sexta-feira, 25 de setembro de 2009

MENSAGEM YOM KIPUR 5770

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Ensinam os nossos sábios que "Não existe um Tzadik (Justo) no mundo que faz o bem e não erra". Isto quer dizer que todos nós, seres humanos, temos a nossa má-inclinação constantemente nos testando, e nenhum de nós está isento de cometer erros.
Explica o Talmud que Yom Kipur serve para limpar os erros que cometemos com D'us, mas todos os erros que cometemos com o próximo não são perdoados por D'us até que sejamos perdoados pela pessoa com quem erramos. Não adianta passar o Yom Kipur inteiro rezando e chorando, é necessário antes pedir perdão para a pessoa que fizemos mal e convencê-la a nos perdoar.
Portanto, gostaria de aproveitar a oportunidade para, de coração aberto, pedir perdão a todos com quem eu possa ter cometido qualquer erro, tanto algum ato que eu tenha feito de errado quanto algo que esperavam de mim e eu não correspondi. Tanto os erros intencionais quanto os erros não intencionais, de todos eles eu me arrependo do fundo do coração e espero que vocês possam me perdoar. Por favor, se alguém tiver algo específico, me escreva para que eu possa pedir perdão diretamente.
Quando passamos por cima das nossas características pessoais e perdoamos os outros, D'us passa por cima de todas as nossas transgressões e nos perdoa. Portanto também perdôo de todo o coração a qualquer um que possa ter me feito algum mal, intencionalmente ou não intencionalmente.
Que todos possamos ter um ano maravilhoso, de muito crescimento espiritual, e que possamos neste ano aprender a conviver com o próximo com muita harmonia e respeito.
GMAR CHATIMÁ TOVÁ (QUE SEJAMOS SELADOS PARA O BEM)
Rav Efraim Birbojm
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SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ HAAZINU E YOM KIPUR 5770

BS"D
O REI, UM DESCONHECIDO? – PARASHÁ HAAZINU E YOM KIPUR 5770 (25 de setembro de 2009)
"O rei de um país muito distante tinha um único filho, e nele colocou todo o seu amor. Tudo o que o rei fazia era pensando no bem estar do príncipe, era um investimento para que ele tivesse um futuro maravilhoso. Mas um dos ministros do rei, uma pessoa muito invejosa, não se conformava com a alegria da família real e bolou um terrível plano: seqüestrou o filho do rei e o levou para um lugar distante. Para que ninguém reconhecesse a criança, trocou suas roupas por farrapos para que parecesse ter vindo de uma família muito pobre. O príncipe foi criado em uma pequena fazendo, com uma vida muito simples, trabalhando como camponês, longe da suntuosidade e do luxo do palácio do rei.
Muitos anos se passaram, mas o amor do rei era tanto que ele não desistia de ter seu filho de volta. Contratou os melhores detetives do reino para que buscassem notícias do paradeiro do seu filho. Até que um dia um dos detetives descobriu que o príncipe vivia como um simples camponês em uma fazenda distante. O rei, com o coração cheio de alegria, mandou emissários para trazerem seu filho de volta.
O rapaz, quando foi convidado a voltar ao palácio, a princípio teve medo de ir. Ele não conhecia o rei, sabia apenas que era alguém que morava longe. Ele nunca havia saído da sua pequena vila, não imaginava o que era um palácio. Mas os emissários insistiram até que ele concordou. Vestiram-no com roupas nobres, apropriadas para o filho do rei, montaram-no em um majestoso cavalo e começaram o caminho de volta ao palácio.
Quando começaram a se aproximar da capital, o príncipe começou a ver casas cada vez mais bonitas e luxuosas, diferentes da sua pequena casinha na fazenda. Começou então a ter flashes de quando era pequeno, de como era a vida dentro do palácio do rei. Mas quando finalmente chegaram ao palácio, o príncipe foi tomado de um terrível pavor. Tudo parecia muito rico e imenso, ele não sabia o que fazer, não sabia como deveria se comportar no palácio real. Na sua cabeça ele não conseguia entender o que o rei queria. Afinal, ele era apenas um estranho.
Os emissário trouxeram-no até uma gigantesca porta e anunciaram que lá dentro estava o rei sentado em seu trono. O rapaz ficava cada vez mais apavorado, imaginando como aquele rei estranho o receberia e o trataria. A porta começou a se abrir lentamente e finalmente o rapaz viu o rei, o homem mais poderoso do reino, a pessoa cujas palavras direcionavam a vida de milhares de pessoas. Ele tremia e mal conseguia se aproximar. Até que, quando chegou mais perto, ele viu que não era o rei, era o seu pai! Eles se abraçaram e choraram muito com a alegria daquele reencontro, depois de tanto tempo que viveram afastados"
Somos os filhos do Criador do mundo, para quem Ele criou o universo inteiro. Ele nos criou para que possamos ficar próximos Dele e receber Suas bondades. Mas o Satan, nossa má inclinação, nos engana e nos faz desviar para longe, para uma vida fora do "palácio". Mesmo assim o Rei não desiste, ele espera todos os dias pela nossa volta. No mês de Elul nós começamos nossa volta para casa. Em Rosh Hashaná nós entramos no palácio, mas nos sentimos apavorados por causa do julgamento. Somente quando chega Yom Kipur é que sentimos a alegria de entender que na verdade nós somos os Seus filhos.
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Nesta semana lemos a Parashá Haazinu, e no Domingo de noite começa Yom Kipur, o Dia do Perdão, um dos dias mais sagrados no judaísmo. Qual a conexão entre os dois? Explica o Rav Guedaliah Shor que a Parashá Haazinu é um cântico entoado por Moshé que mostra a harmonia da criação, juntando passado, presente e futuro. O passado nos ensina sobre o futuro e o futuro nos esclarece sobre os eventos do passado, revelando assim a perfeição do Criador. E justamente esta é a natureza de Yom Kipur, buscar a proximidade com o Criador do mundo e entender a perfeição de Sua criação.
Todos nós estamos familiarizados com o dia de Yom Kipur. Jejuamos, passamos o dia inteiro na sinagoga imersos em rezas e pedidos de perdão por nossos erros, escutamos discursos de Torá do rabino da sinagoga. É um momento solene, é um momento importante no nosso ano, mas para a grande maioria das pessoas não é um momento feliz. Porém, o rabino Israel Salanter nos ensina que não há dia mais feliz para o povo judeu do que Yom Kipur, e que neste dia deveríamos cantar e dançar. Por que devemos sentir assim tanta alegria?
Explicam nossos sábios que durante todo o ano temos um relacionamento distante com D'us. Ele é o Rei do universo, mas sentimos que não temos nenhuma proximidade com Ele. Vivemos nossa vida dentro de uma rotina onde sobra muito pouco tempo para pensarmos em D'us. E talvez o mais difícil é entender exatamente o que significa D'us ser o nosso Rei. Infelizmente não temos bons exemplos de reis no mundo. Durante a história subiram ao poder muitos reis tiranos, que ao invés de buscarem o bem do seu povo, buscaram acumular poder, fortuna e prestígio. A insatisfação era tanta que muitas vezes o povo fazia revoluções para derrubar seus monarcas e implantar novas formas de governo. Na Inglaterra, uma das poucas monarquias que sobreviveram, a família real está sempre envolvida em escândalos e são apenas um enfeite, sem nenhum poder. Com exemplos assim, realmente é difícil entender o conceito de D'us ser o nosso Rei.
Então temos que buscar na Torá o comportamento de um rei verdadeiro. O povo judeu teve diversos reis cuja grandeza, sabedoria e bondade iluminaram e iluminam o mundo inteiro até os nossos dias. Reis como o Rei David, que nos deixou os Salmos, que são recitados por todos os povos do mundo, e o Rei Salomão, que nos deixou sua vasta sabedoria em livros como os Provérbios e o Cântico dos Cânticos. Um rei, segundo o judaísmo, deve ser uma pessoa que tem em suas mãos um imenso poder, honra e tesouros, mas que utiliza tudo isso apenas para o benefício do seu povo. Ele direciona o potencial das pessoas para que possam trabalhar juntas por um objetivo comum. Ele utiliza seu poder para estabelecer uma sociedade onde as pessoas vivam com paz e tranqüilidade, podendo utilizar seus esforços para desenvolver seus potenciais. É isso que significa que D'us é o nosso Rei, pois assim Ele cuida de nós, e todos os Seus atos são apenas para o nosso benefício.
Mas D'us não se limita a apenas ser o nosso Rei, Ele vai além, Ele se comporta como o nosso Pai, Avinu Malkeinu (Nosso Pai, Nosso Rei). Ele nos criou para que possamos estar perto Dele, recebendo os prazeres da Sua proximidade. Então por que não sentimos esta proximidade? Pois perdemos o foco do que queremos de verdade. Quantas vezes nós já lemos um livro ou assistimos um filme e sentimos uma faísca de inspiração para mudarmos nossas vidas, mas depois nossas decisões ficaram simplesmente esquecidas?
A vida é como uma estrada que nos leva à D'us. Existem placas, as Mitzvót, que nos orientam para que possamos saber, a cada instante, se estamos indo na direção correta. Mas durante o ano acabamos muitas vezes pegando a estrada errada e caminhamos na direção contrária ao nosso crescimento. A palavra "transgressão", em hebraico, é "Chet", que vem da mesma raiz da palavra "desviar". Quando fazemos o mal aos outros e a nós mesmos, certamente estamos nos afastando do nosso propósito e ficando cada vez mais longe de casa.
Mas apesar de estarmos tão distantes durante todo o ano, apesar de esquecermos de D'us e tirarmos Ele das nossas vidas, Ele não se esquece de nós e nos dá a chance de voltar. Mesmo se erramos muito, mesmo se nos desviamos, Ele abre todas as portas em Yom Kipur para nos perdoar. A tradução da palavra "Teshuvá" é "retorno", pois quando nos arrependemos dos nossos erros e mostramos para Ele que queremos mudar, Ele nos coloca de volta na estrada correta. Por isso Yom Kipur é uma festa tão alegre, e deveríamos dançar de alegria. Pois é mais do que um presente de um Rei, é um abraço apertado de um Pai.
SHABAT SHALOM e TZOM KAL (Que todos tenhamos um jejum leve em Yom Kipur)
Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

SHANÁ TOVÁ 5770


BS"D


Mais um ano está terminando. Mais um ciclo de Parashiot da semana se encerra. Mais um ano em que D'us me ajudou e me deu forças para enviar todas as semanas o Shabat Shalom Mail. Fica a saudade do ano que passou, mas a certeza de que o próximo ano será ainda melhor.

David Hamelech (Rei David) diz nos Salmos: "O que eu poderei dar para D'us em troca de todas as bondades que Ele faz comigo?". É com este sentimento de retribuição que todas as semanas eu escrevo o Shabat Shalom Mail. É uma forma de agradecer a D'us por ter me dado a oportunidade de fazer Teshuvá e voltar aos caminhos da Torá, dos quais eu estive tão distante. Sinto-me na obrigação de dividir com as pessoas o presente que D'us me deu, de poder conhecer a profundidade dos conhecimentos da Torá e entender o quanto eles podem mudar nossas vidas.

Espero estar contribuindo para que cada um de vocês, ao ler os E-mails de Shabat todas as semanas, possam parar para refletir um pouco o quanto podemos ser grandes, o quanto temos de potencial adormecido dentro de nós, quanta bondade podemos fazer para melhorar o mundo. É muito fácil criticar a situação e colocar a culpa nos outros, o difícil é fazer a nossa parte. É isso o que o judaísmo nos ensina, a olhar para nós mesmos e melhorar o que precisa ser melhorado.

Agradeço de coração a todos os que me apóiam e me incentivam, pessoalmente ou por e-mail. O meu maior incentivo é saber que muitos estão, aos poucos, voltando aos caminhos da Torá. Cada um no seu ritmo, cada um respeitando seus limites, estamos todos voltando aos caminhos de onde nunca deveríamos ter saído. Um caminho que nos leva a uma vida mais espiritual, que nos torna pessoas melhores, mais regradas e mais tranqüilas. Que no ano de 5770 possamos ter somente boas notícias. Notícias de vitórias, de curas, de paz. Notícias de reconciliação, de amor, de alegrias. Notícias de nascimentos e de casamentos. E que finalmente seja o ano da vinda do Mashiach.

SHANÁ TOVÁ UMETUKÁ.

Com muito carinho,

Rav Efraim Birbojm

SHABAT SHALOM MAIL - ROSH HASHANÁ 5770

BS"D
QUEM CUIDA DA NOSSA VIDA? – ROSH HASHANÁ 5770 (18 de setembro de 2009)
O ano de 1912 foi muito marcante para a família Braun (nome fictício). Eles viviam na Lituânia e seguiam as leis da Torá. Mas o aumento do anti-semitismo e da violência contra os judeus na Europa, especialmente na Lituânia, levaram o Sr. Braun a repensar seus planos de vida.
O Sr. Braun tinha parentes nos Estados Unidos, e havia escutado que ali os judeus tinham liberdade de cumprir a religião. Decidiu vender tudo o que tinha e recomeçar a vida do outro lado do oceano, em uma terra de novas oportunidades. Organizou-se para a longa viagem, que seria composta de três etapas. A primeira etapa seria percorrida de carruagem até uma cidade vizinha, onde havia uma estação de trem. De lá tomariam o trem até a Inglaterra, e na Inglaterra embarcariam em um navio rumo à nova e promissora vida nos Estados Unidos.
No dia da viagem havia uma grande expectativa em todos da família. Como seria a vida nos Estados Unidos? Como seriam seus vizinhos? Como fariam novas amizades? Colocaram as bagagens na carruagem logo cedo para não correrem o risco de atrasar. Após algumas horas de viagem, finalmente chegaram à estação de trem. A estação deveria estar completamente lotada, pois apenas um trem por dia partia dali para a Inglaterra. Mas para a surpresa da família Braun, a estação estava completamente vazia, com um silêncio assustador. Viram um funcionário da companhia de trens e perguntaram sobre o trem para a Inglaterra. Para total desespero do Sr. Braun, o funcionário respondeu:
- Desculpe-me, senhor, mas o trem estava um pouco adiantado. Pensamos que todos os passageiros já haviam embarcado e a saída foi liberada com alguns minutos de antecedência. Ele saiu há menos de 5 minutos.
O Sr. Braun ficou desconsolado. Sem o trem não conseguiriam chegar até o navio a tempo de embarcar. Estava tudo perdido! Todos os planos haviam ido por água abaixo. Sentou-se no chão, levantou seus olhos para o céu e gritou:
- D'us, eu estou apenas tentando fazer a Sua vontade, indo para um lugar onde eu posso cumprir o judaísmo sem dificuldades. Por que Você fez isso comigo?
Dez dias depois o Sr. Braun estava na sinagoga recitando o "Bircat Hagomel". Esta Brachá é feita por alguém que passou por um grande risco de morte e acabou se salvando. Por que ele fez esta Brachá? Pois o navio que partiu da Inglaterra em direção aos Estados Unidos, e no qual a família Braun deveria ter viajado, se chamava "Titanic"... (História real)
Dizem os nossos sábios: "Muitos são os planos no coração do ser humano, mas é a vontade de D'us que sempre se cumpre". Fazemos muitos planos com a intenção de que as nossas vontades se cumpram, mas nos esquecemos que existe Alguém que realmente está no controle de tudo, buscando sempre nosso bem.
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Neste ano, o primeiro dia de Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, coincide com o Shabat. Espiritualmente, em Rosh Hashaná revivemos o dia em que o primeiro ser humano, Adam Harishon (Adão), foi criado, julgado por seu erro de não escutar a ordem de D'us, e finalmente perdoado após se arrepender de maneira sincera. Ensinam os nossos sábios que Rosh Hashaná é um dos dias mais importantes do ano, pois neste dia somos julgados e é decretado tudo o que acontecerá no próximo ano: quanto receberemos de dinheiro, como será nossa saúde, quais serão os sofrimentos pelos quais teremos que passar durante o próximo ano, quais serão as nossas alegrias, entre outros.
Mas será que realmente entendemos a importância de Rosh Hashaná? Por mais que possamos entender racionalmente, é difícil colocar este sentimento no nosso coração. Por que? Um dos principais motivos é que a tradução de Rosh Hashaná, "Ano Novo", nos faz associar esta festa tão sagrada com outro evento: o Réveillon. Estes dois eventos, apesar de terem em comum a comemoração da mudança do ano, são opostos em relação aos seus propósitos e suas conseqüências diretas em nossas vidas.
No Réveillon é comum as pessoas pensarem em mudanças para o próximo ano. Todos querem ser pessoas melhores, começar aquele regime que há tanto tempo estávamos adiando, nos esforçar mais para termos mais sucesso profissional. Mas qual é a essência do Réveillon? Comer, beber, e se divertir, esperando os fogos de artifício que iluminam o céu na meia noite, e depois festejar até o sol nascer. No dia seguinte todos acordam de ressaca, e o que mudou nas nossas vidas? Nada. Não nos tornamos pessoas melhores, não temos força para nos empenhar mais no trabalho, nem mesmo aquele regime prometido se concretiza. Por que? Pois todo o nosso esforço no Réveillon foi colocado no ato de se focar em si mesmo, no nosso egoísmo. Buscar as coisas que mais nos dão prazer imediato. No colocar, mais uma vez, no centro do universo.
No extremo oposto está Rosh Hashaná, um dos dias do ano em que estamos mais conectados com a nossa espiritualidade e nosso contato com o Criador do mundo se fortalece. O principal trabalho espiritual de Rosh Hashaná é anular o nosso "eu" e fazer de D'us o nosso Melech (Rei). O que significa na prática fazer de D'us o nosso Melech?
Explica o Rav Guedaliahu Shor, em seu livro "Or Guedaliahu" que uma das maneiras é tentando anular as nossas vontades diante das vontades de D'us. Fazer o que Ele nos pediu, ao invés de seguir o que nosso corpo manda. Deixar de ser escravo dos nossos desejos e vontades, que nos levaram a se rebelar durante todo o ano contra D'us, que nos levaram a cometer atos dos quais nos envergonhamos depois. Com isso nossas decisões para o próximo ano viram compromissos sérios, nos ajudando a mudar de verdade.
Outra maneira de fazermos de D'us o Rei em nossas vidas, segundo o Rav Guedaliahu Shor, é colocando no coração que Ele é o motivo de todos os motivos, isto é, tudo o que ocorre no mundo é, em última instância, a vontade de D'us. Mas este não é um trabalho fácil. Explica o Rav Ezriel Tauber, em seu livro "Os dias estão chegando", que a vinda do Mashiach será precedida por muitos sinais, sendo que a maioria deles já está se cumprindo nos nossos dias. E um dos sinais é que a geração que precederá a vinda do Mashiach terá a face de um cachorro. O que isto significa?
Quando golpeamos um cachorro com um bastão, ele ataca o bastão, pois não consegue entender que existe alguém segurando e movimentando o bastão. Ele só enxerga o bastão, não enxerga que há alguém por trás. Assim também nos comportamos, esquecemos que existe Alguém por trás de tudo. Reclamamos das coisas que acontecem, colocamos a culpa no chefe que gritou conosco, no colega de trabalho que nos prejudicou, no motorista que atrasou. Esquecemos que Alguém controla tudo, e foi pela vontade Dele que tudo aquilo ocorreu. Não existe acaso. Portanto, se algo "amargo" aconteceu em nossas vidas, algum tipo de sofrimento, então é porque Ele quer nos despertar para algo que estamos fazendo de errado na vida. Rosh Hashaná nos ajuda a mudar nossa forma de ver a vida.
Rosh Hashaná é o dia propício para endireitar o nosso caminho, repensar os nossos atos, planejar o nosso futuro. Fazemos decisões sérias de mudar e de melhorar quando estamos diante de D'us para pedir mais um ano de vida. Pois se não estivermos realmente comprometidos a mudar, a crescer, a preencher o nosso potencial verdadeiro, então mais um ano de vida para que?
"Nem mesmo D'us pode afundar este navio" (Frase do engenheiro que projetou o Titanic, antes da sua primeira e única viagem)
SHABAT SHALOM e SHANÁ TOVÁ
KTIVÁ VECHATIMÁ TOVÁ (QUE SEJAMOS INSCRITOS E SELADOS PARA O BEM)
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT NITZAVIM E VAYELECH 5769

BS"D
INFLUÊNCIAS EXTERNAS – PARASHIOT NITZAVIM E VAYELECH 5769 (11 de setembro de 2009)
"Yaacov (nome fictício) era um jovem Talmid Chacham (erudito no estudo da Torá) que prezava muito a educação dos filhos. Morava em um bairro tranqüilo, quase deserto, longe do centro. Mas com o tempo o bairro começou a ficar cheio de pessoas que não se preocupavam muito com valores morais. Via crianças fazendo brincadeiras violentas nas ruas, e constantemente escutava palavrões e gritos dos novos moradores.
Com medo que seus filhos pudessem receber uma má influência destes vizinhos, Yaacov se fechou completamente. Construiu um grande muro para isolar sua casa da vizinhança, e não deixava que seus filhos saíssem de casa sozinhos. Não por medo da violência, mas pelo medo que seus filhos poderiam aprender algo de errado com as outras crianças na rua. Até para ir e voltar da escola ele os acompanhava.
Porém, após algum tempo vivendo desta maneira, Yaacov percebeu que logo a situação se tornaria insustentável. Ele chegava todos os dias atrasado nos seus estudos, estava sempre estressado e causava nas crianças uma sensação de aprisionamento. Decidiu que era hora de mudar.
Quando os vizinhos e amigos souberam dos planos de Yaacov de se mudar do bairro, muitos tentaram convencê-lo a não sair de lá, argumentando que ele tinha uma influência positiva sobre os outros moradores. Como Yaacov não sabia o que fazer, resolveu conversar com o Rav de Brisk, um dos grandes rabinos daquela geração. Contou para o rabino sobre a má influência do bairro onde morava, enumerou os argumentos dos vizinhos e amigos para que ele ficasse, e finalmente desabafou sobre o seu medo por causa da educação das crianças. O Rav de Brisk ouviu atentamente e falou:
- Acho que você precisa mudar de bairro, procurar um lugar onde morem pessoas que vivem a vida com mais valores. Mas você está errado na forma de ver as coisas. A pergunta se você deve mudar não leva em consideração apenas a educação dos seus filhos, mas também a sua espiritualidade. Não apenas as crianças são influenciadas pelo ambiente onde vivem, mas você também está sendo influenciado por tudo o que vê e por tudo o que escuta nas ruas"
Achamos que somos fortes, que não é fácil nos convencer a mudar de opinião. Mas se fizermos uma análise honesta, perceberemos que somos tão influenciados que costumamos mudar de opinião como se muda de roupa.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Nitzavim e Vayelech, nas quais Moshé segue com seu discurso final para o povo judeu. E no começo da Parashá Nitzavim, Moshé renova o pacto de D'us com o povo judeu e relembra a gravidade da idolatria, como está escrito: "Porque vocês sabem como habitamos na terra do Egito, e como passamos pelo meio das nações pelas quais vocês passaram. E vocês viram as suas abominações, e os seus ídolos detestáveis... Talvez haja entre vocês um homem... cujo coração hoje se desviou de D'us, para ir e servir aos deuses destas nações" (Devarim 29:16-18). Mas qual era dúvida de Moshé se havia pessoas no meio do povo judeu que faziam idolatria? Como ele mesmo havia mencionado, a idolatria era, aos olhos de todo o povo, uma grande abominação que causava repulsa e nojo!
Explica o livro "Lekach Tov" que o versículo nos ensina que existe sempre o perigo de cairmos espiritualmente e chegarmos a cometer atos que anteriormente achávamos abomináveis. Quando abrimos um pequeno buraco na nossa espiritualidade e não o fechamos logo, de pouco em pouco podemos chegar a perder tudo. Mas o versículo não ensina apenas o problema, ele ensina também o motivo pelo qual isso pode acontecer: "E vocês viram as suas abominações...". A Torá está ressaltando a grande influência exercida sobre nós pelas coisas que vemos no nosso cotidiano. Mas será que não é um exagero? Será que somos assim tão influenciados a ponto de irmos contra o que acreditamos?
Nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Se afaste de um mau vizinho e não se torne próximo de um malvado". Por que está escrito em relação ao mau vizinho "se afaste", e não "não se torne próximo" como está escrito em relação ao malvado? Pois o vizinho é alguém que encontramos sempre, e certamente receberemos dele influências. Por isso, se é um mau vizinho, alguém que não tem uma conduta adequada, a única solução é se afastar. Pois se ficarmos, certamente algo ruim também receberemos para nós.
O ser humano é um ser social, e por isso recebemos uma influência muito forte da sociedade onde vivemos. Assistimos televisão, lemos livros e revistas e achamos que nada disso nos influencia, mas é justamente o contrário. Somos bombardeados por idéias o tempo todo, e mesmo se não concordamos com algo em um primeiro momento, com o tempo começamos a aceitar e a mudar, sem perceber. Portanto, o mal vizinho não é apenas uma pessoa de carne e osso. Pode ser a mídia que permitimos que entre em nossas casas sem nenhum controle. Filmes e jogos violentos, cenas de intimidades nos horários em que crianças ainda estão diante da televisão, palavrões e internet com acesso a qualquer tipo de conteúdo 24 horas por dia. Este é o "mau vizinho" que trazemos para dentro de casa, com quem ficamos e deixamos nossos filhos durante o dia inteiro.
Muitas vezes a influência vem de maneira tão sutil que praticamente não percebemos. Existe algo mais inocente do que o Gibi da "Turma da Mônica"? É aparentemente uma literatura infantil que não causa nenhum estrago na educação. Mas será que já paramos para pensar quais são as mensagens ensinadas nestes gibis para as crianças? Por exemplo, sempre que você quiser ofender alguém, chame por apelidos que humilhem a pessoa, principalmente atributos físicos como "baixinha, gorducha e dentuça". Quando alguém te ofender, parta para a violência e deixe muitos olhos roxos. Não escute seus pais e fuja do banho. Seja guloso, coma sem restrições e seja egoísta com seus amigos. São estas as características que queremos para os nossos filhos? Certamente que não, mas essa é a educação que eles acabam recebendo.
O judaísmo ensina que o nosso único manual de boa conduta é a Torá, escrita por D'us, e é obrigação dos pais transmitir estes valores para seus filhos. Não podemos nos isentar desta obrigação e deixar a educação dos nossos filhos a cargo dos professores da escola, e muito menos da televisão, que pouco têm a acrescentar em termos de valores éticos e morais. Qualquer veículo de comunicação deve ser verificado pelos pais, para que tenhamos certeza de que nossos filhos, e nós mesmos, não estamos sendo educados para achar que o errado é correto. Pois sem nenhuma dúvida a televisão é o grande educador dos nossos dias. O problema é o que ela educa.
"A principal função da indústria cinematográfica é entreter e não educar. Ocasionalmente uma mensagem possa ser incluída, desde que não diminua o valor do filme como diversão" (Samuel Goldwyn, um dos fundadores dos estúdios MGM)
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TAVÔ 5769

BS"D

DOENÇAS FÍSICAS E ESPIRITUAIS – PARASHÁ KI TAVÔ 5769 (04 de setembro de 2009)

"O rabino Eliezer Gordon, fundador da famosa Yeshivá de Telz, já era desde jovem um aluno que se destacava muito no estudo e no cumprimento da Torá. Foi justamente por estas características que o Rav Yitzchak Neviezer o escolheu como genro. E acreditando no potencial do rapaz, o Rav Yitzchak sustentou-os após o casamento, para que ele pudesse se dedicar inteiramente ao estudo da Torá e se tornar um grande erudito.

Com o passar do tempo a família do Rav Eliezer começou a crescer e começaram a surgir várias oportunidades para ele se tornar rabino em pequenas comunidades, o que lhe daria melhores condições de sustentar sua família, podendo assim aliviar seu sogro dos grandes encargos financeiros. Ele então foi pedir permissão ao sogro para aceitar uma posição rabínica e assim começar a se sustentar sozinho. Mas apesar da situação financeira do Rav Avraham Yitzchak estar muito difícil, ele recusou o pedido do genro. Ele queria continuar sustentando a família de sua filha para que seu genro se dedicasse só ao estudo de Torá. Quando a esposa do Rav Avraham Yitzchak perguntou-lhe por quanto tempo ele ainda tinha a intenção de sustentar a família da filha, ele respondeu:

- Minha querida esposa, gostaria de sustentá-los ainda por um bom tempo, pois não sabemos quem está sustentando quem...

A esposa não entendeu o que o marido quis dizer com aquela frase, mas não perguntou o significado. Mais alguns anos se passaram e o nome do Rav Eliezer começou a se destacar. Ele recebeu um convite irrecusável para se tornar rabíno na cidade de Eisheshok. Desta vez nem seu sogro conseguiu impedi-lo de aceitar o cargo.

Um dia depois da família do Rav Elizer Gordon ter viajado para Eisheshok, o Rav Avraham Yitzchak faleceu. Tornou-se então evidente quem tinha mantido quem por todos aqueles anos..."

Vivemos como se tudo o que ocorre neste mundo têm causas naturais, esquecendo que, em última instância, tudo o que ocorre aqui está conectado com os mundos espirituais.
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A Parashá desta semana, Ki Tavô, nos ensina que quando seguimos o que D'us nos ensinou, recebemos muitas Brachót (bênçãos), mas nos adverte que no momento em que nos desviamos e começamos a fazer coisas erradas, muitas dificuldades recaem sobre nós. E prestando atenção às profecias de catástrofes que estão contidas nesta Parashá, percebemos que muitas realmente se cumpriram, por exemplo, durante a destruição dos dois Templos e até mesmo em acontecimentos mais recentes como o Holocausto. E há palavras de advertência que se cumprem até os nossos dias, como está escrito: "E golpeará D'us com sarna maligna nos joelhos e nas pernas, que vocês não poderão curar" (Devarim 28:35). Presenciamos muitas pessoas, entre elas jovens e até crianças, que morrem de doenças até hoje incuráveis, contra as quais os conhecimentos da medicina não podem fazer quase nada. Mas não é contraditório imaginar que, por um lado, D'us nos criou apenas por bondade, e ao mesmo tempo Ele nos manda doenças e sofrimentos tão terríveis? Qual o sentido disso?

Explica o Rav Yona Yossef Arntroi que para começar a responder esta pergunta é preciso antes de tudo mudar a forma como olhamos as doenças e os sofrimentos. Não são poucos os que erram pensando que as doenças são coisas naturais, e que tanto a causa quanto a cura estão fundamentadas no mundo material e não no mundo espiritual. Mas é justamente o contrário, por trás de todas as doenças há um motivo espiritual. Segundo o judaísmo, quando pedimos pela cura de alguém, rezamos "Cura para a alma e cura para o corpo", pois toda doença tem um fundo espiritual. O Talmud (Torá Oral) ilustra este conceito trazendo uma história que aconteceu em uma pequena cidade, onde muitas pessoas estavam morrendo mordidas por uma cobra venenosa que se escondia em um buraco na entrada da cidade. Um Tzadik (pessoa justa) muito grande, ao saber da cobra, foi até o local e colocou a perna dentro do buraco. A cobra mordeu o Tzadik e imediatamente caiu morta no chão. O Tzadik então voltou para a cidade trazendo a cobra morta na mão e anunciando em voz alta: "O que mata não é a cobra, são as transgressões". O que o Talmud nos ensina com esta história? Que as doenças não são uma situação normal, o natural é o ser humano estar sempre saudável, as transgressões é que causam as doenças e os sofrimentos.

Explica o Ramban (Nachmânides) que o mesmo conceito se aplica aos animais. Vemos no mundo animal muito predadores que atacam e devoram outros animais. Cenas de leões ou lobos atacando e devorando outros animais nos parecem normais, pois assim é a lei da natureza. Mas o Ramban explica que esta não é a natureza dos animais, eles são pacíficos, e somente se tornaram agressivos por causa das transgressões dos seres humanos. Explica o livro Messilat Yesharim (Caminho do Justos) que quando o ser humano cai espiritualmente, todo o mundo cai junto com ele. Está profetizado que na vinda do Mashiach o lobo e o cordeiro sentarão juntos. Pensamos que os milagres da vindo do Mashiach trarão mudanças na natureza, mas é justamente o contrário, depois da vinda do Mashiach a natureza voltará ao normal, ao que sempre deveria ter sido se não fossem os nossos erros.

Se as causas das doenças são as nossas transgressões, que afetam os mundos espirituais, então temos que saber que a verdadeira cura está na Tefilá (reza) e na Teshuvá (retorno aos caminhos corretos). Apesar da lei judaica nos obrigar a procurar os médicos e não nos apoiar em milagres, precisamos olhar cada doença, por mais simples que seja, como sendo uma advertência de que espiritualmente algo não vai bem, de que temos que refletir, verificar nossos atos e procurar onde podemos estar errando. Mas nós fazemos justamente o contrário, procuramos apenas os médicos e os remédios para curar nossas doenças, sem nenhuma Tefilá ou Teshuvá. D'us então precisa mandar uma advertência um pouco mais forte, como está escrito na Torá "E se vocês não Me escutarem e se comportarem Comigo com se tudo fosse um acaso, Eu me comportarei com vocês com a fúria do acaso" (Vayikrá 26:27,28).

A medicina avança cada vez mais, e mesmo doenças graves já podem ser tratadas e até curadas sem nenhuma Tefilá ou Teshuvá. O que acontece? Os doentes novamente se apóiam apenas nos médicos, nos remédios e nos tratamentos, esquecendo de investir na cura verdadeira. Então D'us precisa mandar uma doença contra a qual a medicina não conhece nenhuma cura, como diz o versículo "que vocês não poderão curar". Pois no momento em que o paciente vê que os médicos estão desistindo, na falta de qualquer outra esperança, o doente volta seu coração para D'us e se arrepende.

Tudo o que D'us faz é por bondade, mesmo que muitas coisas não podemos enxergar ainda neste mundo. O propósito não é esta vida, é a nossa vida eterna no Mundo Vindouro. Quando nos desviamos, corremos o risco de destruir nossa eternidade. Então D'us, por amor, nos desperta, nos ajuda a voltar ao caminho. Mais do que nós queremos ter uma vida eterna, Ele quer nos dar esta vida, e faz de tudo para que possamos consegui-la. Também dói muito para D'us quando um de Seus filhos está doente, mas o remédio amargo pode salvar nossa eternidade.

Portanto, quando jogamos a culpa em D'us pelas doenças e sofrimentos, na verdade temos que saber que nós somos os culpados. Se entendêssemos que toda doença é causada pelas nossas transgressões, não precisaríamos chegar nas doenças graves e sem cura. Por isso, não precisamos esperar uma doença grave chegar até nós para despertarmos. Quando vemos alguém doente, já é motivo suficiente para refletir e repensar nossos atos. Mesmo em pequenas doenças, temos que lembrar Quem é que nos cura de verdade e trazer de volta nossa coração para Ele.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TETSE 5769

BS"D

O VALOR DA NOSSA HERANÇA – PARASHÁ KI TETSE 5769 (28 de agosto de 2009)

"Sam havia perdido muito dinheiro com a queda das bolsas e estava traumatizado com a idéia de novos investimentos. Certo dia seu amigo Bill, dono de uma empresa de investimentos, ligou para ele e disse:

- Meu querido amigo Sam, eu tenho informações privilegiadas sobre um excelente investimento. É garantido que o investimento dobrará de hoje para amanhã. Queria te dar esta oportunidade, para te ajudar a recuperar seu dinheiro perdido. Invista comigo R$ 10.000 e vamos dobrar este valor.

Mas Sam não queria escutar de investimentos. Ele lembrava o que havia acontecido quando seguiu as "informações privilegiadas" de outros investidores. Agradeceu a oferta mas preferiu não investir nada.

Uma semana depois, Sam recebeu um telefonema de Bill, contando que havia investido os R$ 10.000 e o investimento havia dobrado. Bill avisou que tinha informações de que o investimento continuaria dobrando, e novamente convidou Sam a se juntar a ele nesta empreitada. Mas novamente Sam não aceitou.

Mais uma semana se passou e Bill ligou novamente, informando que os R$ 10.000 haviam sido reinvestidos e agora ele já acumulava R$ 40.000. Pela terceira vez ele convidou Sam a investir junto com ele, garantindo que o investimento novamente dobraria, mas Sam teve medo de arriscar.

Alguns meses se passaram e um dia o telefone de Sam tocou. Era Bill:

- Eu quero lhe dizer uma coisa. Você se lembra de quando, meses atrás, eu te convidei a investir comigo R$ 10.000? Bem, hoje meu dinheiro rendeu e eu tenho mais de 1 milhão. Mas eu não esqueci de você. No meu investimento inicial eu separei R$ 10.000 do meu dinheiro e investi em seu nome. Agora você tem mais de um milhão te esperando no banco. Nós somos bons amigos e eu me importo muito com você, Sam"

Alguém faria por nós um negócio como este? Sim, este 'investimento" existe e já foi feito por nós durante a história do povo judeu. Desde Moshé até Maimônides, do Templo Sagrado à Israel dos nossos dias, os nossos antepassados lutaram e se sacrificaram para construir e nos deixar um legado judaico. Um legado de sabedoria, de idealismo, de educação e de valores. Nossos antepassados construíram uma fortuna que está apenas esperando por nós. Por 3.000 anos o povo judeu tem guardado um grande tesouro acumulado. Somos os descendentes e esta é a nossa herança milionária, que temos agora a oportunidade de receber em nossas mãos e passá-las para os nossos filhos e descendentes.
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Por mais de 3.000 anos o povo judeu sobreviveu a vários tipos de ataques e tentativas de extermínio. Dos egípcios aos gregos, dos romanos aos nazistas, muitos foram os que se levantaram contra nós e não tiveram sucesso em nos exterminar. Mas infelizmente há um inimigo que o povo judeu não está conseguindo vencer: a assimilação. Muitos judeus têm abandonado o judaísmo sem nem mesmo saber o que estão deixando para trás. Mais de 3.000 anos de sabedoria, conhecimento e valores, que nos foram entregues diretamente pelo Criador do mundo e transmitidos de geração em geração. Mas afinal, o que há de tão especial no judaísmo, pelo qual nossos antepassados muitas vezes deram a vida para nos manter este legado?

No mundo há milhares de religiões, que prometem para seus fiéis a Vida Eterna. Mas quantas religiões ensinam as pessoas a serem pessoas melhores neste mundo, a respeitarem mais os outros, a serem retos em todos os atos do cotidiano? Em muitas religiões, para receber a Vida Eterna basta acreditar em um salvador, não é necessário mudar nenhum ato nem se esforçar. O judaísmo nos ensina que o único caminho para chegar à Vida Eterna é através do nosso esforço para cada dia se elevar um pouco mais espiritualmente, e as melhorias devem ser tanto em relação à D'us quanto em relação aos nossos semelhantes. Mesmo nas atividades cotidianas mais simples há sempre como crescer e melhorar.

Um exemplo da contribuição que a Torá dá ao mundo está na Parashá desta semana, Ki Tetse. A Parashá nos ensina muitas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), e entre elas está a Mitzvá de "Hashavat Aveidá" (devolver ao dono um objeto perdido). Não apenas a Torá nos obriga a devolver um objeto que encontramos, mas somos proibidos de ver um objeto perdido e fingir que não o vimos para nos isentar da obrigação e do trabalho de devolver o objeto ao dono. Porém, se refletirmos um pouco, será que esta não é uma Mitzvá lógica, que cumpriríamos mesmo se a Torá não nos tivesse ensinado?

Apesar de parecer algo simples, esta é uma Mitzvá muito difícil de ser cumprida, e é um grande teste de honestidade e sensibilidade. Quando encontramos um objeto perdido na rua, principalmente se for algo de valor elevado, é muito tentador ficar com o objeto, mesmo sabendo que é de outra pessoa. Afinal, ninguém está olhando e ninguém vai ficar sabendo mesmo. Além disso, já que não sabemos quem perdeu o objeto, a vítima torna-se alguém "sem rosto", ficando mais fácil racionalizar o roubo e enganar o nosso lado racional. D'us nos comandou esta Mitzvá para que possamos trabalhar a nossa honestidade mesmo quando ninguém está olhando. Fora isso, a Mitzvá de "Ashavat Aveidá" também nos ajuda a ter mais sensibilidade, a sentir um pouco a dor dos outros, a quebrar o nosso egoísmo.

E a grande novidade é que, apesar de ser algo lógico, se D'us não nos tivesse comandado a devolver um objeto encontrado, provavelmente não o faríamos. Temos uma prova disso ao comparar os valores ensinados pelo judaísmo com os "modernos" valores da nossa sociedade. Por exemplo, segundo nossos valores ocidentais, "achado não é roubado". Quem definiu isso? Quem escolhe o que é roubo e o que não é? Os valores da nossa sociedade variam de acordo com as nossas necessidades e conveniências. Fixamos as regras de acordo com nossos interesses momentâneos. Será que isso é fazer o que é correto? Será que as consequências são positivas? Na nossa sociedade o mais importante são os direitos. Porém, o que acontece quando todos têm apenas direitos? O meu direito invade o direito do meu vizinho, o direito do vizinho invade o meu direito, e no final das contas se forma uma sociedade sem harmonia.

Um dos maiores legados do judaísmo para o mundo é que nós não temos direitos, nós temos deveres, que são as Mitzvót. Quando cada um se preocupa com os seus deveres, no final das contas os direitos de todos estão garantidos. É o que ocorre, por exemplo, no trânsito. Se todos tivessem somente direitos, um iria passar por cima do outro. Mas a partir do momento que os motoristas seguem regras e deveres, os direitos de todos ficam garantidos. A conseqüência é uma sociedade muito mais harmoniosa. Em muitos lugares de Israel é possível ver nas ruas bilhetes colados nos muros e nos pontos de ônibus, anunciando que alguém encontrou um objeto perdido e está procurando o dono para devolvê-lo. Algumas pessoas chegam ao ponto de gastar dinheiro colocando anúncios pagos em jornais e revistas para encontrar o dono de um objeto perdido. Esse é o verdadeiro caminho para o crescimento espiritual.

Ser uma boa pessoa não é algo que cai do céu. Demanda estudo, esforço e dedicação. Ser uma boa pessoa não é apenas dizer "eu não faço mal a ninguém". Os judeus não estão apenas obrigados a não fazer mal a ninguém, estamos obrigados a ativamente fazer o bem, temos que receber sobre nós a responsabilidade de melhorar o mundo. Se nos focarmos nos nossos direitos, estaremos contribuindo para o caos e a desunião que existem atualmente. Mas se nosso foco for os nossos deveres, estaremos dando nossa preciosa contribuição para fazer deste mundo um lugar melhor para se viver.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ SHOFTIM 5769

BS"D
APRENDENDO COM AS ÁRVORES - PARASHÁ SHOFTIM 5769 (21 de agosto de 2009)

"Dois amigos jardineiros eram donos de um belo pomar de macieiras. As árvores eram muito bonitas, e produziam lindas e deliciosas maçãs. Cada ano que passavas havia uma nova safra, com frutas ainda mais bonitas e gostosas. Até que certo dia, após refletir muito, um dos jardineiros virou-se para o outro e falou:

- Veja só, estamos desperdiçando nossas macieiras com estas técnicas antiquadas. As raízes, que são tão feias e sujas, conseguem produzir maças bonitas assim. Então se arrancarmos uma árvore, virarmos ao contrário e enterrarmos seus lindos galhos e folhas na terra, imagine quão lindos serão os seus frutos!

O outro jardineiro gostou tanto da lógica do seu amigo que imediatamente começou a arrancar algumas árvores e a plantá-las de cabeça para baixo. As raízes feias e sujas ficaram para cima, enquanto as belas folhas e os galhos ficaram enterrados.

Passou um tempo e nada cresceu. Mas os jardineiros estavam tão obcecados com a idéia que repetiram novamente o processo, arrancando outras árvores e plantando-as de cabeça para baixo. Eles estavam dispostos a repetir o processo outra e outra vez, até que tivessem sucesso. E assim fizeram, até que perceberam que a idéia havia sido um grande desastre. Não havia mais nenhum fruto crescendo naquele pomar feio e sujo, que um dia havia sido tão bonito e frutífero.

Desanimados, os jardineiros sentaram-se para lamentar sua má sorte quando viram que milagrosamente uma maça havia sobrado. Rapidamente retiraram suas sementes e as plantaram. No ano seguinte uma pequena muda de macieira começou a brotar, e dessa muda renasceu a esperança para o futuro"

Apesar do judaísmo ter florescido muito durante séculos, as últimas gerações de judeus se viram na obrigação de "modernizar" o judaísmo, implantando estilos novos, lógicos e modernos de vida, na esperança de produzir gerações melhores. A idéia não funcionou e, ao contrário do esperado, a assimilação quase acabou com o povo judeu. Felizmente uma "maça" se salvou, e dela deve renascer o futuro do nosso povo. Esta maça é o movimento de Teshuvá (retorno ao judaísmo), do qual cada vez mais participam os judeus em todo o mundo.
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A Parashá desta semana, Shoftim, traz algumas leis sobre as guerras de conquista da terra de Israel. Por exemplo, a Torá ensina que algumas pessoas estavam isentas de ir para a frente de batalha, entre elas as pessoas que estavam com medo, pois elas poderiam influenciar negativamente as pessoas em volta delas. Outra lei que a Torá ensina é a de dar sempre a possibilidade da paz antes de iniciar o ataque a uma cidade. E finalmente, após muitas leis sobre as guerras e batalhas, a Parashá encerra o assunto com uma idéia muito interessante: a proibição de cortar as árvores frutíferas de uma cidade sitiada, como está escrito: "Quando vocês forem sitiar uma cidade por muitos dias para guerrear contra ela, para conquistá-la, não destrua suas árvores com o machado, pois delas vocês comerão; não as cortarão, pois o homem é como a árvore do campo..." (Devarim 20:19). Deste versículo aprendemos uma lição muito grande para nossas vidas: mesmo quando um judeu está em uma situação de vida ou morte, sob uma grande pressão psicológica, ele deve se lembrar de sua obrigação no mundo de fazer bondades.

Esta proibição de cortar as árvores frutíferas se chama "Bal Tashchit", e se aplica a evitar qualquer tipo de desperdício. Mesmo uma pequena uva não pode ser desprezada e atirada no lixo sem motivo. Mas observando a linguagem do versículo, surge uma dúvida. Por que a Torá compara o homem com a árvore do campo? Qual a semelhança?

Ensinam nossos sábios que observando as árvores podemos aprender muito sobre nós mesmos e sobre o nosso propósito neste mundo. Por exemplo, sabemos que cada árvore é única e especial nos cuidados que necessita. Existem árvores que necessitam de mais água, outras de mais sol, outras necessitam de locais tranquilos. Se colocarmos mais água do que uma árvore necessita ela morre, e se colocarmos menos água ela seca. Se a árvore receber menos sol do que precisa ela não se desenvolve bem, mas se receber mais sol do que necessita ela queima. Portanto, cada uma deve receber uma atenção e um cuidado especial. Assim também são os seres humanos, cada pessoa é única e tem necessidades únicas, e temos que ajudar cada pessoa exatamente no que ela necessita. É um grande erro que muitos pais cometem quando tentam dar a todos os filhos exatamente a mesma educação. Cada filho é único, cada um tem diferentes necessidades e precisam de uma atenção especial.

Outro ensinamento importante que aprendemos das árvores é que elas dependem da terra para retirar água e nutrientes, mas sem o sol para fazer fotossíntese elas não sobrevivem. Este também é um dos grandes ensinamentos do judaísmo. Segundo muitas religiões, o ideal é a pessoa se afastar completamente do mundo material e viver uma vida apenas espiritual. Voto de silêncio, voto de castidade e constantes castigos ao corpo representam o máximo de espiritualidade que se pode atingir. Porém, o judaísmo ensina justamente o contrário. D'us criou o mundo material para que justamente possamos tirar dele proveito. Porém, da mesma forma que uma planta não pode viver apenas dos nutrientes do solo, ela também necessita do sol, assim também nossa vida não pode ser voltada apenas à busca de prazeres materiais, sem nenhuma motivação espiritual. Podemos e devemos ter prazeres na vida, mas quanto mais voltados ao nosso crescimento espiritual, maior o prazer que sentimos.

Também podemos aprender das árvores que, se plantarmos maçãs, não devemos esperar uma colheita de laranjas. Assim também ocorre em nossas vidas, colhemos os frutos de áreas onde investimos, mas no que não investimos não colhemos bons frutos. Dedicamos anos e anos para aprender nossas profissões. Faculdade, mestrado, cursos profissionalizantes. O resultado é que temos no mercado de trabalho profissionais cada vez mais capacitados e competentes. Mas quanto investimos para ser um bom marido ou uma boa esposa? Quanto tempo nos dedicamos para aprender a cuidar dos nossos filhos? É por isso que chegamos a índices de mais de 60% de divórcios e cada vez mais casos de delinquência juvenil. Colhemos somente o que plantamos.

Mas talvez a comparação mais interessante entre as árvores e os seres humanos é a forma de saber se estamos vivendo uma vida espiritualmente saudável ou não. Se olharmos a parte externa das árvores, muitas vezes elas parecem saudáveis, apesar da parte interna estar completamente podre. A única maneira de saber de verdade como ela está por dentro é observando os frutos. Árvores saudáveis produzem bons frutos, árvores doentes produzem frutos ruins. O mesmo se aplica aos seres humanos, é através dos nossos frutos, isto é, dos nossos filhos e alunos, que podemos saber se realmente estamos fazendo o que é correto.

Nos últimos 3.000 anos existiram muito movimentos que tentaram "adaptar" o judaísmo à modernidade, como por exemplo os Caraítas (judeus que negavam a divindade da Torá Oral) e outros movimentos reformistas que surgiram durante nossa história. Aparentemente as idéias de modernizar o judaísmo sempre pareceram boas, pensava-se que teriam bons resultados para trazer os judeus de volta ao judaísmo. Porém, quais foram os frutos? Os Caraítas, que fizeram tanto barulho há 2.000 anos atrás, já não existem mais. E os modernos movimentos reformistas olham, sem poder fazer nada, o judaísmo se perdendo por causa da crescente assimilação. O único movimento que segue firme, há mais de 3.000 anos, é o judaísmo baseado nos imutáveis ensinamentos da Torá Escrita e da Torá Oral.

Uma criança que recebe uma boa educação judaica dificilmente se assimilará e perderá seu judaísmo. Um aluno que recebe uma boa base espiritual judaica na escola não sente a necessidade de modernizar nada. Se olharmos os bons frutos que saem de uma boa educação judaica, chegaremos à conclusão que não há nada tão bom e tão atual quanto os ensinamentos da Torá.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm