: eram U$ 500.000! O senhor disse para Mark:

- É um empréstimo, para te ajudar a reerguer sua empresa. Eu confio em você. Você pode me devolver este dinheiro dentro de um ano, sem pressão. Sua empresa vai ficar bem, não se preocupe.

Mark não sabia nem como agradecer. Foi quando prestou atenção à assinatura do cheque. Aquele homem era Warren Buffett, um dos maiores milionários dos EUA. Parecia que a Providência Divina o havia colocado justamente ao lado daquele homem, e no momento em que ele mais precisava!

Mark sentiu seu espírito se renovando. A depressão desapareceu, e no lugar veio uma incrível vontade de lutar. Ao invés de depositar o cheque no banco, Mark foi para casa e guardou o cheque em um cofre. Recomeçou o trabalho na empresa com as forças renovadas, pois sentia que havia um leão dentro dele. Contratou uma nova equipe, trabalhou até de madrugada e se esforçou no limite. Após um ano a empresa já havia se recuperado, sem a necessidade de usar aquele cheque. Mark havia descoberto um novo potencial dentro de si.

Quando chegou o dia do pagamento, Mark foi ao parque devolver o cheque. Ele viu de longe o senhor que havia emprestado o dinheiro e caminhou em sua direção. Abraçou aquele senhor e devolveu o cheque, explicando que não havia sido necessário utilizá-lo. Enquanto conversavam, uma enfermeira aproximou-se e perguntou a Mark se aquele senhor o estava importunando. Mark, com um enorme sorriso, disse que aquele senhor o havia ajudado muito na vida. A enfermeira então cochichou no ouvido de Mark:

- Tome cuidado com este senhor. Ele vive em uma casa de repouso há anos, desde que perdeu a esposa. O pior é que, de alguns anos para cá, ele tem vivido em um mundo de fantasia. Ele finge que é Warren Buffet, diz isto para todos que encontra e chega até mesmo a se vestir como ele. Mas ele não tem nem onde cair morto..."

O maior presente que D'us nos dá não é quando Ele nos manda pronto o que precisamos, e sim quando Ele nos dá a oportunidade de descobrir as forças que temos dentro de nós mesmos.
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Nesta semana lemos a Parashat Emor (que literalmente significa "Diga"). Entre outros assuntos, a Parashat fala sobre a santidade dos Cohanim (sacerdotes), e ressalta que o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) deveria ser uma pessoa ainda mais elevada. De acordo com o Talmud (Yoma 18a), o Cohen Gadol deveria ser superior aos outros Cohanim em quatro atributos: força, beleza, intelecto e dinheiro. Há um Midrash que cita versículos que comprovam a necessidade do Cohen Gadol se destacar em cada um destes quatro atributos. Por exemplo, o Midrash traz o seguinte versículo como fonte da necessidade do Cohen Gadol ser mais forte do que os outros Cohanim: "E Aharon deverá balançar os Leviim" (Bamidbar 8:11). O versículo refere-se à cerimônia de consagração dos Leviim, no qual parte do processo consistia em Aharon HaCohen levantar vinte e dois mil Leviim sobre sua cabeça em um único dia.

O Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) explica que a façanha de erguer em um único dia vinte e duas mil pessoas somente pôde ocorrer com a intervenção Divina. Por mais forte que fosse Aharon, não seria possível um ser humano realizar algo assim. Porém, de acordo com esta explicação, surge um grande questionamento: se o ato de Aharon foi algo sobrenatural, que somente ocorreu com intervenção Divina, então por que este versículo foi trazido pelo Midrash como a fonte da grande força de Aharon se, na verdade, esta grande força foi consequência de um evento milagroso?

O Midrash acrescenta ainda que esta exigência de uma força superior também era um pré-requisito para os reis. Como prova disto, o Midrash cita um interessante diálogo que ocorreu entre David HaMelech e Shaul HaMelech, relatado no "Sefer Shmuel" (um dos livros do Tanach). Goliat (Golias), um guerreiro dos Pelishtim (Filisteus), havia desafiado o povo judeu a mandar seu maior guerreiro para lutar contra ele, e David se voluntariou para representar o povo judeu nesta luta. Quando Shaul perguntou a David porque ele se achava capaz de derrotar Goliat, David respondeu que quando ele era um pastor, certa vez seus rebanhos foram ameaçados por um leão e um urso. Apesar da dificuldade e do perigo da situação, David conseguiu se levantar e matar os dois animais. Mas Shaul não se convenceu com as palavras de David e argumentou que matar animais selvagens ainda não indicava que ele seria capaz de matar um guerreiro tão experiente quanto Goliat. David então explicou que, da mesma maneira que D'us o havia ajudado a matar os animais selvagens, Ele também o ajudaria a matar Goliat (Shemuel I 17:32-38).

Esta conversa de Shaul com David não é fácil de entendida. Por que David, em seu primeiro argumento, mencionou apenas o fato de ter conseguido matar os animais, ao invés de já ter dito desde o início que, da mesma forma que D'us o havia ajudado a matar os animais, Ele também o ajudaria a matar Goliat? Por que ele quis inicialmente demonstrar a sua própria força, ao invés de ressaltar que é D'us que faz tudo?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está em um interessante ensinamento do Talmud Yerushalmi (Bikurim 3:3), que afirma que quando uma pessoa é elevada a um novo cargo, com um nível de responsabilidade maior, então é concedido a ela o perdão por suas transgressões. Mas qual é a relação entre assumir um novo cargo e o perdão? Quando uma pessoa assume um novo cargo, a posição por si só já desperta nela novos talentos e habilidades que ela não possuía anteriormente. Por causa desta transformação, ela é considerada como se fosse uma nova pessoa e, portanto, é concedido a ela o perdão por seus erros anteriores.

É justamente isto que o Midrash vem nos ensinar. As novas habilidades e talentos que a intervenção Divina desperta na pessoa é apenas uma amplificação e um aprimoramento de um potencial já pré-existente. D'us ajuda a pessoa, em uma certa área na qual ela já tem uma propensão natural, a se desenvolver ainda mais. Quando David mencionou para Shaul que ele havia matado o leão e o urso, ele estava transmitindo que D'us já havia dado a ele a habilidade natural de ser um guerreiro. E David também sabia que, quando fosse colocado em uma circunstância que exigia maiores habilidades, D'us então aprimoraria seus talentos naturais para assegurar que ele saísse vitorioso. Por isso ele ressaltou inicialmente sua própria força, isto é, sua tendência natural, e somente depois ressaltou a ajuda Divina na batalha contra Goliat.

Este conceito de crescimento e adequação às novas responsabilidades é ressaltado nas palavras finais do Midrash, que nos ensina que, apesar de Shaul ser um dos homens mais altos do povo judeu, quando ele retirou sua armadura e colocou-a sobre David, ela coube perfeitamente. A ajuda Divina que veio com as novas responsabilidades de David fez com que ele aumentasse sua estatura física, a ponto dele caber perfeitamente na armadura de Shaul.

Ao entender as palavras de David no seu diálogo com Shaul, podemos entender também porque que o Midrash cita a consagração dos Cohanim como sendo a fonte para a força física do Cohen Gadol. Embora a façanha de levantar vinte e dois mil homens em um dia somente pode ser realizada através da ajuda Divina, Aharon foi escolhido justamente por já possuir a habilidade natural da força física, que pôde ser aprimorada através da intervenção milagrosa de D'us. Se ele não tivesse esse potencial, então não teria sido o escolhido para esta função. Por isso o versículo serve como prova da força do Cohen Gadol, pois apesar de não ter a força sobre-humana de levantar milhares de pessoas, Aharon já tinha o talento natural, o suficiente para que a intervenção Divina tornasse a façanha de consagrar os Leviim algo possível.

Este ensinamento pode ser aplicado em nossas vidas. Muitas vezes temos medo de arriscar, de assumir novas responsabilidades e enfrentar novos desafios na vida. Da Parashat aprendemos que, quando queremos fazer o que é correto, D'us nos ajuda e revela novas habilidades que nem imaginávamos ter dentro de nós. Devemos sempre almejar crescer mais e alcançar novos patamares, andando sempre no caminho correto e de acordo com as nossas inclinações e aptidões naturais. Devemos fazer a nossa parte e descobrir as nossas forças, mas sem esquecer que, em última instância, quem realmente faz tudo acontecer é D'us.
SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm
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HORÁRIO DE ACENDIMENTO DAS VELAS DE SHABAT - PARASHAT EMOR:

                   São Paulo: 17h10  Rio de Janeiro: 16h57                     Belo Horizonte: 17h05  Jerusalém: 18h57
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Este E-mail é dedicado à Refua Shlema (pronta recuperação) de: Chana bat Rachel, Pessach ben Sima, Rachel bat Luna, Avraham ben Chana, Bentzion ben Chana, Ester bat Rivka, Rena bat Salk, Chaia Lib bat Michle, Michle bat Enque, Miriam Tzura bat Ite, Fanny bat Vich, Zeev Shalom ben Sara Dvorah, Pece bat Geni, Salomão ben Sara, Tamara bat Shoshana, Yolanda bat Sophie, Chai Shlomo ben Sara, Eliezer ben Esther, Debora Chaia bat Gueula, Felix ben Shoshana, Moises Ferez ben Sara, Zelda bat Sheva, Yaacov Zalman bat Tzivia, Yitzchak ben Dinah, Celde bat Lea, Geni bat Ester, Lea bat Simi, Yaacov ben Ália, Chava bat Sara, Moshe David ben Chaia Rivka, Levi Itzchak ben Reizel, Lulu Chana bat Rachel, Haia Yona bat Sara, Shulem ben Chaia Sara, Daniel ben Yonit, Chai bat Rivka, Nitzchia bat Yafa.
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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Ben Tzion (Benjamin) ben Shie Z"L e Frade (Fany) bat Efraim Z"L, que lutaram toda a vida para manter acesa a luz do judaísmo, principalmente na comunidade judaica de Santos. Que possam ter um merecido descanso eterno.

Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel Z"L, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.

Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) de minha querida e saudosa tia, Léa bat Meir Z"L. Que possa ter um merecido descanso eterno.
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