sexta-feira, 20 de novembro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ TOLDOT 5770

BS"D
DIFICULDADE OU OPORTUNIDADE? - PARASHÁ TOLDOT 5770 (20 de novembro de 2009)
"Certa indústria de calçados decidiu ampliar seus negócios e desenvolveu um projeto de exportação de sapatos para a Índia. Antes de iniciar as exportações, mandou dois de seus consultores a pontos diferentes do país para que observassem o potencial daquele futuro mercado. Depois de alguns dias de pesquisa, um dos consultores enviou o seguinte fax para a direção da empresa:
"Chefe, cancele a produção, pois aqui ninguém usa sapatos".
Sem saber deste fax, o segundo consultor mandou à direção da empresa o seguinte comentário:
"Chefe, triplique a produção, pois aqui ninguém usa sapatos ainda".
A diferença do vitorioso é que ele foca na resolução do problema e não apenas no problema, e sabe que os desafios e dificuldades que aparecem na vida são, na verdade, potenciais de crescimento.
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A Parashá desta semana, Toldot, nos conta que Yitzchak e Rivka não conseguiam ter filhos, pois Rivka era estéril. Mas quando eles rezaram, um pedindo pelo outro, Rivka milagrosamente engravidou. Desta gravidez nasceram dois filhos, Yaacov e Essav. Yaacov desenvolveu o gosto pelo estudo e pela espiritualidade, se tornando um homem íntegro e correto. Já Essav desenvolveu o gosto pela caça e pelos desejos materiais, se tornando uma pessoa de atos completamente corrompidos.
Quando a Torá descreve a gravidez de Rivka, menciona que os bebês se mexiam muito, como está dito "E os filhos se agitaram dentro dela" (Bereshit 25:22). Mas para que a Torá precisa ressaltar que os bebês se movimentavam no ventre de Rivka, como se fosse algo especial, se isso é algo normal que acontece com todas as mulheres grávidas?
Explica Rashi, comentarista da Torá, que não era uma agitação normal. Todas as vezes que Rivka passava na frente da casa de estudos de Torá de Shem e Ever, filhos de Noach (Noé), Yaacov lutava para sair, e todas as vezes que ela passava em frente a um local de idolatria, Essav lutava para sair. Porém, estas palavras de Rashi, baseadas em um Midrash (parte da Torá Oral), precisam ser melhor entendidas. Elas aparentemente significam que Yaacov já tinha uma pré-disposição para o bem enquanto Essav já tinham uma pré-disposição para o mal, antes mesmo do nascimento. Mas isso seria uma contradição com um dos fundamentos básicos do judaísmo, de que todo ser humano é totalmente livre em suas escolhas. O próprio Talmud (Torá Oral) ressalta que a saúde, a força e a inteligência de uma pessoa já estão decretadas no momento de sua concepção, mas que a tendência dele ser um Tzadik (justo) ou um Rashá (malvado) está em suas mãos, isto é, depende de sua escolha.
A mesma contradição é encontrada nas leis escritas pelo famoso sábio Rambam (Maimônides), que em uma Halachá (lei) escreve que o ser humano já nasce com traços de personalidade pré-definidos, e em outra Halachá enfatiza que a natureza de uma pessoa não causa que ele seja justo ou mal, misericordioso ou cruel, sábio ou tolo, generoso ou avarento, ao contrário, a escolha está completamente em suas próprias mãos. Como o ser humano pode ser livre para escolher que caminho quer seguir se, no ventre de sua mãe, sua personalidade já está definida, como aparentemente ocorreu com Yaacov e Essav?
Explica o rabino Zev Leff que o ser humano é composto de várias características, e estas características são influenciadas por muitos fatores, inclusive o esforço e as decisões tomadas pela própria pessoa. Por isso, os traços naturais de uma pessoa não são inerentemente bons ou ruins, eles são neutros. Uma pessoa mais inclinada a se irritar com facilidade, por exemplo, não tem necessariamente um traço de caráter ruim, pois há situações onde a irritação pode ser utilizada de forma positiva, como no caso de uma pessoa que luta contra injustiças. Porém, a pessoa com esta inclinação precisa tomar cuidado para não se tornar um descontrolado. Por outro lado, uma pessoa mais inclinada a ser pacata também não é necessariamente um traço de caráter bom, pois há situações onde ser calmo é extremamente positivo, mas há situações onde se manter pacato é uma característica negativa, como por exemplo quando algo precisa ser feito com urgência.
Isso se aplica a todas as nossas características, pois todas as tendências e traços naturais podem ser direcionados para o lado positivo ou para o lado negativo. Portanto, embora muitas características sejam pré-determinadas mesmo antes do nosso nascimento, seu uso e controle estão totalmente nas nossas mãos. Nossa livre escolha está no fato de podermos utilizar estas características para o bem ou para o mal, e se quisermos podemos inclusive anular certas características.
Mas mesmo assim ainda fica difícil entender sobre a nossa livre escolha. Por mais que todas as nossas características sejam neutras, é óbvio que aquele que tem a característica de ficar facilmente nervoso tem mais chances de desenvolver uma má conduta, pois são mais freqüentes as situações onde a irritação é utilizada de maneira negativa do que situações onde ela é utilizada de maneira positiva. Ao contrário, alguém que é naturalmente tranqüilo tem mais chances de ter uma boa conduta, pois são mais freqüentes as situações onde a calma é algo positivo do que situações onde a calma é algo negativo. Portanto, aparentemente há certa injustiça, pois uma pessoa que nasceu com tendência de ser irritada tem uma desvantagem quando comparada com aquela que nasceu com a tendência de ser calma. Onde está a justiça de D'us?
Para responder esta pergunta, precisamos esclarecer três pontos. Primeiro, somos compostos de centenas de traços de caráter. Embora uma pessoa possa ter nascido com certa característica que é predominantemente negativa, certamente ela possui outras características que são predominantemente positivas. Em segundo lugar, D'us leva em consideração as características de cada pessoa quando Ele determina as situações e os testes que cada um necessita vencer. E em terceiro lugar, D'us, em Seu julgamento perfeito, utiliza diferentes pesos de acordo com as características de cada pessoa. Por exemplo, se uma pessoa naturalmente nervosa se descontrola, ela é julgada de uma maneira muito menos rigorosa do que se uma pessoa calma se descontrola. E ao contrário, se uma pessoa nervosa consegue se manter controlada, ela recebe uma recompensa muito maior do que aquela que é naturalmente calma.
Portanto, o que Rashi está nos ensinando não é que Yaacov e Essav já tinham suas personalidades definidas ainda no ventre. Eles já tinham certas características que os direcionavam, Yaacov para o lado espiritual e Essav para o lado material. Mas eles tinham a livre escolha de como utilizar estas características. Se Essav tivesse utilizado sua tendência da maneira correta, ele teria cumprido sua missão de elevar o mundo material até chegar na perfeição. Ao contrário, se Yaacov tivesse se desviado, ele teria distorcido e corrompido os valores e conceitos espirituais. A tendência de Essav para se conectar com o mundo material e para o uso da força poderia ter sido utilizada para destruir e erradicar do mundo a idolatria, mas ele preferiu utilizar seu potencial para servi-la e espalhá-la pelo mundo, se corrompendo.
Desta Parashá aprendemos algo muito importante: D'us nos dá exatamente as ferramentas que necessitamos para o nosso trabalho espiritual. Muitas vezes reclamamos de nossas características, nos comparamos com outras pessoas e gostaríamos de ser como elas. Isto é um grande erro, pois cada um tem o seu propósito no mundo, e somente ele pode preencher este propósito, justamente com as características que D'us nos deu. Algumas são mais fáceis de ser bem utilizadas, outras necessitam ser canalizadas, algumas precisam até mesmo ser anuladas. As dificuldades são justamente o que nos dá os maiores méritos. Com trabalho, com esforço, com a vontade de fazer o que é correto, podemos nos elevar e ajudar o mundo inteiro a chegar na perfeição.
"Se a vida te oferece um limão, aprenda a fazer com ele uma deliciosa limonada"
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ CHAIEI SARA 5770

BS"D


OS SINAIS SÃO CONFUSOS - PARASHÁ CHAIEI SARA 5770 (13 de novembro de 2009)


"Certa vez estavam um judeu e um chinês brigando. Eles estavam discutindo qual dos dois povos havia trazido mais avanços tecnológicos para humanidade. O chinês começou a contar vantagem:


- Sabe que em Pequim encontraram um sítio arqueológico com mais de 2000 anos. Ao escavarem, encontraram alguns fios enterrados.


- E o que isso significa? – perguntou o judeu.


- Que há mais de 2000 anos os chineses já tinham inventado o telégrafo com fio.


O judeu, para não ficar atrás, disse:


- Sabe que em Jerusalém também encontraram um sítio arqueológico com mais de 2000 anos. E ao escavarem, não encontraram nada.


- E o que isso significa? – perguntou o chinês, um pouco confuso.


- Que há mais de 2000 anos os judeus já haviam inventado o telégrafo sem fio"


Muitas vezes queremos enxergar "sinais" que justifiquem nossas opiniões e decisões, mesmo sabendo racionalmente que não são corretas. Nas piadas pode parecer engraçado, mas na nossa vida não.

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Na Parashá desta semana, Chaiei Sara, Avraham dá a Eliezer, seu serviçal de confiança, a importante missão de encontrar uma esposa para seu filho Yitzchak. Mas Avraham não queria para seu filho uma mulher de Knaan, pois os Knaanim eram pessoas sem valores morais e éticos. Por isso Avraham mandou Eliezer procurar uma esposa na terra de seus ancestrais, onde ainda havia pessoas de sua família e da família de Sara.


Eliezer viajou para cumprir sua missão. Chegou até um poço de água nos arredores da cidade e pediu a ajuda de D'us. Ele pediu para que a mulher escolhida pudesse ser identificada através de um sinal, um ato específico. Muitas mulheres vinham até o poço tirar água para levar para suas casas. Quando alguma mulher viesse, Eliezer pediria para ela um pouco de água para beber, e se ela aceitasse e oferecesse também água aos seus camelos, seria a mulher certa. Assim que Eliezer terminou de pedir para D'us, Rivka chegou ao poço trazendo uma jarra. Eliezer observou que aconteceu um milagre aberto diante dos seus olhos. Ao invés de Rivka ter que colocar a pesada jarra dentro da água, a água milagrosamente foi na direção da jarra e entrou sozinha. Eliezer continuou observando Rivka, aproximou-se dela e pediu-lhe um pouco de água. Rivka aceitou dar água para ele e ofereceu também aos seus camelos, cumprindo assim o sinal que Eliezer havia pedido para D'us. Eliezer então foi falar com a família de Rivka e finalmente levou-a para se casar com Yitzchak.


Desta narrativa da Torá ficam algumas dúvidas. Em primeiro lugar, Eliezer havia pedido a ajuda de D'us em sua difícil missão, e havia especificado um sinal. Mas por que Eliezer continuou investigando para saber se Rivka era a pessoa certa mesmo após ter visto o milagre aberto que aconteceu com ela? O sinal que ele havia pedido, comparado àquele milagre aberto, não significava mais nada. Em segundo lugar, é assim que se escolhe uma esposa? É assim que tomamos decisões de vida? E finalmente, ressaltam nossos sábios que "Eliezer pediu de maneira imprópria, mas D'us respondeu da maneira apropriada". Por que D'us respondeu o pedido de Eliezer, mandando imediatamente Rivka, se o pedido foi feito de maneira imprópria?


Eliezer era um servo muito dedicado e atencioso, e acima de tudo, muito íntegro. Ele havia jurado que não pegaria como esposa para Yitzchak uma mulher de Knaan. Isso foi fim do sonho de Eliezer, que queria casar Yitzchak com a sua filha. Por isso, Eliezer sabia que seu trabalho seria muito difícil, pois ele sabia que teria muitos interesses envolvidos, e mesmo que ele tentasse ser racional, as emoções atrapalhariam. Ele teve medo que suas emoções poderiam levá-lo a escolher uma mulher não tão boa, que terminaria se divorciando de Yitzchak, abrindo o caminho para o casamento dele com a sua filha. Mas Eliezer era uma pessoa muito correta, estava disposto a evitar se auto-enganar a todo o custo, então como poderia fazer para escolher sem que suas emoções atrapalhassem? Por isso ele pediu ajuda para D'us, pediu um sinal. Apesar de ter feito da maneira errada, pois decisões não devem ser baseadas em sinais Divinos, D'us o ajudou neste caso, pois a forma "imprópria" de pedir de Eliezer foi, na realidade, o máximo nível de honestidade e auto-sacrifício pela verdade que ele poderia chegar.


O medo de errar de Eliezer era tanto que, mesmo quando ele viu um milagre aberto, preferiu não acreditar nos seus olhos. Ele pensou que podia estar vendo o que queria enxergar, que estava apenas se enganando. Então como ele poderia saber se era a pessoa certa? Ele havia pedido para D'us um sinal, e este sinal incluía um teste das características pessoais da mulher, um teste do verdadeiro valor dela. Por que ele pediu no sinal que, ao pedir água para ele, a moça oferecesse também aos camelos? Pois isto mostraria, em primeiro lugar, que era uma moça de Chessed (bondade), que agia de maneira pró-ativa e não apenas quando era solicitada. Mostrava que era uma mulher que conseguia vencer a preguiça, pois os camelos eram numerosos, o que exigiria muito esforço para dar de beber a todos eles. Além disso o sinal de Eliezer testava a inteligência da mulher, pois quando Eliezer bebeu da jarra de Rivka, encostou sua boca direto na jarra. Rivka não sabia quem era aquele homem, se ele tinha alguma doença, e ao oferecer água aos camelos, ela estava também encontrando uma maneira de novamente ir até o poço para lavar bem a jarra sem ofender aquele homem estranho. Portanto, como Eliezer fez tudo o que era possível para ser objetivo na sua escolha e fugir dos interesses, D'us respondeu de maneira correta e imediatamente mandou Rivka ao seu encontro.


Das atitudes de Eliezer aprendemos a importância de tentar fugir dos nossos interesses. Assim temos que tomar decisões de vida. Temos que tentar, a todo custo, evitar as decisões emocionais, que nos levam a erros. Mesmo milagres e sinais não são a forma pela qual D'us quer que tomemos decisões de vida, pois mesmos sinais podem ser apenas ilusões e testes. Não precisamos adivinhar o que D'us quer de nós, Ele nos explicitou ao nos entregar a Torá, com todos os detalhes de qual o nosso trabalho aqui neste mundo. D'us nos deu um intelecto, a capacidade de raciocinar, investigar e pesar os dois lados de uma situação, justamente para tomarmos decisões de forma racional e não emocional. Quando decidimos as coisas de maneira emocional, nos desviamos da objetividade por causa de interesses momentâneos.


Portanto, quando nos esforçamos e tomamos as decisões racionalmente, estamos contribuindo para que nossa vida possa seguir na direção correta. Mas se deixamos nosso lado emocional tomar as decisões, podemos estar escolhendo viver uma vida que é, no final das contas, uma grande piada.


SHABAT SHALOM


Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIERÁ 5770

BS"D
UM BOM ATO MUDA TUDO - PARASHÁ VAIERÁ 5770 (06 de novembro de 2009)
"Quando o Sr. Schainberger foi morar em Israel, ele ainda era um jovem rapaz religioso que queria tentar construir sua vida na terra sagrada do povo judeu. Era um período conturbado, de muitas guerras com os inimigos árabes, e mesmo que ele já havia passado da idade de servir o exército, teve que servir por um tempo em uma unidade especial. Por alguns meses ele foi escalado como guarda noturno de uma cidade que fazia fronteira com os árabes. Revezava o trabalho de vigilância com outros jovens rapazes que também tinham ido morar em Israel.
Quando a festa de Pessach começou a se aproximar, todos os soldados começaram a se preocupar. Apenas o jovem Schainberger era religioso, mas todos queriam fazer o Seder de Pessach com suas famílias. Um dos turnos ia das 8 da noite até as 3 da manhã, e o próximo turno era das 3 da manhã em diante. Quem pegasse o primeiro turno ficaria sem o Seder de Pessach. Como ninguém se voluntariou para trabalhar naquele horário, os oficiais decidiram que iriam fazer um sorteio.
Durante vários dias o jovem Schainberger rezou muito para que ele não fosse sorteado naquele turno. Chegou o decisivo dia e, para o seu alívio, ele foi sorteado para o segundo turno. Ele ficou muito feliz, mas quando olhou o rosto do soldado que havia sido sorteado para o primeiro turno, viu que ele estava arrasado. O jovem Schainberger começou a refletir e chegou à conclusão de que mesmo se ele chegasse em casa às 3 da manhã, faria de qualquer maneira o Seder de Pessach de acordo com a lei judaica, mas aquele outro soldado, que não era religioso, certamente iria direto para a cama sem cumprir a Mitzvá. Então, sem pensar duas vezes, ofereceu trocar o turno com o outro soldado, que aceitou com grande alegria. O jovem Schainberger percebeu uma lágrima escorrendo nos olhos daquele jovem soldado.
Mais de 20 anos se passaram e o Sr. Schainberger já era um arquiteto que buscava divulgar seu nome pelo país. A situação não estava fácil, ele não tinha muitos clientes e precisava de um empurrão na sua carreira. Foi então que ele escutou que o governo de Israel estava pretendendo reformar a área em volta do Muro das Lamentações e havia lançado um concurso para escolher o arquiteto que faria o projeto. O Sr. Schainberger entendeu que aquele poderia ser o empurrão que ele tanto procurava e foi imediatamente se inscrever. Esforçou-se muito, conseguiu fazer um belo projeto e foi sendo aprovado durante todas as fases eliminatórias. No final, ficou apenas o Sr. Schainberger e outro arquiteto. Uma comissão faria o julgamento de qual seria a proposta vencedora.
Quando chegou o dia da decisão, o Sr. Schainberger estava muito nervoso. O futuro dele dependia do seu sucesso naquele dia. Cada membro da comissão expunha sua opinião e dava seu voto. A votação seguia empatada, até que chegou a vez do último jurado da comissão votar. Uma pesada tensão estava no ar. Olhando bem os dois trabalhos, ele decidiu dar a vitória ao Sr. Schainberger, que comemorou muito com seus amigos e familiares. Quando os ânimos se acalmaram, o último jurado chamou o Sr. Schainberger de lado e falou:
- Você se lembra que certa vez você trocou de lugar com um soldado, para dar-lhe a oportunidade de fazer o Seder de Pessach?
O Sr. Schainberger ficou branco. Quem poderia saber disso? Nem ele mesmo se lembrava direito daquela história, já havia passado tanto anos! Então o homem sorriu para ele e disse:
- Eu sou aquele soldado. Por muitos anos eu guardei uma dívida de gratidão por você. Hoje eu paguei a bondade que você me fez há tantos anos" (História Real)
Ensinam os nossos sábios que um dos pilares do mundo é o Chessed (bondade) que fazemos com o próximo. E não sabemos onde podem recair os méritos espirituais de cada ato de bondade que fazemos.
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No final da Parashá passada, D'us comandou para Avraham Avinu a Mitzvá de fazer um pacto com Ele, o Brit-Milá. Avraham escutou a ordem de D'us e fez em si mesmo o Brit-Milá com a idade de 99 anos. E a Parashá desta semana, Vaierá, começa justamente no terceiro dia depois do Brit-Milá, o dia em que a pessoa está mais debilitada e dolorida. Avraham, apesar das dores que estava sentindo, sentou-se na porta de sua casa para que nenhum viajante passasse sem ser notado. D'us, vendo o sofrimento de Avraham por não receber visitantes em casa, mandou 3 anjos disfarçados de beduínos. Imediatamente Avraham correu para acolhê-los e alimentá-los.
Se prestarmos atenção nos versículos iniciais da Parashá, percebemos uma pequena contradição. No momento em que os anjos chegam, assim diz o versículo: "E (Avraham) levantou seus olhos e viu, e eis que 3 pessoas estavam parados sobre ele" (Bereshit 18:2). Alguns versículos depois está escrito "... e colocou (a comida) diante deles, e ele (Avraham) estava parado sobre eles sob a árvore, e eles comeram" (Bereshit 18:8). Por que no começo está escrito que os anjos estavam sobre Avraham, mas no final está escrito que Avraham estava sobre os anjos?
Às vezes, ao elogiar uma pessoa, cometemos um erro sem perceber. Quando vemos alguém fazendo uma boa ação, dizemos "Ele é um anjo". Mas aprendemos da nossa Parashá que dizer que somos anjos é limitar o nosso potencial, pois podemos ser ainda mais elevados espiritualmente do que os anjos. Quando Avraham recebeu os anjos em sua tenda, a Torá descreve que eles estavam sobre Avraham, isto é, em um nível mais elevado do que ele. Mas depois que Avraham fez Chessed, se esforçando para receber convidados e cuidar deles, a Torá diz que Avraham estava sobre eles, isto é, chegou a um nível mais elevado do que os anjos. Mas como é possível um ser humano, uma criatura de carne e osso, se tornar mais elevada do que um anjo, uma criatura espiritual criada para cumprir a vontade do Criador?
Existe uma grande diferença entre os anjos e os seres humanos. Os anjos têm um elevado nível espiritual, mas eles não fazem o bem porque escolheram, eles não têm livre escolha. Eles já foram criados neste nível elevado, e não têm nenhum mérito por isso. Já o ser humano tem livre escolha, e precisa se esforçar para fazer o que é correto e bom, e com isso ele se eleva em um nível ainda maior do que os anjos. Para fazermos o bem é necessário vencer nossa má inclinação, e por isso cada bondade que fazemos equivale a um grande mérito.
Como Avraham conseguiu, com seu ato de "Achnassat Orchim" (receber convidados), se elevar mais do que os anjos? O Avraham não fez apenas Chessed, ele teve Achavat Chessed (amor pelo Chessed). Ele estava doente e, portanto, isento da Mitzvá. Mais do que isso, D'us fez o dia ficar mais quente para que nenhum viajante passasse e Avraham pudesse descansar. Ele poderia ter ficado deitado na cama, poderia pensar "Hoje estou passando mal, os outros que cuidem dos viajantes do deserto". Mas Avraham não pensou assim, ele não conseguia ficar deitado sabendo que alguém no deserto poderia estar precisando de um prato de comida, de um copo d'água ou de uma sombra para descansar. A dor do Brit-Milá era grande, mas a dor de não fazer Chessed era ainda maior.
Existem vários níveis de Chessed. Podemos dar alguns trocados diretamente na mão de um pobre. Podemos doar de forma que o pobre não saiba que fomos nós que doamos, para que ele não se envergonhe. Melhor ainda se nós também não soubermos para quem estamos doando, assim não cobramos nenhum agradecimento do pobre. Mas qual é o maior nível de Chessed que podemos fazer a outro ser humano? Uma dica está na continuação da Parashá. A Torá descreve o nascimento de Ytzchak, filho de Avraham. Aos dois anos ele foi desmamado, como está escrito "A criança cresceu e foi desmamada. Avraham fez uma grande festa no dia em que Ytzchak foi desmamado" (Bereshit 21:8). A palavra "desmamar", em Lashon Hakodesh (língua sagrada na qual a Torá foi escrita) é "Lehigamel", que tem a mesma raiz das palavras "Gamal" (camelo) e "Gmilut Chassadim" (fazer bondades). Explicam nossos sábios que palavras que contém a mesma raiz, mesmo que tenham significados completamente diferentes, estão de alguma maneira conectadas entre si. Qual a conexão entre desmamar, fazer bondades e o camelo?
Quando Adam Harishon deu o nome aos animais, ele incluiu no nome a essência de cada um deles. Qual a essência do camelo? Damos para ele uma grande quantidade de água antes de começar uma viagem para que ele aguente a viagem toda sem precisar tomar mais água. A mesma idéia encontramos quando se desmama uma criança, isto é, damos para ela leite materno o tempo suficiente para que ela possa se tornar uma criança forte e possa começar a se alimentar de outras coisas. Portanto a essência da raiz "Gamel" é ajudar ao outro de forma que ele não necessite mais de nossa ajuda. Daqui entendemos que a verdadeira bondade (Gmilut Chassadim) que podemos fazer a outro ser humano é dar para ele a oportunidade de conseguir seu sustento sozinho, de maneira honrosa, sem precisa voltar para pedir esmola novamente. Isto significa que o maior nível de Chessed que podemos fazer com alguém faminto não é dar-lhe um peixe, e sim dar-lhe uma vara, um anzol e ensiná-lo a pescar. Pois para o ser humano é algo muito humilhante ter que pedir esmola, e a melhor ajuda é dar uma oportunidade para que ele possa trabalhar e conquistar seu próprio sustento.
E da maneira que nos comportamos com os outros, D'us se comporta conosco, como ensinam os nossos sábios "Aquele que faz bondades recebe bondades". Portanto, se queremos que D'us escute as nossas rezas e nos ajude, antes de tudo precisamos escutar as pessoas necessitadas e ajudá-las.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ LECH LECHÁ 5770

BS"D
TIRANDO AS PEDRAS PRIMEIRO – PARASHÁ LECH LECHÁ 5770 (30 de outubro de 2009)
"Há muitos anos atrás, em um lugar distante, havia um reinado cujo rei era um homem muito sábio. O rei oferecia tudo o que era necessário para os súditos, mas mesmo assim eles estavam sempre reclamando. Uma das reclamações era para que o rei melhorasse as condições das estradas. O rei então decidiu colocou uma pedra enorme bem no meio da principal estrada do reino, e se escondeu para observar o comportamento das pessoas. Se o povo se mobilizasse para tirar a pedra, mostrando que eles realmente queriam estradas melhores, ele estava disposto a reformar todas as estradas. Mas se eles não fizessem nada, era um sinal de que queriam apenas reclamar das coisas. Sentou-se e ficou observando.
Alguns dos maiores comerciantes do reino e vários membros da corte passaram por ali, e ao invés de tentar retirar a pedra que estava no meio da estrada, simplesmente deram a volta nela. Muitos deles esbravejaram contra o rei que não mantinha as estradas limpas, mas nenhum deles tentou sequer mover a pedra grande para fora do caminho.
Então passou um simples camponês com uma carroça carregada de vegetais. Quando chegou à pedra, ele desceu e começou a tentar movê-la para fora da estrada. Depois de muita luta e suor, ele finalmente conseguiu. Notou então que no local onde estava anteriormente a grande pedra havia uma bolsa que continha muitas moedas de ouro e uma carta do rei, indicando que o ouro era para a pessoa que tivesse removido a pedra do caminho. O simples camponês não só havia começado o conserto da estrada, mas havia também garantido o seu futuro e o de sua família"
Assim ocorre em nossas vidas. Antes de consertar a estrada da nossa vida, precisamos retirar as pedras que bloqueiam nosso caminho. E ao invés de reclamar, devemos nos esforçar e fazer a nossa parte.
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A Parashá desta semana, Lech Lechá, descreve alguns dos dez testes de Avraham Avinu, entre eles o de sair da comodidade da sua casa e ir para uma terra estranha, como diz o versículo "D'us disse para Avram: Saia da sua terra, dos seus parentes e da casa do seu pai, e vá para a terra que Eu te mostrarei" (Bereshit 12:1). Deste episódio ficam algumas perguntas. Por que D'us não revelou para Avraham que o destino final era a terra de Israel? Além disso, Lót, o sobrinho de Avraham, o acompanhou neste teste. Se para Avraham o teste de abandonar tudo e ir para uma terra estranha foi difícil, muito mais para Lót, que era uma pessoa muito materialista. Portanto, os méritos de Lót são maiores do que os de Avraham. Porém, sabemos que no final Avraham se tornou um dos pilares espirituais do mundo, enquanto Lót terminou de forma medíocre, indo viver na cidade de Sdom, um lugar de pessoas perversas, apenas porque era um bom lugar para seu rebanho crescer e se desenvolver. Por que esta diferença tão grande, se os méritos de Lót neste teste foram ainda maiores do que os de Avraham?
Existem muitas pessoas que tentam melhorar e não conseguem. Eles se esforçam, mas no final acabam caindo novamente. Por que isso acontece? A resposta está em um dos Salmos do Rei David: "Se afaste do mal e faça o bem". Este versículo nos ensina que, antes mesmo de pensar em crescer, o primeiro passo é se afastar do mal. Muitos tentam crescer sem abandonar suas más inclinações, e por isso não conseguem crescer. É como alguém tentasse escrever sobre algo que já está escrito, fica impossível ler. Mas se começamos o nosso crescimento arrancando desde o princípio nossos maus hábitos e más características, é como se estivéssemos recomeçando a escrever em uma folha em branco.
Este conceito pode ser observado mesmo no mundo material. Quando um agricultor termina uma colheita e quer recomeçar o plantio, antes ele passa um arado em todo campo. A principal função do arado é arrancar as ervas daninhas, que atrapalham o crescimento da plantação, desde a raiz. Se somente arrancamos as ervas daninhas superficialmente, sem tirar sua raiz da terra, em poucos dias ela volta a brotar e a estragar a produção.
Nos ensina o Rav Yehuda Leib Chasman que esta foi a diferença entre Avraham e Lót. Antes de Avraham começar o seu caminho de crescimento espiritual, ele arrancou do coração todas as coisas negativas anteriores. Lót, ao contrário, nunca abandonou em seu coração suas más características, e por mais que ele tentou crescer e seguir os passos de Avraham, sempre foi um crescimento momentâneo, e no primeiro teste que apareceu ele caiu novamente
Todo o momento em que a pessoa não conseguiu arrancar de si suas más inclinações, ela não consegue enxergar o seu potencial espiritual e até onde consegue crescer. Não temos idéia do quanto podemos nos elevar, ficamos presos em nossas próprias limitações e nos acomodamos. D'us não falou para Avraham que ele estava indo para a terra de Israel pois ele não entenderia. Primeiro ele precisou sair da sua casa, isto é, das más influências anteriores, para conseguir enxergar qual era o seu verdadeiro potencial.
Para construir um novo edifício, é necessário derrubar o edifício anterior. As fundações do novo edifício precisam estar apoiadas em um solo que já foi limpo de todas as sujeiras anteriores. Assim é um dos fundamentos do nosso crescimento espiritual, se queremos um dia construir uma grande edificação espiritual, o primeiro trabalho é começar a "limpar o terreno"
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) do meu querido e saudoso avô, Ben Tzion (Benjamin) ben Shie Z"L, que lutou toda sua vida para manter acesa a luz do judaísmo, principalmente na comunidade judaica de Santos. Que possa ter um merecido descanso eterno.
Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) de: Avraham ben Ytzchak, Joyce bat Ivonne, Feiga bat Guedalia, Chana bat Dov, Kalo (Korin) bat Sinyoru (Eugeni), Leica bat Rivka, Guershon Yossef ben Pinchas; Dovid ben Eliezer, Reizel bat Beile Zelde, Yossef ben Levi, Eliezer ben Mendel, Menachem Mendel ben Myriam, Ytzhak ben Avraham, Mordechai ben Schmuel, Feigue bat Ida, Sara bat Rachel, Perla bat Chana, Moshé (Maurício) ben Leon, Reizel bat Chaya Sarah Breindl; Hylel ben Shmuel; David ben Bentzion Dov, Yacov ben Dvora; Moussa ben Eliahou Cohen, Naum ben Tube (Tereza); Naum ben Usher Zelig; Laia bat Morkdka Nuchym; Rachel bat Lulu; Yaacov ben Zequie; Moshe Chaim ben Linda; Mordechai ben Avraham; Chaim ben Rachel; Beila bat Yacov; Itzchak ben Abe; Eliezer ben Arieh; Yaacov ben Sara, Mazal bat Dvóra, Pinchas Ben Chaia.
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Para inscrever ou retirar nomes da lista, para indicar nomes de pessoas doentes ou Leilui Nishmat (elevação da alma), e para comentar, dar sugestões, fazer críticas ou perguntas sobre o E-mail de Shabat,favor mandar um E-mail para ravefraimbirbojm@gmail.com
(Observação: para Refua Shlema deve ser enviado o nome da mãe, mas para Leilui Nishmat deve ser enviado o nome do pai).


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ NOACH 5770

BS"D
MILAGRES – PARASHÁ NOACH 5770 (23 de outubro de 2009)
"Havia um alpinista que sempre buscava superar seus limites e vencer novos desafios. Depois de muitos anos de preparação, ele decidiu que havia chegado o momento de escalar o monte mais alto do mundo. Como não encontrou pessoas dispostas a encarar tamanho perigo, ele resolveu escalar sozinho, apesar de isso aumentar ainda mais a dificuldade da escalada.
Ele começou a subida, e estava tão obstinado que não sentiu o tempo passar. Foi ficando cada vez mais escuro, mas ele decidiu não parar para acampar. Queria seguir escalando, pois estava decidido a atingir o topo o mais rápido possível.
Como o céu estava completamente encoberto, quando escureceu de vez, a noite caiu como um breu nas alturas da montanha, e não era possível enxergar nem mais um centímetro diante dos olhos, não se via absolutamente nada. Tudo era uma grande escuridão. Mas o alpinista decidiu que continuaria mesmo assim. Quando chegou a um trecho que era uma verdadeira "parede", sua mão escorregou e ele caiu. Caía a uma velocidade vertiginosa, e somente sentia a terrível sensação de ser sugado pela força da gravidade. Ele continuava caindo e, nesses angustiantes momentos, passaram por sua mente todos os momentos que ele já havia vivido em sua vida.
De repente, ele sentiu um puxão forte, que quase o partiu pela metade. Como todo alpinista experimentado, ele havia cravado estacas de segurança com grampos a uma corda comprida, e a corda estava fixa em sua cintura. Nesses momentos de silêncio, com seu corpo ferido suspenso pela corda, em uma completa escuridão, não restou para ele nada além de gritar para D'us e pedir Sua ajuda. De repente uma voz vinda do céu falou:
- Você realmente acredita que Eu posso te salvar?
- Eu tenho certeza, D'us – respondeu o alpinista.
- Então corte a corda que te mantém pendurado.
Houve um momento de silêncio e reflexão. O homem se agarrou mais ainda à corda e refletiu que, se a largasse, morreria. A queda seria fatal, não havia chance de sobreviver. Ele acreditava em D'us, mas não podia largar aquela corda.
Dois dias depois uma equipe de resgate encontrou um alpinista morto, congelado, agarrado com as duas mãos a uma corda, a dois metros do chão!!!"
Vivemos em um mundo onde parece que estamos sujeitos às forças da natureza, que elas têm o controle. Mesmos cientistas conceituados preferem acreditar em acasos, em probabilidades ínfimas. Este bloqueio são como cordas, que nos deixam amarrados, a poucos metros da verdade. Cortem as suas cordas.
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Nesta semana lemos a Parashá Noach, que conta sobre o quanto os homens haviam se corrompido e se desviado dos caminhos corretos, e o consequente dilúvio que apagou a humanidade da face da Terra. Noach (Noé) e sua família foram escolhidos por D'us para recriar a humanidade, justamente pelo fato de Noach, apesar de toda a influência negativa de sua geração, ter se mantido uma pessoa íntegra, como diz o versículo "Noach andava com D'us" (Bereshit 6:9). Explica o Rav Yechezkel Levinshtein que "andar com D'us" significa que Noach era uma pessoa que tinha uma grande Emuná (fé). Como ele expressava isso na prática?
Quando D'us decidiu destruir a humanidade, Ele se revelou para Noach e deu-lhe a tarefa de construir uma gigantesca Arca sobre uma montanha. Ele avisou para Noach que traria ao mundo um grande dilúvio, que destruiria os seres humanos e todos os animais. A Torá descreve as dimensões da arca: "300 amót de comprimento (aproximadamente 150 metros), 50 amót de largura (aproximadamente 25 metros) e 30 amót de altura (aproximadamente 15 metros)" (Bereshit 6:15). A arca tinha 3 níveis, sendo que o superior seria para Noach e sua família, o do meio para os animais e aves e o inferior para o lixo. Porém, se levarmos em consideração que de cada animal foram levados para a Arca um par, e dos animais puros foram levados 7 pares, é impossível que todos tenham cabido dentro desta Arca. E fora os animais, também foi necessário levar comida para todos eles, para um período de um ano. Quando Noach fez as contas, concluiu que mesmo que a Arca fosse dez vezes maior também não comportaria todos os animais e a comida. Apesar disso, por muitos anos Noach trabalhou na construção da Arca sem nunca questionar D'us. As pessoas em sua volta o ridicularizavam, chamando-o de louco, mas ele não desistiu, pois ele manteve sua Emuná. E no final, D'us realmente fez um grande milagre e tudo coube na Arca. Mas fica uma pergunta: se D'us já teria que fazer um milagre, por que a Arca tinha que ser tão grande? Por que Ele não pediu para que Noach construísse apenas um pequeno bote?
D'us justamente criou o mundo material para poder se ocultar, nos dando a oportunidade de exercer o nosso livre-arbítrio e assim meritar por cada escolha correta que fazemos. Por isso, mesmo quando D'us precisa fazer um milagre aberto, Ele tenta fazer de maneira que fique sempre uma brecha para os que não querem enxergar. Se D'us pedisse para Noach fazer uma Arca pequena, o milagre seria aberto demais. Já com uma Arca grande, apesar de tecnicamente ser impossível que todos os animais entrassem nela, mesmo assim ficou a brecha para os que querem errar e se desviar.
Mas afinal, qual é o objetivo de D'us ao fazer milagres abertos? A resposta é que os milagres abertos, nos quais a mão de D'us fica mais evidente, como os que ocorreram no dilúvio ou na saída do Egito , nos despertam para a realidade de que tudo é um grande milagre, e mesmo o que parece ser apenas forças da natureza é, em última instância, o cumprimento da vontade de D'us. Na realidade, a palavra "Milagre", em Lashon Hakodesh (língua com a qual D'us criou o mundo e escreveu a Torá) é "Ness", que vem da mesma raiz da palavra "Nissaion", que significa "Teste", pois no fundo todo milagre que acontece é um teste se vamos conseguir enxergar a mão de D'us.
Este teste está presente em nossas vidas todos os dias. Durante os 40 anos em que o povo judeu passou no deserto, o alimento literalmente caiu do céu. O "Man" (Maná) caía diariamente e alimentava todo o povo, e ninguém tinha dúvidas de que era um grande milagre de D'us. Mas quando nós comemos um pão que veio da terra, enxergamos o milagre de D'us ou pensamos que é apenas natureza? A verdade é que não existe nenhuma diferença no tamanho do milagre entre cair Man do céu e comer um pão que foi tirado da terra, mas como comer o pão é algo comum, algo que já estamos acostumados, perdemos a percepção do grande milagre que ocorre. Provavelmente se caísse Man até hoje em dia, também não enxergaríamos mais o quanto é milagroso.
Ensina o livro "Chovót Halevavót" que é fácil perceber a mão Divina ao refletir sobre a Sua Criação. Uma pequena semente é uma grande prova de D'us. Uma semente de laranja atirada no solo produz uma gigantesca árvore com centenas de laranjas, e cada laranja com dezenas de novas sementes. É algo natural que esta pequena semente, pequena e frágil, possa ter força para produzir tanto? Somente há lugar para equívocos quando não paramos para refletir.
Um dos principais trabalhos que o ser humano tem neste mundo é refletir e enxergar que tudo é um milagre, não existe natureza. A natureza é apenas um instrumento de D'us para nos testar. Por um lado temos que nos esforçar neste mundo, temos a obrigação de fazer a nossa parte para diminuir os milagres, mas precisamos pensar e refletir até que tenhamos conseguido colocar no coração que tudo, sem nenhuma exceção, vem de D'us, e é apenas Nele que nós devemos confiar.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ BERESHIT 5770

BS"D

VIVER PELOS OUTROS – PARASHÁ BERESHIT 5770 (16 de outubro de 2009)
"Havia um médico chamado Dr. Williams que dedicou sua vida a ajudar pessoas necessitadas. Ele tinha um pequeno consultório em cima de uma mercearia, na área pobre de uma grande cidade. Na frente da mercearia havia uma pequena placa onde se lia "O Dr. Williams está lá em cima".
Por muitos anos o Dr. Williams trabalhou em várias causas humanitárias. Trabalhava todos os dias até altas horas, nunca havia deixado de atender um paciente que necessitava de ajuda. Muitas vezes recebia chamados de madrugada e nunca havia se recusado a atender uma pessoa doente. A maioria de seus pacientes não tinha condições de pagar a consulta, e ele nunca cobrou daqueles que não podiam pagar.
O Dr. Williams viveu sua vida inteira de maneira muito simples. Quando ele morreu, não havia deixado guardado nem mesmo o dinheiro para o seu enterro. Seus familiares e pacientes se esforçaram para conseguir o dinheiro para que ele fosse enterrado de maneira digna. Porém, o dinheiro conseguido não era suficiente para comprar uma lápide. Todos ficaram tristes com a idéia de que o túmulo do querido Dr. Williams, que havia ajudado tantas pessoas, ficaria sem nenhuma identificação. Até que um dos seus pacientes teve uma brilhante idéia. Saiu apressado e voltou depois de alguns minutos com algo na mão. Ele havia tirado a placa que estava fixada na frente da mercearia, e colocou-a sobre o túmulo. Agora todos os que passavam no cemitério olhavam aquele túmulo sobre o qual se liam as palavras "O DR. WILLIAMS ESTÁ LÁ EM CIMA" "
Nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Todo aquele com quem as pessoas estão contentes, D'us também está contente com ele". Quando fazemos o bem ao próximo, D'us faz questão de nos mostrar o quanto Ele está contente conosco.
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Nesta semana recomeçamos o ciclo anual da leitura da Torá com o primeiro livro, Bereshit, que trata desde a Criação do mundo até a ida de Yaacov com seus filhos para o Egito. E a Parashá desta semana, Bereshit, descreve a Criação dos primeiros seres humanos, Adam (Adão) e Chavá (Eva). Eles tiveram dois filhos, um chamado Caim, que se dedicou ao trabalho da terra, e outro chamado Abel, que se dedicou ao pastoreio de animais. Caim decidiu fazer uma oferenda para D'us, e ofereceu frutas do campo. Abel gostou da idéia e também fez uma oferenda para D'us, oferecendo animais. A oferenda de Abel, que escolheu para D'us seus melhores animais, foi aceita, mas Caim errou ao separar para si as melhores frutas e oferecer para D'us o que sobrou, e por isso sua oferenda não foi aceita. E então a Torá nos descreve o primeiro assassinato da história, quando Caim, completamente dominado pela inveja que sentia por seu irmão, matou-o.
Entendemos por que Caim decidiu matar Abel, e daqui enxergamos o quanto a inveja pode literalmente destruir vidas. Porém, fica uma grande pergunta: segundo o judaísmo, nada acontece sem Supervisão Divina, cada pequeno evento neste mundo somente ocorre se D'us permite. Então se Abel morreu, não foi por causa da inveja de Caim, e sim porque nos Mundos Celestiais já havia para ele um decreto de morte. Qual o motivo deste decreto?
Para entender, precisamos olhar com mais atenção o que ocorreu após D'us ter aceitado a oferenda de Abel e ter recusado a oferenda de Caim. Assim diz a Torá: "Falou Caim com seu irmão Abel. E eis que, quando estavam no campo, Caim se levantou contra seu irmão Abel e o matou" (Bereshit 4:8). Mas afinal, o que Caim e Abel conversaram momentos antes do assassinato?
Explicam nossos sábios que Caim encontrou seu irmão Abel no campo. Caim estava desconsolado e deprimido, pois sua oferenda não havia sido aceita por D'us. Então ele desabafou com Abel e disse: "Você viu, meu irmão, nossa oferenda não foi aceita por D'us". Mas ao invés de consolar seu irmão, ajudando-o a consertar o erro cometido, Abel simplesmente respondeu para ele: "Caim, a SUA oferenda não foi aceita, a minha foi. O problema é seu, não meu". E justamente por ter tirado de si a responsabilidade de ajudar ao próximo é que Abel recebeu um decreto de morte celestial. Mas o que Abel fez de tão grave? Ele realmente falou a verdade, sua oferenda havia sido aceita. O problema era de Caim, que não fez uma boa oferenda!
O mundo foi criado apenas pela vontade de D'us de fazer conosco bondade, como está escrito "Olam Chessed Ibane" (Vou Criar um mundo de bondade). E justamente um dos pilares que sustenta o mundo é o Chessed (bondade), como diz o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "o mundo é sustentado por três coisas: pela Torá, pelo Serviço a D'us e pelos atos de Chessed". Se falta o pilar de Chessed, o mundo não pode se sustentar. Com Caim e Abel, D'us estava formando a humanidade, e era incompatível que esta característica de Abel, de não se importar com o sofrimento dos outros, de dizer ao próximo "problema seu", fosse passada adiante. Por isso Abel recebeu imediatamente um decreto de morte celestial.
Existem outros episódios na Torá que ressaltam o quanto D'us se importa com o Chessed que fazemos com os outros e o quanto Ele se incomoda quando deixamos de nos importar com o próximo. Todas as nações do mundo podem se converter ao judaísmo, mesmo as que fizeram o povo judeu sofrer, como os egípcios. Porém, a Torá traz duas exceções: os povos de Amon e Moav. Por que? Pois quando o povo judeu saiu do Egito, sem ter o que comer nem o que beber, eles se recusaram a nos dar pão e água. Povos que têm esta característica tão egoísta não podem fazer parte do povo judeu, um povo que tem a obrigação de ser uma Luz para as nações, ensinando para o mundo inteiro os valores morais contidos na Torá.
Muitas vezes consideramos que somos boas pessoas pois damos 1 real de esmola a um mendigo e fazemos pequenos favores aos nossos amigos mais próximos. Mas será que é só isso que podemos ajudar aos outros? Esse é o nosso potencial? Uma pessoa que poderia dar 100 reais mas dá apenas 1 real está fazendo um ato de bondade ou está sendo egoísta? Todos gostam de fazer bons atos, é parte do ser humano, mas muitas vezes pensamos "Eu quero fazer o bem, mas tem limites. Não às custas do meu sono, do meu tempo livre ou do meu dinheiro. Se está ao meu alcance eu faço, se tiver que me esforçar muito já não é mais minha obrigação". Mas afinal, o que D'us quer realmente de nós? Qual é o nosso verdadeiro potencial?
O profeta Michá responde nossa pergunta: "O que D'us exige de vocês é que façam justiça e tenham Ahavat Chessed" (Michá 6:8).Chessed é fazer bondades, Ahavat Chessed significa ter amor pelas bondades. Qual a diferença entre Chessed e Ahavat Chessed? Chessed é visitar um amigo que necessita de ajuda às 2 da tarde. Ahavat Chessed é visitar um amigo que necessita de ajuda às 2 da manhã. Quando amamos algo, não colocamos limites aos nossos esforços. É isso o que D'us exige de nós. E Ele exige muito pois nos deu um potencial gigantesco de ajudar e de se importar com os outros.
A proximidade que teremos com D'us durante toda a eternidade dependerá de quanto nos conectarmos com Ele durante nossa vida neste mundo. Quanto mais uma pessoa se comporta como D'us, mais ele se conecta com o Criador. Da mesma forma que durante todo o tempo D'us só faz bondades conosco sem receber nada em troca, assim também nós precisamos nos comportar com as outras pessoas, para nos assemelhar e nos conectar com Ele por toda a eternidade.
"Pois isto é o homem: Não para si mesmo foi criado, e sim para ajudar ao próximo, com toda a força que tiver" (Rav Chaim Vologiner).
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - SHMINI ATSERET E SIMCHÁ TORÁ 5770

BS"D
TESOUROS ESCONDIDOS – SHMINI ATSÉRET E SIMCHÁ TORÁ 5770 (09 de outubro de 2009)
"Em uma pequena cidade morava um simpático velhinho que vivia uma vida simples. Certo dia, ao cavar seu jardim para plantar uma árvore, ele encontrou um tesouro enterrado. Eram muitas jóias de valor inestimável. Mas apesar da grande alegria de ter encontrado algo tão valioso, ele teve medo que sua fortuna iria atrair muitos interesseiros, e por isso ele preferiu continuar vivendo modestamente. Para que ninguém desconfiasse, ele decidiu esconder as jóias dentro das paredes da sua casa.
Após algum tempo o velhinho ficou muito doente e morreu de repente, sem tempo de contar para seu único descendente, um parente muito distante, o seu grande segredo. O rapaz, que era muito pobre, ficou contente ao saber que havia herdado a casa do velhinho, e imediatamente mudou-se para lá, sem imaginar os grandes tesouros que aquelas paredes ocultavam.
Certo dia o rapaz perdeu um pequeno objeto. Ao procurá-lo, percebeu que havia uma pequena abertura em uma das paredes da casa. Ao se aproximar mais ele viu que havia lá dentro um brilho estranho. Abriu um pouco mais a abertura na parede e encontrou um colar de diamantes. Ele dançou e pulou de alegria com a sua descoberta. E conforme ele ia abrindo a parede, surgiam as mais maravilhosas jóias que ele já havia visto. Quando terminava uma parede, o rapaz começava a procurar em outra parede, até que todo o tesouro foi encontrado e o rapaz se se tornou um grande milionário"
Explica o Maguid Mi Duvna que assim também é a nossa Torá, D'us ocultou dentro dela vários tesouros do conhecimento humano. Quanto mais a pessoa se esforça para conhecer a Torá, mais vai revelando seus maravilhosos conhecimentos e maior é a alegria que ela vai sentindo.
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Nesta semana o Shabat coincide com a festa de Shmini Atseret, e no Domingo comemoramos a festa de Simchá Torá, quando terminamos o ciclo anual de leitura da Torá com a Parashá Vezot Habrachá e dançamos alegremente segurando o Sefer Torá. Apesar da festa de Shmini Atseret vir imediatamente depois de Sucót, a Torá diz explicitamente que são duas festas distintas. Porém, nossos sábios explicam que estas duas festas estão muito conectadas.
Sucót é a festa que fecha dois ciclos. O primeiro ciclo é o dos Shalosh Regalim (três festas nas quais todos os judeus saiam de suas casas e iam para o Beit Hamikdash, o Templo Sagrado), que começa com Pessach, segue com Shavuot e termina com Sucót. Sucót também fecha o ciclo das festas do começo do novo ano, que começa com Rosh Hashaná, segue com Yom Kipur e termina com Sucót. Shmini Atseret é, portanto, o clímax do ano, e representa o momento em que o amor de D'us pelo povo judeu chega ao seu limite máximo.
Porém, se a festa de Shmini Atseret é como se fosse uma continuação de Sucót, por que não temos mais a Mitzvá de habitar na Sucá?
Em Sucót nós trabalhamos nossa conexão espiritual com D'us, abandonando nossas casas e habitando por sete dias na Sucá. Saímos do nosso mundo para viver no mundo Dele por uma semana. O nome Shmini Atseret significa, literalmente, "O oitavo (dia), dia da parada". Depois de toda esta inspiração e proximidade que construímos em Sucót, D'us nos pede para pararmos e ficarmos com Ele mais um dia, para manter por mais um dia nossa proximidade com Ele. Segundo o judaísmo, o número 7 representa a natureza e as leis do mundo material, enquanto o número 8 representa o sobrenatural, o espiritual. Os 7 dias de Sucót representam a vida neste mundo, e portanto nós precisamos da proteção da Sucá e do lembrete de que este mundo é como a Sucá, algo apenas passageiro e provisório. Porém Shmini Atseret, o oitavo dia, representa a nossa vida no Mundo Vindouro, e portanto não precisa da proteção nem do lembrete da Sucá.
Rashi, famoso comentarista da Torá, explica que o versículo que descreve a festa de Shmini Atseret tem dois significados. Literalmente está escrito "No oitavo dia haverá uma congregação sagrada para vocês... é uma reunião, e você não deve realizar nenhum trabalho construtivo" (Vayikrá 23:36). Porém, a palavra "Atseret", que significa "reunião", também significa "parar". Explica Rashi que é como se D'us estivesse pedindo "parem diante de Mim mais um dia, pois é difícil a partida de vocês". Mas normalmente quando duas pessoas se despedem, o normal é que elas digam "é difícil nossa partida". Por que Rashi explica que é como se D'us dissesse "pois é difícil a partida de vocês"?
Desde Elul começamos a sentir uma proximidade maior com D'us. É um mês de muito trabalho espiritual, e que nos esforçamos para melhorar um pouco mais em cada Mitzvá que praticamos. Então chega Rosh Hashaná e entramos no quintal do Rei. Yom Kipur é o momento em que despertamos a misericórdia de D'us e nos aproximamos mais um pouco Dele ao pedirmos perdão por todos os nossos erros, e Ele nos perdoa. Finalmente vem Sucót, quando saímos das nossas casas e moramos por uma semana na casa Dele. Chega então Shmini Atseret, o momento da despedida, e recebemos um pedido especial de D'us para passarmos mais um dia juntos. D'us, na despedida, nos deixa claro que somos nós que estamos indo embora, pois Ele permanece perto de nós. Somos nós que nos afastamos. Voltamos para nossa vida cotidiana e muitas vezes nos esquecemos Dele. É por isso que está escrito "É difícil a partida de vocês", pois nós partimos, mas não Ele. Então como fazer para não nos afastarmos, para não irmos embora, para guardarmos esta proximidade para todo o ano?
É isso que ensinam os nossos sábios ao comemorar a festa de Simchá Torá junto com Shmini Atseret (fora de Israel, onde temos dois dias de Yom Tov, as festas são separadas, mas em Israel, onde há apenas um dia de Yom Tov, as duas festas são comemoradas no mesmo dia). A Torá é o tesouro que D'us nos entregou, o nosso manual de instruções que nos ensina como viver a vida da melhor maneira possível e como tirar o máximo proveito dela, tanto para este mundo quanto para o Mundo Vindouro. São ensinamentos de sabedoria preciosos, que iluminam nossos caminhos e nos possibilitam crescer em espiritualidade mesmo vivendo em um mundo material. Em Simchá Torá nós dançamos carregando em nossas mãos o Sefer Torá. Nenhum outro povo dança com seus livros como nós fazemos em Simchá Torá. Alguém já viu um professor de matemática dançando com seu livro de Álgebra? Ou um professore de Ciências dançando com seu livro de Biologia? A Torá não é apenas um livro de histórias, é a nossa vida, é o que alonga nossos dias neste mundo e nos ajuda a conquistar a vida eterna. É o que nos mantém conectados com D'us durante todo o ano. Por isso dançamos com tanta alegria, pois reconhecemos o maravilhoso tesouro que recebemos. Mas será que encontramos tempo para estudar e conhecer a Torá cada vez com mais profundidade? Será que nos esforçamos para não nos afastar Dele durante todo o ano?
Encontramos em nossas vidas tempo para tudo o que consideramos importante. Nosso dia tem 24 horas, o suficiente para tudo o que precisamos fazer. Encontramos tempo para o nosso trabalho, para aquele curso importantíssimo, para a ginástica, para assistir ao programa de televisão favorito ou o jogo de futebol do nosso time do coração. Mas para a Torá muitas vezes não sobra tempo. Isso talvez indique que não consideramos a Torá como algo importante, não é algo que faz falta na nossa vida. É porque esquecemos que dela depende nossa eternidade. É porque não entendemos que dela depende a nossa felicidade neste mundo. Se todos nós fixássemos tempos diários de estudo de Torá, mesmo que fosse meia hora por dia, assistindo a uma aula ou lendo um livro, nossas vidas seriam completamente diferentes.
No mesmo dia em que terminamos o ciclo de leitura da Torá já o recomeçamos, em uma demonstração de que sabemos que, apesar de lermos as mesmas Parashiot de novo, não será o mesmo livro. Cada ano em que estudamos as Parashiot novamente, entendemos a Torá de uma maneira mais profunda. Em cada ciclo, mais e mais tesouros vão sendo encontrados dentro da Torá. Tesouros que sempre estiveram lá, mas que nós nem sonhávamos que eles existiam. Tesouros que nos ajudam a nos manter conectados com D'us durante todo o ano, diminuindo cada vez mais a distância entre nós e Ele.
SHABAT SHALOM e CHAG SAMEACH
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - SUCÓT 5770

BS"D

CURTINDO A VIDA – SUCÓT 5770 (02 de outubro de 2009)
"Havia um homem paralítico que ficava muito triste por não poder sair de casa. Ele então conheceu um outro homem que, apesar de ser muito forte e saudável, também quase não saía de casa por ser surdo. O homem paralítico então teve uma grande idéia, que seria vantajoso para os dois: eles poderiam sair de casa juntos, de forma que um poderia cobrir a deficiência do outro, e assim ambos aproveitariam melhor os prazeres da vida. O homem surdo carregaria o paralítico em suas costas, enquanto o paralítico serviria como guia do surdo, alertando-o sobre qualquer perigo iminente. E assim eles fizeram.
Certo dia eles estavam passando por um salão de onde saía uma música muito agradável. Os dois resolveram entrar e perceberam que era uma festa, e viram que as pessoas se divertiam muito dançando ao som da música que a banda tocava. O paralítico, que gostava muito de música, quis ficar um pouco mais aproveitando aquele momento, apesar de não poder dançar. Mas como convencer seu amigo de também ficar um pouco mais? Afinal, ele não escutava a música e não estava contente de estar ali parado, sem fazer nada.
Foi então que o paralítico teve uma idéia brilhante. Pediu para que o surdo fosse até a mesa onde estavam sendo servidas as bebidas alcoólicas e ofereceu para ele uma bebida forte. Quando o surdo esvaziou o copo, o paralítico ofereceu outro, e depois outro, até que viu que o surdo estava levemente tonto. O surdo, em sua embriaguez, começar a dançar e a curtir o momento. E mais ainda curtiu o paralítico, que podia escutar a música e dançar nas costas do seu amigo surdo, que ficava cada vez mais solto e mais animado por causa do efeito da bebida. Desta maneira tanto o surdo ficou contente quanto o paralítico, pois os dois estavam, daquela maneira, aproveitando o momento"
Explica o Maguid Mi Duvno que esta história nos ajuda a entender a interação entre o corpo e a alma. A alma é como se fosse um paralítico, pois sozinha não pode fazer nada, precisa do corpo para se locomover e agir. Já o corpo se assemelha ao surdo, pois não consegue sozinho saber o que fazer, precisa ser guiado e auxiliado pela alma. A alma sabe que a única forma de conseguir ter prazer neste mundo é com a cooperação do corpo. Por isso é necessário de vez em quando agradar o corpo com boa comida e bebida, para que juntos possam ter o máximo de prazer.
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Nesta semana o Shabat coincide com a festa de Sucót. Cada uma das festas tem uma característica que se sobressai. Por exemplo, Shavuot é chamada "Zman Matan Torateinu" (época da entrega da nossa Torá) pois em Shavuót recebemos a Torá. Pessach é chamada de "Zman Cheruteinu" (época da nossa liberdade) pois em Pessach fomos libertados da nossa escravidão. E finalmente Sucót é conhecida como "Zman Simchateinu" (época da nossa alegria). Há uma Mitzvá especial em Sucót de se alegrar durante os 7 dias de festa, conforme nos ensina o versículo "Por sete dias você deve festejar para Hashem, teu D'us... e você deve estar feliz" (Devarim 16:14,15).
Explicam os nossos sábios que a alegria de Sucót vem basicamente de dois componentes. De um lado há o prazer espiritual da nossa proximidade com D'us, que sentimos através do cumprimento das Mitzvót associadas à festa de Sucót, que são os Arba Minim (quatro espécies, Etrog, Lulav, Adáss e Aravá) e de viver por uma semana dentro da Sucá, uma construção temporária, onde podemos voltar a sentir de verdade que nossa única proteção vem de D'us, e não dos alarmes, das trancas e das paredes de tijolo. Porém, por outro lado os nossos sábios nos ensinam a buscar a alegria de Sucót através dos prazeres do mundo material, aproveitando os dias de Sucót com festas, danças, boa comida e bebida. Entendemos que a alegria de Sucót deve vir de prazeres espirituais, através do cumprimento de Mitzvót que preenchem a nossa alma. Mas não parece contraditório a alegria de uma festa religiosa vir através de meros prazeres do mundo material?
Infelizmente muitas pessoas que estão afastadas do judaísmo têm receio de conhecer suas raízes pelo medo de que, caso se tornem mais observantes das Mitzvót, deixarão de curtir os prazeres da vida. De onde vem este medo? Do fato de muitas religiões ensinarem que a única forma de atingir a elevação espiritual é através da anulação do corpo material. A meta é evitar qualquer tipo de prazer, e mais do que isso, muitas religiões pregam o sofrimento auto-induzido ao corpo, utilizando cintas com espinhos que furam a pele ou chicotes. O corpo deve ser desprezado e os prazeres evitados a qualquer custo.
Mas isto é um erro muito grande, e a principal prova disso é que D'us criou um mundo repleto de prazeres ao nosso alcance. Por onde olhamos encontramos uma infinidade de frutas e comidas deliciosas. Todos os dias D'us nos presenteia com um espetacular nascer e pôr do sol. As flores embelezam o ambiente e seu cheiro delicia nosso olfato. Se o propósito fosse evitar a qualquer custo todos os prazeres, por que D'us teria criado um mundo assim tão maravilhoso? O Talmud nos ensina que se deixarmos de experimentar uma fruta que temos a oportunidade de saborear, seremos cobrados pelo fato de termos perdido a oportunidade de sentir aquele prazer. Pois o judaísmo ensina que um corpo faminto não consegue chegar ao prazer verdadeiro. Somente quando o corpo for abastecido com os prazeres do mundo físico é que a alma pode se alegrar com a alegria verdadeira da proximidade de D'us.
Porém, também não podemos chegar ao extremo do excesso de prazeres, como se tornar um glutão ou um bêbado, pois se colocarmos todas as energias apenas em conseguir alcançar os prazeres do corpo, terminaremos nos afastando de D'us, como diz o versículo "E Yeshurun engordou e deu um coice" (Devarim 32:15). Yeshurun é o povo judeu, e toda vez que nos voltamos apenas à busca dos prazeres materiais, acabamos nos afastando e esquecendo de D'us, como se estivéssemos dando um coice justamente em quem nos alimentou. Fora isso, o Talmud nos garante que aquele que se alegrar de verdade em Sucót, sua alegria permanecerá inalterada durante os 7 dias da festa. Se a Torá estivesse se referindo apenas aos prazeres físicos, isso não se cumpriria. Imagine se o prazer fosse apenas sentar-se em uma mesa farta, com as melhores comidas e bebidas. No primeiro dia sairíamos da mesa completamente satisfeitos e felizes. No segundo dia já não aproveitaríamos tanto, pois nosso apetite não seria tão grande. No último dia de Sucót o banquete já não seria um prazer, seria um sofrimento, pois após 7 dias de banquetes ininterruptos, nem as melhores iguarias poderiam nos satisfazer.
Portanto, o ideal, segundo o judaísmo, é o equilíbrio e a moderação. Se utilizarmos os prazeres materiais da forma correta, sem abusos nem excessos, estaremos não apenas aproveitando o mundo material, mas também nos encaminhando para atingir os prazeres do mundo espiritual. Não apenas no primeiro dia, mas nos 7 dias de festa. Podemos comer e beber, mas deve ser em honra da festa de Sucót, isto é, utilizando o material canalizado para atingir o prazer espiritual.
Quando um foguete é lançado para alcançar a lua, são necessários vários estágios. A ignição é dada pelo quinto estágio, que faz o foguete partir. Quando o quarto estágio entra em funcionamento, o foguete atinge a velocidade de 150 km/s. O terceiro estágio finalmente vence a força de atração da Terra e coloca o foguete em órbita. O segundo estágio direciona o foguete para o destino específico, e finalmente o primeiro estágio, quando acionado, faz o foguete e seus astronautas chegarem à lua. Assim são os prazeres materiais e espirituais. A meta é chegar na conexão com o Criador do mundo, mas isso somente é possível passando pelos prazeres do mundo material, que nos colocam "em órbita".
Se bloquearmos completamente nossos prazeres materiais fazendo votos de abstinência, nosso foguete nem mesmo parte de seu ponto inicial. Se, ao contrário, vivermos apenas pelo prazer material, não chegaremos ao prazer espiritual e, no final das contas, não teremos aproveitado nada. Mas quando utilizarmos os prazeres do mundo material como um impulso para chegar mais alto, conseguiremos aproveitar o prazer material e alcançar o prazer verdadeiro, que é o prazer espiritual de se conectar com o Criador do universo.
SHABAT SHALOM e CHAG SAMEACH