quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ VAIGASH 5775

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BS"D

DANDO BRONCA COM AMOR - PARASHÁ VAIGASH 5775 (26 de dezembro de 2014) 

"O rabino Dovid estava caminhando pela rua e passou por uma lanchonete não kasher. Ele ficou chocado e surpreso ao ver Daniel, um frequentador da sua sinagoga, sentado na lanchonete e comendo um sanduíche. O rabino parou e ficou olhando fixamente para Daniel, para ver até onde chegava a cara de pau dele. E parece que o nível de atrevimento de Daniel havia chegado ao limite, pois mesmo quando percebeu que o rabino estava olhando para ele, não se abalou e continuou comendo tranquilamente.
 
O rabino Dovid decidiu esperar Daniel na porta da lanchonete, e assim que ele saiu, começou a repreendê-lo com palavras duras:
 
- Por que você estava comendo neste lugar? Você não sabe que não é não kasher? Você não tem vergonha na cara? Você não percebeu que eu estava olhando para você o tempo todo, e mesmo assim continuou comendo como se nada estivesse acontecendo?
 
O mais incrível é que Daniel não se abalou. Abrindo um enorme sorriso, ele respondeu ao rabino:
 
- Ué, eu sempre escutei que a comida, para ser kasher, precisa ser supervisionada. Quando eu vi você me olhando e supervisionando meu sanduíche enquanto eu comia, fiquei mais tranquilo, pois sabia que estava comendo algo supervisionado pelo rabino e que era, portanto, kasher..."
 
A piada pode ser engraçada, mas o ensinamento que está por trás dela é muito sério. Muitas vezes queremos ajudar as pessoas a consertarem seus erros, e acabando dando uma grande bronca nelas. Mas se esta repreensão for feita da maneira incorreta, então o tiro pode sair pela culatra, e ao invés da pessoa corrigir seu erro, ela pode procurar desculpas para continuar cometendo os mesmos atos equivocados.

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Na Parashá da semana passada, Miketz, após passar 22 anos afastado de sua família, Yossef finalmente reencontrou seus irmãos e percebeu que aquela era a grande oportunidade de testar se eles estavam arrependidos por terem-no vendido, motivados pela inveja que sentiam dele. Yossef, que na época da venda tinha apenas 17 anos, agora era o vice rei do Egito e não foi reconhecido por seus irmãos. Ele convidou seus irmãos para uma refeição e, antes deles saírem, escondeu sua taça de prata na sacola de seu irmão Biniamin, que também era o filho preferido de Yaacov, para posteriormente acusá-lo de roubo e condená-lo a ser escravo no Egito para sempre. A ideia de Yossef era testar se seus irmãos, por inveja, aproveitariam a oportunidade para também se livrar de Biniamin, como tinham feito com ele.
 
Já a Parashá desta semana, Vaigash, começa com Yehudá arriscando sua própria vida para enfrentar Yossef e exigir a libertação de Biniamin. Entre outros argumentos, Yehudá mencionou que seu pai, já idoso, não suportaria ficar sem seu filho preferido. Ao ver que os irmãos estavam realmente arrependidos, Yossef não aguentou a emoção e se revelou para eles, como está escrito: "Eu sou Yossef. Meu pai ainda está vivo? E seus irmãos não puderam responder para ele, pois estavam em choque diante dele" (Bereshit 45:3). Por que os irmãos ficaram em choque e não puderam dizer nada? Por causa da enorme vergonha que sentiram ao escutar as palavras de Yossef.
 
Ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que através da reação dos irmãos fica claro que Yossef os estava repreendendo por terem-no vendido. Este entendimento é reforçado pelo fato de diversas vezes os irmãos de Yossef terem repetido que Yaacov ainda estava vivo, não havendo nenhum motivo para que Yossef perguntasse isto novamente, deixando claro que as palavras de Yossef tinham certamente outras implicações. Mas como entender que as palavras "meu pai ainda está vivo?" foram uma repreensão? Segundo o Rav Yossef Dov Soloveitchik (Bielorússia, 1820 - 1892), mais conhecido como Beis Halevi, é como se Yossef estivesse dizendo para Yehudá: "Foi muito bonito agora você ter vindo defender o Biniamin, pedindo para que eu tivesse misericórdia de seu pai idoso. Mas por que você mesmo não teve misericórdia de seu pai idoso quando você decidiu me vender como escravo?". Yossef conseguiu demonstrar, de uma maneira lógica e racional, que o ato dos irmãos de terem-no vendido havia sido um grande erro.
 
O ato de Yossef de repreender seus irmãos foi correto, pois existe inclusive uma Mitzvá na Torá de repreender uma pessoa que está fazendo algo errado, como está escrito: "Advirta seu companheiro, e que a transgressão não recaia sobre você" (Vayikrá 19:17). Mas o propósito de repreender uma pessoa nunca deve ser de envergonhá-la ou diminuí-la, e sim mostrar que ela cometeu um erro e que precisa corrigir seus caminhos. Esta Mitzvá é muito difícil de ser cumprida, pois quando damos uma bronca em alguém, normalmente atacamos diretamente a pessoa que cometeu a transgressão, e há uma grande chance de ela reagir da maneira oposta como desejávamos. Quando a pessoa é confrontada com a acusação de que cometeu uma transgressão, normalmente ela se torna defensiva e pode até mesmo fortalecer seu comportamento errado apenas para justificar para si mesma que é um comportamento correto. E a isto se refere o final do versículo que diz "e que a transgressão não recaia sobre você", pois se não repreendermos a pessoa da maneira correta, e por causa disto ela piorar ainda mais seus atos, seremos cobrados por este "acréscimo". Portanto, precisamos ser sábios no momento de repreender alguém.
 
Esta foi a grandeza da repreensão de Yossef, que tocou o coração dos seus irmãos e os ajudou a consertar o que eles haviam feito de errado. Há um pequeno detalhe que nos chama a atenção nas palavras de Yossef, que é a chave para a repreensão ter realmente funcionado. Quando Yossef criticou seus irmãos, ele perguntou "meu pai ainda está vivo?". Mas por que ele não falou "nosso pai"? Qual mensagem ele estava transmitindo ao chamar Yaacov somente de "meu pai"?
 
Explica o Rav Yohanan Zweig que uma possível explicação é que Yossef não quis criticar a atitude errada de seus irmãos de maneira direta, por causa do risco deles se tornarem defensivos e não aceitarem a repreensão. Então ele tentou atingir seu objetivo de outra maneira, focando no dano causado ao invés de focar no ato errado, isto é, mostrando para os irmãos as terríveis consequências que seu ato errado havia causado. Por isso a primeira pergunta de Yossef após ter se revelado aos seus irmãos foi "meu pai ainda está vivo?", pois ele estava deixando claro que, de todos os sofrimentos que havia passado nos últimos 22 anos, o pior de todos havia sido a distância de seu pai. Com esta pergunta, Yossef estava derramando a tristeza que havia se acumulado em seu coração durante todos aqueles anos nos quais ele não conseguiu aproveitar o amor de Yaacov. E a Torá fala que, ao escutar estas palavras, os irmãos de Yossef não conseguiram responder nada, pois estavam completamente envergonhados. Não uma vergonha por terem sido diretamente repreendidos por Yossef, mas pelo resultado de terem entendido a dor e o sofrimento que o erro deles havia causado.
 
Este é um importante ensinamento para nossas vidas. Muitas vezes queremos criticar uma pessoa por um erro que ela cometeu, mas acabamos fazendo da forma incorreta e pioramos ainda mais a situação. Isto acontece porque normalmente damos uma bronca nos outros apenas preocupados em resolver algo que está nos incomodando, e não com intenção de melhorar algo na outra pessoa. Já Yossef tinha como preocupação principal o crescimento espiritual dos seus irmãos, queria que eles enxergassem o que haviam errado para poderem consertar. Por isso ele fez a crítica de uma maneira que não despertasse desculpas e tentativas de encobrir o ato errado. E a melhor maneira do erro ficar evidente era demonstrando as terríveis consequências do mau ato que eles haviam cometido.
 
A crítica é uma ferramenta que podemos utilizar para transformar o mundo em um lugar melhor. Mas é uma ferramenta que deve ser utilizada por amor, não por egoísmo. A repreensão é algo que somente deve ser utilizada quando nosso intuito é que o próximo possa consertar seus erros e crescer espiritualmente. Portanto, uma repreensão nunca deve ser feita de forma impensada, quando estamos de "cabeça quente", pois certamente não trará benefícios. Criticar é uma Mitzvá, mas criticar da maneira incorreta, causando dor, sofrimento e tristeza, é uma grande transgressão.
 
SHABAT SHALOM
 
Rav Efraim Birbojm

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