quinta-feira, 18 de julho de 2024

MALDIÇÕES DISFARÇADAS DE BRACHÓT - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ BALAK 5784

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ASSUNTOS DA PARASHÁ BALAK
  • Balak, rei de Moav, contrata Bilaam
  • Bilaam pede permissão a D'us.
  • Mula de Bilaam e o anjo no caminho.
  • 3 tentativas de amaldiçoar o povo judeu convertidas em 3 Brachót.
  • A transgressão do povo judeu com as mulheres de Midian.
  • A transgressão pública de Zimri (Shimon) e Kosbi (Midian)
  • O zelo de Pinchás (Levi).
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MALDIÇÕES DISFARÇADAS DE BRACHÓT - PARASHÁ BALAK 5784 (19/jul/24)
 
No dia 25 de dezembro de 2002, Jack Whittaker acordou com o que seria talvez o maior presente que alguém poderia receber. Whittaker ganhou a loteria Powerball, um prêmio de incríveis US$ 315 milhões. A família de Whittaker tornou-se celebridade do dia para a noite. Jewel, a esposa de Whittaker, e sua neta Brandi, apareceram em oito programas de televisão. Mas enquanto Whittaker comemorava sua boa sorte, ele não sabia que estava embarcando em uma jornada que o levaria a tragédias e à perda de tudo o que ele mais amava.
 
Para um homem que não começou com muito, a experiência foi avassaladora. Whittaker cresceu muito pobre. Em sua infância ele nunca teve luxos e sua família nunca teve um carro. Só compraram uma televisão depois de muitos anos. Ele tinha a melhor das intenções, e realmente queria compartilhar sua boa sorte e ajudar as pessoas. Ele queria levar comida para as pessoas necessitadas e fornecer roupas para crianças carentes. Em poucos meses, Whittaker estava cumprindo sua promessa. Ele entregou mais de US$ 15 milhões para caridade. Porém, a onda inicial de publicidade fez com que ele fosse assediado por pedidos de ajuda. Eram tantas cartas que sua funcionária passava 10 horas por dia apenas abrindo envelopes. Em qualquer lugar que ele fosse, pedintes apareceriam. Se fosse a um jogo de basquete, mais de 150 pessoas ficavam à sua volta pedindo dinheiro.
 
Antes de Whittaker ganhar na loteria, ele havia desfrutado anos de tranquilidade em sua empresa, com poucas reclamações. Menos de um ano depois de ganhar na loteria, as coisas começaram a mudar. Whittaker gastou pelo menos US$ 3 milhões evitando processos judiciais. Foram mais de 400 ações judiciais contra ele ou suas empresas. Com tantos problemas, Whittaker começou a beber muito para se consolar. À noite, circulava pelos bares locais, jogando dinheiro por onde passava. Certa vez, estacionou seu carro em uma garagem e entrou em um bar para pegar uma bebida. Lá, foi drogado e sua pasta foi roubada. Os ladrões levaram mais de 2 milhões. O dinheiro foi recuperado, mas o homem mais sortudo dos Estados Unidos ficou sem amigos, completamente sozinho. Parecia que todos só queriam uma parte de seu dinheiro. Sua única companhia verdadeira era sua neta.
 
Whittaker comprou e decorou uma casa para Brandi e sua mãe. Ele também dava a Brandi cerca de US$ 2 mil por semana e comprou para ela quatro carros novos. Brandi tinha apenas 17 anos na época. Os carros e o dinheiro de Brandi começaram a atrair a atenção de "pessoas más", inclusive traficantes de drogas. Logo Brandi começou a usar drogas. Whittaker tentou repetidamente ajudá-la e a enviou para vários programas de tratamento, mas ela não conseguia se livrar do vício. Quase dois anos depois, Brandi desapareceu. Após uma busca frenética de duas semanas, ela foi encontrada morta. Whittaker acredita que a vitória na Powerball se tornou uma maldição para sua família. Whittaker dizia em suas entrevistas:
 
- Minha esposa gostaria de ter rasgado o bilhete. Bem, eu também gostaria de ter rasgado o bilhete. Estou arrependido de ter ganhado na loteria. Desde que ganhei na loteria, não tenho mais controle da minha vida. Hoje eu sei que a família é o que temos de mais importante. É o que nos faz felizes de verdade. Não sei onde isso vai terminar, mas eu não gosto deste Jack Whittaker, com um coração duro. Não gosto do que me tornei."
 
Às vezes, o que parece ser uma grande Brachá é, na realidade, uma maldição disfarçada.

Nesta semana lemos a Parashá Balak. O povo judeu se aproximava de sua triunfal entrada na Terra de Israel. Após as vitórias esmagadoras do povo judeu contra os reis Óg e Sichon, o rei de Moav, chamado Balak, ficou com medo e contratou o maior feiticeiro de todos os tempos, Bilaam, para amaldiçoar o povo judeu. Como Bilaam era um profeta, D'us apareceu a ele de noite e o instruiu: "Não vá com eles; não amaldiçoe a nação, porque ela é abençoada" (Bamidbar 22:12). Rashi completa os detalhes desta conversa. D'us disse a Bilaam: "Não vá com eles", e Bilaam respondeu: "Se não posso ir, deixe-me amaldiçoá-los daqui". D'us então falou de forma mais explícita a Bilaam: "Não amaldiçoe esta nação". Bilaam então respondeu: "Se não posso amaldiçoá-los, deixe-me abençoá-los". D'us finalmente respondeu: "Eles não precisam de suas bênçãos, porque já são abençoados".
 
Este comentário de Rashi soa um pouco estranho. Nossos sábios dizem que Bilaam era uma pessoa extremamente má e egoísta, sem tinha nenhum amor pelos judeus, ao contrário, ele os odiava. Então, o que significa que Bilaam pediu a D'us para abençoar o povo judeu? E por que D'us negou? Qual era o problema da Brachá de Bilaam?
 
Explica o Rav Yssocher Frand que realmente a intenção de Bilaam era de natureza malévola. Existem duas maneiras de destruir o povo judeu. É possível amaldiçoá-los, para que sejam afligidos por todos os tipos de problemas, doenças, pobreza e opressão. Mas há outra maneira de destruir o povo judeu: sobrecarregado-o de riqueza e fartura. A abundância também se constitui um difícil desafio para a nação. As riquezas podem representar um terrível desafio espiritual. Nossos sábios ensinam que o "teste da riqueza" é mais difícil de lidar do que o "teste da pobreza". O que Bilaam queria exatamente causar ao povo judeu com esta "Brachá"?
 
Explica o Rav Avraham Twersky zt"l (EUA, 1930 - 2021) que a resposta está na observação do mundo atualmente. Nossa geração é talvez a mais materialista da história da humanidade, onde o principal objetivo das pessoas é obter prazer. Há cerca de 70 anos o ar-condicionado ainda não existia. Não havia celulares, micro-ondas, vídeos, internet ou fast-foods. As pessoas trabalhavam duro, do amanhecer ao anoitecer, seis dias por semana. Somos os beneficiários de verdadeiros milagres médicos, científicos e tecnológicos. Porém, na prática, a vida naquela época não era materialista. A quantidade de dificuldades não permitia uma visão materialista da vida. Com as comodidades e conveniências de hoje, muitas pessoas passaram a ver o objetivo da vida como a obtenção do máximo prazer.
 
Isso também afetou de forma significativa a comunidade judaica. A preparação das refeições era uma tarefa árdua. O frango precisava ser levado ao Shochet, limpo e salgado, processo que levava quase duas horas. Nada estava pronto para ir à panela. Não havia alimentos congelados, comida kasher italiana e nem sushi kasher. Em Pessach, só havia carne e batata. Não havia água com gás, nem refrigerante. Hoje, tudo é mais fácil e prático.
 
Não há nada de errado em desfrutar dos bens do mundo material. No entanto, o que aconteceu no mundo moderno é que o prazer foi equiparado à felicidade e se tornou o objetivo da vida. Qualquer pessoa que sente que não obteve o prazer que merecia sente-se enganada, e algumas pessoas, especialmente os jovens, recorrem às drogas para encontrar felicidade. Não devemos perder de vista o fato de que o objetivo da vida é espiritual, não físico. Os bens materiais desfrutados de forma a canalizar para o lado espiritual, como uma mesa farta de Shabat, dão primazia ao espírito. Entregar-se ao prazer como um fim por si só, mesmo o prazer permissível e "kasher", é uma corrupção da forma judaica de viver a vida.
 
Isso é parcialmente responsável pelo número sem precedentes de casamentos fracassados, com pelo menos um dos cônjuges sentindo que o relacionamento não está proporcionando a gratificação que desejam. Embora o casamento deva ser de fato uma fonte de gratificação mútua, a base e o objetivo do casamento devem ser espirituais. E como os jovens imitam os adultos, aumenta cada vez mais o número de jovens que procuram o álcool e as drogas, em busca do prazer na vida ao qual sentem que têm direito. E tanto jovens quanto adultos caem na armadilha do vício em internet, seja navegando, jogando ou se entregando às imagens indevidas.
 
Quando Adam e Chavá estavam no Gan Éden e pecaram, a Torá relata a maldição que D'us deu para a cobra: "Sobre o teu ventre rastejarás e pó comerás, todos os dias da tua vida" (Bereshit 3:14). Mas que tipo de maldição é esta? Não seria conveniente se pudéssemos viver de pó? A poeira está em toda parte, então a mesa da cobra está sempre cheia, não importa aonde ela vá. Por outro lado, a grande maioria da humanidade ganha seu pão diário com dificuldade. Muitas famílias são pobres, crianças passam fome e não sabem de onde virá a próxima refeição. Como seria conveniente se pudéssemos viver de pó! Onde está a maldição?
 
Responde o Rav Simcha Bunim de Psischa zt"l (Polônia, 1765 - 1827) que justamente pelo fato de o nosso sustento não estar garantido, estamos sempre pedindo ajuda a D'us. Isso cria uma conexão muito forte com D'us, algo que a cobra nunca terá. Ela não precisa de nada e, por isso, nunca pede nada a D'us. Isso é verdadeiramente uma maldição. Um homem pobre está sempre ciente desta Brachá. Já para o homem rico, que também é tão abençoado, é um pouco mais difícil saber isso. O desafio da riqueza é que a pessoa deve sempre ter isso em mente e voltar-se para a D'us todos os dias em busca de ajuda e orientação.
 
Esta foi a intenção de Bilaam. Ele não pretendia fazer bem aos judeus, ele queria destruir os judeus. Ele disse a D'us: "Deixe-me abençoá-los". O que ele iria pedir? Que eles tivessem muita fartura. O resultado disso seria que eles não seriam capazes de lidar com este "teste de riqueza", se autodestruiriam espiritualmente e se afastariam de D'us. Mas D'us respondeu: "Obrigado, não quero. Eles não precisam da sua bênção, pois já são abençoados".
 
A nossa maior Brachá é a Torá, que nos ensina a usar o material da forma correta, dando um sabor especial e uma nova perspectiva à espiritualidade. Além da observância das Mitzvót, que nos dão autocontrole, devemos investir no nosso auto aprimoramento. Não precisamos nos proibir dos prazeres permitidos, mas devemos ter cuidado para que eles não se tornem nossa principal motivação. Se não fizermos isso, podemos ser apanhados na "esteira materialista" da sociedade, correndo de prazer em prazer sem nunca chegar a um objetivo.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

 

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sexta-feira, 12 de julho de 2024

AS MITZVÓT DEMONSTRAM NOSSO AMOR POR D’US - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ CHUKAT 5784

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ASSUNTOS DA PARASHÁ CHUKAT
  • A Vaca Vermelha.
  • A morte de Miriam e reclamação por falta de água.
  • Água da Rocha - Erro e castigo de Moshé e Aharon.
  • Encontro com Edom.
  • A morte de Aharon.
  • Confrontação com Canaan (Amalek).
  • A reclamação, as Serpentes e o Mastro de cobre.
  • Jornadas Posteriores.
  • Cântico do Poço.
  • Confrontações com Sichon e Og.
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AS MITZVÓT DEMONSTRAM NOSSO AMOR POR D'US - PARASHÁ CHUKAT 5784 (12/jul/24)
 
O Sr. Rafael tinha uma pequena loja de falafel em Jerusalém. Certo dia, um cliente entrou em sua loja e pediu:
 
- Por favor, me prepare um falafel com tudo de bom!
 
O Sr. Rafael foi perguntando ao cliente o que ele gostaria que fosse colocado na pita junto com o falafel. Para sua surpresa, a resposta era sempre "sim". "Tehina? Coloca! Picles? Coloca! Beringelas? Coloca! Apimentado? Coloca! Repolho? Coloca! Salada? Coloca! Pasta? Coloca! Fritas? Coloca!"
 
Após aquele falafel completíssimo ficar pronto, o cliente pagou e seguiu satisfeito para a sua mesa, para morder com vontade aquele delicioso falafel. No fim do dia, quando o último cliente saiu, o Sr. Rafael arrumou a loja e, em seguida, dirigiu-se à sinagoga para a Tefilá de Arvit, como sempre fazia. Porém, naquele dia, algo diferente aconteceu. Quando ele chegou na última Berachá da Amidá, "Sim Shalom", lembrou-se do cliente que havia estado em sua loja e dizia "sim" para tudo, Ele sorriu e pensou consigo mesmo:
 
- Acho que sou igual àquele cliente que queria encher sua pita com tudo de bom. Acabei de terminar a "Amida", e o que eu pedi? Fiz como aquele homem: "Paz? Coloca! Bondade? Coloca! Brachá? Coloca! Vida? Coloca! Sustento? Coloca! D'us, coloque tudo de bom em minha vida!".
 
Porém, o Sr. Rafael continuou entretido em seus pensamentos. Ele lembrou-se que, em sua loja, após receber o falafel completíssimo, o cliente pagou imediatamente em dinheiro. E ele, após pedir uma enorme lista de benefícios, como poderia pagar para D'us? E esta foi a conclusão dele: a caixa registradora de D'us recebe o "pagamento" quando dizemos à Ele: "D'us, Você manda tudo de bom e sustenta com bondade o universo inteiro. Vou cumprir Sua vontade, mesmo quando eu não entendo ou não concordo, simplesmente porque foi Você que comandou". Esse é o nosso pagamento, essa é a nossa maior demonstração de amor por D'us.

Nesta semana lemos a Parashá Chukat, contendo assuntos muito importantes que ocorreram quando o povo judeu já estava em seu último ano no deserto, tais como as mortes de Miriam e de Aharon, além do erro de Moshé ao golpear a pedra para dar água ao povo.
 
O nome da Parashá, "Chukim", significa literalmente "Estatutos". A Torá contém dois tipos de Mitzvót: os Chukim e os Mishpatim. Chukim são as Mitzvót que estão acima do nosso intelecto e, portanto, não temos condições de entendê-las, tais como a proibição de misturar lã com linho (Shatnez) e a obrigação de colocarmos os Tefilin na cabeça e no braço. Já os Mishpatim são as Mitzvót intelectualmente mais fáceis de serem entendidas, tais como a proibição de roubar, de matar e de cometer adultério.
 
O assunto inicial da nossa Parashá é a enigmática "vaca vermelha", cujas cinzas eram utilizadas para a purificação de pessoas que entraram em contato com a impureza dos mortos. A vaca vermelha é a Mitzvá que representa os Chukim, pois há enormes dificuldades de entendimento, e até mesmo contradições, muito acima do nosso limitado entendimento. Por exemplo, a vaca vermelha era utilizada para purificar as pessoas, mas aquele que preparava as cinzas ficava impuro. Como pode ser que algo feito para purificar as pessoas impurifica outras pessoas que já estavam puras? Certamente esta Mitzvá está muito acima do nosso entendimento.
 
O assunto da vaca vermelha nos remete a um interessante ensinamento do Talmud (Kidushin 31a), que  questiona: "Até onde vai a nossa obrigação de honrarmos nossos pais?". O Talmud responde contando a história de um homem não judeu de Ashkelon, chamado Dama ben Netina, e o respeito que ele tinha pelo pai. Ele era um comerciante de pedras preciosas, e foi procurado pelos sábios judeus pois tinha uma das pedras que era necessária para o "Choshen" (peitoral), uma das roupas do Cohen Gadol. A pedra valia 600 mil moedas de ouro, mas como a chave da loja estava sob o travesseiro de seu pai, que estava descansando, ele se recusou a incomodá-lo, mesmo que isso significasse a perda de um lucro tão grande. Essa é a medida até onde devemos honrar os nossos pais.
 
Porém, a história continua. No ano seguinte, D'us recompensou Dama ben Netina e, entre seus animais, nasceu uma vaca vermelha, que cumpria todos os requisitos para a Mitzvá de purificação. Os sábios judeus, que estavam precisando de uma vaca vermelha, vieram até ele. Dama ben Netina disse a eles: "Sei que se eu pedisse todo o dinheiro do mundo, vocês me dariam por esta vaca vermelha. Porém, eu vou pedir por ela apenas a quantia que perdi pela honra do meu pai".
 
Mas por que o Talmud veio nos ensinar a lição de honrar os pais justamente através do ato meritório de um não judeu? Não haviam atos meritórios de judeus que poderiam transmitir a mesma mensagem? Por exemplo, nossos sábios ensinam que certa vez a mãe do Rabi Tarfon estava caminhando em seu jardim no Shabat e a sandália dela rasgou. Ela teria que voltar para casa descalça. O Rabi Tarfon imediatamente colocou as mãos sob os pés dela, para que ela pisasse até chegar em casa. Então por que o ato lembrado foi o de Dama ben Netina? Além disso, por que a recompensa de Dama ben Netina veio justamente através de uma vaca vermelha? Por que D'us não mandou a recompensa de outra maneira, como aumentar os seus lucros nos negócios?
 
Explica o Rav Yaacov Naiman zt"l (Bielorússia, 1909 - EUA, 2009) que, na realidade, o ato de Dama ben Netina não foi algo tão louvável e completo como parece. Nos ensina Shlomo HaMelech: "Se um homem desse todos os bens de sua casa por amor, eles o desprezariam" (Shir Hashirim 8:7). Rashi explica que isso se refere ao amor do povo judeu por D'us. Quando um judeu cumpre uma Mitzvá, que é a vontade de D'us, ele despreza qualquer dinheiro, isto é, não trocaria a Mitzvá por nenhum dinheiro do mundo. No final das contas, Dama ben Netina vendeu sua preciosa Mitzvá por 600 mil moedas de ouro. Isso fez com que seu ato fosse incompleto.
 
Além disso, uma pessoa realmente virtuosa, quando cumpre uma Mitzvá, não fica atrás de receber "tapinhas nas costas" dos outros. Ele é humilde e tenta esconder seus bons atos e, se possível, cumprir as Mitzvót quando os outros não estão olhando. E até mesmo em relação a si mesmo, a pessoa deve tentar "esquecer" a Mitzvá que cumpriu, para não ficar orgulhoso. Há grandes Tzadikim do povo judeu que estavam sempre preocupados e viviam com a sensação de que ainda não haviam cumprido as Mitzvót como deveriam. Por que? Pois as coisas boas que eles faziam eles realmente se esqueciam e, por isso, sempre se sentiam incompletos, como se estivessem apenas começando.
 
O comportamento de Dama ben Netina foi bem diferente. Apesar de ser uma das pessoas mais corretas entre os não judeus, ele lembrou-se da Mitzvá que havia feito mesmo após um ano já ter se passado. Ele ainda se glorificava por ter feito um grande ato e se enaltecia, demonstrando seu orgulho. Mas por que isso é um problema?
 
Na Tefilá de Mussaf de Rosh Hashaná nós dizemos: "Você (D'us) lembra de todas as coisas esquecidas". A explicação mais simples é que, no momento do nosso julgamento, D'us se lembra de todas as nossas transgressões, mesmo aquelas que nós já esquecemos. Porém, o Rav Moshe Leib de Sassov zt"l (Ucrânia, 1745 - 1807) traz uma linda explicação. Quando uma pessoa cumpre uma Mitzvá e "esquece" que a cumpriu, então D'us se lembra da Mitzvá e dá à pessoa uma recompensa. Porém, se a pessoa se lembra da Mitzvá e se torna orgulhosa, então D'us "esquece" a Mitzvá. Da mesma forma, se uma pessoa faz uma transgressão e se esquece dela, então D'us se lembra. Porém, se a pessoa se lembra da transgressão e se arrepende, então D'us esquece.
 
Desta maneira também podemos entender porque D'us deu a recompensa a Dama ben Netina através da vaca vermelha. D'us queria testá-lo, dando-lhe a oportunidade, depois de muito tempo, de vender a Mitzvá que havia feito. Dama não passou no teste e, se vangloriando por sua boa ação, trocou-a por dinheiro.
 
O Rebe de Kotzk zt"l (Polônia, 1787 - 1859) explicou por que D'us deu a ele uma vaca vermelha. Quando Dama ben Netina cumpriu a Mitzvá de honrar seu pai, isso se tornou uma acusação contra o povo judeu. É como se tivessem anunciado dos Céus: "Vejam como este não judeu está cumprindo a Mitzvá de honrar os pais! E ele está disposto a perder muito dinheiro por ela!". D'us então mandou a Mitzvá da vaca vermelha, para mostrar que Dama ben Netina estava disposto a perder dinheiro por uma Mitzvá que ele entendia racionalmente, enquanto os sábios judeus estavam dispostos a pagar qualquer valor por uma Mitvzá que não tinha nenhum entendimento lógico. Isso acabou com a acusação espiritual contra o povo judeu.
 
Por que, em relação à Mitzvá da vaca vermelha está escrito "Esta é a lei da Torá", como se representasse todas as Mitzvót? Explica o Or HaChaim Hakadosh (Marrocos, 1696 - Israel, 1743) que quando uma pessoa cumpre uma Mitzvá completamente ilógica, é como se tivesse cumprido a Torá inteira, pois é um testemunho da confiança que a pessoa tem em D'us. Já em relação aos Mishpatim não há este testemunho, pois talvez a pessoa não cumpriu a Mitzvá por confiar em D'us, e sim pois intelectualmente concorda com a Mitzvá.
 
Nossa conexão verdadeira vem da confiança plena em D'us, sem cálculos e sem racionalizações. Devemos cumprir as Mitzvót apenas por que D'us nos comandou, como um filho que escuta as instruções de seu pai, mesmo quando não entende. Desta maneira, demonstramos o nosso amor e nos conectamos a D'us de verdade.

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