sexta-feira, 25 de setembro de 2009
MENSAGEM YOM KIPUR 5770
SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ HAAZINU E YOM KIPUR 5770
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
SHANÁ TOVÁ 5770
BS"D
Mais um ano está terminando. Mais um ciclo de Parashiot da semana se encerra. Mais um ano em que D'us me ajudou e me deu forças para enviar todas as semanas o Shabat Shalom Mail. Fica a saudade do ano que passou, mas a certeza de que o próximo ano será ainda melhor.
David Hamelech (Rei David) diz nos Salmos: "O que eu poderei dar para D'us em troca de todas as bondades que Ele faz comigo?". É com este sentimento de retribuição que todas as semanas eu escrevo o Shabat Shalom Mail. É uma forma de agradecer a D'us por ter me dado a oportunidade de fazer Teshuvá e voltar aos caminhos da Torá, dos quais eu estive tão distante. Sinto-me na obrigação de dividir com as pessoas o presente que D'us me deu, de poder conhecer a profundidade dos conhecimentos da Torá e entender o quanto eles podem mudar nossas vidas.
Espero estar contribuindo para que cada um de vocês, ao ler os E-mails de Shabat todas as semanas, possam parar para refletir um pouco o quanto podemos ser grandes, o quanto temos de potencial adormecido dentro de nós, quanta bondade podemos fazer para melhorar o mundo. É muito fácil criticar a situação e colocar a culpa nos outros, o difícil é fazer a nossa parte. É isso o que o judaísmo nos ensina, a olhar para nós mesmos e melhorar o que precisa ser melhorado.
Agradeço de coração a todos os que me apóiam e me incentivam, pessoalmente ou por e-mail. O meu maior incentivo é saber que muitos estão, aos poucos, voltando aos caminhos da Torá. Cada um no seu ritmo, cada um respeitando seus limites, estamos todos voltando aos caminhos de onde nunca deveríamos ter saído. Um caminho que nos leva a uma vida mais espiritual, que nos torna pessoas melhores, mais regradas e mais tranqüilas. Que no ano de 5770 possamos ter somente boas notícias. Notícias de vitórias, de curas, de paz. Notícias de reconciliação, de amor, de alegrias. Notícias de nascimentos e de casamentos. E que finalmente seja o ano da vinda do Mashiach.
SHANÁ TOVÁ UMETUKÁ.
Com muito carinho,
Rav Efraim Birbojm
SHABAT SHALOM MAIL - ROSH HASHANÁ 5770
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT NITZAVIM E VAYELECH 5769
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TAVÔ 5769
"O rabino Eliezer Gordon, fundador da famosa Yeshivá de Telz, já era desde jovem um aluno que se destacava muito no estudo e no cumprimento da Torá. Foi justamente por estas características que o Rav Yitzchak Neviezer o escolheu como genro. E acreditando no potencial do rapaz, o Rav Yitzchak sustentou-os após o casamento, para que ele pudesse se dedicar inteiramente ao estudo da Torá e se tornar um grande erudito.
Com o passar do tempo a família do Rav Eliezer começou a crescer e começaram a surgir várias oportunidades para ele se tornar rabino em pequenas comunidades, o que lhe daria melhores condições de sustentar sua família, podendo assim aliviar seu sogro dos grandes encargos financeiros. Ele então foi pedir permissão ao sogro para aceitar uma posição rabínica e assim começar a se sustentar sozinho. Mas apesar da situação financeira do Rav Avraham Yitzchak estar muito difícil, ele recusou o pedido do genro. Ele queria continuar sustentando a família de sua filha para que seu genro se dedicasse só ao estudo de Torá. Quando a esposa do Rav Avraham Yitzchak perguntou-lhe por quanto tempo ele ainda tinha a intenção de sustentar a família da filha, ele respondeu:
- Minha querida esposa, gostaria de sustentá-los ainda por um bom tempo, pois não sabemos quem está sustentando quem...
A esposa não entendeu o que o marido quis dizer com aquela frase, mas não perguntou o significado. Mais alguns anos se passaram e o nome do Rav Eliezer começou a se destacar. Ele recebeu um convite irrecusável para se tornar rabíno na cidade de Eisheshok. Desta vez nem seu sogro conseguiu impedi-lo de aceitar o cargo.
Um dia depois da família do Rav Elizer Gordon ter viajado para Eisheshok, o Rav Avraham Yitzchak faleceu. Tornou-se então evidente quem tinha mantido quem por todos aqueles anos..."
Vivemos como se tudo o que ocorre neste mundo têm causas naturais, esquecendo que, em última instância, tudo o que ocorre aqui está conectado com os mundos espirituais.
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A Parashá desta semana, Ki Tavô, nos ensina que quando seguimos o que D'us nos ensinou, recebemos muitas Brachót (bênçãos), mas nos adverte que no momento em que nos desviamos e começamos a fazer coisas erradas, muitas dificuldades recaem sobre nós. E prestando atenção às profecias de catástrofes que estão contidas nesta Parashá, percebemos que muitas realmente se cumpriram, por exemplo, durante a destruição dos dois Templos e até mesmo em acontecimentos mais recentes como o Holocausto. E há palavras de advertência que se cumprem até os nossos dias, como está escrito: "E golpeará D'us com sarna maligna nos joelhos e nas pernas, que vocês não poderão curar" (Devarim 28:35). Presenciamos muitas pessoas, entre elas jovens e até crianças, que morrem de doenças até hoje incuráveis, contra as quais os conhecimentos da medicina não podem fazer quase nada. Mas não é contraditório imaginar que, por um lado, D'us nos criou apenas por bondade, e ao mesmo tempo Ele nos manda doenças e sofrimentos tão terríveis? Qual o sentido disso?
Explica o Rav Yona Yossef Arntroi que para começar a responder esta pergunta é preciso antes de tudo mudar a forma como olhamos as doenças e os sofrimentos. Não são poucos os que erram pensando que as doenças são coisas naturais, e que tanto a causa quanto a cura estão fundamentadas no mundo material e não no mundo espiritual. Mas é justamente o contrário, por trás de todas as doenças há um motivo espiritual. Segundo o judaísmo, quando pedimos pela cura de alguém, rezamos "Cura para a alma e cura para o corpo", pois toda doença tem um fundo espiritual. O Talmud (Torá Oral) ilustra este conceito trazendo uma história que aconteceu em uma pequena cidade, onde muitas pessoas estavam morrendo mordidas por uma cobra venenosa que se escondia em um buraco na entrada da cidade. Um Tzadik (pessoa justa) muito grande, ao saber da cobra, foi até o local e colocou a perna dentro do buraco. A cobra mordeu o Tzadik e imediatamente caiu morta no chão. O Tzadik então voltou para a cidade trazendo a cobra morta na mão e anunciando em voz alta: "O que mata não é a cobra, são as transgressões". O que o Talmud nos ensina com esta história? Que as doenças não são uma situação normal, o natural é o ser humano estar sempre saudável, as transgressões é que causam as doenças e os sofrimentos.
Explica o Ramban (Nachmânides) que o mesmo conceito se aplica aos animais. Vemos no mundo animal muito predadores que atacam e devoram outros animais. Cenas de leões ou lobos atacando e devorando outros animais nos parecem normais, pois assim é a lei da natureza. Mas o Ramban explica que esta não é a natureza dos animais, eles são pacíficos, e somente se tornaram agressivos por causa das transgressões dos seres humanos. Explica o livro Messilat Yesharim (Caminho do Justos) que quando o ser humano cai espiritualmente, todo o mundo cai junto com ele. Está profetizado que na vinda do Mashiach o lobo e o cordeiro sentarão juntos. Pensamos que os milagres da vindo do Mashiach trarão mudanças na natureza, mas é justamente o contrário, depois da vinda do Mashiach a natureza voltará ao normal, ao que sempre deveria ter sido se não fossem os nossos erros.
Se as causas das doenças são as nossas transgressões, que afetam os mundos espirituais, então temos que saber que a verdadeira cura está na Tefilá (reza) e na Teshuvá (retorno aos caminhos corretos). Apesar da lei judaica nos obrigar a procurar os médicos e não nos apoiar em milagres, precisamos olhar cada doença, por mais simples que seja, como sendo uma advertência de que espiritualmente algo não vai bem, de que temos que refletir, verificar nossos atos e procurar onde podemos estar errando. Mas nós fazemos justamente o contrário, procuramos apenas os médicos e os remédios para curar nossas doenças, sem nenhuma Tefilá ou Teshuvá. D'us então precisa mandar uma advertência um pouco mais forte, como está escrito na Torá "E se vocês não Me escutarem e se comportarem Comigo com se tudo fosse um acaso, Eu me comportarei com vocês com a fúria do acaso" (Vayikrá 26:27,28).
A medicina avança cada vez mais, e mesmo doenças graves já podem ser tratadas e até curadas sem nenhuma Tefilá ou Teshuvá. O que acontece? Os doentes novamente se apóiam apenas nos médicos, nos remédios e nos tratamentos, esquecendo de investir na cura verdadeira. Então D'us precisa mandar uma doença contra a qual a medicina não conhece nenhuma cura, como diz o versículo "que vocês não poderão curar". Pois no momento em que o paciente vê que os médicos estão desistindo, na falta de qualquer outra esperança, o doente volta seu coração para D'us e se arrepende.
Tudo o que D'us faz é por bondade, mesmo que muitas coisas não podemos enxergar ainda neste mundo. O propósito não é esta vida, é a nossa vida eterna no Mundo Vindouro. Quando nos desviamos, corremos o risco de destruir nossa eternidade. Então D'us, por amor, nos desperta, nos ajuda a voltar ao caminho. Mais do que nós queremos ter uma vida eterna, Ele quer nos dar esta vida, e faz de tudo para que possamos consegui-la. Também dói muito para D'us quando um de Seus filhos está doente, mas o remédio amargo pode salvar nossa eternidade.
Portanto, quando jogamos a culpa em D'us pelas doenças e sofrimentos, na verdade temos que saber que nós somos os culpados. Se entendêssemos que toda doença é causada pelas nossas transgressões, não precisaríamos chegar nas doenças graves e sem cura. Por isso, não precisamos esperar uma doença grave chegar até nós para despertarmos. Quando vemos alguém doente, já é motivo suficiente para refletir e repensar nossos atos. Mesmo em pequenas doenças, temos que lembrar Quem é que nos cura de verdade e trazer de volta nossa coração para Ele.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TETSE 5769
"Sam havia perdido muito dinheiro com a queda das bolsas e estava traumatizado com a idéia de novos investimentos. Certo dia seu amigo Bill, dono de uma empresa de investimentos, ligou para ele e disse:
- Meu querido amigo Sam, eu tenho informações privilegiadas sobre um excelente investimento. É garantido que o investimento dobrará de hoje para amanhã. Queria te dar esta oportunidade, para te ajudar a recuperar seu dinheiro perdido. Invista comigo R$ 10.000 e vamos dobrar este valor.
Mas Sam não queria escutar de investimentos. Ele lembrava o que havia acontecido quando seguiu as "informações privilegiadas" de outros investidores. Agradeceu a oferta mas preferiu não investir nada.
Uma semana depois, Sam recebeu um telefonema de Bill, contando que havia investido os R$ 10.000 e o investimento havia dobrado. Bill avisou que tinha informações de que o investimento continuaria dobrando, e novamente convidou Sam a se juntar a ele nesta empreitada. Mas novamente Sam não aceitou.
Mais uma semana se passou e Bill ligou novamente, informando que os R$ 10.000 haviam sido reinvestidos e agora ele já acumulava R$ 40.000. Pela terceira vez ele convidou Sam a investir junto com ele, garantindo que o investimento novamente dobraria, mas Sam teve medo de arriscar.
Alguns meses se passaram e um dia o telefone de Sam tocou. Era Bill:
- Eu quero lhe dizer uma coisa. Você se lembra de quando, meses atrás, eu te convidei a investir comigo R$ 10.000? Bem, hoje meu dinheiro rendeu e eu tenho mais de 1 milhão. Mas eu não esqueci de você. No meu investimento inicial eu separei R$ 10.000 do meu dinheiro e investi em seu nome. Agora você tem mais de um milhão te esperando no banco. Nós somos bons amigos e eu me importo muito com você, Sam"
Alguém faria por nós um negócio como este? Sim, este 'investimento" existe e já foi feito por nós durante a história do povo judeu. Desde Moshé até Maimônides, do Templo Sagrado à Israel dos nossos dias, os nossos antepassados lutaram e se sacrificaram para construir e nos deixar um legado judaico. Um legado de sabedoria, de idealismo, de educação e de valores. Nossos antepassados construíram uma fortuna que está apenas esperando por nós. Por 3.000 anos o povo judeu tem guardado um grande tesouro acumulado. Somos os descendentes e esta é a nossa herança milionária, que temos agora a oportunidade de receber em nossas mãos e passá-las para os nossos filhos e descendentes.
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Por mais de 3.000 anos o povo judeu sobreviveu a vários tipos de ataques e tentativas de extermínio. Dos egípcios aos gregos, dos romanos aos nazistas, muitos foram os que se levantaram contra nós e não tiveram sucesso em nos exterminar. Mas infelizmente há um inimigo que o povo judeu não está conseguindo vencer: a assimilação. Muitos judeus têm abandonado o judaísmo sem nem mesmo saber o que estão deixando para trás. Mais de 3.000 anos de sabedoria, conhecimento e valores, que nos foram entregues diretamente pelo Criador do mundo e transmitidos de geração em geração. Mas afinal, o que há de tão especial no judaísmo, pelo qual nossos antepassados muitas vezes deram a vida para nos manter este legado?
No mundo há milhares de religiões, que prometem para seus fiéis a Vida Eterna. Mas quantas religiões ensinam as pessoas a serem pessoas melhores neste mundo, a respeitarem mais os outros, a serem retos em todos os atos do cotidiano? Em muitas religiões, para receber a Vida Eterna basta acreditar em um salvador, não é necessário mudar nenhum ato nem se esforçar. O judaísmo nos ensina que o único caminho para chegar à Vida Eterna é através do nosso esforço para cada dia se elevar um pouco mais espiritualmente, e as melhorias devem ser tanto em relação à D'us quanto em relação aos nossos semelhantes. Mesmo nas atividades cotidianas mais simples há sempre como crescer e melhorar.
Um exemplo da contribuição que a Torá dá ao mundo está na Parashá desta semana, Ki Tetse. A Parashá nos ensina muitas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), e entre elas está a Mitzvá de "Hashavat Aveidá" (devolver ao dono um objeto perdido). Não apenas a Torá nos obriga a devolver um objeto que encontramos, mas somos proibidos de ver um objeto perdido e fingir que não o vimos para nos isentar da obrigação e do trabalho de devolver o objeto ao dono. Porém, se refletirmos um pouco, será que esta não é uma Mitzvá lógica, que cumpriríamos mesmo se a Torá não nos tivesse ensinado?
Apesar de parecer algo simples, esta é uma Mitzvá muito difícil de ser cumprida, e é um grande teste de honestidade e sensibilidade. Quando encontramos um objeto perdido na rua, principalmente se for algo de valor elevado, é muito tentador ficar com o objeto, mesmo sabendo que é de outra pessoa. Afinal, ninguém está olhando e ninguém vai ficar sabendo mesmo. Além disso, já que não sabemos quem perdeu o objeto, a vítima torna-se alguém "sem rosto", ficando mais fácil racionalizar o roubo e enganar o nosso lado racional. D'us nos comandou esta Mitzvá para que possamos trabalhar a nossa honestidade mesmo quando ninguém está olhando. Fora isso, a Mitzvá de "Ashavat Aveidá" também nos ajuda a ter mais sensibilidade, a sentir um pouco a dor dos outros, a quebrar o nosso egoísmo.
E a grande novidade é que, apesar de ser algo lógico, se D'us não nos tivesse comandado a devolver um objeto encontrado, provavelmente não o faríamos. Temos uma prova disso ao comparar os valores ensinados pelo judaísmo com os "modernos" valores da nossa sociedade. Por exemplo, segundo nossos valores ocidentais, "achado não é roubado". Quem definiu isso? Quem escolhe o que é roubo e o que não é? Os valores da nossa sociedade variam de acordo com as nossas necessidades e conveniências. Fixamos as regras de acordo com nossos interesses momentâneos. Será que isso é fazer o que é correto? Será que as consequências são positivas? Na nossa sociedade o mais importante são os direitos. Porém, o que acontece quando todos têm apenas direitos? O meu direito invade o direito do meu vizinho, o direito do vizinho invade o meu direito, e no final das contas se forma uma sociedade sem harmonia.
Um dos maiores legados do judaísmo para o mundo é que nós não temos direitos, nós temos deveres, que são as Mitzvót. Quando cada um se preocupa com os seus deveres, no final das contas os direitos de todos estão garantidos. É o que ocorre, por exemplo, no trânsito. Se todos tivessem somente direitos, um iria passar por cima do outro. Mas a partir do momento que os motoristas seguem regras e deveres, os direitos de todos ficam garantidos. A conseqüência é uma sociedade muito mais harmoniosa. Em muitos lugares de Israel é possível ver nas ruas bilhetes colados nos muros e nos pontos de ônibus, anunciando que alguém encontrou um objeto perdido e está procurando o dono para devolvê-lo. Algumas pessoas chegam ao ponto de gastar dinheiro colocando anúncios pagos em jornais e revistas para encontrar o dono de um objeto perdido. Esse é o verdadeiro caminho para o crescimento espiritual.
Ser uma boa pessoa não é algo que cai do céu. Demanda estudo, esforço e dedicação. Ser uma boa pessoa não é apenas dizer "eu não faço mal a ninguém". Os judeus não estão apenas obrigados a não fazer mal a ninguém, estamos obrigados a ativamente fazer o bem, temos que receber sobre nós a responsabilidade de melhorar o mundo. Se nos focarmos nos nossos direitos, estaremos contribuindo para o caos e a desunião que existem atualmente. Mas se nosso foco for os nossos deveres, estaremos dando nossa preciosa contribuição para fazer deste mundo um lugar melhor para se viver.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ SHOFTIM 5769
"Dois amigos jardineiros eram donos de um belo pomar de macieiras. As árvores eram muito bonitas, e produziam lindas e deliciosas maçãs. Cada ano que passavas havia uma nova safra, com frutas ainda mais bonitas e gostosas. Até que certo dia, após refletir muito, um dos jardineiros virou-se para o outro e falou:
- Veja só, estamos desperdiçando nossas macieiras com estas técnicas antiquadas. As raízes, que são tão feias e sujas, conseguem produzir maças bonitas assim. Então se arrancarmos uma árvore, virarmos ao contrário e enterrarmos seus lindos galhos e folhas na terra, imagine quão lindos serão os seus frutos!
O outro jardineiro gostou tanto da lógica do seu amigo que imediatamente começou a arrancar algumas árvores e a plantá-las de cabeça para baixo. As raízes feias e sujas ficaram para cima, enquanto as belas folhas e os galhos ficaram enterrados.
Passou um tempo e nada cresceu. Mas os jardineiros estavam tão obcecados com a idéia que repetiram novamente o processo, arrancando outras árvores e plantando-as de cabeça para baixo. Eles estavam dispostos a repetir o processo outra e outra vez, até que tivessem sucesso. E assim fizeram, até que perceberam que a idéia havia sido um grande desastre. Não havia mais nenhum fruto crescendo naquele pomar feio e sujo, que um dia havia sido tão bonito e frutífero.
Desanimados, os jardineiros sentaram-se para lamentar sua má sorte quando viram que milagrosamente uma maça havia sobrado. Rapidamente retiraram suas sementes e as plantaram. No ano seguinte uma pequena muda de macieira começou a brotar, e dessa muda renasceu a esperança para o futuro"
Apesar do judaísmo ter florescido muito durante séculos, as últimas gerações de judeus se viram na obrigação de "modernizar" o judaísmo, implantando estilos novos, lógicos e modernos de vida, na esperança de produzir gerações melhores. A idéia não funcionou e, ao contrário do esperado, a assimilação quase acabou com o povo judeu. Felizmente uma "maça" se salvou, e dela deve renascer o futuro do nosso povo. Esta maça é o movimento de Teshuvá (retorno ao judaísmo), do qual cada vez mais participam os judeus em todo o mundo.
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A Parashá desta semana, Shoftim, traz algumas leis sobre as guerras de conquista da terra de Israel. Por exemplo, a Torá ensina que algumas pessoas estavam isentas de ir para a frente de batalha, entre elas as pessoas que estavam com medo, pois elas poderiam influenciar negativamente as pessoas em volta delas. Outra lei que a Torá ensina é a de dar sempre a possibilidade da paz antes de iniciar o ataque a uma cidade. E finalmente, após muitas leis sobre as guerras e batalhas, a Parashá encerra o assunto com uma idéia muito interessante: a proibição de cortar as árvores frutíferas de uma cidade sitiada, como está escrito: "Quando vocês forem sitiar uma cidade por muitos dias para guerrear contra ela, para conquistá-la, não destrua suas árvores com o machado, pois delas vocês comerão; não as cortarão, pois o homem é como a árvore do campo..." (Devarim 20:19). Deste versículo aprendemos uma lição muito grande para nossas vidas: mesmo quando um judeu está em uma situação de vida ou morte, sob uma grande pressão psicológica, ele deve se lembrar de sua obrigação no mundo de fazer bondades.
Esta proibição de cortar as árvores frutíferas se chama "Bal Tashchit", e se aplica a evitar qualquer tipo de desperdício. Mesmo uma pequena uva não pode ser desprezada e atirada no lixo sem motivo. Mas observando a linguagem do versículo, surge uma dúvida. Por que a Torá compara o homem com a árvore do campo? Qual a semelhança?
Ensinam nossos sábios que observando as árvores podemos aprender muito sobre nós mesmos e sobre o nosso propósito neste mundo. Por exemplo, sabemos que cada árvore é única e especial nos cuidados que necessita. Existem árvores que necessitam de mais água, outras de mais sol, outras necessitam de locais tranquilos. Se colocarmos mais água do que uma árvore necessita ela morre, e se colocarmos menos água ela seca. Se a árvore receber menos sol do que precisa ela não se desenvolve bem, mas se receber mais sol do que necessita ela queima. Portanto, cada uma deve receber uma atenção e um cuidado especial. Assim também são os seres humanos, cada pessoa é única e tem necessidades únicas, e temos que ajudar cada pessoa exatamente no que ela necessita. É um grande erro que muitos pais cometem quando tentam dar a todos os filhos exatamente a mesma educação. Cada filho é único, cada um tem diferentes necessidades e precisam de uma atenção especial.
Outro ensinamento importante que aprendemos das árvores é que elas dependem da terra para retirar água e nutrientes, mas sem o sol para fazer fotossíntese elas não sobrevivem. Este também é um dos grandes ensinamentos do judaísmo. Segundo muitas religiões, o ideal é a pessoa se afastar completamente do mundo material e viver uma vida apenas espiritual. Voto de silêncio, voto de castidade e constantes castigos ao corpo representam o máximo de espiritualidade que se pode atingir. Porém, o judaísmo ensina justamente o contrário. D'us criou o mundo material para que justamente possamos tirar dele proveito. Porém, da mesma forma que uma planta não pode viver apenas dos nutrientes do solo, ela também necessita do sol, assim também nossa vida não pode ser voltada apenas à busca de prazeres materiais, sem nenhuma motivação espiritual. Podemos e devemos ter prazeres na vida, mas quanto mais voltados ao nosso crescimento espiritual, maior o prazer que sentimos.
Também podemos aprender das árvores que, se plantarmos maçãs, não devemos esperar uma colheita de laranjas. Assim também ocorre em nossas vidas, colhemos os frutos de áreas onde investimos, mas no que não investimos não colhemos bons frutos. Dedicamos anos e anos para aprender nossas profissões. Faculdade, mestrado, cursos profissionalizantes. O resultado é que temos no mercado de trabalho profissionais cada vez mais capacitados e competentes. Mas quanto investimos para ser um bom marido ou uma boa esposa? Quanto tempo nos dedicamos para aprender a cuidar dos nossos filhos? É por isso que chegamos a índices de mais de 60% de divórcios e cada vez mais casos de delinquência juvenil. Colhemos somente o que plantamos.
Mas talvez a comparação mais interessante entre as árvores e os seres humanos é a forma de saber se estamos vivendo uma vida espiritualmente saudável ou não. Se olharmos a parte externa das árvores, muitas vezes elas parecem saudáveis, apesar da parte interna estar completamente podre. A única maneira de saber de verdade como ela está por dentro é observando os frutos. Árvores saudáveis produzem bons frutos, árvores doentes produzem frutos ruins. O mesmo se aplica aos seres humanos, é através dos nossos frutos, isto é, dos nossos filhos e alunos, que podemos saber se realmente estamos fazendo o que é correto.
Nos últimos 3.000 anos existiram muito movimentos que tentaram "adaptar" o judaísmo à modernidade, como por exemplo os Caraítas (judeus que negavam a divindade da Torá Oral) e outros movimentos reformistas que surgiram durante nossa história. Aparentemente as idéias de modernizar o judaísmo sempre pareceram boas, pensava-se que teriam bons resultados para trazer os judeus de volta ao judaísmo. Porém, quais foram os frutos? Os Caraítas, que fizeram tanto barulho há 2.000 anos atrás, já não existem mais. E os modernos movimentos reformistas olham, sem poder fazer nada, o judaísmo se perdendo por causa da crescente assimilação. O único movimento que segue firme, há mais de 3.000 anos, é o judaísmo baseado nos imutáveis ensinamentos da Torá Escrita e da Torá Oral.
Uma criança que recebe uma boa educação judaica dificilmente se assimilará e perderá seu judaísmo. Um aluno que recebe uma boa base espiritual judaica na escola não sente a necessidade de modernizar nada. Se olharmos os bons frutos que saem de uma boa educação judaica, chegaremos à conclusão que não há nada tão bom e tão atual quanto os ensinamentos da Torá.
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm