quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIEHI 5769

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APENAS UM PEQUENO FURO - PARASHÁ VAIEHI 5769 (09 de janeiro de 2009)

"Havia um homem muito rico, dono de um castelo com vários andares. Certo dia chegou um visitante, um homem estranho e sombrio. Ele ofereceu comprar o castelo inteiro por R$ 500,00. O dono do castelo riu com a proposta, com a certeza de que aquele homem era um grande tolo. Querendo se divertir às custas dele, o dono do castelo falou que por aquela quantia poderia vender um metro quadrado do jardim. O homem estranho aceitou, mas exigiu que a venda fosse oficializada através de um contrato. O dono do castelo riu da ingenuidade daquele tolo, afinal, o que ele faria com um metro quadrado de jardim? A venda foi feita e formalizada em um contrato.

No dia seguinte, o homem estranho chegou cedo e deixou uma caixa no seu pedaço de jardim. Da caixa começou a exalar um cheiro terrível, que incomodou o dono do castelo. Imediatamente ele foi exigir que o homem retirasse aquela caixa de sua propriedade, mas o homem mostrou o contrato de venda e informou que, já que aquele metro quadrado era sua propriedade, podia fazer o que quisesse. O dono tentou recomprar aquele metro quadrado, ofereceu até dez vezes mais, porém o homem não quis conversa.

O cheiro ficou tão forte que o dono do castelo e sua família tiveram que se mudar para o segundo andar. Com o passar dos dias também o segundo andar ficou inabitável e eles tiveram que se mudar para o terceiro andar. E assim foi até que finalmente o dono e sua família tiveram que abandonar o castelo. No final, aquele homem sombrio ficou com todo o castelo, por causa da venda de um mísero metro quadrado de jardim. O dono então entendeu que na verdade o homem estranho não tinha nada de tolo, era muito esperto. O tolo, o tempo todo, havia sido ele mesmo"

Assim também é o nosso Yetzer Hará (má-inclinação). Ele sabe que não é fácil nos convencer a fazer grandes transgressões. Então tudo o que ele nos pede é apenas uma pequena abertura, e quando nos damos conta, perdemos tudo...
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Na Parashá desta semana, Vaiehi, Yaacov reuniu todos os seus filhos para abençoá-los antes de sua morte. Yaacov também fez com que Yossef jurasse que não o enterraria no Egito, e sim na Mearat Hamachpelá, na terra de Israel, junto com Avraham e Itzchak. Ele insistiu para que Yossef jurasse pois sabia que o faraó se sentiria insultado por Yaacov ser enterrado em Israel, após toda a generosa hospitalidade que os egípcios haviam oferecido. Ser enterrado em Israel significava que, apesar de morarem no Egito, eles não se consideravam egípcios, e portanto sabia que o faraó não permitiria facilmente.

E realmente foi o que aconteceu, o faraó se irritou quando Yossef informou que queria enterrar Yaacov em Israel, e não quis permitir. Quando Yossef viu que não conseguiria convencê-lo com nenhum argumento, contou ao faraó que não tinha escolha pois havia feito um juramento ao seu pai. O Midrash (parte da Torá Oral) conta que o faraó ainda insistiu para Yossef juntar sábios judeus e cancelar o juramento (o que, segundo a lei judaica, é permitido em certos casos). Yossef disse ao faraó que se cancelasse este juramento, também acabaria cancelando um outro juramento que havia feito alguns anos antes, no qual se comprometera a não revelar um grande segredo do faraó. Ao escutar estas palavras o faraó finalmente permitiu que Yaacov fosse enterrado em Israel. Mas deste Midrash surgem duas grandes perguntas: de que juramento Yossef estava falando? E além disso, como Yossef se dirigiu ao faraó, o homem mais poderoso do Egito, com tamanha prepotência, chantageando-o e ameaçando revelar seus segredos caso não aceitasse seu pedido?

Quando o faraó quis colocar Yossef na posição de vice-rei, muitos egípcios foram contra, pois ele era apenas um escravo. O faraó então mostrou que Yossef vinha de uma linhagem nobre e, como ele, sabia falar 70 idiomas, como exigia a lei egípcia para que um homem se tornasse governante. Porém, durante o teste ao qual Yossef foi submetido, o faraó descobriu que Yossef falava um idioma a mais do que ele, o Lashon Hakodesh (língua com a qual D'us escreveu a Torá e criou o mundo). O faraó, envergonhado e com medo que o povo egípcio descobrisse que o deus deles era limitado, fez Yossef jurar que nunca revelaria isso para ninguém.

Nos ensina o livro Messilat Yesharim (Caminho dos justos) que o Yetzer Hará, nosso mal instinto, é profissional em todos os tipos de guerra e sabe exatamente como lutar conosco. Ele sabe que batendo de frente não consegue nos enganar e nos fazer cometer transgressões graves. Então sua tática é ir abrindo pequenas brechas. Ele é como um cachorro, diante de uma porta bem fechada não pode fazer nada, mas uma pequena fresta é suficiente para que consiga empurrar a porta até entrar. Portanto, Yossef não estava sendo prepotente nem estava chantageando o faraó, ele estava apenas ensinando uma lei espiritual. Enquanto ele nunca havia cancelado nenhum juramento, é como se a porta estivesse fechada. Mas a partir do momento em que ele abrisse uma brecha, cancelando um juramento, seria muito mais fácil chegar a cancelar outros juramentos também.

Vimos esta lei se aplicando durante toda a história do povo judeu. Muitos consideram o judaísmo como sendo "extremista" por conter muitas leis. Porém, são justamente estas leis que mantém o judaísmo vivo por mais de 3.000 anos. Se olharmos nosso passado, perceberemos que todos os movimentos de assimilação do povo judeu começaram com pequenas mudanças. No mais recente, Moshe Mendelsohn, criador do Reformismo, queria apenas "tirar o peso" do judaísmo. Qual foi a consequência das "pequenas" mudanças que ele implantou, sob o lema de "seja um bom judeu em casa, mas um bom alemão na rua"? Seu neto, Félix Mendelsohn, compositor da Marcha Nupcial, não era mais judeu.

Esta lei espiritual também se aplica na vida de cada um de nós. Nenhuma transgressão começa maior do que pequenos delitos. Grandes desvios começaram com pequenas atitudes erradas. Muitas vezes damos pouco valor para pequenos maus atos que cometemos, mas podem ser a abertura para o Yetzer Hará. É como se abríssemos um buraco em uma garrafa, por mais insignificante que pareça, se não for consertado, mais cedo ou mais tarde toda a água se esvaziará. Portanto temos que prestar atenção mesmo às menores transgressões, pois no final serão os detalhes que terão feito toda a diferença.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIGASH 5769

BS"D

TIRANDO UM PESO DAS COSTAS - PARASHÁ VAIGASH 5769 (02 de janeiro de 2009)

O professor pediu para que os alunos trouxessem para a escola batatas e uma bolsa de plástico, para realizarem uma atividade diferente durante a aula. Então ele pediu para que os alunos separassem uma batata para cada pessoa por quem sentiam alguma mágoa, escrevessem os seus nomes nas batatas e as colocassem dentro da bolsa. Algumas das bolsas ficaram muito pesadas.

A tarefa consistia em, durante uma semana, levar a todos os lados a bolsa com as batatas. Naturalmente as batatas foram se deteriorando com o tempo. Além disso, o incômodo de carregar o dia inteiro aquela bolsa mostrava-lhes o tamanho do peso diário que a mágoa ocasiona. E ao colocar a atenção na bolsa para não esquecê-la em nenhum lugar, os alunos deixavam de prestar atenção em outras coisas que eram mais importantes.

Este é o preço que pagamos todos os dias por mantermos a raiva, a bronca e a negatividade. Quando damos importância ao que os outros nos fizeram de mal ou às promessas não cumpridas, nossos pensamentos enchem-se de mágoa, aumentando o stress e roubando nossa alegria. Perdoar e deixar estes sentimentos irem embora é a única forma de trazer de volta a paz e a tranquilidade.

Jogue fora suas "batatas".
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Na Parashá desta semana, Vaigash, após ver que seus irmãos realmente estavam arrependidos de tê-lo vendido, Yossef finalmente se revelou para eles. Os irmãos mal puderam abrir a boca, pela vergonha do que tinham feito e pelo medo de que Yossef, agora o segundo homem mais poderoso do Império Egípcio, teria a oportunidade de se vingar de forma dura, pois certamente deveria ter guardado rancor no coração pelos últimos 22 anos de sofrimentos. Mas Yossef fez justamente o contrário, tratou-os com carinho e consolou-os dizendo: "Não fiquem tristes nem irritados com vocês mesmos por terem me vendido para cá, pois para manter vocês foi que D'us me mandou diante de vocês" (Bereshit 45:5).

Ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que D'us já havia decretado e revelado para Avraham que o povo judeu seria escravizado no Egito, como está dito: "Saiba que seus descendentes serão estrangeiros em uma terra que não será deles. E eles os farão servir e os afligirão por 400 anos. E também a nação a qual eles servirão, Eu a julgarei" (Bereshit 15:13). Como todo escravo, os judeus deveriam ter sido levados ao Egito amarrados em correntes. Yossef estava explicando aos irmãos que a sua venda era parte dos planos Divinos, uma forma que D'us havia encontrado para que Yaacov não precisasse descer forçado ao Egito e pudesse ir de forma honrada. Os irmãos tinham sido apenas um instrumento nas mãos de D'us para cumprir a vontade Dele. Com isso Yossef tranquilizou seus irmãos, mostrando que não havia guardado nenhum rancor.

Mas se é assim, se todos os nossos atos se encaminham automaticamente para cumprir a vontade de D'us, então por que D'us julgou os egípcios e os castigou tão duramente durante a saída do Egito, com as 10 pragas e o afogamento no Mar Vermelho? Afinal, eles estavam apenas cumprindo a vontade de D'us de que os judeus fossem escravos e sofressem com a opressão! Ensinam os nossos sábios que D'us utiliza a livre escolha das pessoas para cumprir a Sua vontade. Se está decretado que uma pessoa deve perder dinheiro, D'us a coloca junto com outra pessoa que, por sua livre escolha, quer roubar. Assim cumpre-se o decreto da pessoa perder dinheiro, mas o ladrão também é punido, pois roubou por sua vontade e escolha.

O mesmo ocorreu com a escravidão do povo judeu. É verdade que os judeus tinham que passar pela escravidão e pelos sofrimentos, mas os egípcios não o fizeram com a intenção de cumprir o que D'us havia decretado, e sim escolheram, por sua má índole, fazer o mal ao povo judeu. D'us somente juntou o povo judeu, que tinha que ser escravizado, com os egípcios, que queriam escravizar. Por isso, apesar de terem cumprido a vontade de D'us, os egípcios foram duramente punidos.

Somos responsáveis por todos os nossos atos, e apesar de que sempre a vontade de D'us se cumpre, seremos cobrados pelo mau uso da nossa livre escolha. Portanto, Yossef não estava dizendo aos irmãos: "Ei, relaxem, vocês não fizeram nada de grave". Ele quis apenas enfatizar que não havia guardado mágoas, apesar deles terem sim cometido um erro ao vendê-lo ao Egito. Ele quis deixar claro aos irmãos que, apesar do erro deles, a vontade de D'us em última instância estava sendo cumprida, e portanto não havia motivos para vingança nem rancor.

Se tivermos este nível de claridade, podemos evitar duas graves transgressões da Torá: "Não se vingue e não guarde rancor" (Vayikrá 19:18). Explica o Sefer HaChinuch que sentimos rancor e vontade de vingança quando alguém nos faz mal e nos machuca. Porém o rancor e a vingança são proibidos pela Torá pois são um grave erro de entendimento. Ninguém pode fazer mal ao outro sem que tenha sido decretado pelo Criador do mundo. Alguém se vinga ou guarda rancor de um oficial de justiça por ter recebido das mãos dele uma cobrança judicial? Óbviamente que não, pois todos sabem que o decreto veio de um juiz, o oficial é apenas um intermediário. Por isso, quando alguém nos faz causa um sofrimento, temos que ter claro que foram os nossos maus atos que causaram isso, e D'us já havia nos decretado este sofrimento. Por isso não temos que pensar em vingança contra o agressor, já que ele não é a causa, é apenas um intermediário; a causa são os nossos próprios maus atos. O que sim podemos fazer é justiça, não com as próprias mãos, mas de acordo com os ensinamentos da Torá.

Isso não é uma tarefa fácil, principalmente quando vemos o povo judeu ser diariamente atacado com mísseis ou bombardeado pela imprensa mundial, claramente anti-semita. Mas é justamente o momento de colocar no coração que nosso problema não é o Hamas, nem os palestinos, nem os jornalistas, eles são apenas instrumentos de D'us. O nosso verdadeiro problema é o ódio gratuito dentro do povo judeu e o nosso afastamento das Mitzvót. Sabendo olhar da maneira correta os acontecimentos, poderemos utilizar nossas energias para eliminar a raiz do problema, ao invés de ficar sempre focando no que é apenas a consequência e não a causa.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ MIKETZ E CHÁNUKA II 5769

BS"D

BUSCANDO O CULPADO PELOS SOFRIMENTOS – PARASHÁ MIKETZ E CHÁNUKA II 5769

"Durante a reunião anual dos alces, o tema principal era a preocupação com os crescentes ataques de leões. Eles estavam buscando uma solução, pois em campo aberto o alce corre muito mais do que o leão. Porém, dentro das florestas eram facilmente alcançados, pois os galhos das árvores se enroscavam nos seus chifres, fazendo com que virassem presas fáceis.

Surgiu então uma idéia: destruir todas as florestas da região. Assim, somente restariam campos abertos e os alces sempre levariam vantagem. A idéia foi prontamente aceita pela maioria e muito festejada. No meio de toda a comemoração levantou-se um alce idoso e falou:

- Vocês são muito jovens, não conhecem a natureza e por isso não percebem o quanto essa idéia é tola. Quando terminarem de destruir a primeira floresta e partirem para a segunda, a primeira começará a crescer de novo. Quando forem destruir a terceira, a primeira já estará praticamente restabelecida, e assim por diante. Todo o trabalho executado será em vão.

Esta intervenção gerou uma grande bagunça, todos os alces começaram a gritar e a falar ao mesmo tempo. Novamente o alce idoso pediu a palavra:

- Eu não vim apenas trazer um problema, eu vim trazer a solução. Ao invés de cortar as florestas que nos atrapalham, porque não cortamos a fonte de todo o problema: os nossos próprios chifres?"

Buscamos sempre os culpados por todos os nossos problemas, ao invés de procurar a fonte de todas as dificuldades no lugar correto: em nós mesmos. Se prestarmos atenção, a grande maioria dos buracos onde caímos foram cavados por nós mesmos.
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Na véspera deste Shabat acenderemos a sexta vela de Chánuka. Ao acender as velas estamos revivendo o milagre que ocorreu durante o domínio grego, na época do Segundo Beit Hamikdash (Templo Sagrado). Os gregos, a maior potência militar da época, haviam conquistado Jerusalém e impurificado o Beit-Hamikdash. Quando os judeus reconquistaram Jerusalém e o Templo em uma heróica e milagrosa batalha, foram reacender a Menorá, mas havia sobrado apenas um pote de óleo puro. Um milagre aconteceu e o óleo durou por oito dias, tempo suficiente para que fosse produzido mais óleo puro. A Parashá desta semana, Miketz, sempre coincide com a festa de Chánuka. Qual a conexão entre as duas? E por que mencionamos e revivemos tanto o milagre do óleo, enquanto o milagre da batalha não é tão mencionado?

Na Parashá Miketz, Yossef foi elevado a vice-rei do Egito após interpretar os sonhos do faraó. Após sua ascensão ao trono, passaram-se sete anos de muita abundância no Egito e logo depois uma grande fome assolou o mundo inteiro. Yossef, que havia visto nos sonhos do faraó um prenúncio desta seca após os anos de abundância, armazenou uma grande quantidade de comida, suficiente para alimentar todo o povo durante os anos de escassez. A seca atingiu também a terra de Israel, obrigando os irmãos de Yossef a descem ao Egito em busca de comida. Yossef logo reconheceu seus irmãos, mas eles não o reconheceram, pois no momento em que eles o venderam como escravo, 22 anos antes, Yossef era apenas um jovem de 17 anos. Yossef fez seus irmãos passarem por vários testes e os tratou de forma dura, para ter certeza de que estavam arrependidos por terem-no vendido como escravo.

Mas algo nos chama a atenção sobre o comportamento dos irmãos no momento em que passavam pelos testes e sofrimentos. Eles poderiam ter colocado a culpa dos sofrimentos no malvado vice-rei do Egito, que os tratava muito mal sem nenhum motivo. Eles poderiam achar que era tudo uma grande coincidência, um grande azar. Eles poderiam ter reclamado e se queixado contra D'us. Mas em nenhum momento eles reclamaram de D'us ou acharam que D'us estava sendo injusto, nem procuraram em quem colocar a culpa. Durante todos os testes e sofrimentos, a primeira atitude que eles tiveram foi refletir e tentar entender qual era o erro que eles poderiam ter cometido que havia causado, como consequência, aqueles sofrimentos, como está escrito: "E então um disse para o outro: 'Pois nós somos culpados pelo que passou com nosso irmão, pois vimos o seu terrível sofrimento quando ele nos implorou por sua vida, e nós não demos ouvidos. É por isso que este sofrimento recaiu sobre nós' " (Bereshit 42:21). Os irmãos de Yossef eram Tzadikim (justos), sabiam que não existia acaso, sabiam que por trás de cada sofrimento está a mão perfeita e justa de D'us. Por isso imediatamente procuraram o motivo pelo qual estavam sendo punidos, para poderem se arrepender e consertar o erro.

Este fundamento foi o que também salvou a vida dos judeus durante a dominação grega. Quando os gregos invadiram Jerusalém e conquistaram o Beit-Hamikdash (Templo Sagrado), os judeus poderiam ter se resignado a reclamar de D'us ou colocar a culpa nos tiranos gregos que enfernizavam suas vidas. Mas eles não fizeram isso, eles pararam para refletir e tentar entender o porquê daqueles sofrimentos. Se D'us havia ordenado a construção do Beit-Hamikdash, por que havia permitido que os gregos o conquistassem e o impurificassem? Eles entenderam que certamente não estavam fazendo o serviço do Beit-Hamikdash da maneira correta, algo estava faltando. Refletiram e viram que, apesar de realizarem todo o serviço, o faziam com preguiça e desânimo, como se fosse um grande peso. D'us então os puniu, Midá Kenegued Midá (medida por medida), fazendo com que fossem proibidos de realizar qualquer serviço no Beit-Hamikdash.

O povo judeu entendeu o recado de D'us, fizeram Teshuvá (retornaram aos caminhos corretos) e decidiram arriscar suas vidas para ter de volta o Beit-Hamikdash. Quando venceram a batalha e expulsaram os gregos, os judeus estavam espiritualmente impuros por terem entrado em contato com mortos, e por isso teriam que esperar 7 dias para poderem produzir óleo em um estado de pureza. Mesmo que a Halachá (lei judaica) permitia que um óleo impuro fosse utilizado, já que a maioria do povo judeu estava em um estado de impureza, mesmo assim os judeu decidiram fazer mais do que lhes era exigido. Quando os judeus mostraram para D'us que estavam realmente arrependidos e que voltariam a fazer o serviço do Beit-Hamikdash com alegria, Ele fez a Sua parte, mantendo acesa a Menorá por 8 dias consecutivos, até que um novo óleo puro pôde ser produzido.

O milagre do óleo não foi somente para manter a Menorá acesa, foi uma forma de D'us nos mostrar que Ele havia nos perdoado. Apesar do milagre da batalha ter sido muito grande, o milagre do óleo ocorre até hoje, isto é, o milagre de, apesar de muitas vezes apenas fazermos Teshuvá por causa dos sofrimentos que recebemos, mesmo assim D'us nos recebe de volta de braços abertos.

Nossos sábios explicam que estamos vivendo na geração que precede a vinda do Mashiach. Ensina o Rav Tauber, em seu livro "Os dias estão chegando", que o Talmud traz 15 sinais para identificar a época da vinda do Mashiach, e que a maioria dos sinais estão se cumprindo nos nossos dias. Um dos sinais é que a face desta geração será igual à face de um cachorro. O que isto significa? Quando batemos em um cachorro com um bastão, ele imediatamente ataca o bastão, porque não consegue entender que existe alguém por trás que está comandando o bastão. Ele vê o bastão como o motivo de seu sofrimento e o ataca. Exatamente assim se comporta a nossa geração. Quando passamos por sofrimentos e dificuldades, a primeira coisa que fazemos é procurar os culpados ou achar que tudo foi um acaso, um azar. Os culpados são os palestinos, é o Hamas, é o presidente do Irã. As tragédias naturais, como as chuvas em Santa Catarina, que mataram mais de 100 pessoas e deixaram milhares de desabrigados, são apenas desequilíbrios na natureza. Esquecemos que D'us está por trás de tudo isso, nos chamando a atenção, nos despertando.

Nos ensina Shlomo Hamelech (Rei Salomão), o mais sábio de todos os homens: "Não há Tzadik no mundo que faz o bem e não erra". Todos cometemos erros, todos caímos de vez em quando. D'us, por amos aos Seus filhos, nos manda avisos quando erramos. Podemos reviver todos os dias da nossa vida o milagre do óleo, sabendo escutar os sinais que D'us nos manda para podermos consertar nosso atos, ou podemos escolher viver como os gregos, achando que todos os sofrimentos e dificuldades são apenas uma grande coincidência.

"Se eu não tivesse caído, não teria me levantado. Se eu não tivesse sentado na escuridão, não teria trazido sobre mim a luz" (Midrash Tehilim)

SHABAT SHALOM E CHÁNUKA SAMEACH

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - CHÁNUKA 5769

BS"D

A VERDADEIRA RIQUEZA - CHÁNUKA 5769 (19 de dezembro de 2008)

"Em uma aldeia próxima de Cracóvia, na Polônia, morava um camponês muito pobre chamado Itzik, que tinha uma vida muito pacata e sem novidades. Mas algo aconteceu que mudou completamente sua vida. Ele começou a ter um sonho estranho, que se repetia várias vezes. No sonho ele via que sob uma certa ponte de Praga estava enterrado um enorme tesouro, que pertenceria a quem o desenterrasse. Nas primeiras vezes ele não deu importância ao sonho, considerando-o inclusive absurdo, mas após inúmeras repetições, começou a levar a sério. Como poderia ele, que não tinha um centavo, viajar até Praga? A idéia não lhe dava sossego, e apesar de sua esposa insistir para que ele tirasse aquela idéia maluca da cabeça, ele decidiu que daria um jeito de ir até Praga para encontrar o tesouro. Juntou algumas míseras provisões e partiu.

Quando Itzik tinha sorte, viajava de carona em algum veículo que passava. Caso contrário ele caminhava, mendigando restos de comida em hospedarias pelo caminho e dormindo sob as árvores. Assim, depois de muitas semanas, Itzik chegou em Praga e procurou a ponte que aparecia no seu sonho. Encontrou-a e imediatamente começou a cavar. Porém, para sua infelicidade, naquele momento estava passando por ali um policial que, vendo sua atitude suspeita, se aproximou gritando:

- Ei, o que você está fazendo? O que você deseja aqui?

Itzik pensou em inventar alguma mentira, mas sabia que não seria acreditado. Ele não teve outra solução a não ser simplesmente contar toda a verdade. Ele descreveu o seu sonho ao policial e contou detalhes de todas as semanas de esforço e sofrimento para conseguir chegar até Praga. O policial começou a rir:

- Seu tolo, por causa de um sonho bobo você fez esta longa viagem? Bem, eu também tenho tido um sonho repetitivo. Tenho sonhado que em uma pequena aldeia perto de Cracóvia existe uma casinha de madeira, que pertence a um camponês chamado Itzik, e debaixo desta casinha está enterrado um imenso tesouro. Você acha que eu gastaria meu precioso tempo e o meu dinheiro por causa de um sonho bobo desses?

Ao escutar aquelas palavras, Itzik tremeu. Arrumou suas coisas e voltou imediatamente para casa. Ao escavar o chão da sua casa, descobriu um imenso tesouro".

Muitos procuram a maior riqueza de todas, a felicidade, em lugares distantes. Gastam uma energia enorme procurando-a no mundo material. "Quando tiver isso, serei feliz". Mal sabem que a felicidade que buscam se encontra dentro delas mesmas, em suas almas. Não há necessidade de percorrer longas distâncias, pois ela está ali, ao alcance de todos, dentro de cada um de nós.
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Na noite do próximo Domingo (21 de dezembro) acenderemos a primeira vela de Chánuka, revivendo a vitória militar e ideológica contra os gregos, na época do Segundo Templo. Nossos sábios explicam que não foi apenas uma vitória na batalha, foi o fim de um dos exílios do povo judeu, o exílio grego.

A palavra exílio nos lembra da idéia de expulsão, de ser retirado da nossa terra e ser levado para outro lugar. Mas se estudarmos o período de dominação grega, o povo judeu viveu em Israel e nunca houve nenhuma tentativa de nos tirar de lá. Então por que os nossos sábios chamam este período de "Exílio Grego"?

A resposta está nos primeiros versículos da Torá: "No princípio D'us criou os céus e a terra. E a Terra estava desolada e vazia, e havia escuridão sobre a face do abismo, e o espírito de D'us pairava sobre a face das águas. E disse D'us: "Haja luz", e houve luz" (Bereshit 1:1-3). Há um Midrash (parte da Torá Oral) que que nos ensina que o exílio grego já estava indicado nos primeiros versículos da criação do mundo, nas palavras "e havia escuridão". Como esta escuridão foi afastada? Com a luz que D'us criou no primeiro dia. Mas que luz é esta, já que os astros somente foram criados no quarto dia? Esta luz é uma luz espiritual, não uma luz física. A escuridão era, portanto, uma ausência de espiritualidade. Esta é a essência do exílio grego.

O Helenismo, a cultura grega, glorificava o ser humano, tanto seu corpo quanto seu intelecto. Para os filósofos gregos, o mundo era governado por leis naturais inteiramente acessíveis ao intelecto humano. A cultura Ocidental é o legado desta visão grega. Muitos vivem imersos em um mundo onde não existe nenhuma realidade além do mundo material que nossos olhos enxergam. Outro legado grego é a "moralidade relativa", que nega a existência de um certo e errado absolutos pois se apóia na capacidade intelectual do ser humano de definir o certo e o errado. Isso causa com que muitas pessoas vivam completamente desprovidas de sentido em suas vidas, o que pode ser visto nos inúmeros casos de depressão, que ataca até mesmo jovens e crianças. Segundo os ensinamentos que ficaram dos gregos, somos apenas átomos organizados, um mero acaso no infinito universo. O entendimento profundo do universo foi substituído por explicações superficiais apenas porque eram mais entendidas pelo limitado intelecto humano.

O judaísmo, por outro lado, ensina que as leis da natureza existem, mas estão subordinadas a uma realidade superior. O intelecto humano é a ferramenta mais poderosa e confiável do ser humano, mas nada mais do que isso. Existe uma realidade moral e espiritual objetiva, mesmo que nem sempre o intelecto e nossos sentidos físicos possam captá-las e compreendê-las em sua totalidade.

A batalha foi difícil, e muitos judeus se deixaram seduzir pelas idéias gregas. Mesmo vivendo em Israel, o povo judeu estavam em exílio, não um exílio físico, mas sim um exílio espiritual. A escuridão da filosofia grega ameaçava contaminar todo o brilho do judaísmo. O judaísmo milagrosamente venceu a batalha, mas a guerra ainda não terminou, pois apesar dos gregos não mais existirem, seu legado continua, como definiu Winston Churchill no seu livro 'A história da Segunda Guerra mundial': "Nenhum outro povo conseguiu, como os judeus e os gregos, deixar uma marca tão forte no mundo inteiro, cada um em um ângulo completamente diferente". A luta continua, entre o entendimento de que existe uma Força Superior versus a vontade de acreditar somente no que os olhos enxergam. Entre a filosofia de que este mundo material é apenas um meio versus a idéia de que o mundo material é o propósito de tudo.

Não foi por coincidência que a vitória judaica sobre os gregos culminou em um milagre relativamente pequeno: um pote de óleo que deveria durar 1 dia mas durou 8 dias. Para os pensadores gregos, o mundo material é tudo o que temos. O óleo queimando por 8 dias é um símbolo que deixa para o mundo a idéia de que dentro do mundo material dos gregos existe uma outra dimensão. O desafio dos judeus é ver além do mundo físico e elevá-lo, permitindo que o potencial espiritual possa brilhar.

Para comemorar nossa vitória colocamos velas em nossas janelas, para que brilhem e iluminem a escuridão. Uma iluminação não apenas física, mas principalmente espiritual. É a mensagem de que, apesar de muitos pensarem que o ser humano é apenas um monte de células casualmente organizadas, a realidade é que dentro de cada um de nós brilha uma alma, esperando o momento de ser acendida e preencher seu potencial espiritual. Essa é a mensagem de Chánuka, esta é a mensagem do povo judeu para o mundo. Esse é o trabalho para o qual fomos escolhidos como "Luz para as nações".

SHABAT SHALOM E CHÁNUKA SAMEACH

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAISHLACH 5769

BS"D

ENCURTANDO A DISTÂNCIA ESPIRITUAL - PARASHÁ VAISHLACH 5769 (12 de dezembro de 2008)

"Em uma aula o professor perguntou aos seus alunos:

- Por que as pessoas gritam quando estão bravas umas com as outras?

Os alunos não sabiam a resposta, mas muitos tentaram arriscar. Um dos alunos respondeu que as pessoas gritam porque perdem a calma, mas a resposta não convenceu o professor, pois perder a calma não explica o ato de gritar com alguém que está perto de você. Outro aluno respondeu que as pessoas gritam porque querem que a outra pessoa escute. Mas isso também não convenceu o professor, afinal, se duas pessoas estão uma do lado da outra, é suficiente falar baixo para ser escutado. Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o professor. Até que um dos alunos se levantou e falou:

- Acho que eu sei a resposta. Quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito. Para cobrir esta distância, precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para ouvir um ao outro, pois maior a distância entre seus corações. Mas ao contrário, quando duas pessoas se amam, elas falam suavemente, pois seus corações estão muito perto um do outro. E quando o amor é muito intenso não necessitam sequer falar, apenas um olhar carinhoso basta para seus corações se entenderem."

Esta é a lição que fica: quando duas pessoas discutem, devem tomar cuidado para não deixar que seus corações se afastem, devem evitar dizer palavras que os distanciem mais, pois podem chegar a uma distância tamanha que não encontrarão mais o caminho de volta.
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A Parashá desta semana, Vaishlach, nos conta sobre a volta de Yaacov para casa, depois de passar muitos anos fugindo de seu irmão Essav. Essav era o filho primogênito de Itzchak e tinha direito a uma Brachá (benção) especial. Porém, como estava ligado somente à busca de prazeres do mundo material, ele desprezou seu direito espiritual da primogenitura e vendeu-a para Yaacov por um prato de lentilhas. Mas quando Essav viu que Yaacov havia recebido a Brachá no seu lugar, ele se arrependeu, odiou seu irmão com todas as suas forças e decidiu em seu coração que iria matá-lo. Yaacov fugiu para a casa de seu tio Lavan, onde casou-se e construiu uma família. Passados 34 anos, ele acreditava que o ódio de Essav já havia passado e decidiu voltar.

Porém, a Parashá nos ensina justamente o contrário. Yaacov enviou mensageiros para buscar uma reconciliação com Essav, mas eles voltaram com um terrível relato: Essav vinha ao encontro de Yaacov acompanhado de 400 homens, certamente não em missão de paz. O encontro seria explosivo, e Yaacov se preparou para a inevitável batalha sangrenta. Mas algo estranho aconteceu no caminho, pois a Parashá conta que finalmente os irmãos se encontraram, se abraçaram e choraram um sobre o ombro do outro. O que ocorreu que causou esta mudança tão drástica nos acontecimento?

Conhecemos as leis do mundo material e sabemos o quanto elas são rígidas. Se jogamos para cima uma maça, a força da gravidade faz com que a maça caia de volta. Da mesma forma, o mundo espiritual também tem suas leis rígidas. Nos ensina Shlomo Hamelech (Rei Salomão), o mais sábio de todos os homens, em seu livro Mishlei (Provérbios), uma das leis espirituais que regem o mundo: "Da mesma forma que a água reflete o rosto da pessoa, assim também o coração do homem reflete o coração de seu companheiro". Quando uma pessoa olha para a água, ela vê seu próprio rosto refletido. Se ela sorri, vê um rosto sorridente, mas se ela está irritada, vê refletido um rosto tenso e irritado. Nos ensina Shlomo Hamelech que assim também ocorre entre as pessoas, vemos refletido nas outras pessoas o nosso próprio comportamento. Se sorrimos recebemos de volta um sorriso, se gritamos recebemos de volta um grito. O que sentimos por outra pessoa no nosso coração, ela também sente por nós.

Yaacov conhecia muito bem as leis do mundo espiritual. Quando estava voltando e recebeu a notícia de que seu irmão estava vindo contra ele com um exército, entendeu que o ódio era grande demais, maior do que havia imaginado, pois continuava fervendo mesmo depois de 34 anos. Ele entendeu que se Essav o odiava tanto era porque ele provavelmente também deveria estar mantendo no coração, mesmo sem perceber, um ódio pelo seu irmão. A Torá nos ensina que devemos odiar o pecado e não o pecador. Por mais que Yaacov estava correto em odiar os atos abomináveis de seu irmão Essav, ele entendeu que havia ido além, havia guardado em seu coração um grande ressentimento por Essav. Quando percebeu isso, Yaacov começou imediatamente a se esforçar para arrancar do coração todo o ódio que estava guardado. E finalmente, quando eles se encontraram, o ódio do coração de Yaacov já havia sido retirado e, como um espelho, o ódio do coração de Essav também desapareceu.

Essa lei espiritual também se aplica para nós. Quando temos algum problema de relacionamento com outra pessoa, é muito fácil colocar a culpa no outro. Mas Yaacov nos ensinou que se há algo de errado no relacionamento, certamente há algo de errado no nosso próprio coração. Como em um espelho, não adianta tentar mudar o reflexo sem mudar algo em nosso próprio comportamento.

Quando há um incêndio, todos sabem que não se combate fogo com fogo. Gritos não resolvem problemas, apenas os pioram. Em momentos de nervosismo, falar de maneira tranquila pode mudar o rumo das coisas. Guardar rancor faz mal para nós e para os outros. Um sorriso, um pedido de desculpas quando erramos e um abraço carinhoso são atos aparentemente simples, mas que podem tocar no fundo da alma de uma pessoa. É fácil criticar a violência no mundo, o difícil é cada um dar a sua contribuição para a paz.

"A vida é como jogar uma bola na parede. Se você joga uma bola azul, recebe de volta uma bola azul. Se joga uma bola com força, recebe de volta uma bola com força. Por isso, nunca "jogue uma bola" na vida de forma que você não esteja pronto a recebê-la de volta" (Albert Einstein).

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIETZE 5769

BS"D

QUEM É O VALENTE? - PARASHÁ VAIETZE 5769 (05 de dezembro de 2008)

O rabino Chizkiahu Madini, que se tornou um grande estudioso de Torá, conta que quando era jovem não tinha nenhum talento especial para o estudo, enquanto muitos outros jovens do Colel (centro de estudos de Torá para pessoas casadas) onde ele estudava se destacavam pelo brilhantismo. Apesar disso ele sempre era o primeiro a chegar e estudava com dedicação. Logo começou a ter bons resultados e a chamar a atenção das outras pessoas. Um dos outros estudantes do Colel começou a ficar com muita inveja e bolou um plano para caluniá-lo e fazer com que fosse expulso. O invejoso subornou uma empregada árabe, que todos os dias vinha fazer a limpeza do local, para que ela dissesse a todos que aquele jovem estudante havia tentado agarrá-la.

Em uma certa manhã a empregada árabe entrou na sinagoga e viu que apenas o jovem estudante já havia chegado e estava imerso nos seus estudos. Quando ela viu que os outros estudantes começavam a entrar no prédio, saiu da sinagoga gritando que havia sido atacada e agarrada à força. Todos ficaram indignados com o comportamento daquele jovem pervertido e começaram a agredi-lo com ofensas e palavras duras. O rapaz conseguiu fugir antes dos outros estudantes chegarem ao nível de agredi-lo fisicamente. A história ficou conhecida em toda a cidade, causando um grande Hilul Hashem (diminuição do nome de D'us no mundo), pois todos acreditaram cegamente na empregada. O único que não acreditou foi o Rosh Colel (rabino chefe), que conhecia bem o rapaz e sabia que ele seria incapaz de fazer algo assim. Apesar dos protestos, manteve o rapaz no Colel e imediatamente despediu a empregada.

Depois de algum tempo o dinheiro do suborno terminou e a empregada árabe foi procurar o rapaz que ela havia caluniado. Ela chorou muito, pediu perdão pelo que havia feito e se comprometeu a ir desmentir em público tudo o que havia ocorrido, revelando a todos que um dos estudantes do Colel a havia subornado para que ela espalhasse a calúnia. A única coisa que ela pediu em troca de limpar o nome do rapaz foi que ele falasse com o Rosh Colel e o convencesse a readmiti-la no emprego, pois ela não tinha mais dinheiro nem mesmo para comprar comida.

O rapaz começou a sentir uma guerra se travando dentro dele. Por um lado ele estava feliz pela oportunidade de limpar seu nome e provar para todo mundo que era inocente. Mas um outro pensamento o incomodava, pois um grande Hilul Hashem já havia sido causado, e se a verdadeira história viesse à tona um novo Hilul Hashem seria causado pelo comportamento vergonhoso do outro estudante. Ele seria humilhado em público, perderia o emprego e o respeito de todos. Por isso talvez seria melhor continuar aguentado a humilhação calado, até que a raiva das pessoas passasse. A luta interna era terrível e a cada instante ele mudava de idéia. Finalmente ele virou-se para a empregada e falou:

- Sobre o que você me pediu para convencer o Rosh Colel a recontratá-la, eu concordo em tentar. Mas eu te proíbo, com todas as minhas forças, de contar a qualquer um sobre o suborno e a calúnia!

O rabino Chizkiahu Madini conta que no momento em que ele tomou aquela difícil decisão, que poderia colocar em risco todo o seu futuro como estudante de Torá, ele sentiu que todas as Fontes de sabedoria haviam sido abertas diante dele. Ao invés de qualquer dano, ele meritou uma grande ajuda dos Céus e se tornou um grande e destacado estudante de Torá.
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Na Parashá desta semana, Vaietze, Yaacov fugiu para escapar da raiva de seu irmão Essav, que queria matá-lo. Foi para a casa de seu tio Lavan, que tinha duas filhas, Rachel e Lea. Yaacov se apaixonou por Rachel, a filha mais nova, não por sua beleza física, mas por suas características espirituais. Como não tinha nenhum dinheiro para o dote, Yaacov trabalhou sete anos por Rachel.

A Torá nos conta que Lavan era uma pessoa extremamente desonesta em todos os seus atos e tentou enganar Yaacov durante todos os anos em que ele trabalhou por Rachel. Yaacov era exatamente o oposto, uma pessoa correta e honesta. Mas Yaacov não era tonto, ele sabia que seu tio faria de tudo para enganá-lo e tentou se precaver de todas as maneiras possíveis. E assim está escrito: "Yaacov amou Rachel, e então ele disse (para Lavan): 'Eu trabalharei para você sete anos por Rachel, a sua filha, a mais nova" (Bereshit 29:18). Por que Yaacov teve que falar "a sua filha, a mais nova"? Ele falou "a sua filha" pois sabia que se falasse apenas "Rachel", Lavan traria aos final dos sete anos uma outra mulher chamada Rachel. E Yaacov também falou "a mais nova" pois imaginou que Lavan poderia trocar o nome de suas filhas. E se mesmo assim Lavan tentasse enganá-los, Yaacov combinou com Rachel um código que ela deveria dizer no momento do casamento, quando estivesse com a cabeça coberta pelo véu e não fosse possível enxergar seu rosto. Mas a Torá nos ensina que, apesar de todos os esforços de Yaacov, Lavan teve sucesso em trocar as filhas. Como isso foi possível?

Nos ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que o povo judeu, durante a época do Primeiro Beit-Hamikdash (Templo Sagrado), cometeu o terrível pecado da idolatria. D'us decidiu destruir o Beit-Hamikdash e exilar o povo judeu para sempre. Imediatamente as almas dos patriarcas e das matriarcas começaram a implorar por misericórdia. Mas a transgressão era tão grave aos olhos de D'us que nem os méritos de Avraham, nem de Itzchak nem de Yaacov eram suficientes. Somente quando Rachel chorou e implorou por perdão D'us escutou e falou: "Suas lágrimas não foram em vão, Rachel. Pelos seus méritos Eu trarei no futuro o povo judeu de volta do exílio". Qual foi o grande mérito de Rachel?

No dia do casamento de Rachel com Yaacov, ela estava muito feliz, afinal havia encontrado um grande Tzadik com que poderia construir uma casa com muita espiritualidade. Porém, no decorrer do dia começou a perceber que algo estranho estava acontecendo. Ao invés de seu pai Lavan prepará-la para o casamento, quem estava sendo preparada era sua irmã Lea. Ela entendeu que as suspeitas de Yaacov estavam corretas, pois Lavan ia mesmo tentar enganá-los. Quando Lea estava saindo para o casamento, Rachel lembrou-se do código que havia combinado com Yaacov. Ficou pensando o que aconteceria quando Lea fosse desmascarada sob a Chupá, diante de centenas de convidados. Ficou imaginando a vergonha e a humilhação que ela passaria na frente de todos. Juntando todas as suas forças, Rachel correu até Lea e contou-lhe o código. Yaacov havia se precavido contra todas as formas de enganação, mas nunca havia lhe passado pela cabeça que Rachel poderia chegar naquele nível espiritual quase sobre-humano de abrir mão de sua felicidade para não envergonhar sua irmã em público. E somente assim foi possível que realmente Lavan enganasse Yaacov.

Quando a alma de Rachel apresentou-se diante de D'us para pedir misericórdia pelo povo judeu, ela falou: "Criador do Universo, eu esperei sete anos para me casar com o meu amado Yaacov. Meu pai tramou para me trocar pela minha irmã Lea, e quando eu percebi que Lea seria envergonhada se a trama fosse descoberta, então eu tive compaixão pela minha irmã e ensinei para ela o código. Eu superei meus próprios sentimentos e não fui egoísta. Eu permiti a presença de uma concorrente na minha própria casa. Portanto, se eu fui capaz de fazer isto, Você, que é infinitamente misericordioso, também pode perdoar o Seu povo que, por uma falha, colocou um concorrente na Sua casa". D'us concordou com Rachel e prometeu, pelos méritos dela, trazer de volta o povo judeu.

Vivemos em um mundo onde o valente é aquele que não leva desaforo para casa e que defende a sua honra através do uso da violência. Valente é aquele com língua afiada, rápido em responder qualquer ofensa com palavras duras. Mas esta definitivamente não é a visão da Torá, como nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Quem é o valente? Aquele que vence a sua má-inclinação". Muitos na história conseguiram conquistar cidades mas não conseguiram conquistar seus próprios instintos.

A salvação do povo judeu virá pelos méritos de Rachel. Dela aprendemos o enorme valor de uma pessoa fechar a boca para não humilhar outra pessoa em público. Os nossos sábios ensinam que o mundo é sustentado por aquele que fecha a boca no momento da discussão. Passar por cima da raiva não é sinal de covardia, é sinal de grandeza, pois se você bate em um animal, ele imediatamente revida. O que nos eleva acima de todo o mundo material é a capacidade de não revidar, a força de manter o controle, mesmo nas condições mais adversas.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ TOLDOT 5769

BS"D

QUEM QUER SOFRIMENTOS? - PARASHÁ TOLDOT 5769 (28 de novembro de 2008)

Havia um homem que vivia com constantes sofrimentos. Ele e sua família tinham muitas doenças, sofriam com a falta de dinheiro e passavam por outras dificuldades. Um dia ele decidiu visitar o Rav Shalom Shrabi, um grande sábio, para perguntar como entender o comportamento de D'us e o que ele poderia fazer para que as coisas melhorassem e os sofrimentos diminuíssem. Após uma longa e cansativa viagem a pé, ele chegou na casa do rabino e foi recebido pela rabanit (esposa do rabino), que o convidou a entrar, sentar em um confortável sofá e aguardar o rabino, que estava resolvendo outro problema. O homem estava tão cansado por causa da viagem que caiu em um sono profundo. Começou a sonhar e se viu em uma grande estrada, completamente deserta, onde não se escutava nenhum ruído. De repente escutou um barulho vindo de longe. Uma carruagem cheia de anjos brancos passou em alta velocidade e logo desapareceu no horizonte. Mais alguns minutos e novamente o silêncio foi quebrado pelo barulho de uma carruagem cheia de anjos escuros, de aparência atemorizante, que também logo sumiu no horizonte.

Curioso, ele apertou o passo para saber onde terminava a estrada. Finalmente chegou em uma praça, onde ele viu as carruagens estacionadas. No centro da praça havia uma balança gigantesca, e os anjos desciam das carruagens e se dirigiam à balança. O homem viu que em cada anjo havia uma pequena placa. Nos anjos brancos estavam escritas várias Mitzvót, como por exemplo estudo da Torá, Tefilá (reza) e honrar os pais. Já nos anjos escuros estavam escritas várias transgressões, tais como Lashon Hará (falar mal dos outros), roubo e inveja. O homem entendeu que ali era o Tribunal Celestial, e alguém estava sendo julgado. Cada Mitzvá que a pessoa tinha feito na vida havia criado um anjo branco e cada transgressão havia criado um anjo escuro. Quando o homem se aproximou da balança, viu que era o seu próprio julgamento.

O homem observou que todos os anjos brancos se encaminharam para um lado da balança enquanto os anjos escuros se encaminharam para o outro lado. Notou, para seu desespero, que a balança pendia para o lado dos anjos escuros e começou a tremer de medo. Procurou outros anjos brancos, mas não havia mais nenhum. Ele estava perdido...

De repente, chegou uma terceira carruagem, com anjos gigantescos, que haviam sido criados com os sofrimentos que o homem havia passado na vida. Para cada anjo de sofrimento que se apresentava, eram retirados alguns anjos escuros. Mas para a infelicidade do homem a balança ainda pendia para o lado das transgressões. No desespero, ele deu um grito amargo: "Me mandem mais alguns sofrimentos, me mandem mais alguns sofrimentos!!"

O homem acordou gritando e aos poucos entendeu que tudo havia sido um sonho. Levantou-se e preparou-se para sair, mas a esposa do rabino perguntou:

- Ei, você não tinha que perguntar algo para o rabino?

- Tinha - disse o homem sorrindo - mas agora não preciso mais. D'us já me respondeu... (História Real)
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A Parashá desta semana, Toldot, continua nos contando um pouco mais sobre Itzchak, uma pessoa reta em todos os seus atos e com uma impressionante claridade do seu propósito no mundo. Onde podemos enxergar a grandeza dele? No episódio da Akeidá, no qual D'us testou Avraham pedindo para que ele sacrificasse seu filho. Aparentemente Itzchak não sabia que seria sacrificado e somente por isso aceitou ir junto com seu pai. Mas a Torá nos ensina diferente, pois está escrito "E Avraham pegou a lenha para a oferenda e colocou sobre as costas de Itzchak, seu filho. Ele pegou em suas mãos o fogo e a faca, e os dois subiram juntos... E então Itzchak falou para Avraham seu pai... 'Aqui está o fogo e a madeira, mas onde está a ovelha para o sacrifício?'. E Avraham respondeu: 'D'us escolherá para Ele a ovelha para o sacrifício, meu filho'. E os dois subiram juntos" (Bereshit 22:6-8). Por que a Torá precisou repetir "E os dois subiram juntos"? Para nos ensinar que mesmo após Itzchak entender que ele seria o sacrifício, ele continuou subindo com Avraham, e com o mesmo entusiasmo de antes. Apesar do sacrifício não ter efetivamente ocorrido, D'us considerou como se Itzchak realmente tivesse dado a vida por Ele.

Mas a Parashá ensina algo difícil de ser entendido. Itzchak, este grande Tzadik (Justo) que estava disposto a dar sua vida por D'us, ficou cego, como está escrito "E foi, quando Itzchak envelheceu, seus olhos se escureceram..." (Bereshit 27:1). Isso ocorreu quando Itzchak tinha 123 anos, e como ele viveu até os 180 anos, vemos que ele passou mais de 50 anos imerso em total escuridão. Por que D'us causou tanto sofrimento para Itzchak? E mais do que isso, se D'us é bondoso, por que pessoas boas sofrem?

Temos uma visão completamente equivocada dos sofrimentos. Quando sofremos, sentimos que D'us nos abandonou e nos deixou de lado. Mas é justamente o contrário, os sofrimentos são um grande presente de D'us, que recebemos somente pelos méritos de Itzchak. Segundo o Midrash (parte da Torá Oral), as pessoas não recebiam sofrimentos, e foi justamente Itzchak quem pediu para que D'us nos mandasse sofrimentos. D'us concordou e começou por Itzchak mesmo, deixando-o cego. Mas por que Itzchak queria sofrimentos no mundo?

Explica o Chafetz Chaim que existe uma grande diferença entre os castigos aplicado pelos seres humanos e os castigos aplicado por D'us. Os castigos aplicados pelos seres humanos são apenas um meio de colocar medo na pessoa. Aquele que castiga espera que o transgressor aprenda a lição e não volte a errar novamente no futuro. Já os castigos Divinos, além de ajudarem as pessoas a não voltar a transgredir mais, também limpam, através dos sofrimentos, os erros cometidos.

Não existe Tzadik no mundo que faz o bem e não peca. Cada transgressão que fazemos cria um anjo, que se torna um acusador no Tribunal Celestial. E quanto maior o nível da pessoa, mais ele é cobrado por qualquer erro cometido. É como uma pessoa dentro de uma empresa, quanto maior o cargo, maior a responsabilidade e maiores as consequências no caso de um erro cometido. Quando o faxineiro erra, a sala pode ficar um pouco mais suja, mas se o presidente erra, ele pode quebrar toda a empresa. Itzchak, com seu grande nível espiritual, entendeu que sem sofrimentos nenhum ser humano conseguiria passar pela Justiça Celestial quando saísse deste mundo. Por isso ele pediu para que D'us descontasse parte dos nossos erros através de sofrimentos ainda neste mundo.

Sentir dor é bom? A maioria das pessoas diria que não. Mas existe uma doença chamada CIPA (insensibilidade congênita à dor) que causa com que a pessoa não sinta nenhuma dor. Mas bem longe de viver uma vida paradisíaca, em geral estas pessoas morrem muito jovens, quase sempre por motivos banais como queimaduras ou pequenos ferimentos. Qualquer criança normal que coloca a mão no fogo, ao primeiro sinal de dor, retira rapidamente o braço, num ato reflexo de proteção. Mas estas crianças com a doença, por não sentirem nenhuma dor, não entendem o perigo que estão correndo e acabam morrendo. A dor é, portanto, algo amargo mas que salva nossas vidas. E da mesma forma que isso ocorre no mundo material, assim também ocorre nos mundos espirituais, isto é, os sofrimentos são amargos e difíceis, mas salvam nossa vida eterna, funcionando tanto como um alarme de que algo vai mal quanto como uma maneira de limpar nossos erros e permitir que possamos sair limpos deste mundo.

Este ensinamento nos ajuda muito em nossas vidas, pois não existe ninguém que não passa por sofrimentos e dificuldades. Saber que os sofrimentos têm um propósito nos ajuda a aceitá-los. Não temos que pedir mais sofrimentos para D'us, pois mal e mal suportamos os que já temos, mas temos a obrigação de receber os sofrimentos que Ele nos manda com alegria, pois apesar de serem amargos e difíceis, os sofrimentos, que são limitados, nos ajudarão a ter uma eternidade de prazeres ilimitados.

Shabat Shalom

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ CHAIEI SARÁ 5769


BS"D

VENCENDO A MÁ-INCLINAÇÃO - PARASHÁ CHAIEI SARÁ 5769 (21 de novembro de 2008)

"O rabino Israel Salanter viajava de trem até a cidade de Vilna. Apesar de já ser um dos maiores rabinos da geração, ele costumava viajar sozinho e vestindo roupas simples, detalhes que escondiam sua verdadeira importância. Ele viajava em um vagão especial para fumantes junto com um outro judeu, que também ia para Vilna. No meio da viagem o Rav Salanter acendeu um cigarro, mas imediatamente o outro judeu gritou, de forma desrespeitosa, para que o rabino apagasse o cigarro, argumentando que ele não suportava o cheiro. O Rav Salanter poderia ter explicado que aquele vagão era para fumantes, mas preferiu pedir desculpas e apagar o cigarro. Poucos minutos depois novos gritos daquele judeu ecoaram no vagão. Desta vez ele gritava com o Rav Salanter reclamando da janela aberta e do frio que entrava. Novamente o Rav Salanter poderia se justificar e explicar que a janela não havia sido aberta por ele, mas novamente preferiu pedir educadamente desculpas, levantar e fechar a janela.

Quando chegaram em Vilna, uma grande multidão esperava pelo Rav Salanter. O outro judeu, curioso, perguntou quem era a grande celebridade que estava naquele trem. Quando soube que aquele homem com quem tinha sido tão grosseiro era o grande Rav Salanter, ele quase desmaiou. Passou toda a noite sem dormir e logo de manhã foi até o hotel onde o rabino estava hospedado. Mas antes que pudesse começar a falar, o Rav Salanter abriu um sorriso e convidou-o, com uma voz suave, a sentar-se e tomar algo. Aquele judeu se surpreendeu tanto com a simpatia daquele rabino, com quem ele havia sido tão indelicado, que caiu no choro, e entre lágrimas pediu sinceramente perdão. O Rav Salanter falou para ele não se preocupar pois já o havia perdoado e não tinha guardado nenhum rancor no coração.

Começaram a conversar e o rabino descobriu que o jovem estava em Vilna para se submeter a uma prova necessária para receber a autorização para fazer Shchitá (abate Kasher de animais). O Rav Salanter fez de tudo para ajudá-lo a conseguir a autorização e abriu muitas portas para ele. Mas infelizmente no dia da prova o rapaz demonstrou que não tinha os conhecimentos necessários e foi reprovado. O rabino que aplicou a prova pensou que talvez o mau desempenho era consequência do cansaço da viagem, e por isso pediu para que ele descansasse e tentasse novamente dentro de poucos dias. O rapaz ficou arrasado, pensou em voltar imediatamente para casa e abandonar o sonho de ser um Shochet.

Assim que soube da reprovação, o Rav Salanter correu até a hospedaria onde estava o rapaz e convenceu-o a ficar e a tentar de novo. Conseguiu que um experiente Shochet da cidade estudasse com ele todas as Halachót (leis) e pagou ao jovem rapaz todos os custos da sua estadia na cidade. O jovem não desperdiçou a oportunidade, estudou com afinco e dedicação e novamente se submeteu à avaliação, sendo aprovado com louvor pelos maiores rabinos da cidade. Mas o Rav Salanter ainda não estava contente e não descansou até que conseguiu uma comunidade adequada onde aquele rapaz pudesse trabalhar e ter um bom sustento. Quando souberam de tudo que o Rav Salanter havia ajudado aquele rapaz, perguntaram: "Por que tanto?". O rabino explicou:

- Quando este jovem veio pedir perdão, respondi que eu o havia perdoado completamente e que não havia nenhum rancor, e realmente falei isso de todo o coração. Porém, como sei que sou apenas uma pessoa de carne e osso, fiquei com medo que algum nível de rancor pudesse ter ficado no meu coração. Por isso me esforcei tudo o que pude para fazer bondades com ele e retirar qualquer resquício de mágoa do coração"

Para vencer uma má inclinação não é suficiente apenas querer. É preciso se esforçar até conseguir.
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A Parashá desta semana, Chaiei Sara, conta que Avraham estava ficando velho e decidiu que era hora de procurar uma esposa para seu filho Itzchak. Como Avraham queria que Itzchak se casasse com alguém de sua família, ele enviou seu servo Eliezer até sua cidade natal com a missão de trazer de lá uma esposa para Itzchak. A Torá nos ensina que Eliezer conseguiu cumprir sua missão e voltou trazendo Rivka. Mas se prestarmos atenção nos detalhes, percebemos que o comportamento de Eliezer foi muito estranho.

Por exemplo, quando Eliezer chegou na cidade de Aram Naharaim ele parou com seus camelos ao lado de um poço e rezou para que D'us o ajudasse em sua missão. Mas por que a necessidade de rezar, ele não confiava na força espiritual de Avraham, que certamente já havia rezado muito para que tudo desse certo? Além disso, ao invés de ir diretamente procurar a família de Avraham, ele parou ao lado do poço e fez um estranho pedido para D'us. Ele fixou para D'us um sinal com o qual ele reconheceria a mulher certa para Itzchak. Quando alguma mulher viesse ao poço ele pediria água para ela, e caso ela desse água para ele e também oferecesse água aos camelos, seria o sinal de que era a pessoa certa. Rivka foi a primeira mulher que chegou ao poço e o sinal logo se cumpriu, pois ela serviu água para Eliezer e ofereceu também aos seus camelos. Eliezer imediatamente deu para ela as jóias que havia trazido como presente, sem perguntar se ela realmente era da família de Avraham. Por que ele nem mesmo perguntou o nome dela antes de dar as jóias? Se fosse a mulher errada, ele perderia todas as jóias!

Quando Eliezer chegou na casa de Rivka para conhecer os pais dela e pedir permissão para levá-la para casar-se com Itzchak, convidaram-no a entrar e ofereceram-lhe comida, mas novamente ele agiu de maneira estranha, recusando a comida e dizendo "Comerei apenas quando tiver dito tudo o que eu vim dizer". Por que ele não começou a comer e durante o almoço contou o que queria contar? Além disso, esta estranha pressa de Eliezer em terminar logo seu trabalho também foi percebida quando a mãe e o irmão de Rivka pediram para que ela ficasse mais algum tempo com eles e somente depois fosse casar-se com Itzchak, mas Eliezer não aceitou e exigiu que ela fosse imediatamente. Qual o problema se Rivka ficasse mais alguns dias com a família? Portanto, percebemos que Eliezer tentou fazer tudo de forma rápida, às vezes até de forma precipitada, como se precisasse terminar sua função urgentemente. Por que?

Explica o rabino Saba MiNovardok que Eliezer era conhecido não apenas por sua grande sabedoria, mas também por sua retidão e fidelidade a Avraham. Quando ele recebeu a função de buscar uma esposa para Itzchak, logo percebeu que tinha um grande dilema. Por um lado ele queria cumprir sua função de maneira exemplar, mas por outro lado percebeu que tinha "Neguiot" (interesses), isto é, havia algo no seu subconsciente capaz de atrapalhar seu trabalho: a vontade de casar Itzchak com sua própria filha. Ele sabia das qualidade de Itzchak e sonhava em um marido assim para sua filha, por isso entendeu que se deixasse sua natureza agir, começaria a ter preguiça e buscaria todas as oportunidades e desculpas para não cumprir sua missão.

Ensina o Rambam (Maimônides) que o ser humano deve andar, em relação às suas características, pelo caminho do meio e não ser um extremista. Por exemplo, em relação à doações de dinheiro, a pessoa não deve nem ser mesquinho nem esbanjador. Mas ensina o Rambam que quando uma pessoa sente que uma característica pendeu fortemente para um dos lados, ele deve se esforçar para ir ao outro extremo e assim conseguir voltar ao meio termo. Foi exatamente o que fez Eliezer quando sentiu que seus interesses podiam subornar os seus atos, lutou como um leão contra sua natureza, mesmo que fosse necessário ir ao extremo contrário, para que sua missão tivesse sucesso.

Apesar de saber que Avraham já tinha rezado, Eliezer pediu em especial para que D'us o protegesse e não o deixasse cair nas armadilhas de seus interesses. Quando ele viu em Rivka os sinais que havia pedido a D'us, imediatamente deu para ela as jóias, pois mesmo se não fosse a mulher certa e ele tivesse que pagar para Avraham o valor de todas as jóias, mesmo assim ele preferiu o risco de perder dinheiro do que o risco de ser enganado por suas vontades. Também por esse motivo Eliezer não quis comer antes de falar com os pais de Rivka, para não deixar nenhuma porta aberta para seus interesses interferirem. E finalmente quando a mãe e o irmão de Rivka pediram para que ela ficasse mais alguns dias com eles, Eliezer não aceitou, com medo que se ele aceitasse seria por causa de seus interesses

Eliezer nos ensinou a lutar contra os nossos interesses, os "subornos" que recebemos das nossas vontades, que muitas vezes nos impedem de fazer o que é correto. Quantas vezes o comodismo e o medo de perder prazeres nos faz continuar em caminhos que sabemos racionalmente estarem errados? Quantas desculpas buscamos para justificar nossos atos, quando a verdade está óbvia diante de nós? Para ter sucesso espiritual, não basta querer fazer o que é correto. É preciso lutar por isso.

"O pior cego é o que não quer ver"

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm