terça-feira, 14 de abril de 2020

RECONHECER O QUE RECEBEMOS - SHABAT SHALOM M@IL - SHEVII DE PESSACH E PARASHAT SHEMINI 5780

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- O Oitavo Dia - Inauguração do Mishkan.
- Consagração dos Cohanim.
- A morte dos filhos de Aharon.
- Advertência de embriaguez no Serviço Divino.
- Completando o Serviço.
- Leis alimentares.
- Animais pequenos.
- Outras leis envolvendo animais.

RECONHECER O QUE RECEBEMOS - SHEVII DE PESSACH E PARASHAT SHEMINI 5780 (17 de abril de 2020)


"Um senhor de 80 anos estava se sentindo mal, com muita falta de ar. Seus filhos, muito preocupados, o levaram para um dos melhores hospitais da cidade, para que recebesse o melhor atendimento. Ainda sem nenhum diagnóstico, ele foi internado para que os médicos pudessem fazer diversos exames. Enquanto aguardavam, passou a noite recebendo oxigênio puro, para melhorar sua falta de ar.
 
No dia seguinte, quando os resultados ficaram prontos, o médico ficou aliviado. Não era nada grave, apenas o início de uma pneumonia, algo que seria resolvido com alguns dias de descanso em casa e antibiótico. O médico então deu alta ao paciente. Quando o velhinho estava saindo, recebeu a conta do hospital: R$ 10 mil. Ao olhar para o papel, o velhinho começou a chorar. O médico se comoveu e tentou consolá-lo. Disse ao velhinho que o mais importante era que ele estava bem de saúde. O velhinho, enxugando as lágrimas, disse:

- Eu não estou chorando pelos R$ 10 mil. Estou chorando pois há 80 anos recebo oxigênio constantemente de D'us e nunca paguei nada. Se por uma noite no hospital eu preciso pagar R$ 10 mil, quanto eu devo para D'us?
 
O médico, ao escutar aquelas palavras, levantou-se e chorou junto com o velhinho..."
 
Quantas coisas boas recebemos na vida e não agradecemos a D'us. Será que sabemos dar valor para as coisas pequenas do cotidiano, como o ar que respiramos? Sabemos dar valor para a Torá e suas Mitzvót, que nos conectam com a espiritualidade e nos permitem crescer um pouco mais a cada dia?

Nesta semana continuamos comemorando a Festa de Pessach, na qual revivemos a libertação do povo judeu da terrível escravidão egípcia, após 210 anos de muito sofrimento. Mas apenas sair do Egito não foi suficiente, pois o povo ainda se sentia escravizado por saber que seus opressores ainda poderiam persegui-los no deserto e reconduzi-los à escravidão. E o medo do povo estava correto, pois o Faraó, arrependido de ter libertado seus escravos, reuniu seu exército mais uma vez e partiu em perseguição ao povo judeu. No sétimo dia após a saída do Egito, os judeus foram alcançados, justamente quando se encontravam diante do Mar Vermelho, intransponível. O povo ficou desesperado e gritou para D'us. Então mais um enorme milagre aconteceu: diante dos olhos de todo o povo, mais de três milhões de pessoas, o mar se abriu.
 
É por isto que o sétimo dia de Pessach (que começa na 3ª feira de noite, 14/maio) também é um Yom Tov, um dia sagrado, em agradecimento e reconhecimento pelo imenso milagre que ocorreu. Se fosse apenas a simples abertura do mar, já seria o suficiente para agradecermos para sempre. Porém, de acordo com o Meam Loez (obra escrita por volta de 1730, por vários autores), não foi apenas um único milagre, mas 50 milagres incríveis que ocorreram. Por exemplo, o piso do mar se elevou e ficou completamente seco, formando um lindo mosaico. Árvores frutíferas cresceram, do chão brotou pasto para os animais e das paredes fluía água doce potável. As paredes do mar se abriram e formaram 12 túneis cristalinos, através dos quais as Tribos podiam se ver. Mesmo as crianças e os velhinhos puderam se mover com rapidez, sem atrasar o resto do povo. Por isso, devemos agradecer muito a D'us e reconhecer as infinitas bondades que Ele nos fez e continua fazendo até hoje.

E no próximo Shabat lemos a Parashat Shemini (literalmente "Oitavo"), que começa descrevendo a inauguração do Mishkan, dia no qual os Cohanim assumiram seu papel de líderes espirituais do povo judeu. Porém, este dia de alegria foi manchado por uma terrível tragédia: a morte dos dois filhos mais velhos de Aharon, Nadav e Avihu, que foram queimados por um fogo celestial. Há muitas explicações sobre qual foi o motivo pelo qual eles tivessem uma morte tão prematura e terrível, na frente de todo o povo. Um dos motivos apontados é que eles não respeitaram seu rabino, Moshé Rabeinu, e ensinaram uma Halachá sem se aconselhar com ele, o que resultou na oferenda de um incenso que D'us não havia comandado. Porém, apesar da transgressão, que resultou em uma decisão errada, ainda assim o castigo parece desproporcional ao erro cometido. Por que eles foram castigados de maneira tão dura?

A resposta está nos versículos que aparecem no final da Parashat: "Você não deve se tornar abominável com qualquer criatura rastejante, nem se contaminar com elas... Pois Eu sou D'us, e vocês se santificarão e serão sagrados, pois Eu sou Sagrado... Pois eu sou D'us, que te trouxe da terra do Egito para ser seu D'us" (Vayikrá 11:43-45). Nestes versículos a Torá está nos proibindo de nos alimentarmos com qualquer tipo de animal rastejante, algo que nos "contamina" espiritualmente.
 
Porém, há algo na linguagem deste versículo que nos chama a atenção. Sempre que a Torá se refere à saída do Egito, a linguagem utilizada é "Hotseti", que significa "Eu tirei vocês". Porém, nestes versículos a linguagem utilizada é "Hamaalê", que significa "Eu elevei vocês". Por que a linguagem normal foi alterada justamente neste versículo que fala sobre a proibição de comer répteis? Rashi (França, 1040 - 1105) explica que se D'us tivesse nos tirado do Egito apenas para não nos impurificarmos com os répteis, isto já seria suficiente. Porém, o que significam estas palavras de Rashi? O que há de tão especial em deixar de comer répteis que valeria a pena D'us ter nos libertado do Egito apenas para nos entregar esta Mitzvá?

Além disso, se a Torá veio neste momento nos proibir de comer répteis, isto significa que até aquele momento o povo judeu se alimentava de répteis, e deixou de fazê-lo apenas após a saída do Egito. Se comer répteis é algo tão repugnante e nos faz tão mal espiritualmente, por que D'us não nos ordenou a pararmos de comer répteis enquanto ainda estávamos no Egito? Por que Ele esperou até sairmos do Egito para nos dar esta Mitzvá?

Explica o Rav Simcha Zissel zt"l (Lituânia, 1824 - 1898), o Saba MiKelem, que estes versículos são uma prova de um importante fundamento espiritual: todos os castigos da Torá referentes às transgressões que cometemos são, na realidade, uma consequência direta da própria transgressão cometida. Isto significa que, da mesma forma que uma pessoa que come carne estragada vai passar mal por causa desta carne, isto é, é a própria carne estragada que causa na pessoa o mau estar, como consequência da natureza do mundo material, assim também é a própria transgressão que nos "castiga" e nos causa consequências amargas, como consequência da natureza do mundo espiritual.

Porém, há outro paralelo interessante entre as transgressões e a carne estragada. O efeito da carne estragada não é o mesmo em um animal e em um ser humano. Como o sistema digestivo do ser humano é mais refinado, o efeito negativo que a carne estragada tem sobre o nosso corpo é muito mais acentuado do que o efeito sobre o corpo de um cachorro, que já está acostumado a comer comidas mais grosseiras. O mesmo ocorre em termos espirituais. Quando uma pessoa está em um nível muito baixo espiritual, então as transgressões já não a atingem tanto quanto alguém que está em um nível espiritual mais elevado.

Com este conceito podemos entender porque D'us esperou a saída do Egito para nos ordenar a evitarmos a contaminação espiritual através dos répteis. Enquanto estávamos no Egito, nosso nível espiritual era tão baixo que comer répteis já não nos causava mais praticamente nenhum estrago espiritual. Porém, quando saímos do Egito, passamos por um processo de purificação espiritual. Neste novo nível, nossa alma já não podia mais suportar a contaminação através da impureza dos répteis.

Este é o entendimento do que Rashi explicou. Valeu a pena D'us ter nos tirado do Egito apenas pela elevação espiritual que alcançamos, suficiente para que não pudéssemos mais suportar a contaminação espiritual dos répteis. Se fosse só por esta elevação, por esta nova sensibilidade espiritual, já teria valido a pena sair do Egito. As Mitzvót nos purificaram e nos elevam, nos deixando mais sensíveis a qualquer tipo de transgressão.

Porém, a elevação espiritual atingida por cada judeu não é igual e, portanto, o dano causado pelas transgressões também não é igual para todos. Assim podemos entender o terrível castigo recebido pelos filhos de Aharon. Para pessoas que não estão em um nível espiritual elevado, a transgressão de ensinar uma Halachá sem se aconselhar com seu rabino não tem efeitos tão negativos sobre suas almas. Mas este não era o caso dos filhos de Aharon. Eles tinham refinado tanto as suas almas que não suportavam mais este tipo de transgressão, para eles era algo completamente abominável. A prova do incrível nível espiritual atingido pelos filhos de Aharon está em um comentário de Rashi, que explica que Moshé veio consolar seu irmão após a terrível perda de seus filhos. Moshé falou para Aharon: "Eu sabia que o Nome de D'us seria santificado através da morte de pessoas especiais. Eu achei que seria através de mim ou de você. Agora eu vejo que seus filhos eram maiores do que eu e você". Moshé aprendeu, através do terrível castigo que os filhos de Aharon receberam, o enorme nível espiritual que eles tinham atingido, de purificação de suas almas, a ponto de suas almas não suportarem mais nenhum tipo de transgressão, nem mesmo um pequeno desvio. O nome de D'us foi santificado, pois o povo pôde refletir que, se aquele era o castigo dos Tzadikim, certamente muito maior seria o castigo dos Reshaim (perversos), e com isto se afastaram das transgressões.
 
A Mitzvá de não comer répteis é realmente especial, pois ela nos ensina o nosso verdadeiro potencial, nos ensina que nossa sensibilidade espiritual pode ser elevada através das Mitzvót, que recebemos após a saída do Egito. A verdadeira liberdade não foi a saída física do Egito, e sim a saída espiritual. Precisamos agradecer a D'us todos os dias pela nossa liberdade espiritual, pela possibilidade de nos elevarmos, de nos refinarmos. As Mitzvót são o nosso maior presente, e por elas valeu a pena D'us ter nos tirado do Egito.
 

PESSACH KASHER VÊ SAMEACH E SHABAT SHALOM
 

R' Efraim Birbojm

Este E-mail é dedicado à Refua Shlema (pronta recuperação) de: Chana bat Rachel, Pessach ben Sima, Rachel bat Luna, Eliahu ben Esther, Moshe ben Feigue, Laila bat Sara, Eliezer ben Shoshana, Mache bat Beile Guice, Feiga Bassi Bat Ania, Mara bat Chana Mirel, Dina bat Celde, Celde bat Lea, Rivka Lea bat Nechuma, Mordechai Ben Sara, Simcha bat Shengle.
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sexta-feira, 3 de abril de 2020

OLHANDO DE FORMA POSITIVA - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT TSAV E SHABAT HAGADOL 5780

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ASSUNTOS DA PARASHAT
 
- Cinzas do Altar.
- Os 3 fogos do Altar.
- Leis da Oferenda de Minchá (Farinha).
- Oferenda do Cohen Gadol e seus filhos.
- Leis das Oferendas de Pecado (Chatat).
- Leis das Oferendas de Culpa (Asham).
- Presentes dos Cohanim.
- Leis das Oferendas de Agradecimento (Todá)
- Pigul e Notar - Oferendas que não são mais aceitas.
- Proibição de consumir as Oferendas em um estado de impureza.
- Proibição de comer gordura (Chelev) e sangue.
- A Porção das oferendas dada ao Cohen.
- Consagração dos Cohanim.

OLHANDO DE FORMA POSITIVA - PARASHAT TSAV E SHABAT HAGADOL 5780 (03 de abril de 2020)

 
"Finalmente havia chegado o grande dia do casamento, após meses de preparativos. Os pais dos noivos estavam radiantes de alegria. Em especial o pai do noivo, que havia investido para comprar uma linda Ketubá (documento do casamento). Apesar de a Ketubá poder ser escrita até mesmo em uma simples folha de papel, o pai do noivo queria que fosse algo muito bonito e artístico para o casamento do seu querido filho.
 
A cerimônia, conduzida pelo Rav Avraham Yaacov Pam zt"l (Lituânia, 1913 - EUA, 2001), começou de forma emocionante, com a linda entrada do noivo e da noiva. Quando ambos já estavam embaixo da Chupá, o Rav Pam foi checar pelo última vez a Ketubá e notou que havia um problema, um erro na Ketubá que a invalidava completamente. O casamento não poderia continuar até que uma nova Ketubá fosse providenciada. A cerimônia foi imediatamente interrompida e, às pressas, tiveram que fazer uma nova Ketubá. Porém, desta vez ela foi escrita em um papel simples, deixando o pai do noivo arrasado. O Rav Pam percebeu imediatamente a mudança no rosto dele, pois o largo sorriso havia desaparecido. Ele estava inconformado, havia investido muito dinheiro em uma Ketubá bonita e agora ela seria escrita em um papel qualquer, sem nenhuma arte ou beleza. O Rav Pam, antes de retomar a cerimônia, chamou o pai do noivo de canto e disse:
 
- Eu entendo que você ficou chateado por termos que escrever outra Ketubá, mas gostaria de explicar como funcionam os cálculos Divinos. Provavelmente no Céu estava decretado que seu filho, ao longo da vida, teria que escrever duas Ketubót. Isso poderia acontecer envolvendo tristeza e constrangimento, como após um divórcio. Porém, D'us é misericordioso e permitiu que seu filho pudesse cumprir esse decreto de forma muito mais simples, barata e sem passar por constrangimentos. Não é um enorme motivo para se alegrar?
 
Ao escutar aquelas palavras, o pai do noivo concordou e voltou para a Chupá com um enorme sorriso em seu rosto."
 
Se olharmos para os testes e dificuldades que passamos diariamente de uma forma mais positiva, com certeza eles serão motivos para mais alegria e teremos uma vida muito mais tranquila.

Nesta semana lemos a Parashat Tzav (literalmente "Ordene"), que continua descrevendo os detalhes de um dos Serviços espirituais mais importantes do povo judeu: os Korbanót (sacrifícios), sendo um dos mais interessantes o "Korban Todá", o sacrifício de agradecimento pela Providência Divina em alguns tipos específicos de salvação de perigos, como uma pessoa que atravessou um deserto ou o oceano, que se curou de uma doença ou que foi libertada do cativeiro. E este Shabat, o último antes da festa de Pessach (que se inicia na próxima 4ª feira de noite, 08 de abril), é chamado de "Shabat HaGadol", por causa de um grande milagre que aconteceu ao povo judeu. No dia 10 do mês de Nissan, cinco dias antes da saída do Egito, os judeus foram ordenados por D'us a levar cordeiros para suas casas. Como era Shabat, a cena chamou a atenção dos egípcios, que questionaram onde eles estavam levando os cordeiros, que eram uma divindade no Egito. Os judeus tiveram a coragem de responder que aquele era um comando de D'us, para que eles amarrassem aquele cordeiro em suas camas e os abatessem no dia 14 de Nissan, como uma oferenda. Os egípcios ficaram furiosos ao escutar os planos dos judeus, o que poderia ter causado uma imensa campanha antissemita, com ataques aos judeus e destruição de suas propriedades, como ocorreu diversas vezes na história. Porém, D'us fez um grande milagre e, apesar dos egípcios estarem enfurecidos, eles não puderam fazer nada contra os judeus.
 
A verdade é que Pessach reaviva em nossa lembrança as muitas perseguições e falsas acusações contra o povo judeu, algo que se repete de geração em geração, conforme dizemos na Hagadá: "Não apenas um quis nos destruir, mas em cada geração e geração se levantam para nos destruir. Porém, D'us nos salva das mãos deles". Por exemplo, desde a Idade Média o povo judeu vem sendo falsamente acusado de preparar as Matsót e o vinho de Pessach com sangue dos não judeus, especialmente crianças. As acusações, mais conhecidas como "libelos de sangue", ficam por algum tempo esquecidas, mas de tempos em tempos retornam, como no livro italiano "Páscoa de Sangue", de autoria de Ariel Toaff, lançado há pouco mais de 10 anos, que baseou suas especulações em confissões de judeus da Idade Média, extraídas através de tortura. Provavelmente, pessoas submetidas a tamanha crueldade também teriam confessado serem até mesmo demônios.
 
Obviamente não há base nenhuma na alegação de que rituais judaicos incluem, ou já incluíram, em Pessach ou em qualquer outro momento do ano, o consumo de sangue humano ou animal. Principalmente por isto ser proibido pela Torá e ser considerado uma transgressão muito grave, conforme está escrito na nossa Parashat: "Você não deve consumir nenhum sangue, em todas as suas moradias, de pássaros e de animais. Qualquer pessoa que consumir qualquer sangue, esta alma será cortada do seu povo" (Vayikrá 7:26,27).
 
Porém, por uma enorme ironia, o conceito do sangue é realmente uma parte central na Festa de Pessach. Obviamente não um sangue usado na alimentação, mas em referência ao sangue do Korban Pessach. Na época do Beit Hamikdash, um cordeiro era abatido na véspera de Pessach e consumido no final do Seder, como o "Afikoman" original. Como parte do Serviço do Korban Pessach, seu sangue era jogado nas paredes do Mizbeach (altar). O primeiro Korban Pessach da história, que ocorreu na véspera da saída do Egito, foi um pouco diferente. O sangue dos cordeiros abatidos, aqueles que haviam sido amarrados às camas dos judeus, foi passado nos batentes de cada lar judeu. Aquele sangue trouxe mérito para os judeus, poupando-os da Praga da Morte dos Primogênitos, fazendo com que D'us "saltasse" sobre suas casas. O sangue nas portas dos lares judaicos no Egito representa o sangue do nascimento de um povo. Das casas no Egito uma nova entidade coletiva surgiu: a nação judaica.
 
Antes da saída do Egito, os judeus já eram parentes, pois todos eram descendentes de Yaacov, mas não eram um povo. Qualquer indivíduo ainda era capaz de rejeitar sua conexão com os outros indivíduos. De fato, nossos sábios ensinam que muitos não mereceram sair do Egito e morreram durante a Praga da Escuridão. O comportamento deles os impedia de fazerem parte desta nova nação, carregada de santidade. Com o sangue nas portas e as sacolas cheias de Matzót, eles seguiram Moshé em direção ao perigoso deserto, cumprindo com Emuná a ordem de D'us, conforme descrito pelo profeta: "Lembro-Me da bondade de sua juventude ... quando você Me seguiu no deserto, uma terra onde nada é plantado" (Yirmiahu 2:2). E assim os judeus começaram o processo de se tornar uma nação viva, uma entidade cujos membros e descendentes ao longo da história fazem parte de um todo.
 
Portanto, o sangue no judaísmo não é um símbolo de sofrimento, tortura ou morte, mas de nascimento, vida e propósito. O sangue também simboliza a primeira Mitzvá que um judeu cumpre na vida: o Brit-Milá, nosso pacto individual com D'us, realizado aos 8 dias de vida do bebê. É a isto que se refere o profeta, em palavras que aparecem no texto da Hagadá e se referem ao nascimento do povo judeu: "Eu passei, e você estava afundando em seu sangue, e Eu disse a você: 'No seu sangue você viverá'. E eu disse a você: 'No seu sangue você viverá'" (Yechezkel 16:6). A repetição de "No seu sangue você viverá" se refere ao sangue do Brit Milá e ao sangue do Korban Pesach, o pacto individual e o pacto coletivo do povo judeu com D'us, os símbolos do nascimento de uma nova nação.
 
Quão irônico este sangue, que representa vida, ter se transformado no tema de tanto ódio dos nossos inimigos, ao ponto de fontes da Halachá (Lei Judaica) sugerirem o uso de vinho branco, e não tinto, para o Seder de Pessach, em lugares onde há medo do "libelo de sangue". Para os antissemitas, infelizmente, não faltam motivos para falsas acusações.
 
O sangue, que constantemente nos lembra de morte, é um símbolo judaico de vida e nascimento. Isto nos ensina uma incrível lição de Emuná. Os momentos difíceis da vida podem ser justamente os momentos em que a salvação está sendo criada. As dificuldades podem ser um trampolim para o nosso crescimento, podem ser a forma que D'us utiliza para despertar o potencial que está guardado dentro de nós.
 
Durante o Seder de Pessach nós perguntamos: "Por que esta noite é diferente das outras noites". A resposta desta pergunta é que nesta noite ocorreu uma transição, de escravos para homens livres. Neste ano precisamos refletir e fazer mais uma pergunta: "Por que este Seder de Pessach está sendo tão diferente dos outros Sedarim de Pessach?". Uma epidemia de escala mundial, causando um total isolamento e indefinição sobre o futuro. O que D'us quer de nós? A resposta é que ele quer o renascimento da humanidade. Ao nos trancar em casa, D'us quer a nossa reflexão, a nossa mudança de valores, o nosso questionamento sobre os nossos objetivos de vida, a reavaliação dos nossos relacionamentos. Temos tudo para sairmos desta epidemia ainda mais fortes. Neste ano, escravos. No próximo ano, homens livres. Neste ano aqui, no próximo ano em Jerusalém.
 

SHABAT SHALOM E PESSACH KASHER VÊ SAMEACH
 

R' Efraim Birbojm

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sexta-feira, 27 de março de 2020

CUIDADO AO ESCOLHER SUAS COMPANHIAS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT VAYIKRÁ 5780

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VÍDEO DA PARASHAT VAYIKRÁ
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ASSUNTOS DA PARASHAT
 
- D'us chama Moshé
- D'us ensina a Moshé as regras gerais dos Korbanót
- Korban de gado, rebanho e pássaros (Olá)
- A oferenda de farinha - Oblação (Minchá).
- A Oferenda cozida, da frigideira, frita na panela.
- Pacto de sal
- Oferenda dos primeiros grãos (Bikurim).
- Oferendas de Pazes de gado, rebanho e cabras (Shelamim).
- Oferendas de Pecado para o Cohen Gadol, Comunidade, Rei, Indivíduos comuns (Chatat).
- Cordeiros como Oferendas de Pecado (Chatat).
- A Oferenda de Culpa Ajustável (Ole VeIored).
- A Oblação por Culpa (Chatat).
- O Sacrifício da Malversação.
- A Oferenda por Culpa Questionável (Asham Talui).
- Oferendas por Desonestidade.

CUIDADO AO ESCOLHER SUAS COMPANHIAS - PARASHAT VAYIKRÁ 5780 (27 de março de 2020)


"Era uma vez uma cegonha que tinha uma natureza muito simples e ingênua. Ela era tranquila, fazia o bem a todos e sempre buscava a paz, conforme a boa índole de sua espécie. Certa vez, ela foi convidada por um bando de garças a visitar um campo arado que havia sido recentemente semeado. Em sua ingenuidade, a cegonha aceitou o convite e foi.

Porém, a cegonha não sabia que as garças não tinham planejado apenas uma simples visita ao campo recém-semeado. Elas haviam planejado comer as sementes que haviam sido atiradas ao solo, sem se importar com a perda que isto causaria ao pobre agricultor, que havia investido muito dinheiro e esforço naquele plantio. As garças, egoístas, pensavam apenas no incrível banquete que estava diante delas. Mas a festa acabou bruscamente quando todo o bando foi capturado por uma enorme rede que havia sido colocada como armadilha pelo agricultor, que já estava cansado dos prejuízos causados pelas garças. Agora sim receberiam a devida punição por seus maus atos. A cegonha, vendo-se presa junto com as garças, implorou ao agricultor: 

- Por favor, deixe-me ir embora. Eu pertenço à família das cegonhas, que são conhecidas pela sua honestidade e bom caráter. Veja, minhas penas são diferentes da plumagem delas. Sou da paz, eu não sabia que as garças estavam vindo para roubar suas sementes, achei que elas fariam apenas uma visita ao seu campo. Tenha misericórdia de mim, eu imploro.

O agricultor, sem demonstrar nenhum tipo de compaixão, respondeu: 

- Cegonha, você pode até ser um bom pássaro e ter uma boa índole, e pode até ser verdade tudo o que você está dizendo. Porém, você foi capturada na companhia das garças destruidoras de plantações e, por isso, receberá a mesma punição que eu reservei para elas".
 
Andar com más companhias é o pior investimento que podemos fazer na vida. Aqueles que andam com pessoas de má índole correm o risco de aprender com os seus maus atos. Más companhias levam pessoas corretas a se corromperem e a se desviarem do caminho correto. E, na hora do castigo, os que estão juntos com os malvados acabam sofrendo junto, como ensinam os nossos sábios: "Pobre do perverso e pobre do seu vizinho"

Nesta semana começamos o terceiro livro da Torá, Vayikrá. E neste livro ocorre uma enorme mudança em relação ao "estilo de narração" que estava sendo utilizado até agora pela Torá. Os dois primeiros livros da Torá, Bereshit e Shemót, focaram em uma narração histórica da humanidade. O Sefer Bereshit começou a descrever os principais acontecimentos desde a criação do mundo, passando pelo Dilúvio na geração de Noach, a Torre de Babel e as vidas dos nossos patriarcas Avraham, Yitzchak e Yaacov. Já o Sefer Shemót descreveu a escravidão dos judeus no Egito, a posterior libertação do povo judeu, a entrega da Torá no Monte Sinai, a construção do Bezerro de Ouro e finalmente a construção do Mishkan, o Templo Móvel que trouxe a Presença de D'us ao mundo. Porém, o Sefer Vayikrá praticamente deixa de narrar os acontecimentos do povo judeu, que são retomados apenas no Sefer Bamidbar, e coloca o foco em assuntos mais espirituais, que envolvem Kedushá (santidade), Tahará (pureza espiritual) e Tumá (impureza espiritual).
 
Na Parashat desta semana, Vayikrá (literalmente "E chamou"), a Torá se aprofunda no assunto dos Korbanót, os sacrifícios que eram oferecidos no Mishkan, que representam o principal Serviço Espiritual do povo judeu e um dos pilares do mundo, conforme ensinam os nossos sábios: "O mundo se sustenta sobre três pilares: sobre a Torá, sobre o Serviço Espiritual (Korbanót) e sobre os atos de bondade" (Avót 1:2). Desde a destruição do nosso Beit HaMikdash não temos mais os Korbanót e, portanto, nosso principal Serviço Espiritual passou a ser a nossa Tefilá, a substituta dos nossos Korbanót.
 
Porém, sabemos que a Torá é, acima de tudo, um "Manual de instruções" para a nossa vida. Esta Parashat, que explica vários detalhes sobre os mais diversos tipos de Korbanót, era de extrema importância na época do Mishkan e, posteriormente, na época do Beit Hamikdash. Porém, por que D'us escreveu estas informações na Torá mesmo sabendo que, futuramente, muitas gerações não teriam os Korbanót como parte do seu Serviço Espiritual? Por que atualmente precisamos conhecer os detalhes sobre a oferenda dos Korbanót se não podemos oferecê-los na prática? A resposta é que muitos dos conceitos ensinados em relação aos Korbanót também se aplicam à nossa vida, mesmo nas épocas em que eles não podem mais ser oferecidos.

Na realidade, existe uma grande divergência entre os comentaristas da Torá sobre qual é exatamente o motivo pelo qual D'us nos ordenou a oferecermos Korbanót. E certamente a opinião que mais chama a atenção é a do Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204). Em seu livro "Morê Nevuchim", ele afirma que, pelo fato de o desejo pela idolatria ser algo tão forte, D'us precisou dar algo "semelhante" ao povo judeu, para que eles canalizassem esta força para o lado correto. A priori o que o Rambam está afirmando é que D'us comandou ao povo judeu a Mitzvá de oferecer Korbanót para que eles pudessem vencer a má inclinação da idolatria, que já fazia parte da essência do povo. Porém, faz sentido que D'us tenha nos comandado a oferecer Korbanót, um dos pilares que sustentam o mundo e um dos principais Serviços Espirituais do povo judeu, apenas para tirar a nossa má inclinação em relação à idolatria? Pela importância que a Torá dá aos Korbanót, parece que eles são, por si só, algo vital para a nossa espiritualidade e um componente necessário para o nosso Serviço Espiritual, não uma "muleta" para nos apoiarmos em nossa fraqueza espiritual. Então, como entender as palavras do Rambam?
 
Antes de tudo, precisamos entender a essência dos Korbanót. A palavra "Korban" vem de "Karov", que significa "próximo, perto", pois é um Serviço que nos aproxima de D'us. Observamos, através de alguns eventos descritos na Torá, que o ser humano tem uma tendência natural de querer oferecer Korbanót para D'us, para conectar-se a Ele. O primeiro foi Cain, filho de Adam Harishon, que decidiu fazer uma oferenda para D'us, dedicando a Ele parte da sua produção agrícola, algo que D'us não havia ordenado. Imediatamente Hevel, ao ver a atitude de seu irmão Cain, também teve vontade de fazer uma oferenda para D'us, dedicando a Ele alguns animais que pastoreava. Estes foram os primeiros Korbanót da humanidade, que não haviam sido ordenados por D'us, e sim emanaram da vontade do ser humano de se conectar a Ele. Também Noach, após sair da arca, ofereceu Korbanót a D'us, embora não tivesse sido ordenado a fazer isto.
 
Então de onde surgiu a idolatria? Ela veio do desejo equivocado e mal utilizado que nós, seres humanos, naturalmente temos de querer nos conectar com D'us. O Rambam explica como começou a idolatria no mundo. Em um primeiro momento, toda a humanidade se conectava somente a D'us. Porém, com o passar das gerações, as pessoas também sentiram a necessidade de, além de servir D'us, o Rei, servir também seus "ministros", que eram os astros. Após algum tempo, as pessoas acabaram servindo apenas os astros, esquecendo-se do Serviço Divino.
 
Portanto, explica o Rav Yaacov Kamenetzky zt"l (Lituânia, 1891 - EUA, 1986) que o Rambam não está explicando que temos a obrigação de oferecer Korbanót para anular nosso desejo inerente pela idolatria. É justamente o contrário, o povo judeu tem uma tendência natural de servir a D'us, porém este desejo acabou sendo corrompido quando eles conviveram com povos que adoravam as idolatrias. O comando de D'us para que o povo judeu oferecesse Korbanót serviu para "consertar" o desejo natural de servir a D'us, que havia se desviado por causa das más influências.

A Torá está nos ensinando algo impressionante. Temos dentro de nós uma alma pura, que é uma parte de D'us soprada dento de nós no momento da criação. Isto significa que o ser humano tem uma bondade intrínseca dentro dele e uma vontade natural de conectar-se a D'us. Então por que nos afastamos tanto de D'us no nosso cotidiano? Pois nos deixamos influenciar pelos maus comportamentos das nações que se dedicam a uma vida de materialismo, que idolatram a si mesmos e aos seus desejos. Permitimos que a convivência com aqueles que se desviaram do caminho correto, que permitiram que seus corpos ofuscassem o brilho de suas almas, nos corrompessem e nos afastassem das nossas inclinações espirituais naturais.
 
É isto o que nos ensinam os nossos sábios: "Se afaste de um mau vizinho e não se junte a um perverso" (Pirkei Avót 1:7). Aquele que entra em uma loja de perfumes, mesmo que não compre nada, sai com suas roupas perfumadas. Porém, aquele que entra em um curtume, mesmo que não compre nada, sairá com as roupas malcheirosas. Mesmo nossas melhores inclinações podem ser corrompidas por causa do contato com más influências. Mesmo inclinações naturais da nossa alma podem ser anuladas quando mantemos contato com pessoas que deixaram que sua espiritualidade fosse apagada. Por isso, precisamos nos cuidar muito com as influências que recebemos. Com tudo o que está ocorrendo no mundo, D'us está nos dando uma nova chance. Este momento de isolamento é propício para reflexões e para novas decisões de vida. Que possamos sair de tudo isso muito mais fortalecidos.
 

SHABAT SHALOM
 

R' Efraim Birbojm

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