quinta-feira, 3 de setembro de 2020

ALEGRE-SE COM O QUE VOCÊ TEM - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT KI TAVÔ 5780

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- Primeiros Frutos (Bikurim).
- Declaração pela separação dos Dízimos.
- Relacionamento de D'us e o povo judeu.
- O novo pacto: as pedras escritas.
- Tornando-se uma Nação.
- A Brachá e a Klalá.
- A Brachá pela obediência.
- A Klalá pela desobediência.
- O Pacto.
- O discurso final de Moshé.

ALEGRE-SE COM O QUE VOCÊ TEM - PARASHAT KI TAVÔ 5780 (04 de setembro de 2020)

 
"Certa vez um homem pediu a D'us, em suas Tefilót, uma flor e uma borboleta. Ele achava que era tudo o que ele precisava na vida e, se tivesse estas coisas, seria plenamente feliz. Porém, para sua imensa decepção, D'us lhe mandou um cacto e uma lagarta. Que tristeza! O homem ficou arrasado, não conseguia entender o motivo pelo qual D'us não havia atendido seu pedido. Se D'us escutava as Tefilót, por que havia mandado o que ele não havia pedido? Por que havia recebido um cacto feio e uma lagarta horrorosa?
 
Em um primeiro momento, ele ficou revoltado. Depois que se acalmou um pouco, começou a refletir. Se D'us havia mandado o cacto e a lagarta, deveria haver alguma Sabedoria superior que ele, em sua limitação, não conseguia entender. Resolveu então não questionar mais. Porém, não tinha vontade de ver o cacto e a lagarta que tinha recebido. Em pouco tempo já havia até mesmo se esquecido deles.

Muito tempo depois, em certa manhã ensolarada, o homem lembrou-se do cato e da lagarta e foi vê-los. Para a sua enorme surpresa, do espinhoso e feio cacto havia nascido a mais bela das flores, e a horrível lagarta havia se transformado em uma belíssima borboleta. Somente então o homem entendeu a grandeza de D'us e Sua sabedoria. D'us não havia mandado o que ele havia pedido, mas havia mandado o que ele realmente precisava".

D'us sempre age certo. O Seu caminho é o melhor, mesmo que, aos nossos olhos, as coisas pareçam estar dando errado. Se você pediu a D'us algo e recebeu outra coisa, confie. Tenha a certeza de que Ele sempre dá o que você precisa, no momento certo. O ponto é que nem sempre o que desejamos é o que nós precisamos de verdade. D'us nunca erra. Siga em frente, sem questionar, sem duvidar. O espinho de hoje certamente será a flor de amanhã.

Nesta semana lemos a Parashat Ki Tavô (literalmente "Quando você vier"). A Parashat começa nos ensinando sobre a Mitzvá de oferecer os Bikurim (Primícias) no Beit HaMikdash. Outro tema central são as Brachót (Bençãos) e Klalót (Maldições) que Moshé avisou que recairiam sobre os judeus de acordo com o comportamento deles. Infelizmente, muitas das Klalót descritas realmente atingiram o povo judeu durante a história.
 
A Mitzvá de Bikurim consistia em levar as primeiras frutas (primícias) da nossa produção anual para Jerusalém. Eram oferecidos os frutos das 7 espécies através dos quais a Terra de Israel é louvada na Torá, conforme está escrito: "Uma terra de trigo e cevada, vinhas, figos e romãs, uma terra de azeite de azeitonas e mel (de tâmaras)" (Devarim 8:8). É muito fácil a pessoa, após uma colheita farta, atribuir o sucesso ao seu esforço e à sua sabedoria, esquecendo da ajuda de D'us. Portanto, a principal razão por trás da Mitzvá de Bikurim era justamente reconhecer e agradecer a D'us pela produção que nos foi agraciada. Além de trazer as primícias em uma cesta e oferecer ao Cohen, parte da Mitzvá era ler diante dele uma longa declaração de agradecimento, através da qual a pessoa reconhecia que tudo o que tinha era, na verdade, um presente de D'us. O agradecimento incluía desde a salvação de Yaacov Avinu das mãos de Lavan, passando pela escravidão egípcia, os milagres da salvação e a entrada na Terra de Israel, a terra do leite e mel.
 
Além de trazer as primícias e ler a declaração de agradecimento a D'us, a Torá acrescenta mais um detalhe na Mitzvá de Bikurim. A pessoa deveria se alegrar no momento em que trouxesse os Bikurim para Jerusalém, como está escrito: "E você deve se alegrar com toda a bondade que Hashem, teu D'us, tem dado para você e sua família" (Devarim 26:11).
 
Porém, este "acréscimo" na Mitzvá desperta um grande questionamento. Por que foi necessário a Torá adicionar este mandamento de ficarmos felizes aos trazermos os Bikurim? Quando as pessoas chegavam em Jerusalém com seus Bikurim, elas haviam acabado de colher uma bela produção. Naturalmente elas já estavam muito felizes com o sucesso das suas colheitas. Então por que a Torá precisou comandar que elas ficassem felizes com tudo o que D'us havia dado, se elas já estavam felizes?
 
O Rav Mordechai Gifter zt"l (EUA, 1915 - 2001) explica que este mandamento é muito necessário, pois a pessoa poderia chegar em Jerusalém com uma enorme fartura de Bikurim e ainda assim não estar feliz. Mas como isto seria possível? Por exemplo, a pessoa poderia pensar: "A produção deste ano foi muito boa, mas sei que poderia ter sido melhor". Ou, pior ainda, ela poderia ficar com inveja ao olhar para as frutas do seu vizinho e pensar "Eu achei que a minha produção tinha sido boa, mas comparada à dele, que foi muito melhor, a minha foi insignificante!".

Portanto, apesar deste ensinamento ter sido transmitido há mais de 3.300 anos, ele é extremamente atual e importante para as nossas vidas. Por incrível que pareça, alguém pode ter recebido muitas Brachót de D'us, pode ter sido contemplado com uma produção muito farta, e ainda assim não estar feliz. Portanto, como parte da Mitzvá de Bikurim, a Torá nos comanda a sermos felizes. Isto significa que precisamos trabalhar a nossa apreciação pelo que temos de bom na vida.
 
Nossos sábios ensinam: "Quem é rico? Aquele que está feliz com o que tem" (Pirkei Avót 4:1). Se a pessoa tem 100 mil no banco, mas sonha em ter um milhão, então ela não tem 100 mil, ela tem uma falta de 900 mil. Por isso, devemos apreciar o que temos, inclusive quando parece que poderia ter sido melhor. Não existe melhor do que D'us nos mandou. Ele nem sempre manda o que nós pedimos, mas Ele sempre manda o que nós necessitamos de verdade para a nossa tarefa neste mundo, pois somente Ele sabe exatamente o que nós precisamos.
 
Esta claridade também nos ajuda a não sentirmos inveja do que os outros têm. Se nosso vizinho teve uma produção melhor do que a nossa, isto significa que ele precisava mais do que nós. Cada um tem uma tarefa específica no mundo e, portanto, precisa de ferramentas diferentes, específicas para a sua tarefa. Não há fonte de alegria maior do que este entendimento, de que temos tudo o que precisamos, e que não precisamos comparar com o que os outros têm.
 
Isto se conecta com outro assunto importante trazido na nossa Parashat: as Brachót e as Klalót. Moshé enumerou todas as Brachót que recairiam sobre o povo judeu, em todas as gerações, caso cumpríssemos a Vontade de D'us, e todas as Maldições que recairiam sobre o povo judeu, em todas as gerações, caso nos desviássemos das nossas obrigações espirituais. No meio das Klalót há um versículo que nos chama a atenção: "Pois você não serviu Hashem, teu D'us, com alegria e bondade no coração, quando tudo era abundante" (Devarim 28:47). D'us não está nos cobrando a falta de alegria quando as coisas estão difíceis, nos momentos de crise. D'us está nos cobrando a falta de alegria quando temos fartura e Brachá. Mas como pode ser que alguém não sente alegria quando tem fartura na vida? Isto é resultado da nossa falta de reconhecimento do que temos de bom e da nossa inveja, o terrível hábito de ficar olhando para o que os outros têm.
 
O Rav Issachar Frand nos chama a atenção que a expressão utilizada na Torá para "quando tudo era abundante" é "MeRov Kol". Estas duas palavras, "Rov" e "Kol", nos relembram de uma importante passagem da Torá. Quando Yaacov estava voltando para casa, após passar 20 anos na casa do seu tio Lavan, ele se reencontrou com seu irmão Essav. Apesar de tantos anos terem se passado, Essav ainda odiava Yaacov por ele ter recebido a Brachá da primogenitura no seu lugar. Conhecendo o amor que Essav tinha pelo mundo material e tentando apaziguá-lo, Yaacov mandou, através de intermediários, muito animais de presente. Quando eles finalmente se encontraram, se abraçaram e choraram. Essav perguntou a Yaacov por que ele havia mandado tantos animais. Quando Yaacov respondeu que era para encontrar graça aos olhos do seu irmão, Essav respondeu: "Tenho em abundância (Yesh li Rov), meu irmão, fique com o que é seu" (Bereshit 33:9), como se quisesse devolver os animais para Yaacov. Porém, Yaacov insistiu e disse: "Aceite por favor meu presente... pois eu tenho tudo (Yesh li Kol)" (Bereshit 33:11). No final, Essav acabou aceitando. A diferença entre Essav e Yaacov é que, não importava o quanto Essav possuísse, ele apenas via suas posses como "tenho bastante, mas nunca o suficiente". Yaacov, por sua vez, reconhecia que o que ele tinha era, de fato, tudo o que necessitava.
 
Portanto, o versículo da Parashá que traz as Klalót está explicando que uma das maiores fontes de infelicidade na vida de uma pessoa é o "MeRov", isto é, o fato de ela ver todas as boas coisas que possui como sendo apenas "bastante", mas nunca como sendo "suficiente", do mesmo modo que Essav via suas posses. Já a fonte de felicidade é o "Kol", isto é, a consciência de que D'us nos manda tudo o que nós precisamos no momento. Podemos querer ter mais na vida, mas com completo agradecimento e reconhecimento do que já temos agora.
 
Enquanto a pessoa não internalizar que tem tudo o que necessita agora, nunca será feliz, mesmo que possua uma grande fartura, como ensinam nossos sábios: "Aquele que tem cem, quer duzentos". Podemos escolher se queremos uma vida de Yaacov ou uma vida de Essav, lembrando o que a Parashat nos ensinou: um caminho nos leva para uma vida de Brachót e alegrias, enquanto o outro caminho nos leva para uma vida de Klalót e tristeza.
 

SHABAT SHALOM
 
QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS NO LIVRO DA VIDA
  

R' Efraim Birbojm

 

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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

USANDO O MAL PARA FAZER O BEM - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT KI TETSÊ 5780

O EMAIL DESTA SEMANA É DEDICADO À ELEVAÇÃO DA ALMA DE

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- Garantia para empréstimos e a honra do devedor.
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- Consideração pelas viúvas e órfãos.
- Presentes da colheita aos pobres (Leket, Shichechá e Peá).
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- Pessoa que ataca seu companheiro.
- Pesos e Medidas corretos.
- Lembrando Amalek.
 

USANDO O MAL PARA FAZER O BEM - PARASHAT KI TETSÊ 5780 (28 de agosto de 2020)

 
"O rabino estava tendo muitas dificuldades com a sua comunidade, em especial com um dos frequentadores, Eduardo, que tinha características muito ruins. Talvez um dos piores defeitos de Eduardo era fazer piadas nas horas mais impróprias, em especial durante as aulas do rabino. Ele queria sempre falar algo engraçado ou irônico, mesmo que estragasse completamente a mensagem que o rabino queria transmitir.
 
Certa vez, em uma palestra que estava lotada, o rabino estava transmitindo uma mensagem justamente sobre o nosso trabalho de Midót (traços de caráter). O rabino ensinou que todas as nossas Midót e forças podem ser utilizadas para o bem, até mesmo as coisas que parecem ser apenas negativas, como a inveja, a mesquinhez e a raiva. Por exemplo, a inveja pode ser canalizada para aumentar a nossa vontade de crescer espiritualmente, nos espelhando nas pessoas espiritualmente maiores. A mesquinhez pode ser utilizada como um "freio", para não gastarmos nosso dinheiro com vanidades e futilidades. A raiva pode ser canalizada para lutarmos contra as injustiças. E, assim, o rabino foi descrevendo várias Midót ruins, mas que podem ser utilizadas para fazer o bem.
 
Porém, no meio da palestra, Eduardo levantou a mão, pedindo permissão para fazer uma pergunta. O rabino logo percebeu que a intenção era fazer alguma piada ou deboche, mas não podia ignorar aquela mão levantada, já que havia dado permissão para outras pessoas falarem. Assim que recebeu permissão, Eduardo começou a falar:
 
- Rabino, então você está dizendo que todas as nossas Midót e forças podem ser utilizadas de maneira positiva, né? Isto quer dizer que também existe algum uso positivo da "Kofrut", a vontade de negar D'us?
 
Eduardo se sentiu realizado. Sua pergunta certamente deixaria o rabino embaraçado e destruiria sua palestra. Porém, o rabino abriu um enorme sorriso e disse:
 
- Eduardo, obrigado pela excelente pergunta. Você sabe como pode fazer para utilizar a "Kofrut" de forma positiva? Toda vez que alguém te pedir ajuda, não diga "Que D'us te ajude". Neste momento, se comporte como se D'us não existisse. Levante-se e faça a sua parte."
 
Há momentos em que mesmo as nossas piores Midót podem, e devem, ser utilizadas para fazer o bem.

A Parashat desta semana, Ki Tetsê (literalmente "quando você sair"), traz muitas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre a pessoa e seu companheiro), nos ensinando como devemos ser cuidadosos com a honra do próximo e a importância de fazermos bondades. São abordados assuntos como ajudar um companheiro a levantar seu animal caído, a devolução de objetos perdidos, a consideração pelas viúvas e órfãos e os presentes dados de forma honrosa para os pobres.
 
A Parashat começa discutindo leis que se aplicam aos soldados judeus durante a guerra, mostrando que mesmo em situações envolvendo risco de vida, há leis que devemos seguir, não nos comportando de acordo com a nossa vontade, mas sim de acordo com a vontade de D'us. A Parashat começa com as seguintes palavras: "Quando você vai sair para a guerra contra seus inimigos, e Hashem, teu D'us, entregá-los em suas mãos, e você capturar um cativo" (Devarim 21:10)
 
Porém, estas palavras despertam alguns questionamentos. Em primeiro lugar, se estamos falando sobre uma guerra, por que a Torá precisa dizer que é "contra seus inimigos"? Não é óbvio dizer que a guerra é contra os inimigos? Além disso, por que a Torá utiliza a expressão "Quando você sair para guerra"? Não seria mais apropriado escrever "quando você guerrear"? Por que a expressão "sair" foi utilizada?
 
Explica o Rav Yohanan Zweig que há dois tipos de guerras do povo judeu. Existe a "Milchemet Mitzvá", uma "guerra obrigatória", e a "Milchemet Reshut", uma "guerra permitida". De acordo com Rashi, a Milchemet Mitzvá é uma guerra travada para conquistar os territórios dentro dos limites da Terra de Israel, como as guerras de conquista lideradas por Yehoshua, enquanto a Milchemet Reshut é uma guerra travada fora da Terra de Israel. De acordo com esta explicação de Rashi, podemos entender a expressão "quando você vai sair", pois indica que as instruções iniciais da Parashá referem-se a uma Milchemet Reshut, um tipo de guerra que envolve sair da Terra de Israel.
 
Porém, de acordo com o Rambam (Maimônides) (Espanha, 1194 - Israel, 1270), também são chamadas de Milchemet Mitzvá as guerras travadas pelo povo judeu para se defender dos seus inimigos, e isto poderia acontecer mesmo fora da Terra de Israel. Portanto, de acordo com o Rambam, por que a Torá utiliza a expressão "quando você sair"?
 
Além disso, Rashi, em seus comentários no início da Parashat, traz outra prova de que estes versículos referem-se a uma Milchemet Reshut. A Parashá está discutindo sobre a permissão de capturar pessoas durante a guerra. Isto certamente refere-se a uma Milchemet Reshut, pois em uma Milchemet Mitzvá somos ordenados a não deixar sobreviventes, como está escrito: "Porém, das cidades destes povos que Hashem, teu D'us, te dá por herança, você não permitirá que viva nenhuma alma" (Devarim 20:16). De acordo com esta explicação, o versículo já deixou claro que trata-se de uma Milchemet Reshut e, portanto, não seria necessário utilizar a expressão "sair para a guerra". Então, mesmo de acordo com a explicação de Rashi, por que a Torá utilizou esta expressão?
 
A resposta está em algo que ocorreu com os nossos patriarcas. Ytzchak já estava velho e cego, e como achou que a morte se aproximava, quis dar a Brachá de primogenitura ao seu filho primogênito, Essav, sem saber que ele havia vendido a primogenitura ao seu irmão, Yaacov. Rivka, ao escutar os planos do marido, aconselhou Yaacov a receber a Brachá no lugar do seu irmão. Porém, Yaacov teve medo que, mesmo cego, seu pai descobriria o plano, pois havia uma grande diferença entre eles: enquanto Essav tinha muitos pelos no corpo, Yaacov tinha a pele lisa. Rivka ajudou Yaacov a cobrir seus braços e seu pescoço com a pele de um animal, dando a impressão de que ele tinha muitos pelos. Ytzchak realmente desconfiou que havia algo errado ao escutar Yaacov falando e, por isso, pediu para que ele se aproximasse. Ao mexer no braço de Yaacov, Ytzchak exclamou: "A voz é a voz de Yaakov, mas as mãos são as mãos de Essav" (Bereshit 27:22). O Talmud (Guitin 57b) comenta que a expressão "voz" refere-se à Tefilá, enquanto a expressão "mãos" refere-se à guerra. Nenhuma Tefilá pode ser bem sucedida sem o poder de Yaakov, e nenhuma batalha militar pode ser vitoriosa sem o poder de Essav. Isto significa que mesmo o povo judeu precisa das características de Essav para ter sucesso na guerra.
 
Porém, isto não é algo simples para o povo judeu. A natureza de um judeu é buscar a paz e, sempre que possível, evitar um confronto. A sensibilidade do povo judeu faz com que as guerras sejam um conceito estranho para ele. Ao contrário, os descendentes de Essav são, por natureza, guerreiros, de personalidade competitiva, sempre buscando o confronto, como faziam os romanos. Pedir a um judeu para fazer uma guerra significa solicitar que ele passe por uma transformação psicológica completa. Em outras palavras, ele deve assumir o comportamento de Essav, algo fora dele. É por isso que a Torá utiliza a expressão "quando você sair para a guerra", pois quando um judeu vai para a guerra, ele deve sair do comportamento natural de um descendente de Yaakov e assumir o comportamento de um descendente de Essav.
 
Vestir esta "roupa" de Essav não é algo fácil para o povo judeu. É por isso que a Torá precisa nos ensinar como realizar esta mudança. O povo judeu deve ir para as guerras "contra seus inimigos", isto é, por estarmos fazendo algo que vai contra a nossa natureza, precisamos focar que estamos fazendo isto para exterminar os nossos inimigos, aqueles que nos fazem mal, tanto materialmente quanto espiritualmente. Se identificarmos aqueles contra quem travamos uma guerra como sendo nossos inimigos, a guerra torna-se uma missão. Apesar de ser algo difícil para nós, seremos capazes de utilizar a característica de Essav, necessária para ter sucesso na guerra.
 
Este é um conceito incrível que podemos usar em nossas vidas. O livro Orchót Tzadikim descreve os vários traços de caráter que compõe o ser humano. Alguns são predominantemente bons, como a humildade, a generosidade e a misericórdia, enquanto outros são predominantemente ruins, como o orgulho, a mesquinhez e a crueldade. Em hebraico, os traços de caráter são chamados de "Midót". Porém, a palavra "Midót" também significa "medidas". O sal na comida é bom somente se for utilizado na medida certa. Sal demais estraga a comida, enquanto a falta de sal deixa a comida sem gosto. Da mesma maneira, os nossos traços de caráter devem ser sempre utilizados na medida correta. Mesmo os melhores traços de caráter devem ser usados sempre com equilíbrio e sabedoria, pois se forem mal utilizados, podem tornar-se tropeços em nossos desafios do cotidiano. E mesmo os piores traços de caráter podem ser utilizados, com cuidado e na medida certa, de maneira positiva.
 
Criar conflitos normalmente não é algo positivo, e fazer guerras não faz parte da índole do povo judeu. Porém, quando trata-se de lutar pela verdade e batalhar por um mundo melhor, então devemos vestir nossas "roupas de Essav" e lutar pelo que é certo. Quando o inimigo nos ameaça, tanto fisicamente quanto espiritualmente, é o momento de usarmos este traço de caráter para fazer a vontade de D'us, conforme disse Shlomo Hamelech: "Há um tempo para cada assunto sob o céu... Há um tempo para a guerra e um tempo para a paz" (Kohelet 3:1,8). Que possamos usar sempre nossas Midót de forma positiva e construtiva.

 

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