sexta-feira, 19 de setembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TAVÔ 5768

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CRIANDO RAÍZES - PARASHÁ KI TAVÔ 5768 (19 de setembro de 2008)

André era vizinho de Eduardo, um médico cujo "hobby" era plantar árvores no enorme quintal de sua casa. Às vezes, André observava da sua janela o esforço de Eduardo para plantar árvores e mais árvores, mas o que mais chamava a atenção de André era que, apesar de todos o trabalho, as árvores estavam demorando muito para crescer. Um certo dia resolveu aproximar-se do médico e perguntar qual era o problema daquelas árvores. O médico, com um ar orgulhoso, explicou sua "teoria":

- As árvores não têm nenhum problema, muito pelo contrário. Se eu regasse as plantas todos os dias, as plantas cresceriam mais rápido, mas as raízes se acomodariam na superfície e ficariam sempre esperando pela água mais fácil. Como eu não rego com tanta freqüência, as árvores demoram mais para crescer, mas suas raízes vão para o fundo, em busca da água e das várias fontes nutrientes encontradas nas camadas mais profundas. Com raízes mais largas e profundas, as árvores ficam mais resistentes às intempéries. Eu estou investindo nas raízes para garantir um futuro melhor para as árvores.

Pouco tempo depois André foi morar em outro país. Passados vários anos, retornou e teve curiosidade de visitar sua antiga residência. Ao aproximar-se, notou um bosque que não havia antes. Era um dia de vento muito forte e gelado, que chegava a dobrar as árvores da rua, e algumas não resistiam ao rigor do inverno. Entretanto, ao aproximar-se do quintal do médico, notou como estavam sólidas suas árvores, praticamente não se moviam, resistindo firmemente àquela ventania toda. Finalmente entendeu que o médico havia realizado seu sonho".

É inevitável que os ventos gelados e fortes nos atinjam na vida. Sempre haverá uma tempestade ocorrendo em algum momento. O que precisamos fazer é nos esforçar para conseguir desenvolver raízes fortes e profundas, de tal modo que, quando as tempestades chegarem e os ventos gelados soprarem, resistiremos bravamente, ao invés de sermos simplesmente varridos para longe.
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A Parashá desta semana, Ki Tavô, traz dois assuntos interessantes: a Mitzvá dos Bikurim, isto é, a oferenda das primícias (primeiros frutos de cada colheita), e as Brachót (bençãos) e Klalót (maldições) que Moshé apresentou ao povo judeu entes deles entrarem em Israel, condicionais ao comportamento deles em sua futura terra. E assim diz o versículo sobre a Mitzvá de Bikurim: "E vocês tomarão das primícias de todos os frutos do solo produzidos pela terra que D'us te dá, e as colocarão em um cesto, e irão ao lugar que D'us escolher" (Devarim 26:2).

Observando outras Mitzvót da Torá, percebemos que várias "primícias" devem ser dedicadas para D'us: a primeira tosa de lã, a primeira parte da massa de farinha, o primogênito dos animais e até mesmo os primogênitos humanos, que precisam ser redimidos. Afinal, por que a Torá ressalta tanto a importância das "primícias", ao invés de nos comandar a oferecer o melhor da nossa produção? E por que a Torá traz os assuntos de Bikurim e as Brachót e Klalót juntos?

Explica o Rav Zeev Leff que a importância das "primícias" é porque elas são as raízes e as fundações do que virá em seguida. As fundações de um edifício devem ser totalmente livre de imperfeições, e mesmo uma pequena trinca nas fundações pode comprometer toda a segurança de um edifício, enquanto a mesma trinca no quarto andar pode ser insignificante. Similarmente, em todas as coisas que possuem alguma santidade, é importante que o começo seja puro e sagrado, para que disto saia também pureza e santidade. Qualquer tipo de imperfeição nas fundações espirituais podem comprometer completamente todo o desenvolvimento futuro. Por isso nós dedicamos todas as nossas "primícias" para D'us, para estabelecer firmemente as fundações e raízes do que se seguirá.

Nossos sábios aprendem deste ensinamento a importância da educação das crianças, pois são nos primeiros anos de vida que elas começam a crias suas raízes e fundações espirituais, e a partir delas construirão todo o seu caráter. E é também por isso que a Torá junta o assunto dos Bikurim com o assunto das Brachót e Klalót, pois o povo judeu estava prestes a entrar na terra de Israel e logo iriam começar a construir as fundações espirituais da terra, então era muito importante que eles tivessem total consciência das suas obrigações, responsabilidades e conseqüências.

Daqui a pouco mais de uma semana será Rosh Hashaná, o marco inicial de um novo ano. A lei judaica nos ensina que nestes dias, principalmente entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, devemos ser um pouco mais rigorosos no cumprimento das Mitzvót, e se possível acrescentar algo ao que já vínhamos fazendo. À primeira vista isso é difícil de entender, pois de que adianta ser mais rigoroso apenas nestes dias e ser leniente durante todo o ano? Não é uma tentativa de enganar a D'us para parecermos mais Tzadikim e garantirmos um julgamento mais favorável?

Um juiz de carne e osso pode ser enganado, mas não D'us, que pode ver não somente os nossos atos, mas também os nossos corações. Então por que nestes dias nos comportamos de forma diferente? Pois os dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur não são apenas o começo de um ano novo, são as fundações e as raízes do ano inteiro. Estes dias deve ser tratado com "primícias", e devemos nos comportar com mais santidade e pureza. Portanto nos esforçamos mais, estudamos mais, rezamos com mais Cavaná (intenção) e acrescentamos Mitzvót nas nossas vidas, não para mostrar ou enganar, e sim para construir fundações sagradas para o ano inteiro. E mesmo se durante o ano não pudermos manter a mesma qualidade dos "materiais de construção", boas fundações podem garantir a estabilidade de todo o prédio.

Ninguém ganha uma corrida sem preparo e treino. Ninguém se torna um grande profissional sem esforço e estudo. Não podemos mudar do dia para a noite. Os dias de Elul são dias de preparação, dias de esforço, quando podemos acrescentar pequenas coisas em nossas vidas. Podem aparentemente parecer pouco, mas podem fazer uma grande diferença no nosso novo ano.

"Sheticatev Vetechatem Bessefer Chaim Tovim" (Que sejamos inscritos e selados no Livro da Vida).

SHABAT SHALOM

Rav Efraim

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TETZE 5768

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SE IMPORTANDO COM OS OUTROS - PARASHÁ KI TETZE 5768 (12 de setembro de 2008)

"O Rav Moshe Feinstein, um dos maiores rabinos dos Estados Unidos na geração passada, foi ao Bar-Mitzvá do filho de um antigo aluno da Yeshivá. No final da festa, o aluno, muito lisongeado com a presença do ilustre rabino, insistiu em acompanhá-lo até a porta. Parou um táxi, ajudou o rabino a se acomodar e fechou a porta do táxi.

Quando o táxi já havia andado mais de uma quadra, o Rav Moshe Feinstein pediu para que o taxista parasse o carro e abrisse a porta. O motorista estranhou o pedido, principalmente quando viu pelo espelho que o rabino estava bastante pálido. Quando ele finalmente abriu a porta, viu que a mão do rabino havia ficado presa, e seus dedos estavam bastante roxos. Surpreso, o motorista perguntou ao Rav Moshe Feinstein porque ele não havia gritado imediatamente quando fechou a porta na mão. O rabino explicou:

- Na verdade quem fechou a porta do táxi foi o meu aluno. Se eu tivesse gritado, imagine a vergonha e a tristeza que eu teria causado a ele! Eu preferi aguentar a dor e não causar esse desconforto, principalmente no dia do Bar-Mitzvá do filho dele"

A verdadeira grandeza de uma pessoa pode ser vista na maneira como ela se importa com os outros.
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O judaísmo não é uma religião proselitista, mas aceita a conversão de pessoas motivadas pelo desejo sincero de cumprir a Torá. A conversão não é apenas um ritual, é uma mudança espiritual, e portanto deve ser feita de maneira séria. Apesar de qualquer pessoa ser bem-vinda ao judaísmo, a Parashá desta semana, Ki Tetze, traz duas exceções, dois povos que nunca serão aceitos dentro do povo judeu: os Amonitas (pessoas do povo de Amon) e os Moabitas (pessoas do povo de Moav). Mas o que eles fizeram de tão grave? A Torá nos relata dois motivos: "Um Amonita e um Moabita não devem entrar na congregação de D'us... pelo fato de que eles não te receberam com pão e água no caminho, quando vocês estavam saindo do Egito, e pelo fato deles terem contratado Bilam filho de Beor, de Petor, Aram Naharaim, para amaldiçoar vocês" (Devarim 23:4,5).

Analizando de forma mais profunda os dois motivos, surge uma pergunta. O primeiro motivo foi o egoísmo e a falta de sensibilidade, enquanto o segundo motivo foi a tentativa de exterminar o povo judeu inteiro através da maldição de Bilam. Por que a Torá precisou ensinar os dois motivos? Afinal, o segundo motivo é tão grave que o primeiro motivo não precisaria nem ter sido mencionado!

Nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Se não fosse pelo medo das autoridades, um pessoa engoliria seu companheiro vivo". Mas como é possível o ser humano chegar neste nível de crueldade? Como alguém poderia engolir outra pessoa viva, mesmo escutando seus gritos e pedidos de misericórdia? Explica o Rav Ierucham que o ser humano realmente não é assim tão ruim. Mas o ser humano é tão egoísta, tão centrado nos seus desejos e vontades, que muitas vezes não consegue nem mesmo escutar ou ver os outros. Se escutassem os outros, certamente não poderiam engoli-los vivos. O problema é que não escutamos.

É por isso que a Torá traz como primeiro motivo o fato dos Amonitas e Moabitas não terem trazido pão e água, pois quando alguém vê uma pessoa necessitada e não lhe oferece nem ao menos pão e água, é sinal que ele já não consegue mais enxergar o outro. E somente aquele que não enxerga o próximo pode chegar ao nível desumano de querer exterminar um povo inteiro. O primeiro motivo não é apenas grave, ele é a raiz e a causa do segundo motivo.

Este precioso ensinamento vale também para nossas vidas. Será que nós enxergamos o próximo? Será que realmente nos preocupamos com o que os outros realmente necessitam? Quando damos um real de esmola na rua para um pobre, muitas vezes não queremos resolver o problema do pobre, e sim o nosso próprio problema, pois vendo a necessidade do pobre nos sentimos um pouco desconfortáveis, e dando um real nos sentimos muito melhor. Mesmo que talvez aquele dinheiro não era o que ele necessitava, talvez o que o pobre precisava era de um sorriso, de um consolo, de um incentivo. O Talmud nos ensina que alguém que dá uma esmola a um pobre recebe 6 Brachót (bençãos), enquanto que aquele que dá um sorriso e o consola recebe 11 Brachót. Somos descendentes de Avraham, que dedicou a sua vida a se preocupar com o próximo. Nós temos a herança espiritual, nós temos o potencial, mas que precisa ser trabalhado e desenvolvido.

Falta pouco mais de 2 semanas para Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento. D'us nos julga Midá Kenegued Midá (medida por medida). Quanto mais nos importarmos com os outros e sentirmos suas necessidades, mais D'us se importará conosco e terá misericórdia no nosso julgamento.

"Sheticatev Vetechatem Bessefer Chaim Tovim" (Que sejamos inscritos e selados no Livro da Vida).

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm


sexta-feira, 5 de setembro de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ SHOFTIM 5768

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APRECIE O QUE VOCÊ TEM – PARASHÁ SHOFTIM 5768 (05 de setembro de 2008)

"O dono de um pequeno sítio era muito amigo de um famoso escritor, e certa vez pediu-lhe um favor:

- Estou precisando vender aquele meu sítio, que você conhece tão bem. Sei que você tem o dom de escrever bem, então você poderia redigir um anúncio para eu publicar no jornal?

O escritor, que realmente era muito talentoso, imediatamente apanhou um papel, passou alguns instantes relembrando as imagens do sítio e escreveu: "Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer, no extenso arvoredo cortado por cristalinas e marejantes águas de um ribeirão. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranqüila das tardes na varanda".

Meses depois, o escritor encontrou com o dono do sítio e perguntou se o anúncio havia funcionado. O homem respondeu que sim. Quando o escritor perguntou se ele conseguido um bom dinheiro, o dono do sítio abriu um sorriso envergonhado e falou:

- Na verdade, o anúncio funcionou para mim mesmo. Eu realmente queria muito vender o sítio porque achava que ele não tinha nada de especial. Quando li o anúncio, percebi a maravilha que eu tinha e não tive mais coragem de vender"

Será que nós conseguimos realmente perceber tudo de bom que temos em nossas vidas?
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A Parashá desta semana, Shoftim, traz um assunto interessante. Quando o povo judeu entrou na terra de Israel, cada uma das tribos recebeu um pedaço de terra, dividido por sorteio. Mas os Cohanim (sacerdotes), que eram da tribo de Levi, não receberam nenhum pedaço de terra, para que pudessem se dedicar exclusivamente às atividades espirituais, entre elas o serviço do Beit-Hamikdash (Templo Sagrado). Mas se os Cohanim não receberam terras, em uma época onde a agricultura e a criação de animais era a principal fonte de renda, do que eles viviam?

A Parashá nos ensina que D'us comandou ao resto do povo dar presentes para os Cohanim, para que eles pudessem ter uma subsistência. Por exemplo, quando uma pessoa trazia um sacrifício, algumas das partes do animal sacrificado eram dadas aos Cohanim. Também os primeiros frutos das plantações de grãos e de uva eram dados de presente aos Cohanim. A Torá nos ensina que no total os Cohanim recebiam 24 tipos diferentes de presentes, e assim conseguiam seu sustento sem prejudicar nem diminuir o serviço espiritual do povo judeu.

Observando as Mitzvót da Torá, vemos algo interessante. Das 613 Mitzvót, nem todas se aplicam a todo o povo judeu. Por exemplo, há diversas Mitzvót que se aplicam somente aos Cohanim. No total, são 24 Mitzvót que somente os Cohanim estão obrigados a cumprir. Será que é uma coincidência, ou há alguma relação entre os 24 presentes que os Cohanim recebiam e as 24 Mitzvót que somente eles estavam obrigados a cumprir?

O judaísmo ensina que na vida não existem coincidências. Explica o livro Chovot Halevavot (Deveres do coração) que o nível que cada pessoa precisa cobrar de si mesma na sua conexão espiritual deve ser de acordo com as bondades que D'us faz com ela, entre elas as bondades gerais, que outras pessoas também recebem, e principalmente as bondades específicas, que somente ela recebe. Os Cohanim realmente tinham mais Mitzvót, e com isso se conectavam espiritualmente em um nível mais alto, por causa dos presentes que somente eles recebiam.

Mas este ensinamento não se aplica apenas aos Cohanim, se aplica a cada um de nós. A obrigação que temos de nos conectar com D'us é proporcional às bondades que recebemos Dele. Tanto as bondades gerais, tais como nossa saúde e a própria vida, quanto as bondades específicas, tais como as pessoas queridas e especiais de nossas famílias, o lar onde nascemos, nosso círculo de amizades, etc. Mas será que realmente nos sentimos "endividados" pelas bondades que recebemos? Infelizmente não, pois recebemos tantas bondades, e de forma tão constante, que não conseguimos reconhecer e agradecer.

Estamos entrando no mês de Elul, o último mês do ano. É um mês de preparação para Rosh Hashaná, dia em que todos os nossos atos serão julgados e todos os acontecimentos do próximo ano serão decididos. Como se preparar para Rosh Hashaná? Aproveitando o momento em que D'us está mais próximo de nós para refletir sobre cada bondade que recebemos Dele. Pois somente refletindo vamos entender que, do momento em que abrimos os olhos até a hora de dormir, tudo o que acontece conosco é uma grande bondade de D'us. E se recebemos tanto Dele, será que não é hora de fazermos algo por Ele?

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ REÊ 5768

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TURISTAS OU MORADORES? - PARASHÁ REÊ 5768 (29 de agosto de 2008)

"Certa vez um turista que estava de passagem pela cidade de Radin, na Polônia, foi conhecer a casa do famoso rabino Chafetz Chaim. Para sua decepção, descobriu que o rabino vivia em uma casa muito simples, e tudo o que ele tinha era uma cama, uma mesa e um armário. Indignado, o
turista perguntou:

- Onde estão seus móveis??? Isso é tudo o que você tem na vida?

O Chafetz Chaim perguntou:

- Também não estou vendo seus móveis. Onde estão suas coisas?

- Ei, espere aí - gritou o visitante - o motivo pelo qual eu não tenho móveis comigo é porque eu sou apenas um turista!

O Chafetz Chaim sorriu e disse:

- Eu também"

Temos que saber que também somos turistas neste mundo. Da mesma forma que um turista abre mão de um pouco do seu conforto para aproveitar ao máximo a viagem, assim também devemos estar prontos para fazer, se queremos realmente aproveitar esta viagem chamada "vida".
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A Parashá desta semana, Reê, traz diversos assuntos que parecem não ter nenhuma conexão entre si, como os Shalosh Regalim (as 3 festas, Pessach, Shavuot e Sucót, quando todo o povo judeu se reunia no Templo), as leis de Kashrut e as leis de Tzedaká (caridade). Qual a relação entre estes assuntos aparentemente tão diferentes?

Quando uma pessoa está numa excursão, conhecendo um novo país, ela não dorme direito, não come bem, não se importa de abrir mão do conforto e mesmo assim está sempre contente. Por que? Pois ela tem um propósito, ela quer aproveitar a viagem ao máximo. Ela sabe que o tempo é
limitado, e por isso não quer perder nenhum segundo. Nossa vida também é uma excursão, e também temos um tempo limitado. Então por que não abrimos mão das coisas secundárias e nos dedicamos apenas às coisas mais importantes? Por que queremos dormir muito, comer bem e estar sempre rodeados de conforto? Pois vivemos como se a vida fosse eterna, e esquecemos que tudo isso um dia terá fim.

A natureza humana é muito interessante. Apesar de termos muitos bons momentos na vida, nós somente conseguimos perceber quanto algo é importante quando corremos o risco de perdê-lo. Nós precisamos de contrastes para entender as coisas. Somente quando falta a luz percebemos o quanto ela é essencial. Por isso, por incrível que pareça, uma das coisas que mais dá sentido para a vida é a morte.

Na verdade a morte não estava nos planos originais de D'us. A morte surgiu como uma consequência do erro cometido por Adam e Chavá (Adão e Eva), quando não escutaram a ordem de D'us e se distanciaram do Criador. D'us se comportou "Midá Kenegued Midá" (medida por medida), e também se afastou de nós, tornando mais difícil encontrá-Lo no mundo. A morte então tornou-se uma maneira necessária para nos despertar e ajudar a buscar o sentido de tudo isso, e assim encontrar D'us. Em hebraico, a palavra "Tavá", que significa "se afogar", se escreve da mesma maneira que palavra "Téva", que significa "natureza". Sem a morte, afundaríamos cada vez mais no materialismo do mundo, até perder completamente nossa sensibilidade espiritual.

Mas não precisamos necessariamente passar pelo choque da morte para despertarmos. A morte não é a única maneira de nos fazer voltar ao equilíbrio. As Mitzvót, muitas trazidas nesta Parashá, também são "bóias" para nos ajudar a não afundar no mundo material. Elas servem como um lembrete constante do que realmente é o mais importante, e nos dá claridade para podermos checar, a cada instante, se estamos vivendo uma vida verdadeira ou uma vida de ilusões.

Por exemplo, uma parte considerável de nossas vidas é dedicada à comida. Comer pode ser um ato meramente animal, ou pode ser um ato espiritual. Podemos, através da Kashrut, manter o nosso foco espiritual, prestando atenção no que comemos e como comemos. Os Shalosh Regalim nos ensinam a necessidade de, em alguns momentos, quebrar o cotidiano e diminuir o contato com o mundo material, aumentando assim a conexão com o mundo espiritual. E finalmente a Mitzvá de Tzedaká nos ensina que, apesar dos pensamentos serem muito importantes, os atos são ainda mais importantes, pois materializam nossas intenções e pensamentos. A repetição de bons atos molda as nossas características e nos torna pessoas melhores e mais espiritualizadas.

Não precisamos ser lembrados do nosso propósito através de dor e sofrimento. Com as Mitzvót, mesmo os menores atos de nossas vidas passam a ser lembretes constantes de que somos apenas turistas em uma importante jornada, na busca de sentido na vida e de conexão espiritual.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ EIKEV 5768

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PENSANDO NOS VIZINHOS – PARASHÁ EIKEV 5768 (22 de agosto de 2008)

"Jorge foi até a casa de seu vizinho Pedro, na sexta-feira de manhã, e pediu seu cortador de grama emprestado. Pedro estranhou, pois sabia que Jorge também tinha um cortador de grama, e sabia que não estava quebrado, pois havia visto ele utilizando-o durante a semana. Por que então ele estava pedindo o seu cortador emprestado? Não quis perguntar, com medo de ofendê-lo, mas ficou curioso.

De tarde, Pedro encontrou Antônio, seu outro vizinho, e no meio da conversa comentou sobre o estranho pedido de Jorge. Antônio ficou preocupado, pois Jorge havia também pedido o seu cortador de grama emprestado de manhã. Que estranho! E quando foram até a casa de Fernando, um outro vizinho, e descobriram que Jorge também havia passado de manhã e pedido o seu cortador de grama emprestado, decidiram descobrir de uma vez por todas o que estava acontecendo. Foram até a casa de Jorge, e quando ele abriu, os três perguntaram, já um pouco irritados:

- Ei, Jorge, que brincadeira de mau gosto é esta que você está fazendo conosco? Por que pediu o cortador de grama de nós três?

Jorge, desmascarado no seu plano genial, sorriu e explicou:

- Não foi uma brincadeira. Não se preocupem, vocês terão seus cortadores de grama de volta na segunda-feira logo pela manhã. É que eu estou muito cansado, e finalmente conseguirei dormir em paz no fim de semana até um pouco mais tarde..."

Muitas vezes estamos tão entretidos nas nossas atividades cotidianas que nos esquecemos o quanto podemos estar atrapalhando e incomodando outras pessoas. O judaísmo ensina que devemos pensar, em cada pequeno ato que fazemos, como isso afeta os outros à nossa volta.
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A Parashá desta semana, Eikev, começa enumerando uma série de Brachót (bençãos) que D'us prometeu dar ao povo judeu, condicionais ao cumprimento das Mitzvót, como diz o primeiro versículo da Parashá: "Vehaia eikev tishmeun..." (E será, porque ouviram estas leis, e as cuidarão e as cumprirão, e D'us guardará o pacto e a bondade que Ele jurou aos seus antepassados) (Devarim 7:12). Rashi, comentarista da Torá, explica que a palavra "Eikev" pode significar "porque", mas também pode significar "calcanhar". Ele explica que o versículo está se referindo aos cuidados que devemos ter com as Mitzvót fáceis, aquelas que aparecem no cotidiano e que, por parecerem simples e sem valor, muitas vezes nós desprezamos e "pisamos com nossos calcanhares". O Talmud também reforça o cuidado com as Mitzvót fáceis e simples, e diz que o julgamento final da pessoa é de acordo com o desprezo que a pessoa teve por estas Mitzvót. Mas de que tipo de Mitzvót fáceis e simples a Torá está se referindo?

Umas das obrigações do ser humano neste mundo é desejar sempre chegar à máxima grandeza espiritual, e todos os dias devemos nos questionar "Quando meus atos chegarão aos atos dos meus patriarcas?". Atos como os de Avraham, que após fazer seu Brit-Milá aos 99 anos, sem anestesia nem instrumentos cirúrgicos, sentou-se na porta de casa para esperar convidados, pois a dor de não fazer bondades era maior do que a dor física do Brit-Milá. Atos como o de Itzchak, que sabendo que seu pai iria sacrificá-lo para D'us, aceitou com alegria e pediu que suas mãos fossem amarradas, para que nenhum ato reflexo pudesse desviá-lo de cumprir a vontade Divina. Ou atos como o de Yaacov, que passou 20 anos sendo enganado por seu tio Lavan, e mesmo assim não deixou de ser honesto nem trabalhador durante todo esse tempo. Mas mesmo almejando este nível de grandeza espiritual, não podemos nos esquecer das coisas do cotidiano, aqueles pequenos detalhes, que tantas vezes passam desapercebidos por parecerem desprezíveis. E incluído entre estas pequenas coisas está o "Derech Eretz" (Bons Modos), que são tão importantes, ao ponto dos nossos sábios afirmarem "Derech Eretz Kadmá La Torá" (Os bons modos vêm antes da Torá).

Mas o que os bons modos têm a ver com a Torá? Aquele que é relaxado com os assuntos mundanos, também será relaxado com os assuntos espirituais, pois a falta de cuidados com os assuntos pequenos do cotidiano é um reflexo de uma falha nas características espirituais da pessoa, que não se importa em chegar ao preenchimento total em seus atos. Pela maneira como nos comportamos nos pequenos atos do cotidiano podemos saber realmente a nossa essência.

Mas é preciso deixar claro que bons modos não significa saber com que faca comer o peixe ou como arrumar o guardanapo na mesa, pois isso se chama "etiqueta". Bons modos significa se preocupar com a honra do próximo, com o sentimento dos outros. A Mishná em Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas) nos ensina: "Qual o caminho correto na qual o ser humano deve seguir? Rav Iossi disse: seja um bom vizinho". Mas ser um bom vizinho é algo muito específico, este é o caminho que devemos seguir para a vida, algo muito mais amplo?

Grande parte das atividades "Bein Adam Lehaveiró" (entre o homem e seu semelhante) ocorre entre vizinhos. Se a pessoa se esforça para ser um bom vizinho, de forma que seu pensamento está sempre voltado a ajudar aos outros e a se cuidar para não causar nenhum dano ou incômodo, ele se acostumará a fazer as pequenas coisas do cotidiano da maneira correta, e no final também direcionará todas as sua atitudes na vida, pequenas ou grandes, da maneira correta. Pois quando nos acostumamos a nos comportar de forma correta e ordenada nos assuntos pequenos, no final também nos comportaremos de forma correta e ordenada nos assuntos grandes.

Da mesma forma que grandes edifícios começam a partir de pequenos tijolos, assim também grandes homens começam com pequenos atos.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VEETCHANAN 5768

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PARASHÁ VEETCHANAN 5768 (15 de agosto de 2008)

"Quando o rabino Shlomo Zalman Oierbach comprou pela primeira vez uma máquina de lavar roupa, era ainda uma grande novidade. No dia em que a máquina chegou, foi uma grande festa em sua casa. Todos estavam ansiosos para ver pela primeira vez a máquina de lavar. Mas o rav Shlomo Zalman percebeu que seus filhos estavam mais preocupados em procurar alguma outra coisa. Eles reviravam o plástico e o papelão, levantavam a caixa, tiravam todo o enchimento, procurando algo. De repente, um dos filhos grita "Achei". Todos olharam para ele, curiosos, enquanto ele mostrava orgulhoso o manual de instruções da máquina. O rav Shlomo Zalman perguntou ao filho:

- Ei, como você sabia que havia um manual de instruções aí dentro, se é a primeira vez que compramos uma máquina de lavar?

O filho, com um sorriso, explicou:

- Pai, esta máquina deve ser difícil de ser manuseada. Certamente o fabricante, que é quem mais conhece a máquina, deseja que o usuário possa ter o máximo proveito do equipamento adquirido. Assim, achei lógico que viria, junto com a máquina, algum manual de instruções. E minha lógica estava certa, pois aqui está o manual." (História real)

Se não é possível imaginar que uma máquina de lavar possa vir sem um manual de instruções, mais ilógico é pensar que a vida, muito mais complexa do que uma máquina de lavar, venha sem um manual de instruções.
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No último livro da Torá, Devarim, Moshé descreve muitos dos acontecimentos ocorridos durante os 40 anos em que o povo judeu permaneceu no deserto. Além disso, Moshé também fez profecias do que ocorreria nas futuras gerações, como está escrito: "... e vocês farão o mal aos olhos de D'us, para irritá-Lo... E D'us os espalhará entre todos os povos, e vocês permanecerão poucos em número..." (Devarim 4:25-27). Isto realmente ocorreu na época da destruição do Segundo Beit Hamikdash (Templo sagrado), quando os judeus foram exilados da terra de Israel e começaram a ser espalhados pelo mundo. Além disso, na época do Beit Hamikdash havia 10 milhões de judeus e 10 milhões de chineses, enquanto atualmente há cerca de 13 milhões de judeus e 1 bilhão de chineses, cumprindo também a profecia de que iríamos permanecer poucos em número.

Mas Moshé não ensinou apenas o problema de que nos afastaríamos de D'us e seríamos espalhados por todo o mundo, ele também nos ensinou a solução: "E de lá vocês buscarão a D'us, e O encontrarão, se vocês procurarem com todo o seu coração e com toda sua alma... e nos final dos dias vocês voltarão para D'us e escutarão Sua voz" (Devarim 4:29,30). E vemos estas palavras se cumprindo nos nossos dias, quando milhares de judeus completamente afastados do judaísmo começam o caminho de volta, um incrível e inédito movimento de Teshuvá (retorno) observado em todo o mundo. E entre os Baalei Teshuvá (pessoas que retornaram) se encontram até mesmo cientistas, estudiosos e grandes pensadores. O que faz com que pessoas tão céticas e tão afastadas voltem ao judaísmo?

A maioria das religiões se baseia apenas na fé, e conseguem convencer milhares de fiéis a acreditar em suas palavras e ensinamentos através de um lapso de fé, isto é, aproveitando a necessidade que as pessoas têm de acreditar em algo que lhes dê força para superar as dificuldades da vida. É o caso da igreja da Cientologia, criada há 50 anos por um fracassado autor de ficção científica e que conta, atualmente, com mais de 4 milhões de adeptos no mundo. Já o judaísmo se diferencia, pois ensina que a busca pela verdade não pode ser algo baseado na fé cega, precisa ser embasado em entendimento racional, em questionamento, em reflexão e avaliação. Onde podemos ver isso na Torá?

Se observarmos a Torá, à primeira vista pode parecer que não é diferente de outros "manuais" apresentados por outras religiões. Mas se nos aprofundarmos um pouco mais, veremos que a Torá tem um imenso diferencial: ela não apenas traz ensinamentos bonitos e importantes para o ser humano, ela diversas vezes se auto-testa, para mostrar que seu "escritor" tinha total controle do tempo e do espaço. Um exemplo ocorre na Parashá desta semana, Veetchanan, quando observamos os seguintes versículos: "E pergunte-se, desde os tempos que te precederam, do dia em que D'us criou o homem na Terra, e de uma ponta do céu até a outra ponta do céu: ocorreu algo assim tão grande ou algo assim foi escutado? Houve algum outro povo que escutou a voz de D'us falando do meio do fogo, e sobreviveu?" (Devarim 4:32,33). Precisamos analisar de forma racional o que estes versículos estão ensinando. Se alguém fosse escrever um livro de auto-ajuda, como muitos alegam ser o propósito de um escritor humano da Torá, por que se auto-testar? Como alguém poderia ter garantido, há mais de 3.000 anos, que das 15 mil religiões que passaram pelo mundo até hoje mais ninguém utilizaria o argumento de que D'us falou com todo o povo? Quem seria o louco de arriscar todo o seu "best-seller" com um chute desses, se poderia ter escrito algo sem se comprometer?

Na verdade os historiadores descobriram que houve outra excessão. Existe um grupo de indianos que afirma que o deus hindu krishna se revelou diante de milhares de guerreiros antes de uma batalha. Isso seria uma ameaça à Torá, se a tradição oral dos indianos não dissesse que todos os guerreiros morreram nesta batalha, e a história foi revelada muito tempo depois, através de um profeta. Isso reforça ainda mais o versículo da Torá, que ressalta no final "e sobreviveu".

A palavra Torá vem de "Torat Chaim", que significa "Instruções de vida", pois este mundo tem um propósito, e D'us nos entregou o Manual para que possamos atingí-lo. E esta é a força que está trazendo tantos judeus de volta: a força do questionamento sincero e da busca pela verdade, não baseado em fé, e sim no racional e lógico. Mas temos que fazer a busca com todo o nosso coração, isto é, sem preconceitos e sem medos. Pois da mesma forma que foi profetizado o afastamento, também foi profetizada a volta, mas apenas para aqueles que querem de verdade.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - TISHÁ BE AV 5768

BS"D

POR QUE CHORAR? – TISHÁ BE AV 5768 (08 de agosto de 2008)

Atualmente viajar para Israel e visitar o Kotel (Muro das Lamentações) é um ato normal para milhares de judeus do mundo inteiro. Mas nem sempre foi assim. Por muitos anos Jerusalém esteve nas mãos dos árabes, e ficamos proibidos de visitar o Kotel, a única parte remanescente do nosso Templo Sagrado.

A história recente de Israel foi marcada por momentos dramáticos de luta e guerra, onde os judeus, sempre em desvantagem, conseguiram vitórias milagrosas contra seus vizinhos árabes. Foi o que ocorreu na Guerra dos 6 dias, em 1967, quando Israel lutou sozinho contra Egito, Jordânia, Síria, Iraque, Kuweit, Arábia Saudita, Argélia e Sudão, e venceu. E de todas as lembranças memoráveis, talvez o momento mais emocionante, eternizado em fotos e filmes, foi quando um grupo de paraquedistas israelenses conseguiu capturar a Cidade Velha de Jerusalém e chegar até o Kotel.

Entre os soldados que foram os primeiros a chegarem ao Kotel estavam muitos jovens religiosos que, tomados pela imensa emoção, choravam sem parar, com a cabeça encostada no Muro. Os soldados não-religiosos ficaram afastados, vendo aquela cena sem entender muito bem o que estava acontecendo. Um deles, de repente, começou a chorar. Seu amigo perguntou, curioso:

- Ei, por que você está chorando?

O jovem rapaz, ainda chorando, respondeu:

- Eu estou chorando por ver todas estas pessoas chorando e não saber nem porque eu deveria estar chorando.
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Na noite deste Sábado, 09 de agosto, revivemos o triste dia de Tishá Be Av, data na qual nossos dois Beit-Hamikdash (Templos Sagrados) foram destruídos. É um dia de jejum, e nos comportamos como enlutados, sentando no chão e recitando as rezas em tom de choro. Mas qual a razão de chorar por algo que ocorreu há mais de 2000 anos?

O Beit-Hamikdash foi, e ainda é, um dos conceitos mais básicos e centrais do judaísmo. Uma das 19 Brachot existentes na Amidá (reza silenciosa, a parte central das 3 rezas diárias) é justamente para pedir para D'us a sua reconstrução. Nossos sábios ensinam que o Beit-Hamikdash deveria ser uma das nossas principais preocupações, e que deveríamos sentir a sua falta em cada momento. Mas para a grande maioria de nós não é assim. Talvez muitos de nós nem saiba porque deveríamos chorar em Tishá be Av. Por que isso acontece?

Nossa vida, em muitos momentos, é boa e confortável. Nós não sentimos que está faltando algo. Nós acreditamos na ilusão do mundo físico, e imaginamos que a vida é boa como ela é. Vivemos anestesiados e alienados da vida real que poderíamos viver.

Mas a verdade é que, apesar de todas as coisas boas que temos na vida, lá no fundo cada um de nós sente que algo está faltando. Algumas vezes isto se manifesta na confusão que temos sobre o propósito da vida, outras vezes na decepção de sentirmos que não atingimos nosso potencial, ou até mesmo naquela estranha sensação de que a vida poderia ser mais do que ela é. Quem nunca escutou sobre a "Crise da meia-idade" ou sobre os altos índices de depressão que atinge velhos e jovens, homens e mulheres? Pessoas ricas, bonitas e sociáveis se afundam em terríveis depressões. O que falta para elas?

Há cerca de 2000 anos atrás nós tínhamos o nosso Templo em Jerusalém, que constantemente nos lembrava quem somos, quais são as nossas prioridades e para onde estamos indo. Era nossa âncora em um mundo escuro e tempestuoso. O Templo não era apenas uma construção bonita, era a manifestação física da nossa conexão com D'us, como diz o versículo "Construam para Mim um Templo, e Eu morarei dentro de vocês". Não está escrito "dentro dele", e sim "dentro de vocês", mostrando que a construção do Templo significou, para cada judeu, uma real conexão com D'us. Nos dias do Beit-Hamikdash a presença de D'us e a existência da espiritualidade eram evidentes, e o ateísmo era uma grande piada. As pessoas podiam ir para Jerusalém e literalmente sentir Sua presença. Havia claridade e auto-estima, pois as pessoas conseguiam entender que haviam sido cridas à imagem e semelhança de D'us. As pessoas viviam vidas com propósito, com o entendimento de que tinham um objetivo a alcançar.

Quando o Beit-Hamikdash foi destruído, nós perdemos tudo o que tínhamos. A base de toda a alienação e baixa auto-estima que vemos atualmente no mundo está enraizado na destruição do nosso Beit-Hamikdash. Tishá be Av vem para contrastar a maneira como vivemos e a maneira como poderíamos viver. O Kotel é chamado "Muro das Lamentações" pois, mesmo passados mais de 2000 anos, nós ainda choramos e lamentamos tudo o que perdemos com a destruição do nosso Beit-Hamikdash.

D'us não espera que consigamos atingir imediatamente elevados níveis espirituais. Mas isso também não nos exime de tentar. Se nós não sentirmos a falta do Beit-Hamikdash em nossas vidas, então não há mais esperança de reconstruí-lo. Portanto, se neste Tishá be Av não conseguirmos chorar pela falta do nosso Beit-Hamikdash, que possamos ao menos chorar pelo fato de não sentirmos vontade de chorar.

"Desde o dia em que o Beit-Hamikdash foi destruído, nunca mais houve um dia em que o céu esteve perfeitamente claro" (Talmud Brachót 59)

SHABAT SHALOM e um TZOM KAL (que seja um jejum leve para todos)

Rav Efraim Birbojm


quinta-feira, 31 de julho de 2008

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ MASSEI 5768

BS"D

O VESTIDO AZUL - PARASHÁ MASSEI 5768 (01 de agosto de 2008)

Num bairro pobre de uma cidade distante, morava uma garotinha muito bonita, e ela freqüentava a escola local. Sua mãe não tinha muito cuidado com ela, e por isso a criança quase sempre ia suja para as aulas, com roupas muito velhas e maltratadas. Seu professor ficou penalizado com a situação da menina, e pensava como era possível que uma menina tão bonita pudesse vir para a escola tão mal arrumada. Separou algum dinheiro do seu salário e resolveu comprar para ela um vestido novo.

Ela ficou linda no vestido azul. Quando a mãe viu, decidiu que usando uma roupa tão bonita ela não podia ir tão suja para a escola. Passou a lhe dar banho todos os dias, pentear seus cabelos e cortar suas unhas.

Quando terminou a semana, o pai se perguntou se não era uma vergonha que aquela menina tão bonita e bem arrumada morasse em um lugar caindo aos pedaços. Decidiu ajeitar a casa, e nas horas vagas ele pintou as paredes, consertou a cerca e plantou um jardim. Em pouco tempo a casa se destacava na pequena vila, com flores que enchiam o jardim. Os vizinhos, envergonhados por seus barracos serem tão feios comparados com aquela linda casa, resolveram também arrumar as suas casas, plantar flores, usar tinta e criatividade. Em pouco tempo, o bairro todo estava transformado.

Um político que acompanhava os esforços daquelas pessoas pensou que eles mereciam um auxílio das autoridades. Foi ao prefeito expor suas idéias e saiu de lá com autorização para diversos melhoramentos no bairro. A rua de barro e lama foi substituída por asfalto e calçadas de pedra. Os esgotos a céu aberto foram canalizados, e o bairro ganhou ares de cidadania. E tudo começou com um vestido azul...

Não era intenção daquele professor consertar as casas, canalizar o esgoto ou plantar jardins. Ele fez o que podia, fez a sua parte. Será que cada um de nós está fazendo a sua parte? É difícil limpar toda a rua, mas é fácil varrer a nossa calçada. É difícil reconstruir o mundo, mas é possível dar um vestido azul. Faça a sua parte.
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Somos constantemente bombardeados por notícias de crimes hediondos, assaltos, delinqüência e roubos. Parece que ninguém mais tem medo da polícia. Afinal, estamos em um mundo de impunidade, e o incomum é o cumprimento da justiça. E mesmo nos casos onde o criminoso é condenado e cumpre sua pena na prisão, será que ele sai uma pessoa melhor, menos perigosa para a sociedade? A experiência mostra que não. Pessoas presas por pequenos delitos saem das prisões como criminosos perigosos. As penitenciárias são, atualmente, verdadeiras "escolas do crime". Deixar impune não é correto, mas o sistema presidiário também não funciona. Então, o que fazer?

A resposta está na Parashá desta semana, Massei. D'us ensina a Moshé que o povo judeu deveria construir, quando conquistassem a terra de Israel, seis cidades de refúgio. O que eram exatamente estas cidades, e para que serviam? Quando alguém matava acidentalmente uma pessoa, ele deveria ir para uma destas seis cidades de refúgio, e deveria permanecer lá até a morte do Cohen Gadol (Sumo Sacerdote). Mas estas cidades não eram muradas, não tinham grades, não tinham arame farpado nem policiais armados na porta. O que impossibilitava os assassinos de saírem antes do tempo? A Torá dava permissão para os parentes do falecido fazerem justiça com as próprias mãos, isto é, eles tinham permissão de matar o assassino. O único lugar onde o assassino estava protegido era dentro das cidades de refúgio, pois lá os parentes do falecido eram proibidos de fazer qualquer mal a ele. Com isso, os assassinos não pensavam em sair antes do tempo, mesmo sem policiais na porta, muros ou grades. Mas o que há de tão especial nestas cidades de refúgio? Qual a grande novidade, afinal elas eram como prisões, já que o assassino ficava impossibilitado de sair!

O homem é um ser social, altamente influenciado pelo ambiente em que vive. Por isso, quando a pessoa é mandada para um presídio, ela passa a conviver diariamente com pessoas de má índole, com bandidos perigosos e com pessoas que não dão o mínimo valor para a vida humana. Mesmo que seja um processo lento e silencioso, toda esta influência vai entrando no coração da pessoa, e alguém que foi preso por roubar uma bicicleta pode sair da cadeia como um potencial assassino. Somos moldados pela sociedade na qual escolhemos viver, e mesmo sem perceber, acabamos absorvendo os conceitos e valores desta sociedade.

E quem vivia nas cidades de refúgio, junto com os assassinos refugiados? Pessoas da tribo de Levi. Todas as tribos receberam uma porção na terra de Israel, e a única excessão foi a tribo de Levi, que havia sido escolhida para fazer o serviço Divino, e por isso não praticava nenhuma outra atividade. Quando D'us fez a divisão de Israel, não deu nenhuma terra para os Leviim, deu apenas algumas cidades onde pudessem morar, e entre elas as seis cidades de refúgio.

Que tipo de pessoas eram os Leviim? Desde o exílio no Egito, a tribo de Levi se ocupava muito com o estudo da Torá, com a prática das leis espirituais e com o comprometimento em alcançar o auto-aperfeiçoamento, e trabalhavam constantemente para anular suas características negativas e chegar ao máximo potencial espiritual. E este comprometimento se refletia de forma positiva em cada ato que eles faziam no cotidiano. Por isso, quando um assassino passava algum tempo na cidade de refúgio, ele recebia toda essa influência positiva, e saía de lá uma pessoa melhor, uma pessoa mais humana, uma pessoa que dava mais valor à vida.

Isso nos ensina que temos duas grandes responsabilidades na vida. Uma é a responsabilidade de escolher o ambiente que queremos para nós e para os nossos filhos, lembrando que somos constantemente influenciados, mesmo que de maneira inconsciente. E a outra é a responsabilidade que cada um de nós tem sobre o mundo todo. Muitas vezes pensamos que somos pequenos, que nossos atos não mudam muitas coisa, mas isso não é verdade. Cada ato que fazemos influencia outras pessoas, criando uma corrente que nunca sabemos onde pode chegar. Maus atos ajudam a destruir o mundo, e bons atos certamente ajudam a construir um mundo melhor. Por isso, ao invés de passar o dia apontando o que o mundo tem de errado, que possamos pelo menos fazer a nossa parte.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm