sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ MISHPATIM 5769

BS"D

UTILIZANDO A CONSTRUÇÃO DA MANEIRA CORRETA - PARASHÁ MISHPATIM 5769 (20 de fevereiro de 2009)

"Um grupo de investidores encomendou a um famoso arquiteto o projeto de um grande edifício. O prédio foi construído visando o bem estar de cada família, e cada apartamento tinha ambientes grandes e largos, com quartos de dormir, sala, cozinha, banheiros com armários embutidos e todos os outros detalhes necessários para satisfazer os futuros moradores. O arquiteto investiu muito tempo no projeto para que nada faltasse e todas as necessidades dos futuros moradores fossem preenchidas. Mas quando o edifício já estava quase pronto e já era visto como um modelo de edifício residencial, os investidores mudaram de idéia e decidiram dar ao edifício uma nova utilização. Ao invés de utilizá-lo como um edifício residencial, eles decidiram que a construção deveria ser transformada em um hospital.

Obviamente que foram necessárias muitas modificações no edifício para adequá-lo à sua nova utilização. As paredes foram derrubadas, formando grandes ambientes. As cozinhas foram transformadas em leitos para os doentes. Os quartos de dormir foram transformados em salas de atendimento e cirurgia, e as salas se transformaram em enfermarias. Finalmente, após um grande esforço de adaptação, o hospital foi inaugurado. Porém, apesar de todo o investimento feito para adequar o edifício residencial às novas necessidades, aquele prédio estava longe de atingir as verdadeiras necessidades de um hospital. Faltavam detalhes básicos que obviamente teriam sido levados em consideração em um projeto inicial. O fato do edifício ter sido totalmente projetado para um uso residencial foi uma terrível barreira para que qualquer outro tipo de utilização fosse realmente satisfatória"

Nos ensina o livro "Lekach Tov" que o mundo e o ser humano foram criados especialmente para que as pessoas pudessem utilizar todas as ferramentas do mundo material para se conectarem com os mundos espirituais e se elevarem. E por mais que tentemos modificar a utilização original deste mundo, investindo todas as nossas forças na busca de prazeres materiais, nunca ficaremos satisfeitos com esta forma de utilização.
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A Parashá da semana passada, Itró, terminou com a entrega da Torá no Monte Sinai. E a Parashá desta semana, Mishpatim, começa trazendo diversas leis "Bein Adam Lehaveiro" (entre o homem e o seu semelhante), nos ensinando como devemos viver em sociedade de forma a construir um ambiente saudável. Mas algo nos chama a atenção nas primeiras palavras da Parashá. Por que está escrito "E estas são as leis", e não está escrito apenas "Estas são as leis"?

Explica Rashi, comentarista da Torá, que este "e" adicional foi colocado de forma a conectar a Parashá desta semana com a Parashá da semana passada. Da mesma forma que a Parashá passada falava sobre a entrega da Torá no Monte Sinai, também todas as leis sociais que estão contidas na Parashá desta semana também foram entregues por D'us no Monte Sinai. Rashi explica que a Torá está ressaltando a diferença entre as leis Divinas e as leis criadas pelos seres humanos. As leis humanistas são fundamentadas no senso comum das pessoas, e portanto são influenciadas pelo local, pela época e pelas condições de vida da sociedade onde as leis são elaboradas. Por não serem embasadas em nada fixo, muitas vezes vigoram por algum tempo e depois são descartadas. Portanto, muitas vezes falta base para estas leis e ocorrem muitas contradições. Um dos exemplos que atualmente mais nos salta aos olhos é o aborto. Há 100 anos o aborto era, em muitos países, punido com pena de morte. Atualmente a legalização do aborto ganha cada vez mais força em todo o mundo, apesar de cada vez mais a ciência provar que o feto já é uma vida e que aos 40 dias já tem até mesmo ondas cerebrais. O valor da vida humana mudou nestes últimos 100 anos? Será que é válido acabar com uma vida apenas porque a mulher grávida acha que ainda precisa investir mais na sua carreira antes de ter filhos? Com valores humanistas, a sociedade pode decidir o que é vida e o que não é.

Já a Torá não é assim, suas leis foram escritas por D'us, quem verdadeiramente sabe o que é uma vida e o que não é. O aborto há 100 anos era condenado pela Torá como uma atitude tão grave quanto o assassinato, pois aos 40 dias de vida a alma já entra no feto, e mesmo antes disso o feto já é um potencial de vida que não pode ser descartado, muito menos por motivos banais. Atualmente o valor de uma vida não mudou, e o aborto continua sendo considerado um assassinato. E mesmo que passem mais 1000 anos e que todas as condições mudem, o valor de uma vida nunca vai mudar aos olhos de D'us.

Outra grande diferença entre as leis humanistas e as leis da Torá é que os seres humanos tendem a defender sempre os seus direitos ao invés de se preocupar com os seus deveres. É muito comum ver grupos fazendo passeatas defendendo seus direitos. O grande problema é que quando todos têm apenas direitos, muitas vezes o direito de um grupo invade o direito do outro grupo. Quando um jornalista demanda seus direitos de liberdade de expressão, ele invade o direito das outras pessoas de manterem a sua vida particular. Quando um homossexual luta pelo direito de poder expressar seu homossexualismo em público, ele invade o direito de um pai que não quer expor seu filho pequeno à cena de dois homens se beijando em um parque público. Quando todos se preocupam apenas com os seus direitos, um tende a querer engolir os direitos dos outros. Quem está certo? Quem merece mais?

Já a visão da Torá é que o ser humano tem deveres, não direitos. Assim, quando cada um cumpre seu propósito e segue as regras impostas por D'us, ele garante os direitos dos outros e consequentemente os seus próprios direitos. O melhor exemplo disso é o que ocorre no trânsito, onde cada um cumpre seus deveres como motoristas, observando leis de trânsito tais como semáforos e mãos de direção, e com isso adquirem o direito de se locomoverem pela cidade com segurança e rapidez. Mas se cada carro tivesse o direito de fazer o que bem entendesse, certamente o trânsito seria um grande caos.

E não apenas que as leis da Torá não dependem da decisão de seres humanos, mas justamento o contrário ocorre, o ser humano foi embasado pelas leis da Torá, como está escrito "D'us olhou a Torá e criou o mundo". O Zohar (Cabalá) nos ensina que o ser humano tem 613 partes no seu corpo material (entre órgãos, ossos e juntas) e 613 partes na sua alma, justamente o mesmo número de Mitzvót da Torá. Fomos criados, tanto o nosso corpo quanto a nossa alma, de acordo com as Mitzvót. Nossa satisfação e nosso preenchimento está relacionado com o nosso cumprimento das Mitzvót.

É por isso que, apesar de muitas vezes pensarmos que viver de acordo com as Mitzvót da Torá é muito pesado e difícil, a verdade é justamente o contrário. Nunca o mundo viveu em uma abundância e uma tranquilidade sócio-econômica como neste século. E ao mesmo tempo nunca o ser humano foi tão infeliz e depressivo como agora. Moramos em apartamentos luxuosos, andamos em carros modernos e equipados, vivemos com conforto e comodidade, e mesmo assim a grande maioria das pessoas não se sente feliz. Por que? Pois não foi para isso que o mundo e o ser humano foram construídos, e por mais que possamos tentar buscar felicidade no preenchimento material, estaremos utilizando nossa construção original para outro propósito. Já em sociedades mais observantes de Mitzvót vemos que as pessoas que utilizam o mundo material apenas como um meio para se conectar ao espiritual estão muito mais satisfeitas e necessitam de muito menos para se sentirem bem e preenchidas.

Da mesma forma que um edifício residencial é construído para atender as necessidades de pessoas que utilizarão o edifício como moradia, e qualquer outro uso para o edifício será certamente longe do ideal, assim também ocorre com o nosso corpo e alma. Enquanto estivermos vivendo nosso vida voltada à conexão espiritual, estaremos nos preenchermos espiritualmente. Mas se tentarmos ser "espertinhos" e buscar viver uma vida apenas pelo preenchimento material, estaremos sujeitos a terminar como Curt Cobain, Heath Ledger e outros artistas famosos que, apesar de terem tudo, ao mesmo tempo nunca tiveram nada.

"Eu tento, eu tento e eu tento, mas eu não tenho satisfação..." (Mick Jager - Rolling Stones)

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ ITRÓ 5769

BS"D

OLHO GORDO - PARASHÁ ITRÓ 5769 (13 de fevereiro de 2009)

"Rachel era a filha de Kalba Sabua, um dos homens mais ricos de Jerusalém. Desde pequena foi mimada com roupas caras, jóias extravagantes e comidas refinadas. Porém, quando ela decidiu se casar com um homem chamado Akiva, na época um completo ignorante que não sabia nem mesmo ler e escrever, foi deserdada por seu pai e expulsa de casa. Rachel e Akiva começaram seu casamento em total miséria. Alugaram um estábulo velho para morar, quase não tinham comida na mesa e dormiam na palha. Akiva, para consolar sua esposa, prometia que um dia lhe daria uma valiosa jóia chamada "Jerusalém de ouro". A situação deles era cada dia mais difícil, mas apesar de todas as dificuldades, Rachel via em Akiva uma pessoa com um grande potencial espiritual e constantemente o incentivava a se dedicar aos estudos de Torá.

Certo dia o Eliahu Hanavi quis dar um presente para consolar Akiva. Foi até a casa deles, disfarçado de mendigo, vestindo roupas velhas, sujas e esfarrapadas. Bateu na porta e falou:

- Minha esposa acabou de dar a luz e não temos nem mesmo palha para o bebê dormir. Será que você poderia nos dar um pouco de palha?

Imediatamente Akiva deu para aquele pobre homem um pouco de palha. De noite, ele contou a história para sua esposa e comentou:

- Sabe, querida, hoje eu vi como somos ricos. Há pessoas que não têm nem mesmo palha onde dormir.

Quando escutou estas palavras, uma grande alegria encheu o coração de Rachel. Mesmo sendo tão pobre, naquele momento ela se sentia uma milionária...

Muitos anos depois, quando Akiva já era conhecido como Rabi Akiva, o maior sábio da sua geração, com mais de 24 mil discípulos, ele cumpriu sua palavra e deu para sua esposa a jóia prometida".

Se Eliahu Hanavi queria presentear o Rabi Akiva, por que não levou para ele uma jóia, para que pudesse dar de presente para sua esposa? Pois ele quis dar ao Rabi Akiva um presente muito maior: a oportunidade de saber apreciar o que ele tinha. Pois a riqueza é algo que pode ir e vir, mas estar contente com o que temos, ao invés de olhar o que os outros têm a mais do que nós, é um tesouro que adquirimos para sempre.
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Na Parashá desta semana, Itró, o povo judeu chegou ao Monte Sinal, onde D'us entregou os 10 Mandamentos. E o último mandamento nos adverte contra a inveja: "Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a esposa do teu próximo, e seu escravo e a sua escrava, e o seu touro, e o seu jumento, e tudo o que é do seu próximo" (Shemot 20:14). Entendemos por que a Torá proíbe o adultério, o assassinato e o roubo, que são crimes graves. Mas por que D'us se importa com a inveja, algo aparentemente tão natural e inerente ao ser humano? E por que a Torá deixou justamente este mandamento por último, como um fechamento dos outros anteriores?

Existem muitas forças espirituais que nós não sabemos o quanto influenciam em nossa vida cotidiana. Um exemplo é a inveja, em hebraico "Ain Hará" (Olho mau). Explica o Rav Chaim Fridlander em seu livro "Siftei Chaim" que para D'us a vontade já é uma realidade, isto é, basta Ele querer para que a coisa exista. Já para os seres humanos existe uma diferença entre a vontade e a realidade, existe uma distância entre querer algo e isto se realizar na prática. Mas D'us nos criou à Sua imagem e semelhança, e colocou nos seres humanos uma força que, dentro de certas condições, também pode se transformar em realidade apenas através da vontade, e esta força é a inveja. Por isso, quando alguém inveja algo de seu companheiro, pode causar muitos estragos e danos ao outro apenas com a força dos seus desejos. Mas nem sempre esta força consegue funcionar na prática, pois contra o desejo da pessoa que sente inveja está os méritos da outra pessoa, que a protegem. Portanto, todas as vezes que uma pessoa inveja algo de outra, começa uma "batalha espiritual". Caso o invejoso vença, ele consegue realmente prejudicar a outra pessoa. Mas se invejoso perde esta "batalha espiritual", a força com que ele intencionou prejudicar o outro volta, com a mesma intensidade, contra ele mesmo. É como se fosse um jogo de tênis, quanto mais forte jogamos a bolinha, mais longe ela chega. Mas se ao invés de uma quadra de tênis for um paredão, quando mais forte atiramos a bolinha, mais forte ela voltará contra nós mesmos, como nos ensina Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "A inveja apodrece os ossos".

Portanto a inveja, apesar de parecer algo sem muita importância, pode se tornar algo terrível aos seres humanos e causar muitos danos e estragos. É por isso que a inveja foi deixada por último, pois ela inclui todos os mandamentos anteriores. A inveja desperta o desejo da pessoa, e o desejo faz com que a pessoa possa transgredir todos os 10 mandamentos. Por exemplo, o invejoso pode terminar roubando para obter o que deseja ou pode chegar a cometer adultério para conseguir a mulher do outro. Até mesmo idolatria a pessoa pode chegar a cometer, pois aquele que tem inveja pensa "eu mereço isso mais do que o outro", e começa a achar que sabe mais do que D'us, que é Quem decide o que cada um precisa na vida.

E justamente pela inveja ser algo tão prejudicial é que D'us castiga aquele que intencionalmente causa inveja ao seu companheiro, ao mostrar seu carro conversível novo ou sua jóia maravilhosa. Ao causar inveja, ele faz o outro transgredir um dos 10 mandamentos e o prejudica. D'us então pune o "exibido" na mesma moeda, pois da mesma forma que ele prejudicou seu companheiro, ele também acaba sendo prejudicado. Quando a pessoa causa intencionalmente inveja no outro não existe uma "batalha espiritual", pois a pessoa que causou a inveja perde seus méritos e é certamente prejudicada pela inveja do outro, sem chance de se defender. É por isso temos que tomar cuidado para evitar exibicionismos e excessos, e temos que saber que coisas feitas com recato e sem chamar a atenção têm muito mais sucesso.

Mas se a inveja é algo tão negativo, por que D'us a colocou dentro de nós? Ensinam nossos sábios: "Se não fosse por causa da inveja, o mundo não se sustentaria, pois sem a inveja ninguém plantaria um vinhedo, ninguém se casaria e ninguém construiria uma casa". Isto significa que a inveja têm um lado positivo, ela nos faz sair da apatia, ela nos motiva a querer crescer. Portanto existem 2 lados para onde podemos canalizar a inveja, um é negativo e nos destrói, outro é positivo e nos ajuda a crescer. A inveja negativa é ficar olhando os bens materiais dos outros e desejar tirar o que os outros têm. A inveja positiva é olhar o nível espiritual dos outros e desejar chegar no mesmo nível, como ensina o Talmud "Invejar os estudantes de Torá faz aumentar a nossa sabedoria".

Por isso, já que é impossível escapar da inveja, devemos canalizá-la para o lado positivo. A dica é espiritualmente focar em quem tem mais do que nós, mas materialmente focar em quem tem menos do que nós. Se nosso sapato está rasgado, não devemos olhar para quem está de sapato novo, e sim para aqueles que não têm pés. Assim cumpriremos as palavras do Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Quem é a pessoa rica? Aquele que está satisfeito com o que tem". Esse é o único antídoto contra a inveja.

"Toda pessoa consegue sentir o gosto doce de sua comida, menos o invejoso. Pois ele não consegue sentir o gosto bom da sua comida até que retire o que o seu companheiro tem de bom" (Orchot Tzadikim).

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ BESHALACH 5769

BS"D

SÓ ACREDITO VENDO - PARASHÁ BESHALACH 5769 (06 de fevereiro de 2009)

Existem no mundo várias instituições judaicas que organizam Seminários com o intuito de ensinar para judeus afastados a verdadeira essência do judaísmo. Os maiores seminários do mundo, por incrível que pareça, têm como público alvo os judeus que estão de passagem pela Índia, pois um grande número de jovens israelenses afastados do judaísmo, ao terminar o serviço militar obrigatório, viajam para a Índia em busca de espiritualidade. Os rabinos organizam um seminário de final de semana em Hong Kong, compram um certo número de passagens e passam três dias na Índia, tempo suficiente para encontrar pessoas dispostas a ir ao Seminário.

Um dos responsáveis pela organização dos seminários em Hong Kong, o rabino Moshe Braverman, conta que certa vez havia comprado 25 passagens, mas em 3 dias tinha conseguido pelas ruas da Índia apenas 23 pessoas. Como o vôo seria na manhã seguinte, ele saiu de madrugada pelas ruas da Índia em busca de mais 2 judeus interessados, até que às 3 da manhã encontrou duas moças israelenses na rua, chamadas Dorit e Imbal. Quando começou a contar sobre o seminário de Hong Kong, as meninas ficaram brancas e imediatamente disseram que queriam ir, sem nem mesmo perguntar o preço ou o conteúdo do Seminário. O Rav Braverman estranhou, mas não disse nada.

No Seminário, no meio de uma aula sobre vida após a morte, quando o rabino mencionou sobre a "brincadeira do copo" (na qual as pessoas evocam um espírito para que entre em um copo e movimente-o em um tabuleiro com letras, se comunicando assim com os vivos), Dorit se levantou e, diante de todos, começou a contar a história de como foi parar naquele seminário:

- Minha mãe morreu quando eu era muito pequena. Eu aprendi muito cedo a fazer a brincadeira do copo, mas nunca tive coragem de evocar o espírito da minha mãe. Alguns meses atrás minha mãe apareceu para mim em um sonho. Ela estava com uma aparência muito ruim, e pediu para que eu viajasse para o Oriente. Arrumei minhas malas e, junto com minha amiga Imbal, fomos para a Índia. Passamos lá 2 meses curtindo e esperando o que iria acontecer, mas não aconteceu nada. Então ontem a noite eu tomei coragem e fiz a "brincadeira do copo", mas desta ver evoquei o espírito da minha mãe. Ela me escreveu a seguinte frase: "Vá para Hong Kong procurar a verdade". Fiquei perturbada, sem entender a mensagem, então saí com Inbal para dar uma volta. Poucos minutos depois o Rav Braverman apareceu, nos convidando para um Seminário em Hong Kong...

Mas o mais impressionante desta história, segundo o Rav Moshe Braverman, é que esta moça, apesar de todos os milagres abertos que presenciou, nunca se aproximou do judaísmo.
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Na Parashá desta semana, Beshalach, o faraó finalmente se curvou diante da força de D'us e permitiu aos judeus saírem do Egito. E assim a Torá descreve a saída do povo judeu: "E os judeus saíram da terra do Egito Chamushim" (Shemot 13:18). Muitos comentaristas explicam que a linguagem "chamushim" significa "armados". Mas é um pouco difícil entender a necessidade dos judeus saírem armados. Toda a saída do Egito foi rodeada de milagres, e mesmo no deserto D'us protegia constantemente o povo com nuvens e com uma coluna de fogo de noite. Além disso, os judeus não sabiam lutar, afinal tinham passado mais de 200 anos como escravos. Então por que tiveram que sair do Egito levando armas?

Explica o Rav Bachya que este versículo é um ensinamento de como devemos nos comportar na vida. D'us é Onipotente, pode fazer qualquer milagre em qualquer momento. Mas apesar de algumas vezes na história Ele ter feito milagres abertos, como nas 10 pragas do Egito e na abertura do Mar Vermelho, em geral Ele se comporta de maneira oculta, para nos permitir uma livre-escolha em todos os nossos atos. Por isso sempre temos que fazer a nossa parte, de forma que a intervenção de D'us seja de maneira oculta e não aberta. Por exemplo, é óbvio que quem protege nosso carro para que não seja roubado é D'us, mas temos que pelo menos fazer a nossa parte, isto é, trancar a porta.

Já segundo o Midrash (parte da Torá Oral), o entendimento deste versículo fica ainda mais difícil. O Midrash diz que a palavra "Chamushim" vem da mesma raíz da palavra "Chomesh", que significa "um quinto". O Midrash diz que o versículo está nos ensinando que apenas um quinto do povo judeu saiu do Egito, enquanto o restante, 80% do povo, não quis sair e morreu durante os 3 primeiros dias da praga da escuridão. Por que justamente nesta praga? Para que fossem enterrados sem que os egípcios percebessem, pois se vissem também os judeus morrendo, pensariam que eles também estavam sendo atingidos pelas pragas. Mas como pode ser que, depois de tantos milagres abertos, 80% do povo judeu não quis sair do Egito?

D'us criou o ser humano com o vontade de buscar a verdade. Infelizmente existem muitas motivações pelas quais o ser humano engana a si mesmo, tais como o medo de mudar, o medo de perder prazeres, o medo de perder prestígio e a apatia, como ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Três coisas tiram o homem do mundo: a honra, a inveja e a busca pelos desejos". O que significa "tirar do mundo"? Significa nos afastar do nosso propósito, dos caminhos corretos, pois a pessoa que busca a honra, a inveja e os desejos sempre cria desculpas para continuar a cometer erros. Haviam muitos judeus no Egito que eram influentes e não queriam abandonar seus cargos para virar parte do "povão", junto com os outros judeus. Outros estavam tão conectados com o materialismo que temiam perder mesmo o pouco que tinham. E uma grande parte do povo judeu não quis sair por medo das mudanças, por medo das novas responsabilidades de estar sob os comandos de D'us, e preferiram permanecer escravos. Isso nos ensina que mesmo diante da maior verdade, o ser humano tem a capacidade de ignorá-la.

Quando olhamos os judeus egípcios nos perguntamos como eles puderam ser tão cegos, como não enxergaram a verdade tão escancarada. Mas será que estamos tão longe daqueles judeus? Será que faltam provas de que D'us existe e de que a Torá foi escrita por Ele? Atualmente existem centenas de sites, de ensinamentos por E-mail e de sinagogas com aulas de Torá abertas ao público. Então por que mais de 80% do povo judeu continua tão afastado das Mitzvót?

A redenção final do povo judeu, na época do Mashiach, será muito semelhante à saída do Egito, como nos ensinou Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "Não há novidade sob o sol", isto é, se estudarmos o passado, aprenderemos sobre o futuro. Da mesma forma que os judeus se deixaram cegar por seus interesses, assim também fazemos hoje em dia.

Que possamos sair finalmente da escravidão que temos dos nossos desejos, do nosso comodismo e da nossa apatia.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ BO 5769

BS"D

NÓS FAZEMOS NOSSO FUTURO - PARASHÁ BO 5769 (30 de janeiro de 2009)

Um grande sábio não-judeu chamado Avlat encontrou-se com um grande sábio judeu chamado Shmuel. Enquanto eles conversavam, passou um grupo de trabalhadores em direção ao pântano, onde iriam passar o dia cortando e recolhendo juncos. Avlat, que era um grande conhecedor da astrologia, apontou para um dos trabalhadores e disse para Shmuel:

- Você está vendo aquele trabalhador? Ele não voltará do trabalho hoje. Será picado por uma cobra venenosa e morrerá.

- Depende – respondeu Shmuel – se ele for judeu, não é certeza que não voltará, pois ensinaram nossos sábios que "Ein Mazal Le Israel" (o povo judeu não é influenciado pelas estrelas). Pode ser que a minha Tefilá (reza) funcione para ele.

Esperaram até o fim da tarde e viram que o homem retornou do trabalho. Avlat ficou desconcertado, estava escrito nas estrelas que aquele homem deveria ter morrido! Abriu a sacola na qual o homem carregava os juncos que havia cortado e lá encontrou uma cobra cortada ao meio. O trabalhador levou um grande susto, nem havia visto a cobra dentro de sua sacola! Provavelmente durante o trabalho havia dado um golpe com a foice para cortar um pedaço de junco e havia matado, sem saber, uma cobra muito venenosa que estava à espreita para atacar. Shmuel então perguntou:

- Você se lembra se hoje você fez algum ato diferente, algo especial?

- Todos os dias – começou o homem – no horário do almoço, nós recolhemos pão de todos os trabalhadores em uma cesta e dividimos entre todos. Hoje eu percebi que um dos trabalhadores não tinha trazido pão e estava muito envergonhado. Então eu prontamente me ofereci para recolher o pão de todos, e quando chegou na vez daquele trabalhador, eu fingi que também peguei um pão dele e completei o que faltava com um pão meu.

Então Shmuel disse:

- Você fez uma grande Mitzvá. E assim nos ensinou Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "A Tzedaká (caridade) salva da morte". (História real, retirada do Talmud Shabat 156b)
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Na Parashá desta semana, Bo, a Torá continua descrevendo as 10 pragas que D'us mandou sobre o Egito para convencer o faraó a deixar o povo judeu sair. E a Parashá começa justamente quando Moshé anunciou a vinda da oitava praga, gafanhotos. Os conselheiros do faraó temeram que todos morreriam de fome caso os gafanhotos devorassem o que havia sobrado das plantações, e convenceram o faraó a deixar os judeus saírem para servir a D'us no deserto, como Moshé exigia. O faraó concordou, achando que apenas os homens mais velhos iriam, mas quando Moshé disse que todos iriam, inclusive as crianças e o gado, o faraó se enfureceu e disse "Então que D'us esteja com vocês quando eu enviar vocês e seus filhos. Veja que o mal está diante das suas faces" (Shemot 10:10). O que significam estas palavras do faraó?

A explicação mais simples é que o faraó desconfiou que os judeus não queriam apenas servir a D'us no deserto, esta era apenas uma desculpa para esconder um plano de fuga. O faraó ficou irritado com o descaramento dos judeus, pois não havia nenhum outro motivo para levar crianças e animais para o deserto. O desabafo do faraó foi sarcástico, dizendo que nem D'us os ajudaria por estarem sendo desonestos e mentirosos.

Já o Midrash (parte da Torá Oral) dá uma explicação mais profunda deste versículo. A palavra "mal", em hebraico é "Raá", que é também o nome de uma estrela cujo simbolismo é sangue e destruição. O faraó e seus magos, que tinham muitos conhecimentos de astrologia, estavam advertindo Moshé e o povo judeu que sua ida ao deserto seria regida pela influência desta estrela, que segundo o entendimento deles significava a destruição dos judeus. Então por que levar as crianças e o gado para também serem destruídos?

Porém, esta explicação do Midrash causa uma grande dúvida. Os judeus realmente estiveram sob o risco de destruição no deserto, quando fizeram o bezerro de ouro. Mas como podem os egípcios terem visto a estrela de sangue influenciando os judeus se apenas ela teve influência depois do erro deles, isto é, como foi possível ver o futuro se este dependia da livre escolha do povo judeu? Se o povo judeu não tivesse feito o bezerro de ouro, nunca teriam passado por nenhum perigo de destruição!

A influência das estrelas não é uma mera bobagem, como fazem parecer os atuais horóscopos, que servem apenas como entretenimento das pessoas e não trazem nenhuma informação séria. A astrologia é o conhecimento de quais influências espirituais estarão sobre o mundo material de acordo com o arranjo das estrelas e planetas no céu. As pessoas que tenham este conhecimento podem saber exatamente o que foi decretado nos mundos espirituais e quais serão as consequências no mundo material.

Explica o Rav Eliahu Dessler, em seu livro Michtav MeEliahu, que o conceito espiritual de "Ein mazal le lsrael" (o povo judeu não é influenciado pelas estrelas) não significa que um judeu nunca é influenciado pelas estrelas. Todos os seres humanos são influenciados pelo posicionamento dos astros no céu, mas quando os judeus receberam a Torá no Monte Sinai, se conectaram com D'us de uma maneira mais direta, "passando por cima" da influência das estrelas. Os judeus ganharam, através das Mitzvót, a capacidade de modificar o que está decretado nos astros. Quando um judeu cumpre Mitzvót, ele pode mudar o que está decretado. Mas se um judeu não cumpre Mitzvót, ele continua "preso" no que está escrito nas estrelas.

Portanto, o faraó realmente viu que a estrela Raá, que simboliza sangue e destruição, influenciaria o povo judeu no deserto. Mas enquanto o povo judeu estava mais elevado do que as estrelas, esta influência não era sentida por eles. Somente quando os judeus cometerem o terrível pecado do bezerro de ouro é que eles despencaram de nível espiritual e voltaram a estar sob a influência direta das estrelas. Neste momento eles entraram em um grande perigo de destruição, e o que os salvou foi a reza de Moshé e a Teshuvá (arrependimento) do povo. Mesmo após o perdão de D'us, como a influência da estrela Raá já havia recaído sobre o povo judeu, ela foi transferida para um outro "derramamento de sangue", o sangue do Brit-Milá que os judeus fizeram sob o comando de Yoshua, o sucessor de Moshé, antes de entrarem em Israel.

Daqui aprendemos a força das Mitzvót e o quanto elas podem mudar nossas vidas, inclusive coisas que já haviam sido decretadas nos mundos espirituais, como ensinam os nossos sábios "A Tefilá (reza), a Teshuvá (arrependimento) e a Tzedaká (caridade) mudam um mau decreto". Pois as Mitzvót são o caminho para, ao invés de nos conectarmos com os ministros e intermediários, nos conectarmos diretamente com o Rei.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAERÁ 5769

BS"D

VIVER SEM SENTIDO DÓI - PARASHÁ VAERÁ 5769 (23 de janeiro de 2009)

Por muitos anos os judeus da Rússia foram proibidos de cumprir qualquer Mitzvá da Torá, sob a ameaça de serem deportados para a Sibéria. Muitos arriscaram suas vidas e, quando descobertos pelas autoridades russas, foram levados à Sibéria para trabalhos forçados sob um frio muito rigoroso. Muitos não aguentavam a rigorosidade do inverno e do trabalho, e morriam.

Apesar de todas as dificuldades, um judeu que sobreviveu a 5 anos de trabalhos forçados na Sibéria conta que o pior sofrimento da sua vida não foi por causa dos trabalhos forçados, nem dos duros castigos, nem do rigoroso frio. O pior sofrimento de sua vida foi o dia da sua libertação.

Por 5 anos ele havia passado muitas horas do seu dia girando uma pesada manivela, acreditando que estava moendo cereais. Apesar das terríveis condições, ele se sentia útil e isso lhe trazia um pouco de conforto. Mas os russos fizeram questão de, no momento de sua liberação, levá-lo até a sala ao lado e mostrar que a manivela não estava conectada a absolutamente nada.

A dor de saber que seus 5 últimos anos haviam sido sem propósito nenhum foi maior do que qualquer outra dor que já havia sentido na sua vida... (História real)
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Na Parashá da semana passada, Moshé foi pedir ao faraó para que ele libertasse o povo judeu, mas ao invés disso o faraó aumentou ainda mais o trabalho e o sofrimento dos judeus. E na Parashá desta semana, Vaerá, D'us fala para Moshé pedir novamente ao faraó para que ele deixasse o povo judeu sair. Mas Moshé questionou a ordem de D'us, dizendo que o faraó já havia se mostrado decidido a não libertar os judeus antes, por que mudaria de idéia diante de um novo pedido? Então D'us instruiu Moshé a tentar convencer o faraó fazendo diante dele um milagre: jogar sua vara no chão para que ela se transformasse em uma cobra.

Para nós talvez este sinal Divino teria sido algo impressionante. Mas a Torá diz que não impressionou nem um pouco o faraó. Ele imediatamente chamou seus magos, que prontamente também transformaram varas em cobras. A pergunta fica ainda mais forte segundo o Midrash (parte da Torá Oral), que nos ensina que os egípcios conheciam tanto de magia negra que mesmo crianças de quatro anos facilmente transformavam varas em cobras. Então por que D'us pediu para que Moshé fizesse este milagre diante do faraó?

Explica o livro "Lekach Tov" que a intenção de D'us não era impressionar o faraó mostrando que Ele podia controlar a natureza, isso Ele fez através das 10 pragas. Na verdade D'us estava transmitindo ao faraó uma mensagem, Ele estava revelando ao faraó o verdadeiro motivo pelo qual os egípcios seriam tão duramente castigados com as 10 pragas e com o afogamento no Mar Vermelho. Que mensagem era esta?

Diz o Rambam (Maimônides) que D'us já havia decretado ao povo judeu a escravidão, e se os egípcios tivessem escravizado os judeus apenas por seus interesses, como qualquer outro Império que, ao se expandir, escraviza outros povos visando território, impostos e mão-de-obra, eles não teriam sido punidos por D'us, pois teriam se comportado como uma vara, cujo golpe não é mais forte do que a força utilizada pela mão que a segura para golpear. Mas quando D'us fez com que a vara de Moshé se transformasse em uma cobra, Ele estava avisando que o duro castigo viria pois os egípcios haviam escolhido se comportar como uma cobra, isto é, eles haviam se comportado de maneira cruel, causando muito mais sofrimento do que havia sido inicialmente decretado por D'us ao povo judeu. Os egípcios chegaram ao ponto de escravizar e maltratar os judeus mesmo sem receber nada em troca, revelando requintes de crueldade.

Um dos maiores exemplos da crueldade dos egípcios foi a construção de duas cidades, Pitom e Ramsés, executada pelos judeus. Apesar de aparentemente os egípcios estarem interessados na mão-de-obra dos judeus para o seu benefício, o Talmud nos ensina que estas duas cidades foram construídas sobre areia movediça, e após algum tempo de trabalho tudo o que havia sido construído desmoronava, obrigado-os a recomeçar o trabalho do zero sabendo que tudo o que construíssem voltaria a cair em um futuro próximo. A maldade egípcia era tanta que o único motivo da escravidão foi infernizar a vida dos judeus, e os egípcios já sabiam que não há sofrimento maior para o ser humano do que saber que não há nenhum sentido no que ele faz na vida.

A humanidade se confronta com o problema da falta de sentido na vida há milênios. Os gregos também já conheciam este conceito e utilizaram-no em sua mitologia. Sísifo, um homem que enfureceu os deuses gregos, recebeu um castigo eterno e terrível: todos os dias ele era obrigado a rolar uma enorme e pesada pedra até o topo de uma montanha, e na manhã seguinte a pedra era derrubada para que ele recomeçasse o trabalho. Isto mostra que mesmo os gregos já entendiam que uma das piores punições possíveis para um ser humano é dar-lhe uma vida sem nenhum propósito.

Explica Viktor Frankel, o psiquiatra criador da "Logoterapia" (terapia de pessoas depressivas através da busca de um sentido para a vida), que a busca do homem por significado é a motivação primária de sua vida, e não uma racionalização secundária. Por que vivemos no "Século da depressão"? Pois o slogan da nossa geração é "Não importa para onde você vai, aproveite a viagem". Infelizmente a maioria das pessoas vive uma vida completamente sem sentido. Levantamos, vamos ao escritório ou à faculdade, trabalhamos, almoçamos, trabalhamos, voltamos para casa, comemos e dormimos. Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta, Sábado, tudo no mesmo ritmo, sempre constante. Não sabemos onde queremos chegar e raramente paramos para pensar nisso.

Neste ponto o judaísmo nos ajuda muito, pois as Mitzvót servem como placas na estrada, nos indicando exatamente onde estamos, qual o caminho correto e onde precisamos chegar. O judaísmo nos dá estabilidade interna ao nos ensinar que a vida é significativa e nossas escolhas realmente importam e fazem a diferença. O importante não é apenas a meta final, cada pequeno ato do cotidiano faz parte do caminho e da nossa construção espiritual para a eternidade.

Portanto, conclui Viktor Frankel, tão vital quanto respirar, comer e dormir, todo ser humano precisa saber que sua existência importa. O judaísmo concorda.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ SHEMOT 5769

BS"D

MUITO OBRIGADO - PARASHÁ SHEMOT 5769 (16 de janeiro de 2009)

"Em um reino distante havia muita alegria e tranquilidade. Porém, um dia a paz foi quebrada por um grave crime. Um homem, descontente com um decreto de um dos ministros do rei, levantou-se contra ele e o matou. Imediatamente os guardas reais prenderam o homem e o levaram para o tribunal.

Diferentemente das outras vezes, o próprio rei presidiu o tribunal, pois achava que a decisão daquele julgamento poderia mudar o rumo da história do reinado. Escutou as acusações contra o assassino, escutou o que o homem tinha para dizer em sua defesa, e reuniu-se com seus conselheiros para discutir o caso. Uma hora depois o rei voltou com seu conselheiros, e o veredicto foi anunciado para o público que aguardava ansioso:

- O réu é declarado culpado pelo assassinato de um dos ministros do rei, e receberá a pena de morte.

Os habitantes do reino se agitaram. Apesar de saberem que o homem realmente era culpado pelo assassinato, sabiam que no reino não se aplicava a pena de morte. Por que o rei havia sido tão duro desta vez? O rei então explicou para os seus súditos:

- Realmente a pena aplicada foi dura, mas é porque o crime foi mais grave do que aparenta. Se uma pessoa tem a coragem de matar um ministro do rei por ter se desentendido com ele, no futuro também poderá tentar matar o próprio rei por qualquer discórdia. Por isso, me senti obrigado a dar uma punição exemplar"

Desta história aprendemos uma importante lição: a forma como nos comportamos com o próximo é a forma como nos comportamos com D'us.
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Nesta semana começamos o segundo livro da Torá, Shemot, que também é conhecido como "Sefer Hagalut Ve Hagueulá" (O livro do exílio e da redenção), por descrever a história do povo judeu desde a escravidão no Egito até a sua salvação física e espiritual. E na Parashá desta semana, Shemot, a Torá descreve que, apesar das boas vindas iniciais que o povo judeu recebeu nos dias de Yaacov e seus filhos, nas futuras gerações os egípcios começaram a tratar mal os judeus e finalmente os escravizaram. Mas com o grande nome que Yossef havia construído no Egito e tudo o que ele havia feito pelos egípcios, quem foi o faraó que teve o descaramento de fazer algo assim contra os judeus? A Torá nos dá a resposta: "E se levantou um novo rei sobre o Egito, que não conheceu Yossef" (Shemot 1:5).

Segundo uma das opiniões trazidas no Talmud, na verdade não era um faraó novo, e sim aquele mesmo faraó cujos sonhos foram decifrados por Yossef. Então por que está escrito "um novo rei"? Pois o faraó, que havia sido tão receptivo com Yossef e sua família, resolveu renovar seus decretos e criar leis contra os judeus. Mas segundo esta opinião do Talmud, se era o mesmo faraó da época de Yossef, então o que significa as palavras finais do versículo "que não conheceu Yossef"? E mais estranho ainda é que, no final da Parashá, quando Moshé Rabeinu foi falar com o faraó em nome de D'us para pedir a libertação do povo judeu, o faraó falou "Eu não sei quem é Hashem, e não vou libertar o povo judeu (Shemot 5:2)". Como pode ser que o mesmo faraó que conheceu Yossef não sabia quem é Hashem, se foi ele mesmo quem falou para Yossef, quando seus sonhos foram decifrados, "Já que Hashem revelou tudo isso para você" (Bereshit 41:39)?

Explica o Talmud que, segundo esta opinião, as palavras "que não conheceu Yossef" não querem dizer literalmente que eles não viveram na mesma época. O significado destas palavras é que o faraó se comportou como se não o tivesse conhecido. Apesar de ter presenciado a salvação de todo o povo egípcio através de Yossef, tanto na interpretação correta dos sonhos quanto no conselho de armazenar comida nos anos de fartura para alimentar todo o povo nos anos de seca, ele "esqueceu" quem foi Yossef e todas as bondades que ele fez aos egípcios, e se voltou contra os judeus.

Mas a pergunta continua, pois é possível entender que o faraó "esqueceu" quem foi Yossef, mas como é possível também ter esquecido quem é Hashem? A resposta é um fundamento muito importante ensinado pelos nossos sábios: aquele que nega a bondade que recebe de seu companheiro, no final também acabará negando as bondades recebidas de D'us; e aquele que nega as bondades recebidas de D'us é como se estivesse negando Sua existência".

Quando alguém nos faz uma bondade nos sentimos endividados. A própria expressão que dizemos, "Obrigado", implica que agora temos uma obrigação com quem nos fez o bem. É por isso que reconhecer a bondade que os outros nos fazem não é fácil, pois não gostamos de nos sentir endividados com ninguém. Preferimos muitas vezes "ignorar" algo de bom que recebemos. Para isso temos alguns "mecanismos", tais como considerar que a bondade não nos ajudou tanto, que a pessoa não fez mais do que sua obrigação ou que quem nos fez a bondade não precisou de esforço algum para fazê-lo e por isso não merece nenhum agradecimento.

A Torá nos ensina justamente o contrário. Temos que nos educar para reconhecer tudo o que os outros nos fazem de bom, e a principal ferramenta é sempre pensar "Ló Maguia Li Klum" (eu não mereço nada), isto é, tudo o que os outros nos fazem é uma grande bondade, até mesmo se recebem um salário para isso. O motorista de táxi recebe pela corrida, mas sem ele não chegaríamos na reunião importante. A empregada também recebe um salário, mas sem ela a casa não estaria limpa e arrumada.

Um dos principais fatores que levam ao reconhecimento de D'us é o reconhecimento de todas as bondades que Ele faz aos seres humanos. Recebemos uma abundância de Brachót (bençãos) Dele, como dizemos três vezes por dia na Amidá, a principal reza do judaísmo: "Agradecemos... por todos os milagres que ocorrem todos os dias conosco, e pelas maravilhas e bondades de todos os instantes". Porém, muitas vezes estas bondades passam despercebidas em nossas vidas. Por que não enxergamos que ocorrem milagres e bondades a cada instante? Por nosso costume de viver como se merecêssemos tudo, por vivermos com a impressão de que tudo o que necessitamos não é mais do que obrigação dos outros nos darem. E por não sabermos reconhecer o que as pessoas nos fazem de bom, por não conseguirmos sair desta "inércia", acabamos também não conseguindo enxergar o que D'us nos faz de bom. E isso é mais grave do que parece, pois não agradecer a D'us é, de certa forma, uma maneira de negar a Sua existência.

Não podemos mudar tudo de uma hora para outra, mas um bom começo é se educar para conseguir reconhecer pelo menos as bondades das pessoas mais próximas, que muitas vezes nos ajudam sem receber nada em troca e que são, infelizmente, as primeiras para quem esquecemos de dar o nosso reconhecimento. Quem tem um filho sabe o trabalho que dá cuidar, alimentar e educar. Quantas vezes já falamos um obrigado aos nossos pais? Quantas vezes já reconhecemos, em nossos corações, tudo o que eles nos fizeram de bom, por tantos anos? E quanto aos nossos maridos e esposas, sabemos dar valor a tudo o que se esforçam pelo nosso bem estar, ou achamos que não fazem mais do que suas obrigações? Quando vemos a comida pronta na mesa levamos em conta o esforço para comprar os ingredientes, para prepará-los e para arrumar os pratos, ou sentamos na mesa e comemos como reis que foram servidos por seus serviçais?

Pequenas mudanças no cotidiano, como por exemplo fazer com que seja mais constante o uso da expressão "muito obrigado", podem nos ajudar a, pouco a pouco, reconhecer também todos os milagres e maravilhas que D'us faz por nós a cada instante.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIEHI 5769

BS"D

APENAS UM PEQUENO FURO - PARASHÁ VAIEHI 5769 (09 de janeiro de 2009)

"Havia um homem muito rico, dono de um castelo com vários andares. Certo dia chegou um visitante, um homem estranho e sombrio. Ele ofereceu comprar o castelo inteiro por R$ 500,00. O dono do castelo riu com a proposta, com a certeza de que aquele homem era um grande tolo. Querendo se divertir às custas dele, o dono do castelo falou que por aquela quantia poderia vender um metro quadrado do jardim. O homem estranho aceitou, mas exigiu que a venda fosse oficializada através de um contrato. O dono do castelo riu da ingenuidade daquele tolo, afinal, o que ele faria com um metro quadrado de jardim? A venda foi feita e formalizada em um contrato.

No dia seguinte, o homem estranho chegou cedo e deixou uma caixa no seu pedaço de jardim. Da caixa começou a exalar um cheiro terrível, que incomodou o dono do castelo. Imediatamente ele foi exigir que o homem retirasse aquela caixa de sua propriedade, mas o homem mostrou o contrato de venda e informou que, já que aquele metro quadrado era sua propriedade, podia fazer o que quisesse. O dono tentou recomprar aquele metro quadrado, ofereceu até dez vezes mais, porém o homem não quis conversa.

O cheiro ficou tão forte que o dono do castelo e sua família tiveram que se mudar para o segundo andar. Com o passar dos dias também o segundo andar ficou inabitável e eles tiveram que se mudar para o terceiro andar. E assim foi até que finalmente o dono e sua família tiveram que abandonar o castelo. No final, aquele homem sombrio ficou com todo o castelo, por causa da venda de um mísero metro quadrado de jardim. O dono então entendeu que na verdade o homem estranho não tinha nada de tolo, era muito esperto. O tolo, o tempo todo, havia sido ele mesmo"

Assim também é o nosso Yetzer Hará (má-inclinação). Ele sabe que não é fácil nos convencer a fazer grandes transgressões. Então tudo o que ele nos pede é apenas uma pequena abertura, e quando nos damos conta, perdemos tudo...
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Na Parashá desta semana, Vaiehi, Yaacov reuniu todos os seus filhos para abençoá-los antes de sua morte. Yaacov também fez com que Yossef jurasse que não o enterraria no Egito, e sim na Mearat Hamachpelá, na terra de Israel, junto com Avraham e Itzchak. Ele insistiu para que Yossef jurasse pois sabia que o faraó se sentiria insultado por Yaacov ser enterrado em Israel, após toda a generosa hospitalidade que os egípcios haviam oferecido. Ser enterrado em Israel significava que, apesar de morarem no Egito, eles não se consideravam egípcios, e portanto sabia que o faraó não permitiria facilmente.

E realmente foi o que aconteceu, o faraó se irritou quando Yossef informou que queria enterrar Yaacov em Israel, e não quis permitir. Quando Yossef viu que não conseguiria convencê-lo com nenhum argumento, contou ao faraó que não tinha escolha pois havia feito um juramento ao seu pai. O Midrash (parte da Torá Oral) conta que o faraó ainda insistiu para Yossef juntar sábios judeus e cancelar o juramento (o que, segundo a lei judaica, é permitido em certos casos). Yossef disse ao faraó que se cancelasse este juramento, também acabaria cancelando um outro juramento que havia feito alguns anos antes, no qual se comprometera a não revelar um grande segredo do faraó. Ao escutar estas palavras o faraó finalmente permitiu que Yaacov fosse enterrado em Israel. Mas deste Midrash surgem duas grandes perguntas: de que juramento Yossef estava falando? E além disso, como Yossef se dirigiu ao faraó, o homem mais poderoso do Egito, com tamanha prepotência, chantageando-o e ameaçando revelar seus segredos caso não aceitasse seu pedido?

Quando o faraó quis colocar Yossef na posição de vice-rei, muitos egípcios foram contra, pois ele era apenas um escravo. O faraó então mostrou que Yossef vinha de uma linhagem nobre e, como ele, sabia falar 70 idiomas, como exigia a lei egípcia para que um homem se tornasse governante. Porém, durante o teste ao qual Yossef foi submetido, o faraó descobriu que Yossef falava um idioma a mais do que ele, o Lashon Hakodesh (língua com a qual D'us escreveu a Torá e criou o mundo). O faraó, envergonhado e com medo que o povo egípcio descobrisse que o deus deles era limitado, fez Yossef jurar que nunca revelaria isso para ninguém.

Nos ensina o livro Messilat Yesharim (Caminho dos justos) que o Yetzer Hará, nosso mal instinto, é profissional em todos os tipos de guerra e sabe exatamente como lutar conosco. Ele sabe que batendo de frente não consegue nos enganar e nos fazer cometer transgressões graves. Então sua tática é ir abrindo pequenas brechas. Ele é como um cachorro, diante de uma porta bem fechada não pode fazer nada, mas uma pequena fresta é suficiente para que consiga empurrar a porta até entrar. Portanto, Yossef não estava sendo prepotente nem estava chantageando o faraó, ele estava apenas ensinando uma lei espiritual. Enquanto ele nunca havia cancelado nenhum juramento, é como se a porta estivesse fechada. Mas a partir do momento em que ele abrisse uma brecha, cancelando um juramento, seria muito mais fácil chegar a cancelar outros juramentos também.

Vimos esta lei se aplicando durante toda a história do povo judeu. Muitos consideram o judaísmo como sendo "extremista" por conter muitas leis. Porém, são justamente estas leis que mantém o judaísmo vivo por mais de 3.000 anos. Se olharmos nosso passado, perceberemos que todos os movimentos de assimilação do povo judeu começaram com pequenas mudanças. No mais recente, Moshe Mendelsohn, criador do Reformismo, queria apenas "tirar o peso" do judaísmo. Qual foi a consequência das "pequenas" mudanças que ele implantou, sob o lema de "seja um bom judeu em casa, mas um bom alemão na rua"? Seu neto, Félix Mendelsohn, compositor da Marcha Nupcial, não era mais judeu.

Esta lei espiritual também se aplica na vida de cada um de nós. Nenhuma transgressão começa maior do que pequenos delitos. Grandes desvios começaram com pequenas atitudes erradas. Muitas vezes damos pouco valor para pequenos maus atos que cometemos, mas podem ser a abertura para o Yetzer Hará. É como se abríssemos um buraco em uma garrafa, por mais insignificante que pareça, se não for consertado, mais cedo ou mais tarde toda a água se esvaziará. Portanto temos que prestar atenção mesmo às menores transgressões, pois no final serão os detalhes que terão feito toda a diferença.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIGASH 5769

BS"D

TIRANDO UM PESO DAS COSTAS - PARASHÁ VAIGASH 5769 (02 de janeiro de 2009)

O professor pediu para que os alunos trouxessem para a escola batatas e uma bolsa de plástico, para realizarem uma atividade diferente durante a aula. Então ele pediu para que os alunos separassem uma batata para cada pessoa por quem sentiam alguma mágoa, escrevessem os seus nomes nas batatas e as colocassem dentro da bolsa. Algumas das bolsas ficaram muito pesadas.

A tarefa consistia em, durante uma semana, levar a todos os lados a bolsa com as batatas. Naturalmente as batatas foram se deteriorando com o tempo. Além disso, o incômodo de carregar o dia inteiro aquela bolsa mostrava-lhes o tamanho do peso diário que a mágoa ocasiona. E ao colocar a atenção na bolsa para não esquecê-la em nenhum lugar, os alunos deixavam de prestar atenção em outras coisas que eram mais importantes.

Este é o preço que pagamos todos os dias por mantermos a raiva, a bronca e a negatividade. Quando damos importância ao que os outros nos fizeram de mal ou às promessas não cumpridas, nossos pensamentos enchem-se de mágoa, aumentando o stress e roubando nossa alegria. Perdoar e deixar estes sentimentos irem embora é a única forma de trazer de volta a paz e a tranquilidade.

Jogue fora suas "batatas".
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Na Parashá desta semana, Vaigash, após ver que seus irmãos realmente estavam arrependidos de tê-lo vendido, Yossef finalmente se revelou para eles. Os irmãos mal puderam abrir a boca, pela vergonha do que tinham feito e pelo medo de que Yossef, agora o segundo homem mais poderoso do Império Egípcio, teria a oportunidade de se vingar de forma dura, pois certamente deveria ter guardado rancor no coração pelos últimos 22 anos de sofrimentos. Mas Yossef fez justamente o contrário, tratou-os com carinho e consolou-os dizendo: "Não fiquem tristes nem irritados com vocês mesmos por terem me vendido para cá, pois para manter vocês foi que D'us me mandou diante de vocês" (Bereshit 45:5).

Ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que D'us já havia decretado e revelado para Avraham que o povo judeu seria escravizado no Egito, como está dito: "Saiba que seus descendentes serão estrangeiros em uma terra que não será deles. E eles os farão servir e os afligirão por 400 anos. E também a nação a qual eles servirão, Eu a julgarei" (Bereshit 15:13). Como todo escravo, os judeus deveriam ter sido levados ao Egito amarrados em correntes. Yossef estava explicando aos irmãos que a sua venda era parte dos planos Divinos, uma forma que D'us havia encontrado para que Yaacov não precisasse descer forçado ao Egito e pudesse ir de forma honrada. Os irmãos tinham sido apenas um instrumento nas mãos de D'us para cumprir a vontade Dele. Com isso Yossef tranquilizou seus irmãos, mostrando que não havia guardado nenhum rancor.

Mas se é assim, se todos os nossos atos se encaminham automaticamente para cumprir a vontade de D'us, então por que D'us julgou os egípcios e os castigou tão duramente durante a saída do Egito, com as 10 pragas e o afogamento no Mar Vermelho? Afinal, eles estavam apenas cumprindo a vontade de D'us de que os judeus fossem escravos e sofressem com a opressão! Ensinam os nossos sábios que D'us utiliza a livre escolha das pessoas para cumprir a Sua vontade. Se está decretado que uma pessoa deve perder dinheiro, D'us a coloca junto com outra pessoa que, por sua livre escolha, quer roubar. Assim cumpre-se o decreto da pessoa perder dinheiro, mas o ladrão também é punido, pois roubou por sua vontade e escolha.

O mesmo ocorreu com a escravidão do povo judeu. É verdade que os judeus tinham que passar pela escravidão e pelos sofrimentos, mas os egípcios não o fizeram com a intenção de cumprir o que D'us havia decretado, e sim escolheram, por sua má índole, fazer o mal ao povo judeu. D'us somente juntou o povo judeu, que tinha que ser escravizado, com os egípcios, que queriam escravizar. Por isso, apesar de terem cumprido a vontade de D'us, os egípcios foram duramente punidos.

Somos responsáveis por todos os nossos atos, e apesar de que sempre a vontade de D'us se cumpre, seremos cobrados pelo mau uso da nossa livre escolha. Portanto, Yossef não estava dizendo aos irmãos: "Ei, relaxem, vocês não fizeram nada de grave". Ele quis apenas enfatizar que não havia guardado mágoas, apesar deles terem sim cometido um erro ao vendê-lo ao Egito. Ele quis deixar claro aos irmãos que, apesar do erro deles, a vontade de D'us em última instância estava sendo cumprida, e portanto não havia motivos para vingança nem rancor.

Se tivermos este nível de claridade, podemos evitar duas graves transgressões da Torá: "Não se vingue e não guarde rancor" (Vayikrá 19:18). Explica o Sefer HaChinuch que sentimos rancor e vontade de vingança quando alguém nos faz mal e nos machuca. Porém o rancor e a vingança são proibidos pela Torá pois são um grave erro de entendimento. Ninguém pode fazer mal ao outro sem que tenha sido decretado pelo Criador do mundo. Alguém se vinga ou guarda rancor de um oficial de justiça por ter recebido das mãos dele uma cobrança judicial? Óbviamente que não, pois todos sabem que o decreto veio de um juiz, o oficial é apenas um intermediário. Por isso, quando alguém nos faz causa um sofrimento, temos que ter claro que foram os nossos maus atos que causaram isso, e D'us já havia nos decretado este sofrimento. Por isso não temos que pensar em vingança contra o agressor, já que ele não é a causa, é apenas um intermediário; a causa são os nossos próprios maus atos. O que sim podemos fazer é justiça, não com as próprias mãos, mas de acordo com os ensinamentos da Torá.

Isso não é uma tarefa fácil, principalmente quando vemos o povo judeu ser diariamente atacado com mísseis ou bombardeado pela imprensa mundial, claramente anti-semita. Mas é justamente o momento de colocar no coração que nosso problema não é o Hamas, nem os palestinos, nem os jornalistas, eles são apenas instrumentos de D'us. O nosso verdadeiro problema é o ódio gratuito dentro do povo judeu e o nosso afastamento das Mitzvót. Sabendo olhar da maneira correta os acontecimentos, poderemos utilizar nossas energias para eliminar a raiz do problema, ao invés de ficar sempre focando no que é apenas a consequência e não a causa.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm