Nesta semana lemos duas Parashiót juntas, Behar (literalmente “No monte”) e Bechukotai (literalmente “Nos Meus estatutos”). A Parashat Behar trata principalmente da Mitzvá de Shmitá, o Ano Sabático, no qual os judeus deixam seus campos descansarem por um ano inteiro após seis anos de trabalho. É uma Mitzvá que envolve muita Emuná, a confiança plena em D’us de que, mesmo parando de trabalhar no campo por um ano inteiro, nada nos faltaria. Em gerações passadas, nas quais a base da economia era a agricultura, o teste era ainda mais difícil. Já a Parashat Bechukotai traz as Brachót destinadas ao povo judeu no caso de eles cumprirem as Mitzvót da Torá, e as maldições que nos atingiriam caso nos desviássemos dos caminhos corretos.
Sobre a Mitzvá de Shmitá, a Torá nos diz: “Quando você vier à terra que Eu dou a vocês, a terra descansará um Shabat para D’us” (Vayikrá 25:2). Esta foi uma das Mitzvót que foram iniciadas apenas após a entrada do povo judeu na Terra de Israel, sua conquista e a divisão da terra entre todas as Tribos.
Porém, o que significa a linguagem “um Shabat para D’us”? Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que é em honra de D’us, assim como foi dito em relação ao Shabat, como está escrito “Shabat para Hashem, teu D’us” (Devarim 5:14). Mas o que há de especial no Shabat e no ano de Shemitá, que neles é utilizada a expressão “para D’us”? E qual é a conexão entre a Shemitá e o Shabat?
O Rav Yerucham Leibovitz zt”l (Bielorússia, 1873 - 1936) estabelece um princípio fundamental: o objetivo das Mitsvót é que o ser humano reconheça que tem um Criador que governa sobre ele. Por exemplo, depois que D’us deu terras a uma pessoa, ela pode facilmente pensar que a terra é sua, que ele é o proprietário absoluto, e acabar esquecendo de D’us. Para evitar esse esquecimento, D’us cercou todas as ações e movimentos do ser humano com Mitsvót.
O Rav Avraham ben David zt”l (França, 1125 - 1198), mais conhecido como Raeved, traz diversos exemplos: quando D’us concede ao homem um campo, Ele o vincula a várias leis, em todas as fases de trabalho da terra, desde a aragem até a colheita. É proibido arar com um boi e um jumento juntos e é proibido semear misturas (Kilaim). Na colheita, devemos cuidar das leis de Orlá e Neta Revai, isto é, alguns anos após o plantio nos quais ainda não podemos ter benefício das frutas. Devemos deixar a Peá, os cantos do campo intactos, para que os pobres possam vir recolher. As espigas que caem tornam-se Léket, também deixados para alimentar os pobres. Ao recolher os feixes, caso se esqueça de um deles, não pode voltar para pegá-lo (Shichechá), ele deve ser deixado aos pobres. Depois da colheita, já no celeiro, há as obrigações de Terumot e Maassrot, separar partes da produção para os Cohanim e Leviim. Em seguida, temos a Mitsvá de Chalá, que é separar para o Cohen uma parte da massa. Além disso, antes e depois de comer devemos fazer Brachót, pedindo permissão a D’us para usufruirmos do que pertence a Ele e agradecendo pelo proveito recebido. Estes são apenas alguns exemplos dentre as dezenas de Mitsvót relacionadas com o campo.
Também nas nossas vestimentas temos muitas leis. Fomos ordenados a não misturar lã com linho (Shaatnez), e uma roupa com quatro cantos exige que os cantos recebam fios de Tsitsit. Em relação aos nossos animais, há leis como não cruzar espécies, o resgate do primogênito do jumento e a doação do primogênito dos animais puros ao Cohen. Temos também Mitzvót que se aplicam diretamente ao nosso corpo, como a Mitsvá de Brit Milá. Isso nos ensina que não somos donos nem mesmo do nosso corpo, já que não fomos nós que o criamos. Há também leis específicas que regulamentam o nosso tempo, como o Shabat, as Festas, o Rosh Chodesh, e assim por diante.
Cada Mitzvá tem um efeito único e especial sobre o nosso corpo e a nossa alma. Porém, um ponto em comum entre todas as Mitsvót é que elas nos transmitem uma importante mensagem. A Shemitá nos ensina que a terra não é verdadeiramente nossa. Peá, Léket e Shichechá nos ensinam que nem toda a produção é nossa, e que o verdadeiro Dono da produção nos ordena a dar parte dela aos necessitados. O Brit Milá nos ensina que o corpo não é nosso, isto é, não posso fazer com meu corpo o que eu bem entender, o que nos afasta do pensamento equivocado de “meu corpo, minhas leis”. E o Shabat nos ensina que nem mesmo o tempo é realmente nosso. A Torá vem desfazer a nossa ilusão de “A minha força e o poder da minha mão fizeram para mim esta riqueza” (Devarim 8:17).
Esse é, na verdade, o fundamento da Parashat Behar: “Quando você vier à terra que Eu dou a vocês”. A Torá enfatiza “que Eu dou a vocês”, para nos ensinar que, embora D’us nos conceda a terra como presente, podemos cair no erro de pensar que somos seus donos desde sempre e esquecer de D’us, Aquele a Quem tudo pertence. Por isso Ele ordenou: “a terra descansará um Shabat para D’us”. A terra pertence a D’us, que foi Quem criou os céus e a terra, o Criador de todo o universo. Somos apenas trabalhadores temporários, com permissão para usufruirmos do que Ele nos concedeu, mas com a responsabilidade de utilizar nossos presentes da forma correta. Por isso, no ano de Shemitá, a terra torna-se livre: não podemos arar nem semear. Nesta situação de vulnerabilidade, lembramos que não somos verdadeiramente donos de nada.
Esse também é o sentido de “um Shabat para Hashem” dito sobre o Shabat semanal. Não se trata apenas de agir “em honra de D’us”, mas de reconhecer uma realidade: o homem, nesse dia, se desprende de sua sensação de domínio. Durante seis dias ele trabalha e pode pensar que “sua força e o poder de sua mão” produziram sua riqueza. O Shabat vem para interromper isso. É um dia totalmente separado, sem trabalhos criativos, dedicado a D’us e à nossa espiritualidade. E, mesmo parados, sem criar nada, percebemos que o mundo continua, que ele não depende de nós para existir. Isso diminui nossa arrogância e nos aproxima de D’us.
Assim se entende o ensinamento citado por Rashi: o ponto comum entre o Shabat e a Shemitá é a anulação da sensação de propriedade que o homem normalmente desenvolve. Ambas conduzem o ser humano ao objetivo geral das Mitsvót, conforme explicou o Raeved: “Para que o homem saiba que tem um Criador que governa sobre ele”, e que a terra e tudo o que nela existe pertencem, em última instância, a D’us.
Isso obviamente não se aplica apenas ao Shabat ou ao trabalho na terra, mas a tudo o que nós temos. Isso nos ensina uma nova forma de como viver a vida. Muitos traços de caráter e comportamentos negativos são consequência de olharmos as nossas posses de forma equivocada. Aquele que se acha o verdadeiro dono de tudo o que tem acaba se tornando orgulhoso, egoísta e materialista. A solução é sabermos quem é o verdadeiro Dono, e lembrar que somos apenas Seus intermediários. Assim, usaremos o que Ele nos presenteou apenas para fazer o bem, cumprindo as Mitzvót, sendo pessoas corretas e ajudando os necessitados, sempre com responsabilidade. SHABAT SHALOM R’ Efraim Birbojm |