sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ TERUMÁ 5770

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PERDENDO TUDO - PARASHÁ TERUMÁ 5770 (19 de fevereiro de 2010)

"Havia um certo camponês que, inconformado com o sucesso de seu vizinho, decidiu iniciar uma empreitada para conseguir aumentar suas propriedades e assim superá-lo. Juntou todo o seu dinheiro e saiu procurando oportunidades. Encontrou um fazendeiro que tinha terras a perder de vista e que lhe fez uma excelente proposta de enriquecimento fácil. O camponês daria todo o dinheiro que tinha e em troca poderia se apropriar de quanta terra conseguisse. A regra era a seguinte: no início do dia o camponês marcaria com uma pedra o início das suas terras. Caminharia o quanto quisesse e marcaria o limite final de suas terra com uma segunda pedra. A única condição seria voltar até o pôr-do-sol até a primeira pedra. Caso ele não conseguisse voltar até o anoitecer, perderia tudo. O camponês aceitou imediatamente a proposta. Em sua cabeça, pensava que aquele fazendeiro era um grande tolo. Seria fácil conseguir muita terra com aquele dinheiro.

Na manhã seguinte o camponês chegou cedinho, marcou com uma pedra o local inicial e guardou no bolso uma segunda pedra para marcar o limite final das suas terras. Começou a caminhar, passou primeiro por terras boas para plantar milho. Mais adiante descobriu um pedaço excelente para o cultivo de batatas. E assim, durante todo o dia, ele percebeu que surgiam cada vez terras melhores. Sempre que ele pensava em parar e marcar o limite de suas terras para começar a voltar, ele se lembrava de seu vizinho e por isso queria mais.

E assim, deslumbrado com tantas terras boas e motivado pela inveja, ele seguiu o dia inteiro caminhando. De repente, quando se deu conta, percebeu que o sol já começava a aparecer no horizonte. Desesperado, ele colocou a segunda pedra no chão e começou a voltar. Primeiro em passos cadenciados, mas o desespero começou a tomar conta dele e os passos foram se transformando em uma corrida. O tempo acabava e ele não conseguia ver nem de longe o local onde estava a primeira pedra. Apavorado, correu com todas as forças que tinha enquanto o sol ia sumindo no horizonte. Finalmente chegou, completamente exausto, na primeira pedra. Mal podia falar, mal podia se mover. Caiu imóvel no chão e pôde ver o céu. Já era noite, as estrelas já tinham saído. O tempo havia acabado, ele havia perdido o dinheiro. Pela inveja do vizinho ele havia perdido tudo o que tinha".

Esta história se repete todos os dias. Ao invés de estarem satisfeitas com o que têm, as pessoas estão sempre desejando o que os outros têm. Pessoas motivadas pela inveja perdem suas famílias, perdem sua saúde, perdem tudo.

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A Parashá desta semana, Terumá, começa a nos contar sobre a construção do Mishkan, o Templo móvel que acompanhou o povo judeu durante os 40 anos no deserto e foi substituído posteriormente pelo Beit Hamikdash (Templo Sagrado) de Jerusalém. E se prestarmos atenção veremos que não apenas esta Parashá trata do Mishkan, cerca de cinco Parashiot inteiras da Torá descrevem os mínimos detalhes de todos os seus utensílios. Então temos que nos perguntar: por que a Torá precisava se alongar tanto na descrição do Mishkan e seus utensílios se o Mishkan foi apenas algo temporário?

A resposta é que apesar do Mishkan ter funcionado somente por alguns anos, em cada detalhe da sua construção há mensagens eternas para todo o povo judeu e não apenas para a geração do deserto. Por exemplo, algo nos chama a atenção sobre uma diferença entre o Aron Hakodesh, a arca sagrada que continha a Torá, e o Mizbeach interno, o altar onde eram oferecidos incensos. Enquanto as medidas do Mizbeach interno eram todas medidas inteiras (um cúbito de comprimento, um cúbito de largura e dois cúbitos de profundidade), as medidas do Aron Hakodesh eram justamente o contrário, todas elas medidas quebradas (dois cúbitos e meio de comprimento, um cúbito e meio de largura e um cúbito e meio de profundidade). O que isto nos ensina?

Explica o Kli Yakar, um famoso comentarista da Torá, que neste pequeno detalhe está contido um grande ensinamento. O Aron Hakodesh que continha a Torá representa a nossa parte espiritual. Em relação ao nosso crescimento espiritual, temos sempre que olhar como se estivéssemos incompletos, que nos falta algo, que estamos apenas na metade do caminho. Temos que olhar sempre para quem tem mais espiritualidade do que nós, criando assim uma inveja positiva que nos leva a um crescimento espiritual. A pessoa que acha que já tem toda a sabedoria que precisa fica estagnada, não cresce mais espiritualmente. Por isso as medidas do Aron Hakodesh são todas quebradas.

Mas ao contrário, em relação ao mundo material, representado pelo Mizbeach de incenso, nas áreas como a riqueza e a honra temos que olhar sempre para aqueles que tem menos do que nós, e buscar enxergar que estamos completos com o que já temos. Por isso as medidas do Mizbeach de incenso são inteiras.

Ensinam os nossos sábios que todas as características que D'us colocou na alma do ser humano, mesmo as que parecem ser apenas negativas, podem ser canalizadas para o lado positivo, como é o caso da inveja. Se a inveja é utilizada para desejar as aquisições materiais que pertencem ao outro, ela se torna uma característica muito negativa e pode levar o ser humano à destruição, como está escrito no Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Três coisas tiram o homem do mundo: a inveja, a honra e a busca pelos desejos". A pessoa invejosa se torna triste e depressiva pois nunca está contente com o que possui e vive em função do que os outros têm. Não importa que o carro dela é bom e tem tudo o que ela precisa, o que importa é que o vizinho tem um melhor e mais moderno. É por isso que o ápice dos 10 mandamentos é "Não cobiçarás", pois a cobiça destrói a vida do ser humano e pode fazê-los transgredir os outros 9 mandamentos.

Mas D'us colocou a inveja em nossa alma para que possamos canalizá-la para o lado positivo, para o lado espiritual. Para que possamos ver o crescimento espiritual de outra pessoa e desejarmos também crescer espiritualmente. Isto faz com que tenhamos mais incentivos para nos esforçar e atingir nossos objetivos espirituais.

E assim ensinam os nossos sábios: "A pessoa que reza deve voltar seu coração para cima e seus olhos para baixo". O coração está relacionado com o nosso crescimento espiritual e, portanto, devemos olhar para cima, para quem tem mais de que nós. Já os olhos estão relacionados com o desejo material e, portanto, devemos olhar para baixo, para quem tem menos do que nós. Somente assim poderemos continuar nosso trabalho de crescimento espiritual com a sensação de tranqüilidade de termos todas as ferramentas do mundo material que necessitamos para podermos crescer.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ MISHPATIM 5770

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A BALANÇA ADULTERADA - PARASHÁ MISHPATIM 5770 (12 de fevereiro de 2010)

"Certa vez o padeiro de uma pequena cidade foi ao delegado acusar o vendedor de queijos de estar adulterando sua balança para enganar os clientes. O delegado não quis abrir uma queixa formal sem antes investigar. Então o padeiro trouxe a prova da fraude: uma embalagem de queijo de 1 quilo que continha apenas 800 gramas. O delegado realmente constatou a diferença de peso. Então, sem alternativa, mandou prender o vendedor de queijos sob a acusação de ter adulterado a balança.

O vendedor de queijos, ao ser notificado da acusação, confessou ao delegado que realmente vinha fazendo algo errado. Ele não tinha na sua loja os pesos para utilizar na balança e por isso comprava da padaria do acusador, todos os dias, dois pães de meio quilo cada. Estes pães eram colocados em um dos pratos da balança e assim ele conseguia 1 quilo de queijo no outro prato.

O delegado comprou então dois pães e constatou que os dois pães de meio quilo, que deveriam pesar 1 quilo, na verdade pesavam apenas 800 gramas. O delegado então pôde concluir que quem estava fraudando a balança era, na realidade, o próprio padeiro que fez a acusação"

Nós também nos comportamos desta maneira: acusamos os outros de nossos próprios vícios.

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Um exemplo do quanto D'us se importa que sejamos honestos nas nossas atitudes cotidianas está na Parashá desta semana, Mishpatim. Uma grande parte da Parashá é dedicada a nos ensinar leis de compensação monetária no caso de danos causados ao próximo. Um dos casos trazidos é quando o dano é causado por um animal. Por exemplo, quando o animal de uma pessoa ataca e causa danos ao animal de outra pessoa, ela deve pagar uma compensação monetária pelo dano causado. Em relação ao pagamento, a Torá diferencia entre dois tipos de touro: o touro manso e o touro bravo. Se um touro não tem o costume de atacar outros animais ou outras pessoas, ele é considerado manso. Mesmo que ele eventualmente ataque, isto é considerado um imprevisto e por isso o dono paga apenas metade do dano causado. Já um touro bravo é aquele que costuma com freqüência atacar outros animais e, portanto, deve ser cuidado de maneira mais responsável pelo seu dono. Neste caso, qualquer dano causado por ele é considerado uma imprudência e por isso o dono precisa pagar o dano total.

A Torá ensina outro detalhe interessante: após 3 chifradas consecutivas, o touro manso passa a ser considerado um touro bravo e o dono precisa ser mais cuidadoso com ele. Mas por que isto acontece? Se nós tivéssemos a oportunidade de observar os motivos que levaram o touro a atacar, certamente perceberíamos que nas três vezes ele teve seus motivos. Pode ser por causa da invasão de seu território, pode ser que ele se sentiu ameaçado, pode ser que ele foi provocado por outro touro. Então, se ele tinha razão quando atacou as três vezes, por que mesmo assim ele se torna um touro bravo?

Explicam nossos sábios que daqui aprendemos uma lição muito importante para nossas vidas: quando um touro começa a atacar outros animais com frequência, mesmo que aparentemente em todas as vezes ele tenha razão, isso é um indício de que na verdade alguma coisa está errada com ele mesmo. Quando todos estão errados e nós estamos sempre certos, é sinal que talvez nosso referencial está com problemas. Neste caso, é bem provável que o problema está em nós mesmos e não nos outros.

Explica o Rabeinu Iona em seu livro Shaarei Teshuvá (Os portões do arrependimento) que quando a pessoa se torna um reclamão, isto é, está sempre irritada com os atos dos outros, com o tempo ela começa a julgar todos os acontecimentos para o lado negativo. Esta pessoa se sente explorada e agredida por todos, mas na verdade é ela quem está explorando e agredindo. A tendência deste tipo de pessoa é perder todos os seus amigos, que já não podem mais suportar sua companhia.

Continua o Rabeinu Iona e diz que se nos acostumamos a estar sempre reclamando, chegamos a um nível ainda pior: o de negar as coisas boas que recebemos dos outros. A pessoa começa a ver bondades como se fossem maldades e chega a pagar o bem com o mal. E qual será o fim desta pessoa? Terminará achando que as bondades de D'us também são para o seu mal, como ocorreu com o povo judeu na saída do Egito, quando uma parte do povo se acostumou a estar constantemente reclamando de tudo e no final chegaram a maldizer D'us, como está escrito após o episódio dos espiões: "E falaram mal em suas tendas e disseram 'D'us nos tirou do Egito por nos odiar' " (Devarim 1:27).

Ensina Shlomo Hamelech (Rei Salomão): "Moscas da morte, que apodrecem o óleo do perfumista". O que significa este versículo? Moscas da morte são as pessoas que falam mal dos outros e julgam todos para o mal. Qual a semelhança com as moscas? Quando uma pessoa está saudável mas tem uma pequena ferida, a mosca vai direto na ferida. Assim são as pessoas que reclamam e olham sempre o lado negativo das coisas, para elas mesmo os melhores perfumes terão defeitos e parecerão podres.

Portanto, estas são as escolhas que temos na vida: saber perdoar quando os outros erram e olhar o lado positivo de cada um, ou se tornar uma pessoa amarga e, como um touro bravo, atacar a todos os que cruzam nosso caminho.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ ITRÓ 5770

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APENAS UM VIAJANTE - PARASHÁ ITRÓ 5770 (05 de fevereiro de 2010)

"O Rabino Eliahu Dessler foi um dos grandes rabinos de sua geração. Certa vez ele foi acompanhar um de seus alunos que estava indo embora da Yeshivá (Centro de estudos judaicos), pois sua família havia decidido morar em outro país. Conversaram durante todo o caminho até chegarem na estação de trem. No momento da despedida, o aluno pediu ao rabino uma Brachá (benção). O Rav Dessler segurou a mão do aluno, fechou os olhos e disse:

- Eu desejo do fundo do meu coração que você faça uma viagem confortável e sem problemas.

Quando o Rav Dessler abriu novamente os olhos, percebeu que o aluno parecia um pouco desapontado. Perguntou se havia algo errado e o aluno respondeu:

- Quando eu pedi uma Brachá, tinha a esperança que você me daria uma Brachá que me acompanhasse pelo resto da vida. Mas você apenas me desejou uma boa viagem!

O Rav Dessler entendeu o motivo da tristeza de seu aluno, abriu um sorriso e explicou:

- Acho que você não entendeu a Brachá que eu lhe dei. Eu te dei uma Brachá que é também um ensinamento para você levar como bagagem para onde você for. A viagem que eu me referia é a viagem da sua vida. Eu queria apenas te lembrar que estamos aqui neste mundo como passageiros em trânsito, em uma viagem que nos leva ao Olam Habá (Mundo Vindouro), o nosso destino final. O que eu te desejei foi que durante toda a sua vida você possa fazer esta viagem de forma tranqüila e sem dificuldades".

Muitas vezes nos esquecemos que somos apenas passageiros nesta vida, nossa passagem aqui neste mundo é apenas temporária. Aqui não é o ponto final, é apenas uma estação provisória.

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Nas Parashiot anteriores vimos que, apesar de Moshé Rabeinu ter sido criado na casa do faraó, com luxo e fartura, ele nunca esqueceu seus irmãos judeus que estavam imersos em sofrimentos. E quando ele viu que um egípcio golpeava um judeu sem piedade, matou o egípcio e escondeu seu corpo sob a areia do deserto. Mas Moshé foi delatado ao faraó, que ficou furioso e tentou matá-lo com uma espada. D'us então fez um grande milagre e salvou Moshé, que conseguiu fugir do Egito e se esconder em Midian. Lá Moshé conheceu Tzipora, filha de Itró, o sacerdote idólatra de Midian. Eles se casaram e tiveram dois filhos, Guershom e Eliezer. Então D'us se revelou para Moshé no arbusto ardente que não se consumia e o comandou a voltar ao Egito para salvar o povo judeu. Ele deixou sua família protegida em Midian, sob os cuidados de Itró, e foi ao Egito salvar seus irmãos.

A Parashá desta semana, Itró, começa justamente no reencontro de Moshé com sua família. Após ter escutado todos os milagres que D'us havia feito ao povo judeu, Itró levou Tzipora e seus filhos ao encontro de Moshé no deserto. A Torá então explica o porquê dos nomes que Moshé deu aos seus filhos: "E os dois filhos dela, cujo nome de um deles era Guershom, pois ele (Moshé) disse "fui um peregrino (do hebraico "Guer") em uma terra estranha"; e o nome do outro era Eliezer, pois "o D'us de meu pai veio em minha ajuda (do hebraico "Ezer"), e Ele me salvou da espada do faraó" (Shemot 18:2-4).

Mas surgem algumas dúvidas sobre os nomes escolhidos por Moshé. Entendemos o nome dado a Eliezer, que foi na verdade um agradecimento à salvação milagrosa de D'us. Mas qual foi o propósito de dar o nome Guershom ao seu outro filho, ressaltando que ele era apenas um residente temporário em uma terra estranha? Além disso, Moshé deveria ter chamado seu primeiro filho de Eliezer e não o segundo, pois ele foi salvo da espada do faraó antes de ter se tornado um peregrino em Midian. Por que ele inverteu a ordem?

Explica o Chafetz Chaim que quando Moshé estava em Midian, ele olhou em volta e percebeu que era a única pessoa do lugar que acreditava em D'us. Mesmo Itró, seu sogro, que futuramente se converteu ao judaísmo, naquele momento ainda era um sacerdote idólatra, e apenas quando D'us fez todos os milagres da saída do Egito é que ele despertou e deixou de acreditar na tolice de servir estátuas. Moshé, por estar completamente sozinho, teve medo de ser influenciado pelos atos e idéias das pessoas que estavam à sua volta. Por isso, logo que seu primeiro filho nasceu, ele escolheu um nome que seria constantemente um lembrete para que ele não se desviasse dos caminhos corretos. Mas como o nome Guershom podia ajudar a protegê-lo? O que ser um peregrino o ajudava a não transgredir?

Diz Shlomo Hamelech (Rei Salomão), o mais sábio de todos os homens: "Os vivos sabem que vão morrer, os mortos não sabem de nada" (Kohelet - Eclesiastes 9:5). O que significa este versículo? Afinal, todos os vivos sabem que vão morrer algum dia, e é óbvio que os mortos não sabem de nada, pois já morreram! Explicam os nossos sábios que "vivos" se refere aos Tzadikim (Justos), pois mesmo depois que morrem seus bons atos ficam aqui para sempre, é como se ainda estivessem vivos. "Mortos" se refere aos Reshaim (malvados), cujos maus atos fazem com que fosse melhor que nem tivessem vindo ao mundo. Shlomo Hamelech está ensinando que os Tzadikim são aqueles que sabem que vão morrer, isto é, colocam no coração a idéia de que esta vida é apenas passageira, que temos um tempo limitado para cumprir o nosso papel e poder meritar o Mundo Vindouro, e com isso não cometem transgressões. Já os Reshaim são aqueles que não sabem que vão morrer, isto é, não colocam no coração que esta vida é passageira, vivem como se nunca fossem morrer e por isso acabam cometendo transgressões e não aproveitando as oportunidades espirituais.

Moshé, com medo de cair espiritualmente enquanto estava em Midian, queria a todo momento um lembrete de que a vida é passageira, para que pudesse focar no seu trabalho espiritual e não se deixar desviar. Por isso, apesar de estar imensamente agradecido por D'us pela salvação milagrosa, ele preferiu colocar o nome do primeiro filho de Guershom. Quando Moshé falou "fui um peregrino em uma terra estranha" ele não estava se referindo a ser um residente temporário na terra de Midian. Ele se referia a ser um residente temporário neste mundo material, que é uma terra estranha, não é a nossa moradia final. O nome do filho seria constantemente um aviso de que sua permanência neste mundo era limitada, para que ele não se corrompesse com os maus atos das pessoas ao seu redor.

Quando uma pessoa está viajando, não se importa se precisa comer um pouco menos, se precisa dormir um pouco menos ou se precisa ficar com menos conforto. Como o tempo da viagem é limitado, a pessoa quer aproveitar cada segundo, e abre mão de muitas coisas em troca do seu objetivo. Este é o grande ensinamento de Moshé Rabeinu para nossas vidas: colocar no coração a idéia de que esta vida é algo apenas passageiro nos ajuda a evitar transgressões, nos ajuda a definir o que é o importante e o que é secundário, nos ajuda a manter o foco no nosso trabalho verdadeiro. Não viemos para este mundo em busca de "Carpe Diem" (aproveitar a vida a todo custo), pois a vida verdadeira não é esta. Podemos e devemos ter prazeres na vida, mas canalizados para que possamos atingir nossos objetivos.

Estamos no meio de uma grande viagem, cada fase de nossas vidas é uma estação pela qual passamos em direção ao nosso destino final. Se conseguirmos colocar esta idéia no coração, de que tudo isso é apenas passageiro, teremos muito mais Brachá em nossas vidas e poderemos fazer esta viagem de maneira tranqüila e agradável.

"O tempo é curto, o trabalho é longo, os trabalhadores são preguiçosos e o dono da casa pressiona" (Pirkei Avót)

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ BESHALACH 5770

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QUANDO A GENTE SE ESQUECE - PARASHÁ BESHALACH 5770 (29 de janeiro de 2010)

"Havia um rei muito bondoso que certa vez, ao passar por uma estrada, escutou gritos de socorro. Ele parou sua carruagem e viu uma mulher cercada por maldosos bandidos. Em um impulso de valentia, o rei conseguiu salvar a mulher. Ela trazia muito dinheiro e certamente aqueles bandidos não teriam misericórdia dela, e por isso ficou muito agradecida ao rei por tê-la salvado. Após aquele incidente eles começaram a se falar todos os dias. Conversaram muito, e a conversa era cada vez mais agradável, até que um dia eles perceberam que estavam apaixonados e decidiram se casar.

O casamento foi uma grande festa, todos se alegraram muito, principalmente o noivo e a noiva. E por algum tempo eles viveram em completa lua-de-mel. Mas passados alguns meses, a esposa já não tratava o rei da mesma maneira. As longas conversas foram rareando, até que praticamente eles não se falavam mais. A mulher já não tinha mais nenhum sentimento de gratidão pelo que o rei havia feito por ela. Mesmo quando o rei tentava puxar uma conversa, ela se mostrava fechada e indiferente.

Não suportando mais aquela situação, o rei teve uma idéia. Certo dia, quando a esposa saiu para dar uma volta, o rei mandou alguns homens, fingindo ser bandidos, cercá-la e ameaçá-la. Quando ela se viu em perigo, gritou desesperada, pedindo a ajuda do rei. Ele apareceu e a salvou novamente. Então ela se lembrou de tudo o que ele já havia feito de bom por ela, e voltaram a ter um bom relacionamento. Muito feliz, o rei confidenciou à sua esposa:

- Gostaria de pedir perdão pelo sofrimento que eu te causei ao te dar este susto. Na verdade fui eu que armei tudo isso, apenas para que você voltasse a me procurar e a valorizar o nosso relacionamento. Mas no fundo eu preferia que você tivesse me procurado sem que eu precisasse te causar nenhum sofrimento. Como vi que nada estava funcionando, tive que fazer deste jeito"

Assim é o nosso relacionamento com D'us. Recebemos Dele coisas boas o tempo inteiro, e tudo o que Ele espera de nós é que nos lembremos Dele durante o nosso dia. Mas a gente sempre se esquece...

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Nesta semana lemos a Parashá Beshalach, que começa com a saída do povo judeu do Egito, quando o orgulhoso faraó, dobrado pelo peso das 10 pragas que destruíram completamente o Egito, finalmente deixou o povo judeu sair. Mas o povo judeu ainda não se sentia completamente livre, em suas cabeças eles ainda se sentiam escravos, tinham medo que os egípcios os perseguiriam e os levariam de volta ao trabalho pesado. E também D'us não havia terminado Sua justiça com os egípcios, e não havia vingado a morte dos bebês que foram afogados no rio Nilo. Então o que D'us fez? Endureceu o coração do faraó, fazendo com que ele se arrependesse de ter libertado o povo judeu. O faraó reuniu um enorme exército e partiu em perseguição deles. Os judeus de repente se viram presos no deserto, cercado por todos os lados. Diante deles estava o Mar Vermelho, atrás deles vinham os egípcios e seus carros de guerra, e dos lados estava o terrível deserto com todos os seus perigos. Os judeus ficaram desesperados e gritaram para D'us, como está escrito: "O faraó se aproximou; e levantaram os olhos os Filhos de Israel, e eis que os egípcios viajavam atrás deles. E eles temeram muito, e gritaram os Filhos de Israel para D'us" (Shemot 14:10). Então o grande milagre aconteceu: o Mar Vermelho se abriu diante dos olhos de todo o povo judeu, e eles atravessaram no seco. Quando os egípcios foram atravessar, o mar se fechou sobre eles, afogando todo o exército egípcio e terminando definitivamente com a escravidão do povo judeu.

Mas deste episódio surgem algumas perguntas: se D'us queria salvar o povo judeu e terminar Sua justiça com os egípcios, por que teve que "assustar" o povo judeu? Por que Ele não fez de outra maneira, de forma que os judeus nem mesmo vissem os egípcios os perseguindo? Além disso, o Midrash (parte da Torá Oral) diz que a aproximação do faraó, que causou um grande susto no povo judeu, foi mais importante do que 100 jejuns e rezas. Por que?

Para encontrar a resposta destas duas perguntas, antes de tudo precisamos entender o que é a Tefilá (reza), pois em geral temos conceitos muito equivocados. Por exemplo, uma das bases do judaísmo é saber que tudo o que D'us faz é com justiça perfeita. Portanto, se Ele nos mandou algum sofrimento, é porque de alguma maneira nós o merecemos. Então por que rezamos para que Ele tire de nós este sofrimento? Não é uma forma de tentar desviar o julgamento perfeito de D'us?

Sempre que passamos por alguma dificuldade na vida, imediatamente começamos a rezar. Mesmo aqueles que estão afastados da religião, quando surge alguma doença ou qualquer outro perigo de vida, encontram um tempo e uma motivação para rezar. Nos aeroportos e hospitais sempre há um lugar para as pessoas rezarem, pois em geral envolvem situações de perigo ou medo. Por isso estamos acostumados a pensar que a Tefilá é apenas um meio que podemos utilizar para nos salvar de algum perigo ou sofrimento e, se não houvessem sofrimentos, não haveria nenhuma necessidade de fazer Tefilá.

Ensina o Rav Yechezkel Levinshtein que é justamente o contrário. A Tefilá não é um meio, é um propósito por si só. A Tefilá é nossa comunicação com o Criador do mundo, é a nossa forma de agradecer e reconhecer tudo o que Ele nos faz de bom. Diz o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas) que a Tefilá é um dos pilares que sustenta o mundo. Quanto mais o ser humano reflete sobre o conteúdo das Tefilót e o coloca em seu coração, mais ele cresce no seu amor e no seu temor a D'us, e consegue reconhecer todas as coisas boas que recebe. Mas quando o ser humano se afasta das Tefilót e se esquece do seu Criador, começam a vir dificuldades e sofrimentos que o despertam novamente para a Tefilá. Portanto a Tefilá não é um meio para se salvar dos sofrimentos, ao contrário, o sofrimento é o meio utilizado por D'us para trazer o ser humano de volta para a Tefilá, que Ele tanto deseja.

Foi isso o que aconteceu com o povo judeu no Egito. Quando eles estavam passando por terríveis sofrimentos da escravidão pesada, voltaram seus corações para D'us, como está escrito "E os Filhos de Israel suspiraram por causa do trabalho, e eles gritaram. O clamor deles por causa do trabalho chegou até D'us" (Shemot 2:23). Imediatamente D'us iniciou a salvação do povo judeu, com grandes milagres, com mão forte a braço estendido. E D'us ficou esperando que o povo judeu continuasse com seus corações conectados com Ele, mas isso não aconteceu. Quando os judeus viram que seus sofrimentos estavam terminando, imediatamente começaram a se afastar de D'us. Então Ele utilizou o faraó como um "despertador". O susto despertou o coração dos judeus e os conectou novamente a D'us, em um nível maior do que se tivessem feito 100 jejuns.

Com este conceito entendemos também que a Tefilá, ao retirar o sofrimento, não desvia a justiça perfeita de D'us. Os sofrimentos vieram justamente pelo desejo de D'us de que a pessoa se conectasse com Ele através da Tefilá. No momento que a pessoa volta a fazer Tefilá, não há mais nenhuma necessidade dos sofrimentos.

É justamente por isso que temos no nosso dia 3 Tefilót fixas, em momentos estratégicos, para que possamos nos manter conectados com D'us o dia inteiro. Começamos o dia com a Tefilá da manhã (Shacharit), antes de irmos ao trabalho e antes mesmo de tomarmos um bom café-da-manhã. No meio do dia, após algumas horas de trabalho, paramos novamente para alguns momentos de conexão espiritual durante a reza da tarde (Minchá). E no final do dia, quando voltamos para casa, mais uma vez nos conectamos com a nossa espiritualidade na reza da noite (Arvit).

Muitas vezes, quando coisas "ruins" acontecem em nossas vidas, questionamos por que D'us nos abandonou. Mas a Parashá nos ensina justamente o contrário. Se estamos passando por dificuldades, pode ser um sinal de que nós abandonamos D'us. Apesar Dele cuidar do nosso bem estar 24 horas por dia, nós estamos sempre ocupados com o nosso dia-a-dia. Tudo é mais importante, tudo vem antes da nossa conexão com D'us. Então antes de reclamarmos que D'us nos abandonou, é bom checarmos se não fomos nós que O abandonamos e O deixamos falando sozinho.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ BO 5770

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FORÇA SOBRENATURAL - PARASHÁ BO 5770 (22 de janeiro de 2010)

"Em um dia quente de verão no sul da Flórida, um menino decidiu nadar no rio que corria atrás de sua casa. Ele se jogou na água refrescante e estava tão entretido que não percebeu quando um crocodilo enorme começou a nadar em sua direção. Sua mãe, que havia ficado em casa, aproximou-se da janela para ver se estava tudo bem. De repente, viu o crocodilo se aproximando de seu filho, que nadava tranquilamente sem perceber o perigo. Começou a gritar o mais alto que podia para alarmar o filho. Apesar da distância, o menino percebeu que havia algo de errado. Foi então que notou o crocodilo vindo em sua direção. Tentou nadar o mais rápido que podia para sair do rio, mas já era tarde demais, o crocodilo já o havia alcançado.

A mãe, em total desespero para salvar seu filho, atirou-se no rio. Quando o crocodilo abocanhou as pernas do garoto, a mãe agarrou-o pelos braços. A mãe, usando todas as suas forças, lutou contra o crocodilo para salvar a vida de seu filho. O crocodilo era forte, tentava arrastar o menino para o fundo do rio, mas a mãe não desistia, não parava de lutar.

Naquele instante passou por ali um caçador. Ao ver a luta desesperada da mãe com o crocodilo, sacou sua espingarda e, com um tiro certeiro, matou o crocodilo. A mãe trouxe o filho até a margem e levou-o o mais rápido que pôde ao hospital. O menino, apesar dos graves ferimentos nas pernas, sobreviveu e depois de alguns meses voltou a andar normalmente.

Enquanto o menino estava hospitalizado, ele recebeu a visita de um jornalista que havia escutado a história e queria saber mais detalhes. O garoto contou tudo o que havia acontecido e, levantando a colcha, mostrou os ferimentos dos pés e pernas, que deixariam cicatrizes profundas para o resto da vida. Quando o jornalista estava saído do quarto, o garoto o chamou de volta e disse:

- Perdoe-me, mas as marcas mais interessantes eu ainda não lhe mostrei.

Então, com muito orgulho, mostrou as marcas e cicatrizes de seu braço. Eram as marcas das mãos de sua mãe que, ao segurá-lo com muita força para tirá-lo da boca do crocodilo, tinha ferido seu braço. Então uma lágrima escorreu dos seus olhos e ele falou, muito emocionado:

- Eu tenho estas marcas porque minha mãe não me largou. Ela sabia que não podia lutar contra um crocodilo, mas ela não mediu esforços. Mesmo que parecia impossível, ela não desistiu de mim. Somente assim ela conseguiu salvar minha vida"

Não sabemos a força que temos dentro de cada um de nós, e muitas vezes desistimos, sem mesmo lutar, de batalhas que poderíamos vencer se conhecêssemos o nosso verdadeiro potencial.

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Na Parashá desta semana, Bo, D'us continuou castigando os egípcios com as pragas, em retribuição a todo o mal que eles haviam feito aos judeus durante todos os anos de escravidão. Outro motivo das pragas era para que D'us revelasse o Seu imenso poder a todo o mundo. Mas aparentemente as pragas não conseguiram fazer o faraó se curvar diante de D'us. Mesmo após oito pragas terem devastado o Egito, assim está escrito na Parashá "E ele os expulsou (Moshé e Aharon) diante da presença do faraó" (Shemot 10:11). Como o faraó ousou tratar Moshé e Aharon de maneira tão vergonhosa, expulsando-os de seu palácio, como se eles não fossem nada, depois de todos os milagres que eles haviam feito aos olhos de todos os egípcios?

A resposta encontramos na Parashá da semana passada. Após D'us ter mandado a sexta praga, uma doença que causava bolhas sobre todo o corpo dos egípcios, está escrito "D'us endureceu o coração do faraó e ele não os escutou" (Shemot 9:12). Até a sexta praga o faraó teve o livre arbítrio de enxergar seus erros e se arrepender, mas a partir da sexta praga seu livre arbítrio foi retirado. É por isso que, mesmo após tantos milagres e destruição, o faraó ainda tratava Moshé e Aharon com desdém, pois D'us havia endurecido seu coração.

Observamos que após a sexta praga, se D'us não tivesse endurecido o coração do faraó, ele teria deixado os judeus saírem do Egito. Mas surge uma grande pergunta: qual a diferença desta praga para as cinco pragas anteriores, que não tinham conseguido tocar o coração do faraó? Podemos entender o porquê das pragas do sangue e do sapo não terem tocado o coração do faraó, já que a Torá escreve que seus magos também conseguiram, através do uso de magia negra, repetir as pragas. Mas a partir da terceira praga, piolhos, os magos não conseguiram mais repeti-las, e eles mesmos afirmaram "É o dedo de D'us". Então por que a praga das bolhas tocou mais o coração do faraó do que as anteriores?

Explica o Rav Chaim Shmulevitz que o ser humano tem forças dentro de si mesmo que ele não consegue nem mesmo imaginar. Quando Adam Harishon (Adão) foi criado, o Talmud (Torá Oral) ensina que ele podia enxergar de um extremo do mundo até o outro extremo, desde a Terra até o céu, e apenas quando ele pecou é que seu potencial foi diminuído. Isso quer dizer que ele tinha uma força sobrenatural, tudo estava ao seu alcance. Quando Yaacov foi dar água para o rebanho de Rachel, ele retirou sozinho da boca do poço uma gigantesca pedra que normalmente somente era removida com a força de vários pastores juntos. Quando Batia, a filha do faraó, viu a cesta de Moshé no rio Nilo, ela esticou sua mão e conseguiu alcançá-lo a uma distância que qualquer ser humano normal não teria conseguido. E Torá traz vários outros exemplos de eventos nos quais nossos antepassados mostraram ter uma força sobrenatural. Qual a fonte desta força?

Responde o Rav Chaim Shmulevitz que para conseguir esta força sobrenatural a pessoa precisa acertar o seu foco e os seus objetivos na vida. Quando a pessoa está completamente focada e determinada em atingir seu objetivo, ela consegue obter forças que nem mesmo imaginava. São inúmeros os casos de pessoas que, quando ameaçadas por qualquer tipo de perigo, conseguem realizar façanhas que eram consideradas impossíveis. Mães levantam sozinhas carros para salvar seus filhos de um atropelamento certo, pessoas fazem coisas impossíveis para salvar suas vidas em um incêndio. A obrigação de resolver um problema e a sensação de necessidade cria nas pessoas uma força imensa, muito maior do que sua força normal.

Esta foi a diferença da praga das bolhas e as pragas anteriores. Como Moshé executou a praga das bolhas? Assim está escrito: "E eles (Moshé e Aharon) pegaram um punhado de cinzas, ficaram diante do faraó, e Moshé atirou (as cinzas) aos céus, e elas se transformaram em bolhas que atingiram os seres humanos e os animais" (Shemot 9:10). Explica Rashi, comentarista da Torá, que a linguagem utilizada na Torá, "atirou", somente é utilizada quando alguém joga algo com muita força. Mas se as pragas eram para revelar o poder de D'us, por que Moshé teve que atirar as cinzas com força? Se fazia parte do milagre, por que D'us não fez algo ainda maior, com Moshé jogando as cinzas para cima sem força?

Responde o Rav Chaim Shmulevitz que o ato de atirar as cinzas não fazia parte do milagre. Moshé conseguiu atirar o punhado de cinzas sobre todo o Egito com sua própria força, pois tinha o foco e a determinação, e conseguiu chegar a uma força sobrenatural. Quando o faraó presenciou isto, seu coração se derreteu e ele finalmente enxergou a grandeza de D'us.

Vemos na história do povo judeu muitas pessoas que se superaram e chegaram a níveis inimagináveis. Um dos maiores exemplos foi o famoso Rabi Akiva, a quem devemos muito por toda a Torá que temos até os nossos dias. Até os 40 anos ele era um completo analfabeto. Passou 24 anos estudando longe de casa e voltou com 24 mil alunos. Poderíamos pensar que todas as pessoas que tiveram desempenhos sobrenaturais na vida eram pessoas já "predestinadas" ao sucesso. Mas isso não é verdade, é um grande engano. Tudo depende do nosso foco e da nossa determinação na vida. Quando qualquer pessoa colocar em seu coração e sentir a necessidade de se conectar com a sua espiritualidade, certamente conseguirá despertar em sua alma forças inimagináveis, como fez o Rabi Akiva.

Quando a Torá descreve o nascimento de Moshé, está escrito: "E um homem da casa de Levi foi e se casou com uma filha de Levi. E a mulher engravidou e deu a luz a um filho" (Shemot 2:1,2). Por que a Torá escreve "um homem da casa de Levi" e "uma filha de Levi", ao invés de escrever "Amram" e "Yochevet", o nome dos pais de Moshé? Pois poderíamos pensar que Moshé foi grande apenas porque era filho de Amram, o líder do povo judeu no Egito, e Yochevet, uma grande Tzadiká (Justa) que arriscou a vida para proteger os bebês judeus. Então a Torá escreveu apenas "um homem da casa de Levi" e "uma filha de Levi" para nos ensinar que Moshé chegou a ser grande por seu próprio esforço e vontade de alcançar altos níveis espirituais.

Dizem os nossos sábios que todos os dias temos que nos fazer a seguinte pergunta: "Quando meus atos chegarão no mesmo nível dos atos dos meus antepassados Avraham, Itzchak e Yaacov?". Não é uma utopia cobrar isso de nós mesmo, que estamos atualmente em um nível espiritual tão baixo? Nossa Parashá ensina que não, pois se conseguirmos nos concentrar no nosso objetivo na vida, colocando todo o nosso foco e os nossos esforços no nosso crescimento espiritual, certamente descobriremos dentro de cada um de nós uma força que nunca sonharíamos ter.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAERÁ 5770

BS"D

INFLUENCIANDO PARA O BEM - PARASHÁ VAERÁ 5770 (15 de janeiro de 2010)

Quando o rabino Moshe Grunenbaum (nome fictício) se casou, demorou alguns anos até que ele conseguiu ter filhos. Ele decidiu então, junto com sua esposa, dedicar o tempo livre que tinham para ajudar casais com problemas de Shalom Bait (paz familiar). Em uma noite de Shabat, a família Grunenbaum recebeu um casal não religioso que, segundo os amigos mais próximos, estava com grandes problemas de Shalom Bait. Durante o jantar a conversa fluiu tranquilamente, e eles não conseguiram perceber nada de errado com o casal. Mas quando o marido pediu licença para ir ao banheiro, a mulher então aproveitou para desabafar:

- Vocês precisam me ajudar. Meu marido está ficando louco. Ele tem um ótimo emprego, recebe muito dinheiro, mas não quer gastar um centavo. Chego a passar fome de vem em quando! A casa está caindo aos pedaços, enquanto o dinheiro fica guardado no banco. Tento conversar, mas ele sempre fica muito agressivo quando falamos sobre dinheiro. Não sei até onde consigo aguentar esta situação!

O Rav Grunenbaum ficou muito preocupado. Quando o marido voltou para a mesa, o rabino pensou em como abordar o assunto sem que o marido percebesse que haviam falado sobre ele. Aproveitou que a Parashá da semana tratava de assuntos monetários e começou a comentar sobre a importância do bom uso do dinheiro e, entre outras coisas, a obrigação do marido de suprir as necessidades da esposa. De repente, o marido interrompeu o Rav Grunenbaum, olhou para a esposa e começou a gritar com ela:

- Você falou algo para eles? Por que você insiste em falar dos nossos problemas com outras pessoas?

E virando-se para o Rav Grunembaum, ele falou:

- Minha esposa acha que eu sou um sovina, mas ela está errada. Ela não entende que eu sou apenas uma pessoa econômica.

Ensina o Rav Grunembaum que assim é o ser humano, achamos que estamos sempre certos, muitas vezes não conseguimos enxergar o quanto estamos afastados dos caminhos corretos, ao ponto de um marido não cuidar das necessidades de sua esposa e se achar apenas uma pessoa "econômica". (História Real)

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Na Parashá desta semana, Vaerá, após o faraó se mostrar intransigente e não permitir a saída do povo judeu, D'us ordenou a Moshé que começasse a trazer as pragas sobre o Egito. Mas se prestarmos atenção nas três primeiras pragas, que foram sangue, sapos e piolhos, observamos algo interessante. As pragas do sangue e do sapo deveriam ser feitas golpeando as águas do Nilo com o cajado de Moshé, enquanto a praga dos piolhos deveria ser feita golpeando a areia com o cajado. Mas nestas três pragas D'us ordenou que Aharon golpeasse a água e a areia, e não Moshé. Por que?

Explicam os nossos sábios que daqui aprendemos a importância de reconhecer as bondades que recebemos. Quando Moshé era bebê e foi colocado na cestinha, foram as águas do rio Nilo que salvaram sua vida. Quando Moshé matou um egípcio para salvar a vida de um judeu que era açoitado sem piedade, a areia serviu para escondeu o corpo do egípcio. Como Moshé, que havia recebido tantas coisas boas da água e da areia, poderia agora golpeá-las? Por isso foi Aharon quem golpeou e trouxe ao Egito as três primeiras pragas.

A explicação é muito bonita, mas ficam algumas dúvidas. Por que Moshé tinha que se importar com os "sentimentos" da água e da areia, que são coisas inanimadas? Além disso, para a água e para a areia seria um "mérito" serem golpeadas por Moshé, pois através delas começaria a salvação do povo judeu e os egípcios seriam castigados por todos os seus maus atos. E finalmente, por que Moshé devia algum agradecimento para a água e para a areia se, afinal, elas não fizeram nada de especial por Moshé, apenas continuaram sendo o que sempre foram?

Explica o Rav Eliahu Dessler que desta Parashá aprendemos algo importante sobre as forças que atuam na alma do ser humano. As nossas Midót (traços de caráter) não são influenciadas somente pelo nosso lado intelectual, mas também recebemos uma forte influência do nosso lado sentimental. Quando D'us ordenou a Moshé que não realizasse as três primeiras pragas, não foi por causa dos sentimentos da água e da areia, e sim pelas Midót de Moshé. Se não reconhecermos o bem recebido, mesmo que seja de um objeto inanimado do qual tivemos algum benefício, influenciamos a nossa alma de maneira negativa. A Midá de Hacarat Hatóv (reconhecer uma bondade recebida) de Moshé Rabeinu teria sido prejudicada se ele tivesse golpeado a água e a areia. Mesmo que para a água e para a areia teria sido um "mérito", as conseqüências para Moshé teriam sido negativas, não teria valido a pena.

Se nos aprofundarmos um pouco nos ensinamentos da Parashá, podemos aprender mais um fundamento da Midá de Hacarat Hatóv. Poderíamos pensar que devemos ter gratidão apenas quando alguém se esforça para nos fazer algo bom, mas se recebemos alguma coisa boa indiretamente, não estaríamos obrigados a reconhecer e a agradecer. Por exemplo, se uma pessoa é convidada para jantar com uma família muito grande, e a comida não foi feita especialmente para ele, pensaríamos que não há nenhuma necessidade de agradecer, afinal, não foi feito nada especial por ele. Se uma pessoa vai ao trabalho de táxi, pensaríamos que não há nenhuma obrigação de agradecer ao motorista, pois ele ganhou dinheiro pelo serviço, e não fez por bondade. Mas da Parashá aprendemos que nossa obrigação de Hacarat Hatóv vai muito além. Mesmo que as águas do Nilo e a areia não fizeram nada de especial por Moshé, pelo fato dele ter recebido algum benefício, mesmo que de forma indireta, isso já o obrigava a ter Hacarat Hatóv. E se a obrigação recai sobre coisas inanimadas, muito mais sobre pessoas que nos fazem coisas boas, não importa que seja de forma indireta.

Portanto, aprendemos o quanto somos influenciados pelo que fazemos e pelo que vivenciamos. Mas se analisarmos o nosso dia-a-dia, perceberemos que recebemos muitas más influências, que certamente vão atuando na nossa alma de maneira negativa. Vemos apenas notícias de tragédias e de desonestidade, as propagandas tentam provar que precisamos de coisas que são completamente desnecessárias, os ambientes de trabalho estão carregados de Lashon Hará (falar mal dos outros) e de concorrência desleal. Como fazer para não ser corrompido por todas estas forças negativas?

Um dos maiores presentes que o povo judeu recebeu foram as Mitzvót da Torá. Além de toda a influência espiritual positiva que nossa alma recebe ao cumprir as Mitzvót, algumas delas ainda influenciam nossas atitudes, e muitas vezes atuam no nosso subconsciente e nos ajudam a ser pessoas melhores sem que percebamos. Por exemplo, uma pessoa que tem uma natureza sovina e tem dificuldade de utilizar seu dinheiro para fazer coisas boas, ao cumprir Mitzvót como dar Tzedaká ou tirar o Maasser (separar 10% de todo o dinheiro que recebemos para dar aos necessitados), começa a quebrar sua natureza negativa. Pessoas mais suscetíveis aos seus desejos, quando cumprem a Mitzvá de não misturar carne com leite, estão melhorando seu autocontrole. E assim com muitas outras Mitzvót.

Cada ato que fazemos influencia as nossas Midót. Ensinam os nossos sábios que se uma pessoa têm 100 reais para dar de Tzedaká, é preferível que ela dê 1 real para cem pobres do que 100 reais para um único pobre. Por que? Pois ao fazer o gesto de dar Tzedaká 100 vezes, além de ajudar ao próximo, isso tem uma influência sobre a própria pessoa muito maior do que se fizesse o mesmo gesto apenas uma vez. Obviamente que cada caso deve ser estudado com cuidado, se há uma pessoa necessitada que precisa urgentemente dos 100 reais é preferível dar para ela todo o dinheiro. O que nossos sábios querem ressaltar é que quando repetimos muitas vezes um bom ato, algo que é apenas externo se internaliza e passa a fazer parte da nossa natureza. Por isso aqueles que vivem de acordo com as Mitzvót têm muito mais chances de se tornarem boas pessoas.

Aquele que se esforça em reconhecer a bondade que recebe dos outros consegue, no final das contas, também reconhecer tudo o que recebe de bom do Criador do mundo. Pois Ele nos faz bondades e milagres 24 horas por dia e, por nossa falta de trabalho na Midá de Hacarat Hatóv, raramente lembramos de agradecer por tudo o que temos de bom na vida.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ SHEMOT 5770

BS"D

O AMOR VENCE O EGOÍSMO - PARASHÁ SHEMOT 5770 (01 de janeiro de 2010)

No meio de uma aula, uma das crianças perguntou à professora o que era o amor. A professora sentiu que a criança merecia uma resposta à altura da pergunta inteligente que havia feito. Como já estava na hora do recreio, pediu para que cada aluno desse uma volta pelo pátio da escola e trouxesse o que mais despertasse nele o sentimento de amor. As crianças saíram apressadas e, ao voltarem, a professora pediu para que cada um mostrasse o que havia trazido.

A primeira criança trouxe uma flor que exalava um delicioso perfume. A segunda criança trouxe uma linda borboleta, de asas coloridas e brilhantes. A terceira criança trouxe um filhote de passarinho que havia caído do ninho junto com outro irmãozinho. E assim cada criança apresentou o que havia trazido do pátio.

Terminada a exposição, a professora notou que uma das crianças tinha ficado quieta o tempo todo.
Ela estava envergonhada por não ter trazido nada. A professora se dirigiu a ela e perguntou:

- Meu querido, por que você não trouxe nada?

E a criança timidamente respondeu:

- Desculpe, professora. Vi a flor, senti o seu perfume e pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que outras pessoas também aproveitassem o perfume. Vi também a linda borboleta colorida, mas não tive coragem de aprisioná-la e tirar dos outros o prazer deste maravilhoso espetáculo da natureza. Finalmente vi também o passarinho caído entre as folhas, mas, ao subir na árvore, notei o olhar triste de sua mãe e não tive coragem de pegar o filhote. Portanto, professora, trago comigo o perfume da flor, a beleza da borboleta e a gratidão que senti nos olhos da mãe do passarinho. Como posso mostrar o que trouxe?

A professora agradeceu a criança e deu-lhe nota máxima, pois ela foi a única que percebeu que o amor verdadeiro só existe quando conseguimos anular o nosso egoísmo e pensar de verdade nos outros.

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Nesta semana começamos o segundo livro da Torá, Shemot, também conhecido como "Sefer Hagalut ve HaGueulá" (Livro do Exílio e da Redenção), pois conta sobre o exílio do povo judeu no Egito e a milagrosa redenção, com as 10 pragas e a abertura do mar Vermelho. E a Parashá desta semana, Shemot, começa justamente com o início da escravidão no Egito e o nascimento de Moshé, o escolhido de D'us para nos salvar.

Quando Moshé nasceu, os astrólogos do faraó viram nas estrelas o nascimento do salvador do povo judeu, e por isso foi decretado de que todos os bebês homens fossem atirados no rio Nilo, tanto os judeus quanto os egípcios, pois não sabiam de onde viria o salvador, se seria um judeu ou mesmo um egípcio traidor. Os pais de Moshé, que tinham muita Emuná (fé), colocaram-no em uma cesta, revestida por fora com um material impermeável, e colocaram a cesta no rio Nilo para salvar a vida do bebê, certos de que D'us dirigiria a cesta para a salvação. E assim aconteceu, o cesto chegou até o local onde Batia, a filha do faraó, estava se banhando. Moshé, o salvador do povo judeu, foi ironicamente criado na casa do mesmo faraó que tentou matá-lo.

Mas no versículo que descreve o encontro de Batia com Moshé há algo que chama a atenção. Assim está escrito: "E (Batia) abriu (a cesta) e viu a criança, e eis que o jovem estava chorando. E ela teve misericórdia e disse: 'Esse é um filho dos hebreus' " (Shemot 2:6). Deste versículo surgem algumas perguntas. Primeiro, por que está escrito "o jovem estava chorando" se Moshé era apenas um pequeno bebê? Além disso, como Batia sabia que o bebê era hebreu? E finalmente, por que a Torá juntou, no mesmo versículo, a idéia do choro com o entendimento de Batia que o bebê era hebreu?

O Egito era um lugar espiritualmente muito baixo. Eram comuns os atos de enganação e traição, incluindo o adultério, pois os egípcios eram egoístas, centrados apenas em seus próprios interesses e prazeres e não se importavam com os outros. Já os hebreus eram justamente o contrário. Descendentes de Avraham, Ytzchak e Yaacov, que constantemente praticavam a bondade, o povo judeu foi moldado com a característica de amor ao próximo. A diferença saltava aos olhos.

Explicam nossos sábios algo fantástico. Na verdade quem Batia ouviu chorando não foi Moshé, e sim seu irmão Aharon, que estava chorando de preocupação com o destino do seu pequeno irmãozinho, e por isso a Torá escreve que quem estava chorando era um jovem, e não um bebê. Quando Batia viu alguém chorando por outro ser humano, teve certeza de que não era um egípcio. Certamente era um hebreu.

A Parashá mostra outros exemplos de como os judeus se importavam com os outros. Moshé foi criado no palácio do faraó, com tudo do bom e do melhor, mas não estava contente vendo seus irmãos sofrendo com a escravidão, e perdeu todo o luxo que tinha na vida para salvar um hebreu que estava sendo covardemente açoitado por um egípcio. Miriam, a irmã de Moshé, arriscou a vida ao acompanhar a cesta que descia o rio Nilo, pois como Aharon, ela estava preocupada com o destino de seu irmão.

A história se repete. Atualmente vivemos em uma sociedade que também está voltada apenas aos seus próprios prazeres e interesses. Convivemos com notícias de políticos corruptos que agem apenas em seu próprio benefício. A traição e a mentira voltaram a ser práticas comuns. Vivemos em um capitalismo selvagem, onde cada um procura garantir o que é seu, passando por cima dos outros se for necessário. Uma quantidade cada vez maior de mendigos vive nas ruas, e achamos normal ver um ser humano imundo dormindo na rua feito um animal. Cada vez menos as pessoas se ajudam e se importam. Em um mundo tão egoísta, podemos ser boas pessoas e nos importar com os outros?

Os judeus também são conhecidos como hebreus por causa de Avraham Avinu, chamado de "Ivri", do hebraico "Ever", que significa "lado". Enquanto o mundo inteiro estava do lado da idolatria, Avraham estava sozinho do outro lado, defendendo o monoteísmo. Ele não se importava que o mundo inteiro estivesse contra ele. O importante era fazer o que ele sabia ser o correto.

Herdamos estes dois potenciais espirituais de Avraham: a força de ir contra a sociedade e a capacidade de se importar com os outros. Não podemos nos acomodar, não temos a desculpa de não nos importar com os outros porque ninguém se importa. Aharon não se acomodou, Moshé não se acomodou, Miriam não se acomodou. Pessoas que tiveram coragem de não viver no comodismo escreveram a história do povo judeu. Mesmo nos dias de hoje temos incontáveis exemplos dentro do povo judeu de pessoas que dedicam suas vidas a ajudar ao próximo. Os grandes rabinos de nossa geração, como o Rav Eliashiv e o Rav Chaim Kanievski, praticamente não têm uma vida particular, todo o tempo deles é voltado a ajudar as pessoas que durante todo o dia os procuram com problemas para resolver.

Que possamos ter a coragem de fazer parte do grupo daqueles que não se acomodam e estão, atualmente, escrevendo a história do mundo.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAIEHI 5770

BS"D

BILHETE PREMIADO - PARASHÁ VAIEHI 5770 (01 de janeiro de 2010)

"Entre as retrospectivas do ano de 2009, uma notícia interessante chamou a atenção do mundo. Em maio, uma estudante da Austrália, preocupada com a difícil situação financeira dos seus pai, revirou suas gavetas até encontrar um antigo bilhete de loteria que ela tinha guardado havia 10 meses mas ainda não tinha conferido o resultado. Na esperança de talvez receber algum dinheiro que pudesse ajudar os pais, ela levou o bilhete à casa lotérica e quase teve um ataque. O funcionário da casa lotérica informou que ela havia acertado sozinha uma loteria acumulada e receberia um prêmio de 13 milhões de dólares australianos (cerca de 20 milhões de reais).

A casa lotérica vinha há vários meses fazendo uma campanha para encontrar o dono do bilhete premiado. As pessoas estavam intrigadas com o misterioso vencedor que não aparecia para receber seu prêmio. Será que a pessoa não sabia que havia se tornado milionária do dia para a noite?

O mais interessante é que a estudante encontrou o bilhete depois de 10 meses, e segundo as regras da loteria australiana Lotterywest, os contemplado tem o prazo máximo de 12 meses para retirar o prêmio, e depois disso o bilhete expirara e o prêmio volta a ser sorteado. Mais 2 meses e ela teria perdido seus 20 milhões de reais.

A estudante mora na cidade costeira de Perth. Ela havia recebido o bilhete em 22 de julho de 2008, como um presente de seu pai. Ela conta que no dia em que levou o bilhete à casa lotérica, havia acordado preocupada com as finanças da família. Disse ainda que alguma coisa a levou a procurar e checar o bilhete, com a intuição de que poderia talvez ajudar seus pais. Ela esperava um prêmio secundário, algumas centenas de dólares, mas nunca um prêmio de milhões. A estudante, de pouco mais de 20 anos, pediu para que seu nome não fosse divulgado.

- Eu vou me lembrar e cuidar das pessoas próximas, e devo dar alguma coisa para pesquisas e para a caridade - disse a estudante - É legal ter essa quantia para realizar meus sonhos e os sonhos das pessoas ao meu redor"

A estudante australiana foi, por 10 meses, uma milionária sem saber. Assim somos todos nós, milionários que não nos damos conta. E não apenas por 10 meses, mas por uma vida inteira.

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A Parashá desta semana, Vaiehi, encerra o primeiro livro da Torá, Bereshit, que vai desde a criação do universo até as fundações espirituais do povo judeu, através dos nossos patriarcas Avraham, Ytzchak e Yaacov, pilares do nosso povo. E a Parashá termina justamente com a morte de Yaacov, o patriarca que representa a luta contra o nosso mal instinto em um mundo material cheio de dificuldades.

Antes de morrer, Yaacov queria dar uma Brachá (Benção) a todos os seus filhos, mas em especial a Yossef, cujos filhos, Efraim e Menashé, foram elevados ao nível de filhos de Yaacov e se tornaram parte das 12 tribos de Israel. A primogenitura e o direito a uma porção dupla foi passada de Reuven para Yossef. Quando Yaacov adoeceu e sentiu que a morte se aproximava, Yossef foi avisado e imediatamente veio ao seu encontro, acompanhado dos seus dois filhos. Yaacov primeiro conversou com Yossef e, ao ver Efraim e Menashé, fez uma pergunta aparentemente estranha, como está escrito "E então Israel (Yaacov) viu os dois filhos de Yossef e disse: 'Quem são eles?' " (Bereshit 48:8). Por que Yaacov perguntou "quem são eles?" se havia passado seus últimos 17 anos no Egito estudando Torá com seus netos Efraim e Menashé todos os dias?

A explicação mais simples é que Yaacov já estava quase completamente cego, mas conseguia ainda enxergar a silhueta das pessoas. Quando Yossef chegou e foi anunciado, Yaacov percebeu que havia duas pessoas que o acompanhavam, e por isso perguntou quem eram eles.

Mas existe uma explicação mais profunda. Durante os 22 anos que Yossef estava no Egito, Yaacov ficou enlutado, inconsolável com a suposta morte do seu filho preferido. E durante estes 22 anos a Torá nos ensina que Yaacov perdeu completamente a sua profecia. Por que? Pois D'us está presente onde a alegria está presente, mas onde há tristeza a presença de D'us se afasta.

Explica o famoso comentarista Or HaChaim que Yaacov certamente sabia que eram os seus netos que estavam entrando junto com seu filho Yossef. Então por que ele perguntou quem eram eles? Pois Yaacov estava prestes a dar uma Brachá especial para seu filho e seus netos, e neste momento quis aumentar sua alegria para que a força da presença de D'us aumentasse. Quando ele perguntou quem eram eles, Yaacov queria justamente escutar o que Yossef respondeu: "Estes são meus filhos, que D'us me deu aqui". Efraim e Menashé eram dois jovens com grandes virtudes morais, um grande presente de D'us para Yossef. E Yaacov sabia que não há maior alegria do que quando conseguimos enxergar os presentes que nós recebemos de D'us. Era isso o que Yaacov queria, despertar dentro de si mesmo e dentro de Yossef a alegria de reconhecer o que D'us havia dado de bom para eles.

Será que nós conseguimos sentir esta alegria de reconhecer o que temos de bom? No último dia do ano não-judaico foi feito um sorteio especial da loteria com um prêmio de mais de 140 milhões de reais. Muitas pessoas passaram a semana sonhando acordadas, imaginando o que fariam com um prêmio destes. Um apartamento novo, o carro do ano, um iate, uma casa de campo, quem sabe até mesmo um helicóptero. Em resumo, uma vida nova, cercada de luxo. Mas vamos imaginar que o ganhador tivesse sido um cego. Talvez ele não aproveitaria tanto o prêmio, pois não veria a casa nova nem o carro novo. Certamente ele estaria disposto a dar metade do prêmio, 70 milhões, para ter sua visão de volta. Talvez até mais. Ficaria contente em ficar com 10 milhões se pudesse enxergar. Se o ganhador estivesse preso a uma cadeira de rodas também certamente daria grande parte do seu prêmio milionário para voltar a andar. Por que? Pois a visão, a audição, os movimentos do nosso corpo valem mais do que um grande prêmio de loteria.

Todos os dias nós acordamos, abrimos os nossos olhos, nos levantamos sem a ajuda de ninguém e caminhamos. Nos sentimos como ganhadores da loteria? Não, pois estamos acostumados a tudo isso, não damos mais valor. Explica o Rav Noach Waiberg ZT"L que cada ser humano que pode enxergar, que pode andar, que desperta para mais um dia de vida, é como se estivesse recebendo um enorme prêmio de loteria. A felicidade que sentiríamos seria imensa se cada um de nós conseguisse reconhecer e internalizar tudo o que temos de bom. Pois assim nos ensina o Pirkei Avót: "Quem é o rico? Aquele que está contente com o que tem". Somos milionários, talvez bilionários. Quanto pagaríamos por nosso corpo que funciona perfeitamente? Quanto pagaríamos por nossos filhos? Quanto pagaríamos por nossa família? Não há dinheiro que pague nenhuma destas coisas.

Por isso, ao invés de reclamar tanto, ao invés de olhar as coisas ruins, temos que focar em todas as coisas boas que temos, em todas as oportunidades que D'us nos dá. Perdeu o emprego? Agradeça que tem saúde para procurar outro trabalho. Perdeu a saúde? Agradeça que tem uma família para cuidar de você. Não encontra a outra metade? Agradeça os amigos que te apóiam e estão ao teu lado. Olhe o lado positivo, veja quantas coisas maravilhosas cada um de nós tem na vida. Alegria não é um estado de espírito passageiro. Alegria é quando mudamos o foco, quando aprendemos a perceber o quanto são pequenos os problemas comparados com tudo o que temos de bom na vida.

Que possamos enxergar o prêmio de loteria que recebemos todos os dias, para que possamos nos sentir milionários e felizes de verdade.

"Não diga para D'us que você tem um grande problema. Diga para seu problema que você tem um grande D'us"

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm