sexta-feira, 11 de setembro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT NITZAVIM E VAYELECH 5769

BS"D
INFLUÊNCIAS EXTERNAS – PARASHIOT NITZAVIM E VAYELECH 5769 (11 de setembro de 2009)
"Yaacov (nome fictício) era um jovem Talmid Chacham (erudito no estudo da Torá) que prezava muito a educação dos filhos. Morava em um bairro tranqüilo, quase deserto, longe do centro. Mas com o tempo o bairro começou a ficar cheio de pessoas que não se preocupavam muito com valores morais. Via crianças fazendo brincadeiras violentas nas ruas, e constantemente escutava palavrões e gritos dos novos moradores.
Com medo que seus filhos pudessem receber uma má influência destes vizinhos, Yaacov se fechou completamente. Construiu um grande muro para isolar sua casa da vizinhança, e não deixava que seus filhos saíssem de casa sozinhos. Não por medo da violência, mas pelo medo que seus filhos poderiam aprender algo de errado com as outras crianças na rua. Até para ir e voltar da escola ele os acompanhava.
Porém, após algum tempo vivendo desta maneira, Yaacov percebeu que logo a situação se tornaria insustentável. Ele chegava todos os dias atrasado nos seus estudos, estava sempre estressado e causava nas crianças uma sensação de aprisionamento. Decidiu que era hora de mudar.
Quando os vizinhos e amigos souberam dos planos de Yaacov de se mudar do bairro, muitos tentaram convencê-lo a não sair de lá, argumentando que ele tinha uma influência positiva sobre os outros moradores. Como Yaacov não sabia o que fazer, resolveu conversar com o Rav de Brisk, um dos grandes rabinos daquela geração. Contou para o rabino sobre a má influência do bairro onde morava, enumerou os argumentos dos vizinhos e amigos para que ele ficasse, e finalmente desabafou sobre o seu medo por causa da educação das crianças. O Rav de Brisk ouviu atentamente e falou:
- Acho que você precisa mudar de bairro, procurar um lugar onde morem pessoas que vivem a vida com mais valores. Mas você está errado na forma de ver as coisas. A pergunta se você deve mudar não leva em consideração apenas a educação dos seus filhos, mas também a sua espiritualidade. Não apenas as crianças são influenciadas pelo ambiente onde vivem, mas você também está sendo influenciado por tudo o que vê e por tudo o que escuta nas ruas"
Achamos que somos fortes, que não é fácil nos convencer a mudar de opinião. Mas se fizermos uma análise honesta, perceberemos que somos tão influenciados que costumamos mudar de opinião como se muda de roupa.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Nitzavim e Vayelech, nas quais Moshé segue com seu discurso final para o povo judeu. E no começo da Parashá Nitzavim, Moshé renova o pacto de D'us com o povo judeu e relembra a gravidade da idolatria, como está escrito: "Porque vocês sabem como habitamos na terra do Egito, e como passamos pelo meio das nações pelas quais vocês passaram. E vocês viram as suas abominações, e os seus ídolos detestáveis... Talvez haja entre vocês um homem... cujo coração hoje se desviou de D'us, para ir e servir aos deuses destas nações" (Devarim 29:16-18). Mas qual era dúvida de Moshé se havia pessoas no meio do povo judeu que faziam idolatria? Como ele mesmo havia mencionado, a idolatria era, aos olhos de todo o povo, uma grande abominação que causava repulsa e nojo!
Explica o livro "Lekach Tov" que o versículo nos ensina que existe sempre o perigo de cairmos espiritualmente e chegarmos a cometer atos que anteriormente achávamos abomináveis. Quando abrimos um pequeno buraco na nossa espiritualidade e não o fechamos logo, de pouco em pouco podemos chegar a perder tudo. Mas o versículo não ensina apenas o problema, ele ensina também o motivo pelo qual isso pode acontecer: "E vocês viram as suas abominações...". A Torá está ressaltando a grande influência exercida sobre nós pelas coisas que vemos no nosso cotidiano. Mas será que não é um exagero? Será que somos assim tão influenciados a ponto de irmos contra o que acreditamos?
Nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Se afaste de um mau vizinho e não se torne próximo de um malvado". Por que está escrito em relação ao mau vizinho "se afaste", e não "não se torne próximo" como está escrito em relação ao malvado? Pois o vizinho é alguém que encontramos sempre, e certamente receberemos dele influências. Por isso, se é um mau vizinho, alguém que não tem uma conduta adequada, a única solução é se afastar. Pois se ficarmos, certamente algo ruim também receberemos para nós.
O ser humano é um ser social, e por isso recebemos uma influência muito forte da sociedade onde vivemos. Assistimos televisão, lemos livros e revistas e achamos que nada disso nos influencia, mas é justamente o contrário. Somos bombardeados por idéias o tempo todo, e mesmo se não concordamos com algo em um primeiro momento, com o tempo começamos a aceitar e a mudar, sem perceber. Portanto, o mal vizinho não é apenas uma pessoa de carne e osso. Pode ser a mídia que permitimos que entre em nossas casas sem nenhum controle. Filmes e jogos violentos, cenas de intimidades nos horários em que crianças ainda estão diante da televisão, palavrões e internet com acesso a qualquer tipo de conteúdo 24 horas por dia. Este é o "mau vizinho" que trazemos para dentro de casa, com quem ficamos e deixamos nossos filhos durante o dia inteiro.
Muitas vezes a influência vem de maneira tão sutil que praticamente não percebemos. Existe algo mais inocente do que o Gibi da "Turma da Mônica"? É aparentemente uma literatura infantil que não causa nenhum estrago na educação. Mas será que já paramos para pensar quais são as mensagens ensinadas nestes gibis para as crianças? Por exemplo, sempre que você quiser ofender alguém, chame por apelidos que humilhem a pessoa, principalmente atributos físicos como "baixinha, gorducha e dentuça". Quando alguém te ofender, parta para a violência e deixe muitos olhos roxos. Não escute seus pais e fuja do banho. Seja guloso, coma sem restrições e seja egoísta com seus amigos. São estas as características que queremos para os nossos filhos? Certamente que não, mas essa é a educação que eles acabam recebendo.
O judaísmo ensina que o nosso único manual de boa conduta é a Torá, escrita por D'us, e é obrigação dos pais transmitir estes valores para seus filhos. Não podemos nos isentar desta obrigação e deixar a educação dos nossos filhos a cargo dos professores da escola, e muito menos da televisão, que pouco têm a acrescentar em termos de valores éticos e morais. Qualquer veículo de comunicação deve ser verificado pelos pais, para que tenhamos certeza de que nossos filhos, e nós mesmos, não estamos sendo educados para achar que o errado é correto. Pois sem nenhuma dúvida a televisão é o grande educador dos nossos dias. O problema é o que ela educa.
"A principal função da indústria cinematográfica é entreter e não educar. Ocasionalmente uma mensagem possa ser incluída, desde que não diminua o valor do filme como diversão" (Samuel Goldwyn, um dos fundadores dos estúdios MGM)
SHABAT SHALOM
Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TAVÔ 5769

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DOENÇAS FÍSICAS E ESPIRITUAIS – PARASHÁ KI TAVÔ 5769 (04 de setembro de 2009)

"O rabino Eliezer Gordon, fundador da famosa Yeshivá de Telz, já era desde jovem um aluno que se destacava muito no estudo e no cumprimento da Torá. Foi justamente por estas características que o Rav Yitzchak Neviezer o escolheu como genro. E acreditando no potencial do rapaz, o Rav Yitzchak sustentou-os após o casamento, para que ele pudesse se dedicar inteiramente ao estudo da Torá e se tornar um grande erudito.

Com o passar do tempo a família do Rav Eliezer começou a crescer e começaram a surgir várias oportunidades para ele se tornar rabino em pequenas comunidades, o que lhe daria melhores condições de sustentar sua família, podendo assim aliviar seu sogro dos grandes encargos financeiros. Ele então foi pedir permissão ao sogro para aceitar uma posição rabínica e assim começar a se sustentar sozinho. Mas apesar da situação financeira do Rav Avraham Yitzchak estar muito difícil, ele recusou o pedido do genro. Ele queria continuar sustentando a família de sua filha para que seu genro se dedicasse só ao estudo de Torá. Quando a esposa do Rav Avraham Yitzchak perguntou-lhe por quanto tempo ele ainda tinha a intenção de sustentar a família da filha, ele respondeu:

- Minha querida esposa, gostaria de sustentá-los ainda por um bom tempo, pois não sabemos quem está sustentando quem...

A esposa não entendeu o que o marido quis dizer com aquela frase, mas não perguntou o significado. Mais alguns anos se passaram e o nome do Rav Eliezer começou a se destacar. Ele recebeu um convite irrecusável para se tornar rabíno na cidade de Eisheshok. Desta vez nem seu sogro conseguiu impedi-lo de aceitar o cargo.

Um dia depois da família do Rav Elizer Gordon ter viajado para Eisheshok, o Rav Avraham Yitzchak faleceu. Tornou-se então evidente quem tinha mantido quem por todos aqueles anos..."

Vivemos como se tudo o que ocorre neste mundo têm causas naturais, esquecendo que, em última instância, tudo o que ocorre aqui está conectado com os mundos espirituais.
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A Parashá desta semana, Ki Tavô, nos ensina que quando seguimos o que D'us nos ensinou, recebemos muitas Brachót (bênçãos), mas nos adverte que no momento em que nos desviamos e começamos a fazer coisas erradas, muitas dificuldades recaem sobre nós. E prestando atenção às profecias de catástrofes que estão contidas nesta Parashá, percebemos que muitas realmente se cumpriram, por exemplo, durante a destruição dos dois Templos e até mesmo em acontecimentos mais recentes como o Holocausto. E há palavras de advertência que se cumprem até os nossos dias, como está escrito: "E golpeará D'us com sarna maligna nos joelhos e nas pernas, que vocês não poderão curar" (Devarim 28:35). Presenciamos muitas pessoas, entre elas jovens e até crianças, que morrem de doenças até hoje incuráveis, contra as quais os conhecimentos da medicina não podem fazer quase nada. Mas não é contraditório imaginar que, por um lado, D'us nos criou apenas por bondade, e ao mesmo tempo Ele nos manda doenças e sofrimentos tão terríveis? Qual o sentido disso?

Explica o Rav Yona Yossef Arntroi que para começar a responder esta pergunta é preciso antes de tudo mudar a forma como olhamos as doenças e os sofrimentos. Não são poucos os que erram pensando que as doenças são coisas naturais, e que tanto a causa quanto a cura estão fundamentadas no mundo material e não no mundo espiritual. Mas é justamente o contrário, por trás de todas as doenças há um motivo espiritual. Segundo o judaísmo, quando pedimos pela cura de alguém, rezamos "Cura para a alma e cura para o corpo", pois toda doença tem um fundo espiritual. O Talmud (Torá Oral) ilustra este conceito trazendo uma história que aconteceu em uma pequena cidade, onde muitas pessoas estavam morrendo mordidas por uma cobra venenosa que se escondia em um buraco na entrada da cidade. Um Tzadik (pessoa justa) muito grande, ao saber da cobra, foi até o local e colocou a perna dentro do buraco. A cobra mordeu o Tzadik e imediatamente caiu morta no chão. O Tzadik então voltou para a cidade trazendo a cobra morta na mão e anunciando em voz alta: "O que mata não é a cobra, são as transgressões". O que o Talmud nos ensina com esta história? Que as doenças não são uma situação normal, o natural é o ser humano estar sempre saudável, as transgressões é que causam as doenças e os sofrimentos.

Explica o Ramban (Nachmânides) que o mesmo conceito se aplica aos animais. Vemos no mundo animal muito predadores que atacam e devoram outros animais. Cenas de leões ou lobos atacando e devorando outros animais nos parecem normais, pois assim é a lei da natureza. Mas o Ramban explica que esta não é a natureza dos animais, eles são pacíficos, e somente se tornaram agressivos por causa das transgressões dos seres humanos. Explica o livro Messilat Yesharim (Caminho do Justos) que quando o ser humano cai espiritualmente, todo o mundo cai junto com ele. Está profetizado que na vinda do Mashiach o lobo e o cordeiro sentarão juntos. Pensamos que os milagres da vindo do Mashiach trarão mudanças na natureza, mas é justamente o contrário, depois da vinda do Mashiach a natureza voltará ao normal, ao que sempre deveria ter sido se não fossem os nossos erros.

Se as causas das doenças são as nossas transgressões, que afetam os mundos espirituais, então temos que saber que a verdadeira cura está na Tefilá (reza) e na Teshuvá (retorno aos caminhos corretos). Apesar da lei judaica nos obrigar a procurar os médicos e não nos apoiar em milagres, precisamos olhar cada doença, por mais simples que seja, como sendo uma advertência de que espiritualmente algo não vai bem, de que temos que refletir, verificar nossos atos e procurar onde podemos estar errando. Mas nós fazemos justamente o contrário, procuramos apenas os médicos e os remédios para curar nossas doenças, sem nenhuma Tefilá ou Teshuvá. D'us então precisa mandar uma advertência um pouco mais forte, como está escrito na Torá "E se vocês não Me escutarem e se comportarem Comigo com se tudo fosse um acaso, Eu me comportarei com vocês com a fúria do acaso" (Vayikrá 26:27,28).

A medicina avança cada vez mais, e mesmo doenças graves já podem ser tratadas e até curadas sem nenhuma Tefilá ou Teshuvá. O que acontece? Os doentes novamente se apóiam apenas nos médicos, nos remédios e nos tratamentos, esquecendo de investir na cura verdadeira. Então D'us precisa mandar uma doença contra a qual a medicina não conhece nenhuma cura, como diz o versículo "que vocês não poderão curar". Pois no momento em que o paciente vê que os médicos estão desistindo, na falta de qualquer outra esperança, o doente volta seu coração para D'us e se arrepende.

Tudo o que D'us faz é por bondade, mesmo que muitas coisas não podemos enxergar ainda neste mundo. O propósito não é esta vida, é a nossa vida eterna no Mundo Vindouro. Quando nos desviamos, corremos o risco de destruir nossa eternidade. Então D'us, por amor, nos desperta, nos ajuda a voltar ao caminho. Mais do que nós queremos ter uma vida eterna, Ele quer nos dar esta vida, e faz de tudo para que possamos consegui-la. Também dói muito para D'us quando um de Seus filhos está doente, mas o remédio amargo pode salvar nossa eternidade.

Portanto, quando jogamos a culpa em D'us pelas doenças e sofrimentos, na verdade temos que saber que nós somos os culpados. Se entendêssemos que toda doença é causada pelas nossas transgressões, não precisaríamos chegar nas doenças graves e sem cura. Por isso, não precisamos esperar uma doença grave chegar até nós para despertarmos. Quando vemos alguém doente, já é motivo suficiente para refletir e repensar nossos atos. Mesmo em pequenas doenças, temos que lembrar Quem é que nos cura de verdade e trazer de volta nossa coração para Ele.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TETSE 5769

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O VALOR DA NOSSA HERANÇA – PARASHÁ KI TETSE 5769 (28 de agosto de 2009)

"Sam havia perdido muito dinheiro com a queda das bolsas e estava traumatizado com a idéia de novos investimentos. Certo dia seu amigo Bill, dono de uma empresa de investimentos, ligou para ele e disse:

- Meu querido amigo Sam, eu tenho informações privilegiadas sobre um excelente investimento. É garantido que o investimento dobrará de hoje para amanhã. Queria te dar esta oportunidade, para te ajudar a recuperar seu dinheiro perdido. Invista comigo R$ 10.000 e vamos dobrar este valor.

Mas Sam não queria escutar de investimentos. Ele lembrava o que havia acontecido quando seguiu as "informações privilegiadas" de outros investidores. Agradeceu a oferta mas preferiu não investir nada.

Uma semana depois, Sam recebeu um telefonema de Bill, contando que havia investido os R$ 10.000 e o investimento havia dobrado. Bill avisou que tinha informações de que o investimento continuaria dobrando, e novamente convidou Sam a se juntar a ele nesta empreitada. Mas novamente Sam não aceitou.

Mais uma semana se passou e Bill ligou novamente, informando que os R$ 10.000 haviam sido reinvestidos e agora ele já acumulava R$ 40.000. Pela terceira vez ele convidou Sam a investir junto com ele, garantindo que o investimento novamente dobraria, mas Sam teve medo de arriscar.

Alguns meses se passaram e um dia o telefone de Sam tocou. Era Bill:

- Eu quero lhe dizer uma coisa. Você se lembra de quando, meses atrás, eu te convidei a investir comigo R$ 10.000? Bem, hoje meu dinheiro rendeu e eu tenho mais de 1 milhão. Mas eu não esqueci de você. No meu investimento inicial eu separei R$ 10.000 do meu dinheiro e investi em seu nome. Agora você tem mais de um milhão te esperando no banco. Nós somos bons amigos e eu me importo muito com você, Sam"

Alguém faria por nós um negócio como este? Sim, este 'investimento" existe e já foi feito por nós durante a história do povo judeu. Desde Moshé até Maimônides, do Templo Sagrado à Israel dos nossos dias, os nossos antepassados lutaram e se sacrificaram para construir e nos deixar um legado judaico. Um legado de sabedoria, de idealismo, de educação e de valores. Nossos antepassados construíram uma fortuna que está apenas esperando por nós. Por 3.000 anos o povo judeu tem guardado um grande tesouro acumulado. Somos os descendentes e esta é a nossa herança milionária, que temos agora a oportunidade de receber em nossas mãos e passá-las para os nossos filhos e descendentes.
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Por mais de 3.000 anos o povo judeu sobreviveu a vários tipos de ataques e tentativas de extermínio. Dos egípcios aos gregos, dos romanos aos nazistas, muitos foram os que se levantaram contra nós e não tiveram sucesso em nos exterminar. Mas infelizmente há um inimigo que o povo judeu não está conseguindo vencer: a assimilação. Muitos judeus têm abandonado o judaísmo sem nem mesmo saber o que estão deixando para trás. Mais de 3.000 anos de sabedoria, conhecimento e valores, que nos foram entregues diretamente pelo Criador do mundo e transmitidos de geração em geração. Mas afinal, o que há de tão especial no judaísmo, pelo qual nossos antepassados muitas vezes deram a vida para nos manter este legado?

No mundo há milhares de religiões, que prometem para seus fiéis a Vida Eterna. Mas quantas religiões ensinam as pessoas a serem pessoas melhores neste mundo, a respeitarem mais os outros, a serem retos em todos os atos do cotidiano? Em muitas religiões, para receber a Vida Eterna basta acreditar em um salvador, não é necessário mudar nenhum ato nem se esforçar. O judaísmo nos ensina que o único caminho para chegar à Vida Eterna é através do nosso esforço para cada dia se elevar um pouco mais espiritualmente, e as melhorias devem ser tanto em relação à D'us quanto em relação aos nossos semelhantes. Mesmo nas atividades cotidianas mais simples há sempre como crescer e melhorar.

Um exemplo da contribuição que a Torá dá ao mundo está na Parashá desta semana, Ki Tetse. A Parashá nos ensina muitas Mitzvót "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante), e entre elas está a Mitzvá de "Hashavat Aveidá" (devolver ao dono um objeto perdido). Não apenas a Torá nos obriga a devolver um objeto que encontramos, mas somos proibidos de ver um objeto perdido e fingir que não o vimos para nos isentar da obrigação e do trabalho de devolver o objeto ao dono. Porém, se refletirmos um pouco, será que esta não é uma Mitzvá lógica, que cumpriríamos mesmo se a Torá não nos tivesse ensinado?

Apesar de parecer algo simples, esta é uma Mitzvá muito difícil de ser cumprida, e é um grande teste de honestidade e sensibilidade. Quando encontramos um objeto perdido na rua, principalmente se for algo de valor elevado, é muito tentador ficar com o objeto, mesmo sabendo que é de outra pessoa. Afinal, ninguém está olhando e ninguém vai ficar sabendo mesmo. Além disso, já que não sabemos quem perdeu o objeto, a vítima torna-se alguém "sem rosto", ficando mais fácil racionalizar o roubo e enganar o nosso lado racional. D'us nos comandou esta Mitzvá para que possamos trabalhar a nossa honestidade mesmo quando ninguém está olhando. Fora isso, a Mitzvá de "Ashavat Aveidá" também nos ajuda a ter mais sensibilidade, a sentir um pouco a dor dos outros, a quebrar o nosso egoísmo.

E a grande novidade é que, apesar de ser algo lógico, se D'us não nos tivesse comandado a devolver um objeto encontrado, provavelmente não o faríamos. Temos uma prova disso ao comparar os valores ensinados pelo judaísmo com os "modernos" valores da nossa sociedade. Por exemplo, segundo nossos valores ocidentais, "achado não é roubado". Quem definiu isso? Quem escolhe o que é roubo e o que não é? Os valores da nossa sociedade variam de acordo com as nossas necessidades e conveniências. Fixamos as regras de acordo com nossos interesses momentâneos. Será que isso é fazer o que é correto? Será que as consequências são positivas? Na nossa sociedade o mais importante são os direitos. Porém, o que acontece quando todos têm apenas direitos? O meu direito invade o direito do meu vizinho, o direito do vizinho invade o meu direito, e no final das contas se forma uma sociedade sem harmonia.

Um dos maiores legados do judaísmo para o mundo é que nós não temos direitos, nós temos deveres, que são as Mitzvót. Quando cada um se preocupa com os seus deveres, no final das contas os direitos de todos estão garantidos. É o que ocorre, por exemplo, no trânsito. Se todos tivessem somente direitos, um iria passar por cima do outro. Mas a partir do momento que os motoristas seguem regras e deveres, os direitos de todos ficam garantidos. A conseqüência é uma sociedade muito mais harmoniosa. Em muitos lugares de Israel é possível ver nas ruas bilhetes colados nos muros e nos pontos de ônibus, anunciando que alguém encontrou um objeto perdido e está procurando o dono para devolvê-lo. Algumas pessoas chegam ao ponto de gastar dinheiro colocando anúncios pagos em jornais e revistas para encontrar o dono de um objeto perdido. Esse é o verdadeiro caminho para o crescimento espiritual.

Ser uma boa pessoa não é algo que cai do céu. Demanda estudo, esforço e dedicação. Ser uma boa pessoa não é apenas dizer "eu não faço mal a ninguém". Os judeus não estão apenas obrigados a não fazer mal a ninguém, estamos obrigados a ativamente fazer o bem, temos que receber sobre nós a responsabilidade de melhorar o mundo. Se nos focarmos nos nossos direitos, estaremos contribuindo para o caos e a desunião que existem atualmente. Mas se nosso foco for os nossos deveres, estaremos dando nossa preciosa contribuição para fazer deste mundo um lugar melhor para se viver.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ SHOFTIM 5769

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APRENDENDO COM AS ÁRVORES - PARASHÁ SHOFTIM 5769 (21 de agosto de 2009)

"Dois amigos jardineiros eram donos de um belo pomar de macieiras. As árvores eram muito bonitas, e produziam lindas e deliciosas maçãs. Cada ano que passavas havia uma nova safra, com frutas ainda mais bonitas e gostosas. Até que certo dia, após refletir muito, um dos jardineiros virou-se para o outro e falou:

- Veja só, estamos desperdiçando nossas macieiras com estas técnicas antiquadas. As raízes, que são tão feias e sujas, conseguem produzir maças bonitas assim. Então se arrancarmos uma árvore, virarmos ao contrário e enterrarmos seus lindos galhos e folhas na terra, imagine quão lindos serão os seus frutos!

O outro jardineiro gostou tanto da lógica do seu amigo que imediatamente começou a arrancar algumas árvores e a plantá-las de cabeça para baixo. As raízes feias e sujas ficaram para cima, enquanto as belas folhas e os galhos ficaram enterrados.

Passou um tempo e nada cresceu. Mas os jardineiros estavam tão obcecados com a idéia que repetiram novamente o processo, arrancando outras árvores e plantando-as de cabeça para baixo. Eles estavam dispostos a repetir o processo outra e outra vez, até que tivessem sucesso. E assim fizeram, até que perceberam que a idéia havia sido um grande desastre. Não havia mais nenhum fruto crescendo naquele pomar feio e sujo, que um dia havia sido tão bonito e frutífero.

Desanimados, os jardineiros sentaram-se para lamentar sua má sorte quando viram que milagrosamente uma maça havia sobrado. Rapidamente retiraram suas sementes e as plantaram. No ano seguinte uma pequena muda de macieira começou a brotar, e dessa muda renasceu a esperança para o futuro"

Apesar do judaísmo ter florescido muito durante séculos, as últimas gerações de judeus se viram na obrigação de "modernizar" o judaísmo, implantando estilos novos, lógicos e modernos de vida, na esperança de produzir gerações melhores. A idéia não funcionou e, ao contrário do esperado, a assimilação quase acabou com o povo judeu. Felizmente uma "maça" se salvou, e dela deve renascer o futuro do nosso povo. Esta maça é o movimento de Teshuvá (retorno ao judaísmo), do qual cada vez mais participam os judeus em todo o mundo.
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A Parashá desta semana, Shoftim, traz algumas leis sobre as guerras de conquista da terra de Israel. Por exemplo, a Torá ensina que algumas pessoas estavam isentas de ir para a frente de batalha, entre elas as pessoas que estavam com medo, pois elas poderiam influenciar negativamente as pessoas em volta delas. Outra lei que a Torá ensina é a de dar sempre a possibilidade da paz antes de iniciar o ataque a uma cidade. E finalmente, após muitas leis sobre as guerras e batalhas, a Parashá encerra o assunto com uma idéia muito interessante: a proibição de cortar as árvores frutíferas de uma cidade sitiada, como está escrito: "Quando vocês forem sitiar uma cidade por muitos dias para guerrear contra ela, para conquistá-la, não destrua suas árvores com o machado, pois delas vocês comerão; não as cortarão, pois o homem é como a árvore do campo..." (Devarim 20:19). Deste versículo aprendemos uma lição muito grande para nossas vidas: mesmo quando um judeu está em uma situação de vida ou morte, sob uma grande pressão psicológica, ele deve se lembrar de sua obrigação no mundo de fazer bondades.

Esta proibição de cortar as árvores frutíferas se chama "Bal Tashchit", e se aplica a evitar qualquer tipo de desperdício. Mesmo uma pequena uva não pode ser desprezada e atirada no lixo sem motivo. Mas observando a linguagem do versículo, surge uma dúvida. Por que a Torá compara o homem com a árvore do campo? Qual a semelhança?

Ensinam nossos sábios que observando as árvores podemos aprender muito sobre nós mesmos e sobre o nosso propósito neste mundo. Por exemplo, sabemos que cada árvore é única e especial nos cuidados que necessita. Existem árvores que necessitam de mais água, outras de mais sol, outras necessitam de locais tranquilos. Se colocarmos mais água do que uma árvore necessita ela morre, e se colocarmos menos água ela seca. Se a árvore receber menos sol do que precisa ela não se desenvolve bem, mas se receber mais sol do que necessita ela queima. Portanto, cada uma deve receber uma atenção e um cuidado especial. Assim também são os seres humanos, cada pessoa é única e tem necessidades únicas, e temos que ajudar cada pessoa exatamente no que ela necessita. É um grande erro que muitos pais cometem quando tentam dar a todos os filhos exatamente a mesma educação. Cada filho é único, cada um tem diferentes necessidades e precisam de uma atenção especial.

Outro ensinamento importante que aprendemos das árvores é que elas dependem da terra para retirar água e nutrientes, mas sem o sol para fazer fotossíntese elas não sobrevivem. Este também é um dos grandes ensinamentos do judaísmo. Segundo muitas religiões, o ideal é a pessoa se afastar completamente do mundo material e viver uma vida apenas espiritual. Voto de silêncio, voto de castidade e constantes castigos ao corpo representam o máximo de espiritualidade que se pode atingir. Porém, o judaísmo ensina justamente o contrário. D'us criou o mundo material para que justamente possamos tirar dele proveito. Porém, da mesma forma que uma planta não pode viver apenas dos nutrientes do solo, ela também necessita do sol, assim também nossa vida não pode ser voltada apenas à busca de prazeres materiais, sem nenhuma motivação espiritual. Podemos e devemos ter prazeres na vida, mas quanto mais voltados ao nosso crescimento espiritual, maior o prazer que sentimos.

Também podemos aprender das árvores que, se plantarmos maçãs, não devemos esperar uma colheita de laranjas. Assim também ocorre em nossas vidas, colhemos os frutos de áreas onde investimos, mas no que não investimos não colhemos bons frutos. Dedicamos anos e anos para aprender nossas profissões. Faculdade, mestrado, cursos profissionalizantes. O resultado é que temos no mercado de trabalho profissionais cada vez mais capacitados e competentes. Mas quanto investimos para ser um bom marido ou uma boa esposa? Quanto tempo nos dedicamos para aprender a cuidar dos nossos filhos? É por isso que chegamos a índices de mais de 60% de divórcios e cada vez mais casos de delinquência juvenil. Colhemos somente o que plantamos.

Mas talvez a comparação mais interessante entre as árvores e os seres humanos é a forma de saber se estamos vivendo uma vida espiritualmente saudável ou não. Se olharmos a parte externa das árvores, muitas vezes elas parecem saudáveis, apesar da parte interna estar completamente podre. A única maneira de saber de verdade como ela está por dentro é observando os frutos. Árvores saudáveis produzem bons frutos, árvores doentes produzem frutos ruins. O mesmo se aplica aos seres humanos, é através dos nossos frutos, isto é, dos nossos filhos e alunos, que podemos saber se realmente estamos fazendo o que é correto.

Nos últimos 3.000 anos existiram muito movimentos que tentaram "adaptar" o judaísmo à modernidade, como por exemplo os Caraítas (judeus que negavam a divindade da Torá Oral) e outros movimentos reformistas que surgiram durante nossa história. Aparentemente as idéias de modernizar o judaísmo sempre pareceram boas, pensava-se que teriam bons resultados para trazer os judeus de volta ao judaísmo. Porém, quais foram os frutos? Os Caraítas, que fizeram tanto barulho há 2.000 anos atrás, já não existem mais. E os modernos movimentos reformistas olham, sem poder fazer nada, o judaísmo se perdendo por causa da crescente assimilação. O único movimento que segue firme, há mais de 3.000 anos, é o judaísmo baseado nos imutáveis ensinamentos da Torá Escrita e da Torá Oral.

Uma criança que recebe uma boa educação judaica dificilmente se assimilará e perderá seu judaísmo. Um aluno que recebe uma boa base espiritual judaica na escola não sente a necessidade de modernizar nada. Se olharmos os bons frutos que saem de uma boa educação judaica, chegaremos à conclusão que não há nada tão bom e tão atual quanto os ensinamentos da Torá.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ REÊ 5769

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TAPAS PARA EDUCAR, NÃO PARA MACHUCAR - PARASHÁ REÊ 5769 (14 de agosto de 2009)

"Havia um homem muito rico que era dono de um imenso pomar, de onde emanava um cheiro delicioso. No centro do pomar o homem construiu uma bela casa, para que pudesse desfrutar daquela linda vista e cuidar do pomar. Para que ninguém estragasse nada, o homem cercou todo o pomar com um muro bem alto.

Certo dia o homem voltou para casa e percebeu que havia um pequeno buraco no muro. Procurou no pomar e viu um homem que roubava frutas e colocava em uma sacola. O dono do pomar poderia ter chamado a atenção do homem, mas decidiu não fazer nada, afinal, não era algo tão grave assim pegar algumas frutas do pomar dos outros.

Mais alguns dias se passaram e o homem percebeu que o buraco estava maior. Quando procurou o ladrão de frutas, desta vez viu que ele não roubava apenas as frutas individualmente, mas arrancava galhos inteiros para levar mais frutas de uma só vez. Novamente o dono do pomar achou que não valia a pena brigar por causa disso e deixou que o ladrão levasse as frutas.

Na semana seguinte, o dono do pomar percebeu que a pequena abertura havia se transformado em um portão. Foi quando viu, horrorizado, que o ladrão já não roubava apenas frutas ou galhos das árvores. Com um machado na mão, ele derrubava as árvores inteiras e as levava embora. Isso o dono do pomar não podia aguentar. Chamou a polícia, que chegou rapidamente e pegou o homem em flagrante. O homem apanhou muito dos policiais e ficou todo machucado.

Vendo aquela cena, um grande remorso tomou conta do dono do pomar. Por não ter feito nada quando o ladrão começou com pequenos delitos, ele havia contribuído para que ele chegasse a níveis cada vez piores. Se desde a primeira vez ele tivesse brigado com o homem, nada disso teria acontecido"

Ensina o Chafetz Chaim que quando uma pessoa começa a se desviar do caminho correto, a tendência é que ela se desvie cada vez mais. Para nos ajudar a não se desviar, D'us nos "cercou" com as Mitzvót. Mas muitas vezes abrimos "buracos no muro", isto é, transgredimos as Mitzvót. Então D'us precisa nos mandar castigos, para nos ajudar a voltar aos caminhos corretos, evitando que continuemos a abrir buracos cada vez maiores no muro, o que poderia comprometer o nosso futuro.
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A Parashá desta semana, Reê, começa com um aviso de D'us: "Veja, Eu coloco hoje diante de vocês a Brachá (benção) e a Klalá (maldição)" (Devarim 11:26). D'us está nos advertido sobre as duas possibilidades que temos na vida, de cumprir as Mitzvót que Ele nos entregou ou transgredi-las, e as consequências de cada uma das escolhas. Porém, observando detalhadamente este versículo, surge uma pergunta: por que está escrito "a Brachá e a Klalá" e não "a Brachá ou a Klalá"? Como podem estar as duas coisas juntas?

Estamos acostumados a recompensar as boas ações e castigar as más ações. Mas não estamos acostumados a recompensar alguém por não ter feito o mal ou a castigar alguém por não ter feito o bem. Em outras palavras, castigamos um ladrão por ter cometido um roubo, mas não recompensamos uma pessoa por ela ter deixado de roubar algo que ela desejava. Recompensamos uma pessoa por ter nos ajudado a limpar nossa casa, mas não a castigamos se ela não quiser ajudar. Portanto, em um mesmo ato não há como juntar a Brachá e a Klalá, elas não se aplicam juntas à mesma situação.

Porém, observarmos na Torá que não é assim que D'us se comporta. Vemos na Torá que a Brachá e a Klalá podem sim estar juntas. Por exemplo, existe uma grave proibição de consumir o sangue dos animais, como está escrito "E qualquer homem da Casa de Israel ou peregrino que habitar entre eles e comer algum sangue, colocarei Minha ira sobre a pessoa que comer o sangue, a banirei de seu povo" (Vayikrá 17:10). Já na Parashá desta semana está escrito "Mas não comerás o sangue; o derramarás na terra, como água… Não o comas, para que esteja bem contigo e teus filhos depois de ti..." (Devarim 12:16,25). Por um lado, comer sangue é uma grave transgressão com um terrível castigo, por outro lado aquele que evita de comer sangue é recompensado por isso. Explica Rashi, comentarista da Torá, que se a recompensa se aplica a deixar de comer sangue, que é algo repugnante, mais ainda se aplica a coisas proibidas pelas quais a pessoa sente um forte desejo mas consegue deixar de fazer. E é isto que o primeiro versículo da Parashá nos ensina, que de acordo com as regras que D'us criou para o mundo, é possível que a mesma Mitzvá traga Brachá ou Klalá. Mas por que esta diferença entre o comportamento dos seres humanos, onde não vemos a Brachá e a Klalá juntas, e o comportamento de D'us, onde sim é possível que a Brachá e a Klalá estejam juntas?

Ensina o Rav Yitzchak Blazer que para entender, precisamos antes diferenciar entre dois tipos de castigo e recompensa. Existe um castigo e recompensa que está ligado com o passado, e há um castigo e recompensa ligado com o futuro. Por exemplo, quando uma pessoa encontra dentro de sua casa um ladrão ameaçando sua família, ele golpeia o ladrão sem piedade, e com certeza estes golpes não têm nenhuma intenção de educar e endireitar os caminhos futuros do ladrão. Toda a motivação dos golpes é uma vingança pelo ladrão ter
entrado na casa para roubar e machucar sua família. O mesmo acontece com a recompensa que uma pessoa dá ao seu companheiro por um serviço prestado, ele paga por um ato passado. Quando nos focamos no passado, somente há Brachá se a pessoa fez algo bom e Klalá se a pessoa fez algo ruim, os dois não andam juntos.

Já o castigo e a recompensa que são voltados para o futuro são diferentes. É o que acontece no relacionamento entre um pai e um filho. Por exemplo, quando um filho pequeno tenta atravessar a rua sozinho, colocando em risco sua vida, seu pai lhe dá uma boa surra. A surra não é uma vingança contra o ato que o filho cometeu, afinal, é apenas uma pequena criança ainda sem discernimento de certo e errado. Toda a intenção do pai ao aplicar sofrimentos ao seu filho é direcionada para o futuro, para criar nele o medo de atravessar a rua sem cuidado, protegendo assim a sua vida. Também quando o pai dá ao filho presentes, não o faz como um pagamento de algo que ele fez no passado, e sim como um incentivo para que ele continue andando nos caminhos corretos. Quando pensamos no futuro, existe Brachá por fazer o certo e castigo por deixar de fazer o certo, existe castigo por fazer o incorreto e Brachá por deixar de fazer o incorreto.

Da mesma forma que o pai se comporta com seu filho pensando no seu bem futuro, assim também D'us, o nosso Pai, se comporta conosco, os Seus filhos. Os castigos e recompensas de D'us não são um pagamento por coisas que aconteceram no passado, são um incentivo para o nosso futuro crescimento espiritual. Nos ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que D'us não mandou as Brachót e as Klalót para o nosso mal, e sim para nos ensinar qual é o caminho bom, para que o escolhamos e possamos receber nossa recompensa. D'us se preocupa com o nosso futuro, com a nossa eternidade, e Ele quer mais do que nós que tenhamos prazeres eternos no Olam Habá, pois Ele criou o mundo com este objetivo. Portanto, todos os sofrimentos que Ele nos manda são por amor, para nos despertar, para nos ajudar a voltar ao caminho correto, nos ajudando a meritar a nossa vida eterna.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ EKEV 5769

BS"D
SE IMPORTAR COM O PRÓXIMO - PARASHÁ EKEV 5769 (07 de agosto de 2009)

"O Rav Ytzchak Elchanan Spector era o rabino da cidade de Kovno, na Lituânia, que na época estava sob o domínio da Rússia. De acordo com as leis russas, todos os jovens estavam obrigados a se alistar no exército. Para os judeus esta lei era muito dura, pois além do constante risco de perder a vida em uma batalha, era praticamente impossível continuar cumprindo as Mitzvót no exército russo. Portanto muitos jovens judeus apresentavam ao governo russo um pedido de dispensa do serviço militar.

Yaacov era um jovem aluno, muito querido pelo Rav Ytzchak Elchanan, e quando chegou na idade de alistamento, viajou para enviar ao governo russo seu pedido de dispensa do exército. Todos os dias o Rav Ytzhak Elchanan esperava, com o coração na mão, notícias do seu aluno querido, mas as novidades não chegavam, deixando o rabino angustiado. Certo dia ele estava muitas horas julgando um caso difícil no Beit Din (Tribunal Rabínico). Os litigantes eram dois homens de negócio muito ricos que disputavam ferozmente uma quantia enorme de dinheiro. O ambiente estava muito tenso, pois nenhum dos dois lados aceitava nenhum tipo de acordo, e por muitas horas os juízes se esforçavam, mas não conseguiam encontrar uma solução para o problema. De repente, a porta do Beit Din se abriu e um jovem rapaz, aluno do Rav Ytzchak Elchanan, entrou na sala. Quando viu o rabino, falou com emoção:

- Rabino, trago boas notícias. O Yaacov foi dispensado do exército!

O Rav Ytchak Elchanan deu um longo suspiro de alívio e disse ao seu aluno, com um grande sorriso:

- Que D'us te abençoe por você ter me trazido notícias tão boas. Muito obrigado por ter vindo até aqui me contar. Que D'us te dê uma vida longa e com muita saúde. Eu te agradeço muito.

O jovem saiu da sala com um grande sorriso, feliz por ter alegrado seu rabino. O rabino então voltou para o difícil julgamento. Estavam tentando uma nova maneira de resolver o caso quando, alguns minutos depois, um outro aluno abriu a porta do Beit Din. Sem saber que seu colega já havia dado a notícia, ele correu até o rabino e contou que o Yaacov havia sido dispensado do exército. O Rav Ytzchak Elchanan sorriu como se não houvesse ainda escutado a notícia e falou:

- Muito obrigado. Que D'us te abençoe com muitos anos de vida e uma boa saúde. Eu te agradeço muito pela boa notícia.

O segundo jovem saiu de lá sorrindo, contente por ter alegrado seu rabino. No total, 6 alunos do Rav Ytchak Elchanan entraram naquela tarde no Beit Din para dar a mesma notícia de que seu aluno havia sido dispensado. O mais incrível é que nenhum dos alunos nunca soube que outros já haviam chegado antes com a notícia. Para cada um deles o Rav Ytchak Elchanan sorriu, agradeceu e abençoou o aluno da mesma maneira e com o mesmo entusiasmo, fazendo-os sentir importantes. E tudo isso ocorreu enquanto o Rav Ytzchak Elchanan estava imerso em um julgamento tenso e difícil".

Se nós estivéssemos ali, certamente teríamos dito aos outros alunos "já sei". Isto mostra como são especiais os grandes de Torá, que se esforçam não apenas nos seus estudos, mas também em amar e se preocupar de verdade com o próximo.
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Na Parashá desta semana, Ekev, Moshé continuou seu discurso final para o povo judeu, encorajando-os a ter Emuná (fé) em D'us, para que tivessem sucesso na conquista da Terra de Israel, e a abominar qualquer forma de idolatria. E se prestarmos atenção há uma expressão que se repete 3 vezes na Parashá, "andar nos Seus caminho". A primeira vez está escrito: "Vocês devem observar os mandamentos de Hashem, teu D'us, para andar nos Seus caminhos e temê-Lo" (Devarim 8:6). A segunda vez está escrito: "e agora, Israel, o que D'us pede de vocês? para que temam a Ele, andem nos Seus caminhos e O amem..." (Devarim 10:12). Na terceira vez está escrito: "E você vai cumprir toda esta Mitzvá que Eu comando para vocês, para cumpri-la, para amar a Hashem, teu D'us, para andar nos Seus caminhos e para se conectar a Ele" (Devarim 11:22). Surgem então duas perguntas: o que significa "andar nos Seus caminhos"? E por que a Parashá traz esta expressão 3 vezes, relacionada com os conceitos de temor, amor e conexão com D'us?

Explica o famoso rabino Chafetz Chaim que existem 3 níveis no nosso trabalho espiritual: o temor a D'us é o primeiro nível, depois vem o amor a D'us e finalmente vem a conexão com D'us, quando a pessoa coloca o amor a D'us de maneira constante em seu coração. Os 3 versículos fazem alusão ao crescimento espiritual de um nível para o outro, começando com temor, depois a transição entre temor e amor, e finalmente a transição entre amor e conexão com D'us. Mas o que significa "andar no Seu caminho"? Da mesma forma que D'us é misericordioso conosco, nós também devemos ser misericordiosos com os outros. Da mesma forma que D'us nos manda bondades sem esperar nada em troca, assim também nós devemos ajudar aos outros sem esperar nada em troca. Da mesma forma que D'us constantemente nos faz Chessed (bondades), assim também devemos estar sempre procurando oportunidades de fazer Chessed com os outros. A Torá está ressaltando que uma das principais partes do nosso crescimento espiritual é o cuidado e a preocupação com o nosso semelhante. Mas por que este ensinamento aparece 3 vezes, um para cada nível de trabalho espiritual?

O primeiro versículo, "para andar nos Seus caminhos e temê-Lo", nos ensina que para iniciar o nosso crescimento espiritual necessitamos nos preocupar com o próximo. Mas poderíamos pensar que apenas para atingir um primeiro nível espiritual é necessário trabalhar nossas características em relação ao próximo, mas quando já somos tementes a D'us, talvez o resto do trabalho seja só entre nós e D'us. Para isso vem o segundo versículo, "Para que temam a Ele, andem nos Seus caminhos e O amem", mostrando que o caminho de crescimento do temor para o amor a D'us também necessita vir junto de crescimento na área do homem com seu semelhante. E finalmente poderíamos pensar que depois de chegar ao amor a D'us, todo nosso crescimento espiritual deve ser voltado ao nosso trabalho com o Criador, e para isso vem o terceiro versículo, "para amar a Hashem, teu D'us, para andar nos Seus caminhos e para se conectar a Ele", nos ensinando que para chegar ao máximo nível espiritual, quando definitivamente nos conectamos com D'us, é necessário trabalhar ainda mais em relação ao nosso semelhante.

E assim nos ensina o Pirkei Avót: "sem bons modos não há Torá, e sem a Torá não há bons modos". Mas então por onde começar? Explicam nossos sábios que existem dois níveis de bons modos, um inicial, que é um mínimo que a pessoa precisa ter para ser chamado de ser humano. Sem este primeiro nível de respeito ao próximo não existe forma de crescer espiritualmente. E o segundo nível é quando a pessoa se dedica ao estudo e ao cumprimento da Torá e vai refinando o seu caráter, aprendendo cada vez mais a respeitar e a se preocupar com o próximo. É o nível que conseguem chegar grandes estudiosos da Torá, que muitas vezes se preocupam mais com os outros do que com si mesmos.

Muitas vezes pensamos que espiritualidade é a pessoa ficar meditando de cabeça para baixo, flutuando ou fazendo voto de silêncio. A Parashá nos ensina que o caminho para a espiritualidade verdadeira é outro. Para chegarmos a níveis de temor, amor e conexão com D'us, antes precisamos nos esforçar para amar ao próximo e a sentir as necessidades dos outros. Não há outro caminho.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 31 de julho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAETCHANAN 5769

BS"D

VIVER PARA QUE? - PARASHÁ VAETCHANAN 5769 (31 de julho de 2009)

"O Rav Avramski costumava contar sobre os anos de exílio que passou na Sibéria. Foram anos difíceis, de sofrimentos e humilhações diárias. Eram condições de vida terríveis, com trabalhos forçados pesados que quebravam o corpo, eram amargos como a morte. Muito morriam de doenças, de desgosto ou simplesmente porque desistiam de viver naquelas condições. Certo dia, o Rav Avramski acordou pela manhã e começou a recitar o "Modê ani" (um agradecimento por D'us ter nos devolvido a nossa alma, nos dando a oportunidade de mais um dia de vida). Mas de repente começou a se questionar:

- Por que eu estou agradecendo por mais um dia de vida? Que vida eu terei aqui hoje? Mais um dia de pancadas, sofrimentos e humilhações! Se pelo menos eu tivesse oportunidade de estudar Torá ou cumprir Mitzvót, valeria a pena os sofrimentos. Mas nem isso eu consigo, então por que estou recitando o "Modê Ani"?

Mas mesmo com tantos questionamentos, o Rav Avramski conta que continuou a recitar o "Modê Ani", até que chegou às palavras finais, e elas lhe trouxeram um grande consolo: "Raba Emunatecha" (grande é a minha crença em Você). Foi então que ele começou a pensar:

- É verdade que eles tiraram a minha Torá e as minhas Mitzvót. É verdade que eu recebo diariamente pancadas e humilhações. Mas a minha crença em D'us eles não podem tirar de mim. E por esta crença vale a pena levantar e viver mais este dia de vida.

E com esta força e determinação o Rav Avramski conseguiu levantar e suportar muitos anos difíceis na Sibéria"

Quando temos claridade e foco no nosso propósito, nossa vida muda completamente, e mesmo os sofrimentos mais difíceis podem ser superados se soubermos o porquê estamos aqui.
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Na Parashá desta semana, Vaetchanan, Moshé continuou seu discurso de despedida para o povo judeu. Ele relembrou que não poderia entrar em Israel junto com o povo por um erro que havia cometido no deserto. Apesar de ter suplicado muitas vezes para entrar em Israel, D'us não havia mudado de idéia, e havia inclusive pedido para que Moshé parasse de pedir. A Guemátria (soma do valor numérico das letras em hebraico) da palavra "Vaetchanan" (e suplicou) é 515, o número de vezes que Moshé suplicou para que D'us o deixasse entrar com o povo em Israel. Daqui surgem duas perguntas: sabemos que D'us é misericordioso e sempre escuta nossas súplicas, então por que aparentemente não escutou o pedido de Moshé? E fora isso, por mais que todo judeu sonha em passear em Israel, experimentar um Falafel e flutuar no Mar Morto, certamente estas não eram as motivações de Moshé. Por que ele suplicou tantas vezes para poder entrar em Israel?

Explicam os nossos sábios que Moshé estava em um nível tão elevado que, se entrasse em Israel, imediatamente o Beit Hamikdash (Templo Sagrado) seria construído, e seria tão sagrado que não poderia ser destruído nunca mais. Porém, quando Moshé bateu na pedra ao invés de pedir para que ela desse água ao povo, ele perdeu a oportunidade de fazer o povo judeu se elevar espiritualmente. Se o povo tivesse visto o poder de D'us de fazer sair água de uma pedra no meio do deserto através do simples pronunciamento de palavras, teria aumentado sua fé e teria chegado a um nível espiritual muito alto, compatível com o nível de Moshé e do Beit Hamikdash eterno. Mas o povo não se elevou, e neste nível mais baixo eles entraram em Israel. Quando o povo judeu cometeu transgressões, a fúria de D'us foi despejada nas pedras e madeiras do Beit Hamikdash, para que o Beit Hamikdash fosse destruído mas o povo judeu fosse poupado. Mas se fosse construído um Beit Hamikdash definitivo, quando o povo cometesse pecados (por estar naquele nível espiritual mais baixo) não haveria como desviar a fúria de D'us para o Beit Hamikdash e o povo judeu seria destruído. Portanto D'us escutou as súplicas de Moshé, mas por uma grande bondade com o povo judeu Ele não permitiu que Moshé entrasse na terra de Israel. Mas afinal, por que Moshé queria tanto entrar?

Quando observamos os Tzadikim (justos) da Torá, vemos que eles têm algo em comum: tudo o que eles fazem é com "Zrizut" (agilidade). Por exemplo, quando Avraham Avinu recebeu a visita dos anjos disfarçados de beduínos, ele preparou tudo correndo, querendo aproveitar cada segundo. Por que? Pois é muito grande a diferença entre uma pessoa que sabe sentir a perda de uma Mitzvá e uma pessoa que não sabe sentir. Avraham corria pois sabia que nos segundos que sobrariam ele podia fazer mais uma Mitzvá, ele sabia claramente que não há nenhum segundo sobrando, ele sabia que cada Mitzvá vale eternidade. Nós, ao contrário, fazemos as coisas com calma, deixamos para amanhã o que poderíamos ter feito hoje, não temos muita pressa, pois não sentimos a perda de uma Mitzvá, não sabemos quanto vale cada segundo neste mundo.

A mesma preocupação com as Mitzvót nós observamos em Moshé. Cada instante da sua vida foi vivida para o estudo da Torá e o cumprimento das Mitzvót, ele não desperdiçou nenhum segundo. Mas ele sabia que muitas das Mitzvót somente podiam ser cumpridas em Israel, e foi por isso que ele implorou para entrar, pela oportunidade de poder cumprir mais e mais Mitzvót. Sua preocupação não era com o turismo em Israel, era com as Mitzvót a mais que poderia cumprir, com a eternidade que ele poderia ganhar.

Existe uma diferença muito grande entre as pessoas que consideram este mundo o objetivo da vida e aquelas que sabem que este mundo é apenas um caminho para a vida verdadeira no Mundo Vindouro. As pessoas que pensam que esta vida é o principal estão dispostas a tudo para atingir seus desejos e obter prazeres. Mas qual a prova de que estas pessoas não dão valor para cada segundo? O grande número de pessoas que, por não conseguir atingir seus objetivos materiais, se suicidam e desperdiçam toda a vida que teriam pela frente. Esta é a consequência de não saber o valor verdadeiro de cada dia, de cada hora, de cada segundo neste mundo. Muitas pessoas vão, quando tem algum tempinho livre, "matar tempo" no Shopping. A expressão é correta, pois estamos "matando o tempo", isto é, estamos cometendo um "suicídio espiritual" ao desperdiçar a oportunidade de ouro que recebemos que se chama tempo.

Já as pessoas que tem claridade do objetivo da vida sabem apreciar cada segundo, sabem que não há tempo sobrando, estamos no meio de uma construção espiritual. Isso nos ajuda a superar dificuldades e a vencer desafios na vida. Os Tzadikim sabem que cada Mitzvá que nos falta é como se fosse uma parte do corpo que está faltando e, portanto, eles valorizam cada oportunidade. Eles não abririam mão de nem mesmo um segundo na vida, pois eles sabem para que estão vivendo.

Moshé sabia o valor de cada Mitzvá. Ele sabia que o que fazemos neste mundo fica guardado para a vida eterna, para o Mundo vindouro. Ele sabia que mesmo com os sofrimentos e as dificuldades a vida vale a pena, pois o que estamos ganhando neste mundo, o nosso crescimento espiritual, ninguém pode tirar de nós. Será que nós também temos claridade do nosso objetivo na vida? Aproveitamos nosso tempo para construir nossa eternidade ou "matamos o tempo" sem nenhum objetivo? O tempo não para, cada segundo passa e não volta nunca mais.

Que possamos aproveitar a vida para construir nossa eternidade.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 23 de julho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ DEVARIM 5769

BS"D

LADRÃO, EU? - PARASHÁ DEVARIM 5769 (24 de julho de 2009)

"O Rav Isroel Salanter certa vez foi visitar o Sr. Fitzgerald (nome fictício), um homem muito rico que ajudava muito as Yeshivót. O Sr. Fitzgerald tinha em cima de sua escrivaninha uma grande quantidade de dinheiro e estava no meio das contas quando o Rav Salanter entrou. Imediatamente ele parou de contar o dinheiro e se levantou em respeito ao grande rabino. Começaram a falar e, quando estavam no meio da conversa, um funcionário do Sr. Fitzgerald entrou na sala apressado, disse algumas palavras no ouvido dele e saiu apressado. O Sr. Fitzgerald se desculpou, dizendo que precisava se ausentar por alguns minutos, mas que o Rav Salanter podia esperá-lo sentado na sala.

Alguns minutos se passaram e o Sr. Fitzgerald voltou para a sala. Para sua surpresa, o Rav Salanter não estava mais lá. Procurou-o por toda a casa e não o encontrou. Finalmente um dos seus funcionários veio avisá-lo de que o Rav Salanter estava esperando-o do lado de fora. Quando o homem perguntou por que o Rav Salanter havia saído, ele respondeu:

- Você saiu da sala e deixou diante de mim uma grande quantidade de dinheiro não contado. Eu vim justamente aqui pedir dinheiro para a Yeshivá, senti que aquele dinheiro poderia se tornar para mim uma grande tentação. Segundo a Torá, é proibido se colocar em qualquer teste sem necessidade, e portanto eu preferi esperar aqui fora até que você voltasse para a sala"

O Rav Salanter seria certamente a última pessoa do planeta que roubaria um único centavo do dinheiro dos outros. Mas sua atitude mostra a rigorosidade com que ele lidava com o assunto. Nós, que somos muito menores espiritualmente, não somos tão rigorosos e muitas vezes nos colocamos em testes que não conseguimos passar.
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Nesta semana começamos o último livro da Torá, Devarim, no qual Moshé fez seu último discurso para o povo judeu e recordou muitos erros cometidos durante os 40 anos no deserto. E na Parashá desta semana, Devarim,um dos pontos que Moshé relembrou foi que D'us o havia colocado como juiz único do povo judeu, mas o povo preferiu que o trabalho fosse dividido entre outras pessoas. Aparentemente foi uma atitude bonita do povo, querendo tirar o peso das costas de Moshé, pois era difícil julgar todo o povo sozinho. Mas Moshé sutilmente relembrou o povo de que a real intenção deles era dividir o trabalho para facilitar a corrupção, já que todos sabiam que Moshé nunca receberia um suborno nem desviaria seus julgamentos por nenhum motivo, enquanto as outras pessoas não estavam em um nível assim tão elevado e seriam mais facilmente subornadas. E assim Moshé ressaltou aos juízes: "Não tenham medo de nenhum homem, pois o julgamento é de D'us" (Devarim 1:17), advertindo para que eles não se deixassem influenciar pelo medo de pessoas grande e importantes, o que também é uma forma de suborno. Mas o que significa que "o julgamento é de D'us"?

Rashi, comentarista da Torá, explica que toda vez que um juiz comete um erro no seu julgamento, é como se D'us dissesse "Com este dinheiro que você tirou de um e deu para o outro, você Me obriga a ter que intervir e fazer a justiça com as Minhas mãos". D'us não permite que uma injustiça prevaleça, então Ele tem outros meios para fazer com que aquele que foi roubado receba seu dinheiro e o que roubou perca o dinheiro roubado. Então por que é tão grave um juiz se corromper? Pois D'us tenta estar sempre oculto, para manter nossa livre escolha, e um erro de um juiz "força" D'us a "aparecer" mais na situação.

Mas há ainda um outro ponto interessante que aprendemos do comentário de Rashi: toda vez que uma pessoa engana outra em termos monetários, ela não está apenas cometendo uma transgressão com o próximo, ela está cometendo algo diretamente contra D'us. Temos a tendência de ser muito mais lenientes em assuntos que envolvam D'us diretamente do que em assuntos entre o homem e o seu semelhante. Em relação ao jejum de Yom Kipur, por exemplo, somos estritos no limite, mas em assuntos monetários muitas vezes buscamos opiniões lenientes e justificamos transgressões com "apoio" da lei judaica. Isto ocorre porque esquecemos que toda transgressão entre o homem e seu semelhante também envolve uma transgressão com D'us.

O Talmud afirma que a grande maioria das pessoas cai na transgressão do roubo. Mas como entender esta afirmação do Talmud? Não vemos pessoas em todas as esquinas roubando carteiras nem assaltando bancos! O Talmud está se referindo à formas mais sutis de roubo, muitas das quais as pessoas cometem sem perceber que estão roubando. Um exemplo clássico é não devolver objetos emprestados. Pegamos livros e nunca mais devolvemos, pedimos um CD para escutar e ele nunca mais volta para o dono. Parece algo comum, sem gravidade, mas é roubo. Obviamente que ninguém tem intenção de roubar, mas esta negligência vem do descaso com a propriedade dos outros, e a principal motivação do roubo é o descaso com o que é do outro. Outro exemplo é utilizar objetos dos outros sem pedir permissão, assumindo que o outro certamente nos deixaria utilizar se estivesse presente. Isto também é uma forma de roubo, pois alguns tipos de objetos precisam de permissão explícita para serem utilizados. E fora estes, poderíamos citar outras centenas de exemplos de situações nas quais roubamos sem saber.

Podemos tentar encontrar muitas razões para justificar nossas atitudes nos assuntos monetários, mas devemos nos lembrar que, em última instância, tudo o que um judeu faz deve estar baseado no que D'us nos ensinou no Monte Sinai. Temos um código de leis, que compreende milhares de situações. Temos grandes rabinos que podem nos orientar, baseados nos ensinamentos da Torá. Não temos nenhuma permissão de "achar" que coisas são permitidas. Da mesma forma que não comemos algo que "achamos" que é Kasher, também não devemos nos comportar assim em assuntos monetários.

Na próxima 4ª feira de noite (29 de julho) começa Tishá be Av, um dia de luto e muita tristeza para o povo judeu, no qual não comemos nem bebemos por causa da tristeza e desolação que sentimos. É o dia em que revivemos as destruições dos dois Beit-Hamikdash (Templos Sagrados) e várias outras tragédias que recaíram sobre o povo judeu nesta data. E o principal causador de todo este luto e tristeza foram transgressões entre o homem e seu semelhante, principalmente o descaso com o próximo. O conserto é exatamente se importar mais com os outros. E nesta área em que tantos tropeçam com facilidade, podemos dar a nossa contribuição e ser um pouco mais rigorosos com o dinheiro do próximo, ser mais responsáveis com objetos emprestados e objetos que não temos permissão de utilizar. Ao invés de buscar leniências, devemos buscar rigorosidades, pois nos ensina a Torá: "Que o dinheiro do seu companheiro seja tão querido para você quanto o seu próprio dinheiro".

O Talmud ensina que aquele que se afasta do roubo tem méritos para si e para todos os seus descendentes até o final dos tempos. Que possamos nos esforçar um pouco mais para que já nesta Tishá Be Av o dia de tristeza se transforme em um dia de muitas alegrias com a pronta vinda do Mashiach.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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