sexta-feira, 20 de junho de 2025

PEQUENOS DETALHES QUE FAZEM A DIFERENÇA - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ SHELACH 5785

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PARASHÁ SHELACH 5785



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ASSUNTOS DA PARASHÁ SHELACH
  • Explorando a Terra de Israel.
  • Moshé reza por Yehoshua, seu Talmid.
  • Calev vai para Hevron.
  • 10 espiões voltam falando mal da Terra de Israel.
  • Histeria e choro do povo.
  • Ameaça de Destruição.
  • O Decreto dos 40 Anos no deserto.
  • Parte do povo tenta entrar "à força"
  • Oblações para Sacrifícios.
  • A Oferenda da Massa (Chalá).
  • Oferendas de Pecado Comunal por Idolatria (não intencional).
  • Oferendas de Pecado Individual por Idolatria (não intencional).
  • Idolatria intencional.
  • Mekoshesh: O homem juntando lenha no Shabat.
  • A Penalidade por violação do Shabat.
  • Shemá Israel.
  • Tzitzit.
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PEQUENOS DETALHES QUE FAZEM A DIFERENÇA - PARASHÁ SHELACH 5785 (20/jun/25)

Que as estrelas do rock são cheias de manias estranhas, isso é algo sabido. Mas poucas bandas conseguiram carregar essa fama tão bem quanto o Van Halen, uma banda americana que fez muito sucesso nos anos 80. Só em 1984, eles fizeram mais de 100 shows. Foram uma das primeiras bandas de rock a trazer grandes produções de palco para cidades menores. Por trás do sucesso da banda havia um grande desafio de excelência operacional. Eles usavam nove caminhões cheios de equipamentos, enquanto o padrão era três caminhões. Tinham um contrato gigantesco, com todos os itens que a banda exigia para cada show, com páginas e páginas sobre equipamentos, geradores, estruturas e efeitos especiais. Mas havia uma cláusula que beirava o surreal. A cláusula 126 exigia, no camarim, uma tigela cheia de M&Ms, mas com um detalhe incomum: não poderia haver absolutamente nenhum M&M marrom. O mais absurdo era outro detalhe desta cláusula: se alguém da banda encontrasse um único M&M marrom, a banda poderia cancelar o show, receber o cachê integral e ir embora sem se apresentar. A lenda dizia que, quando David Lee Roth, o vocalista, encontrava um M&M marrom, ele surtava.
 
Obviamente, isso parecia um excesso de pessoas mimadas e virou piada entre os produtores. Porém, em uma noite na qual o Van Halen chegou para se apresentar em um ginásio de uma pequena cidade, a piada terminou. Ao entrarem no camarim, lá estava a tigela cheia de M&Ms, mas havia vários M&Ms marrons no meio. David Lee Roth olhou aquilo e, sem pensar duas vezes, começou a berrar de forma histérica: "Parem tudo!". Ele chamou toda a equipe técnica e ordenou uma vistoria completa do palco.
 
O que descobriram foi assustador: a empresa local não havia seguido as especificações técnicas. O palco foi montado sem o reforço adequado e, por isso, a estrutura estava afundando com o peso dos equipamentos. Provavelmente, parte do piso não aguentaria o show. Se a apresentação tivesse acontecido, poderia haver um desabamento, colocando em risco a vida não apenas dos músicos, mas de milhares de pessoas na plateia.
 
O prejuízo naquele dia foi enorme: horas de trabalho extra, remontagem do palco e um enorme atraso. Mas maior que qualquer custo foi a consciência de que, por muito pouco, uma tragédia foi evitada. E então ficou claro para todos que os M&Ms marrons nunca foram um capricho. A cláusula bizarra era, na verdade, um sistema de alerta escondido. No meio de centenas de itens técnicos sobre pesos, voltagens, estruturas e medidas, aquele pedido ridículo servia como um mecanismo de verificação. Se a equipe de produção tivesse lido o contrato até o final e seguido cada detalhe, certamente teria visto a exigência dos M&Ms sem nenhum marrom. Mas, se isso não tivesse sido cumprido, era sinal de que provavelmente ignoraram também alguns detalhes perigosos.
 
A cláusula 126, que parecia uma excentricidade, era, na verdade, uma sacada de gênio de uma banda que buscava excelência em suas apresentações. Naquele dia, os M&Ms marrons salvaram o show do Van Halen e, talvez, muitas vidas. Isso nos ensina que, muitas vezes, pequenos detalhes podem fazer toda a diferença.

Nesta semana a Parashá Shelach (literalmente "Envie") descreve a terrível transgressão dos espiões que, após terem sido enviados para a Terra de Israel, mesmo que esta não fosse a vontade de D'us, voltaram falando mal da terra. Em um ato de rebeldia, o povo escolheu escutar os espiões e chorou um choro amargo. Aquele ato de rebeldia custou caro, pois aquela geração inteira ficou proibida de entrar em Israel e aquele dia, Tishá be Av, ficou marcado para todas as futuras gerações como um dia de choro e tragédias.
 
No final da Parashá, a Torá traz os versículos do último parágrafo do Shemá Israel, que fala sobre a Mitzvá de Tzitzit. Há na Torá Mitzvót mais fáceis e Mitzvót mais difíceis de serem cumpridas. Esta é aparentemente uma Mitzvá fácil, pois vestimos a roupa de quatro cantos com os Tzitzit quando acordamos e, durante o dia inteiro, cumprimos a Mitzvá sem nenhum tipo de preocupação ou esforço adicional. Porém, a Parashá nos ensina que a Mitzvá de Tzitzit não é uma Mitzvá simples. Sobre ela está escrito algo interessante: "E para que vocês lembrem de todos os Mandamentos de D'us" (Bamidbar 15:39). A Torá está nos ensinando que os nossos Tzitzit devem servir como um lembrete da nossa obrigação de cumprir todas as Mitzvót da Torá. Mas como isso funciona?
 
Rashi (França, 1040 - 1105) explica que o valor numérico da palavra Tzitzit (ציצית) é 600 (Tzadi (צ) = 90, Yud (י) = 10, Tzadi (צ) = 90, Yud (י) = 10 e Taf (ת) = 400). Ao adicionarmos os 8 fios e os 5 nós que colocamos em cada um dos cantos da roupa, chegamos ao total de 613, correspondendo às 613 Mitzvót da Torá.
 
Os Baalei HaTossafot, em seu comentário sobre o Talmud (Menachot 39a), questionam como Rashi chegou ao número 600 para a palavra Tzitzit, se a grafia da palavra na Torá contém apenas um "Yud", o que totalizaria 590.  resposta trazida pelos Baalei HaTossafot é que a palavra Tzitzit aparece na Torá três vezes, e em uma dessas ocasiões a palavra é escrita "LeTzitzit", com um "Lamed" a mais, que acrescenta um valor adicional de 30. Ao dividir este valor de 30 pelas três vezes em que a palavra Tzitzit é mencionada, restaura-se a correspondência entre a palavra "Tzitzit" e o número 600.
 
Porém, o que os nossos sábios estão nos transmitindo? Parece altamente improvável que, ao olhar para o Tzitzit, uma pessoa faça esses cálculos tão complexos, levando-a a se lembrar de todas as Mitzvót de D'us. Por que, então, o ato de lembrar os Mitzvót é expresso de forma tão intricada e rebuscada?
 
Além disso, o Ramban zt"l (Espanha, 1194 - Israel, 1270) questiona a explicação de Rashi, que inclui os 5 nós e os 8 fios para alcançar o total de 613, uma vez que o Talmud (Menachót 38b) ensina que a obrigação dos Tzitzit, segundo a Torá, envolve apenas o primeiro nó, enquanto os outros quatro são de origem rabínica. Portanto, como pode Rashi incluir todos os 5 nós no cálculo que visa cumprir a obrigação da Torá de lembrar as Mitzvót?
 
Rashi (Bamidbar 15:41) também ensina que há um elo entre o Tzitzit e outras duas Mitzvót mencionados no final da Parashá: abster-se da idolatria e guardar o Shabat. Rashi explica que a proximidade entre estas Mitzvót nos ensina que as três possuem a qualidade de serem equivalentes a todas as Mitzvót da Torá. Porém, isso faz sentido? É compreensível que praticar idolatria seja equivalente a transgredir toda a Torá, pois nega a supremacia de D'us. Desrespeitar o Shabat também, pois o Shabat é a afirmação de D'us como Criador do universo. Mas qual é a lógica para que a Mitzvá de Tzitzit seja considerada equivalente a todas as outras Mitzvót?
 
Finalmente, de acordo com a Torá, a pessoa não é obrigada a vestir o Tzitzit. A exigência do Tzitzit só se aplica caso a pessoa estiver usando uma vestimenta de quatro pontas. Mesmo que o povo judeu tenha recebido sobre si a obrigação de usar o tempo todo uma roupa de quatro cantos para poder cumprir a Mitzvá de Tzitzit, ainda assim como pode ser que uma Mitzvá que nem sequer é uma obrigação constante da Torá seja tão importante?
 
Responde o Rav Yochanan Zweig shlita que além dos elementos "técnicos" da Mitzvá do Tzitzit, ela contém um conceito ainda mais fundamental. O Sefer HaChinuch explica que o Tzitzit é comparável a um uniforme que identifica um escravo como pertencente ao seu mestre. Consequentemente, não é por acaso que a Mitzvá de Tzitzit esteja incluída na leitura do Shemá Israel, pois vestir o Tzitzit representa uma reafirmação contínua da aceitação do jugo dos Céus. É a extensão desta declaração que é o ponto central do Shemá Israel.
 
Para aumentar a eficácia e a potência do Tzitzit como ferramenta através da qual uma pessoa se lembra e reafirma seu compromisso de cumprir as 613 Mitzvót, ou seja, como expressão de sua aceitação do jugo Celestial, a Torá declara: "E farão para si Tzitzit" (Bamidbar 15:38). Isso significa que o lembrete não provém apenas de olhar para o Tzitzit após vesti-lo. A Torá exige que nossos Sábios criem um lembrete a partir dos próprios Tzitzit. Isso se compara a amarrar um fio no dedo como um sinal, quando queremos lembrar de algo importante. Quando uma pessoa amarra um fio no dedo, não é o fio em si que possui importância primária, mas aquilo que ele é destinado a lembrar. Da mesma forma, a Torá instrui nossos Sábios a encontrar referências simbólicas dentro do Tzitzit, de modo que o próprio ato de colocar o Tzitzit já funcione como um lembrete da aceitação do jugo de D'us. Portanto, se necessário, podemos fazer cálculos elaborados, incluindo até mesmo detalhes de origem rabínica, para atribuir ao Tzitzit a representação simbólica da aceitação de todas as Mitzvót. Funciona muito melhor como lembrete quando somos nós mesmos que criamos esse simbolismo.
 
É por esse motivo que a Torá não obriga o uso do Tzitzit. Se a Torá o tivesse feito, a eficácia do Tzitzit como lembrete teria sido enfraquecida, pois o motivo para vesti-los se reduziria a um ato realizado apenas para cumprir uma obrigação da Torá. Uma criação dos nossos sábios que estabelece a obrigação constante de usar Tzitzit é mais eficaz como lembrete, pois fomos nós que designamos esse simbolismo. E, finalmente, uma vez que a Mitzvá de Tzitzit contém o princípio fundamental da aceitação do jugo de D'us, ela pode ser agrupada com as Mitzvót de abster-se da idolatria e de guardar o Shabat.
 
Nos ensina o Rabi Yochanan ben Zakai: "Seja tão cuidadoso no cumprimento de uma Mitzvá 'leve' como no cumprimento de uma Mitzvá 'pesada', pois não sabemos a recompensa que cada uma merece" (Pirkei Avot 2:1). O Tzitzit é o exemplo de que muitas vezes nos pequenos detalhes está a nossa verdadeira conexão com D'us. É através dos pequenos atos do cotidiano que demonstramos que queremos cumprir de verdade a vontade Dele. As Mitzvót fáceis e cotidianas são os nossos M&Ms, com os quais indicamos para D'us que está tudo bem.

SHABAT SHALOM

 R' Efraim Birbojm

 

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quinta-feira, 12 de junho de 2025

A FALTA QUE FAZ UMA MITZVÁ - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ BEHAALOTECHÁ 5785

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ASSUNTOS DA PARASHÁ BEHAALOTECHÁ
  • Acendendo a Menorá.
  • Inauguração dos Leviim.
  • Responsabilidade dos Leviim.
  • O primeiro Pessach no deserto (2º ano).
  • Pessach Sheni.
  • Sinais Divinos para iniciar as viagens.
  • As Trombetas.
  • Moshé convida Itró (Chovev) a se juntar ao povo judeu.
  • A Viagem do Sinai.
  • A Arca Parte (Nun invertido).
  • Queixas e o fogo Celestial.
  • Reclamação do Man e desejo por carne.
  • Moshé reclama com D'us do peso do povo e D'us escolhe 70 anciãos.
  • A Codorniz e a praga.
  • Lashon Hará de Miriam e Aharon sobre Moshé.
  • D'us ressalta o valor único de Moshé.
  • A Punição de Miriam (Tzaraat).
  • Miriam de Quarentena fora do acampamento e o povo espera.
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A FALTA QUE FAZ UMA MITZVÁ - PARASHÁ BEHAALOTECHÁ 5785 (13/jun/25)

O Rav Kalonymus Kalman Shapira zt"l (Polônia, 1889 - 1943), mais conhecido como o Piaseczno Rebe, foi um grande sábio da Torá, muito respeitado na Polônia. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi confinado no Gueto de Varsóvia, onde a vida judaica foi severamente restringida e ameaçada pela ocupação nazista.
 
No gueto, as condições eram extremas: fome, doenças, medo constante, brutalidade e morte rondavam a comunidade judaica. Praticar o judaísmo de forma plena, tais como a observância do Shabat, as leis de pureza familiar, o estudo de Torá e o cumprimento das Mitzvót, tornou-se quase impossível.
 
Mesmo diante desse cenário desolador, o Piaseczno Rebe dedicou-se incansavelmente a fortalecer a espiritualidade dos judeus presos no gueto. Ele dava Shiurim clandestinos e incentivava as pessoas a continuarem cumprindo as Mitzvót que fossem possíveis, mantendo viva a chama judaica.
 
Seus escritos dessa época foram reunidos em um livro chamado "Esh Kodesh" (Fogo Sagrado), que contém seus Shiurim e suas reflexões profundas. O Rebe fala abertamente sobre o sofrimento pela impossibilidade de cumprir as Mitzvót, e a importância de não perder a sensibilidade espiritual, de sentir a dor e o anseio por se conectar com D'us, mesmo que o cumprimento fosse dificultado ou negado pelas circunstâncias. Essa dor espiritual, segundo ele, não deveria ser vista como fraqueza, mas como parte essencial do compromisso e da Emuná, uma expressão verdadeira de amor e conexão com a Torá.
 
Em 1943, o Piaseczno Rebe foi deportado para o campo de concentração de Trawniki, onde foi assassinado pelos nazistas. Seus escritos, entretanto, foram salvos e servem como um testemunho poderoso da resistência espiritual e da profundidade da Emuná judaica mesmo nos momentos mais sombrios da nossa história.
 
Mesmo quando o Rebe não conseguia cumprir as Mitzvót, ao menos ele sentia dor e tristeza. Ele nunca se acomodou. Ele sempre manteve a esperança de que tempos melhores, de liberdade espiritual, viriam ao povo judeu.

Nesta semana lemos a Parashá Behaalotechá (literalmente "Quando você acender"), que dá início a uma série de Parashiót nas quais são recordadas muitas graves transgressões cometidas pelo povo judeu no deserto, que culminaram no decreto de que aquela geração não poderia entrar na Terra de Israel e deveria ficar por 40 anos no deserto.
 
Um dos assuntos mais interessantes trazidos na nossa Parashá é o "Pessach Sheni", um ensinamento extremamente importante, não apenas pelas implicações na Halachá, mas principalmente pela mensagem que nos transmite em relação à forma correta como devemos nos comportar em relação às Mitzvót. Quando o povo judeu estava prestes a completar um ano da saída do Egito, eles foram ordenados a novamente oferecer o Korban Pessach, como está escrito: "D'us falou a Moshé no deserto do Sinai, no segundo ano após a saída deles da terra do Egito, no primeiro mês (Nissan), dizendo: 'Bnei Israel farão o Korban Pessach no tempo determinado. No entardecer do décimo quarto dia deste mês, vocês o farão em seu tempo determinado... conforme todas as suas leis" (Bamidbar 9:1-3). Porém, alguns judeus foram se queixar com Moshé, pois uma das regras em relação aos Korbanót é que a pessoa que o oferece esteja em estado de pureza espiritual. Alguém que, por exemplo, esteve em contato com mortos, não pode oferecer um Korban. Estas pessoas estavam impuras e, por isso, não poderiam cumprir a Mitzvá do Korban Pessach. Moshé então foi se aconselhar com D'us.
 
A resposta de D'us foi a criação de uma nova Mitzvá, o "Pessach Sheni", uma segunda chance. Pelo mérito daquelas pessoas que foram se aconselhar com Moshé, qualquer pessoa que em Pessach estivesse impuro ou no meio de uma viagem, impossibilitado de voltar e oferecer o Korban na data certa, teriam uma nova oportunidade de oferecer o Korban Pessach um mês depois, no dia 14 de Yiar.
 
Porém, no Talmud (Kidushin 37b), há uma explicação surpreendente do Tossafot. Ele afirma que quando a Torá descreve o conceito do "Pessach Sheni", na verdade está fazendo uma crítica ao povo judeu, por não ter oferecido o Korban Pessach durante os 39 anos seguintes. Tossafot se refere ao fato de que, após este evento do Pessach Sheni registrado na Torá, que ocorreu no final do primeiro ano no deserto, nos próximos 39 anos nunca mais o Korban Pessach foi oferecido pelo povo judeu. Isso significa que esta vez em que o Korban Pessach foi mencionado na Torá foi a primeira e única vez que eles trouxeram o Korban Pessach durante os 40 anos no deserto. A próxima vez em que ofereceram o Korban Pessach é descrito apenas no Sefer Yehoshua, isto é, depois que o povo já havia entrado na Terra de Israel, pouco após cruzarem o rio Yarden no dia 10 de Nissan.
 
O Rav Yitzchak Meir Rotenberg zt"l (Polônia, 1799 - 1866), mais conhecido como Chidushei HaRim, questiona a afirmação do Tossafot de que isso é uma crítica ao povo judeu. A razão pela qual eles não ofereceram o Korban Pessach durante os anos no deserto não foi porque não se importavam com a Mitzvá. Na verdade, havia um motivo técnico. A Halachá exige que todos os que trazem o Korban Pessach tenham feito Brit Milá, e que todos os homens de sua família também o tenham feito. Porém, durante os 40 anos no deserto, devido às condições adversas e as constantes viagens, que ocorriam sem aviso prévio, o Brit Milá representaria um perigo de vida para os bebês. Durante 40 anos eles estavam de mãos atadas, vítimas de circunstâncias que estavam além do seu controle. Isso era uma questão técnica, e não uma indiferença ou um comodismo por parte deles. Então por que o Tossafot chama isso de uma crítica ao povo judeu?
 
O Chidushei HaRim responde que a crítica está no contraste entre a atitude daquelas pessoas que não conseguiam trazer o Korban Pessach naquele ano e todo o povo judeu nos 39 anos seguintes. O que aconteceu na história do "Pessach Sheni"? As pessoas que estavam carregando o caixão de Yossef vieram a Moshé e reclamaram: "Estamos impuros por causa do contato com os mortos. Por que deveríamos perder a oportunidade de trazer o Korban Pessach?" (Bamidbar 9:7). Mas qual foi o sentido da pergunta "Por que deveríamos perder a opotunidade"? Eles mesmos haviam acabado de explicar que estavam impuros, isto é, havia claramente uma questão técnica que os impedia de cumprir a Mitzvá! Então, qual era exatamente a pergunta deles?
 
O Chidushei HaRim explica que eles não estavam perguntando, eles estavam sofrendo pelo fato de estar perdendo a oportunidade de cumprir uma Mitzvá. Entendiam as exigências da Halachá, mas estavam implorando desesperadamente: "Mas e o nosso bem espiritual? O que vai acontecer conosco? Como vamos ficar sem poder trazer o Korban Pessach?" Eles não estavam questionando a Halachá, eles estavam expressando sua dor.
 
As pessoas que não puderam oferecer o Korban Pessach naquele segundo ano expressaram sua angústia ao entender que não poderiam cumprir a Mitzvá por questões técnicas. E isso foi uma atitude incrível. Mesmo que alguém não consiga cumprir uma Mitzvá por uma força maior, mesmo que sejam razões realmente válidas, ao menos a pessoa deveria se sentir mal por isso.
 
Essa foi, portanto, a crítica ao povo judeu. É verdade que durante os 39 anos restantes eles não puderam trazer o Korban Pessach por questões técnicas da Halachá. Porém, isso deveria tê-los incomodado, deveria ter doído neles. A situação deveria ter sido para eles algo insuportável! Eles deveriam ter procurado Moshé e questionado: "Como poderemos viver sem esta importante Mitzvá?". Mas eles não questionaram. Parecia que tinham se livrado de uma responsabilidade. Essa foi a grande crítica da Torá.
 
Há muitas situações na vida nas quais passamos pela mesma experiência. Situações de força maior, nas quais realmente nada pode ser feito, impedimentos que nos impossibilitam de tecnicamente cumprir as Mitzvót. Por exemplo, tivemos tempos difíceis em nossa história, quando as Mitzvót foram proibidas ou quando as condições não nos permitiam cumprir as Mitzvót de maneira plena. Nestes casos, ao menos devemos sentir a dor e a angústia da perda da oportunidade de nos conectarmos um pouco mais com D'us.
 
Temos um paralelo interessante no mundo material, no qual podemos nos espelhar e até mesmo nos inspirar. Quando alguém acorda no meio da noite e, ao se levantar para ir ao banheiro, bate o dedo do pé na quina da cama, o que ele faz? Ele grita de dor. Mas o que gritar ajuda? Claramente o grito não ajuda nada, não contribui em nada para resolver o problema e aliviar a dor. Mas, quando algo dói, nós gritamos de dor. E se isso vale para um machucado material, mais ainda deveria valer para a perda de uma oportunidade espiritual.
 
Esta foi a crítica ao povo judeu, e este é o questionamento que devemos fazer a nós mesmos. Atualmente também estamos impossibilitados de oferecer o Korban Pessach e de fazer muitas outras Mitzvót. Não temos o nosso Beit Hamikdash e estamos todos com impureza de morte. Porém, mesmo quando não podemos fazer nada sobre nossa impossibilidade técnica de trazer o Korban Pessach e de cumprir algumas Mitzvót, deveríamos ao menos chorar por isso. Deveríamos ao menos ter sensibilidade para sentir a dor da perda. Deveríamos ao menos gritar. Pois, como em Pessach Sheni, quando D'us escutar o nosso grito, quem sabe Ele nos dê uma segunda chance.
 

SHABAT SHALOM

 R' Efraim Birbojm

 

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