quinta-feira, 16 de novembro de 2023

VAZIO EXISTENCIAL - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ TOLDOT 5784

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PARASHÁ TOLDOT 5784



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MENSAGEM DA PARASHÁ TOLDOT

ASSUNTOS DA PARASHÁ TOLDOT
  • Ytzchak e Rivka fazem Tefilá.
  • Rivka engravida.
  • Bebê se mexe.
  • Profecia.
  • Nascimento de Yaacov e Essav.
  • Venda da primogenitura.
  • Fome na terra.
  • Ytzchak e os Plishtim.
  • Disputa pelos poços.
  • O Casamento de Essav.
  • Ytzchak fica cego.
  • Ytzchak dá a Brachá de primogenitura para Yaacov.
  • Ytzchak dá Brachá para Essav.
  • Yaacov vai para a casa de seu tio Lavan procurar uma esposa.
  • Essav se casa com a filha de Ishmael.
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VAZIO EXISTENCIAL - PARASHÁ TOLDOT 5784 (17/nov/23)
 
"Um grupo de amigos resolveu viajar nas férias. Reuniram várias famílias, pais e filhos, e foram fazer uma trilha na floresta. Percorreram duros caminhos e, após algum tempo, perceberam que estavam perdidos. A trilha havia desaparecido e estavam no meio da floresta, sem aparelhos de comunicação e sem comida. O que fariam? Como pediriam ajuda? Como salvariam suas vidas?

Tentando manter a calma, continuaram caminhando, em busca de uma saída ou de algo para comer. Estavam exaustos quando encontraram alguns pés de mangaba, carregados da deliciosa frutinha. Como já estavam com muita fome, logo começaram a comer mangabas. Comeram mangabas até quase estourar, pois não sabiam quando encontrariam mais alimento.
 
Porém, o que eles não sabiam é que a mangaba é uma fruta que dá muito sono. Por isso, assim que acabaram de comer, todos caíram em um sono profundo e dormiram por muitas horas. Eles dormiram tanto que, quando acordaram, já estavam novamente com muita fome. Como ainda estavam ao lado dos pés de mangaba, aproveitaram para comer bem, já que não sabiam se conseguiriam encontrar outra comida na floresta.

Porém, como mangaba dá muito sono, logo em seguida todos caíram em um profundo sono. Eles dormiram muitas horas. Dormiram tanto que acordaram com uma fome gigantesca. Como ainda estavam perdidos, não tiveram outra solução a não ser comer muita mangaba..."

Este "ciclo infinito" representa a forma como muitas vezes nós acabamos vivendo. Sem saber como sair da "floresta" que nos prende, nossa vida se resume a comer, trabalhar e dormir, sonhando com o final de semana e com as próximas férias. Como quebramos este "ciclo infinito"?

Nesta semana lemos a Parashá Toldot (literalmente "Gerações"). A Parashá da semana passada terminou mencionando rapidamente quem foram os descendentes de Ishmael, sem dar destaque e nem detalhes de como foi a vida deles, como se estivesse apenas cumprindo a obrigação de mencioná-los. Já a partir da nossa Parashá, indo até o final do Sefer Bereshit, a Torá se estende falando sobre os descendentes de Yitzchak, com muitos detalhes de suas vidas, demonstrando o amor que D'us sente pelos nossos patriarcas e seus descendentes.

Nosso patriarca Yitzchak já estava casado há vinte anos e ainda não tinha filhos. Ele e sua esposa Rivka rezaram muito e D'us escutou suas Tefilót. Rivka engravidou e deu à luz dois filhos, Essav e Yaacov. Porém, apesar de serem gêmeos, eles eram muito diferentes, como diz o versículo: "E os jovens cresceram, e Essav era um homem que entendia de caça, um homem do campo, enquanto Yaacov era um homem inocente, morando em tendas" (Bereshit 25:27). Rashi (França, 1040 - 1105) explica que enquanto eles eram pequenos, ainda não era possível reconhecer através dos seus atos como seria o caráter de cada um deles. Isso não quer dizer que Essav ainda não fazia maus atos. Ele já tinha começados os seus pequenos desvios de caráter, mas naquele momento eles eram atribuídos à sua infantilidade. Porém, assim que completaram treze anos, Yaacov partiu para as casas de estudo, enquanto Essav partiu para a idolatria.

Infelizmente o desvio de Essav não parou apenas na idolatria. Essav tinha um enorme potencial, ele poderia ter sido um dos patriarcas do povo judeu. Mas quando alguém se afasta dos caminhos espirituais, não há limites até onde pode cair. Por exemplo, no dia em que Essav vendeu a primogenitura por um prato de lentilhas, está escrito: "Essav voltou do campo e estava exausto" (25:29). Por que a Torá precisou nos informar que Essav estava no campo? E, além disso, o que ele estava fazendo no campo que o deixou tão exausto?
 
Explicam os nossos sábios que aquele era o dia em que Avraham Avinu havia falecido, aos 175 anos. Apesar que cada um dos patriarcas deveria ter vivido 180 anos, D'us poupou Avraham de sofrer ao ver seu neto Essav se tornando um perverso completo, levando-o do mundo cinco anos antes. E, enquanto as pessoas mais importantes das nações da época estavam fazendo uma fila para consolar Yitzchak pela perda de seu pai, e todos se lamentavam e diziam "Pobre do mundo, que perdeu seu líder. Pobre do navio, que perdeu seu capitão", Essav foi ao campo, completamente alheio ao luto pela perda do seu avô, para praticar seus maus atos. Enquanto Yaacov cozinhava lentilhas para o seu pai enlutado, Essav fazia transgressões.
 
Mas, afinal, o que Essav estava fazendo no campo? Rashi, citando um Midrash, explica que a palavra "exausto" ("Aief") significa que ele estava cansado depois de ter cometido assassinato. Para embasar sua opinião, Rashi menciona outro versículo da Torá no qual o termo "Aieif" se refere a assassinato: "Pois minha alma está exausta ("Aiefá") diante dos assassinos" (Yirmiahu 4:31).

Entretanto, esta explicação de Rashi necessita de um entendimento mais profundo. Quem conhece seus comentários na Torá sabe que Rashi geralmente segue a interpretação literal dos versículos, isto é, a explicação mais simples do que está sendo transmitindo, citando Midrashim em suas explicações apenas quando eles vão de acordo com este entendimento mais simples. Porém, a priori, isto não aconteceu neste caso. O entendimento mais simples do termo "exausto" seria "esgotado fisicamente", se referindo a um esforço acima do normal em qualquer tipo de atividade física. Talvez Essav estava apenas caçando no campo e, por isso, estava exausto. Então por que explicar que ele estava exausto por praticar assassinato? Além disso, por que justamente um ato de assassinato, e não outra transgressão qualquer, seria o causador deste estado de exaustão de Essav?

Explica o Rav Yochanan Zweig que existem duas maneiras pelas quais alguém pode ficar exausto. Uma pessoa pode estar fisicamente exausta, devido a um gasto excessivo de energia, ou emocionalmente exausta, por estar envolvida em algo que a deixa completamente insatisfeita, sem nenhum preenchimento. Por exemplo, alguém que completou pela primeira vez uma maratona alcança a linha de chegada completamente exausto, pois necessitou usar suas forças no limite para terminar a prova. Aqui a exaustão se refere a um sentimento físico. Já uma pessoa que administra uma loja e, apesar de suas enormes expectativas, fica o dia todo sentada, sem que nenhum cliente entre na loja nem mesmo para ver os produtos, no final do dia estará completamente esgotada. Isso não se refere à exaustão por esforço físico, já que ela passou o dia inteiro sentada, e sim à exaustão emocional, por não ter realizado nada o dia inteiro. É um cansaço que vêm de uma sensação de vazio.

Como Rashi sabia que a Torá estava se referindo a uma exaustão emocional e não a uma exaustão física? A resposta está na continuação da narrativa. Essav chegou em casa exausto e pediu a Yaacov para ser alimentado, como está escrito "Despeje (em minha boca) um pouco deste (caldo) vermelho, vermelho" (Bereshit 25:30). Percebemos que Essav identificou o alimento apenas pela sua cor. Isso nos ensina que Essav estava tão desesperado por comida que não queria saber nem mesmo o que estava sendo cozinhado. Uma pessoa fisicamente exausta deseja dormir, não comer. A vontade de comer é, muitas vezes, uma manifestação de esgotamento emocional, de vazio interior. Quando uma pessoa se sente emocionalmente insatisfeita e vazia, ela procura comida para satisfazer seu desejo de realização.

E por que foi justamente o assassinato que causou este vazio? Pois D'us nos criou apenas para exercer a Sua bondade, sem receber nada em troca, e a única maneira de nos preenchermos espiritualmente é nos assemelhando a Ele, isto é, fazendo bondades a todos a quem pudermos, sem esperar nada em troca. O assassinato é o oposto disso, é um ato completamente destrutivo, que afasta a pessoa de D'us. O assassinato não oferece à pessoa qualquer verdadeira sensação de realização e preenchimento, ao contrário, causa um enorme vazio. Portanto, a Torá conecta a exaustão ao assassinato pois, em última instância, este é o sentimento que o assassino experimenta.

Deste ensinamento da Parashá podemos aprender algo incrível para as nossas vidas. Vemos as pessoas cada vez mais conectadas à busca de prazeres materiais, em todas as áreas. É cada vez maior o índice de crianças que já sofrem de obesidade. Tudo é feito com excessos, a variedade de todos os tipos de prazer, permitidos e proibidos, é enlouquecedor. Por que tudo isso? Por que as pessoas procuram tantas formas de conseguir sentir prazer? Para tentar preencher o nosso vazio existencial. Mas como o mundo material não consegue preencher as necessidades espirituais, as pessoas começam a se afundar cada vez mais, achando que, ao aumentar as doses de materialismo, conseguirão preencher o que falta. É como acontece com alguém que se envolve com drogas. Para continuar sentindo prazer, as doses precisam ser aumentadas, e muitas vezes a pessoa entra em um caminho sem volta. A busca por prazeres é um ciclo infinito, pois significa tentar encher algo espiritual com prazeres materiais.
 
Foi isso que o filósofo francês Albert Camus disse, em seu livro "Mito de Sísifo": "Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado. No mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia surge o 'por que?'". As pessoas se afundam nas atividades do cotidiano para fugir da principal questão: "Qual é o meu objetivo? Estou fazendo o que deveria fazer neste mundo?". A única solução para sair deste "círculo infinito" é buscar os preenchimentos espirituais, através do cumprimento das Mitzvót e dos bons atos. Que possamos nos saciar com as nossas boas ações, ao invés de nos afundar em prazeres que não nos preenchem.  

SHABAT SHALOM 

R' Efraim Birbojm

 

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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel Z"L, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
 
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quinta-feira, 9 de novembro de 2023

GOVERNE O MUNDO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ CHAIEI SARA 5784

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PARASHÁ CHAIE SARA 5784



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MENSAGEM DA PARASHÁ CHAIE SARA

ASSUNTOS DA PARASHÁ CHAIE SARA
  • Falecimento de Sara.
  • Compra de um local para o enterro.
  • A busca de uma esposa para Itzchak.
  • Critérios de Eliezer.
  • Rivka atende os requisitos.
  • Eliezer reconta toda a história para a família de Rivka.
  • Ytzchak se casa com Rivka.
  • Avraham se casa com Keturá e tem filhos.
  • Falecimento de Avraham.
  • Descendentes de Ishmael.
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GOVERNE O MUNDO - PARASHÁ CHAIEI SARA 5784 (10/nov/23)
 
"Era um dia bonito, de céu azul, e um espirito de competição pairava no ar. Mas Larry White, o goleiro do time de futebol da Fordsville Day School Lions, não se importava com a beleza do dia, pois ele estava se sentindo bastante irritado. Os Lions estavam no meio de um jogo muito disputado, justamente com seus principais rivais, os Rangers da Lakeshore School. Mas não era a pressão do jogo que estava incomodando Larry, pois ele adorava aquela tensão dos jogos decisivos. O que estava incomodando muito era um dos torcedores dos Rangers, um sujeito insuportável, que fez questão de se sentar o mais próximo possível do gol onde estava Larry. Ele então ficava o tempo todo ofendendo Larry, com todos os tipos de insultos e provocações possíveis e imaginárias.
 
Larry não era do tipo que "levava desaforo para casa". Inconformado, logo começou a devolver ao torcedor barulhento um pouco do seu próprio veneno. Larry caprichava nos insultos e nas ofensas, berrando o mais alto que podia, para garantir que o sujeito escutaria.
 
O jogo estava empatado em 2 a 2, e os Rangers tinham a bola dominada. Mais uma vez Larry ouviu aquela voz já familiar berrando comentários desagradáveis. Porém, quando Larry se virou para responder as ofensas, ele ouviu subitamente o som da bola em alta velocidade passando ao lado de sua cabeça. Ele se virou rapidamente, mas já era tarde demais.
 
- Goooool! – comemoraram os torcedores do Rangers, felizes.
 
Larry ficou inconformado. Como ele havia deixado aquilo acontecer? Ele procurou na multidão e encontrou o rosto sorridente do seu atormentador, que havia conseguido exatamente o que queria. Para piorar, o time inteiro de Larry estava irritado com ele. Que frango! A bola havia passado ao lado dele e ele não havia defendido! O jogo então recomeçou e, pouco depois, os Lions marcaram um gol para empatar o placar mais uma vez. Larry tentou focar e se concentrar. Porém, alguns instantes depois, o torcedor insuportável estava chamando por ele novamente, agora com ofensas ainda piores. Larry estava prestes a responder. Ele realmente ia dar uma boa lição naquele mal educado! Mas então ele refletiu novamente. "Espere um pouco, o que estou fazendo? Como estou sendo tolo! Da última vez que me virei para ofendê-lo, sofri um gol por causa disso e prejudiquei meu time todo. Vou cometer o mesmo erro novamente? É justamente isso que ele quer!".
 
Larry ficou em silêncio e tentou concentrar toda a sua atenção no jogo. Mas, à medida que aquele homem inconveniente continuava o ofendendo, Larry se sentia com mais vontade de se virar e devolver as ofensas. Era quase irresistível. Porém, Larry pensou consigo mesmo: "Não vou cair de novo! Só porque esse tolo quer me ofender, não significa que eu tenho que responder. Não vou ser igual a ele!". Juntando todas as suas forças, Larry decidiu ignorar o sujeito e manter sua atenção no jogo. E ele conseguiu!
 
Larry de repente se sentiu bem. Não apenas o homem não podia mais distraí-lo, mas ele também se sentiu no controle. Era como se o ofensor tivesse perdido todo o poder que tinha sobre ele até aquele momento. Que sensação maravilhosa de liberdade! E, para completar, naquele momento um dos jogadores dos Rangers deu um chute forte em direção ao gol. Mas, desta vez, Larry estava atento. Ele se jogou habilmente para o lado, fazendo uma incrível defesa.
 
- Que defesa maravilhosa! - gritaram seus colegas de time, vindo abraçá-lo. De vilão, ele havia se tornado o herói do jogo. Larry sorriu. Ele estava feliz por ter defendido o chute e ajudado sua equipe. No final, os Lions venceram o jogo. Larry era o mais feliz, não apenas por ter vencido o jogo, mas principalmente por ter aprendido a se controlar, mesmo em uma situação tão difícil."
 
O torcedor oponente é o nosso Yetser Hará. Tudo o que ele quer é tirar a nossa concentração do "jogo da vida". É desta maneira que ele faz os seus "gols". Ele tenta nos deixar nervosos e nos desestabilizar emocionalmente. Como o derrotamos? Mantendo a serenidade e a tranquilidade, mesmo nos momentos difíceis da nossa vida.

Nesta semana lemos a Parashá Chaie Sara (literalmente "A vida de Sara"), que começa falando sobre o falecimento da nossa primeira matriarca, Sara, ao não aguentar a emoção de ser informada sobre a Akeidat Yitzchak. Era o ponto final da vida de um dos maiores modelos para a humanidade em vários aspectos, tais como a bondade ilimitada, o incrível recato e a força de vontade para fazer sempre o que era correto, mesmo quando era difícil. Em muitos testes que Avraham passou na vida, Sara estava ao seu lado, apoiando e incentivando.
 
Mas Sara nem sempre teve este nome. Originalmente a Torá se refere a ela como "Sarai", e somente depois D'us ordenou que o nome dela fosse mudado para "Sara", como está escrito: "E D'us disse a Avraham: 'Sua esposa Sarai, você não deve chamá-la pelo nome Sarai, pois Sara é o nome dela'" (Bereshit 17:15). Sabemos que o nome de uma pessoa representa sua essência. O que esta mudança de nome significou?
 
Rashi explica que "Sarai" significa "minha princesa", isto é, ela é uma princesa para mim, mas não para os outros. Já "Sara" significa que ela seria uma princesa acima de tudo. O Midrash comenta que esta mudança de nome implicava que nossa matriarca Sara teria domínio sobre o mundo inteiro.
 
Porém, esta explicação do Midrash exige uma compreensão mais profunda pois, se olharmos para a vida de Sara, não conseguimos perceber que ela governou o mundo inteiro, nem que foi alguém que "dava as cartas". Na verdade, vemos justamente o contrário, que ela foi "dominada" pelos eventos que a cercavam. Ela era estéril e, durante noventa anos da sua vida, não conseguia ter filhos. Ela decidiu casar seu marido com sua escrava Hagar, algo que já era humilhante, para tentar despertar a Misericórdia Divina. Para piorar sua situação, logo que Hagar engravidou, começou a menosprezar Sara. Além disso, Sara foi sequestrada duas vezes, primeiro pelo Faraó e depois por Avimelech, rei dos Plishtim, e somente não sofreu um abuso porque D'us interviu diretamente, atingindo o Faraó e Avimelech com duras pragas. Parece uma vida de dificuldades, sofrimentos e restrições. Então o que significa que ela recebeu o nome "Sara" para nos ensinar que ela dominou o mundo inteiro?
 
Nos ensinam os nossos sábios: "Quem é o valente? Aquele que controla seus instintos" (Pirkei Avót 4:1). De acordo com a visão judaica, a valentia não é determinada por quem tem mais força física, e sim por quem tem mais força espiritual. O Pirkei Avót menciona um interessante versículo ensinado por Shlomo HaMelech: "Melhor ser tolerante do que poderoso. Melhor ter autocontrole do que conquistar uma cidade" (Mishlei 16:32). Explica o Rav Yssocher Frand que, apesar de tudo o que aconteceu, Sara de fato governou o mundo inteiro. Em que sentido? Uma pessoa que consegue manter seu equilíbrio, serenidade e Emuná, apesar dos difíceis eventos que a cercam, é realmente alguém valente, que "governa o mundo inteiro".
 
Não podemos mudar o curso dos eventos. Sempre haverá coisas que acontecerão entre nações, haverá fenômenos naturais, haverá coisas que acontecerão em nossas vidas e que serão causadas por outras pessoas. Não temos controle da maioria das coisas que ocorrem à nossa volta. Assim é a vida. Como qualquer pessoa que viveu por um período significativo sabe, a vida inclui uma série de crises e dificuldades. Então como alguém governa sobre tudo isso e consegue "dominar os eventos"? Mantendo a serenidade e o equilíbrio. Isso é o que foi a vida de Sara. Para uma mulher, cujo maior sonho era ter filhos para poder deixar um legado espiritual para as futuras gerações, permanecer estéril por 90 anos não foi algo simples. Passar por tantos testes e sofrimentos não foi algo fácil. E, no entanto, vemos a mesma mulher de valor, o mesmo amor pela bondade, a mesma matriarca Sara em todos os momentos, nos bons e nos difíceis, nas alegrias e nos sofrimentos. Esta é realmente uma pessoa que governou o mundo inteiro.
 
Na continuação da justificativa da mudança do nome de Sara, o Midrash atribui um interessante simbolismo aos 127 anos que Sara viveu. "Que Ester, descendente de Sara, aquela que viveu 127 anos, venha e governe 127 províncias". Aparentemente a semelhança entre os dois números pareceria ser algo aleatório, mas o Midrash está conectando os dois. Qual é a conexão entre Sara e Ester, da história de Purim? Ester também teve uma vida de testes e dificuldades. Ela teve suficientes sofrimentos e motivos para ser uma pessoa depressiva. Ela era órfã, foi levada contra sua vontade para o palácio do rei Achashverosh e teve que esconder por muito tempo sua origem judaica, apesar das constantes pressões do rei. Finalmente, quando virou rainha, poderia ter abandonado seu povo, perseguido e humilhado, para viver uma vida de fama e luxúria. No entanto, Ester não abandonou seu povo e nem seu D'us. Ela não se afundou em depressão. Ela permaneceu firme em sua Emuná. Ela não deixou que os eventos externos moldassem sua vida. Por isso, ela teve o mérito de governar 127 províncias, praticamente todo o mundo conhecido na época. Aquele que tem autocontrole governa o mundo inteiro.
 
A pessoa que aprendeu a não permitir que eventos externos difíceis moldem sua vida, e mantém uma serenidade interna apesar dos sofrimentos e dificuldades, alcançou um grande grau de autocontrole. Não poderemos nunca controlar todos os eventos externos. Portanto, nosso verdadeiro trabalho, que nos eleva espiritualmente e nos levará à perfeição, está no controle das nossas emoções e comportamentos. Pois é D'us que controla as ações, mas somos nós que controlamos as emoções.  

SHABAT SHALOM 

R' Efraim Birbojm

 

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