sexta-feira, 9 de outubro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - SHMINI ATSERET E SIMCHÁ TORÁ 5770

BS"D
TESOUROS ESCONDIDOS – SHMINI ATSÉRET E SIMCHÁ TORÁ 5770 (09 de outubro de 2009)
"Em uma pequena cidade morava um simpático velhinho que vivia uma vida simples. Certo dia, ao cavar seu jardim para plantar uma árvore, ele encontrou um tesouro enterrado. Eram muitas jóias de valor inestimável. Mas apesar da grande alegria de ter encontrado algo tão valioso, ele teve medo que sua fortuna iria atrair muitos interesseiros, e por isso ele preferiu continuar vivendo modestamente. Para que ninguém desconfiasse, ele decidiu esconder as jóias dentro das paredes da sua casa.
Após algum tempo o velhinho ficou muito doente e morreu de repente, sem tempo de contar para seu único descendente, um parente muito distante, o seu grande segredo. O rapaz, que era muito pobre, ficou contente ao saber que havia herdado a casa do velhinho, e imediatamente mudou-se para lá, sem imaginar os grandes tesouros que aquelas paredes ocultavam.
Certo dia o rapaz perdeu um pequeno objeto. Ao procurá-lo, percebeu que havia uma pequena abertura em uma das paredes da casa. Ao se aproximar mais ele viu que havia lá dentro um brilho estranho. Abriu um pouco mais a abertura na parede e encontrou um colar de diamantes. Ele dançou e pulou de alegria com a sua descoberta. E conforme ele ia abrindo a parede, surgiam as mais maravilhosas jóias que ele já havia visto. Quando terminava uma parede, o rapaz começava a procurar em outra parede, até que todo o tesouro foi encontrado e o rapaz se se tornou um grande milionário"
Explica o Maguid Mi Duvna que assim também é a nossa Torá, D'us ocultou dentro dela vários tesouros do conhecimento humano. Quanto mais a pessoa se esforça para conhecer a Torá, mais vai revelando seus maravilhosos conhecimentos e maior é a alegria que ela vai sentindo.
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Nesta semana o Shabat coincide com a festa de Shmini Atseret, e no Domingo comemoramos a festa de Simchá Torá, quando terminamos o ciclo anual de leitura da Torá com a Parashá Vezot Habrachá e dançamos alegremente segurando o Sefer Torá. Apesar da festa de Shmini Atseret vir imediatamente depois de Sucót, a Torá diz explicitamente que são duas festas distintas. Porém, nossos sábios explicam que estas duas festas estão muito conectadas.
Sucót é a festa que fecha dois ciclos. O primeiro ciclo é o dos Shalosh Regalim (três festas nas quais todos os judeus saiam de suas casas e iam para o Beit Hamikdash, o Templo Sagrado), que começa com Pessach, segue com Shavuot e termina com Sucót. Sucót também fecha o ciclo das festas do começo do novo ano, que começa com Rosh Hashaná, segue com Yom Kipur e termina com Sucót. Shmini Atseret é, portanto, o clímax do ano, e representa o momento em que o amor de D'us pelo povo judeu chega ao seu limite máximo.
Porém, se a festa de Shmini Atseret é como se fosse uma continuação de Sucót, por que não temos mais a Mitzvá de habitar na Sucá?
Em Sucót nós trabalhamos nossa conexão espiritual com D'us, abandonando nossas casas e habitando por sete dias na Sucá. Saímos do nosso mundo para viver no mundo Dele por uma semana. O nome Shmini Atseret significa, literalmente, "O oitavo (dia), dia da parada". Depois de toda esta inspiração e proximidade que construímos em Sucót, D'us nos pede para pararmos e ficarmos com Ele mais um dia, para manter por mais um dia nossa proximidade com Ele. Segundo o judaísmo, o número 7 representa a natureza e as leis do mundo material, enquanto o número 8 representa o sobrenatural, o espiritual. Os 7 dias de Sucót representam a vida neste mundo, e portanto nós precisamos da proteção da Sucá e do lembrete de que este mundo é como a Sucá, algo apenas passageiro e provisório. Porém Shmini Atseret, o oitavo dia, representa a nossa vida no Mundo Vindouro, e portanto não precisa da proteção nem do lembrete da Sucá.
Rashi, famoso comentarista da Torá, explica que o versículo que descreve a festa de Shmini Atseret tem dois significados. Literalmente está escrito "No oitavo dia haverá uma congregação sagrada para vocês... é uma reunião, e você não deve realizar nenhum trabalho construtivo" (Vayikrá 23:36). Porém, a palavra "Atseret", que significa "reunião", também significa "parar". Explica Rashi que é como se D'us estivesse pedindo "parem diante de Mim mais um dia, pois é difícil a partida de vocês". Mas normalmente quando duas pessoas se despedem, o normal é que elas digam "é difícil nossa partida". Por que Rashi explica que é como se D'us dissesse "pois é difícil a partida de vocês"?
Desde Elul começamos a sentir uma proximidade maior com D'us. É um mês de muito trabalho espiritual, e que nos esforçamos para melhorar um pouco mais em cada Mitzvá que praticamos. Então chega Rosh Hashaná e entramos no quintal do Rei. Yom Kipur é o momento em que despertamos a misericórdia de D'us e nos aproximamos mais um pouco Dele ao pedirmos perdão por todos os nossos erros, e Ele nos perdoa. Finalmente vem Sucót, quando saímos das nossas casas e moramos por uma semana na casa Dele. Chega então Shmini Atseret, o momento da despedida, e recebemos um pedido especial de D'us para passarmos mais um dia juntos. D'us, na despedida, nos deixa claro que somos nós que estamos indo embora, pois Ele permanece perto de nós. Somos nós que nos afastamos. Voltamos para nossa vida cotidiana e muitas vezes nos esquecemos Dele. É por isso que está escrito "É difícil a partida de vocês", pois nós partimos, mas não Ele. Então como fazer para não nos afastarmos, para não irmos embora, para guardarmos esta proximidade para todo o ano?
É isso que ensinam os nossos sábios ao comemorar a festa de Simchá Torá junto com Shmini Atseret (fora de Israel, onde temos dois dias de Yom Tov, as festas são separadas, mas em Israel, onde há apenas um dia de Yom Tov, as duas festas são comemoradas no mesmo dia). A Torá é o tesouro que D'us nos entregou, o nosso manual de instruções que nos ensina como viver a vida da melhor maneira possível e como tirar o máximo proveito dela, tanto para este mundo quanto para o Mundo Vindouro. São ensinamentos de sabedoria preciosos, que iluminam nossos caminhos e nos possibilitam crescer em espiritualidade mesmo vivendo em um mundo material. Em Simchá Torá nós dançamos carregando em nossas mãos o Sefer Torá. Nenhum outro povo dança com seus livros como nós fazemos em Simchá Torá. Alguém já viu um professor de matemática dançando com seu livro de Álgebra? Ou um professore de Ciências dançando com seu livro de Biologia? A Torá não é apenas um livro de histórias, é a nossa vida, é o que alonga nossos dias neste mundo e nos ajuda a conquistar a vida eterna. É o que nos mantém conectados com D'us durante todo o ano. Por isso dançamos com tanta alegria, pois reconhecemos o maravilhoso tesouro que recebemos. Mas será que encontramos tempo para estudar e conhecer a Torá cada vez com mais profundidade? Será que nos esforçamos para não nos afastar Dele durante todo o ano?
Encontramos em nossas vidas tempo para tudo o que consideramos importante. Nosso dia tem 24 horas, o suficiente para tudo o que precisamos fazer. Encontramos tempo para o nosso trabalho, para aquele curso importantíssimo, para a ginástica, para assistir ao programa de televisão favorito ou o jogo de futebol do nosso time do coração. Mas para a Torá muitas vezes não sobra tempo. Isso talvez indique que não consideramos a Torá como algo importante, não é algo que faz falta na nossa vida. É porque esquecemos que dela depende nossa eternidade. É porque não entendemos que dela depende a nossa felicidade neste mundo. Se todos nós fixássemos tempos diários de estudo de Torá, mesmo que fosse meia hora por dia, assistindo a uma aula ou lendo um livro, nossas vidas seriam completamente diferentes.
No mesmo dia em que terminamos o ciclo de leitura da Torá já o recomeçamos, em uma demonstração de que sabemos que, apesar de lermos as mesmas Parashiot de novo, não será o mesmo livro. Cada ano em que estudamos as Parashiot novamente, entendemos a Torá de uma maneira mais profunda. Em cada ciclo, mais e mais tesouros vão sendo encontrados dentro da Torá. Tesouros que sempre estiveram lá, mas que nós nem sonhávamos que eles existiam. Tesouros que nos ajudam a nos manter conectados com D'us durante todo o ano, diminuindo cada vez mais a distância entre nós e Ele.
SHABAT SHALOM e CHAG SAMEACH
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - SUCÓT 5770

BS"D

CURTINDO A VIDA – SUCÓT 5770 (02 de outubro de 2009)
"Havia um homem paralítico que ficava muito triste por não poder sair de casa. Ele então conheceu um outro homem que, apesar de ser muito forte e saudável, também quase não saía de casa por ser surdo. O homem paralítico então teve uma grande idéia, que seria vantajoso para os dois: eles poderiam sair de casa juntos, de forma que um poderia cobrir a deficiência do outro, e assim ambos aproveitariam melhor os prazeres da vida. O homem surdo carregaria o paralítico em suas costas, enquanto o paralítico serviria como guia do surdo, alertando-o sobre qualquer perigo iminente. E assim eles fizeram.
Certo dia eles estavam passando por um salão de onde saía uma música muito agradável. Os dois resolveram entrar e perceberam que era uma festa, e viram que as pessoas se divertiam muito dançando ao som da música que a banda tocava. O paralítico, que gostava muito de música, quis ficar um pouco mais aproveitando aquele momento, apesar de não poder dançar. Mas como convencer seu amigo de também ficar um pouco mais? Afinal, ele não escutava a música e não estava contente de estar ali parado, sem fazer nada.
Foi então que o paralítico teve uma idéia brilhante. Pediu para que o surdo fosse até a mesa onde estavam sendo servidas as bebidas alcoólicas e ofereceu para ele uma bebida forte. Quando o surdo esvaziou o copo, o paralítico ofereceu outro, e depois outro, até que viu que o surdo estava levemente tonto. O surdo, em sua embriaguez, começar a dançar e a curtir o momento. E mais ainda curtiu o paralítico, que podia escutar a música e dançar nas costas do seu amigo surdo, que ficava cada vez mais solto e mais animado por causa do efeito da bebida. Desta maneira tanto o surdo ficou contente quanto o paralítico, pois os dois estavam, daquela maneira, aproveitando o momento"
Explica o Maguid Mi Duvno que esta história nos ajuda a entender a interação entre o corpo e a alma. A alma é como se fosse um paralítico, pois sozinha não pode fazer nada, precisa do corpo para se locomover e agir. Já o corpo se assemelha ao surdo, pois não consegue sozinho saber o que fazer, precisa ser guiado e auxiliado pela alma. A alma sabe que a única forma de conseguir ter prazer neste mundo é com a cooperação do corpo. Por isso é necessário de vez em quando agradar o corpo com boa comida e bebida, para que juntos possam ter o máximo de prazer.
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Nesta semana o Shabat coincide com a festa de Sucót. Cada uma das festas tem uma característica que se sobressai. Por exemplo, Shavuot é chamada "Zman Matan Torateinu" (época da entrega da nossa Torá) pois em Shavuót recebemos a Torá. Pessach é chamada de "Zman Cheruteinu" (época da nossa liberdade) pois em Pessach fomos libertados da nossa escravidão. E finalmente Sucót é conhecida como "Zman Simchateinu" (época da nossa alegria). Há uma Mitzvá especial em Sucót de se alegrar durante os 7 dias de festa, conforme nos ensina o versículo "Por sete dias você deve festejar para Hashem, teu D'us... e você deve estar feliz" (Devarim 16:14,15).
Explicam os nossos sábios que a alegria de Sucót vem basicamente de dois componentes. De um lado há o prazer espiritual da nossa proximidade com D'us, que sentimos através do cumprimento das Mitzvót associadas à festa de Sucót, que são os Arba Minim (quatro espécies, Etrog, Lulav, Adáss e Aravá) e de viver por uma semana dentro da Sucá, uma construção temporária, onde podemos voltar a sentir de verdade que nossa única proteção vem de D'us, e não dos alarmes, das trancas e das paredes de tijolo. Porém, por outro lado os nossos sábios nos ensinam a buscar a alegria de Sucót através dos prazeres do mundo material, aproveitando os dias de Sucót com festas, danças, boa comida e bebida. Entendemos que a alegria de Sucót deve vir de prazeres espirituais, através do cumprimento de Mitzvót que preenchem a nossa alma. Mas não parece contraditório a alegria de uma festa religiosa vir através de meros prazeres do mundo material?
Infelizmente muitas pessoas que estão afastadas do judaísmo têm receio de conhecer suas raízes pelo medo de que, caso se tornem mais observantes das Mitzvót, deixarão de curtir os prazeres da vida. De onde vem este medo? Do fato de muitas religiões ensinarem que a única forma de atingir a elevação espiritual é através da anulação do corpo material. A meta é evitar qualquer tipo de prazer, e mais do que isso, muitas religiões pregam o sofrimento auto-induzido ao corpo, utilizando cintas com espinhos que furam a pele ou chicotes. O corpo deve ser desprezado e os prazeres evitados a qualquer custo.
Mas isto é um erro muito grande, e a principal prova disso é que D'us criou um mundo repleto de prazeres ao nosso alcance. Por onde olhamos encontramos uma infinidade de frutas e comidas deliciosas. Todos os dias D'us nos presenteia com um espetacular nascer e pôr do sol. As flores embelezam o ambiente e seu cheiro delicia nosso olfato. Se o propósito fosse evitar a qualquer custo todos os prazeres, por que D'us teria criado um mundo assim tão maravilhoso? O Talmud nos ensina que se deixarmos de experimentar uma fruta que temos a oportunidade de saborear, seremos cobrados pelo fato de termos perdido a oportunidade de sentir aquele prazer. Pois o judaísmo ensina que um corpo faminto não consegue chegar ao prazer verdadeiro. Somente quando o corpo for abastecido com os prazeres do mundo físico é que a alma pode se alegrar com a alegria verdadeira da proximidade de D'us.
Porém, também não podemos chegar ao extremo do excesso de prazeres, como se tornar um glutão ou um bêbado, pois se colocarmos todas as energias apenas em conseguir alcançar os prazeres do corpo, terminaremos nos afastando de D'us, como diz o versículo "E Yeshurun engordou e deu um coice" (Devarim 32:15). Yeshurun é o povo judeu, e toda vez que nos voltamos apenas à busca dos prazeres materiais, acabamos nos afastando e esquecendo de D'us, como se estivéssemos dando um coice justamente em quem nos alimentou. Fora isso, o Talmud nos garante que aquele que se alegrar de verdade em Sucót, sua alegria permanecerá inalterada durante os 7 dias da festa. Se a Torá estivesse se referindo apenas aos prazeres físicos, isso não se cumpriria. Imagine se o prazer fosse apenas sentar-se em uma mesa farta, com as melhores comidas e bebidas. No primeiro dia sairíamos da mesa completamente satisfeitos e felizes. No segundo dia já não aproveitaríamos tanto, pois nosso apetite não seria tão grande. No último dia de Sucót o banquete já não seria um prazer, seria um sofrimento, pois após 7 dias de banquetes ininterruptos, nem as melhores iguarias poderiam nos satisfazer.
Portanto, o ideal, segundo o judaísmo, é o equilíbrio e a moderação. Se utilizarmos os prazeres materiais da forma correta, sem abusos nem excessos, estaremos não apenas aproveitando o mundo material, mas também nos encaminhando para atingir os prazeres do mundo espiritual. Não apenas no primeiro dia, mas nos 7 dias de festa. Podemos comer e beber, mas deve ser em honra da festa de Sucót, isto é, utilizando o material canalizado para atingir o prazer espiritual.
Quando um foguete é lançado para alcançar a lua, são necessários vários estágios. A ignição é dada pelo quinto estágio, que faz o foguete partir. Quando o quarto estágio entra em funcionamento, o foguete atinge a velocidade de 150 km/s. O terceiro estágio finalmente vence a força de atração da Terra e coloca o foguete em órbita. O segundo estágio direciona o foguete para o destino específico, e finalmente o primeiro estágio, quando acionado, faz o foguete e seus astronautas chegarem à lua. Assim são os prazeres materiais e espirituais. A meta é chegar na conexão com o Criador do mundo, mas isso somente é possível passando pelos prazeres do mundo material, que nos colocam "em órbita".
Se bloquearmos completamente nossos prazeres materiais fazendo votos de abstinência, nosso foguete nem mesmo parte de seu ponto inicial. Se, ao contrário, vivermos apenas pelo prazer material, não chegaremos ao prazer espiritual e, no final das contas, não teremos aproveitado nada. Mas quando utilizarmos os prazeres do mundo material como um impulso para chegar mais alto, conseguiremos aproveitar o prazer material e alcançar o prazer verdadeiro, que é o prazer espiritual de se conectar com o Criador do universo.
SHABAT SHALOM e CHAG SAMEACH

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

MENSAGEM YOM KIPUR 5770

BS"D
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Ensinam os nossos sábios que "Não existe um Tzadik (Justo) no mundo que faz o bem e não erra". Isto quer dizer que todos nós, seres humanos, temos a nossa má-inclinação constantemente nos testando, e nenhum de nós está isento de cometer erros.
Explica o Talmud que Yom Kipur serve para limpar os erros que cometemos com D'us, mas todos os erros que cometemos com o próximo não são perdoados por D'us até que sejamos perdoados pela pessoa com quem erramos. Não adianta passar o Yom Kipur inteiro rezando e chorando, é necessário antes pedir perdão para a pessoa que fizemos mal e convencê-la a nos perdoar.
Portanto, gostaria de aproveitar a oportunidade para, de coração aberto, pedir perdão a todos com quem eu possa ter cometido qualquer erro, tanto algum ato que eu tenha feito de errado quanto algo que esperavam de mim e eu não correspondi. Tanto os erros intencionais quanto os erros não intencionais, de todos eles eu me arrependo do fundo do coração e espero que vocês possam me perdoar. Por favor, se alguém tiver algo específico, me escreva para que eu possa pedir perdão diretamente.
Quando passamos por cima das nossas características pessoais e perdoamos os outros, D'us passa por cima de todas as nossas transgressões e nos perdoa. Portanto também perdôo de todo o coração a qualquer um que possa ter me feito algum mal, intencionalmente ou não intencionalmente.
Que todos possamos ter um ano maravilhoso, de muito crescimento espiritual, e que possamos neste ano aprender a conviver com o próximo com muita harmonia e respeito.
GMAR CHATIMÁ TOVÁ (QUE SEJAMOS SELADOS PARA O BEM)
Rav Efraim Birbojm
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SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ HAAZINU E YOM KIPUR 5770

BS"D
O REI, UM DESCONHECIDO? – PARASHÁ HAAZINU E YOM KIPUR 5770 (25 de setembro de 2009)
"O rei de um país muito distante tinha um único filho, e nele colocou todo o seu amor. Tudo o que o rei fazia era pensando no bem estar do príncipe, era um investimento para que ele tivesse um futuro maravilhoso. Mas um dos ministros do rei, uma pessoa muito invejosa, não se conformava com a alegria da família real e bolou um terrível plano: seqüestrou o filho do rei e o levou para um lugar distante. Para que ninguém reconhecesse a criança, trocou suas roupas por farrapos para que parecesse ter vindo de uma família muito pobre. O príncipe foi criado em uma pequena fazendo, com uma vida muito simples, trabalhando como camponês, longe da suntuosidade e do luxo do palácio do rei.
Muitos anos se passaram, mas o amor do rei era tanto que ele não desistia de ter seu filho de volta. Contratou os melhores detetives do reino para que buscassem notícias do paradeiro do seu filho. Até que um dia um dos detetives descobriu que o príncipe vivia como um simples camponês em uma fazenda distante. O rei, com o coração cheio de alegria, mandou emissários para trazerem seu filho de volta.
O rapaz, quando foi convidado a voltar ao palácio, a princípio teve medo de ir. Ele não conhecia o rei, sabia apenas que era alguém que morava longe. Ele nunca havia saído da sua pequena vila, não imaginava o que era um palácio. Mas os emissários insistiram até que ele concordou. Vestiram-no com roupas nobres, apropriadas para o filho do rei, montaram-no em um majestoso cavalo e começaram o caminho de volta ao palácio.
Quando começaram a se aproximar da capital, o príncipe começou a ver casas cada vez mais bonitas e luxuosas, diferentes da sua pequena casinha na fazenda. Começou então a ter flashes de quando era pequeno, de como era a vida dentro do palácio do rei. Mas quando finalmente chegaram ao palácio, o príncipe foi tomado de um terrível pavor. Tudo parecia muito rico e imenso, ele não sabia o que fazer, não sabia como deveria se comportar no palácio real. Na sua cabeça ele não conseguia entender o que o rei queria. Afinal, ele era apenas um estranho.
Os emissário trouxeram-no até uma gigantesca porta e anunciaram que lá dentro estava o rei sentado em seu trono. O rapaz ficava cada vez mais apavorado, imaginando como aquele rei estranho o receberia e o trataria. A porta começou a se abrir lentamente e finalmente o rapaz viu o rei, o homem mais poderoso do reino, a pessoa cujas palavras direcionavam a vida de milhares de pessoas. Ele tremia e mal conseguia se aproximar. Até que, quando chegou mais perto, ele viu que não era o rei, era o seu pai! Eles se abraçaram e choraram muito com a alegria daquele reencontro, depois de tanto tempo que viveram afastados"
Somos os filhos do Criador do mundo, para quem Ele criou o universo inteiro. Ele nos criou para que possamos ficar próximos Dele e receber Suas bondades. Mas o Satan, nossa má inclinação, nos engana e nos faz desviar para longe, para uma vida fora do "palácio". Mesmo assim o Rei não desiste, ele espera todos os dias pela nossa volta. No mês de Elul nós começamos nossa volta para casa. Em Rosh Hashaná nós entramos no palácio, mas nos sentimos apavorados por causa do julgamento. Somente quando chega Yom Kipur é que sentimos a alegria de entender que na verdade nós somos os Seus filhos.
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Nesta semana lemos a Parashá Haazinu, e no Domingo de noite começa Yom Kipur, o Dia do Perdão, um dos dias mais sagrados no judaísmo. Qual a conexão entre os dois? Explica o Rav Guedaliah Shor que a Parashá Haazinu é um cântico entoado por Moshé que mostra a harmonia da criação, juntando passado, presente e futuro. O passado nos ensina sobre o futuro e o futuro nos esclarece sobre os eventos do passado, revelando assim a perfeição do Criador. E justamente esta é a natureza de Yom Kipur, buscar a proximidade com o Criador do mundo e entender a perfeição de Sua criação.
Todos nós estamos familiarizados com o dia de Yom Kipur. Jejuamos, passamos o dia inteiro na sinagoga imersos em rezas e pedidos de perdão por nossos erros, escutamos discursos de Torá do rabino da sinagoga. É um momento solene, é um momento importante no nosso ano, mas para a grande maioria das pessoas não é um momento feliz. Porém, o rabino Israel Salanter nos ensina que não há dia mais feliz para o povo judeu do que Yom Kipur, e que neste dia deveríamos cantar e dançar. Por que devemos sentir assim tanta alegria?
Explicam nossos sábios que durante todo o ano temos um relacionamento distante com D'us. Ele é o Rei do universo, mas sentimos que não temos nenhuma proximidade com Ele. Vivemos nossa vida dentro de uma rotina onde sobra muito pouco tempo para pensarmos em D'us. E talvez o mais difícil é entender exatamente o que significa D'us ser o nosso Rei. Infelizmente não temos bons exemplos de reis no mundo. Durante a história subiram ao poder muitos reis tiranos, que ao invés de buscarem o bem do seu povo, buscaram acumular poder, fortuna e prestígio. A insatisfação era tanta que muitas vezes o povo fazia revoluções para derrubar seus monarcas e implantar novas formas de governo. Na Inglaterra, uma das poucas monarquias que sobreviveram, a família real está sempre envolvida em escândalos e são apenas um enfeite, sem nenhum poder. Com exemplos assim, realmente é difícil entender o conceito de D'us ser o nosso Rei.
Então temos que buscar na Torá o comportamento de um rei verdadeiro. O povo judeu teve diversos reis cuja grandeza, sabedoria e bondade iluminaram e iluminam o mundo inteiro até os nossos dias. Reis como o Rei David, que nos deixou os Salmos, que são recitados por todos os povos do mundo, e o Rei Salomão, que nos deixou sua vasta sabedoria em livros como os Provérbios e o Cântico dos Cânticos. Um rei, segundo o judaísmo, deve ser uma pessoa que tem em suas mãos um imenso poder, honra e tesouros, mas que utiliza tudo isso apenas para o benefício do seu povo. Ele direciona o potencial das pessoas para que possam trabalhar juntas por um objetivo comum. Ele utiliza seu poder para estabelecer uma sociedade onde as pessoas vivam com paz e tranqüilidade, podendo utilizar seus esforços para desenvolver seus potenciais. É isso que significa que D'us é o nosso Rei, pois assim Ele cuida de nós, e todos os Seus atos são apenas para o nosso benefício.
Mas D'us não se limita a apenas ser o nosso Rei, Ele vai além, Ele se comporta como o nosso Pai, Avinu Malkeinu (Nosso Pai, Nosso Rei). Ele nos criou para que possamos estar perto Dele, recebendo os prazeres da Sua proximidade. Então por que não sentimos esta proximidade? Pois perdemos o foco do que queremos de verdade. Quantas vezes nós já lemos um livro ou assistimos um filme e sentimos uma faísca de inspiração para mudarmos nossas vidas, mas depois nossas decisões ficaram simplesmente esquecidas?
A vida é como uma estrada que nos leva à D'us. Existem placas, as Mitzvót, que nos orientam para que possamos saber, a cada instante, se estamos indo na direção correta. Mas durante o ano acabamos muitas vezes pegando a estrada errada e caminhamos na direção contrária ao nosso crescimento. A palavra "transgressão", em hebraico, é "Chet", que vem da mesma raiz da palavra "desviar". Quando fazemos o mal aos outros e a nós mesmos, certamente estamos nos afastando do nosso propósito e ficando cada vez mais longe de casa.
Mas apesar de estarmos tão distantes durante todo o ano, apesar de esquecermos de D'us e tirarmos Ele das nossas vidas, Ele não se esquece de nós e nos dá a chance de voltar. Mesmo se erramos muito, mesmo se nos desviamos, Ele abre todas as portas em Yom Kipur para nos perdoar. A tradução da palavra "Teshuvá" é "retorno", pois quando nos arrependemos dos nossos erros e mostramos para Ele que queremos mudar, Ele nos coloca de volta na estrada correta. Por isso Yom Kipur é uma festa tão alegre, e deveríamos dançar de alegria. Pois é mais do que um presente de um Rei, é um abraço apertado de um Pai.
SHABAT SHALOM e TZOM KAL (Que todos tenhamos um jejum leve em Yom Kipur)
Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

SHANÁ TOVÁ 5770


BS"D


Mais um ano está terminando. Mais um ciclo de Parashiot da semana se encerra. Mais um ano em que D'us me ajudou e me deu forças para enviar todas as semanas o Shabat Shalom Mail. Fica a saudade do ano que passou, mas a certeza de que o próximo ano será ainda melhor.

David Hamelech (Rei David) diz nos Salmos: "O que eu poderei dar para D'us em troca de todas as bondades que Ele faz comigo?". É com este sentimento de retribuição que todas as semanas eu escrevo o Shabat Shalom Mail. É uma forma de agradecer a D'us por ter me dado a oportunidade de fazer Teshuvá e voltar aos caminhos da Torá, dos quais eu estive tão distante. Sinto-me na obrigação de dividir com as pessoas o presente que D'us me deu, de poder conhecer a profundidade dos conhecimentos da Torá e entender o quanto eles podem mudar nossas vidas.

Espero estar contribuindo para que cada um de vocês, ao ler os E-mails de Shabat todas as semanas, possam parar para refletir um pouco o quanto podemos ser grandes, o quanto temos de potencial adormecido dentro de nós, quanta bondade podemos fazer para melhorar o mundo. É muito fácil criticar a situação e colocar a culpa nos outros, o difícil é fazer a nossa parte. É isso o que o judaísmo nos ensina, a olhar para nós mesmos e melhorar o que precisa ser melhorado.

Agradeço de coração a todos os que me apóiam e me incentivam, pessoalmente ou por e-mail. O meu maior incentivo é saber que muitos estão, aos poucos, voltando aos caminhos da Torá. Cada um no seu ritmo, cada um respeitando seus limites, estamos todos voltando aos caminhos de onde nunca deveríamos ter saído. Um caminho que nos leva a uma vida mais espiritual, que nos torna pessoas melhores, mais regradas e mais tranqüilas. Que no ano de 5770 possamos ter somente boas notícias. Notícias de vitórias, de curas, de paz. Notícias de reconciliação, de amor, de alegrias. Notícias de nascimentos e de casamentos. E que finalmente seja o ano da vinda do Mashiach.

SHANÁ TOVÁ UMETUKÁ.

Com muito carinho,

Rav Efraim Birbojm

SHABAT SHALOM MAIL - ROSH HASHANÁ 5770

BS"D
QUEM CUIDA DA NOSSA VIDA? – ROSH HASHANÁ 5770 (18 de setembro de 2009)
O ano de 1912 foi muito marcante para a família Braun (nome fictício). Eles viviam na Lituânia e seguiam as leis da Torá. Mas o aumento do anti-semitismo e da violência contra os judeus na Europa, especialmente na Lituânia, levaram o Sr. Braun a repensar seus planos de vida.
O Sr. Braun tinha parentes nos Estados Unidos, e havia escutado que ali os judeus tinham liberdade de cumprir a religião. Decidiu vender tudo o que tinha e recomeçar a vida do outro lado do oceano, em uma terra de novas oportunidades. Organizou-se para a longa viagem, que seria composta de três etapas. A primeira etapa seria percorrida de carruagem até uma cidade vizinha, onde havia uma estação de trem. De lá tomariam o trem até a Inglaterra, e na Inglaterra embarcariam em um navio rumo à nova e promissora vida nos Estados Unidos.
No dia da viagem havia uma grande expectativa em todos da família. Como seria a vida nos Estados Unidos? Como seriam seus vizinhos? Como fariam novas amizades? Colocaram as bagagens na carruagem logo cedo para não correrem o risco de atrasar. Após algumas horas de viagem, finalmente chegaram à estação de trem. A estação deveria estar completamente lotada, pois apenas um trem por dia partia dali para a Inglaterra. Mas para a surpresa da família Braun, a estação estava completamente vazia, com um silêncio assustador. Viram um funcionário da companhia de trens e perguntaram sobre o trem para a Inglaterra. Para total desespero do Sr. Braun, o funcionário respondeu:
- Desculpe-me, senhor, mas o trem estava um pouco adiantado. Pensamos que todos os passageiros já haviam embarcado e a saída foi liberada com alguns minutos de antecedência. Ele saiu há menos de 5 minutos.
O Sr. Braun ficou desconsolado. Sem o trem não conseguiriam chegar até o navio a tempo de embarcar. Estava tudo perdido! Todos os planos haviam ido por água abaixo. Sentou-se no chão, levantou seus olhos para o céu e gritou:
- D'us, eu estou apenas tentando fazer a Sua vontade, indo para um lugar onde eu posso cumprir o judaísmo sem dificuldades. Por que Você fez isso comigo?
Dez dias depois o Sr. Braun estava na sinagoga recitando o "Bircat Hagomel". Esta Brachá é feita por alguém que passou por um grande risco de morte e acabou se salvando. Por que ele fez esta Brachá? Pois o navio que partiu da Inglaterra em direção aos Estados Unidos, e no qual a família Braun deveria ter viajado, se chamava "Titanic"... (História real)
Dizem os nossos sábios: "Muitos são os planos no coração do ser humano, mas é a vontade de D'us que sempre se cumpre". Fazemos muitos planos com a intenção de que as nossas vontades se cumpram, mas nos esquecemos que existe Alguém que realmente está no controle de tudo, buscando sempre nosso bem.
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Neste ano, o primeiro dia de Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, coincide com o Shabat. Espiritualmente, em Rosh Hashaná revivemos o dia em que o primeiro ser humano, Adam Harishon (Adão), foi criado, julgado por seu erro de não escutar a ordem de D'us, e finalmente perdoado após se arrepender de maneira sincera. Ensinam os nossos sábios que Rosh Hashaná é um dos dias mais importantes do ano, pois neste dia somos julgados e é decretado tudo o que acontecerá no próximo ano: quanto receberemos de dinheiro, como será nossa saúde, quais serão os sofrimentos pelos quais teremos que passar durante o próximo ano, quais serão as nossas alegrias, entre outros.
Mas será que realmente entendemos a importância de Rosh Hashaná? Por mais que possamos entender racionalmente, é difícil colocar este sentimento no nosso coração. Por que? Um dos principais motivos é que a tradução de Rosh Hashaná, "Ano Novo", nos faz associar esta festa tão sagrada com outro evento: o Réveillon. Estes dois eventos, apesar de terem em comum a comemoração da mudança do ano, são opostos em relação aos seus propósitos e suas conseqüências diretas em nossas vidas.
No Réveillon é comum as pessoas pensarem em mudanças para o próximo ano. Todos querem ser pessoas melhores, começar aquele regime que há tanto tempo estávamos adiando, nos esforçar mais para termos mais sucesso profissional. Mas qual é a essência do Réveillon? Comer, beber, e se divertir, esperando os fogos de artifício que iluminam o céu na meia noite, e depois festejar até o sol nascer. No dia seguinte todos acordam de ressaca, e o que mudou nas nossas vidas? Nada. Não nos tornamos pessoas melhores, não temos força para nos empenhar mais no trabalho, nem mesmo aquele regime prometido se concretiza. Por que? Pois todo o nosso esforço no Réveillon foi colocado no ato de se focar em si mesmo, no nosso egoísmo. Buscar as coisas que mais nos dão prazer imediato. No colocar, mais uma vez, no centro do universo.
No extremo oposto está Rosh Hashaná, um dos dias do ano em que estamos mais conectados com a nossa espiritualidade e nosso contato com o Criador do mundo se fortalece. O principal trabalho espiritual de Rosh Hashaná é anular o nosso "eu" e fazer de D'us o nosso Melech (Rei). O que significa na prática fazer de D'us o nosso Melech?
Explica o Rav Guedaliahu Shor, em seu livro "Or Guedaliahu" que uma das maneiras é tentando anular as nossas vontades diante das vontades de D'us. Fazer o que Ele nos pediu, ao invés de seguir o que nosso corpo manda. Deixar de ser escravo dos nossos desejos e vontades, que nos levaram a se rebelar durante todo o ano contra D'us, que nos levaram a cometer atos dos quais nos envergonhamos depois. Com isso nossas decisões para o próximo ano viram compromissos sérios, nos ajudando a mudar de verdade.
Outra maneira de fazermos de D'us o Rei em nossas vidas, segundo o Rav Guedaliahu Shor, é colocando no coração que Ele é o motivo de todos os motivos, isto é, tudo o que ocorre no mundo é, em última instância, a vontade de D'us. Mas este não é um trabalho fácil. Explica o Rav Ezriel Tauber, em seu livro "Os dias estão chegando", que a vinda do Mashiach será precedida por muitos sinais, sendo que a maioria deles já está se cumprindo nos nossos dias. E um dos sinais é que a geração que precederá a vinda do Mashiach terá a face de um cachorro. O que isto significa?
Quando golpeamos um cachorro com um bastão, ele ataca o bastão, pois não consegue entender que existe alguém segurando e movimentando o bastão. Ele só enxerga o bastão, não enxerga que há alguém por trás. Assim também nos comportamos, esquecemos que existe Alguém por trás de tudo. Reclamamos das coisas que acontecem, colocamos a culpa no chefe que gritou conosco, no colega de trabalho que nos prejudicou, no motorista que atrasou. Esquecemos que Alguém controla tudo, e foi pela vontade Dele que tudo aquilo ocorreu. Não existe acaso. Portanto, se algo "amargo" aconteceu em nossas vidas, algum tipo de sofrimento, então é porque Ele quer nos despertar para algo que estamos fazendo de errado na vida. Rosh Hashaná nos ajuda a mudar nossa forma de ver a vida.
Rosh Hashaná é o dia propício para endireitar o nosso caminho, repensar os nossos atos, planejar o nosso futuro. Fazemos decisões sérias de mudar e de melhorar quando estamos diante de D'us para pedir mais um ano de vida. Pois se não estivermos realmente comprometidos a mudar, a crescer, a preencher o nosso potencial verdadeiro, então mais um ano de vida para que?
"Nem mesmo D'us pode afundar este navio" (Frase do engenheiro que projetou o Titanic, antes da sua primeira e única viagem)
SHABAT SHALOM e SHANÁ TOVÁ
KTIVÁ VECHATIMÁ TOVÁ (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS PARA O BEM)
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT NITZAVIM E VAYELECH 5769

BS"D
INFLUÊNCIAS EXTERNAS – PARASHIOT NITZAVIM E VAYELECH 5769 (11 de setembro de 2009)
"Yaacov (nome fictício) era um jovem Talmid Chacham (erudito no estudo da Torá) que prezava muito a educação dos filhos. Morava em um bairro tranqüilo, quase deserto, longe do centro. Mas com o tempo o bairro começou a ficar cheio de pessoas que não se preocupavam muito com valores morais. Via crianças fazendo brincadeiras violentas nas ruas, e constantemente escutava palavrões e gritos dos novos moradores.
Com medo que seus filhos pudessem receber uma má influência destes vizinhos, Yaacov se fechou completamente. Construiu um grande muro para isolar sua casa da vizinhança, e não deixava que seus filhos saíssem de casa sozinhos. Não por medo da violência, mas pelo medo que seus filhos poderiam aprender algo de errado com as outras crianças na rua. Até para ir e voltar da escola ele os acompanhava.
Porém, após algum tempo vivendo desta maneira, Yaacov percebeu que logo a situação se tornaria insustentável. Ele chegava todos os dias atrasado nos seus estudos, estava sempre estressado e causava nas crianças uma sensação de aprisionamento. Decidiu que era hora de mudar.
Quando os vizinhos e amigos souberam dos planos de Yaacov de se mudar do bairro, muitos tentaram convencê-lo a não sair de lá, argumentando que ele tinha uma influência positiva sobre os outros moradores. Como Yaacov não sabia o que fazer, resolveu conversar com o Rav de Brisk, um dos grandes rabinos daquela geração. Contou para o rabino sobre a má influência do bairro onde morava, enumerou os argumentos dos vizinhos e amigos para que ele ficasse, e finalmente desabafou sobre o seu medo por causa da educação das crianças. O Rav de Brisk ouviu atentamente e falou:
- Acho que você precisa mudar de bairro, procurar um lugar onde morem pessoas que vivem a vida com mais valores. Mas você está errado na forma de ver as coisas. A pergunta se você deve mudar não leva em consideração apenas a educação dos seus filhos, mas também a sua espiritualidade. Não apenas as crianças são influenciadas pelo ambiente onde vivem, mas você também está sendo influenciado por tudo o que vê e por tudo o que escuta nas ruas"
Achamos que somos fortes, que não é fácil nos convencer a mudar de opinião. Mas se fizermos uma análise honesta, perceberemos que somos tão influenciados que costumamos mudar de opinião como se muda de roupa.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Nitzavim e Vayelech, nas quais Moshé segue com seu discurso final para o povo judeu. E no começo da Parashá Nitzavim, Moshé renova o pacto de D'us com o povo judeu e relembra a gravidade da idolatria, como está escrito: "Porque vocês sabem como habitamos na terra do Egito, e como passamos pelo meio das nações pelas quais vocês passaram. E vocês viram as suas abominações, e os seus ídolos detestáveis... Talvez haja entre vocês um homem... cujo coração hoje se desviou de D'us, para ir e servir aos deuses destas nações" (Devarim 29:16-18). Mas qual era dúvida de Moshé se havia pessoas no meio do povo judeu que faziam idolatria? Como ele mesmo havia mencionado, a idolatria era, aos olhos de todo o povo, uma grande abominação que causava repulsa e nojo!
Explica o livro "Lekach Tov" que o versículo nos ensina que existe sempre o perigo de cairmos espiritualmente e chegarmos a cometer atos que anteriormente achávamos abomináveis. Quando abrimos um pequeno buraco na nossa espiritualidade e não o fechamos logo, de pouco em pouco podemos chegar a perder tudo. Mas o versículo não ensina apenas o problema, ele ensina também o motivo pelo qual isso pode acontecer: "E vocês viram as suas abominações...". A Torá está ressaltando a grande influência exercida sobre nós pelas coisas que vemos no nosso cotidiano. Mas será que não é um exagero? Será que somos assim tão influenciados a ponto de irmos contra o que acreditamos?
Nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Se afaste de um mau vizinho e não se torne próximo de um malvado". Por que está escrito em relação ao mau vizinho "se afaste", e não "não se torne próximo" como está escrito em relação ao malvado? Pois o vizinho é alguém que encontramos sempre, e certamente receberemos dele influências. Por isso, se é um mau vizinho, alguém que não tem uma conduta adequada, a única solução é se afastar. Pois se ficarmos, certamente algo ruim também receberemos para nós.
O ser humano é um ser social, e por isso recebemos uma influência muito forte da sociedade onde vivemos. Assistimos televisão, lemos livros e revistas e achamos que nada disso nos influencia, mas é justamente o contrário. Somos bombardeados por idéias o tempo todo, e mesmo se não concordamos com algo em um primeiro momento, com o tempo começamos a aceitar e a mudar, sem perceber. Portanto, o mal vizinho não é apenas uma pessoa de carne e osso. Pode ser a mídia que permitimos que entre em nossas casas sem nenhum controle. Filmes e jogos violentos, cenas de intimidades nos horários em que crianças ainda estão diante da televisão, palavrões e internet com acesso a qualquer tipo de conteúdo 24 horas por dia. Este é o "mau vizinho" que trazemos para dentro de casa, com quem ficamos e deixamos nossos filhos durante o dia inteiro.
Muitas vezes a influência vem de maneira tão sutil que praticamente não percebemos. Existe algo mais inocente do que o Gibi da "Turma da Mônica"? É aparentemente uma literatura infantil que não causa nenhum estrago na educação. Mas será que já paramos para pensar quais são as mensagens ensinadas nestes gibis para as crianças? Por exemplo, sempre que você quiser ofender alguém, chame por apelidos que humilhem a pessoa, principalmente atributos físicos como "baixinha, gorducha e dentuça". Quando alguém te ofender, parta para a violência e deixe muitos olhos roxos. Não escute seus pais e fuja do banho. Seja guloso, coma sem restrições e seja egoísta com seus amigos. São estas as características que queremos para os nossos filhos? Certamente que não, mas essa é a educação que eles acabam recebendo.
O judaísmo ensina que o nosso único manual de boa conduta é a Torá, escrita por D'us, e é obrigação dos pais transmitir estes valores para seus filhos. Não podemos nos isentar desta obrigação e deixar a educação dos nossos filhos a cargo dos professores da escola, e muito menos da televisão, que pouco têm a acrescentar em termos de valores éticos e morais. Qualquer veículo de comunicação deve ser verificado pelos pais, para que tenhamos certeza de que nossos filhos, e nós mesmos, não estamos sendo educados para achar que o errado é correto. Pois sem nenhuma dúvida a televisão é o grande educador dos nossos dias. O problema é o que ela educa.
"A principal função da indústria cinematográfica é entreter e não educar. Ocasionalmente uma mensagem possa ser incluída, desde que não diminua o valor do filme como diversão" (Samuel Goldwyn, um dos fundadores dos estúdios MGM)
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TAVÔ 5769

BS"D

DOENÇAS FÍSICAS E ESPIRITUAIS – PARASHÁ KI TAVÔ 5769 (04 de setembro de 2009)

"O rabino Eliezer Gordon, fundador da famosa Yeshivá de Telz, já era desde jovem um aluno que se destacava muito no estudo e no cumprimento da Torá. Foi justamente por estas características que o Rav Yitzchak Neviezer o escolheu como genro. E acreditando no potencial do rapaz, o Rav Yitzchak sustentou-os após o casamento, para que ele pudesse se dedicar inteiramente ao estudo da Torá e se tornar um grande erudito.

Com o passar do tempo a família do Rav Eliezer começou a crescer e começaram a surgir várias oportunidades para ele se tornar rabino em pequenas comunidades, o que lhe daria melhores condições de sustentar sua família, podendo assim aliviar seu sogro dos grandes encargos financeiros. Ele então foi pedir permissão ao sogro para aceitar uma posição rabínica e assim começar a se sustentar sozinho. Mas apesar da situação financeira do Rav Avraham Yitzchak estar muito difícil, ele recusou o pedido do genro. Ele queria continuar sustentando a família de sua filha para que seu genro se dedicasse só ao estudo de Torá. Quando a esposa do Rav Avraham Yitzchak perguntou-lhe por quanto tempo ele ainda tinha a intenção de sustentar a família da filha, ele respondeu:

- Minha querida esposa, gostaria de sustentá-los ainda por um bom tempo, pois não sabemos quem está sustentando quem...

A esposa não entendeu o que o marido quis dizer com aquela frase, mas não perguntou o significado. Mais alguns anos se passaram e o nome do Rav Eliezer começou a se destacar. Ele recebeu um convite irrecusável para se tornar rabíno na cidade de Eisheshok. Desta vez nem seu sogro conseguiu impedi-lo de aceitar o cargo.

Um dia depois da família do Rav Elizer Gordon ter viajado para Eisheshok, o Rav Avraham Yitzchak faleceu. Tornou-se então evidente quem tinha mantido quem por todos aqueles anos..."

Vivemos como se tudo o que ocorre neste mundo têm causas naturais, esquecendo que, em última instância, tudo o que ocorre aqui está conectado com os mundos espirituais.
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A Parashá desta semana, Ki Tavô, nos ensina que quando seguimos o que D'us nos ensinou, recebemos muitas Brachót (bênçãos), mas nos adverte que no momento em que nos desviamos e começamos a fazer coisas erradas, muitas dificuldades recaem sobre nós. E prestando atenção às profecias de catástrofes que estão contidas nesta Parashá, percebemos que muitas realmente se cumpriram, por exemplo, durante a destruição dos dois Templos e até mesmo em acontecimentos mais recentes como o Holocausto. E há palavras de advertência que se cumprem até os nossos dias, como está escrito: "E golpeará D'us com sarna maligna nos joelhos e nas pernas, que vocês não poderão curar" (Devarim 28:35). Presenciamos muitas pessoas, entre elas jovens e até crianças, que morrem de doenças até hoje incuráveis, contra as quais os conhecimentos da medicina não podem fazer quase nada. Mas não é contraditório imaginar que, por um lado, D'us nos criou apenas por bondade, e ao mesmo tempo Ele nos manda doenças e sofrimentos tão terríveis? Qual o sentido disso?

Explica o Rav Yona Yossef Arntroi que para começar a responder esta pergunta é preciso antes de tudo mudar a forma como olhamos as doenças e os sofrimentos. Não são poucos os que erram pensando que as doenças são coisas naturais, e que tanto a causa quanto a cura estão fundamentadas no mundo material e não no mundo espiritual. Mas é justamente o contrário, por trás de todas as doenças há um motivo espiritual. Segundo o judaísmo, quando pedimos pela cura de alguém, rezamos "Cura para a alma e cura para o corpo", pois toda doença tem um fundo espiritual. O Talmud (Torá Oral) ilustra este conceito trazendo uma história que aconteceu em uma pequena cidade, onde muitas pessoas estavam morrendo mordidas por uma cobra venenosa que se escondia em um buraco na entrada da cidade. Um Tzadik (pessoa justa) muito grande, ao saber da cobra, foi até o local e colocou a perna dentro do buraco. A cobra mordeu o Tzadik e imediatamente caiu morta no chão. O Tzadik então voltou para a cidade trazendo a cobra morta na mão e anunciando em voz alta: "O que mata não é a cobra, são as transgressões". O que o Talmud nos ensina com esta história? Que as doenças não são uma situação normal, o natural é o ser humano estar sempre saudável, as transgressões é que causam as doenças e os sofrimentos.

Explica o Ramban (Nachmânides) que o mesmo conceito se aplica aos animais. Vemos no mundo animal muito predadores que atacam e devoram outros animais. Cenas de leões ou lobos atacando e devorando outros animais nos parecem normais, pois assim é a lei da natureza. Mas o Ramban explica que esta não é a natureza dos animais, eles são pacíficos, e somente se tornaram agressivos por causa das transgressões dos seres humanos. Explica o livro Messilat Yesharim (Caminho do Justos) que quando o ser humano cai espiritualmente, todo o mundo cai junto com ele. Está profetizado que na vinda do Mashiach o lobo e o cordeiro sentarão juntos. Pensamos que os milagres da vindo do Mashiach trarão mudanças na natureza, mas é justamente o contrário, depois da vinda do Mashiach a natureza voltará ao normal, ao que sempre deveria ter sido se não fossem os nossos erros.

Se as causas das doenças são as nossas transgressões, que afetam os mundos espirituais, então temos que saber que a verdadeira cura está na Tefilá (reza) e na Teshuvá (retorno aos caminhos corretos). Apesar da lei judaica nos obrigar a procurar os médicos e não nos apoiar em milagres, precisamos olhar cada doença, por mais simples que seja, como sendo uma advertência de que espiritualmente algo não vai bem, de que temos que refletir, verificar nossos atos e procurar onde podemos estar errando. Mas nós fazemos justamente o contrário, procuramos apenas os médicos e os remédios para curar nossas doenças, sem nenhuma Tefilá ou Teshuvá. D'us então precisa mandar uma advertência um pouco mais forte, como está escrito na Torá "E se vocês não Me escutarem e se comportarem Comigo com se tudo fosse um acaso, Eu me comportarei com vocês com a fúria do acaso" (Vayikrá 26:27,28).

A medicina avança cada vez mais, e mesmo doenças graves já podem ser tratadas e até curadas sem nenhuma Tefilá ou Teshuvá. O que acontece? Os doentes novamente se apóiam apenas nos médicos, nos remédios e nos tratamentos, esquecendo de investir na cura verdadeira. Então D'us precisa mandar uma doença contra a qual a medicina não conhece nenhuma cura, como diz o versículo "que vocês não poderão curar". Pois no momento em que o paciente vê que os médicos estão desistindo, na falta de qualquer outra esperança, o doente volta seu coração para D'us e se arrepende.

Tudo o que D'us faz é por bondade, mesmo que muitas coisas não podemos enxergar ainda neste mundo. O propósito não é esta vida, é a nossa vida eterna no Mundo Vindouro. Quando nos desviamos, corremos o risco de destruir nossa eternidade. Então D'us, por amor, nos desperta, nos ajuda a voltar ao caminho. Mais do que nós queremos ter uma vida eterna, Ele quer nos dar esta vida, e faz de tudo para que possamos consegui-la. Também dói muito para D'us quando um de Seus filhos está doente, mas o remédio amargo pode salvar nossa eternidade.

Portanto, quando jogamos a culpa em D'us pelas doenças e sofrimentos, na verdade temos que saber que nós somos os culpados. Se entendêssemos que toda doença é causada pelas nossas transgressões, não precisaríamos chegar nas doenças graves e sem cura. Por isso, não precisamos esperar uma doença grave chegar até nós para despertarmos. Quando vemos alguém doente, já é motivo suficiente para refletir e repensar nossos atos. Mesmo em pequenas doenças, temos que lembrar Quem é que nos cura de verdade e trazer de volta nossa coração para Ele.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm