quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

ILUMINE O MUNDO COM SEU ROSTO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT VAIECHI 5786

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ASSUNTOS DA PARASHAT VAIECHI
  • Doença e os últimos dias de Yaacov.
  • Brachá para Efraim e Menashé.
  • Brachá (e bronca) aos filhos.
  • Último pedido de Yaacov.
  • Falecimento e luto por Yaacov.
  • Yossef pede permissão para enterrar Yaacov em Israel.
  • O enterro de Yaacov.
  • Yossef tranquiliza seus irmãos.
  • A morte de Yossef.
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ILUMINE O MUNDO COM SEU ROSTO - PARASHAT VAIECHI 5786 (02/jan/26)

"Um homem rico encontrou Shlomo Hamelech na época em que ele havia sido destituído de seu reinado e perambulava à procura de sustento, como um mendigo, pelas ruas de Jerusalém. O homem rico prostrou-se diante do rei e disse: "Meu senhor, o rei, se assim você desejar, gostaria de cuidar de suas necessidades hoje". Após Shlomo Hamelech concordar, imediatamente o homem rico levou-o para sua casa, abateu um boi gordo e trouxe diante dele muitos pratos saborosos. Então sentou-se à mesa com Shlomo Hamelech e começou a lembrar-lhe de sua antiga realeza, dizendo: "Você se recorda quando fez isto e aquilo, quando você ainda era um grande rei?".
 
Shlomo Hamelech começou a sentir-se incomodado. Ao ficar recordando seus dias de realeza, aquele homem fez o rei gemer de tristeza, e assim permaneceu durante toda a refeição, até que ele se levantou dali chorando.
 
No dia seguinte, Shlomo Hamelech encontrou um homem pobre, que começou a prostrar-se diante do rei e disse:
"Meu senhor, o rei, você gostaria que eu cuidasse de suas necessidades hoje?". Shlomo Hamelech, já um pouco desconfiado, perguntou: "Você pretende fazer comigo o mesmo que seu companheiro fez?". Mas o homem respondeu com humildade: "Meu senhor, sou um homem pobre, tenho apenas alguns legumes em minha casa. É somente isso o que posso humildemente servir ao rei. Se for do seu agrado, venha comigo à minha casa".
 
Shlomo Hamelech acompanhou o homem pobre até a casa dele. Quando chegaram, o homem pobre lavou o rosto, as mãos e os pés do rei, e colocou diante dele só um pouco de legumes. Em seguida, começou a consolá-lo:
 
- Meu senhor, D'us jurou ao seu pai que não faria cessar a realeza de sua descendência. Assim é o caminho de D'us, Ele repreende, mas volta a apaziguar, como está dito: "Pois aquele a quem o Eterno ama, Ele repreende, como um pai faz ao filho a quem ele quer bem" (Mishlei 3:12). Não se preocupe, D'us ainda devolverá a você o seu reinado.
 
Quando ouviu isso, Shlomo Hamelech sentiu-se saciado. Após algum tempo, quando ele finalmente retornou ao seu reinado, refletiu com sua enorme sabedoria e disse:
 
- Melhor foi a refeição simples de legumes que comi na casa do pobre do que o boi engordado na casa do rico, que não me alimentou verdadeiramente, mas apenas reforçou a minha dor."
 
Palavras de incentivo e consolo, e demonstrações de preocupação com a dor do próximo, podem alimentar uma pessoa mais do que as melhores iguarias. Mais do que alimentar o corpo, necessitamos alimentar a alma.

Nesta semana lemos a Parashat Vaiechi (literalmente "E viveu"), que encerra o primeiro livro da Torá, Bereshit. A Parashat descreve os últimos anos da vida de Yaacov no Egito. Antes de falecer, ele falou suas últimas palavras para cada um dos filhos. Nas palavras de Yaacov haviam muitas profecias e palavras de sabedoria profunda.
 
Por exemplo, para Yehudá ele disse: "Seus olhos são avermelhados pelo vinho e seus dentes brancos do leite" (Bereshit 49:12). A explicação mais simples é que as terras de Yehudá seriam muito férteis e, por isso, seus olhos seriam avermelhados pela abundância de vinho e seus dentes seriam brancos pela fartura de leite. Mas o Talmud (Ketubot 111b), em nome do Rabi Yochanan, ensina que das palavras "dentes brancos do leite" podemos também aprender que "maior é aquele que branqueia os dentes ao seu próximo do que aquele que lhe dá de beber leite". A expressão "branquear os dentes" significa dar um sorriso, mostrar os dentes brancos, que ficam escondidos atrás dos lábios e só aparecem quando sorrimos. A grande novidade deste ensinamento é que um rosto amigável, uma expressão iluminada e um sorriso sustentam mais um pobre faminto do que um copo de leite.
 
Este conceito também é reforçado através de outro incrível ensinamento: "Receba toda pessoa com uma expressão facial agradável" (Avot 1:15). Em relação a este ensinamento nossos sábios (Avot DeRabi Natan 13:4) afirmam que, se alguém der ao próximo todos os bons presentes do mundo, mas o fizer com o rosto fechado, de cara feia, é como se não tivesse dado nada. Porém, quem recebe o outro com uma expressão facial agradável, com um sorriso, mesmo que não lhe dê nada, a Torá considera como se tivesse dado todos os presentes do mundo.
 
Esta preocupação com o bem estar do próximo, de querer iluminar um pouco a vida dos outros, é um traço muito forte encontrado em Moshé Rabeinu. Uma das últimas Mitzvót que Moshé fez em sua vida foi construir as três "Arei Miklat" (Cidades de refúgio) que ficavam do lado de fora de Eretz Israel. De acordo com o Talmud (Makot 10a), D'us disse a ele: "Você fez o sol brilhar para os assassinos". Mas o que Moshé fez de tão especial para merecer tal elogio? E o que D'us quis transmitir com este Seu elogio a Moshé?
 
As seis "Arei Miklat" ordenadas pela Torá, sendo três dentro da Terra de Israel e três do lado de fora, foram construídas para servirem de refúgio e exílio para pessoas que haviam cometido assassinatos não intencionais. Explica o Rav Shlomo Wolbe zt"l (Alemanha, 1914 - Israel, 2005) que era necessário preparar para os que eram exilados tudo o que lhes desse vitalidade, ao ponto de que, quando um aluno era exilado, seu mestre era exilado junto com ele. Foi isso o que Moshé fez, se preocupou com o desespero dos assassinos não intencionais, deu a eles alguma luz e esperança. Além disso, Moshé se esforçou para cumprir a Mitzvá das Cidades de Refúgio no final de sua vida. O maior líder da história do povo judeu não tinha nada mais importante para fazer? Para ele não havia Mitzvá mais importante para se ocupar do que fazer o sol brilhar para os aflitos e desamparados. E assim foi toda a "vida pública" de Moshé durante os 40 anos em que ele foi o líder, sempre sentindo a dor do próximo. Ela começou com "E viu o sofrimento deles" (Shemot 2:11), isto é, Moshé sentiu a dor da escravidão dos seus irmãos, apesar de estar confortável no palácio do Faraó, e terminou com "Fez brilhar o sol". Um dos fundamentos nas relações entre o homem e seu semelhante é sentir a dor e as necessidades do próximo.
 
Quando o Rabi Yochanan disse "maior é aquele que mostra os dentes brancos ao seu próximo do que aquele que lhe dá de beber leite", ele havia aprendido isso do comportamento de D'us. Está escrito: "Faz brilhar o Teu rosto e seremos salvos" (Tehilim 80:8). Disse o Rabi Yochanan: Basta-nos dizer: 'Faz brilhar o Teu rosto' e seremos salvos. Assim como, por parte do Céu, não há nada maior do que a "iluminação do semblante", também, de uma pessoa para outra, não há nada maior do que um sorriso e um rosto iluminado. E é isso que ensinam nossos sábios: "Rabi Matia ben Charash diz: Adiante-se em cumprimentar toda pessoa" (Pirkei Avot 4:15). Responder a um cumprimento é apenas cumprir uma norma básica de conduta. Já antecipar-se ao cumprimento é fazer o sol brilhar para o outro. É isso o que D'us espera de nós: que sejamos o sol que brilha para todos à nossa volta.
 
Até um bebê já consegue distinguir entre um olhar ríspido e um olhar iluminado. Quando alguém olha para ele com carinho e sorri, ele sorri de volta, mas quando alguém olha com severidade, mesmo que não diga nada, imediatamente o bebê chora. Talvez o que fortalece e desenvolve a criança, mais do que o alimento que ela recebe, é a iluminação do semblante que lhe é dirigida. Uma criança que cresce sem iluminação de semblante é como uma planta que cresce sem sol, isto é, não crescerá de forma saudável. Em um bebê pequeno já é perceptível essa força da iluminação do semblante. Quando surge o primeiro sorriso em seu rosto, ele se eleva acima de todas as criaturas. Conforme crescemos e nos fortalecemos, mais podemos iluminar o ambiente à nossa volta e trazer aos outros a alegria de viver. Tudo isso com apenas um sorriso.
 
Todo ser humano tem necessidade de receber iluminação do semblante do outro. E, ao mesmo tempo, todos nós temos a força de doar a iluminação do nosso semblante. Se refletirmos um pouco sobre as relações humanas, veremos como, às vezes, pessoas vivem lado a lado sem encontrar um caminho ou uma linguagem comum, vivendo em amargura e conflito por falta de compreensão mútua. A raiz disso é que quase sempre cada um espera que o outro dê o primeiro passo, e por isso ambos acabam esperando indefinidamente. Por exemplo, um rabino espera que sua comunidade o envolva em suas decisões, peça seu conselho e se submeta à sua orientação, enquanto a comunidade espera que o rabino tome a iniciativa e se envolva em sua vida e seus problemas. E, assim, podem passar anos sem que se aproximem, enquanto entre eles se aprofunda um abismo. Cada lado imagina que o outro tem motivos ocultos para manter distância, quando, na verdade, falta apenas a consciência de cada um de pensar: "cabe a mim dar o primeiro passo, iluminar o meu semblante e fazer o meu sol brilhar".
 
Trabalhar neste traço de caráter não é algo simples. O Rav Avraham Grodzinski zt"l (Polônia, 1883 - Lituânia, 1944) durante dois anos trabalhou intensamente para adquirir a qualidade de "expressão facial agradável". Todos que conviveram com ele em diferentes períodos testemunham até que ponto essa virtude se tornou uma aquisição profunda de sua alma. Mesmo nos dias mais sombrios do período das perseguições nazistas, jamais se apagou o brilho alegre de seu rosto, embora sua dor estivesse cuidadosamente guardada em seu coração. Assim era o caminho dos grandes da Torá: dedicar anos de esforço para adquirir a virtude da iluminação do semblante.
 
O princípio de "receber toda pessoa com uma expressão facial agradável" aplica-se mesmo quando não gostamos da pessoa, quando seus atos não são aceitáveis aos nossos olhos ou até mesmo quando já perdemos a paciência com ela. Ainda assim, deves recebê-la com uma expressão facial agradável e palavras afáveis, para que ao menos ela sinta que é estimada, evitando assim ferir a pessoa. Sorria, e receba de volta um mundo com muita mais luz.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

 

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

GOVERNANDO SOBRE SI MESMO - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHAT VAIGASH 5786

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ASSUNTOS DA PARASHAT VAIGASH
  • Yehudá enfrenta o "vice-rei".
  • Yossef manda todos saírem da sala.
  • Yossef se revela.
  • Irmãos de Yossef voltam para casa, para buscar famílias.
  • Yossef manda presentes a Yaacov.
  • A família de Yaacov prepara-se para ir ao Egito.
  • Genealogia dos filhos de Yaacov.
  • O reencontro de Yaacov e Yossef.
  • O encontro de Yaacov e o Faraó.
  • A fome no Egito fica cada vez mais dura.
  • Yossef compra todo o Egito.
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GOVERNANDO SOBRE SI MESMO - PARASHAT VAIGASH 5786 (26/dez/25)

"Dois capitães, Yaacov e Moshé, zarparam ao mesmo tempo, do mesmo porto. Ambos tinham o mesmo destino. Ambos enfrentavam o mesmo mar. Yaacov comandava um grande navio, com muitos marinheiros a bordo, cordas grossas, velas imponentes e bandeiras tremulando. Sua voz forte ecoava no convés e todos o obedeciam. Ele parecia ser muito poderoso. Já Moshé conduzia um barco pequeno, com poucos tripulantes, nada impressionante aos olhos de quem observava da costa. Parecia alguém sem nenhum poder ou controle.
 
Durante as primeiras horas, quando o mar estava calmo, o grande navio avançava com imponência, enquanto o pequeno barco passava quase despercebido. Mas, de repente, o vento mudou, as ondas se levantaram, o céu escureceu e o mar agora desafiava os capitães. No grande navio, Yaacov começou a perder o controle. Ele gritava ordens contraditórias, de modo que um marinheiro puxava o barco para um lado, enquanto outro puxava para o outro. Cada rajada de vento o fazia mudar de decisão. O navio era grande, mas já não tinha direção.
 
No pequeno barco, Moshé permanecia em silêncio. Ele segurava o leme com firmeza, não discutia com o vento nem lutava contra o mar. Com humildade, apenas ajustava, centímetro por centímetro, o rumo. O barco subia, descia, rangia, mas seguia firme adiante. Quem observava de longe poderia pensar: "Que poder tem esse homem? Não há mastros, não há gritos, não há multidão obedecendo". Mas quando a tempestade passou, algo ficou claro: o grande navio se afastou do destino, enquanto o pequeno barco chegou exatamente onde precisava chegar."
 
Há pessoas que governam outras. Elas impressionam, comandam, falam alto. Mas quando o vento da pressão sopra, a onda da raiva se levanta e a tempestade da tentação aparece, eles perdem o rumo. E há pessoas que talvez ninguém as aplauda nem as chame de líder, mas elas seguram o leme. O vento não decide por elas, a emoção não as arrasta, o ambiente não as controla. Esses são os verdadeiros governantes. Não porque mandam, mas porque não são mandadas pelos seus impulsos. O verdadeiro capitão não é aquele que comanda uma grande quantidade de marinheiros, mas aquele que, em plena tempestade, sabe exatamente para onde está indo.

Nesta semana lemos a Parashat Vaigash (literalmente "E se aproximou"), que descreve o emocionante reencontro de Yossef com seu pai, após 22 anos de separação. Entretanto, antes do final feliz, a Parashat traz momentos de tensão. Yossef estava determinado a continuar seu "papel" de vice-rei cruel, para testar se seus irmãos estavam realmente arrependidos por tê-lo vendido e se haviam superado o sentimento de inveja. No final da Parashat passada, Miketz, Yossef acusou falsamente Biniamin, que era naquele momento o filho mais querido de Yaacov, de ter roubado seu cálice de prata, e ameaçou mantê-lo como escravo.
 
A Parashat desta semana começa justamente com Yehudá confrontando Yossef de forma corajosa, conforme está escrito: "E Yehudá aproximou-se dele" (Bereshit 44:18). Depois de falar palavras duras a Yossef, ele se ofereceu para ficar como escravo no lugar de Biniamin, demonstrando que haviam superado a inveja. Yossef, ao ver o comportamento dos irmãos, não aguentou mais e se revelou para eles.
 
Sobre este confronto, há um questionamento interessante. Por que os outros irmãos não entraram na discussão? Shimon e Levi, por exemplo, mataram sozinhos a cidade inteira de Shechem, após sua irmã Dina ter sido sequestrada e desonrada. Então, por que não fizeram nada naquele momento?
 
O Midrash responde citando as palavras de David HaMelech: "Pois eis que os reis se reuniram; eles passaram juntos. Eles viram, e ficaram maravilhados; tremeram, sim, ficaram confusos. Um tremor os atingiu ali" (Tehilim 48:5-7). "Pois eis que os reis se reuniram" se refere a Yehudá e Yossef; "eles passaram juntos" significa que um se encheu de ira contra o outro. "Um tremor os atingiu ali" se refere às Tribos, isto é, os irmãos de Yossef, que quando viram a discussão de Yossef e Yehudá, disseram: "Quando reis estão discutindo entre si, o que nós temos a ver com isso? É apropriado que um rei discuta com outro rei".
 
Mas as palavras do Midrash despertam um grande questionamento. Por que os irmãos ficaram tão impressionados com o fato de Yehudá e Yossef serem reis? Em primeiro lugar, Yehudá não era rei, pelo contrário, seus irmãos o haviam rebaixado de sua posição de liderança após a venda de Yossef, como está escrito: "E aconteceu, no mesmo tempo em que Yehudá desceu de entre seus irmãos" (Bereshit 38:1). Rashi (França 1040 - 1105) explica que a linguagem "Yehudá desceu" nos ensina que seus irmãos o rebaixaram quando viram a angústia de seu pai e disseram: "Você nos disse para vender Yossef. Se tivesse dito para devolvê-lo, nós teríamos obedecido". Também em relação a Yossef, é surpreendente que seus irmãos atribuíssem tamanha importância a ele, que ele era apenas o vice-rei do Egito, não o chefe supremo. Então por que os irmãos foram tomados por tamanho temor?
 
Explica o Rav Yossef Yehuda Leib Bloch zt"l (Lituânia, 1860 - 1929) que, para responder esta pergunta, antes devemos fazer uma importante reflexão: o que é realeza? Estamos acostumados a chamar de rei aquele que governa um país e que tem uma grande população sob seu controle. Ele governa com o auxílio de oficiais, bem como soldados e policiais, que mantêm a ordem e o protegem. Dessa forma, ele impõe o seu temor sobre as pessoas e, assim, consegue conduzir a nação. A verdade é que um rei desse tipo não é rei por sua própria personalidade ou grandeza, mas apenas por causa daqueles que o servem. Sobre um rei assim se diz: "não há rei sem povo", pois se o país se rebelar contra ele, sua realeza termina. Já que são seus súditos que lhe conferem a realeza, então ele acaba se tornando, na prática, servo deles.
 
Há um interessante sinal que se cumprirá na época que antecede a vinda do Mashiach: "A face da geração será como a face de um cachorro". Mas o que significa ter a face de um cachorro? O Rav Israel Salanter zt"l (Lituânia, 1810 - Prússia, 1883) explica que quando vemos uma carroça em movimento e um cachorro correndo à sua frente, não é possível saber quem lidera e quem é liderado. O observador pode pensar que o cachorro é o líder, pois ele corre à frente da carroça. Contudo, quando chegam a uma encruzilhada, o cachorro para e vira o rosto para trás, para ver para onde a carroça irá. Assim se entende que não é o cachorro quem lidera, e sim aquele que está sentado na carroça, pois é ele quem decide o caminho, e o cachorro apenas o segue. Assim será nos tempos que precedem a vinda do Mashiach: a face da geração, isto é, os líderes da nação, não conduzirão sua geração segundo sua própria opinião e entendimento, mas estarão constantemente voltados para ver para onde se inclina a opinião pública. De fato, assim são as coisas em nossos dias, e este é um dos sinais mais característicos do regime democrático, considerado por muitos como símbolo de progresso e cultura.
 
Enquanto o homem vive uma vida apenas material, é realmente difícil para ele libertar-se de considerar a opinião pública. Por natureza, ele é conduzido por ela. Somente quando uma pessoa se eleva acima da sociedade e age com firmeza, sem se deixar levar pela opinião alheia, então ela pode se tornar um verdadeiro rei. Quanto menor for a influência das massas sobre ele, tanto maior e mais elevada será a sua realeza. Para chegar a esse estado, a pessoa deve, antes de tudo, ser rei sobre si mesma, isto é, quando governar adequadamente as centenas de forças e emoções que possui, utilizando seu intelecto refinado. E quando não conduzir seus atos e ações de acordo com seus desejos e paixões, então se tornará um rei ao qual o povo se submeterá em obediência.
 
Assim entendemos as palavras do Talmud (Guitin 62b), que afirma que os sábios de Torá são chamados de reis, conforme diz o versículo: "Por Mim reinam os reis" (Mishlei 8:15), pois eles são os valentes que dominam seu instinto, os verdadeiros reis. Yossef e Yehudá eram reis sobre si mesmos. Por isso eles mereceram a realeza. E assim diz o Midrash: "Por que Yehudá mereceu a realeza? Pois confessou o episódio de Tamar". Ou seja, a coragem e a força de caráter que ele teve para admitir, sem vergonha, o ocorrido com Tamar, no momento em que poderia ter ocultado sua participação no fato, é bravura de realeza. Ele mereceu que de sua descendência saíssem reis, e que o Mashiach ben David viesse de sua linhagem.
 
Também em relação a Yossef, quando os servos do Faraó perguntaram como poderia ser colocada uma coroa de realeza sobre um escravo recém-saído da prisão, o Faraó respondeu: "Vejo nele traços de realeza". Nossos sábios explicam quais eram esses traços de realeza: a boca de Yossef, que não beijou para o pecado, "por tua boca será alimentado todo o meu povo" (Bereshit 41:40); seu corpo, que não tocou no pecado, "e vestiram-no com roupas de linho" (Bereshit 41:42); seu pescoço, que não se inclinou ao pecado, "e puseram um colar de ouro em seu pescoço" (ibid); suas mãos, que não tatearam no pecado, "e o rei tirou seu anel da mão e o colocou na mão de Yossef" (ibid); seus pés, que não caminharam para o pecado, "e fizeram-no montar na carruagem secundária que lhe pertencia" (Bereshit 41:43); seu pensamento, que não pensou no pecado, "e proclamaram diante dele: Avrech" (ibid), isto é, pai na sabedoria. A força de caráter e a firmeza de espírito com as quais Yossef governou seus membros são os traços de realeza visíveis nele. Também de Yossef está destinado a sair o Mashiach ben Yossef.
 
Agora entendemos o temor que tomou conta dos irmãos de Yossef ao verem Yehudá e Yossef discutindo. Não foi o título formal de realeza que causou uma forte impressão neles, mas a grandeza de personalidade de pessoas que governavam a si mesmos. O Rav Bloch ensinava aos seus alunos: "Dominem as forças que atrapalham no Serviço a D'us. Somente então vocês se desenvolverão e se aperfeiçoarão para se tornarem governantes de si mesmos, elevados acima das massas, líderes da geração". Portanto, para ser um rei de verdade, não é necessário ter milhares de súditos, e sim apenas ter autocontrole.

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