quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ VAIECHI 5774

BS"D

ESCRAVOS OU HOMENS LIVRES? - PARASHÁ VAIEHI 5774 (13 de dezembro de 2013)

"Biniamin estava no leito de morte, cercado pelos familiares mais próximos. Ele já não tinha mais forças nem mesmo para abrir os olhos. Com muito esforço ele perguntou:

- Sara, minha querida esposa, você está aqui?

- Sim, meu querido. Estou aqui ao seu lado – respondeu Sara.

- E você, minha filha Rivkale, também está aqui? – perguntou Biniamin.

- Sim papai, estou aqui – respondeu Rivkale.

- E você, meu filho Yankele, está aqui? – perguntou Biniamin.

- Sim, papai, estou – respondeu Yankele.

Juntando todas as forças, Biniamin conseguiu levantar a cabeça e, desesperado, perguntou:

- Meu D'us, se estão todos aqui, quem está tomando conta da lojinha???"

Pode parecer brincadeira, mas será que muitas vezes nós também não trocamos momentos preciosos de espiritualidade por preocupações com o mundo material?

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Com a Parashá desta semana, Vaiehi, terminamos o primeiro livro da Torá, Bereshit. Yaacov, ao sentir que sua morte se aproximava, reuniu todos os filhos e falou suas últimas palavras para cada um deles. E nossos sábios explicam que muitas das palavras de Yaacov foram profecias que se cumpriram durante nossa história.

Mas não apenas com as palavras escritas na Torá nós aprendemos lições para nossas vidas. Por exemplo, há um ensinamento muito interessante nesta Parashá que demonstra como cada pequeno detalhe da Torá carrega consigo preciosos ensinamentos. Existem muitas regras de como um Sefer Torá deve ser escrito, e uma delas é o espaçamento mínimo entre duas Parashiót, que deve ser de nove letras. Porém, este padrão não é seguido na nossa Parashá, e esta distância mínima não é cumprida. Explica Rashi (França, 1040 - 1105), comentarista da Torá, que justamente por causa desta diferença esta Parashá é chamada de "Stumá" (fechada), e foi escrita assim para nos ensinar que depois da morte de Yaacov, os olhos e os corações dos judeus se fecharam por causa das dificuldades da escravidão. Isto significa que, segundo Rashi, a escravidão do povo judeu no Egito começou imediatamente depois da morte de Yaacov.

Mas aparentemente este comentário do Rashi é contraditório com algo que ele mesmo comentou quando explicou o versículo "os anos da vida de Levi foram 137 anos" (Shemot 6:16). Rashi questiona o motivo de a Torá ter relatado a idade de falecimento de Levi, algo aparentemente desnecessário, e responde que esta informação é necessária para calcular a data de início da escravidão do povo judeu, uma vez que a escravidão somente começou após a morte de Levi, o último dos filhos de Yaacov a falecer. Como entender esta aparente contradição nos comentários do Rashi? Afinal, quando a escravidão do povo judeu começou, após a morte de Yaacov ou somente algum tempo depois, após a morte de Levi?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta está nas palavras do Shemá Israel. No terceiro parágrafo está escrito: "Não sigam seus corações nem seus olhos, atrás dos quais vocês se desviam" (Bamidbar 15:39). Rashi explica que os olhos e o coração são os espiões que fazem o corpo pecar, pois os olhos veem, o coração deseja e corpo comete a transgressão. Mas será que D'us criou estes órgãos tão importantes apenas com propósitos negativos?

Quando D'us nos deu o livre arbítrio, Ele deixou em nossas mãos a escolha de como utilizar as ferramentas existentes no mundo material, entre elas o nosso próprio corpo. Podemos escolher como vamos utilizar a energia do nosso coração e dos nossos olhos. Se o foco da pessoa e sua motivação são os desejos do seu corpo, seus órgãos funcionam como um combustível para estes desejos, levando-a para o caminho das transgressões. Por outro lado, se a pessoa foca na sua alma e no seu crescimento espiritual, cada parte do seu corpo será utilizada como um auxílio no cumprimento das suas metas espirituais.

A pessoa que vive focada apenas nas suas necessidades materiais acaba cegando seus olhos e fechando seu coração para o lado espiritual. Como ela foca apenas no mundo material, se torna uma pessoa egoísta e não consegue mais perceber as necessidades do próximo. Já a pessoa que foca seus esforços no seu crescimento espiritual consegue abrir seus olhos e seu coração, despertando uma sensibilidade espiritual que estava anteriormente dormente. Esta sensibilidade faz com que ela consiga se preocupar mais com o próximo e com as necessidades alheias.

Além do comodismo e da busca desequilibrada dos desejos, há outras influências externas que podem ter como consequência uma maior conexão com o mundo material. Por exemplo, quando uma pessoa se sente em perigo por estar sendo fisicamente ameaçada, isto ativa uma necessidade natural de preservação do seu corpo. Esta atitude de autopreservação leva a pessoa a focar nas necessidades do corpo, e muitas vezes negligenciar as necessidades da alma. Embora a escravidão física do povo judeu não tenha começado efetivamente até a morte de Levi, o povo judeu começou a sentir o perigo iminente da opressão egípcia logo depois da morte de Yaacov. Enquanto Yaacov estava vivo, os judeus estavam tranquilos, pois os egípcios o respeitavam muito. Um dos motivos pelos quais Yaacov não quis ser enterrado no Egito foi para que o seu túmulo não se tornasse um local de idolatria egípcia. Mas quando ele faleceu, uma enorme dúvida pairou no ar. O que seria do povo judeu sem os méritos de Yaacov? Esta sensação de insegurança despertou no povo judeu uma necessidade de autopreservação. Como eles começaram a se focar fortemente em seu bem-estar físico, iniciou-se um processo de perda de sensibilidade espiritual, e com isso seus olhos e corações se fecharam.

A palavra "Mitzraim", que significa "Egito", também é a mesma raiz da palavra "Metzarim", que significa "limitações". Apesar da escravidão do Egito ter sido uma escravidão física, com trabalhos pesados e muito sofrimento, também foi uma escravidão espiritual, pois nos desconectou do nosso foco correto, limitou nossa espiritualidade e nos conectou ao materialismo, aos desejos e à percepção enganosa de que o nosso corpo é o principal. Esta terrível escravidão espiritual começou muitos anos antes da escravidão física. Começou logo depois da morte de Yaacov, quando os olhos e corações do povo judeu se fecharam para a espiritualidade.

Quando a pessoa está sob uma escravidão física, ela tem consciência de sua situação e está constantemente desejando escapar. Mas a escravidão espiritual é muito mais difícil, pois a maioria dos que estão escravizados nem mesmo sabem disso. Não apenas a geração dos filhos e netos de Yaacov foi submetida a este teste, mas nós também estamos constantemente sendo testados. Vivemos em uma geração onde o valor das pessoas é proporcional às suas posses. Onde um jogador de futebol ganha milhares de dólares por mês, enquanto um professor recebe um salário mínimo. Onde cada vez mais se busca a satisfação imediata dos nossos desejos, mesmo que seja através de atos de traição, roubo e enganação. Comemos sem limites, sem se importar com os efeitos nocivos de uma alimentação desequilibrada sobre nossa saúde. Bebemos sem moderação, sem levar em conta as futuras consequências. Somos escravos e nem mesmo percebemos o quanto somos completamente controlados por nossos desejos.

Quanto mais a pessoa foca na satisfação imediata dos seus desejos, mais ela fica presa ao seu materialismo. A solução, portanto, é focar mais na nossa espiritualidade e na valorização das pessoas pelo que elas são, não pelo que elas têm.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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