sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - CHÁNUKA 5769

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A VERDADEIRA RIQUEZA - CHÁNUKA 5769 (19 de dezembro de 2008)

"Em uma aldeia próxima de Cracóvia, na Polônia, morava um camponês muito pobre chamado Itzik, que tinha uma vida muito pacata e sem novidades. Mas algo aconteceu que mudou completamente sua vida. Ele começou a ter um sonho estranho, que se repetia várias vezes. No sonho ele via que sob uma certa ponte de Praga estava enterrado um enorme tesouro, que pertenceria a quem o desenterrasse. Nas primeiras vezes ele não deu importância ao sonho, considerando-o inclusive absurdo, mas após inúmeras repetições, começou a levar a sério. Como poderia ele, que não tinha um centavo, viajar até Praga? A idéia não lhe dava sossego, e apesar de sua esposa insistir para que ele tirasse aquela idéia maluca da cabeça, ele decidiu que daria um jeito de ir até Praga para encontrar o tesouro. Juntou algumas míseras provisões e partiu.

Quando Itzik tinha sorte, viajava de carona em algum veículo que passava. Caso contrário ele caminhava, mendigando restos de comida em hospedarias pelo caminho e dormindo sob as árvores. Assim, depois de muitas semanas, Itzik chegou em Praga e procurou a ponte que aparecia no seu sonho. Encontrou-a e imediatamente começou a cavar. Porém, para sua infelicidade, naquele momento estava passando por ali um policial que, vendo sua atitude suspeita, se aproximou gritando:

- Ei, o que você está fazendo? O que você deseja aqui?

Itzik pensou em inventar alguma mentira, mas sabia que não seria acreditado. Ele não teve outra solução a não ser simplesmente contar toda a verdade. Ele descreveu o seu sonho ao policial e contou detalhes de todas as semanas de esforço e sofrimento para conseguir chegar até Praga. O policial começou a rir:

- Seu tolo, por causa de um sonho bobo você fez esta longa viagem? Bem, eu também tenho tido um sonho repetitivo. Tenho sonhado que em uma pequena aldeia perto de Cracóvia existe uma casinha de madeira, que pertence a um camponês chamado Itzik, e debaixo desta casinha está enterrado um imenso tesouro. Você acha que eu gastaria meu precioso tempo e o meu dinheiro por causa de um sonho bobo desses?

Ao escutar aquelas palavras, Itzik tremeu. Arrumou suas coisas e voltou imediatamente para casa. Ao escavar o chão da sua casa, descobriu um imenso tesouro".

Muitos procuram a maior riqueza de todas, a felicidade, em lugares distantes. Gastam uma energia enorme procurando-a no mundo material. "Quando tiver isso, serei feliz". Mal sabem que a felicidade que buscam se encontra dentro delas mesmas, em suas almas. Não há necessidade de percorrer longas distâncias, pois ela está ali, ao alcance de todos, dentro de cada um de nós.
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Na noite do próximo Domingo (21 de dezembro) acenderemos a primeira vela de Chánuka, revivendo a vitória militar e ideológica contra os gregos, na época do Segundo Templo. Nossos sábios explicam que não foi apenas uma vitória na batalha, foi o fim de um dos exílios do povo judeu, o exílio grego.

A palavra exílio nos lembra da idéia de expulsão, de ser retirado da nossa terra e ser levado para outro lugar. Mas se estudarmos o período de dominação grega, o povo judeu viveu em Israel e nunca houve nenhuma tentativa de nos tirar de lá. Então por que os nossos sábios chamam este período de "Exílio Grego"?

A resposta está nos primeiros versículos da Torá: "No princípio D'us criou os céus e a terra. E a Terra estava desolada e vazia, e havia escuridão sobre a face do abismo, e o espírito de D'us pairava sobre a face das águas. E disse D'us: "Haja luz", e houve luz" (Bereshit 1:1-3). Há um Midrash (parte da Torá Oral) que que nos ensina que o exílio grego já estava indicado nos primeiros versículos da criação do mundo, nas palavras "e havia escuridão". Como esta escuridão foi afastada? Com a luz que D'us criou no primeiro dia. Mas que luz é esta, já que os astros somente foram criados no quarto dia? Esta luz é uma luz espiritual, não uma luz física. A escuridão era, portanto, uma ausência de espiritualidade. Esta é a essência do exílio grego.

O Helenismo, a cultura grega, glorificava o ser humano, tanto seu corpo quanto seu intelecto. Para os filósofos gregos, o mundo era governado por leis naturais inteiramente acessíveis ao intelecto humano. A cultura Ocidental é o legado desta visão grega. Muitos vivem imersos em um mundo onde não existe nenhuma realidade além do mundo material que nossos olhos enxergam. Outro legado grego é a "moralidade relativa", que nega a existência de um certo e errado absolutos pois se apóia na capacidade intelectual do ser humano de definir o certo e o errado. Isso causa com que muitas pessoas vivam completamente desprovidas de sentido em suas vidas, o que pode ser visto nos inúmeros casos de depressão, que ataca até mesmo jovens e crianças. Segundo os ensinamentos que ficaram dos gregos, somos apenas átomos organizados, um mero acaso no infinito universo. O entendimento profundo do universo foi substituído por explicações superficiais apenas porque eram mais entendidas pelo limitado intelecto humano.

O judaísmo, por outro lado, ensina que as leis da natureza existem, mas estão subordinadas a uma realidade superior. O intelecto humano é a ferramenta mais poderosa e confiável do ser humano, mas nada mais do que isso. Existe uma realidade moral e espiritual objetiva, mesmo que nem sempre o intelecto e nossos sentidos físicos possam captá-las e compreendê-las em sua totalidade.

A batalha foi difícil, e muitos judeus se deixaram seduzir pelas idéias gregas. Mesmo vivendo em Israel, o povo judeu estavam em exílio, não um exílio físico, mas sim um exílio espiritual. A escuridão da filosofia grega ameaçava contaminar todo o brilho do judaísmo. O judaísmo milagrosamente venceu a batalha, mas a guerra ainda não terminou, pois apesar dos gregos não mais existirem, seu legado continua, como definiu Winston Churchill no seu livro 'A história da Segunda Guerra mundial': "Nenhum outro povo conseguiu, como os judeus e os gregos, deixar uma marca tão forte no mundo inteiro, cada um em um ângulo completamente diferente". A luta continua, entre o entendimento de que existe uma Força Superior versus a vontade de acreditar somente no que os olhos enxergam. Entre a filosofia de que este mundo material é apenas um meio versus a idéia de que o mundo material é o propósito de tudo.

Não foi por coincidência que a vitória judaica sobre os gregos culminou em um milagre relativamente pequeno: um pote de óleo que deveria durar 1 dia mas durou 8 dias. Para os pensadores gregos, o mundo material é tudo o que temos. O óleo queimando por 8 dias é um símbolo que deixa para o mundo a idéia de que dentro do mundo material dos gregos existe uma outra dimensão. O desafio dos judeus é ver além do mundo físico e elevá-lo, permitindo que o potencial espiritual possa brilhar.

Para comemorar nossa vitória colocamos velas em nossas janelas, para que brilhem e iluminem a escuridão. Uma iluminação não apenas física, mas principalmente espiritual. É a mensagem de que, apesar de muitos pensarem que o ser humano é apenas um monte de células casualmente organizadas, a realidade é que dentro de cada um de nós brilha uma alma, esperando o momento de ser acendida e preencher seu potencial espiritual. Essa é a mensagem de Chánuka, esta é a mensagem do povo judeu para o mundo. Esse é o trabalho para o qual fomos escolhidos como "Luz para as nações".

SHABAT SHALOM E CHÁNUKA SAMEACH

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAISHLACH 5769

BS"D

ENCURTANDO A DISTÂNCIA ESPIRITUAL - PARASHÁ VAISHLACH 5769 (12 de dezembro de 2008)

"Em uma aula o professor perguntou aos seus alunos:

- Por que as pessoas gritam quando estão bravas umas com as outras?

Os alunos não sabiam a resposta, mas muitos tentaram arriscar. Um dos alunos respondeu que as pessoas gritam porque perdem a calma, mas a resposta não convenceu o professor, pois perder a calma não explica o ato de gritar com alguém que está perto de você. Outro aluno respondeu que as pessoas gritam porque querem que a outra pessoa escute. Mas isso também não convenceu o professor, afinal, se duas pessoas estão uma do lado da outra, é suficiente falar baixo para ser escutado. Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o professor. Até que um dos alunos se levantou e falou:

- Acho que eu sei a resposta. Quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito. Para cobrir esta distância, precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, pois maior a distância entre seus corações. Mas ao contrário, quando duas pessoas se amam, elas falam suavemente, pois seus corações estão muito perto um do outro. E quando o amor é muito intenso não necessitam sequer falar, apenas um olhar carinhoso basta para seus corações se entenderem."

Esta é a lição que fica: quando duas pessoas discutem, devem tomar cuidado para não deixar que seus corações se afastem, devem evitar dizer palavras que os distanciem mais, pois podem chegar a uma distância tamanha que não encontrarão mais o caminho de volta.
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A Parashá desta semana, Vaishlach, nos conta sobre a volta de Yaacov para casa, depois de passar muitos anos fugindo de seu irmão Essav. Essav era o filho primogênito de Itzchak e tinha direito a uma Brachá (benção) especial. Porém, como estava ligado somente à busca de prazeres do mundo material, ele desprezou seu direito espiritual da primogenitura e vendeu-a para Yaacov por um prato de lentilhas. Mas quando Essav viu que Yaacov havia recebido a Brachá no seu lugar, ele se arrependeu, odiou seu irmão com todas as suas forças e decidiu em seu coração que iria matá-lo. Yaacov fugiu para a casa de seu tio Lavan, onde casou-se e construiu uma família. Passados 34 anos, ele acreditava que o ódio de Essav já havia passado e decidiu voltar.

Porém, a Parashá nos ensina justamente o contrário. Yaacov enviou mensageiros para buscar uma reconciliação com Essav, mas eles voltaram com um terrível relato: Essav vinha ao encontro de Yaacov acompanhado de 400 homens, certamente não em missão de paz. O encontro seria explosivo, e Yaacov se preparou para a inevitável batalha sangrenta. Mas algo estranho aconteceu no caminho, pois a Parashá conta que finalmente os irmãos se encontraram, se abraçaram e choraram um sobre o ombro do outro. O que ocorreu que causou esta mudança tão drástica nos acontecimento?

Conhecemos as leis do mundo material e sabemos o quanto elas são rígidas. Se jogamos para cima uma maça, a força da gravidade faz com que a maça caia de volta. Da mesma forma, o mundo espiritual também tem suas leis rígidas. Nos ensina Shlomo Hamelech (Rei Salomão), o mais sábio de todos os homens, em seu livro Mishlei (Provérbios), uma das leis espirituais que regem o mundo: "Da mesma forma que a água reflete o rosto da pessoa, assim também o coração do homem reflete o coração de seu companheiro". Quando uma pessoa olha para a água, ela vê seu próprio rosto refletido. Se ela sorri, vê um rosto sorridente, mas se ela está irritada, vê refletido um rosto tenso e irritado. Nos ensina Shlomo Hamelech que assim também ocorre entre as pessoas, vemos refletido nas outras pessoas o nosso próprio comportamento. Se sorrimos recebemos de volta um sorriso, se gritamos recebemos de volta um grito. O que sentimos por outra pessoa no nosso coração, ela também sente por nós.

Yaacov conhecia muito bem as leis do mundo espiritual. Quando estava voltando e recebeu a notícia de que seu irmão estava vindo contra ele com um exército, entendeu que o ódio era grande demais, maior do que havia imaginado, pois continuava fervendo mesmo depois de 34 anos. Ele entendeu que se Essav o odiava tanto era porque ele provavelmente também deveria estar mantendo no coração, mesmo sem perceber, um ódio pelo seu irmão. A Torá nos ensina que devemos odiar o pecado e não o pecador. Por mais que Yaacov estava correto em odiar os atos abomináveis de seu irmão Essav, ele entendeu que havia ido além, havia guardado em seu coração um grande ressentimento por Essav. Quando percebeu isso, Yaacov começou imediatamente a se esforçar para arrancar do coração todo o ódio que estava guardado. E finalmente, quando eles se encontraram, o ódio do coração de Yaacov já havia sido retirado e, como um espelho, o ódio do coração de Essav também desapareceu.

Essa lei espiritual também se aplica para nós. Quando temos algum problema de relacionamento com outra pessoa, é muito fácil colocar a culpa no outro. Mas Yaacov nos ensinou que se há algo de errado no relacionamento, certamente há algo de errado no nosso próprio coração. Como em um espelho, não adianta tentar mudar o reflexo sem mudar algo em nosso próprio comportamento.

Quando há um incêndio, todos sabem que não se combate fogo com fogo. Gritos não resolvem problemas, apenas os pioram. Em momentos de nervosismo, falar de maneira tranquila pode mudar o rumo das coisas. Guardar rancor faz mal para nós e para os outros. Um sorriso, um pedido de desculpas quando erramos e um abraço carinhoso são atos aparentemente simples, mas que podem tocar no fundo da alma de uma pessoa. É fácil criticar a violência no mundo, o difícil é cada um dar a sua contribuição para a paz.

"A vida é como jogar uma bola na parede. Se você joga uma bola azul, recebe de volta uma bola azul. Se joga uma bola com força, recebe de volta uma bola com força. Por isso, nunca "jogue uma bola" na vida de forma que você não esteja pronto a recebê-la de volta" (Albert Einstein).

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIETZE 5769

BS"D

QUEM É O VALENTE? - PARASHÁ VAIETZE 5769 (05 de dezembro de 2008)

O rabino Chizkiahu Madini, que se tornou um grande estudioso de Torá, conta que quando era jovem não tinha nenhum talento especial para o estudo, enquanto muitos outros jovens do Colel (centro de estudos de Torá para pessoas casadas) onde ele estudava se destacavam pelo brilhantismo. Apesar disso ele sempre era o primeiro a chegar e estudava com dedicação. Logo começou a ter bons resultados e a chamar a atenção das outras pessoas. Um dos outros estudantes do Colel começou a ficar com muita inveja e bolou um plano para caluniá-lo e fazer com que fosse expulso. O invejoso subornou uma empregada árabe, que todos os dias vinha fazer a limpeza do local, para que ela dissesse a todos que aquele jovem estudante havia tentado agarrá-la.

Em uma certa manhã a empregada árabe entrou na sinagoga e viu que apenas o jovem estudante já havia chegado e estava imerso nos seus estudos. Quando ela viu que os outros estudantes começavam a entrar no prédio, saiu da sinagoga gritando que havia sido atacada e agarrada à força. Todos ficaram indignados com o comportamento daquele jovem pervertido e começaram a agredi-lo com ofensas e palavras duras. O rapaz conseguiu fugir antes dos outros estudantes chegarem ao nível de agredi-lo fisicamente. A história ficou conhecida em toda a cidade, causando um grande Hilul Hashem (diminuição do nome de D'us no mundo), pois todos acreditaram cegamente na empregada. O único que não acreditou foi o Rosh Colel (rabino chefe), que conhecia bem o rapaz e sabia que ele seria incapaz de fazer algo assim. Apesar dos protestos, manteve o rapaz no Colel e imediatamente despediu a empregada.

Depois de algum tempo o dinheiro do suborno terminou e a empregada árabe foi procurar o rapaz que ela havia caluniado. Ela chorou muito, pediu perdão pelo que havia feito e se comprometeu a ir desmentir em público tudo o que havia ocorrido, revelando a todos que um dos estudantes do Colel a havia subornado para que ela espalhasse a calúnia. A única coisa que ela pediu em troca de limpar o nome do rapaz foi que ele falasse com o Rosh Colel e o convencesse a readmiti-la no emprego, pois ela não tinha mais dinheiro nem mesmo para comprar comida.

O rapaz começou a sentir uma guerra se travando dentro dele. Por um lado ele estava feliz pela oportunidade de limpar seu nome e provar para todo mundo que era inocente. Mas um outro pensamento o incomodava, pois um grande Hilul Hashem já havia sido causado, e se a verdadeira história viesse à tona um novo Hilul Hashem seria causado pelo comportamento vergonhoso do outro estudante. Ele seria humilhado em público, perderia o emprego e o respeito de todos. Por isso talvez seria melhor continuar aguentado a humilhação calado, até que a raiva das pessoas passasse. A luta interna era terrível e a cada instante ele mudava de idéia. Finalmente ele virou-se para a empregada e falou:

- Sobre o que você me pediu para convencer o Rosh Colel a recontratá-la, eu concordo em tentar. Mas eu te proíbo, com todas as minhas forças, de contar a qualquer um sobre o suborno e a calúnia!

O rabino Chizkiahu Madini conta que no momento em que ele tomou aquela difícil decisão, que poderia colocar em risco todo o seu futuro como estudante de Torá, ele sentiu que todas as Fontes de sabedoria haviam sido abertas diante dele. Ao invés de qualquer dano, ele meritou uma grande ajuda dos Céus e se tornou um grande e destacado estudante de Torá.
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Na Parashá desta semana, Vaietze, Yaacov fugiu para escapar da raiva de seu irmão Essav, que queria matá-lo. Foi para a casa de seu tio Lavan, que tinha duas filhas, Rachel e Lea. Yaacov se apaixonou por Rachel, a filha mais nova, não por sua beleza física, mas por suas características espirituais. Como não tinha nenhum dinheiro para o dote, Yaacov trabalhou sete anos por Rachel.

A Torá nos conta que Lavan era uma pessoa extremamente desonesta em todos os seus atos e tentou enganar Yaacov durante todos os anos em que ele trabalhou por Rachel. Yaacov era exatamente o oposto, uma pessoa correta e honesta. Mas Yaacov não era tonto, ele sabia que seu tio faria de tudo para enganá-lo e tentou se precaver de todas as maneiras possíveis. E assim está escrito: "Yaacov amou Rachel, e então ele disse (para Lavan): 'Eu trabalharei para você sete anos por Rachel, a sua filha, a mais nova" (Bereshit 29:18). Por que Yaacov teve que falar "a sua filha, a mais nova"? Ele falou "a sua filha" pois sabia que se falasse apenas "Rachel", Lavan traria aos final dos sete anos uma outra mulher chamada Rachel. E Yaacov também falou "a mais nova" pois imaginou que Lavan poderia trocar o nome de suas filhas. E se mesmo assim Lavan tentasse enganá-los, Yaacov combinou com Rachel um código que ela deveria dizer no momento do casamento, quando estivesse com a cabeça coberta pelo véu e não fosse possível enxergar seu rosto. Mas a Torá nos ensina que, apesar de todos os esforços de Yaacov, Lavan teve sucesso em trocar as filhas. Como isso foi possível?

Nos ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que o povo judeu, durante a época do Primeiro Beit-Hamikdash (Templo Sagrado), cometeu o terrível pecado da idolatria. D'us decidiu destruir o Beit-Hamikdash e exilar o povo judeu para sempre. Imediatamente as almas dos patriarcas e das matriarcas começaram a implorar por misericórdia. Mas a transgressão era tão grave aos olhos de D'us que nem os méritos de Avraham, nem de Itzchak nem de Yaacov eram suficientes. Somente quando Rachel chorou e implorou por perdão D'us escutou e falou: "Suas lágrimas não foram em vão, Rachel. Pelos seus méritos Eu trarei no futuro o povo judeu de volta do exílio". Qual foi o grande mérito de Rachel?

No dia do casamento de Rachel com Yaacov, ela estava muito feliz, afinal havia encontrado um grande Tzadik com que poderia construir uma casa com muita espiritualidade. Porém, no decorrer do dia começou a perceber que algo estranho estava acontecendo. Ao invés de seu pai Lavan prepará-la para o casamento, quem estava sendo preparada era sua irmã Lea. Ela entendeu que as suspeitas de Yaacov estavam corretas, pois Lavan ia mesmo tentar enganá-los. Quando Lea estava saindo para o casamento, Rachel lembrou-se do código que havia combinado com Yaacov. Ficou pensando o que aconteceria quando Lea fosse desmascarada sob a Chupá, diante de centenas de convidados. Ficou imaginando a vergonha e a humilhação que ela passaria na frente de todos. Juntando todas as suas forças, Rachel correu até Lea e contou-lhe o código. Yaacov havia se precavido contra todas as formas de enganação, mas nunca havia lhe passado pela cabeça que Rachel poderia chegar naquele nível espiritual quase sobre-humano de abrir mão de sua felicidade para não envergonhar sua irmã em público. E somente assim foi possível que realmente Lavan enganasse Yaacov.

Quando a alma de Rachel apresentou-se diante de D'us para pedir misericórdia pelo povo judeu, ela falou: "Criador do Universo, eu esperei sete anos para me casar com o meu amado Yaacov. Meu pai tramou para me trocar pela minha irmã Lea, e quando eu percebi que Lea seria envergonhada se a trama fosse descoberta, então eu tive compaixão pela minha irmã e ensinei para ela o código. Eu superei meus próprios sentimentos e não fui egoísta. Eu permiti a presença de uma concorrente na minha própria casa. Portanto, se eu fui capaz de fazer isto, Você, que é infinitamente misericordioso, também pode perdoar o Seu povo que, por uma falha, colocou um concorrente na Sua casa". D'us concordou com Rachel e prometeu, pelos méritos dela, trazer de volta o povo judeu.

Vivemos em um mundo onde o valente é aquele que não leva desaforo para casa e que defende a sua honra através do uso da violência. Valente é aquele com língua afiada, rápido em responder qualquer ofensa com palavras duras. Mas esta definitivamente não é a visão da Torá, como nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Quem é o valente? Aquele que vence a sua má-inclinação". Muitos na história conseguiram conquistar cidades mas não conseguiram conquistar seus próprios instintos.

A salvação do povo judeu virá pelos méritos de Rachel. Dela aprendemos o enorme valor de uma pessoa fechar a boca para não humilhar outra pessoa em público. Os nossos sábios ensinam que o mundo é sustentado por aquele que fecha a boca no momento da discussão. Passar por cima da raiva não é sinal de covardia, é sinal de grandeza, pois se você bate em um animal, ele imediatamente revida. O que nos eleva acima de todo o mundo material é a capacidade de não revidar, a força de manter o controle, mesmo nas condições mais adversas.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ TOLDOT 5769

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QUEM QUER SOFRIMENTOS? - PARASHÁ TOLDOT 5769 (28 de novembro de 2008)

Havia um homem que vivia com constantes sofrimentos. Ele e sua família tinham muitas doenças, sofriam com a falta de dinheiro e passavam por outras dificuldades. Um dia ele decidiu visitar o Rav Shalom Shrabi, um grande sábio, para perguntar como entender o comportamento de D'us e o que ele poderia fazer para que as coisas melhorassem e os sofrimentos diminuíssem. Após uma longa e cansativa viagem a pé, ele chegou na casa do rabino e foi recebido pela rabanit (esposa do rabino), que o convidou a entrar, sentar em um confortável sofá e aguardar o rabino, que estava resolvendo outro problema. O homem estava tão cansado por causa da viagem que caiu em um sono profundo. Começou a sonhar e se viu em uma grande estrada, completamente deserta, onde não se escutava nenhum ruído. De repente escutou um barulho vindo de longe. Uma carruagem cheia de anjos brancos passou em alta velocidade e logo desapareceu no horizonte. Mais alguns minutos e novamente o silêncio foi quebrado pelo barulho de uma carruagem cheia de anjos escuros, de aparência atemorizante, que também logo sumiu no horizonte.

Curioso, ele apertou o passo para saber onde terminava a estrada. Finalmente chegou em uma praça, onde ele viu as carruagens estacionadas. No centro da praça havia uma balança gigantesca, e os anjos desciam das carruagens e se dirigiam à balança. O homem viu que em cada anjo havia uma pequena placa. Nos anjos brancos estavam escritas várias Mitzvót, como por exemplo estudo da Torá, Tefilá (reza) e honrar os pais. Já nos anjos escuros estavam escritas várias transgressões, tais como Lashon Hará (falar mal dos outros), roubo e inveja. O homem entendeu que ali era o Tribunal Celestial, e alguém estava sendo julgado. Cada Mitzvá que a pessoa tinha feito na vida havia criado um anjo branco e cada transgressão havia criado um anjo escuro. Quando o homem se aproximou da balança, viu que era o seu próprio julgamento.

O homem observou que todos os anjos brancos se encaminharam para um lado da balança enquanto os anjos escuros se encaminharam para o outro lado. Notou, para seu desespero, que a balança pendia para o lado dos anjos escuros e começou a tremer de medo. Procurou outros anjos brancos, mas não havia mais nenhum. Ele estava perdido...

De repente, chegou uma terceira carruagem, com anjos gigantescos, que haviam sido criados com os sofrimentos que o homem havia passado na vida. Para cada anjo de sofrimento que se apresentava, eram retirados alguns anjos escuros. Mas para a infelicidade do homem a balança ainda pendia para o lado das transgressões. No desespero, ele deu um grito amargo: "Me mandem mais alguns sofrimentos, me mandem mais alguns sofrimentos!!"

O homem acordou gritando e aos poucos entendeu que tudo havia sido um sonho. Levantou-se e preparou-se para sair, mas a esposa do rabino perguntou:

- Ei, você não tinha que perguntar algo para o rabino?

- Tinha - disse o homem sorrindo - mas agora não preciso mais. D'us já me respondeu... (História Real)
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A Parashá desta semana, Toldot, continua nos contando um pouco mais sobre Itzchak, uma pessoa reta em todos os seus atos e com uma impressionante claridade do seu propósito no mundo. Onde podemos enxergar a grandeza dele? No episódio da Akeidá, no qual D'us testou Avraham pedindo para que ele sacrificasse seu filho. Aparentemente Itzchak não sabia que seria sacrificado e somente por isso aceitou ir junto com seu pai. Mas a Torá nos ensina diferente, pois está escrito "E Avraham pegou a lenha para a oferenda e colocou sobre as costas de Itzchak, seu filho. Ele pegou em suas mãos o fogo e a faca, e os dois subiram juntos... E então Itzchak falou para Avraham seu pai... 'Aqui está o fogo e a madeira, mas onde está a ovelha para o sacrifício?'. E Avraham respondeu: 'D'us escolherá para Ele a ovelha para o sacrifício, meu filho'. E os dois subiram juntos" (Bereshit 22:6-8). Por que a Torá precisou repetir "E os dois subiram juntos"? Para nos ensinar que mesmo após Itzchak entender que ele seria o sacrifício, ele continuou subindo com Avraham, e com o mesmo entusiasmo de antes. Apesar do sacrifício não ter efetivamente ocorrido, D'us considerou como se Itzchak realmente tivesse dado a vida por Ele.

Mas a Parashá ensina algo difícil de ser entendido. Itzchak, este grande Tzadik (Justo) que estava disposto a dar sua vida por D'us, ficou cego, como está escrito "E foi, quando Itzchak envelheceu, seus olhos se escureceram..." (Bereshit 27:1). Isso ocorreu quando Itzchak tinha 123 anos, e como ele viveu até os 180 anos, vemos que ele passou mais de 50 anos imerso em total escuridão. Por que D'us causou tanto sofrimento para Itzchak? E mais do que isso, se D'us é bondoso, por que pessoas boas sofrem?

Temos uma visão completamente equivocada dos sofrimentos. Quando sofremos, sentimos que D'us nos abandonou e nos deixou de lado. Mas é justamente o contrário, os sofrimentos são um grande presente de D'us, que recebemos somente pelos méritos de Itzchak. Segundo o Midrash (parte da Torá Oral), as pessoas não recebiam sofrimentos, e foi justamente Itzchak quem pediu para que D'us nos mandasse sofrimentos. D'us concordou e começou por Itzchak mesmo, deixando-o cego. Mas por que Itzchak queria sofrimentos no mundo?

Explica o Chafetz Chaim que existe uma grande diferença entre os castigos aplicado pelos seres humanos e os castigos aplicado por D'us. Os castigos aplicados pelos seres humanos são apenas um meio de colocar medo na pessoa. Aquele que castiga espera que o transgressor aprenda a lição e não volte a errar novamente no futuro. Já os castigos Divinos, além de ajudarem as pessoas a não voltar a transgredir mais, também limpam, através dos sofrimentos, os erros cometidos.

Não existe Tzadik no mundo que faz o bem e não peca. Cada transgressão que fazemos cria um anjo, que se torna um acusador no Tribunal Celestial. E quanto maior o nível da pessoa, mais ele é cobrado por qualquer erro cometido. É como uma pessoa dentro de uma empresa, quanto maior o cargo, maior a responsabilidade e maiores as consequências no caso de um erro cometido. Quando o faxineiro erra, a sala pode ficar um pouco mais suja, mas se o presidente erra, ele pode quebrar toda a empresa. Itzchak, com seu grande nível espiritual, entendeu que sem sofrimentos nenhum ser humano conseguiria passar pela Justiça Celestial quando saísse deste mundo. Por isso ele pediu para que D'us descontasse parte dos nossos erros através de sofrimentos ainda neste mundo.

Sentir dor é bom? A maioria das pessoas diria que não. Mas existe uma doença chamada CIPA (insensibilidade congênita à dor) que causa com que a pessoa não sinta nenhuma dor. Mas bem longe de viver uma vida paradisíaca, em geral estas pessoas morrem muito jovens, quase sempre por motivos banais como queimaduras ou pequenos ferimentos. Qualquer criança normal que coloca a mão no fogo, ao primeiro sinal de dor, retira rapidamente o braço, num ato reflexo de proteção. Mas estas crianças com a doença, por não sentirem nenhuma dor, não entendem o perigo que estão correndo e acabam morrendo. A dor é, portanto, algo amargo mas que salva nossas vidas. E da mesma forma que isso ocorre no mundo material, assim também ocorre nos mundos espirituais, isto é, os sofrimentos são amargos e difíceis, mas salvam nossa vida eterna, funcionando tanto como um alarme de que algo vai mal quanto como uma maneira de limpar nossos erros e permitir que possamos sair limpos deste mundo.

Este ensinamento nos ajuda muito em nossas vidas, pois não existe ninguém que não passa por sofrimentos e dificuldades. Saber que os sofrimentos têm um propósito nos ajuda a aceitá-los. Não temos que pedir mais sofrimentos para D'us, pois mal e mal suportamos os que já temos, mas temos a obrigação de receber os sofrimentos que Ele nos manda com alegria, pois apesar de serem amargos e difíceis, os sofrimentos, que são limitados, nos ajudarão a ter uma eternidade de prazeres ilimitados.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ CHAIEI SARÁ 5769


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VENCENDO A MÁ-INCLINAÇÃO - PARASHÁ CHAIEI SARÁ 5769 (21 de novembro de 2008)

"O rabino Israel Salanter viajava de trem até a cidade de Vilna. Apesar de já ser um dos maiores rabinos da geração, ele costumava viajar sozinho e vestindo roupas simples, detalhes que escondiam sua verdadeira importância. Ele viajava em um vagão especial para fumantes junto com um outro judeu, que também ia para Vilna. No meio da viagem o Rav Salanter acendeu um cigarro, mas imediatamente o outro judeu gritou, de forma desrespeitosa, para que o rabino apagasse o cigarro, argumentando que ele não suportava o cheiro. O Rav Salanter poderia ter explicado que aquele vagão era para fumantes, mas preferiu pedir desculpas e apagar o cigarro. Poucos minutos depois novos gritos daquele judeu ecoaram no vagão. Desta vez ele gritava com o Rav Salanter reclamando da janela aberta e do frio que entrava. Novamente o Rav Salanter poderia se justificar e explicar que a janela não havia sido aberta por ele, mas novamente preferiu pedir educadamente desculpas, levantar e fechar a janela.

Quando chegaram em Vilna, uma grande multidão esperava pelo Rav Salanter. O outro judeu, curioso, perguntou quem era a grande celebridade que estava naquele trem. Quando soube que aquele homem com quem tinha sido tão grosseiro era o grande Rav Salanter, ele quase desmaiou. Passou toda a noite sem dormir e logo de manhã foi até o hotel onde o rabino estava hospedado. Mas antes que pudesse começar a falar, o Rav Salanter abriu um sorriso e convidou-o, com uma voz suave, a sentar-se e tomar algo. Aquele judeu se surpreendeu tanto com a simpatia daquele rabino, com quem ele havia sido tão indelicado, que caiu no choro, e entre lágrimas pediu sinceramente perdão. O Rav Salanter falou para ele não se preocupar pois já o havia perdoado e não tinha guardado nenhum rancor no coração.

Começaram a conversar e o rabino descobriu que o jovem estava em Vilna para se submeter a uma prova necessária para receber a autorização para fazer Shchitá (abate Kasher de animais). O Rav Salanter fez de tudo para ajudá-lo a conseguir a autorização e abriu muitas portas para ele. Mas infelizmente no dia da prova o rapaz demonstrou que não tinha os conhecimentos necessários e foi reprovado. O rabino que aplicou a prova pensou que talvez o mau desempenho era consequência do cansaço da viagem, e por isso pediu para que ele descansasse e tentasse novamente dentro de poucos dias. O rapaz ficou arrasado, pensou em voltar imediatamente para casa e abandonar o sonho de ser um Shochet.

Assim que soube da reprovação, o Rav Salanter correu até a hospedaria onde estava o rapaz e convenceu-o a ficar e a tentar de novo. Conseguiu que um experiente Shochet da cidade estudasse com ele todas as Halachót (leis) e pagou ao jovem rapaz todos os custos da sua estadia na cidade. O jovem não desperdiçou a oportunidade, estudou com afinco e dedicação e novamente se submeteu à avaliação, sendo aprovado com louvor pelos maiores rabinos da cidade. Mas o Rav Salanter ainda não estava contente e não descansou até que conseguiu uma comunidade adequada onde aquele rapaz pudesse trabalhar e ter um bom sustento. Quando souberam de tudo que o Rav Salanter havia ajudado aquele rapaz, perguntaram: "Por que tanto?". O rabino explicou:

- Quando este jovem veio pedir perdão, respondi que eu o havia perdoado completamente e que não havia nenhum rancor, e realmente falei isso de todo o coração. Porém, como sei que sou apenas uma pessoa de carne e osso, fiquei com medo que algum nível de rancor pudesse ter ficado no meu coração. Por isso me esforcei tudo o que pude para fazer bondades com ele e retirar qualquer resquício de mágoa do coração"

Para vencer uma má inclinação não é suficiente apenas querer. É preciso se esforçar até conseguir.
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A Parashá desta semana, Chaiei Sara, conta que Avraham estava ficando velho e decidiu que era hora de procurar uma esposa para seu filho Itzchak. Como Avraham queria que Itzchak se casasse com alguém de sua família, ele enviou seu servo Eliezer até sua cidade natal com a missão de trazer de lá uma esposa para Itzchak. A Torá nos ensina que Eliezer conseguiu cumprir sua missão e voltou trazendo Rivka. Mas se prestarmos atenção nos detalhes, percebemos que o comportamento de Eliezer foi muito estranho.

Por exemplo, quando Eliezer chegou na cidade de Aram Naharaim ele parou com seus camelos ao lado de um poço e rezou para que D'us o ajudasse em sua missão. Mas por que a necessidade de rezar, ele não confiava na força espiritual de Avraham, que certamente já havia rezado muito para que tudo desse certo? Além disso, ao invés de ir diretamente procurar a família de Avraham, ele parou ao lado do poço e fez um estranho pedido para D'us. Ele fixou para D'us um sinal com o qual ele reconheceria a mulher certa para Itzchak. Quando alguma mulher viesse ao poço ele pediria água para ela, e caso ela desse água para ele e também oferecesse água aos camelos, seria o sinal de que era a pessoa certa. Rivka foi a primeira mulher que chegou ao poço e o sinal logo se cumpriu, pois ela serviu água para Eliezer e ofereceu também aos seus camelos. Eliezer imediatamente deu para ela as jóias que havia trazido como presente, sem perguntar se ela realmente era da família de Avraham. Por que ele nem mesmo perguntou o nome dela antes de dar as jóias? Se fosse a mulher errada, ele perderia todas as jóias!

Quando Eliezer chegou na casa de Rivka para conhecer os pais dela e pedir permissão para levá-la para casar-se com Itzchak, convidaram-no a entrar e ofereceram-lhe comida, mas novamente ele agiu de maneira estranha, recusando a comida e dizendo "Comerei apenas quando tiver dito tudo o que eu vim dizer". Por que ele não começou a comer e durante o almoço contou o que queria contar? Além disso, esta estranha pressa de Eliezer em terminar logo seu trabalho também foi percebida quando a mãe e o irmão de Rivka pediram para que ela ficasse mais algum tempo com eles e somente depois fosse casar-se com Itzchak, mas Eliezer não aceitou e exigiu que ela fosse imediatamente. Qual o problema se Rivka ficasse mais alguns dias com a família? Portanto, percebemos que Eliezer tentou fazer tudo de forma rápida, às vezes até de forma precipitada, como se precisasse terminar sua função urgentemente. Por que?

Explica o rabino Saba MiNovardok que Eliezer era conhecido não apenas por sua grande sabedoria, mas também por sua retidão e fidelidade a Avraham. Quando ele recebeu a função de buscar uma esposa para Itzchak, logo percebeu que tinha um grande dilema. Por um lado ele queria cumprir sua função de maneira exemplar, mas por outro lado percebeu que tinha "Neguiot" (interesses), isto é, havia algo no seu subconsciente capaz de atrapalhar seu trabalho: a vontade de casar Itzchak com sua própria filha. Ele sabia das qualidade de Itzchak e sonhava em um marido assim para sua filha, por isso entendeu que se deixasse sua natureza agir, começaria a ter preguiça e buscaria todas as oportunidades e desculpas para não cumprir sua missão.

Ensina o Rambam (Maimônides) que o ser humano deve andar, em relação às suas características, pelo caminho do meio e não ser um extremista. Por exemplo, em relação à doações de dinheiro, a pessoa não deve nem ser mesquinho nem esbanjador. Mas ensina o Rambam que quando uma pessoa sente que uma característica pendeu fortemente para um dos lados, ele deve se esforçar para ir ao outro extremo e assim conseguir voltar ao meio termo. Foi exatamente o que fez Eliezer quando sentiu que seus interesses podiam subornar os seus atos, lutou como um leão contra sua natureza, mesmo que fosse necessário ir ao extremo contrário, para que sua missão tivesse sucesso.

Apesar de saber que Avraham já tinha rezado, Eliezer pediu em especial para que D'us o protegesse e não o deixasse cair nas armadilhas de seus interesses. Quando ele viu em Rivka os sinais que havia pedido a D'us, imediatamente deu para ela as jóias, pois mesmo se não fosse a mulher certa e ele tivesse que pagar para Avraham o valor de todas as jóias, mesmo assim ele preferiu o risco de perder dinheiro do que o risco de ser enganado por suas vontades. Também por esse motivo Eliezer não quis comer antes de falar com os pais de Rivka, para não deixar nenhuma porta aberta para seus interesses interferirem. E finalmente quando a mãe e o irmão de Rivka pediram para que ela ficasse mais alguns dias com eles, Eliezer não aceitou, com medo que se ele aceitasse seria por causa de seus interesses

Eliezer nos ensinou a lutar contra os nossos interesses, os "subornos" que recebemos das nossas vontades, que muitas vezes nos impedem de fazer o que é correto. Quantas vezes o comodismo e o medo de perder prazeres nos faz continuar em caminhos que sabemos racionalmente estarem errados? Quantas desculpas buscamos para justificar nossos atos, quando a verdade está óbvia diante de nós? Para ter sucesso espiritual, não basta querer fazer o que é correto. É preciso lutar por isso.

"O pior cego é o que não quer ver"

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIERÁ 5769

BS"D

TZADIK ÀS CUSTAS DOS OUTROS? - PARASHÁ VAIERÁ 5769 (14 de novembro de 2008)

"O rabino Israel Salanter era um homem muito santo e rigoroso com o cumprimento das Mitzvót. Certa vez ele foi convidado por um de seus alunos para o jantar de Shabat. O rabino explicou ao aluno que nunca aceitava um convite antes de saber os detalhes dos costumes da casa. O aluno começou a explicar:

- Na minha casa tudo é feito com todo o rigor da Halachá (lei judaica). A carne é comprada em um açougue cujo dono é conhecido como um homem muito temente a D'us. A comida é preparada por uma senhora muito séria, viúva de um grande estudioso de Torá. Fora isso minha esposa passa o tempo todo supervisionando o preparo de cada comida. A mesa é caprichosamente arrumada para o jantar e entre um prato e outro nós conversamos sobre a Parashá da semana e estudamos Halachót (leis). Fora isso também cantamos músicas de Shabat e a prazeirosa refeição costuma ir até altas horas.

Depois de escutar todos os detalhes, o Rav Salanter aceitou o convite, mas com a condição que o jantar não se estendesse tanto. O aluno atendeu o pedido do rabino, acelerou bastante o jantar e bem cedo já estavam fazendo a reza final. Após a reza o aluno virou-se para o Rav Salanter e perguntou:

- E então, o Rav encontrou alguma falha no meu Shabat?

O Rav Salanter não respondeu, ao invés disso pediu para que aquela cozinheira viúva fosse chamada. Quando ela chegou na sala, o Rav Salanter pediu perdão por tê-la cansado mais do que o normal ao mudar os costumes da casa e acelerar a refeição. A cozinheira abriu um sorriso e disse:

- Ao contrário, rabino, que você seja abençoado e possa passar todas as refeições de Shabat aqui nesta casa. Todo Shabat a refeição costuma ir até muito tarde. Eu trabalho o dia inteiro, começo cedinho de manhã, chega um momento que minhas pernas latejam e o cansaço me consome. Mas hoje, graças ao rabino, eu poderei voltar cedo para casa e descansar um pouco.

Quando escutou estas palavras, o Rav Salanter virou-se para o seu aluno e falou:

- Aqui está a resposta da sua pergunta. Seu Shabat é realmente muito bonito, mas é isso que D'us quer, uma Mitzvá às custas da saúde de uma viúva? O seu Shabat somente será bom quando for bom para todos também!"

Muitas vezes temos tanta sede de crescer que esquecemos de olhar em volta para nos certificar de que não estamos pisando em ninguém.
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A Parashá desta semana, Vaierá, nos mostra a força espiritual descomunal de Avraham Avinu. Apesar de ter feito um doloroso Brit-Milá aos 99 anos, sem nenhum tipo de anestesia, todo o seu pensamento estava apenas concentrado em fazer bondades aos outros. Mesmo doente, ele insistia em receber convidados em sua casa. Mas os planos de D'us eram outros, pois Ele queria que Avraham descansasse para poder se recuperar. D'us fez com que o dia se tornasse insuportavelmente quente, a ponto de nenhum viajante se aventurar a sair de casa. Vendo que estranhamente não passava nenhum visitante, Avraham mandou seu servo Eliezer procurar viajantes no caminho, mas ele não encontrou ninguém. Avraham não desistiu e mesmo com terríveis dores foi para a porta de casa, na esperança de enxergar viajantes no caminho. D'us entendeu que doía mais para Avraham não receber convidados do que as terríveis dores do Brit-Milá e por isso mandou para ele 3 anjos disfarçados de beduínos, para que Avraham pudesse cumprir a Mitzvá de Achnassat Orchim (receber convidados).

A Parashá descreve todo o esforço de Avraham para agradar os beduínos e recebê-los da melhor forma possível. Ofereceu-lhes comida, bebida e descanso na sombra. E tudo o que Avraham ofereceu aos beduínos, ofereceu com abundância. Serviu leite e manteiga, pães, bolos e carne à vontade. Mas há algo estranho, porque quando ele ofereceu água para que lavassem os pés, ofereceu pouco, como está escrito "Que seja trazido um pouco de água..." (Bereshit 18:4). Por que? Será que Avraham não queria gastar muito com os convidados pois era uma pessoa econômica?

Nossos sábios ensinam justamente o contrário, que Avraham não media gastos para receber bem seus convidados. Por exemplo, o Talmud conta que Avraham não preparou apenas um boi para servir aos visitante, e sim três bois. Mas por que três bois para apenas três pessoas? Rashi, comentarista da Torá, explica que Avraham quis servir para cada um dos viajantes um prato típico de reis: língua com mostarda, uma língua para cada beduíno. Portanto, se Avraham era uma pessoa tão generosa, por que ele ofereceu pouca água?

Explica o livro "Lekach Tov" que nem todas as coisas foi Avraham quem trouxe sozinho. O leite e a manteiga, os bolos e a carne foram trazidos por ele, mas a água Avraham preferiu pedir para seu filho Ishmael trazer, não por preguiça, e sim como uma forma de ensiná-lo a importância de fazer Chessed (bondade).

Podemos enxergar a grandeza de Avraham não apenas nos seus atos de Chessed, mas também na sua preocupação com os outros. O que Avraham fazia sozinho, ele recebia sobre si fazer o melhor possível e se esforçar ao máximo, e por isso trouxe com abundância. Mas o que ele pedia aos outros, era cuidadoso para não sobrecarregá-los. Por isso Avraham pediu para Ishmael apenas um pouco de água. Avraham era muito Tzadik, mas não queria que seus bons atos fossem construídos sobre o esforço dos outros. E isso devemos aprender para nossas vidas, se queremos fazer bons atos, que façamos com o nosso esforço e não sobrecarregando outras pessoas. Assim nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Todo aquele com quem as pessoas estão contentes, D'us também está contente com ele; e todo aquele com quem as pessoas não estão contentes, D'us também não está contente com ele" (Avót 3:10). Em outras palavras, de nada adianta fazer bons atos às custas de outras pessoas, pois se elas não estiverem contentes conosco, D'us também não estará.

Há um outro ensinamento importante que aprendemos dos atos de Avraham Avinu. Somos extremamente rigorosos com os outros, constantemente questionamos os atos das outras pessoas e esperamos que todos se comportem de maneira perfeita e exemplar. Mas ao contrário, quando se trata de nós mesmos, somos lenientes e estamos sempre buscando justificativas para os nossos atos. Avraham nos ensinou o contrário, a ser rigorosos conosco, buscando cada vez melhorar mais para chegar na perfeição, porém ao mesmo tempo ser lenientes com os outros, respeitando os limites de cada um. Desta forma não apenas as outras pessoas estarão contentes conosco, mas D'us também estará.

"Toda vez que apontamos o dedo para alguém, 3 dedos ficam apontados para nós mesmos"

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ LECH LECHÁ 5769

BS"D

INFLUENCIANDO O MUNDO - PARASHÁ LECH LECHÁ 5769 (07 de novembro de 2008)

Um rabino muito erudito, com uma grande fortuna e descendência nobre, foi contratado como orador em uma pequena comunidade. Apesar de suas aulas serem esplêndidas e suas palavras inspiradoras, inexplicavelmente não tiveram nenhum efeito sobre a comunidade, e todos os erros e vícios que ele tanto criticava continuavam florescendo. Quando os habitantes da cidade foram questionados do porquê as palavras daquele homem tão sábio não tinham nenhum efeito sobre eles, muitos disseram: "É muito fácil falar sobre honestidade e caridade, estudo da Torá e espiritualidade quando se é milionário. Este rabino não consegue nos entender, pessoas que trabalham duro durante todo o dia e de noite já estão cansadas para dedicar seu tempo livre à Torá e às Mitzvót.

Então os líderes da comunidade decidiram contratar um outro orador, também um rabino muito sábio, homem piedoso e devoto, mas que, diferentemente de seu antecessor, havia passado a vida inteira imerso em pobreza. Infelizmente, apesar dos esforços, ele também falhou na sua missão e não conseguiu inspirar os moradores a se tornarem pessoas melhores. Quando questionados, os habitantes da cidade explicaram que aquele homem também não falava a língua deles, pois era um homem santo, que havia passado a vida inteira longe das tentações do mundo
material, e por isso não entendia as dificuldades de quem lutava diariamente contra elas.

Finalmente os líderes da comunidade escolheram como orador da cidade uma pessoa que não era um rabino, e sim um trabalhador, mas que também tinha uma grande erudição na Torá. Ele havia sido muito rico, mas alguns infortúnios fizeram com que ele perdesse grande parte de seu dinheiro. Este homem representava uma combinação ideal entre o conhecimento erudito e a sabedoria na prática. Ele conseguia falar a linguagem das pessoas, e foi o único que conseguiu realmente tocar o coração de todos.
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Os atos e os méritos de Avraham Avinu, o primeiro dos nossos patriarcas, continuam iluminando os caminhos do povo judeu e nos inspirando até os dias de hoje. Avraham chegou a um elevado nível de conexão espiritual com o Criador, e todos os seus atos eram voltados somente ao bem da humanidade. A Parashá desta semana, Lech Lechá, traz vários testes aos quais Avraham foi submetido durante sua vida, que ajudaram-no a moldar seu caráter e sua fortaleza espiritual. Testes muito difíceis, tais como como abandonar sua terra e ir para um lugar completamente desconhecido, e expulsar seu filho Ishmael de casa. O nível que Avraham chegou foi tão elevado que o profeta Yechezkel escreveu: "Avraham foi um" (Ezekiel 33:24). Nos ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que quando a Torá utiliza a linguagem "haia" (foi) conectada a uma pessoa, é para indicar que esta pessoa foi Tzadik (Justa) e correta nos caminhos de D'us todos os dias da sua vida.

Mas há algo difícil de entender no ensinamento deste Midrash. O Talmud nos ensina que Avraham, como todos da sua geração, nasceu idólatra. Ele trabalhou duro na busca da verdade, observou, refletiu e somente chegou ao reconhecimento de que havia um único Criador com a idade de 48 anos. A partir deste momento Avraham começou a trazer muitas pessoas de volta ao serviço de D'us, e teve muito sucesso. Então, se dos 175 anos que viveu, Avraham passou mais de 48 anos envolvido com idolatria, como pode ser que o versículo de Yechezkel indica que Avraham foi uma pessoa justa e correta nos caminhos de D'us todos os dias da sua vida? E além disso, como pode ser que um ex-idólatra conseguiu trazer tantas pessoas de volta aos caminhos de D'us?

Explica o Maguid Mi Duvno que existe na Torá uma importante Mitzvá de repreender uma pessoa que não está nos caminhos corretos para que ela se arrependa e volte, como está escrito "Repreenda seu companheiro" (Vayikrá 19:17). A linguagem "seu companheiro" deixa claro que, para que a pessoa repreendida escute o que está sendo ensinado, é necessário que a linguagem seja compatível com ela. Se uma pessoa diz que é muito pobre e por isso não pode se dedicar às Mitzvót, devemos contar sobre Hilel, um dos maiores sábios do povo judeu, que viveu imerso em pobreza e mesmo assim gastou cada mísero centavo que recebia para se dedicar ao estudo da Torá. Já para uma pessoa que diz que seus negócios são tão prósperos que não sobra tempo para se dedicar às Mitzvót devemos contar sobre o Rabi Elazar ben Charsom, que herdou de seu pai mais de 1.000 propriedades e mais de 1.000 embarcações, e mesmo assim passava seu dia dedicado ao conhecimento das leis da Torá. Para cada tipo de dificuldade a resposta deve ser na linguagem de quem escuta.

Esta foi a grande força e o diferencial de Avraham Avinu para conseguir trazer tantas pessoas de volta ao caminho de D'us. Por ele mesmo ter sido idólatra e ter conseguido abandonar os caminhos errados, ele podia conversar com as pessoas de igual para igual, ele era um exemplo vivo de que era possível vencer as dificuldades, e por isso foi escutado por tanta gente. Apesar de Avraham realmente ter feito idolatria por muitos anos, tudo isso terminou sendo usado para D'us, para ajudar a trazer pessoas de volta e, portanto, se converteram em coisas positivas. D'us transformou as transgressões de Avraham em Mitzvót, fazendo com que ele fosse considerado Tzadik todos os dias da sua vida.

Esse importante conceito também se aplica nos nossos dias. Explicam os nossos sábios que no lugar que se encontra um Baal Teshuvá (pessoas que retornou aos caminhos corretos), mesmo um Tzadik Gamur (pessoa totalmente justa) não chega, isto é, os méritos espirituais daqueles que estavam no caminho errado mas decidiram se esforçar, vencer as dificuldades e voltar são muito maiores do que os méritos de alguém que já nasceu e foi educado nos caminhos corretos. Um dos motivos é porque aquele que volta em Teshuvá faz um grande Kidush Hashem (Santificação do nome de D'us) e torna-se um exemplo vivo para aqueles que desejam voltar mas têm medo das dificuldades. Se uma pessoa que nasceu em uma família religiosa tenta mostrar que é possível fazer Teshuvá, as pessoas refutam dizendo "E o que você sabe sobre vencer as dificuldades e tentações?". Mas a pessoa que fez Teshuvá facilmente torna-se um modelo positivo e que fala a mesma língua daqueles que estão afastados.

Existe um movimento cada vez maior de Teshuvá, isto é, milhares de pessoas em todo o mundo que estavam completamente afastados do judaísmo estão em um maravilhoso processo de retorno às suas raízes. E nos ensina a Parashá Lech Lechá que não apenas estão mudando seu futuro, mas estão também consertando todo o seu passado, limpando os erros cometidos e transformando-os em méritos, por servirem de exemplo para outras pessoas que querem voltar mas sentem dificuldade.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ NOACH 5769

BS"D

OS ANIMAIS TÊM DIREITOS, E NÓS? - PARASHÁ NOACH 5769 (31 de Outubro de 2008)

No dia 26 de janeiro de 2003, um ônibus israelense sofreu um atentado a bomba árabe. Mas desta vez o meio utilizado não foi um palestino suicída, e sim um burro. Com explosivos atados em seu corpo, o pobre animal foi direcionado ao ônibus israelense e a bomba foi detonada por controle remoto. Milagrosamente todas as pessoas sobreviveram, mas o burro não.

Depois de receber inúmeros protestos de seus membros chocados, a presidente da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals - Pessoas para o Tratamento Ético dos Animais), Ingrid Newkirk, escreveu uma carta para Yasser Arafat com os seguintes dizeres "Se você tiver oportunidade, você poderia transmitir aos seus subordinados meu apelo para que vocês deixem os animais fora deste conflito?"

No conflito Árabe-Israelense, certamente há tragédias muito maiores do que a morte de um burro. Centenas de homens, mulheres e crianças inocentes foram assassinados. Mas a PETA não fez nenhum protesto pela perda de tantas vidas humanas. Quando questionada pelo jornal "The Washington Post", Ingrid Newkirk justificou: "Não é meu negócio me intrometer em guerras humanas". É assustador o descaso pelas vítimas humana, principalmente vindo de alguém que ama tanto os animais...
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A Parashá desta semana, Noach, nos conta sobre o terrível dilúvio que devastou o mundo. Somente Noach (Noé), sua família e alguns animais foram salvos (7 pares de cada animal Kasher e 1 par de cada animal não-Kasher). O resto de toda a criação, inclusive as plantas, foi completamente apagado da face da Terra. A Torá explica que o dilúvio ocorreu pois o ser humano havia se corrompido e se desviado dos caminhos corretos, cometendo atos como roubo, assassinato e relações proibidas. Mas se foi o ser humano quem pecou, por que os animais e as plantas também sofreram com o dilúvio?

Quando D'us colocou Adam Harishon (Adão) no Gan Éden, ordenou que ele tomasse conta do jardim, como está escrito "E D'us pegou o homem e o colocou no Jardim do Éden, para trabalhá-lo e guardá-lo" (Gênesis 2:15). Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que D'us levou Adam Harishon por todo o Jardim do Éden, mostrou-lhe todas as árvores e disse: "Veja como são belas Minhas criações. Eu criei tudo isso para o seu benefício. Tome cuidado para não destruir nem arruinar Meu mundo". Mas por acaso Adam era jardineiro? D'us estava pedindo para que ele irrigasse as plantas? Obviamente que não, pois D'us mesmo irrigava o Jardim, como está escrito: "E saía um rio do Éden para regar o jardim..." (Gênesis 2:10). Então o que quer dizer que Adam tinha que cuidar do jardim para não destruí-lo?

Segundo o livro Messilat Yesharim (Caminho dos Justos), D'us criou todo o universo para servir o ser humano e ajudá-lo a cumprir seu objetivo. Porém, todo o mundo material também é para o ser humano um grande teste. Se o ser humano utiliza o mundo material como uma ferramenta para se conectar com a espiritualidade, ele se eleva e eleva o mundo inteiro junto com ele. Mas se o ser humano utiliza sua livre escolha para se conectar com o mundo material apenas em busca do preenchimento dos seus desejos e vontades, ele se corrompe e cai espiritualmente, e o mundo inteiro cai junto com ele. D'us estava advertindo Adam Harishon, explicando que se ele pecasse, o reflexo seria sentido em toda a criação.

Foi isso o que aconteceu nos dias de Noach, uma geração voltada apenas à busca de prazeres materiais. Por não colocar limites, eles começaram com prazeres permitidos e chegaram na inveja, no roubo e nos prazeres sexuais ilícitos. E os atos errados do ser humano influenciaram negativamente e corromperam todo o restante da criação, fazendo com que tudo fosse destruído no dilúvio.

Atualmente a ecologia e o direito dos animais estão na moda. É chique fazer manifestos pelas baleias na Antártida ou pelas focas na Oceania. Os animais "conquistaram" definitivamente seus direitos: cachorros frequentam psicólogos, andam com roupas da Daslu e muitos casais optam por ter cachorros ao invés de ter filhos. O que a Torá fala sobre isso?

Há uma proibição da Torá de causar qualquer sofrimento desnecessário aos animais ou destruir e desperdiçar qualquer coisa no mundo. D'us nos deu o mundo para desenvolvê-lo e embelezá-lo, não para destruí-lo. Mas nas leis de D'us, o "direito" de um animal não sofrer é igual ao "direito" de uma árvore ou de uma planta de não sofrerem de forma desnecessária ao serem cortadas. Não podemos tratar mal os animais, mas não pelo "direito" deles, e sim por nós mesmos. Por causa das semelhanças fisiológicas que temos com os animais, tratá-los com crueldade causa um efeito negativo subconscientes na nossa personalidade, diminuindo nossa sensibilidade. Uma pessoa que maltrata animais certamente chegará a maltratar seres humanos, o que é muito grave perante D'us.

Porém, se maltratar os animais é prejudicial ao ser humano, o outro lado também é muito perigoso. Preocupação e amor extremos com os animais e com a natureza podem nos fazer perder o referencial, nos levando a confundir o que é o principal e o que é secundário. Existem milhares de movimentos ecológicos, mas quantos movimentos ajudam crianças africanas subnutridas que morrem, em pleno século 21, de fome? Por que tantas pessoas sentem mais dó de um cachorro abandonado do que de uma criança abandonada? Por que vestimos camisetas "salvem as baleias" e não usamos camisetas "salvem as crianças" ? Um estudo com crianças de 12 anos mostrou que se elas vissem seu cachorro e um estranho se afogando, 35% salvariam sem nenhuma dúvida o cachorro, enquanto 35 % ficariam em dúvida do que seria o correto fazer.

Aqueles que colocam os animais no mesmo nível dos seres humanos correm o risco de tratar os seres humanos como animais e de ignorar o sofrimento humano. Um exemplo marcante foi a Alemanha ter criado a Sociedade Protetora dos Animais pouco anos antes do Holocausto. Provavelmente as mesmas pessoas que criaram a Sociedade também participaram, ou se calaram, na morte e tortura de 6 milhões de seres humanos.

Nada ocorre por acaso, e as grandes tragédias da natureza, como tornados, furacões e Tsunamis, que matam milhares de pessoas, animais e plantas, são cada vez mais frequentes. Todas estas catástrofes são resultado das nossas más ações. D'us criou um mundo maravilhoso, e é óbvio que devemos cuidar dele e ter atitudes ecologicamente corretas, como não jogar lixo na rua, reciclar produtos e não desperdiçar os recursos naturais. Mas aprendemos da geração de Noach que não há maior contribuição ecológica do que andar nos caminhos corretos.

"Nós condenamos totalmente infligir sofrimento sobre nossos irmãos animais, e a diminuição do prazer deles, a não ser que seja necessário para o benefício individual deles. Nós declaramos a nossa crença de que todas as criaturas com sentimentos têm direito à vida, à liberdade e à busca de felicidade" (Declaração assinada por 150 acadêmicos da Universidade de Cambridge, durante o Simpósiso dos Direitos dos Animais).

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm