quinta-feira, 9 de julho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ PINCHÁS 5769

BS"D

PENSANDO NOS OUTROS - PARASHÁ PINCHÁS 5769 (10 de julho de 2009)

"O Rav Eliezer Mann Shach, líder espiritual da Yeshivá de Ponovitch, foi um dos maiores rabinos da sua geração. Quando ele faleceu, há cerca de 8 anos atrás, participaram de seu enterro mais de 600 mil pessoas. Por que tanta gente? Pois o Rav Shach não era conhecido apenas pelo seu grande nível de estudo da Torá, mas principalmente pela sua preocupação com os outros. Praticamente ele não tinha vida particular, sua casa estava sempre aberta para quem necessitasse de um conselho ou de um direcionamento espiritual.

Uma das histórias que ressalta este lado do Rav Shach foi quando um rapaz jovem, que ainda não tinha filhos, foi pedir a ele uma Brachá (benção) para que sua esposa engravidasse. O casal estava há alguns anos tentando ter filhos mas não conseguiam. O Rav Shach anotou o nome do rapaz e disse que rezaria por ele.

Dez anos se passaram e o mesmo homem, que agora já tinha 3 filhos, foi ao Rav Shach pedir uma outra Brachá. Quando o homem falou o seu nome, o Rav Shach perguntou se ele tinha filhos. O homem disse que sim, surpreendendo o Rav Shach, que falou:

- Faz dez anos que eu rezo em todas as minhas Tefilót (rezas) para que você tenha um filho. Por que você não veio me avisar que já tinha conseguido?"

Durante dez anos, três vezes por dia, o Rav Shach incluiu em suas rezas uma pessoa que ele nem mesmo conhecia. Se importar com os outros é uma das principais características de um verdadeiro líder.
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Na Parashá desta semana, Pinchás, o povo começou a se aproximar da terra de Israel e D'us anunciou que a liderança de Moshé começava a chegar ao fim. Ao invés de pensar em si mesmo, Moshé pensou no povo e pediu para eles um bom líder. Entre as coisas que ele pediu a D'us, uma das principais era que o próximo líder fosse alguém que realmente se importasse com o povo. E assim ele pediu para D'us: "E que a congregação de D'us não seja como um rebanho que não tem para eles um pastor" (Bamidbar 27:17). Mas por que a Torá teve que se alongar e escrever "um rebanho que não tem para eles um pastor", ao invés de simplesmente escrever "um rebanho sem pastor"?

Explica o Maguid Mi Duvna que existem dois tipos de pastores de ovelhas, os que cuidam dos seus próprios rebanhos e os que cuidam gratuitamente dos rebanhos dos outros. A grande diferença é que o pastor que cuida das suas próprias ovelhas, mesmo que ele busque as melhores pastagens e águas límpidas, não é pelo bem do rebanho que ele faz, e sim por ele mesmo, pois esta é a sua profissão e assim ele ganha o seu sustento. Mas aquele que cuida gratuitamente das ovelhas dos outros, quando ele procura algo bom para as ovelhas, é pelo bem delas que ele se esforça.

Era com isso que Moshé se preocupava na escolha do seu sucessor. Ele sabia que o povo judeu não ficaria sem um líder, e sabia que não faltariam interessados em liderar o povo. A sua preocupação era com a intenção destas pessoas, se eles estariam buscando realmente o bem do povo ou se o interesse seria por sua própria promoção pessoal. É por isso que Moshé se alongou em suas palavras e pediu "para eles um pastor", isto é, para o bem deles, e não para o bem do novo líder. Pois um líder que não tem seus olhos voltados somente para o bem do povo não é um bom líder.

Esta diferença é muito marcante quando comparamos os líderes espirituais, desde Moshé até os grandes rabinos dos nossos dias, com os líderes políticos que governam hoje o mundo. Vemos como os políticos lutam para chegar ao poder, muitas vezes com discursos inflamados sobre os direitos do povo, mas quando finalmente sobem ao poder, demonstram que seus atos são todos voltados aos seus interesses particulares e aos interesses do seu partido político, ficando o povo em segundo plano.

Explica o Rav Eliahu Dessler, em seu livro Michtav MeEliahu, que existem duas forças espirituais no mundo, a "Koach Hanetiná" (Força de doação) e a "Koach Hanetilá" (Força de tomar o que é dos outros). Estas duas forças representam dois opostos, o altruísmo e o egoísmo. A "Koach Hanetiná" é a fonte de todas as coisas boas do mundo, enquanto a "Koach Hanetilá" é a fonte de todas as coisas ruins. Em todos os atos de nossas vidas utilizamos uma destas duas forças. Quando fazemos algo pelos outros, nos esforçando para buscar o bem das outras pessoas, então estamos utilizando a "Koach Hanetiná". Mas quando estamos sendo egoístas e pensando o que podemos ganhar com os outros, estamos utilizando a "Koach Hanetiná".

Portanto, a reflexão não deve ser apenas para os grandes líderes, mas para cada um de nós. Quando fazemos algo por outra pessoa, em quem estamos realmente pensando, no outro ou em nós mesmos? Estamos fazendo o melhor para o outro, ou fazemos as coisas apenas para parecer aos olhos de todos que somos Tzadikim (justos)? Será que muitos dos bons atos que fazemos em público também faríamos se ninguém estivesse olhando?

Resumindo, a pergunta que temos que fazer a nós mesmos é: nosso comportamento se assemelha mais aos grandes líderes espirituais da Torá, que doam parte de suas vidas ao bem estar dos outros, ou aos políticos, que somente pensam em si mesmos?

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 2 de julho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT CHUKAT E BALAK 5769

BS"D
DE POUCO EM POUCO - PARASHIOT CHUKAT E BALAK 5769 (03 de julho de 2009)

"Salomão era o dono de um pequeno hotel. Ele estava contente, pois o hotel estava sempre cheio, muitas vezes havia fila de espera e os negócios iam muito bem. Certo dia chegou um homem estranho e sentou-se no sofá do lobby de entrada. Não era um dos hóspedes, e também não pediu um quarto, simplesmente sentou-se ali, calado, e permaneceu assim por todo o dia. Em um primeiro impulso Salomão quis expulsar o homem dali, mas acabou deixou-o ficar, afinal, que mal ele fazia em ficar sentado no lobby do hotel? No dia seguinte o mesmo se repetiu, e também no outro dia, até que o homem se tornou parte do local, vindo todos os dias e permanecendo ali sentado no sofá.

Com o passar do tempo a presença dele se tornou tão constante que as pessoas começaram a pensar que ele era um funcionário do hotel, e muitos começaram a dar o pagamento das diárias diretamente a ele, ao invés de pagar ao dono do hotel. Quando Salomão fechava as contas no final do mês não entendia o que estava acontecendo, pois apesar do hotel estar sempre lotado, cada vez recebia menos dinheiro. Não sabia o que fazer, e viu a situação do hotel ficando cada vez mais difícil, enquanto aquele homem estranho ficava a cada dia mais rico.

Após alguns meses, com muitas dívidas, Salomão se viu obrigado a vender o hotel por um preço muito baixo. E aquele homem estranho foi o primeiro que apareceu, com o dinheiro na mão, para comprar o hotel e se tornar o proprietário"

Assim funciona o nosso Yetzer Hará, ele chega como quem não quer nada, nos envolve e, quando percebemos, já perdemos tudo.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Chukat e Balak. A Parashá Chukat descreve a esmagadora vitória do povo judeu contra os Amalekitas e contra os Emoritas. A Parashá Balak nos conta sobre o rei de Moav, Balak, que temeu muito o povo judeu ao escutar sobre suas devastadoras vitórias nas batalhas contra seus inimigos. Como Balak sabia que a vitória na batalha não dependia da força física e sim da força espiritual, contratou Bilaam, um homem que tinha grandes poderes espirituais, para amaldiçoar o povo judeu. No caminho, por três vezes D'us tentou impedir a ida de Bilaam, mandando um anjo com uma espada para interromper o caminho de sua mula. Da primeira vez em que o anjo apareceu, a mula estava em um lugar largo e conseguiu desviar para o lado. Da segunda vez em que o anjo apareceu já era um lugar um pouco estreito, e quando a mula tentou desviar, prensou o pé de Bilaam contra a parede. Finalmente da terceira vez em que o anjo apareceu o lugar era tão estreito que a mula não teve para onde desviar e parou. Bilaam ficou muito irritado com o comportamento da mula e começou a golpeá-la, até que D'us abriu seus olhos e ele também enxergou o anjo empunhando uma espada, e entendeu porque a mula havia desviado tantas vezes.

Ensina o livro Lekach Tov que os três diferentes lugares onde o anjo apareceu têm um significado mais profundo. Eles representam as três formas como nosso Yetzer Hará (má inclinação) trabalha para nos desviar do caminho correto. Da primeira vez ele aparece como quem não quer nada, nos incitando a cometer uma transgressão, mas nos deixando ainda bastante espaço para desviar e voltar atrás. Se caímos na primeira armadilha e transgredimos, da segunda vez em que o Yetzer Hará nos incita a cometer o mesmo pecado já é mais difícil voltar atrás, não há tanto espaço para voltar. E se caímos pela segunda vez, da terceira vez que o Yetzer Hará nos empurra praticamente não há como voltar mais.

O Talmud nos ensina a mesma idéia: "Quando uma pessoa comete três vezes o mesmo pecado, ele se torna como se fosse permitido". O que isto significa? Que depois da terceira vez que a pessoa comete a mesma transgressão, ela perde a sensibilidade, e a transgressão já não pesa mais tanto. Por isso a chance da pessoa voltar se torna muito mais difícil. É o que vemos em casos de pessoas como mafiosos ou nazistas, que na primeira vez em que mataram alguém se sentiram mal com isso, mas depois de muitas mortes já não se importavam.

Temos que refletir muito sobre estas três formas através das quais o Yetzer Hará nos ataca, para assim conseguir vencê-lo. Nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Uma transgressão traz outra transgressão", isto é, cada mau ato tem como consequência uma queda espiritual. E quando estamos espiritualmente mais baixos, estamos mais propensos a transgredir de novo. É um círculo vicioso, que vai ficando cada vez mais difícil de ser quebrado. O livro Messilat Yesharim (Caminho dos Justos) compara isso a um fio muito fino, que pode ser facilmente arrebentado. Mas se adicionarmos mais um fio e mais um fio, no final se torna uma corda tão grossa que não pode mais ser arrebentada.

Precisamos internalizar a idéia de que da primeira vez é mais fácil vencer o Yetzer, e que cada vez vai se tornando mais difícil. É muito importante colocar toda nossa força logo quando sentimos a primeira vontade de fazer algo errado, para não cair em situações cada vez mais difíceis.

"Uma escada se sobe em degraus. Se não quer subir a escada toda, não comece a subir o primeiro degrau"

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 26 de junho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KORACH 5769

BS"D
ZOMBANDO DE QUEM? - PARASHÁ KORACH 5769 (26 de junho de 2009)

"Havia um lindo jardim onde crescia uma roseira carregada de rosas e, à sua sombra, vivia um caracol. Em redor do jardim cresciam avelãs e havia campos onde pastavam ovelhas e vacas. O caracol passava o dia zombando dos outros, e assim dizia para as rosas:

- Que medíocre a vida de vocês. Há de chegar a minha hora, e então eu farei mais do que dar rosas ou avelãs, muito mais do que dar leite como fazem as vacas e lã como fazem as ovelhas.

Um ano mais tarde, o caracol estendia-se ao sol quase no mesmo lugar onde estivera no ano anterior, sem que tivesse produzido nada naquele tempo, enquanto a roseira se ocupava em criar novos botões e a manter todas as pétalas frescas e bonitas. Novamente o caracol atacou a roseira com sarcasmo:

- É por isso que você não faz nada melhor na vida. Você sempre teve uma vida demasiadamente fácil!

- É verdade - concordou a roseira - sempre tive tudo o que eu necessitava. Mas você teve ainda mais sorte do que eu. Você recebeu o dom do raciocínio, a capacidade de pensar e refletir sobre a vida. Certamente fará muito mais do que eu pelo mundo.

- Não, não, de modo nenhum - negou o caracol - O mundo não existe para mim. Que tenho eu a ver com ele? Já é suficiente que me ocupe comigo.

- Mas não deveríamos dar aos outros o melhor de nós mesmos? É verdade que só dou rosas, mas você, que é tão dotado, o que você faz pelo mundo?

O caracol não respondeu. A roseira continuou a florescer na sua inocência, enquanto o caracol dormia dentro da sua casa. O mundo nada significava para ele. Passaram os anos, o caracol voltou à terra, a rosa também. Mas no jardim brotavam novas roseiras, enquanto os novos caracóis arrastavam-se dentro das suas casas, passeando pelo mundo que nada significava para eles"

Esta é a lição para nossas vidas. Quando alguém tenta nos atingir, nos ridicularizando ou tentando diminuir nosso valor, é porque são apenas pessoas vazias tentando provar algo para si mesmas.
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A Parashá desta semana, Korach, nos descreve sobre uma rebelião que desafiou a liderança de Moshé e Aharon, mas que terminou em tragédia. Korach, primo de Moshé, achava que merecia um cargo de respeito dentro do povo judeu e, cegado pela inveja, começou a instigar, com calúnias e zombarias, o povo contra Moshé, alegando que a escolha de Aharon como Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) não era Divina e sim uma escolha pessoal de Moshé para beneficiar seu irmão. Duzentos e cinquenta homens do povo se juntaram a Korach na rebelião, e todos eles morreram queimados por um fogo que veio do céu. O povo, colocando em Moshé a culpa da morte daqueles homens, novamente reclamou e foi duramente castigado com uma praga, na qual morreram tragicamente milhares de pessoas. Finalmente D'us mandou um sinal para tirar qualquer dúvida de que a escolha de Aharon era Divina: o chefe de cada tribo colocou um bastão dentro do Mishkan (Templo Móvel), cada um com seu nome inscrito, e no dia seguinte milagrosamente o bastão de Aharon apareceu com uma flor e frutos.

Deste episódio ficam duas dúvidas. Os homens que decidiram seguir Korach eram pessoas inteligentes, então como foram convencidas a ir contra Moshé, o mesmo Moshé que os havia tirado do Egito com milagres abertos? Podemos entender Korach, que estava movido pela inveja, mas o que convenceu as outras pessoas a se juntarem em uma rebelião tão irracional? Além disso, se no final houve um sinal milagroso que convenceu a todos que Aharon realmente havia sido escolhido por D'us, por que o sinal não foi mandado logo que surgiu a dúvida, evitando a morte de milhares de pessoas?

Ensina o livro Lekach Tov que Korach sabia que racionalmente não conseguiria convencer ninguém a segui-lo em uma rebelião contra Moshé. Então o que ele fez? Aproveitou um momento de fraqueza do povo, quando todos estavam abalados pelo duro decreto de permanecer 40 anos vagando no deserto, e começou a ridicularizar algumas das Mitzvót, como por exemplo o Tzitzit e a Mezuzá, deixando a entender que os ensinamentos de Moshé tinham erros lógicos e, portanto, haviam sido inventados por ele e não entregues por D'us. Ele utilizou a força da "Leitzanut" (ridicularizar coisas sérias), que anestesia a pessoa, possibilitando que mesmo idéias irracionais sejam aceitas.

Ensinam o livro Messilat Yesharim (Caminho dos justos) que quando uma pessoa erra, tem duas maneiras de voltar ao caminho correto. A primeira maneira é o despertar interno, isto é, quando a pessoa se torna introspectiva e reflete sobre seus atos, encontrando a fonte dos seus erros e trabalhando para não voltar a errar mais. A outra maneira é o despertar externo, quando D'us precisa nos enviar sofrimentos que nos dão uma chacoalhada e nos tiram do nosso "sono" espiritual. A "Leitzanut" funciona como um óleo sobre o nosso coração, fazendo com que qualquer tentativa de reflexão "escorregue" e não penetre. Foi o que ocorreu quando o povo escutou Korach ridicularizando Moshé e as Mitzvót, o coração deles se fechou para qualquer entendimento racional e lógico das coisas. Por isso, não adiantaria fazer o milagre da vara de Aharon diante do povo, eles não receberiam a mensagem. Foi necessário que antes D'us mandasse uma praga, para sacudir o povo e tirá-los deste estado de anestesia.

Este ensinamento podemos utilizar para nossas vidas. Sempre quando somos confrontados por uma nova idéia, diferente do que nós pensamos, em geral a primeira atitude que temos é olhar de forma pejorativa, muitas vezes fazendo piadas e criando preconceitos contra esta nova idéia. Por que fazemos isso? Isto é uma defesa psicológica, pois assumir que estar errados causa um desconforto, uma certa sensação de inferioridade, e queremos fugir deste ataque à nossa auto-estima. Quando alguém não está seguro de si mesmo, ridiculariza as coisas que o ameaçam. Isto torna ainda mais difícil para a pessoa fazer um julgamento racional e equilibrado, e leva o ser humano a tomar muitas vezes decisões completamente equivocadas.

Portanto, a lição que tiramos de Korach é não ridicularizar o que não conhecemos. Precisamos ser humildes e saber que, antes de fazer qualquer julgamento precipitado, é preciso questionar e refletir bastante na vida.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 18 de junho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ SHELACH 5769

BS"D
QUEM DECIDE? - PARASHÁ SHELACH 5769 (19 de junho de 2009)

O rabino Eliahu da cidade de Vilna, na Lituânia, mais conhecido como o Gaon de Vilna, foi um dos maiores sábios de sua geração, e começou muito cedo a mostrar sua genialidade. Aos 6 anos ele fez a sua primeira prédica, diante de uma enorme público que se encontrava na sinagoga na noite de Shabat. E durante toda sua vida ele se destacou no estudo da Torá e no zelo que tinha pelo cumprimento impecável das Mitzvót.

Um pouco antes de Rosh Hashaná, no ano de 1797, ele adoeceu e o seu médico, um judeu religioso, veio examiná-lo. Como na época ainda não existia estetoscópio, o médico encostou o ouvido no peito do paciente para escutar seu coração e seu pulmão, mas escutou um chiado estranho. Quando levantou os olhos, viu que o rabino, mesmo no leito de morte, pronunciava palavras de Torá sem parar.

E a saúde do Gaon de Vilna foi piorando a cada dia. Era o quarto dia da festa de Sucót, e parecia que a vida dele chegava ao fim. Ele estava rodeado pelos familiares e por muitos de seus alunos, e havia pedido para que sua cama fosse levada para dentro da Sucá, onde poderia cumprir mais esta Mitzvá. De repente, o Gaon de Vilna ficou sério, segurou em suas mãos os fios do seu Tsitsit e começou a chorar muito. Os alunos se entreolharam assustados com a reação do rabino. Então, juntando todas as suas forças, ele explicou:

- Como é difícil partir deste mundo, o mundo dos atos. Aqui, com algumas poucas moedas eu posso cumprir esta linda Mitzvá de vestir o Tsitsit e com isso chegar em altos níveis espirituais de proximidade com o Criador do mundo. Mas para onde eu estou indo agora, o mundo das almas, nem com todo dinheiro do mundo eu terei esta chance.

E estas foram as últimas palavras do Gaon de Vilna.
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A Parashá desta semana, Shelach, começa nos descrevendo uma das piores tragédias que ocorreram ao povo judeu, cujas consequências ainda são sentidas até os nossos dias. Quando os judeus se aproximaram de Israel, após atravessarem o deserto, não confiaram na promessa de D'us de que a Terra era boa e exigiram o envio de espiões. Os espiões voltaram falando mal da terra, dizendo, por exemplo, que havia gigantes e cidades fortemente muradas, o que tornava sua conquista impossível. Era dia 9 do mês judaico de Av, e o povo inteiro chorou. Como o povo chorou sem motivo, D'us jurou que aquele dia seria um dia de choro para todas as gerações. E foi justamente nesta data que grandes tragédias aconteceram ao povo judeu, como a destruição dos dois Templos Sagrados e a expulsão dos judeus da Espanha e Portugal em 1492.

No final da Parashá, a Torá traz o último versículo do Shemá Israel, onde está contida a Mitzvá de Tsitsit. Se prestarmos atenção, veremos que a mesma linguagem foi utilizada nas duas porções da Torá, como se estivesse conectando os dois eventos. Quando a Torá fala sobre os espiões, utiliza a linguagem "Veiaturu", que significa "espionaram", enquanto o trecho do Shemá Israel também utiliza a mesma linguagem, quando nos comanda a não seguir nossos corações e nossos olhos ("Ló Taturu"). Qual a conexão entre o erro dos espiões e não seguir o coração e os olhos? E qual a conexão entre o erro dos espiões e a Mitzvá de Tsitsit?

Antes de tudo precisamos entender exatamente qual foi o erro dos espiões. Afinal, eles foram enviados para espionar a terra de Israel, ato necessário e comumente utilizado por líderes de vários povos antes de iniciar uma guerra de conquista. Inclusive Yoshua, que liderou o povo judeu depois de Moshé, também mandou espiões para a terra de Israel, mas a Torá não descreve este ato como algo negativo. E se o problema foi por terem falado mal da terra, muitas das coisas negativas que eles contaram eram verdade, como os habitantes gigantes e as cidades fortemente protegidas por muralhas. Então qual foi o erro deles?

Explica o livro Lekach Tov que os espiões tinham a única função de reunir informações e transmiti-las a Moshé, o líder do povo, o único que conhecia realmente o potencial dos judeus e as chances de sucesso na batalha e, portanto, o único que estava apto a tomar as decisões de forma correta. Porém, os espiões não se limitaram à sua função e tomaram sobre si a responsabilidade de chegar sozinhos às conclusões e decisões. O erro não foi terem visto gigantes, o erro foi terem decidido sozinhos que não tinham força para subir contra os povos que moravam em Israel. Além disso, eles deveriam ter contado o que viram apenas para Moshé, ao invés de causar pânico contando tudo diretamente ao povo judeu.

Apesar de tirarmos muitos ensinamentos sobre as grandes consequências do ato dos espiões, a Torá traz neste episódio um ensinamento muito mais profundo. Explicam os nossos sábios que o ser humano é considerado um "micro-cosmos", isto é, os elementos que existem no mundo também estão presentes dentro de nós. Nossa alma é composta por um verdadeiro exército de inclinações, vontades e instintos que constantemente lutam entre si. Algumas destas forças dominam, outras são dominadas. Algumas são mais fortes, outras são mais fracas. Para cada uma destas forças existe um propósito e uma função, e elas são utilizadas pelo ser humano para controlar seu corpo e sua alma.

Também no nosso "micro-cosmos" enviamos espiões para olhar o mundo material e nos ensinar sobre o lugar onde vivemos. Estes espiões são os nossos cinco sentidos, e através deles captamos as informações de tudo o que acontece à nossa volta. Todas estas informações são captadas e transmitidas ao cérebro, o nosso tomador de decisões, que baseado nestes relatos decide o que é o mais correto a ser feito em cada instante. Todo momento em que os espiões trabalham obedecendo ao "tomador de decisões", elas nos ajudam a fazer o que é correto.

O problema começa quando os nossos espiões decidem se desviar do seu trabalho e receber sobre si a tarefa de tomar decisões sozinhos. Se recebemos estas sugestões sem verificar com a nossa parte intelectual, temos grande chance de nos perder espiritualmente, pois as decisões baseadas nos sentidos têm a sua raiz no mundo material, e não são baseadas em diretrizes espirituais corretas. É por isso que é utilizada a mesma linguagem no erro dos espiões e no final do Shemá Israel, para nos ensinar que, da mesma forma como ocorreu no deserto, a fonte da maioria dos nossos erros é deixar que o coração e os olhos, os nossos "espiões", tomem as decisões, muitas vezes com graves consequências espirituais.

Para nos ajudar a não cair neste erro, D'us nos deu a Mitzvá de Tsitsit. Mas como ela nos ajuda? Quando temos algo muito importante para fazer e não queremos esquecer, amarramos um fio no dedo para que a cada instante aquele fio nos recorde da nossa obrigação. O Tsitsit também funciona assim, são os fios que nos lembram a cada instante das nossas obrigações. É a lembrança de que a única forma de cumprir o nosso objetivo é trazendo as informações captadas pelos sentidos para o lado racional, e não andar atrás das decisões dos nossos olhos e do nosso coração, que são baseadas apenas no emocional.

Tomamos decisões o dia inteiro, e precisamos prestar atenção se estamos tomando as decisões de forma racional ou emocional. E mais do que isso, as decisões racionais precisam estar embasadas nos ensinamentos da Torá, a única fonte que temos para saber o que é certo e o que é errado. Quanto mais uma pessoa estuda Torá, mais ele tem condições de tomar decisões de maneira correta.

Em hebraico, cérebro é "Moach", Coração é "Lev" e Fígado é "Caved". O cérebro representa as decisões racionais, o coração representa os sentimentos e o fígado representa os desejos. Quando colocamos na ordem correta, isto é, primeiro o cérebro e depois o coração e o fígado, as iniciais em hebraico formam a palavra "Melech", que significa "rei", pois quando é o cérebro quem comanda, temos auto-controle e reinamos sobre nós mesmos. Mas se mudamos a ordem, isto é, colocamos primeiro o coração antes do cérebro, as iniciais formam a palavra "Lemech", que significa "palhaço". Por que palhaço? Por que assim podemos estamos brincando com a nossa eternidade.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 11 de junho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ BEHALOTECHÁ 5769

BS"D

SEGUINDO AS ORIENTAÇÕES MÉDICAS - PARASHÁ BEHALOTECHÁ 5769 (10 de junho de 2009)

"Quando a gripe suína começou a se espalhar, Rafael, Paulo e Rogério, que eram amigos de infância, ficaram preocupados. Esta gripe, se não fosse devidamente tratada, poderia causar a morte da pessoa contaminada. Certo dia Rafael começou a se sentir mal. Ligou para os amigos e descobriu que eles também não estavam muito bem. Seria a tal gripe suína? Desconfiado, Rafael correu ao hospital, onde foi constatado que ele havia realmente contraído a doença. Após o diagnóstico, o médico receitou uma série de remédios, instruindo exatamente os horários e as quantidades de cada um. Rafael seguiu ao pé da letra tudo o que o médico orientou e em pouco tempo estava completamente curado.

Paulo, com sintomas muito parecidos com os de Rafael, foi ao mesmo médico indicado por ele. A mesma doença foi diagnosticada e o médico o instruiu a tomar os mesmos medicamentos. Mas Paulo, que se interessava muito pela medicina, achava que conhecia muito e não gostou da orientação do médico. Tomou alguns dos remédios, outros ele achou desnecessário e não tomou. Também as quantidades ele não seguiu à risca, os que ele achava mais fortes ele tomou em maior quantidade, outros ele decidiu diminuir a quantidade prescrita. Após um tempo a doença piorou, ele precisou ser internado e quase morreu. Passou por um longo e doloroso tratamento no hospital até se curar, mas ficou com sequelas para o resto da vida.

Já Rogério achava que os médicos não sabiam de nada. Decidiu que nem iria ao hospital, pois baseado nos sintomas, já sabia qual era a doença. Procurou remédios alternativos, sem nenhum aconselhamento médico, e apesar da doença piorar cada vez mais, ele estava tranqüilo, pois achava que sabia o que estava fazendo. Infelizmente depois de pouco tempo seu quadro de saúde piorou muito, e ele descobriu que estava com outra doença. Quando foi finalmente internado no hospital, já não havia mais nada para fazer..."

O mesmo ocorre espiritualmente. Muitas vezes achamos que sabemos tudo sobre a nossa alma, e ao invés de nos aconselhar, tomamos nossas decisões espirituais sozinhos. Com isso, podemos estar colocando nossa vida espiritual, que envolve a eternidade, em risco.
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A Parashá Behalotechá, que lemos nesta semana, começa nos ensinando sobre as leis do acendimento da Menorá, trabalho que era feito por Aharon, o Cohen Gadol (Sumo sacerdote). E após a explicação de como deveria ser o acendimento, o versículo diz: "E assim fez Aharon" (Bamidbar 8:3). Rashi, comentarista da Torá, nos explica que este foi um grande elogio para Aharon por ele não ter mudado nada do que lhe foi ordenado por D'us. Mas isso é um elogio? Sabemos do imenso nível espiritual de Aharon, o primeiro Cohen Gadol do povo judeu, escolhido diretamente por D'us. Fazer exatamente o que D'us pediu não seria algo óbvio até mesmo para uma pessoa simples?

O ser humano muitas vezes vive de maneira perigosa, acreditando que sabe tudo e que pode se apoiar em seu intelecto para tomar sozinho decisões em todas as áreas da vida. Uma das áreas onde mais ocorrem tragédias é na medicina, e muitas pessoas morrem por não tratar de doenças que tinham uma cura simples. Muitos doentes escutam que outra pessoa teve os mesmos sintomas e tomou um determinado remédio, e resolvem se automedicar. Outros vão além, pedem orientações médicas mas não seguem, por preguiça ou por pensar que sabem mais do que o médico, sem imaginar que, neste ato tolo, podem estar colocando suas vidas em risco.

A nossa vida no mundo material se assemelha muito a um doente que vai ao hospital para curar uma doença. Todos nós temos algum "conserto" espiritual para fazer, algo que precisamos preencher na nossa alma, e este é o motivo da nossa vinda para este mundo. Da mesma forma que o médico diagnostica a doença e prescreve um medicamento, assim também D'us sabe das nossas limitações e por isso nos deu as Mitzvót, o "tratamento" espiritual para nossa alma. Elas são dosadas de forma precisa, suprindo todas as nossas necessidades espirituais. E da mesma forma que muitos doentes não seguem a prescrição médica, colocando suas vidas em risco, muitos seres humanos também preferem viver sem seguir as orientações do Criador do mundo, colocando em risco todo o objetivo de suas vindas para este mundo. Mas se é algo tão óbvio seguir o que D'us nos "prescreveu", por que tantos não seguem?

O conhecimento tecnológico avança cada vez mais rápido. Temos prédios cada vez mais altos, carros cada vez mais rápidos e equipamentos cada vez mais precisos. Dominamos a terra, o mar e os céus com as nossas máquinas maravilhosas. Mas muitas vezes o sucesso sobe à cabeça do ser humano e ele acha que também pode dominar áreas onde não tem absolutamente nenhum conhecimento. É justamente o que ocorre na área espiritual. Fazemos cálculos e mudamos Mitzvót, querendo "aperfeiçoar" o que D'us nos entregou. Descartamos Mitzvót "inúteis", modificamos outras Mitzvót para que se adequem ao nosso estilo de vida, e pensamos que assim estamos cumprindo o nosso objetivo. Mas o grande erro que cometemos é não saber que as Mitzvót foram entregues para nossa alma, não para o nosso corpo. Se não conhecemos nada sobre como funciona o mundo espiritual, como podemos aplicar idéias do mundo material para o mundo espiritual? Ao querer "melhorar" o que D'us nos deu, certamente estamos estragando.

Muitas pessoas grandes na história também cometeram o mesmo erro, entre eles Adam Harishon (Adão), que apesar de ter escutado explicitamente de D'us que não podia comer do fruto proibido, ele comeu, pensando que poderia fazer ainda melhor do que D'us havia pedido. Com isso, ele caiu espiritualmente e deixou de completar seu trabalho espiritual. É por isso que a Torá elogia Aharon, pois justamente por ser uma pessoa espiritualmente muito grande ele poderia ter pensado em mudar a Mitzvá do acendimento da Menorá, poderia ter imaginado que era possível fazer ainda melhor do que D'us havia pedido. Mas ele passou no teste, e fez exatamente o que havia sido instruído.

Alguns movimentos dentro do judaísmo, como o Reformismo, caíram neste erro de tentar "modernizar" as Mitzvót que D'us nos entregou no Monte Sinai, com o pretexto de que precisavam acompanhar a evolução da tecnologia. Mas será que D'us, que conhece o presente, passado e futuro, não sabia que o mundo ia se modernizar? Será que Ele nos entregou uma Torá com validade limitada, apenas para a época do deserto, nos deixando sem saber o que fazer nas futuras gerações? Será que a idéia de "modernizar" o judaísmo não foi motivada por uma vontade subconsciente de se livrar das obrigações que temos na vida? Pois, por mais que o mundo material tenha se modernizado, a nossa alma não mudou nos últimos três mil anos.

A Torá não é apenas um livro, é o nosso manual de instruções de vida, a única fonte que nos ensina como funciona a interação entre o corpo e a alma. Ela não foi entregue só para a geração do deserto, foi entregue para cada um de nós. A Torá, escrita diretamente pelo Criador do mundo, não necessita de nenhum retoque nem reforma. Somos nós que, com certeza, precisamos melhorar muito em nossas vidas, começando pela humildade de saber que não temos mais conhecimento do que D'us.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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Este E-mail é dedicado à Refua Shlema (pronta recuperação) de: Frade (Fanny) bat Chava, Chana bat Rachel, Léa bat Chana; Pessach ben Sima, Eliashiv ben Tzivia; Chedva Rina bat Brenda; Israel Itzchak ben Sima; Eliahu ben Sara Hava; Moshe Leib ben Tzipa; Avraham David ben Reizel; Yechezkel ben Sarit Sara Chaya; Sara Beila bat Tzvia; Estela bat Arlete; Ester bat Feige; Sofia bat Carol; Moshe Yehuda ben Sheva Ruchel; Esther Damaris bat Sara Maria; Yair Chaim ben Chana; Dalia bat Ester; Ghita Leia Bat Miriam; Chaim David ben Messodi; David ben Beila; Léia bat Shandla; Dobe Elke bat Rivka Lie; Avraham ben Linda; Tzvi ben Liba e Menachem Tzvi ben Mashe; Chaim Verahamin ben Margarete; Rivka bat Brucha; Esther bat Miriam.
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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) do meu querido e saudoso avô, Ben Tzion (Benjamin) ben Shie Z"L, que lutou toda sua vida para manter acesa a luz do judaísmo, principalmente na comunidade judaica de Santos. Que possa ter um merecido descanso eterno.

Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) de: Avraham ben Ytzchak, Joyce bat Ivonne, Feiga bat Guedalia, Chana bat Dov, Kalo (Korin) bat Sinyoru (Eugeni), Leica bat Rivka, Guershon Yossef ben Pinchas; Dovid ben Eliezer, Reizel bat Beile Zelde, Yossef ben Levi, Eliezer ben Mendel, Menachem Mendel ben Myriam, Ytzhak ben Avraham, Mordechai ben Schmuel, Feigue bat Ida, Sara bat Rachel, Perla bat Chana, Moshé (Maurício) ben Leon, Reizel bat Chaya Sarah Breindl; Hylel ben Shmuel; David ben Bentzion Dov, Yacov ben Dvora; Moussa ben Eliahou Cohen, Naum ben Tube (Tereza); Naum ben Usher Zelig; Laia bat Morkdka Nuchym; Rachel bat Lulu; Yaacov ben Zequie; Moshe Chaim ben Linda; Mordechai ben Avraham; Chaim ben Rachel; Beila bat Yacov; Itzchak ben Abe; Eliezer ben Arieh; Yaacov ben Sara.
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Para inscrever ou retirar nomes da lista, para indicar nomes de pessoas doentes ou Leilui Nishmat (elevação da alma), e para comentar, dar sugestões, fazer críticas ou perguntas sobre o E-mail de Shabat,favor mandar um E-mail para ravefraimbirbojm@gmail.com
(Observação: para Refua Shlema deve ser enviado o nome da mãe, mas para Leilui Nishmat deve ser enviado o nome do pai).


quinta-feira, 4 de junho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ NASSÓ 5769

BS"D
DAQUI NADA SE LEVA – PARASHÁ NASSÓ 5769 (05 de junho de 2009)

O Sr. Waiss (nome fictício) era um judeu muito rico que, durante toda sua vida, doou parte de sua fortuna para sinagogas, centros de estudo de Torá e Tzedaká (caridade) aos pobres. Um pouco antes de falecer, ele relatou aos parentes e amigos que deixaria dois testamentos para serem lidos depois de sua morte, um antes do enterro e o outro depois.

Após algum tempo ele faleceu, e imediatamente o primeiro testamento foi aberto. Nele, o Sr. Waiss fazia um pedido estranho. Ele pedia para ser enterrado vestindo meias. Aquele pedido não era apenas estranho, era muito problemático, pois segundo a lei judaica ninguém pode ser enterrado vestindo nenhuma peça de roupa. Por outro lado os parentes não sabiam o que fazer, pois se tratava do último pedido de um morto, e talvez por este motivo ele pudesse ser atendido.

Após muitas discussões, o caso foi parar nos grandes rabinos, que após estudarem bem os dois lados da situação deram o veredicto: apesar de ser o último pedido do falecido, ele deveria ser enterrado de acordo com a lei judaica, isto é, sem as meias. E assim foi feito.

Após o enterro, os parentes abriram o segundo testamento, e assim estava escrito:

"Se agora vocês estão abrindo este segundo testamento, é porque meu corpo já foi enterrado. E apesar de eu ter pedido para ser enterrado com as meias, eu sei que vocês me enterraram sem as meias, afinal, eu havia consultado alguns rabinos sobre a lei judaica neste assunto e sabia que não é permitido enterrar uma pessoa vestindo qualquer peça de roupa, mesmo se este for seu último pedido. Então por que eu pedi para ser enterrado com as meias? Para ensinar a todos a lição mais importante de suas vidas: com todo o dinheiro que eu tive, incluindo carros, casas e indústrias, deste mundo eu estou saindo sem levar nem mesmo as minhas meias". (História Real)
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Na Parashá desta semana, Nassó, a Torá nos ensina sobre a obrigação de cada judeu doar uma pequena parte de suas possessões como presente para os Cohanim (sacerdotes), que se dedicavam apenas aos trabalhos do Mishkan (Templo Móvel) e, portanto, não tinham nenhuma fonte de renda. E assim diz o versículo "E as santidades de todo homem, dele serão; o que o homem der ao Cohen, dele será" (Bamidbar 5:10). Mas não se entende o final do versículo, pois se está escrito que o homem dará o presente ao Cohen, não é óbvio que será do Cohen? Explicam os nossos sábios que a palavra "dele" se refere à pessoa que está doando, e não ao Cohen. Mas então volta novamente a dificuldade de entender o versículo, pois se o homem doar para o Cohen, como pode ser que mesmo assim continuará sendo dele?

Investimos muitos esforços para construir fortunas neste mundo. Precisamos sempre mais, nunca o que temos é suficiente, nunca estamos satisfeitos com o que conquistamos. Nosso copo nunca está meio cheio, está sempre meio vazio. E para conseguir isso, muito vezes abrimos mão de estar com nossas famílias, de levar uma vida saudável, de nos dedicarmos ao nosso crescimento espiritual. Será que todos estes esforços para conseguir um pouco mais de dinheiro realmente valem a pena?

Há alguns anos atrás havia uma brincadeira que fazia muito sucesso na televisão, chamada "Cabine do Silvio Santos". Como funcionava? Uma pessoa entrava em uma cabine completamente à prova de som, e do lado de fora o Silvio Santos dava opções para a pessoa trocar objetos. Por exemplo ele perguntava: "Você troca este relógio por um ventilador?". Neste momento uma luz vermelha acendia na cabine e a pessoa, sem saber nada do que estava acontecendo do lado de fora, tinha que responder "Sim" ou "Não". Muitas vezes pessoas trocaram, na última rodada, um carro por uma lata de refrigerante. Por que? Pois não sabiam o que estavam fazendo, não sabiam o valor do que tinham na mão e pelo que estavam trocando. Esta brincadeira nos ensina que muitas vezes podemos estar fazendo o mesmo erro, quando trocamos os prazeres eternos do Mundo Vindouro por prazeres passageiros deste mundo.

Explicam os nossos sábios que, apesar de todos os nossos esforços no mundo material, quando chegar o momento de partir deste mundo, não levaremos nada, a não ser os nossos bons atos que fizemos enquanto estávamos vivos. Então por que não dedicamos nosso tempo para juntar bons atos e Mitzvót para nossa vida eterna? Pois nossa má-inclinação nos engana, nos dá a sensação de que tudo o que adquirimos no mundo material nos pertence de verdade. A nossa má-inclinação nos encobre a verdade de que na hora de ir embora seremos obrigados a deixar todas as possessões materiais, e o que nos acompanhará para toda a eternidade serão apenas nossos atos espirituais.

É por isso que o versículo termina dizendo que o presente doado para o Cohen continuará sendo do próprio doador, pois mesmo que o presente vá para o Cohen, os méritos para toda a eternidade ficam com o doador. Dinheiro pode ir e vir, pessoas ganham fortunas do dia para a noite, pessoas perdem bilhões de uma hora para outra. A única forma de garantir que o dinheiro ficará para sempre conosco é doando e fazendo bondades com ele. Neste momento de crise econômica, certamente o melhor investimento que podemos fazer com nosso dinheiro é dar Tzedaká.

Será que nós temos consciência de que realmente o mais importante são os atos espirituais do que nossas possessões materiais? Quando compramos um celular de última geração, não temos dó de gastar quatrocentos dólares, ao contrário, ficamos felizes, mas será que ficamos felizes em gastar quatrocentos dólares em um Tefilin? Ficamos contentes ao comprar por quarenta reais o livro do Harry Potter, mas será que ficamos tão contentes assim em gastar quarenta reais em um Sidur (livro de rezas)? Precisamos parar e refletir, para saber realmente em que nível estamos.

Da próxima vez em que dermos Tzedaká, devemos lembrar que não é quem recebe que deve nos agradecer, e sim nós é que devemos agradecer a ele. Pois quem recebe a Tzedaká recebe alguns reais, mais quem dá recebe vida eterna.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 28 de maio de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - SHAVUOT 5769

BS"D
QUANTO VOCÊ VALE? - SHAVUOT 5769 (28 de maio de 2009)

Um jovem procurou seu professor porque se sentia um inútil, achava que não conseguia fazer nada direito. Perguntou ao professor como poderia fazer para que os outros o valorizassem. O professor, ao invés de responder, tirou um anel do dedo e falou:

- Sinto muito, mas antes de tratar do seu problema, preciso resolver algo urgente, e talvez você possa me ajudar.

Deu para o aluno o anel e recomendou que ele fosse até o mercado e o avaliasse, pois estava precisando urgentemente de dinheiro para pagar uma dívida. Orientou o rapaz a conseguir por ele o máximo que pudesse, mas não aceitar menos do que uma moeda de ouro.

O rapaz pegou o anel e foi oferecê-lo aos mercadores. Eles olhavam com algum interesse, mas quando o rapaz mencionava o valor de uma moeda de ouro, alguns riam, outros saíam sem ao menos olhar para ele. Abatido pelo fracasso, o rapaz retornou ao professor dizendo que o máximo que lhe ofereceram foram duas ou três moedas de prata. Ouro, nem pensar.

O professor então sugeriu que o jovem fosse procurar um joalheiro experiente para uma correta avaliação. E fez outra recomendação: não importava o valor que ele lhe oferecesse, o anel não deveria ser vendido. O jovem foi, um tanto desanimado. O joalheiro, depois de examinar com uma lupa a jóia, pesou-a e lhe disse:

- Fale ao seu professor que, se ele quiser vender agora, não posso lhe dar mais do que cinqüenta e oito moedas de ouro. Mas se ele puder esperar mais tempo, posso chegar a setenta moedas de ouro.

O aluno, completamente assustado com o alto valor oferecido, recusou a oferta e voltou correndo para dar a boa notícia ao professor. Depois de ouvi-lo, o professor falou:

- Sente-se, meu rapaz. Você é como este anel, uma jóia única e valiosa. Como toda jóia preciosa, somente pode ser avaliada por quem realmente entende do assunto. Por acaso você pensou que qualquer um poderia descobrir o seu verdadeiro valor?"

Todos somos como esta jóia, muito valiosos. No entanto, andamos por todos os mercados da vida, esperando que pessoas inexperientes nos valorizem.

"NINGUÉM PODE NOS FAZER SENTIR INFERIORES SEM O NOSSO CONSENTIMENTO"
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Nesta quinta-feira de noite (28 de maio) começamos a comemorar a festa de Shavuot, dia em que revivemos a entrega da Torá no Monte Sinai. Dia em que D'us se revelou diante de todo o povo judeu, milhares de pessoas, e todos recebemos diretamente Dele os 10 Mandamentos. Mas observando o primeiro mandamento da Torá, surge uma dúvida, pois assim está escrito: "Eu sou Hashem, teu D'us, que tirei você da terra do Egito, da casa da escravidão" (Shemot 20:2). Se os mandamentos foram entregues diante de tantas pessoas, por que está escrito no singular, "que tirei você"?

Desde o nascimento, passamos a vida inteira buscando ser alguém especial. Por que temos esta necessidade tão forte dentro de nós? Explicam os nossos sábios que este é um potencial espiritual que D'us colocou dentro de nós quando nos criou, como diz o versículo "E criou D'us o homem à sua imagem" (Bereshit 1:27). O que significa que fomos criados à imagem de D'us? Uma das explicações é que, da mesma forma que D'us é único, assim também Ele nos deu o potencial de sermos únicos. A nossa auto-estima é a expressão do quanto estamos alcançando nossa busca de sermos alguém único e especial.

Porém, vemos que algo está errado, pois o sonho, na maioria dos casos, se transforma em pesadelo. Uma das doenças mais terríveis que ataca o ser humano é a depressão, e uma das principais causas é a falta de auto-estima. Os sintomas mais perceptíveis são pessoas dependentes de bajulação, muito sensíveis a qualquer tipo de crítica, constantemente buscando auto-afirmação e com a tendência de procurar sempre em quem colocar a culpa. Se D'us nos criou com o potencial de sermos únicos e especiais, por que tantas pessoas não conseguem alcançá-lo?

A resposta é que a definição de auto-estima segundo a cultura ocidental é diferente da visão judaica. De acordo com a cultura ocidental na qual vivemos, o valor de uma pessoa não é algo intrínseco, e sim depende do quanto a pessoa contribui para a sociedade. A pessoa vale de acordo com o que ela produziu, e não de acordo com o seu potencial. Por isso vivemos em constante competição, sempre nos comparando com os outros. Limitamos nosso valor ao que fizemos e ao que temos, ao contrário de definir nosso valor de acordo com quem somos e o que podemos produzir. A consequência é que muitas vezes deixamos de ser nós mesmos, vivemos apenas de aparências. Passamos a nos sentir apenas "mais um tijolo no muro", mais um número no meio da multidão. Assim os alemães tentaram nos destruir psicologicamente durante o Holocausto, apagando nossa individualidade ao nos transformar em números tatuados no braço.

O judaísmo, por outro lado, nos motiva ao ensinar que nosso valor é algo intrínseco, e está relacionado ao entendimento de que somos únicos e, portanto, valiosos. A Torá nos ensina a estarmos conscientes da nossa capacidade, do que podemos construir, do nosso potencial. E justamente na entrega da Torá este conceito foi ressaltado, pois apesar de D'us ter entregado os mandamentos diante do povo judeu inteiro, Ele falou no singular, isto é, falou com o coração de cada judeu, para ensinar que cada um é uma criatura única e insubstituível.

A Torá descreve que havia 600 mil pessoas na entrega da Torá. E um Rolo da Torá também tem aproximadamente 600 mil letras. Isto não é uma coincidência. Mesmo com 600 mil letras, se uma letra de um Rola da Torá for apagado, esta Torá se torna "psulá" (inválida) e não pode mais ser utilizada em leituras públicas até que seja consertada. Assim também acontece com o povo judeu, somos tão especiais, tão únicos, que se cada um de nós não cumprir seu trabalho espiritual, não há ninguém que pode substituir nem preencher esta falta. Somos únicos, somos insubstituíveis. Esta é a nossa verdadeira auto-estima, este é o nosso verdadeiro valor.

Todos nós temos defeitos, todos nós cometemos erros. Mas isso não define nosso valor, pois nossos erros em geral não estão enraizados na nossa essência. Temos que focar no nosso potencial, no que somos de verdade. Fomos criados à imagem de D'us, temos dentro de nós uma alma infinita, uma parte do Criador. Shavuot reforça o nosso orgulho, a nossa importância para o mundo, a responsabilidade de cada um de nós ter um trabalho único e especial.

Nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Se eu não for por mim, quem será por mim? E se eu for só por mim, o que eu sou? E se não agora, quando?". "Se eu não for por mim, quem será por mim?" significa que devemos estar focados no nosso valor intrínseco, não importa o que aconteça, não importa o que as pessoas pensem. "E se eu for só por mim, o que eu sou?" significa que devemos focar no que somos capazes, no nosso potencial de trazer vida para os outros. "E se não agora, quando?" significa que o mais importante não é ficar atolado no passado nem intimidado com o futuro. O mais importante é maximizar o presente, saber que o agora é o momento mais importante das nossas vidas.

CHAG SAMEACH e SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 21 de maio de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ BAMIDBAR 5769

BS"D

O VERDADEIRO VENCEDOR - PARASHÁ BAMIDBAR 5769 (22 de maio de 2009)

Quando chegam as Olimpíadas, o mundo inteiro pára, por quase um mês, para acompanhar as emocionantes competições. Mas talvez um dos espetáculos mais bonitos do planeta passa despercebido da grande maioria das pessoas. Depois das Olimpíadas são realizadas as Paraolimpíadas, isto é, Olimpíadas especiais para pessoas portadoras de deficiências físicas, estes sim verdadeiros vencedores, que conseguiram superar suas limitações e dar a volta por cima.

E algo incrível aconteceu há alguns anos, nas Paraolimpíadas de Seattle, quando nove participantes, todos com algum tipo de deficiência, alinharam-se para a largada da corrida dos 100 metros rasos. Ao sinal, todos partiram, não em disparada por causa de suas limitações, mas com vontade de dar o melhor de si e terminar a corrida em primeiro lugar.

Todos corriam e se esforçavam até que, de repente, um rapaz tropeçou, caiu e começou a chorar. Em qualquer corrida, os outros competidores ficariam felizes, afinal, era um concorrente a menos. Mas não naquela corrida. Quando os outros oito competidores ouviram o choro daquele rapaz, diminuíram o passo e olharam para trás. Então algo incrível aconteceu: todos eles pararam e voltaram para ajudar o garoto. Uma das moças, com Síndrome de Dawn, ajoelhou-se, deu um beijo no rapaz e disse: "Pronto, agora vai sarar". E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. O estádio inteiro levantou, e os aplausos duraram muitos minutos.

Durante as Olimpíadas, muitos competidores alcançam a glória com suas vitórias fantásticas, mas após algum tempo ninguém se lembra mais quem foi o campeão, muito menos quem foi o segundo colocado. Mas incrivelmente as pessoas que estavam ali em Seattle, naquele dia, nunca mais se esqueceram daquela corrida. Por que? Pois, lá no fundo, nós sabemos que o que importa na vida não é ganhar sozinho. O que importa de verdade é ajudar os outros, para que possamos vencer todos juntos. Naquela corrida não houve apenas um vencedor, todos foram vencedores. Não venceram apenas uma corrida, venceram um dos maiores desafios do ser humano: superar seu egoísmo e sua inveja.
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Nesta semana começamos o quarto livro da Torá, Bamidbar, que descreve muitos detalhes das viagens do povo judeu durante os 40 anos no deserto. E a Parashá Bamidbar trata, entre outros assuntos, da posição de cada uma das tribos durante as viagens. A Torá nos descreve algo interessante sobre o posicionamento do povo judeu: "Cada homem, sob sua bandeira, de acordo com a insígnia da casa de seus pais" (Bamidbar 2,2). A idéia de bandeiras nos faz lembrar das torcidas de futebol ou do desfile dos países na abertura das Olimpíadas. Mas certamente não foi esta a motivação com a qual os judeus carregavam bandeiras, pois ninguém no deserto estava torcendo para nenhuma equipe. Afinal, qual o motivo de cada tribo ter uma bandeira?

Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que no momento em que D'us se revelou ao povo judeu no Monte Sinai, 220 mil anjos desceram para presenciar a entrega da Torá, todos organizados em grupos, e cada grupo identificado por uma bandeira. Os judeus, que neste momento haviam chegado a elevados níveis de profecia, puderam ver esta cena espiritual maravilhosa e imediatamente desejaram também que, durante as viagens pelo deserto, suas tribos estivessem identificadas por bandeiras. D'us escutou os pedidos e viu que o povo judeu realmente desejava viajar com bandeiras, e por isso atendeu ao pedido deles. Imediatamente ordenou a Moshé que atribuísse para cada tribo uma bandeira. Moshé escutou as ordens de D'us, mas por dentro ele sofreu e teve medo.

Deste Midrash ficam algumas perguntas. O que significa que os anjos se dividiam em grupos sob bandeiras? O que há de tão especial nisso, que fez com que o povo judeu também desejasse viajar com bandeiras? E finalmente, se viajar com bandeiras era algo positivo, e D'us pessoalmente havia concordado, por que Moshé teve medo e até mesmo sofreu por causa disso?

Explica o livro "Lekach Tov" que existe uma grande diferença entre os anjos e os seres humanos. Os anjos são seres espirituais, e por isso entre eles não existe inveja, ódio nem competição. Quando um anjo vê uma qualidade em outro anjo, ele não o inveja, ao contrário, ele o elogia e louva sua boa qualidade. É por isso que os anjos conseguem viver em uma grande união e trabalhar em grupo, afinados como uma sinfonia, como dizemos todos os dias durante a reza da manhã: "... todos (os anjos) recebem sobre si o jugo dos Céus um do outro, e dão permissão um ao outro...". Esta união verdadeira e completa dos anjos é representada por grupos que andam unidos sob uma mesma bandeira, sem competição nem desavenças. E foi essa união que o povo judeu viu e desejou atingir.

Então por que Moshé teve tanto medo? Pois para os seres humanos, que são essencialmente materiais, inveja e competição são sentimentos normais, tornando a união entre as pessoas uma meta difícil de ser atingida. Moshé achou que a divisão das tribos sob bandeiras seria mais um motivo de divisão e disputas dentro do povo judeu.

Mas a Parashá nos mostra que aconteceu exatamente o oposto do que Moshé esperava. Ninguém reclamou do posicionamento das tribos. Os que viajavam atrás não invejaram os que viajavam na frente. Os judeus da tribo de Reuven, que eram descendentes do filho primogênito de Yaacov, não reclamaram quando D'us escolheu a tribo de Yehudá para liderar o povo judeu. Todos caminhavam juntos, unidos pelo mesmo propósito. Como isso foi possível?

Quando o povo judeu teve a visão celestial de todos os anjos unidos sob bandeiras, sem competição e sem ódio, desejaram do fundo do coração chegar naquele nível. Daqui ensinam nossos sábios um grande fundamento para nossas vidas: D'us leva a pessoa pelo caminho que ela deseja seguir. Quando queremos algo de verdade, ao ponto de estarmos dispostos a abrir mão das nossas comodidades para conseguir algo, D'us nos ajuda, e mesmo o que parecia impossível se torna realidade.

Imagine uma pessoa que está cortando uma maça com a mão direita e, por acidente, faz um corte na sua mão esquerda. Se víssemos esta pessoa, tomada de fúria, pegando a faca com a mão esquerda e fazendo um corte na mão direita como vingança, o que pensaríamos dele? Que é um maluco completo! Explica o Rav Moshe Cordovero, um grande cabalista que viveu há cerca de 450 anos, que quando nos vingamos dos outros estamos fazendo exatamente a mesma coisa. Ele explica que o grande motivo de haver no mundo tanto ódio, inveja e concorrência é por que fomos enganados desde crianças na nossa forma de ver o mundo. Fomos ensinados na escola que cada um está no mundo por si só e, portanto, temos que nos esforçar para crescer, mesmo que seja necessário derrubar quem está em volta. E com esta cabeça crescemos e entramos em um mercado de trabalho onde imperam as leis da selva, de matar ou morrer. Capitalismo selvagem, o vale tudo para se dar bem na vida. Mas o Rav Moshe Cordovero ensina que isto é um grande erro, pois na verdade dentro de cada um está contida a alma das outras pessoas. Ninguém está sozinho, um pouco de cada um está dentro de nós, e um pouco de nós está em cada pessoa do mundo. Quando fazemos mal a alguém, no fundo estamos fazendo mal a nós mesmos, estamos prejudicando a nossa parte que está dentro da outra pessoa. Quando deixamos de ajudar alguém necessitado, somos nós mesmos que estamos sofrendo. Quando maltratamos alguém, é como se tivéssemos ferindo nossa própria mão.

Por isso, a única maneira de vencer a inveja e a competição é mudando o nosso foco, enxergando que não estamos neste mundo correndo sozinhos, e somente seremos vencedores quando chegarmos ao nosso objetivo todos juntos. Pois vencer uma competição é bom, mas vencer na vida é muito melhor.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm