sexta-feira, 14 de agosto de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ REÊ 5769

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TAPAS PARA EDUCAR, NÃO PARA MACHUCAR - PARASHÁ REÊ 5769 (14 de agosto de 2009)

"Havia um homem muito rico que era dono de um imenso pomar, de onde emanava um cheiro delicioso. No centro do pomar o homem construiu uma bela casa, para que pudesse desfrutar daquela linda vista e cuidar do pomar. Para que ninguém estragasse nada, o homem cercou todo o pomar com um muro bem alto.

Certo dia o homem voltou para casa e percebeu que havia um pequeno buraco no muro. Procurou no pomar e viu um homem que roubava frutas e colocava em uma sacola. O dono do pomar poderia ter chamado a atenção do homem, mas decidiu não fazer nada, afinal, não era algo tão grave assim pegar algumas frutas do pomar dos outros.

Mais alguns dias se passaram e o homem percebeu que o buraco estava maior. Quando procurou o ladrão de frutas, desta vez viu que ele não roubava apenas as frutas individualmente, mas arrancava galhos inteiros para levar mais frutas de uma só vez. Novamente o dono do pomar achou que não valia a pena brigar por causa disso e deixou que o ladrão levasse as frutas.

Na semana seguinte, o dono do pomar percebeu que a pequena abertura havia se transformado em um portão. Foi quando viu, horrorizado, que o ladrão já não roubava apenas frutas ou galhos das árvores. Com um machado na mão, ele derrubava as árvores inteiras e as levava embora. Isso o dono do pomar não podia aguentar. Chamou a polícia, que chegou rapidamente e pegou o homem em flagrante. O homem apanhou muito dos policiais e ficou todo machucado.

Vendo aquela cena, um grande remorso tomou conta do dono do pomar. Por não ter feito nada quando o ladrão começou com pequenos delitos, ele havia contribuído para que ele chegasse a níveis cada vez piores. Se desde a primeira vez ele tivesse brigado com o homem, nada disso teria acontecido"

Ensina o Chafetz Chaim que quando uma pessoa começa a se desviar do caminho correto, a tendência é que ela se desvie cada vez mais. Para nos ajudar a não se desviar, D'us nos "cercou" com as Mitzvót. Mas muitas vezes abrimos "buracos no muro", isto é, transgredimos as Mitzvót. Então D'us precisa nos mandar castigos, para nos ajudar a voltar aos caminhos corretos, evitando que continuemos a abrir buracos cada vez maiores no muro, o que poderia comprometer o nosso futuro.
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A Parashá desta semana, Reê, começa com um aviso de D'us: "Veja, Eu coloco hoje diante de vocês a Brachá (benção) e a Klalá (maldição)" (Devarim 11:26). D'us está nos advertido sobre as duas possibilidades que temos na vida, de cumprir as Mitzvót que Ele nos entregou ou transgredi-las, e as consequências de cada uma das escolhas. Porém, observando detalhadamente este versículo, surge uma pergunta: por que está escrito "a Brachá e a Klalá" e não "a Brachá ou a Klalá"? Como podem estar as duas coisas juntas?

Estamos acostumados a recompensar as boas ações e castigar as más ações. Mas não estamos acostumados a recompensar alguém por não ter feito o mal ou a castigar alguém por não ter feito o bem. Em outras palavras, castigamos um ladrão por ter cometido um roubo, mas não recompensamos uma pessoa por ela ter deixado de roubar algo que ela desejava. Recompensamos uma pessoa por ter nos ajudado a limpar nossa casa, mas não a castigamos se ela não quiser ajudar. Portanto, em um mesmo ato não há como juntar a Brachá e a Klalá, elas não se aplicam juntas à mesma situação.

Porém, observarmos na Torá que não é assim que D'us se comporta. Vemos na Torá que a Brachá e a Klalá podem sim estar juntas. Por exemplo, existe uma grave proibição de consumir o sangue dos animais, como está escrito "E qualquer homem da Casa de Israel ou peregrino que habitar entre eles e comer algum sangue, colocarei Minha ira sobre a pessoa que comer o sangue, a banirei de seu povo" (Vayikrá 17:10). Já na Parashá desta semana está escrito "Mas não comerás o sangue; o derramarás na terra, como água… Não o comas, para que esteja bem contigo e teus filhos depois de ti..." (Devarim 12:16,25). Por um lado, comer sangue é uma grave transgressão com um terrível castigo, por outro lado aquele que evita de comer sangue é recompensado por isso. Explica Rashi, comentarista da Torá, que se a recompensa se aplica a deixar de comer sangue, que é algo repugnante, mais ainda se aplica a coisas proibidas pelas quais a pessoa sente um forte desejo mas consegue deixar de fazer. E é isto que o primeiro versículo da Parashá nos ensina, que de acordo com as regras que D'us criou para o mundo, é possível que a mesma Mitzvá traga Brachá ou Klalá. Mas por que esta diferença entre o comportamento dos seres humanos, onde não vemos a Brachá e a Klalá juntas, e o comportamento de D'us, onde sim é possível que a Brachá e a Klalá estejam juntas?

Ensina o Rav Yitzchak Blazer que para entender, precisamos antes diferenciar entre dois tipos de castigo e recompensa. Existe um castigo e recompensa que está ligado com o passado, e há um castigo e recompensa ligado com o futuro. Por exemplo, quando uma pessoa encontra dentro de sua casa um ladrão ameaçando sua família, ele golpeia o ladrão sem piedade, e com certeza estes golpes não têm nenhuma intenção de educar e endireitar os caminhos futuros do ladrão. Toda a motivação dos golpes é uma vingança pelo ladrão ter
entrado na casa para roubar e machucar sua família. O mesmo acontece com a recompensa que uma pessoa dá ao seu companheiro por um serviço prestado, ele paga por um ato passado. Quando nos focamos no passado, somente há Brachá se a pessoa fez algo bom e Klalá se a pessoa fez algo ruim, os dois não andam juntos.

Já o castigo e a recompensa que são voltados para o futuro são diferentes. É o que acontece no relacionamento entre um pai e um filho. Por exemplo, quando um filho pequeno tenta atravessar a rua sozinho, colocando em risco sua vida, seu pai lhe dá uma boa surra. A surra não é uma vingança contra o ato que o filho cometeu, afinal, é apenas uma pequena criança ainda sem discernimento de certo e errado. Toda a intenção do pai ao aplicar sofrimentos ao seu filho é direcionada para o futuro, para criar nele o medo de atravessar a rua sem cuidado, protegendo assim a sua vida. Também quando o pai dá ao filho presentes, não o faz como um pagamento de algo que ele fez no passado, e sim como um incentivo para que ele continue andando nos caminhos corretos. Quando pensamos no futuro, existe Brachá por fazer o certo e castigo por deixar de fazer o certo, existe castigo por fazer o incorreto e Brachá por deixar de fazer o incorreto.

Da mesma forma que o pai se comporta com seu filho pensando no seu bem futuro, assim também D'us, o nosso Pai, se comporta conosco, os Seus filhos. Os castigos e recompensas de D'us não são um pagamento por coisas que aconteceram no passado, são um incentivo para o nosso futuro crescimento espiritual. Nos ensina o Midrash (parte da Torá Oral) que D'us não mandou as Brachót e as Klalót para o nosso mal, e sim para nos ensinar qual é o caminho bom, para que o escolhamos e possamos receber nossa recompensa. D'us se preocupa com o nosso futuro, com a nossa eternidade, e Ele quer mais do que nós que tenhamos prazeres eternos no Olam Habá, pois Ele criou o mundo com este objetivo. Portanto, todos os sofrimentos que Ele nos manda são por amor, para nos despertar, para nos ajudar a voltar ao caminho correto, nos ajudando a meritar a nossa vida eterna.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ EKEV 5769

BS"D
SE IMPORTAR COM O PRÓXIMO - PARASHÁ EKEV 5769 (07 de agosto de 2009)

"O Rav Ytzchak Elchanan Spector era o rabino da cidade de Kovno, na Lituânia, que na época estava sob o domínio da Rússia. De acordo com as leis russas, todos os jovens estavam obrigados a se alistar no exército. Para os judeus esta lei era muito dura, pois além do constante risco de perder a vida em uma batalha, era praticamente impossível continuar cumprindo as Mitzvót no exército russo. Portanto muitos jovens judeus apresentavam ao governo russo um pedido de dispensa do serviço militar.

Yaacov era um jovem aluno, muito querido pelo Rav Ytzchak Elchanan, e quando chegou na idade de alistamento, viajou para enviar ao governo russo seu pedido de dispensa do exército. Todos os dias o Rav Ytzhak Elchanan esperava, com o coração na mão, notícias do seu aluno querido, mas as novidades não chegavam, deixando o rabino angustiado. Certo dia ele estava muitas horas julgando um caso difícil no Beit Din (Tribunal Rabínico). Os litigantes eram dois homens de negócio muito ricos que disputavam ferozmente uma quantia enorme de dinheiro. O ambiente estava muito tenso, pois nenhum dos dois lados aceitava nenhum tipo de acordo, e por muitas horas os juízes se esforçavam, mas não conseguiam encontrar uma solução para o problema. De repente, a porta do Beit Din se abriu e um jovem rapaz, aluno do Rav Ytzchak Elchanan, entrou na sala. Quando viu o rabino, falou com emoção:

- Rabino, trago boas notícias. O Yaacov foi dispensado do exército!

O Rav Ytchak Elchanan deu um longo suspiro de alívio e disse ao seu aluno, com um grande sorriso:

- Que D'us te abençoe por você ter me trazido notícias tão boas. Muito obrigado por ter vindo até aqui me contar. Que D'us te dê uma vida longa e com muita saúde. Eu te agradeço muito.

O jovem saiu da sala com um grande sorriso, feliz por ter alegrado seu rabino. O rabino então voltou para o difícil julgamento. Estavam tentando uma nova maneira de resolver o caso quando, alguns minutos depois, um outro aluno abriu a porta do Beit Din. Sem saber que seu colega já havia dado a notícia, ele correu até o rabino e contou que o Yaacov havia sido dispensado do exército. O Rav Ytzchak Elchanan sorriu como se não houvesse ainda escutado a notícia e falou:

- Muito obrigado. Que D'us te abençoe com muitos anos de vida e uma boa saúde. Eu te agradeço muito pela boa notícia.

O segundo jovem saiu de lá sorrindo, contente por ter alegrado seu rabino. No total, 6 alunos do Rav Ytchak Elchanan entraram naquela tarde no Beit Din para dar a mesma notícia de que seu aluno havia sido dispensado. O mais incrível é que nenhum dos alunos nunca soube que outros já haviam chegado antes com a notícia. Para cada um deles o Rav Ytchak Elchanan sorriu, agradeceu e abençoou o aluno da mesma maneira e com o mesmo entusiasmo, fazendo-os sentir importantes. E tudo isso ocorreu enquanto o Rav Ytzchak Elchanan estava imerso em um julgamento tenso e difícil".

Se nós estivéssemos ali, certamente teríamos dito aos outros alunos "já sei". Isto mostra como são especiais os grandes de Torá, que se esforçam não apenas nos seus estudos, mas também em amar e se preocupar de verdade com o próximo.
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Na Parashá desta semana, Ekev, Moshé continuou seu discurso final para o povo judeu, encorajando-os a ter Emuná (fé) em D'us, para que tivessem sucesso na conquista da Terra de Israel, e a abominar qualquer forma de idolatria. E se prestarmos atenção há uma expressão que se repete 3 vezes na Parashá, "andar nos Seus caminho". A primeira vez está escrito: "Vocês devem observar os mandamentos de Hashem, teu D'us, para andar nos Seus caminhos e temê-Lo" (Devarim 8:6). A segunda vez está escrito: "e agora, Israel, o que D'us pede de vocês? para que temam a Ele, andem nos Seus caminhos e O amem..." (Devarim 10:12). Na terceira vez está escrito: "E você vai cumprir toda esta Mitzvá que Eu comando para vocês, para cumpri-la, para amar a Hashem, teu D'us, para andar nos Seus caminhos e para se conectar a Ele" (Devarim 11:22). Surgem então duas perguntas: o que significa "andar nos Seus caminhos"? E por que a Parashá traz esta expressão 3 vezes, relacionada com os conceitos de temor, amor e conexão com D'us?

Explica o famoso rabino Chafetz Chaim que existem 3 níveis no nosso trabalho espiritual: o temor a D'us é o primeiro nível, depois vem o amor a D'us e finalmente vem a conexão com D'us, quando a pessoa coloca o amor a D'us de maneira constante em seu coração. Os 3 versículos fazem alusão ao crescimento espiritual de um nível para o outro, começando com temor, depois a transição entre temor e amor, e finalmente a transição entre amor e conexão com D'us. Mas o que significa "andar no Seu caminho"? Da mesma forma que D'us é misericordioso conosco, nós também devemos ser misericordiosos com os outros. Da mesma forma que D'us nos manda bondades sem esperar nada em troca, assim também nós devemos ajudar aos outros sem esperar nada em troca. Da mesma forma que D'us constantemente nos faz Chessed (bondades), assim também devemos estar sempre procurando oportunidades de fazer Chessed com os outros. A Torá está ressaltando que uma das principais partes do nosso crescimento espiritual é o cuidado e a preocupação com o nosso semelhante. Mas por que este ensinamento aparece 3 vezes, um para cada nível de trabalho espiritual?

O primeiro versículo, "para andar nos Seus caminhos e temê-Lo", nos ensina que para iniciar o nosso crescimento espiritual necessitamos nos preocupar com o próximo. Mas poderíamos pensar que apenas para atingir um primeiro nível espiritual é necessário trabalhar nossas características em relação ao próximo, mas quando já somos tementes a D'us, talvez o resto do trabalho seja só entre nós e D'us. Para isso vem o segundo versículo, "Para que temam a Ele, andem nos Seus caminhos e O amem", mostrando que o caminho de crescimento do temor para o amor a D'us também necessita vir junto de crescimento na área do homem com seu semelhante. E finalmente poderíamos pensar que depois de chegar ao amor a D'us, todo nosso crescimento espiritual deve ser voltado ao nosso trabalho com o Criador, e para isso vem o terceiro versículo, "para amar a Hashem, teu D'us, para andar nos Seus caminhos e para se conectar a Ele", nos ensinando que para chegar ao máximo nível espiritual, quando definitivamente nos conectamos com D'us, é necessário trabalhar ainda mais em relação ao nosso semelhante.

E assim nos ensina o Pirkei Avót: "sem bons modos não há Torá, e sem a Torá não há bons modos". Mas então por onde começar? Explicam nossos sábios que existem dois níveis de bons modos, um inicial, que é um mínimo que a pessoa precisa ter para ser chamado de ser humano. Sem este primeiro nível de respeito ao próximo não existe forma de crescer espiritualmente. E o segundo nível é quando a pessoa se dedica ao estudo e ao cumprimento da Torá e vai refinando o seu caráter, aprendendo cada vez mais a respeitar e a se preocupar com o próximo. É o nível que conseguem chegar grandes estudiosos da Torá, que muitas vezes se preocupam mais com os outros do que com si mesmos.

Muitas vezes pensamos que espiritualidade é a pessoa ficar meditando de cabeça para baixo, flutuando ou fazendo voto de silêncio. A Parashá nos ensina que o caminho para a espiritualidade verdadeira é outro. Para chegarmos a níveis de temor, amor e conexão com D'us, antes precisamos nos esforçar para amar ao próximo e a sentir as necessidades dos outros. Não há outro caminho.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 31 de julho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAETCHANAN 5769

BS"D

VIVER PARA QUE? - PARASHÁ VAETCHANAN 5769 (31 de julho de 2009)

"O Rav Avramski costumava contar sobre os anos de exílio que passou na Sibéria. Foram anos difíceis, de sofrimentos e humilhações diárias. Eram condições de vida terríveis, com trabalhos forçados pesados que quebravam o corpo, eram amargos como a morte. Muito morriam de doenças, de desgosto ou simplesmente porque desistiam de viver naquelas condições. Certo dia, o Rav Avramski acordou pela manhã e começou a recitar o "Modê ani" (um agradecimento por D'us ter nos devolvido a nossa alma, nos dando a oportunidade de mais um dia de vida). Mas de repente começou a se questionar:

- Por que eu estou agradecendo por mais um dia de vida? Que vida eu terei aqui hoje? Mais um dia de pancadas, sofrimentos e humilhações! Se pelo menos eu tivesse oportunidade de estudar Torá ou cumprir Mitzvót, valeria a pena os sofrimentos. Mas nem isso eu consigo, então por que estou recitando o "Modê Ani"?

Mas mesmo com tantos questionamentos, o Rav Avramski conta que continuou a recitar o "Modê Ani", até que chegou às palavras finais, e elas lhe trouxeram um grande consolo: "Raba Emunatecha" (grande é a minha crença em Você). Foi então que ele começou a pensar:

- É verdade que eles tiraram a minha Torá e as minhas Mitzvót. É verdade que eu recebo diariamente pancadas e humilhações. Mas a minha crença em D'us eles não podem tirar de mim. E por esta crença vale a pena levantar e viver mais este dia de vida.

E com esta força e determinação o Rav Avramski conseguiu levantar e suportar muitos anos difíceis na Sibéria"

Quando temos claridade e foco no nosso propósito, nossa vida muda completamente, e mesmo os sofrimentos mais difíceis podem ser superados se soubermos o porquê estamos aqui.
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Na Parashá desta semana, Vaetchanan, Moshé continuou seu discurso de despedida para o povo judeu. Ele relembrou que não poderia entrar em Israel junto com o povo por um erro que havia cometido no deserto. Apesar de ter suplicado muitas vezes para entrar em Israel, D'us não havia mudado de idéia, e havia inclusive pedido para que Moshé parasse de pedir. A Guemátria (soma do valor numérico das letras em hebraico) da palavra "Vaetchanan" (e suplicou) é 515, o número de vezes que Moshé suplicou para que D'us o deixasse entrar com o povo em Israel. Daqui surgem duas perguntas: sabemos que D'us é misericordioso e sempre escuta nossas súplicas, então por que aparentemente não escutou o pedido de Moshé? E fora isso, por mais que todo judeu sonha em passear em Israel, experimentar um Falafel e flutuar no Mar Morto, certamente estas não eram as motivações de Moshé. Por que ele suplicou tantas vezes para poder entrar em Israel?

Explicam os nossos sábios que Moshé estava em um nível tão elevado que, se entrasse em Israel, imediatamente o Beit Hamikdash (Templo Sagrado) seria construído, e seria tão sagrado que não poderia ser destruído nunca mais. Porém, quando Moshé bateu na pedra ao invés de pedir para que ela desse água ao povo, ele perdeu a oportunidade de fazer o povo judeu se elevar espiritualmente. Se o povo tivesse visto o poder de D'us de fazer sair água de uma pedra no meio do deserto através do simples pronunciamento de palavras, teria aumentado sua fé e teria chegado a um nível espiritual muito alto, compatível com o nível de Moshé e do Beit Hamikdash eterno. Mas o povo não se elevou, e neste nível mais baixo eles entraram em Israel. Quando o povo judeu cometeu transgressões, a fúria de D'us foi despejada nas pedras e madeiras do Beit Hamikdash, para que o Beit Hamikdash fosse destruído mas o povo judeu fosse poupado. Mas se fosse construído um Beit Hamikdash definitivo, quando o povo cometesse pecados (por estar naquele nível espiritual mais baixo) não haveria como desviar a fúria de D'us para o Beit Hamikdash e o povo judeu seria destruído. Portanto D'us escutou as súplicas de Moshé, mas por uma grande bondade com o povo judeu Ele não permitiu que Moshé entrasse na terra de Israel. Mas afinal, por que Moshé queria tanto entrar?

Quando observamos os Tzadikim (justos) da Torá, vemos que eles têm algo em comum: tudo o que eles fazem é com "Zrizut" (agilidade). Por exemplo, quando Avraham Avinu recebeu a visita dos anjos disfarçados de beduínos, ele preparou tudo correndo, querendo aproveitar cada segundo. Por que? Pois é muito grande a diferença entre uma pessoa que sabe sentir a perda de uma Mitzvá e uma pessoa que não sabe sentir. Avraham corria pois sabia que nos segundos que sobrariam ele podia fazer mais uma Mitzvá, ele sabia claramente que não há nenhum segundo sobrando, ele sabia que cada Mitzvá vale eternidade. Nós, ao contrário, fazemos as coisas com calma, deixamos para amanhã o que poderíamos ter feito hoje, não temos muita pressa, pois não sentimos a perda de uma Mitzvá, não sabemos quanto vale cada segundo neste mundo.

A mesma preocupação com as Mitzvót nós observamos em Moshé. Cada instante da sua vida foi vivida para o estudo da Torá e o cumprimento das Mitzvót, ele não desperdiçou nenhum segundo. Mas ele sabia que muitas das Mitzvót somente podiam ser cumpridas em Israel, e foi por isso que ele implorou para entrar, pela oportunidade de poder cumprir mais e mais Mitzvót. Sua preocupação não era com o turismo em Israel, era com as Mitzvót a mais que poderia cumprir, com a eternidade que ele poderia ganhar.

Existe uma diferença muito grande entre as pessoas que consideram este mundo o objetivo da vida e aquelas que sabem que este mundo é apenas um caminho para a vida verdadeira no Mundo Vindouro. As pessoas que pensam que esta vida é o principal estão dispostas a tudo para atingir seus desejos e obter prazeres. Mas qual a prova de que estas pessoas não dão valor para cada segundo? O grande número de pessoas que, por não conseguir atingir seus objetivos materiais, se suicidam e desperdiçam toda a vida que teriam pela frente. Esta é a consequência de não saber o valor verdadeiro de cada dia, de cada hora, de cada segundo neste mundo. Muitas pessoas vão, quando tem algum tempinho livre, "matar tempo" no Shopping. A expressão é correta, pois estamos "matando o tempo", isto é, estamos cometendo um "suicídio espiritual" ao desperdiçar a oportunidade de ouro que recebemos que se chama tempo.

Já as pessoas que tem claridade do objetivo da vida sabem apreciar cada segundo, sabem que não há tempo sobrando, estamos no meio de uma construção espiritual. Isso nos ajuda a superar dificuldades e a vencer desafios na vida. Os Tzadikim sabem que cada Mitzvá que nos falta é como se fosse uma parte do corpo que está faltando e, portanto, eles valorizam cada oportunidade. Eles não abririam mão de nem mesmo um segundo na vida, pois eles sabem para que estão vivendo.

Moshé sabia o valor de cada Mitzvá. Ele sabia que o que fazemos neste mundo fica guardado para a vida eterna, para o Mundo vindouro. Ele sabia que mesmo com os sofrimentos e as dificuldades a vida vale a pena, pois o que estamos ganhando neste mundo, o nosso crescimento espiritual, ninguém pode tirar de nós. Será que nós também temos claridade do nosso objetivo na vida? Aproveitamos nosso tempo para construir nossa eternidade ou "matamos o tempo" sem nenhum objetivo? O tempo não para, cada segundo passa e não volta nunca mais.

Que possamos aproveitar a vida para construir nossa eternidade.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 23 de julho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ DEVARIM 5769

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LADRÃO, EU? - PARASHÁ DEVARIM 5769 (24 de julho de 2009)

"O Rav Isroel Salanter certa vez foi visitar o Sr. Fitzgerald (nome fictício), um homem muito rico que ajudava muito as Yeshivót. O Sr. Fitzgerald tinha em cima de sua escrivaninha uma grande quantidade de dinheiro e estava no meio das contas quando o Rav Salanter entrou. Imediatamente ele parou de contar o dinheiro e se levantou em respeito ao grande rabino. Começaram a falar e, quando estavam no meio da conversa, um funcionário do Sr. Fitzgerald entrou na sala apressado, disse algumas palavras no ouvido dele e saiu apressado. O Sr. Fitzgerald se desculpou, dizendo que precisava se ausentar por alguns minutos, mas que o Rav Salanter podia esperá-lo sentado na sala.

Alguns minutos se passaram e o Sr. Fitzgerald voltou para a sala. Para sua surpresa, o Rav Salanter não estava mais lá. Procurou-o por toda a casa e não o encontrou. Finalmente um dos seus funcionários veio avisá-lo de que o Rav Salanter estava esperando-o do lado de fora. Quando o homem perguntou por que o Rav Salanter havia saído, ele respondeu:

- Você saiu da sala e deixou diante de mim uma grande quantidade de dinheiro não contado. Eu vim justamente aqui pedir dinheiro para a Yeshivá, senti que aquele dinheiro poderia se tornar para mim uma grande tentação. Segundo a Torá, é proibido se colocar em qualquer teste sem necessidade, e portanto eu preferi esperar aqui fora até que você voltasse para a sala"

O Rav Salanter seria certamente a última pessoa do planeta que roubaria um único centavo do dinheiro dos outros. Mas sua atitude mostra a rigorosidade com que ele lidava com o assunto. Nós, que somos muito menores espiritualmente, não somos tão rigorosos e muitas vezes nos colocamos em testes que não conseguimos passar.
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Nesta semana começamos o último livro da Torá, Devarim, no qual Moshé fez seu último discurso para o povo judeu e recordou muitos erros cometidos durante os 40 anos no deserto. E na Parashá desta semana, Devarim,um dos pontos que Moshé relembrou foi que D'us o havia colocado como juiz único do povo judeu, mas o povo preferiu que o trabalho fosse dividido entre outras pessoas. Aparentemente foi uma atitude bonita do povo, querendo tirar o peso das costas de Moshé, pois era difícil julgar todo o povo sozinho. Mas Moshé sutilmente relembrou o povo de que a real intenção deles era dividir o trabalho para facilitar a corrupção, já que todos sabiam que Moshé nunca receberia um suborno nem desviaria seus julgamentos por nenhum motivo, enquanto as outras pessoas não estavam em um nível assim tão elevado e seriam mais facilmente subornadas. E assim Moshé ressaltou aos juízes: "Não tenham medo de nenhum homem, pois o julgamento é de D'us" (Devarim 1:17), advertindo para que eles não se deixassem influenciar pelo medo de pessoas grande e importantes, o que também é uma forma de suborno. Mas o que significa que "o julgamento é de D'us"?

Rashi, comentarista da Torá, explica que toda vez que um juiz comete um erro no seu julgamento, é como se D'us dissesse "Com este dinheiro que você tirou de um e deu para o outro, você Me obriga a ter que intervir e fazer a justiça com as Minhas mãos". D'us não permite que uma injustiça prevaleça, então Ele tem outros meios para fazer com que aquele que foi roubado receba seu dinheiro e o que roubou perca o dinheiro roubado. Então por que é tão grave um juiz se corromper? Pois D'us tenta estar sempre oculto, para manter nossa livre escolha, e um erro de um juiz "força" D'us a "aparecer" mais na situação.

Mas há ainda um outro ponto interessante que aprendemos do comentário de Rashi: toda vez que uma pessoa engana outra em termos monetários, ela não está apenas cometendo uma transgressão com o próximo, ela está cometendo algo diretamente contra D'us. Temos a tendência de ser muito mais lenientes em assuntos que envolvam D'us diretamente do que em assuntos entre o homem e o seu semelhante. Em relação ao jejum de Yom Kipur, por exemplo, somos estritos no limite, mas em assuntos monetários muitas vezes buscamos opiniões lenientes e justificamos transgressões com "apoio" da lei judaica. Isto ocorre porque esquecemos que toda transgressão entre o homem e seu semelhante também envolve uma transgressão com D'us.

O Talmud afirma que a grande maioria das pessoas cai na transgressão do roubo. Mas como entender esta afirmação do Talmud? Não vemos pessoas em todas as esquinas roubando carteiras nem assaltando bancos! O Talmud está se referindo à formas mais sutis de roubo, muitas das quais as pessoas cometem sem perceber que estão roubando. Um exemplo clássico é não devolver objetos emprestados. Pegamos livros e nunca mais devolvemos, pedimos um CD para escutar e ele nunca mais volta para o dono. Parece algo comum, sem gravidade, mas é roubo. Obviamente que ninguém tem intenção de roubar, mas esta negligência vem do descaso com a propriedade dos outros, e a principal motivação do roubo é o descaso com o que é do outro. Outro exemplo é utilizar objetos dos outros sem pedir permissão, assumindo que o outro certamente nos deixaria utilizar se estivesse presente. Isto também é uma forma de roubo, pois alguns tipos de objetos precisam de permissão explícita para serem utilizados. E fora estes, poderíamos citar outras centenas de exemplos de situações nas quais roubamos sem saber.

Podemos tentar encontrar muitas razões para justificar nossas atitudes nos assuntos monetários, mas devemos nos lembrar que, em última instância, tudo o que um judeu faz deve estar baseado no que D'us nos ensinou no Monte Sinai. Temos um código de leis, que compreende milhares de situações. Temos grandes rabinos que podem nos orientar, baseados nos ensinamentos da Torá. Não temos nenhuma permissão de "achar" que coisas são permitidas. Da mesma forma que não comemos algo que "achamos" que é Kasher, também não devemos nos comportar assim em assuntos monetários.

Na próxima 4ª feira de noite (29 de julho) começa Tishá be Av, um dia de luto e muita tristeza para o povo judeu, no qual não comemos nem bebemos por causa da tristeza e desolação que sentimos. É o dia em que revivemos as destruições dos dois Beit-Hamikdash (Templos Sagrados) e várias outras tragédias que recaíram sobre o povo judeu nesta data. E o principal causador de todo este luto e tristeza foram transgressões entre o homem e seu semelhante, principalmente o descaso com o próximo. O conserto é exatamente se importar mais com os outros. E nesta área em que tantos tropeçam com facilidade, podemos dar a nossa contribuição e ser um pouco mais rigorosos com o dinheiro do próximo, ser mais responsáveis com objetos emprestados e objetos que não temos permissão de utilizar. Ao invés de buscar leniências, devemos buscar rigorosidades, pois nos ensina a Torá: "Que o dinheiro do seu companheiro seja tão querido para você quanto o seu próprio dinheiro".

O Talmud ensina que aquele que se afasta do roubo tem méritos para si e para todos os seus descendentes até o final dos tempos. Que possamos nos esforçar um pouco mais para que já nesta Tishá Be Av o dia de tristeza se transforme em um dia de muitas alegrias com a pronta vinda do Mashiach.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) de: Avraham ben Ytzchak, Joyce bat Ivonne, Feiga bat Guedalia, Chana bat Dov, Kalo (Korin) bat Sinyoru (Eugeni), Leica bat Rivka, Guershon Yossef ben Pinchas; Dovid ben Eliezer, Reizel bat Beile Zelde, Yossef ben Levi, Eliezer ben Mendel, Menachem Mendel ben Myriam, Ytzhak ben Avraham, Mordechai ben Schmuel, Feigue bat Ida, Sara bat Rachel, Perla bat Chana, Moshé (Maurício) ben Leon, Reizel bat Chaya Sarah Breindl; Hylel ben Shmuel; David ben Bentzion Dov, Yacov ben Dvora; Moussa ben Eliahou Cohen, Naum ben Tube (Tereza); Naum ben Usher Zelig; Laia bat Morkdka Nuchym; Rachel bat Lulu; Yaacov ben Zequie; Moshe Chaim ben Linda; Mordechai ben Avraham; Chaim ben Rachel; Beila bat Yacov; Itzchak ben Abe; Eliezer ben Arieh; Yaacov ben Sara, Mazal bat Dvóra.
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quinta-feira, 16 de julho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT MATOT E MASSEI 5769

BS"D

ACERTANDO O JULGAMENTO - PARASHIOT MATOT e MASSEI 5769 (17 de julho de 2009)

"Certa vez duas pessoas vieram ao Beit Din (Tribunal Rabínico) dizendo que tinham algo muito grave para testemunhar. Eles haviam passado em pleno Yom Kipur pela casa do Rav Bunim MiParshischa, um Tzadik (Justo) muito grande, e haviam visto ele comendo bolo e tomando um copo de café. E todos na cidade sabiam que ele não estava doente, a única situação na qual ele teria permissão de comer em Yom Kipur.

Os juízes do Beit Din ficaram chocados com a informação, e começaram a pensar no que fazer diante de uma acusação tão grave. Mas por conhecerem a reputação daquele homem tão santo, decidiram investigar bem o caso antes de tomar qualquer atitude.

Após algumas investigações eles descobriram que a nora do Rav Bunim havia dado a luz na véspera de Yom Kipur. O Rav Bunim, seguindo a lei judaica, informou que era proibido para ela jejuar, e portanto ela deveria comer e beber em Yom Kipur, mas ela se recusava. Após muita insistência, ela aceitou comer com a condição de que o próprio Rav Bunim trouxesse a comida (e como é proibido alguém alimentar outra pessoa em Yom Kipur a não ser que a outra pessoa tenha alguma isenção de acordo com a lei judaica, isto provaria que ela realmente podia comer). Ele aceitou prontamente, foi até a cozinha e trouxe um prato com bolo e um copo de café. Neste exato momento passaram as duas testemunhas e viram o Rav Bunim, em pleno Yom Kipur, tranquilamente carregando comida e bebida. Assim eles concluíram, de maneira precipitada, que ele estava preparando-se para sentar e desfrutar de um belo lanchinho em pleno Yom Kipur"

Todas as vezes que julgamos as pessoas para o bem não estamos apenas cumprindo um mandamento da Torá, estamos acertando o nosso julgamento.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Matot e Massei. Na Parashá Matot o povo judeu, por ordem de D'us, fez uma guerra de vingança contra o povo de Midian, que havia se aliado ao povo de Moav para tentar destruir o povo judeu. Esta guerra foi diferente, pois não houve proposta de paz nem aviso sobre o ataque, como ocorreu em todas as guerras anteriores, mostrando que D'us estava muito irritado com os Midianim. Por que esta guerra em especial foi diferente das outras? E por que a Torá não menciona nada sobre uma vingança contra o povo de Moav, que foram os primeiros a atacar o povo judeu?

Explica Rashi, comentarista da Torá, que existe uma diferença muito grande entre as motivações de Moav e de Midian quando eles resolveram entrar na guerra contra os judeus. O povo de Moav estava com muito medo, pois tinha acabado de ver a vitória esmagadora dos judeus contra outros povos e sabia que seria o próximo a ser atacado. Portanto a motivação deles era totalmente justificável, pois era por autodefesa. Já o povo de Midian não estava sendo ameaçado, e entrou na guerra sem nenhum motivo, apenas pelo ódio gratuito que sentiam pelo povo judeu. Então D'us ordenou contra eles uma guerra de vingança, para nos ensinar o quanto Ele despreza este sentimento chamado ódio gratuito.

Para entender a gravidade do ódio gratuito, a Torá nos ensina algo surpreendente. O primeiro Beit-Hamikdash (Templo Sagrado) foi destruído por causa de idolatria, derramamento de sangue e relações ilícitas, três transgressões terríveis, mas depois de 70 anos foi reconstruído. O segundo Beit-Hamikdash foi destruído por causa do ódio gratuito que havia entre as pessoas, aparentemente algo não tão grave, mas até hoje, mais de 2.000 anos depois, ainda não foi reconstruído. Qual a explicação? Quando a transgressão que fazemos é algo externo, como idolatria ou assassinato, é fácil perceber o erro e corrigir. Mas se o erro é algo interno, como o ódio gratuito, mesmo sendo algo muito grave aos olhos de D'us, não nos damos conta de sua gravidade e continuamos caindo no mesmo erro outra vez e outra vez.

Estamos nas 3 semanas de luto do povo judeu, período conhecido como "Bein Hametzarim", entre os dias 17 de Tamuz e 9 de Av, o dia da destruição dos dois Beit-Hamikdash. Por que temos que nos enlutar por algo que aconteceu há mais de 2.000 anos? Explicam os nossos sábios que cada geração em que o Beit-Hamikdash não foi reconstruído é como se esta geração o tivesse destruído. Por que o da primeira vez o Beit-Hamikdash foi reconstruído tão rápido? Pois as pessoas entenderam a gravidade de seus atos e fizeram Teshuvá (retorno aos caminhos corretos). Portanto, se tivéssemos consertado o erro de ódio gratuito, o Beit-Hamikdash já teria sido reconstruído. Como continuamos insistindo no mesmo erro, mesmo que o Beit-Hamikdash tivesse sido reconstruído, teria sido novamente destruído nos nossos dias.

Um dos principais motivos do ódio gratuito é não julgar as pessoas para o bem. Na maioria das vezes somos precipitados, rotulamos as pessoas pelos atos exteriores delas sem nunca ter conversado nem conhecido a pessoa de forma mais profunda. Somos sempre precipitados, achamos que o primeiro ponto de vista é sempre o correto, e somos teimosos em não querer mudar nossas opiniões. Com isso muitas vezes sentimos ódio por pessoas que, se conhecêssemos bem, teríamos sido grandes amigos. Pessoas que se matam em estádios de futebol poderiam ter saído juntos do estádio para tomar uma cerveja e bater um papo. Vizinhos se odeiam por causa de pequenos mal-entendidos que, se tivessem sido verificados, teriam economizado muita dor de cabeça. Mesmo muitos casamentos teriam melhor êxito se o marido e a esposa soubessem entender e julgar o outro para o bem.

O antídoto para o ódio gratuito é ir para o outro extremo, o amor gratuito, isto é, amar as pessoas sem esperar nada em troca. Amar as pessoas por serem seres humanos, por terem sido criadas à imagem e semelhança de D'us. Quando nós chegamos atrasados a um encontro esperamos que todos entendam que foi o trânsito ou outro imprevisto, mas quando os outros chegam atrasados, imediatamente imaginamos que foi por descaso.Temos que tentar não tomar decisões precipitadas, e da mesma forma que esperamos que os outros sempre nos julguem para o bem, assim devemos sempre dar ao outro o benefício da dúvida. Somente assim estaremos consertando o mundo e aproximando a vinda do Mashiach, quando finalmente teremos de volta o nosso Beit-Hamikdash reconstruído.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 9 de julho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ PINCHÁS 5769

BS"D

PENSANDO NOS OUTROS - PARASHÁ PINCHÁS 5769 (10 de julho de 2009)

"O Rav Eliezer Mann Shach, líder espiritual da Yeshivá de Ponovitch, foi um dos maiores rabinos da sua geração. Quando ele faleceu, há cerca de 8 anos atrás, participaram de seu enterro mais de 600 mil pessoas. Por que tanta gente? Pois o Rav Shach não era conhecido apenas pelo seu grande nível de estudo da Torá, mas principalmente pela sua preocupação com os outros. Praticamente ele não tinha vida particular, sua casa estava sempre aberta para quem necessitasse de um conselho ou de um direcionamento espiritual.

Uma das histórias que ressalta este lado do Rav Shach foi quando um rapaz jovem, que ainda não tinha filhos, foi pedir a ele uma Brachá (benção) para que sua esposa engravidasse. O casal estava há alguns anos tentando ter filhos mas não conseguiam. O Rav Shach anotou o nome do rapaz e disse que rezaria por ele.

Dez anos se passaram e o mesmo homem, que agora já tinha 3 filhos, foi ao Rav Shach pedir uma outra Brachá. Quando o homem falou o seu nome, o Rav Shach perguntou se ele tinha filhos. O homem disse que sim, surpreendendo o Rav Shach, que falou:

- Faz dez anos que eu rezo em todas as minhas Tefilót (rezas) para que você tenha um filho. Por que você não veio me avisar que já tinha conseguido?"

Durante dez anos, três vezes por dia, o Rav Shach incluiu em suas rezas uma pessoa que ele nem mesmo conhecia. Se importar com os outros é uma das principais características de um verdadeiro líder.
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Na Parashá desta semana, Pinchás, o povo começou a se aproximar da terra de Israel e D'us anunciou que a liderança de Moshé começava a chegar ao fim. Ao invés de pensar em si mesmo, Moshé pensou no povo e pediu para eles um bom líder. Entre as coisas que ele pediu a D'us, uma das principais era que o próximo líder fosse alguém que realmente se importasse com o povo. E assim ele pediu para D'us: "E que a congregação de D'us não seja como um rebanho que não tem para eles um pastor" (Bamidbar 27:17). Mas por que a Torá teve que se alongar e escrever "um rebanho que não tem para eles um pastor", ao invés de simplesmente escrever "um rebanho sem pastor"?

Explica o Maguid Mi Duvna que existem dois tipos de pastores de ovelhas, os que cuidam dos seus próprios rebanhos e os que cuidam gratuitamente dos rebanhos dos outros. A grande diferença é que o pastor que cuida das suas próprias ovelhas, mesmo que ele busque as melhores pastagens e águas límpidas, não é pelo bem do rebanho que ele faz, e sim por ele mesmo, pois esta é a sua profissão e assim ele ganha o seu sustento. Mas aquele que cuida gratuitamente das ovelhas dos outros, quando ele procura algo bom para as ovelhas, é pelo bem delas que ele se esforça.

Era com isso que Moshé se preocupava na escolha do seu sucessor. Ele sabia que o povo judeu não ficaria sem um líder, e sabia que não faltariam interessados em liderar o povo. A sua preocupação era com a intenção destas pessoas, se eles estariam buscando realmente o bem do povo ou se o interesse seria por sua própria promoção pessoal. É por isso que Moshé se alongou em suas palavras e pediu "para eles um pastor", isto é, para o bem deles, e não para o bem do novo líder. Pois um líder que não tem seus olhos voltados somente para o bem do povo não é um bom líder.

Esta diferença é muito marcante quando comparamos os líderes espirituais, desde Moshé até os grandes rabinos dos nossos dias, com os líderes políticos que governam hoje o mundo. Vemos como os políticos lutam para chegar ao poder, muitas vezes com discursos inflamados sobre os direitos do povo, mas quando finalmente sobem ao poder, demonstram que seus atos são todos voltados aos seus interesses particulares e aos interesses do seu partido político, ficando o povo em segundo plano.

Explica o Rav Eliahu Dessler, em seu livro Michtav MeEliahu, que existem duas forças espirituais no mundo, a "Koach Hanetiná" (Força de doação) e a "Koach Hanetilá" (Força de tomar o que é dos outros). Estas duas forças representam dois opostos, o altruísmo e o egoísmo. A "Koach Hanetiná" é a fonte de todas as coisas boas do mundo, enquanto a "Koach Hanetilá" é a fonte de todas as coisas ruins. Em todos os atos de nossas vidas utilizamos uma destas duas forças. Quando fazemos algo pelos outros, nos esforçando para buscar o bem das outras pessoas, então estamos utilizando a "Koach Hanetiná". Mas quando estamos sendo egoístas e pensando o que podemos ganhar com os outros, estamos utilizando a "Koach Hanetiná".

Portanto, a reflexão não deve ser apenas para os grandes líderes, mas para cada um de nós. Quando fazemos algo por outra pessoa, em quem estamos realmente pensando, no outro ou em nós mesmos? Estamos fazendo o melhor para o outro, ou fazemos as coisas apenas para parecer aos olhos de todos que somos Tzadikim (justos)? Será que muitos dos bons atos que fazemos em público também faríamos se ninguém estivesse olhando?

Resumindo, a pergunta que temos que fazer a nós mesmos é: nosso comportamento se assemelha mais aos grandes líderes espirituais da Torá, que doam parte de suas vidas ao bem estar dos outros, ou aos políticos, que somente pensam em si mesmos?

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 2 de julho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT CHUKAT E BALAK 5769

BS"D
DE POUCO EM POUCO - PARASHIOT CHUKAT E BALAK 5769 (03 de julho de 2009)

"Salomão era o dono de um pequeno hotel. Ele estava contente, pois o hotel estava sempre cheio, muitas vezes havia fila de espera e os negócios iam muito bem. Certo dia chegou um homem estranho e sentou-se no sofá do lobby de entrada. Não era um dos hóspedes, e também não pediu um quarto, simplesmente sentou-se ali, calado, e permaneceu assim por todo o dia. Em um primeiro impulso Salomão quis expulsar o homem dali, mas acabou deixou-o ficar, afinal, que mal ele fazia em ficar sentado no lobby do hotel? No dia seguinte o mesmo se repetiu, e também no outro dia, até que o homem se tornou parte do local, vindo todos os dias e permanecendo ali sentado no sofá.

Com o passar do tempo a presença dele se tornou tão constante que as pessoas começaram a pensar que ele era um funcionário do hotel, e muitos começaram a dar o pagamento das diárias diretamente a ele, ao invés de pagar ao dono do hotel. Quando Salomão fechava as contas no final do mês não entendia o que estava acontecendo, pois apesar do hotel estar sempre lotado, cada vez recebia menos dinheiro. Não sabia o que fazer, e viu a situação do hotel ficando cada vez mais difícil, enquanto aquele homem estranho ficava a cada dia mais rico.

Após alguns meses, com muitas dívidas, Salomão se viu obrigado a vender o hotel por um preço muito baixo. E aquele homem estranho foi o primeiro que apareceu, com o dinheiro na mão, para comprar o hotel e se tornar o proprietário"

Assim funciona o nosso Yetzer Hará, ele chega como quem não quer nada, nos envolve e, quando percebemos, já perdemos tudo.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Chukat e Balak. A Parashá Chukat descreve a esmagadora vitória do povo judeu contra os Amalekitas e contra os Emoritas. A Parashá Balak nos conta sobre o rei de Moav, Balak, que temeu muito o povo judeu ao escutar sobre suas devastadoras vitórias nas batalhas contra seus inimigos. Como Balak sabia que a vitória na batalha não dependia da força física e sim da força espiritual, contratou Bilaam, um homem que tinha grandes poderes espirituais, para amaldiçoar o povo judeu. No caminho, por três vezes D'us tentou impedir a ida de Bilaam, mandando um anjo com uma espada para interromper o caminho de sua mula. Da primeira vez em que o anjo apareceu, a mula estava em um lugar largo e conseguiu desviar para o lado. Da segunda vez em que o anjo apareceu já era um lugar um pouco estreito, e quando a mula tentou desviar, prensou o pé de Bilaam contra a parede. Finalmente da terceira vez em que o anjo apareceu o lugar era tão estreito que a mula não teve para onde desviar e parou. Bilaam ficou muito irritado com o comportamento da mula e começou a golpeá-la, até que D'us abriu seus olhos e ele também enxergou o anjo empunhando uma espada, e entendeu porque a mula havia desviado tantas vezes.

Ensina o livro Lekach Tov que os três diferentes lugares onde o anjo apareceu têm um significado mais profundo. Eles representam as três formas como nosso Yetzer Hará (má inclinação) trabalha para nos desviar do caminho correto. Da primeira vez ele aparece como quem não quer nada, nos incitando a cometer uma transgressão, mas nos deixando ainda bastante espaço para desviar e voltar atrás. Se caímos na primeira armadilha e transgredimos, da segunda vez em que o Yetzer Hará nos incita a cometer o mesmo pecado já é mais difícil voltar atrás, não há tanto espaço para voltar. E se caímos pela segunda vez, da terceira vez que o Yetzer Hará nos empurra praticamente não há como voltar mais.

O Talmud nos ensina a mesma idéia: "Quando uma pessoa comete três vezes o mesmo pecado, ele se torna como se fosse permitido". O que isto significa? Que depois da terceira vez que a pessoa comete a mesma transgressão, ela perde a sensibilidade, e a transgressão já não pesa mais tanto. Por isso a chance da pessoa voltar se torna muito mais difícil. É o que vemos em casos de pessoas como mafiosos ou nazistas, que na primeira vez em que mataram alguém se sentiram mal com isso, mas depois de muitas mortes já não se importavam.

Temos que refletir muito sobre estas três formas através das quais o Yetzer Hará nos ataca, para assim conseguir vencê-lo. Nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Uma transgressão traz outra transgressão", isto é, cada mau ato tem como consequência uma queda espiritual. E quando estamos espiritualmente mais baixos, estamos mais propensos a transgredir de novo. É um círculo vicioso, que vai ficando cada vez mais difícil de ser quebrado. O livro Messilat Yesharim (Caminho dos Justos) compara isso a um fio muito fino, que pode ser facilmente arrebentado. Mas se adicionarmos mais um fio e mais um fio, no final se torna uma corda tão grossa que não pode mais ser arrebentada.

Precisamos internalizar a idéia de que da primeira vez é mais fácil vencer o Yetzer, e que cada vez vai se tornando mais difícil. É muito importante colocar toda nossa força logo quando sentimos a primeira vontade de fazer algo errado, para não cair em situações cada vez mais difíceis.

"Uma escada se sobe em degraus. Se não quer subir a escada toda, não comece a subir o primeiro degrau"

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 26 de junho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KORACH 5769

BS"D
ZOMBANDO DE QUEM? - PARASHÁ KORACH 5769 (26 de junho de 2009)

"Havia um lindo jardim onde crescia uma roseira carregada de rosas e, à sua sombra, vivia um caracol. Em redor do jardim cresciam avelãs e havia campos onde pastavam ovelhas e vacas. O caracol passava o dia zombando dos outros, e assim dizia para as rosas:

- Que medíocre a vida de vocês. Há de chegar a minha hora, e então eu farei mais do que dar rosas ou avelãs, muito mais do que dar leite como fazem as vacas e lã como fazem as ovelhas.

Um ano mais tarde, o caracol estendia-se ao sol quase no mesmo lugar onde estivera no ano anterior, sem que tivesse produzido nada naquele tempo, enquanto a roseira se ocupava em criar novos botões e a manter todas as pétalas frescas e bonitas. Novamente o caracol atacou a roseira com sarcasmo:

- É por isso que você não faz nada melhor na vida. Você sempre teve uma vida demasiadamente fácil!

- É verdade - concordou a roseira - sempre tive tudo o que eu necessitava. Mas você teve ainda mais sorte do que eu. Você recebeu o dom do raciocínio, a capacidade de pensar e refletir sobre a vida. Certamente fará muito mais do que eu pelo mundo.

- Não, não, de modo nenhum - negou o caracol - O mundo não existe para mim. Que tenho eu a ver com ele? Já é suficiente que me ocupe comigo.

- Mas não deveríamos dar aos outros o melhor de nós mesmos? É verdade que só dou rosas, mas você, que é tão dotado, o que você faz pelo mundo?

O caracol não respondeu. A roseira continuou a florescer na sua inocência, enquanto o caracol dormia dentro da sua casa. O mundo nada significava para ele. Passaram os anos, o caracol voltou à terra, a rosa também. Mas no jardim brotavam novas roseiras, enquanto os novos caracóis arrastavam-se dentro das suas casas, passeando pelo mundo que nada significava para eles"

Esta é a lição para nossas vidas. Quando alguém tenta nos atingir, nos ridicularizando ou tentando diminuir nosso valor, é porque são apenas pessoas vazias tentando provar algo para si mesmas.
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A Parashá desta semana, Korach, nos descreve sobre uma rebelião que desafiou a liderança de Moshé e Aharon, mas que terminou em tragédia. Korach, primo de Moshé, achava que merecia um cargo de respeito dentro do povo judeu e, cegado pela inveja, começou a instigar, com calúnias e zombarias, o povo contra Moshé, alegando que a escolha de Aharon como Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) não era Divina e sim uma escolha pessoal de Moshé para beneficiar seu irmão. Duzentos e cinquenta homens do povo se juntaram a Korach na rebelião, e todos eles morreram queimados por um fogo que veio do céu. O povo, colocando em Moshé a culpa da morte daqueles homens, novamente reclamou e foi duramente castigado com uma praga, na qual morreram tragicamente milhares de pessoas. Finalmente D'us mandou um sinal para tirar qualquer dúvida de que a escolha de Aharon era Divina: o chefe de cada tribo colocou um bastão dentro do Mishkan (Templo Móvel), cada um com seu nome inscrito, e no dia seguinte milagrosamente o bastão de Aharon apareceu com uma flor e frutos.

Deste episódio ficam duas dúvidas. Os homens que decidiram seguir Korach eram pessoas inteligentes, então como foram convencidas a ir contra Moshé, o mesmo Moshé que os havia tirado do Egito com milagres abertos? Podemos entender Korach, que estava movido pela inveja, mas o que convenceu as outras pessoas a se juntarem em uma rebelião tão irracional? Além disso, se no final houve um sinal milagroso que convenceu a todos que Aharon realmente havia sido escolhido por D'us, por que o sinal não foi mandado logo que surgiu a dúvida, evitando a morte de milhares de pessoas?

Ensina o livro Lekach Tov que Korach sabia que racionalmente não conseguiria convencer ninguém a segui-lo em uma rebelião contra Moshé. Então o que ele fez? Aproveitou um momento de fraqueza do povo, quando todos estavam abalados pelo duro decreto de permanecer 40 anos vagando no deserto, e começou a ridicularizar algumas das Mitzvót, como por exemplo o Tzitzit e a Mezuzá, deixando a entender que os ensinamentos de Moshé tinham erros lógicos e, portanto, haviam sido inventados por ele e não entregues por D'us. Ele utilizou a força da "Leitzanut" (ridicularizar coisas sérias), que anestesia a pessoa, possibilitando que mesmo idéias irracionais sejam aceitas.

Ensinam o livro Messilat Yesharim (Caminho dos justos) que quando uma pessoa erra, tem duas maneiras de voltar ao caminho correto. A primeira maneira é o despertar interno, isto é, quando a pessoa se torna introspectiva e reflete sobre seus atos, encontrando a fonte dos seus erros e trabalhando para não voltar a errar mais. A outra maneira é o despertar externo, quando D'us precisa nos enviar sofrimentos que nos dão uma chacoalhada e nos tiram do nosso "sono" espiritual. A "Leitzanut" funciona como um óleo sobre o nosso coração, fazendo com que qualquer tentativa de reflexão "escorregue" e não penetre. Foi o que ocorreu quando o povo escutou Korach ridicularizando Moshé e as Mitzvót, o coração deles se fechou para qualquer entendimento racional e lógico das coisas. Por isso, não adiantaria fazer o milagre da vara de Aharon diante do povo, eles não receberiam a mensagem. Foi necessário que antes D'us mandasse uma praga, para sacudir o povo e tirá-los deste estado de anestesia.

Este ensinamento podemos utilizar para nossas vidas. Sempre quando somos confrontados por uma nova idéia, diferente do que nós pensamos, em geral a primeira atitude que temos é olhar de forma pejorativa, muitas vezes fazendo piadas e criando preconceitos contra esta nova idéia. Por que fazemos isso? Isto é uma defesa psicológica, pois assumir que estar errados causa um desconforto, uma certa sensação de inferioridade, e queremos fugir deste ataque à nossa auto-estima. Quando alguém não está seguro de si mesmo, ridiculariza as coisas que o ameaçam. Isto torna ainda mais difícil para a pessoa fazer um julgamento racional e equilibrado, e leva o ser humano a tomar muitas vezes decisões completamente equivocadas.

Portanto, a lição que tiramos de Korach é não ridicularizar o que não conhecemos. Precisamos ser humildes e saber que, antes de fazer qualquer julgamento precipitado, é preciso questionar e refletir bastante na vida.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm