quinta-feira, 11 de junho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ BEHALOTECHÁ 5769

BS"D

SEGUINDO AS ORIENTAÇÕES MÉDICAS - PARASHÁ BEHALOTECHÁ 5769 (10 de junho de 2009)

"Quando a gripe suína começou a se espalhar, Rafael, Paulo e Rogério, que eram amigos de infância, ficaram preocupados. Esta gripe, se não fosse devidamente tratada, poderia causar a morte da pessoa contaminada. Certo dia Rafael começou a se sentir mal. Ligou para os amigos e descobriu que eles também não estavam muito bem. Seria a tal gripe suína? Desconfiado, Rafael correu ao hospital, onde foi constatado que ele havia realmente contraído a doença. Após o diagnóstico, o médico receitou uma série de remédios, instruindo exatamente os horários e as quantidades de cada um. Rafael seguiu ao pé da letra tudo o que o médico orientou e em pouco tempo estava completamente curado.

Paulo, com sintomas muito parecidos com os de Rafael, foi ao mesmo médico indicado por ele. A mesma doença foi diagnosticada e o médico o instruiu a tomar os mesmos medicamentos. Mas Paulo, que se interessava muito pela medicina, achava que conhecia muito e não gostou da orientação do médico. Tomou alguns dos remédios, outros ele achou desnecessário e não tomou. Também as quantidades ele não seguiu à risca, os que ele achava mais fortes ele tomou em maior quantidade, outros ele decidiu diminuir a quantidade prescrita. Após um tempo a doença piorou, ele precisou ser internado e quase morreu. Passou por um longo e doloroso tratamento no hospital até se curar, mas ficou com sequelas para o resto da vida.

Já Rogério achava que os médicos não sabiam de nada. Decidiu que nem iria ao hospital, pois baseado nos sintomas, já sabia qual era a doença. Procurou remédios alternativos, sem nenhum aconselhamento médico, e apesar da doença piorar cada vez mais, ele estava tranqüilo, pois achava que sabia o que estava fazendo. Infelizmente depois de pouco tempo seu quadro de saúde piorou muito, e ele descobriu que estava com outra doença. Quando foi finalmente internado no hospital, já não havia mais nada para fazer..."

O mesmo ocorre espiritualmente. Muitas vezes achamos que sabemos tudo sobre a nossa alma, e ao invés de nos aconselhar, tomamos nossas decisões espirituais sozinhos. Com isso, podemos estar colocando nossa vida espiritual, que envolve a eternidade, em risco.
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A Parashá Behalotechá, que lemos nesta semana, começa nos ensinando sobre as leis do acendimento da Menorá, trabalho que era feito por Aharon, o Cohen Gadol (Sumo sacerdote). E após a explicação de como deveria ser o acendimento, o versículo diz: "E assim fez Aharon" (Bamidbar 8:3). Rashi, comentarista da Torá, nos explica que este foi um grande elogio para Aharon por ele não ter mudado nada do que lhe foi ordenado por D'us. Mas isso é um elogio? Sabemos do imenso nível espiritual de Aharon, o primeiro Cohen Gadol do povo judeu, escolhido diretamente por D'us. Fazer exatamente o que D'us pediu não seria algo óbvio até mesmo para uma pessoa simples?

O ser humano muitas vezes vive de maneira perigosa, acreditando que sabe tudo e que pode se apoiar em seu intelecto para tomar sozinho decisões em todas as áreas da vida. Uma das áreas onde mais ocorrem tragédias é na medicina, e muitas pessoas morrem por não tratar de doenças que tinham uma cura simples. Muitos doentes escutam que outra pessoa teve os mesmos sintomas e tomou um determinado remédio, e resolvem se automedicar. Outros vão além, pedem orientações médicas mas não seguem, por preguiça ou por pensar que sabem mais do que o médico, sem imaginar que, neste ato tolo, podem estar colocando suas vidas em risco.

A nossa vida no mundo material se assemelha muito a um doente que vai ao hospital para curar uma doença. Todos nós temos algum "conserto" espiritual para fazer, algo que precisamos preencher na nossa alma, e este é o motivo da nossa vinda para este mundo. Da mesma forma que o médico diagnostica a doença e prescreve um medicamento, assim também D'us sabe das nossas limitações e por isso nos deu as Mitzvót, o "tratamento" espiritual para nossa alma. Elas são dosadas de forma precisa, suprindo todas as nossas necessidades espirituais. E da mesma forma que muitos doentes não seguem a prescrição médica, colocando suas vidas em risco, muitos seres humanos também preferem viver sem seguir as orientações do Criador do mundo, colocando em risco todo o objetivo de suas vindas para este mundo. Mas se é algo tão óbvio seguir o que D'us nos "prescreveu", por que tantos não seguem?

O conhecimento tecnológico avança cada vez mais rápido. Temos prédios cada vez mais altos, carros cada vez mais rápidos e equipamentos cada vez mais precisos. Dominamos a terra, o mar e os céus com as nossas máquinas maravilhosas. Mas muitas vezes o sucesso sobe à cabeça do ser humano e ele acha que também pode dominar áreas onde não tem absolutamente nenhum conhecimento. É justamente o que ocorre na área espiritual. Fazemos cálculos e mudamos Mitzvót, querendo "aperfeiçoar" o que D'us nos entregou. Descartamos Mitzvót "inúteis", modificamos outras Mitzvót para que se adequem ao nosso estilo de vida, e pensamos que assim estamos cumprindo o nosso objetivo. Mas o grande erro que cometemos é não saber que as Mitzvót foram entregues para nossa alma, não para o nosso corpo. Se não conhecemos nada sobre como funciona o mundo espiritual, como podemos aplicar idéias do mundo material para o mundo espiritual? Ao querer "melhorar" o que D'us nos deu, certamente estamos estragando.

Muitas pessoas grandes na história também cometeram o mesmo erro, entre eles Adam Harishon (Adão), que apesar de ter escutado explicitamente de D'us que não podia comer do fruto proibido, ele comeu, pensando que poderia fazer ainda melhor do que D'us havia pedido. Com isso, ele caiu espiritualmente e deixou de completar seu trabalho espiritual. É por isso que a Torá elogia Aharon, pois justamente por ser uma pessoa espiritualmente muito grande ele poderia ter pensado em mudar a Mitzvá do acendimento da Menorá, poderia ter imaginado que era possível fazer ainda melhor do que D'us havia pedido. Mas ele passou no teste, e fez exatamente o que havia sido instruído.

Alguns movimentos dentro do judaísmo, como o Reformismo, caíram neste erro de tentar "modernizar" as Mitzvót que D'us nos entregou no Monte Sinai, com o pretexto de que precisavam acompanhar a evolução da tecnologia. Mas será que D'us, que conhece o presente, passado e futuro, não sabia que o mundo ia se modernizar? Será que Ele nos entregou uma Torá com validade limitada, apenas para a época do deserto, nos deixando sem saber o que fazer nas futuras gerações? Será que a idéia de "modernizar" o judaísmo não foi motivada por uma vontade subconsciente de se livrar das obrigações que temos na vida? Pois, por mais que o mundo material tenha se modernizado, a nossa alma não mudou nos últimos três mil anos.

A Torá não é apenas um livro, é o nosso manual de instruções de vida, a única fonte que nos ensina como funciona a interação entre o corpo e a alma. Ela não foi entregue só para a geração do deserto, foi entregue para cada um de nós. A Torá, escrita diretamente pelo Criador do mundo, não necessita de nenhum retoque nem reforma. Somos nós que, com certeza, precisamos melhorar muito em nossas vidas, começando pela humildade de saber que não temos mais conhecimento do que D'us.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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quinta-feira, 4 de junho de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ NASSÓ 5769

BS"D
DAQUI NADA SE LEVA – PARASHÁ NASSÓ 5769 (05 de junho de 2009)

O Sr. Waiss (nome fictício) era um judeu muito rico que, durante toda sua vida, doou parte de sua fortuna para sinagogas, centros de estudo de Torá e Tzedaká (caridade) aos pobres. Um pouco antes de falecer, ele relatou aos parentes e amigos que deixaria dois testamentos para serem lidos depois de sua morte, um antes do enterro e o outro depois.

Após algum tempo ele faleceu, e imediatamente o primeiro testamento foi aberto. Nele, o Sr. Waiss fazia um pedido estranho. Ele pedia para ser enterrado vestindo meias. Aquele pedido não era apenas estranho, era muito problemático, pois segundo a lei judaica ninguém pode ser enterrado vestindo nenhuma peça de roupa. Por outro lado os parentes não sabiam o que fazer, pois se tratava do último pedido de um morto, e talvez por este motivo ele pudesse ser atendido.

Após muitas discussões, o caso foi parar nos grandes rabinos, que após estudarem bem os dois lados da situação deram o veredicto: apesar de ser o último pedido do falecido, ele deveria ser enterrado de acordo com a lei judaica, isto é, sem as meias. E assim foi feito.

Após o enterro, os parentes abriram o segundo testamento, e assim estava escrito:

"Se agora vocês estão abrindo este segundo testamento, é porque meu corpo já foi enterrado. E apesar de eu ter pedido para ser enterrado com as meias, eu sei que vocês me enterraram sem as meias, afinal, eu havia consultado alguns rabinos sobre a lei judaica neste assunto e sabia que não é permitido enterrar uma pessoa vestindo qualquer peça de roupa, mesmo se este for seu último pedido. Então por que eu pedi para ser enterrado com as meias? Para ensinar a todos a lição mais importante de suas vidas: com todo o dinheiro que eu tive, incluindo carros, casas e indústrias, deste mundo eu estou saindo sem levar nem mesmo as minhas meias". (História Real)
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Na Parashá desta semana, Nassó, a Torá nos ensina sobre a obrigação de cada judeu doar uma pequena parte de suas possessões como presente para os Cohanim (sacerdotes), que se dedicavam apenas aos trabalhos do Mishkan (Templo Móvel) e, portanto, não tinham nenhuma fonte de renda. E assim diz o versículo "E as santidades de todo homem, dele serão; o que o homem der ao Cohen, dele será" (Bamidbar 5:10). Mas não se entende o final do versículo, pois se está escrito que o homem dará o presente ao Cohen, não é óbvio que será do Cohen? Explicam os nossos sábios que a palavra "dele" se refere à pessoa que está doando, e não ao Cohen. Mas então volta novamente a dificuldade de entender o versículo, pois se o homem doar para o Cohen, como pode ser que mesmo assim continuará sendo dele?

Investimos muitos esforços para construir fortunas neste mundo. Precisamos sempre mais, nunca o que temos é suficiente, nunca estamos satisfeitos com o que conquistamos. Nosso copo nunca está meio cheio, está sempre meio vazio. E para conseguir isso, muito vezes abrimos mão de estar com nossas famílias, de levar uma vida saudável, de nos dedicarmos ao nosso crescimento espiritual. Será que todos estes esforços para conseguir um pouco mais de dinheiro realmente valem a pena?

Há alguns anos atrás havia uma brincadeira que fazia muito sucesso na televisão, chamada "Cabine do Silvio Santos". Como funcionava? Uma pessoa entrava em uma cabine completamente à prova de som, e do lado de fora o Silvio Santos dava opções para a pessoa trocar objetos. Por exemplo ele perguntava: "Você troca este relógio por um ventilador?". Neste momento uma luz vermelha acendia na cabine e a pessoa, sem saber nada do que estava acontecendo do lado de fora, tinha que responder "Sim" ou "Não". Muitas vezes pessoas trocaram, na última rodada, um carro por uma lata de refrigerante. Por que? Pois não sabiam o que estavam fazendo, não sabiam o valor do que tinham na mão e pelo que estavam trocando. Esta brincadeira nos ensina que muitas vezes podemos estar fazendo o mesmo erro, quando trocamos os prazeres eternos do Mundo Vindouro por prazeres passageiros deste mundo.

Explicam os nossos sábios que, apesar de todos os nossos esforços no mundo material, quando chegar o momento de partir deste mundo, não levaremos nada, a não ser os nossos bons atos que fizemos enquanto estávamos vivos. Então por que não dedicamos nosso tempo para juntar bons atos e Mitzvót para nossa vida eterna? Pois nossa má-inclinação nos engana, nos dá a sensação de que tudo o que adquirimos no mundo material nos pertence de verdade. A nossa má-inclinação nos encobre a verdade de que na hora de ir embora seremos obrigados a deixar todas as possessões materiais, e o que nos acompanhará para toda a eternidade serão apenas nossos atos espirituais.

É por isso que o versículo termina dizendo que o presente doado para o Cohen continuará sendo do próprio doador, pois mesmo que o presente vá para o Cohen, os méritos para toda a eternidade ficam com o doador. Dinheiro pode ir e vir, pessoas ganham fortunas do dia para a noite, pessoas perdem bilhões de uma hora para outra. A única forma de garantir que o dinheiro ficará para sempre conosco é doando e fazendo bondades com ele. Neste momento de crise econômica, certamente o melhor investimento que podemos fazer com nosso dinheiro é dar Tzedaká.

Será que nós temos consciência de que realmente o mais importante são os atos espirituais do que nossas possessões materiais? Quando compramos um celular de última geração, não temos dó de gastar quatrocentos dólares, ao contrário, ficamos felizes, mas será que ficamos felizes em gastar quatrocentos dólares em um Tefilin? Ficamos contentes ao comprar por quarenta reais o livro do Harry Potter, mas será que ficamos tão contentes assim em gastar quarenta reais em um Sidur (livro de rezas)? Precisamos parar e refletir, para saber realmente em que nível estamos.

Da próxima vez em que dermos Tzedaká, devemos lembrar que não é quem recebe que deve nos agradecer, e sim nós é que devemos agradecer a ele. Pois quem recebe a Tzedaká recebe alguns reais, mais quem dá recebe vida eterna.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 28 de maio de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - SHAVUOT 5769

BS"D
QUANTO VOCÊ VALE? - SHAVUOT 5769 (28 de maio de 2009)

Um jovem procurou seu professor porque se sentia um inútil, achava que não conseguia fazer nada direito. Perguntou ao professor como poderia fazer para que os outros o valorizassem. O professor, ao invés de responder, tirou um anel do dedo e falou:

- Sinto muito, mas antes de tratar do seu problema, preciso resolver algo urgente, e talvez você possa me ajudar.

Deu para o aluno o anel e recomendou que ele fosse até o mercado e o avaliasse, pois estava precisando urgentemente de dinheiro para pagar uma dívida. Orientou o rapaz a conseguir por ele o máximo que pudesse, mas não aceitar menos do que uma moeda de ouro.

O rapaz pegou o anel e foi oferecê-lo aos mercadores. Eles olhavam com algum interesse, mas quando o rapaz mencionava o valor de uma moeda de ouro, alguns riam, outros saíam sem ao menos olhar para ele. Abatido pelo fracasso, o rapaz retornou ao professor dizendo que o máximo que lhe ofereceram foram duas ou três moedas de prata. Ouro, nem pensar.

O professor então sugeriu que o jovem fosse procurar um joalheiro experiente para uma correta avaliação. E fez outra recomendação: não importava o valor que ele lhe oferecesse, o anel não deveria ser vendido. O jovem foi, um tanto desanimado. O joalheiro, depois de examinar com uma lupa a jóia, pesou-a e lhe disse:

- Fale ao seu professor que, se ele quiser vender agora, não posso lhe dar mais do que cinqüenta e oito moedas de ouro. Mas se ele puder esperar mais tempo, posso chegar a setenta moedas de ouro.

O aluno, completamente assustado com o alto valor oferecido, recusou a oferta e voltou correndo para dar a boa notícia ao professor. Depois de ouvi-lo, o professor falou:

- Sente-se, meu rapaz. Você é como este anel, uma jóia única e valiosa. Como toda jóia preciosa, somente pode ser avaliada por quem realmente entende do assunto. Por acaso você pensou que qualquer um poderia descobrir o seu verdadeiro valor?"

Todos somos como esta jóia, muito valiosos. No entanto, andamos por todos os mercados da vida, esperando que pessoas inexperientes nos valorizem.

"NINGUÉM PODE NOS FAZER SENTIR INFERIORES SEM O NOSSO CONSENTIMENTO"
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Nesta quinta-feira de noite (28 de maio) começamos a comemorar a festa de Shavuot, dia em que revivemos a entrega da Torá no Monte Sinai. Dia em que D'us se revelou diante de todo o povo judeu, milhares de pessoas, e todos recebemos diretamente Dele os 10 Mandamentos. Mas observando o primeiro mandamento da Torá, surge uma dúvida, pois assim está escrito: "Eu sou Hashem, teu D'us, que tirei você da terra do Egito, da casa da escravidão" (Shemot 20:2). Se os mandamentos foram entregues diante de tantas pessoas, por que está escrito no singular, "que tirei você"?

Desde o nascimento, passamos a vida inteira buscando ser alguém especial. Por que temos esta necessidade tão forte dentro de nós? Explicam os nossos sábios que este é um potencial espiritual que D'us colocou dentro de nós quando nos criou, como diz o versículo "E criou D'us o homem à sua imagem" (Bereshit 1:27). O que significa que fomos criados à imagem de D'us? Uma das explicações é que, da mesma forma que D'us é único, assim também Ele nos deu o potencial de sermos únicos. A nossa auto-estima é a expressão do quanto estamos alcançando nossa busca de sermos alguém único e especial.

Porém, vemos que algo está errado, pois o sonho, na maioria dos casos, se transforma em pesadelo. Uma das doenças mais terríveis que ataca o ser humano é a depressão, e uma das principais causas é a falta de auto-estima. Os sintomas mais perceptíveis são pessoas dependentes de bajulação, muito sensíveis a qualquer tipo de crítica, constantemente buscando auto-afirmação e com a tendência de procurar sempre em quem colocar a culpa. Se D'us nos criou com o potencial de sermos únicos e especiais, por que tantas pessoas não conseguem alcançá-lo?

A resposta é que a definição de auto-estima segundo a cultura ocidental é diferente da visão judaica. De acordo com a cultura ocidental na qual vivemos, o valor de uma pessoa não é algo intrínseco, e sim depende do quanto a pessoa contribui para a sociedade. A pessoa vale de acordo com o que ela produziu, e não de acordo com o seu potencial. Por isso vivemos em constante competição, sempre nos comparando com os outros. Limitamos nosso valor ao que fizemos e ao que temos, ao contrário de definir nosso valor de acordo com quem somos e o que podemos produzir. A consequência é que muitas vezes deixamos de ser nós mesmos, vivemos apenas de aparências. Passamos a nos sentir apenas "mais um tijolo no muro", mais um número no meio da multidão. Assim os alemães tentaram nos destruir psicologicamente durante o Holocausto, apagando nossa individualidade ao nos transformar em números tatuados no braço.

O judaísmo, por outro lado, nos motiva ao ensinar que nosso valor é algo intrínseco, e está relacionado ao entendimento de que somos únicos e, portanto, valiosos. A Torá nos ensina a estarmos conscientes da nossa capacidade, do que podemos construir, do nosso potencial. E justamente na entrega da Torá este conceito foi ressaltado, pois apesar de D'us ter entregado os mandamentos diante do povo judeu inteiro, Ele falou no singular, isto é, falou com o coração de cada judeu, para ensinar que cada um é uma criatura única e insubstituível.

A Torá descreve que havia 600 mil pessoas na entrega da Torá. E um Rolo da Torá também tem aproximadamente 600 mil letras. Isto não é uma coincidência. Mesmo com 600 mil letras, se uma letra de um Rola da Torá for apagado, esta Torá se torna "psulá" (inválida) e não pode mais ser utilizada em leituras públicas até que seja consertada. Assim também acontece com o povo judeu, somos tão especiais, tão únicos, que se cada um de nós não cumprir seu trabalho espiritual, não há ninguém que pode substituir nem preencher esta falta. Somos únicos, somos insubstituíveis. Esta é a nossa verdadeira auto-estima, este é o nosso verdadeiro valor.

Todos nós temos defeitos, todos nós cometemos erros. Mas isso não define nosso valor, pois nossos erros em geral não estão enraizados na nossa essência. Temos que focar no nosso potencial, no que somos de verdade. Fomos criados à imagem de D'us, temos dentro de nós uma alma infinita, uma parte do Criador. Shavuot reforça o nosso orgulho, a nossa importância para o mundo, a responsabilidade de cada um de nós ter um trabalho único e especial.

Nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Se eu não for por mim, quem será por mim? E se eu for só por mim, o que eu sou? E se não agora, quando?". "Se eu não for por mim, quem será por mim?" significa que devemos estar focados no nosso valor intrínseco, não importa o que aconteça, não importa o que as pessoas pensem. "E se eu for só por mim, o que eu sou?" significa que devemos focar no que somos capazes, no nosso potencial de trazer vida para os outros. "E se não agora, quando?" significa que o mais importante não é ficar atolado no passado nem intimidado com o futuro. O mais importante é maximizar o presente, saber que o agora é o momento mais importante das nossas vidas.

CHAG SAMEACH e SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

quinta-feira, 21 de maio de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ BAMIDBAR 5769

BS"D

O VERDADEIRO VENCEDOR - PARASHÁ BAMIDBAR 5769 (22 de maio de 2009)

Quando chegam as Olimpíadas, o mundo inteiro pára, por quase um mês, para acompanhar as emocionantes competições. Mas talvez um dos espetáculos mais bonitos do planeta passa despercebido da grande maioria das pessoas. Depois das Olimpíadas são realizadas as Paraolimpíadas, isto é, Olimpíadas especiais para pessoas portadoras de deficiências físicas, estes sim verdadeiros vencedores, que conseguiram superar suas limitações e dar a volta por cima.

E algo incrível aconteceu há alguns anos, nas Paraolimpíadas de Seattle, quando nove participantes, todos com algum tipo de deficiência, alinharam-se para a largada da corrida dos 100 metros rasos. Ao sinal, todos partiram, não em disparada por causa de suas limitações, mas com vontade de dar o melhor de si e terminar a corrida em primeiro lugar.

Todos corriam e se esforçavam até que, de repente, um rapaz tropeçou, caiu e começou a chorar. Em qualquer corrida, os outros competidores ficariam felizes, afinal, era um concorrente a menos. Mas não naquela corrida. Quando os outros oito competidores ouviram o choro daquele rapaz, diminuíram o passo e olharam para trás. Então algo incrível aconteceu: todos eles pararam e voltaram para ajudar o garoto. Uma das moças, com Síndrome de Dawn, ajoelhou-se, deu um beijo no rapaz e disse: "Pronto, agora vai sarar". E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada. O estádio inteiro levantou, e os aplausos duraram muitos minutos.

Durante as Olimpíadas, muitos competidores alcançam a glória com suas vitórias fantásticas, mas após algum tempo ninguém se lembra mais quem foi o campeão, muito menos quem foi o segundo colocado. Mas incrivelmente as pessoas que estavam ali em Seattle, naquele dia, nunca mais se esqueceram daquela corrida. Por que? Pois, lá no fundo, nós sabemos que o que importa na vida não é ganhar sozinho. O que importa de verdade é ajudar os outros, para que possamos vencer todos juntos. Naquela corrida não houve apenas um vencedor, todos foram vencedores. Não venceram apenas uma corrida, venceram um dos maiores desafios do ser humano: superar seu egoísmo e sua inveja.
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Nesta semana começamos o quarto livro da Torá, Bamidbar, que descreve muitos detalhes das viagens do povo judeu durante os 40 anos no deserto. E a Parashá Bamidbar trata, entre outros assuntos, da posição de cada uma das tribos durante as viagens. A Torá nos descreve algo interessante sobre o posicionamento do povo judeu: "Cada homem, sob sua bandeira, de acordo com a insígnia da casa de seus pais" (Bamidbar 2,2). A idéia de bandeiras nos faz lembrar das torcidas de futebol ou do desfile dos países na abertura das Olimpíadas. Mas certamente não foi esta a motivação com a qual os judeus carregavam bandeiras, pois ninguém no deserto estava torcendo para nenhuma equipe. Afinal, qual o motivo de cada tribo ter uma bandeira?

Explica o Midrash (parte da Torá Oral) que no momento em que D'us se revelou ao povo judeu no Monte Sinai, 220 mil anjos desceram para presenciar a entrega da Torá, todos organizados em grupos, e cada grupo identificado por uma bandeira. Os judeus, que neste momento haviam chegado a elevados níveis de profecia, puderam ver esta cena espiritual maravilhosa e imediatamente desejaram também que, durante as viagens pelo deserto, suas tribos estivessem identificadas por bandeiras. D'us escutou os pedidos e viu que o povo judeu realmente desejava viajar com bandeiras, e por isso atendeu ao pedido deles. Imediatamente ordenou a Moshé que atribuísse para cada tribo uma bandeira. Moshé escutou as ordens de D'us, mas por dentro ele sofreu e teve medo.

Deste Midrash ficam algumas perguntas. O que significa que os anjos se dividiam em grupos sob bandeiras? O que há de tão especial nisso, que fez com que o povo judeu também desejasse viajar com bandeiras? E finalmente, se viajar com bandeiras era algo positivo, e D'us pessoalmente havia concordado, por que Moshé teve medo e até mesmo sofreu por causa disso?

Explica o livro "Lekach Tov" que existe uma grande diferença entre os anjos e os seres humanos. Os anjos são seres espirituais, e por isso entre eles não existe inveja, ódio nem competição. Quando um anjo vê uma qualidade em outro anjo, ele não o inveja, ao contrário, ele o elogia e louva sua boa qualidade. É por isso que os anjos conseguem viver em uma grande união e trabalhar em grupo, afinados como uma sinfonia, como dizemos todos os dias durante a reza da manhã: "... todos (os anjos) recebem sobre si o jugo dos Céus um do outro, e dão permissão um ao outro...". Esta união verdadeira e completa dos anjos é representada por grupos que andam unidos sob uma mesma bandeira, sem competição nem desavenças. E foi essa união que o povo judeu viu e desejou atingir.

Então por que Moshé teve tanto medo? Pois para os seres humanos, que são essencialmente materiais, inveja e competição são sentimentos normais, tornando a união entre as pessoas uma meta difícil de ser atingida. Moshé achou que a divisão das tribos sob bandeiras seria mais um motivo de divisão e disputas dentro do povo judeu.

Mas a Parashá nos mostra que aconteceu exatamente o oposto do que Moshé esperava. Ninguém reclamou do posicionamento das tribos. Os que viajavam atrás não invejaram os que viajavam na frente. Os judeus da tribo de Reuven, que eram descendentes do filho primogênito de Yaacov, não reclamaram quando D'us escolheu a tribo de Yehudá para liderar o povo judeu. Todos caminhavam juntos, unidos pelo mesmo propósito. Como isso foi possível?

Quando o povo judeu teve a visão celestial de todos os anjos unidos sob bandeiras, sem competição e sem ódio, desejaram do fundo do coração chegar naquele nível. Daqui ensinam nossos sábios um grande fundamento para nossas vidas: D'us leva a pessoa pelo caminho que ela deseja seguir. Quando queremos algo de verdade, ao ponto de estarmos dispostos a abrir mão das nossas comodidades para conseguir algo, D'us nos ajuda, e mesmo o que parecia impossível se torna realidade.

Imagine uma pessoa que está cortando uma maça com a mão direita e, por acidente, faz um corte na sua mão esquerda. Se víssemos esta pessoa, tomada de fúria, pegando a faca com a mão esquerda e fazendo um corte na mão direita como vingança, o que pensaríamos dele? Que é um maluco completo! Explica o Rav Moshe Cordovero, um grande cabalista que viveu há cerca de 450 anos, que quando nos vingamos dos outros estamos fazendo exatamente a mesma coisa. Ele explica que o grande motivo de haver no mundo tanto ódio, inveja e concorrência é por que fomos enganados desde crianças na nossa forma de ver o mundo. Fomos ensinados na escola que cada um está no mundo por si só e, portanto, temos que nos esforçar para crescer, mesmo que seja necessário derrubar quem está em volta. E com esta cabeça crescemos e entramos em um mercado de trabalho onde imperam as leis da selva, de matar ou morrer. Capitalismo selvagem, o vale tudo para se dar bem na vida. Mas o Rav Moshe Cordovero ensina que isto é um grande erro, pois na verdade dentro de cada um está contida a alma das outras pessoas. Ninguém está sozinho, um pouco de cada um está dentro de nós, e um pouco de nós está em cada pessoa do mundo. Quando fazemos mal a alguém, no fundo estamos fazendo mal a nós mesmos, estamos prejudicando a nossa parte que está dentro da outra pessoa. Quando deixamos de ajudar alguém necessitado, somos nós mesmos que estamos sofrendo. Quando maltratamos alguém, é como se tivéssemos ferindo nossa própria mão.

Por isso, a única maneira de vencer a inveja e a competição é mudando o nosso foco, enxergando que não estamos neste mundo correndo sozinhos, e somente seremos vencedores quando chegarmos ao nosso objetivo todos juntos. Pois vencer uma competição é bom, mas vencer na vida é muito melhor.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 15 de maio de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT BEHAR E BECHUKOTAI 5769

BS"D

REFINADO COMO A PRATA - PARASHIOT BEHAR E BECHUKOTAI 5769 (15 de maio de 2009)

"Na Inglaterra, um grupo de mulheres judias participava de estudos bíblicos. Quando chegaram a um determinado versículo, não conseguiram entender o que ele significava. Era um versículo do profeta Malachi, que dizia: "Ele (D'us) vai se sentar como um refinador e purificador de prata" (Malachi 3:3). As mulheres ficaram intrigadas, pois o versículo se referia a como D'us se comporta conosco, e elas não conseguiam entender a analogia de D'us com um ourives que purifica a prata. Uma das mulheres se voluntariou para observar o processo de refinamento da prata e tentar entender o que o versículo ensinava. Na mesma semana a mulher ligou para um ourives e marcou um horário para vê-lo trabalhando, sem mencionar nada sobre o motivo de seu interesse sobre o processo de refinamento da prata.

No dia marcado, ela foi e sentou-se em silêncio ao lado do ourives. Ele pegou um pedaço de prata e colocou sobre o fogo, deixando-o aquecer. Ele explicou que no processo de refinação da prata, a prata deve ser mantida sempre no meio do fogo, onde as chamas são mais quentes, para conseguir assim queimar todas as impurezas. A mulher imediatamente pensou em D'us nos segurando em um local quente daqueles, e novamente pensou no versículo: "Ele se senta como um refinador e purificador de prata".

Então ela perguntou ao ourives porque ele ficava o tempo todo sentado ali, na frente do fogo, enquanto a prata estava sendo refinada, e não apenas deixava a prata ali queimando e voltava mais tarde. O homem respondeu que ele precisava manter seus olhos na prata durante todo o tempo em que estivesse no fogo, pois se a prata fosse deixada nas chamas por um tempo mais longo do que o necessário para a purificação, ela queimava e ficava destruída. A mulher ficou em silêncio por alguns momentos, meditando. Então ela fez uma pergunta final ao ourives:

- Se é tão perigoso assim passar do ponto correto, então como saber quando a prata está completamente refinada?

Ele sorriu para ela e respondeu:

- Ah, isso é fácil. Quando a prata está pronta e totalmente purificada, eu consigo ver minha imagem refletida nela"

D'us nos manda muitas dificuldades e desafios na vida, para que possamos crescer com eles. Quando Ele sabe que estamos prontos? Quando Ele olha nossos atos e se vê refletido neles.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Behar e Bechukotai. A Parashá Behar começa com uma das Mitzvót mais interessantes da Torá: a Mitzvá de Shmitá (Ano Sabático). Por seis anos o povo judeu pode trabalhar a terra de Israel, plantando e colhendo seus frutos. Porém, no sétimo ano, a Torá nos ordena não fazer nenhum uso da terra, não colhendo nem plantando nada. Mas uma das coisas mais intrigantes é a introdução que a Torá faz para esta Mitzvá: "E disse D'us para Moshé no Monte Sinai: 'fale com o povo judeu e diga para eles... por seis anos vocês semearão seus campos e por seis anos vocês cortarão seus vinhedos, e vocês juntarão suas colheitas. Mas no sétimo ano vocês devem dar um descanso completo para a terra..." (Vayikrá 25:1-4). Por que está escrito que a Mitzvá de Shemitá foi entregue por D'us para Moshé no Monte Sinai? Não foram todas as Mitzvót entregues no Monte Sinai?

Explica Rashi, comentarista da Torá, que da mesma forma que a Mitzvá de Shmitá foi entregue com todos os seus detalhes no Monte Sinai, o mesmo ocorreu com todas as outras Mitzvót, que também foram entregues por D'us, com todos os seus detalhes, no Monte Sinai. Em outras palavras, Rashi está explicando que a Mitzvá de Shmitá é um exemplo para todas as outras Mitzvót das Torá. Mas por que justamente a Mitzvá de Shmitá? E qual a conexão desta Mitzvá com as outras Mitzvót da Torá?

Para entender, antes é preciso entender o porquê das Mitzvót. Um dos sábios da Guemará (Torá Oral) certa vez fez uma pergunta interessante: "Será que D'us se importa se a Shechitá (abate Kasher) é feito pela frente ou por trás do pescoço?" O que ele quis dizer é que as Mitzvót têm muitos detalhes, será que D'us, que precisa cuidar de todo o universo, se preocupa com este tipo de coisa? A Guemará então nos responde que as Mitzvót não foram criadas para D'us, Ele não ganha nada com elas. As Mitzvót foram dadas para "Letzaref" o povo judeu. A palavra "Letzaref" significa "unir, conectar". Se existe uma Mitzvá, isto é, um mandamento, existe um "Metzavê", isto é, alguém que comandou. Toda vez que cumprimos uma Mitzvá exatamente da maneira como D'us nos ensinou, isso nos conecta com ele. D'us não precisa das Mitzvót, nós precisamos, pois esta é a forma de nos conectarmos com Ele. E mais do que isso, a palavra "Letzaref" também significa "purificar e moldar". É uma palavra utilizada, por exemplo, no processo de fabricação de peças de prata. Mas como ocorre este processo de conexão com D'us, e mais, de purificação e moldagem?

Existem no universo várias formas de energia. Nas últimas décadas se desenvolveu uma maneira de produzir muita energia através da quebra do átomo, mais conhecido como fissão nuclear. Explodir o átomo e liberar energia é a parte mais fácil do processo. A grande dificuldade está em canalizar esta energia para utilizá-la de uma maneira construtiva. Quando a energia é a canalizada, se converte em usinas nucleares, que podem abastecer várias cidades. Mas quando a energia nuclear não é canalizada, ela transforma-se na terrível e mortal bomba atômica.

Segundo o judaísmo, temos várias forças internas, provenientes da nossa alma e do nosso corpo. Quando temos controle, podemos utilizar todas as nossas forças de forma positiva e construtiva. Mas uma pessoa sem autocontrole torna-se um animal e, em alguns segundos, pode destruir sua vida e a de outras pessoas à sua volta. E o que nos ajuda a canalizar todas as nossas energias e o nosso potencial? As Mitzvót.

Vemos isso de forma muito ressaltada na Mitzvá de Shmitá. Imagine o dono das terras passando um ano inteiro olhando suas terras cultiváveis, a sua única fonte de sustento, e não podendo cultivá-la. A cada dia ele desenvolve mais um pouco o seu autocontrole, ele consegue canalizar a sua energia. Nos primeiros dias ele luta consigo mesmo, mas depois de um tempo ele aprende a dominar seus impulsos e instintos. A Mitzvá de Shmita o transforma, de um animal movido apenas pelos instintos, em um ser humano verdadeiro. E apesar de cada Mitzvá ter, por si só, motivações espirituais específicas, o ponto em comum de todas elas é o autocontrole, a disciplina a que elas nos levam. Podemos comer e ter prazer, mas a Brachá (benção) nos faz pensar por alguns segundo no que estamos fazendo, dando um sentido especial para o nosso ato. Podemos ter proveito dos alimentos, mas a Kashrut nos ensina a não comer tudo o que temos vontade ou o que vemos na frente. Aprender a impor limites na vida é a única forma de moldar um ser humano. As Mitzvót ajudam a pessoa, desde pequena, a saber que quem controla é a alma, não o corpo.

E como isso nos conecta a D'us? Nos momentos de desejo, podemos lembrar, através das Mitzvót, quem somos nós de verdade. Nos momentos em que surgem dificuldades, as Mitzvót nos ajudam a lembrar qual é o nosso propósito na vida. E além de tudo, aquele que tem autocontrole aproveita muito mais os prazeres. Não ficar com raiva, não sentir inveja e não sentir orgulho, por exemplo, são coisas que nos levarão ao Mundo Vindouro e, ao mesmo tempo, já transformam nossa vida neste mundo em algo muito melhor.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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sexta-feira, 8 de maio de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ EMOR 5769

BS"D

APAGANDO UMA ALMA DE OURO - PARASHÁ EMOR 5769 (08 de maio de 2009)

"O Rav Shlomo Zalman Oierbach morava em Israel. Quando tinha 15 anos, seus pais compraram uma casa que pertencia a um velhinho não religioso. Como a reforma da nova casa do velhinho ainda não estava pronta, ele pediu para passar o final de semana com eles. Disse que ficaria só no seu quarto e não atrapalharia nada. A mãe do Rav Shlomo Zalman aceitou, mas com a condição de que o velhinho não desrespeitasse o Shabat. Ele prontamente aceitou.

Chegando o Shabat, eles viram que o velhinho realmente ficava o tempo todo no quarto, tentando não atrapalhar, mas diversas vezes ele fez coisas que quebravam o Shabat. Desapontado, o Rav Shlomo Zalman foi conversar com ele. Quando explicou que tudo aquilo que ele estava fazendo era proibido no Shabat, o velhinho pediu desculpas e explicou que não sabia nada sobre as Mitzvót, por isso tinha errado. Então, olhando nos olhos do rapaz, o velhinho falou:

- Você deve estar pensando que eu nunca tive um momento de grande espiritualidade. Mas eu vou te contar uma história. Antes de vir para Israel, eu vivi muitos anos na Rússia. Quando eu ainda era muito jovem, estava no meio de um curso de agronomia quando o exército Russo me enviou para a frente de batalha. Eu passava o dia inteiro enfiado em um buraco na terra, atirando contra os inimigos e vendo muitos amigos morrendo. Os únicos momentos de tranqüilidade eram quando se declarava um cessar-fogo temporário para recolher os corpos dos soldados mortos no campo de batalha. Nestes momentos eu via alguns judeus religiosos lendo Salmos e percebia que aquilo trazia para eles um grande alívio, uma luz no meio de toda aquela escuridão. E cada vez eu ficava mais angustiado, pois nunca tivera oportunidade de estudar Torá, não sabia nem mesmo rezar. Durante um cessar-fogo, vendo tanta morte e destruição, eu entrei em desespero. Gritei para D'us e pedi para que Ele tivesse misericórdia de mim. Pedi para que Ele me tirasse daquele inferno, que me mandasse de volta para casa, e prometi que, se isso acontecesse, iria para uma Yeshivá estudar Torá.

- Alguns segundo se passaram – continuou o velhinho – e no meio daquele silêncio eu escutei o barulho de um tiro. Uma bala certeira, vinda de não sei onde, arrancou o meu dedo. Desmaiei de tanta dor e acordei já no hospital. Depois de alguns dias já estava recuperado e quiseram me enviar novamente para a frente de batalha, mas então eles perceberam que a bala havia arrancado o dedo usado para apertar o gatilho e me mandaram de volta para casa. Eu entendi o tamanho do milagre que D'us havia feito, eu podia sentir o amor Dele por mim naquele momento.

- Porém – o velhinho abaixou a voz, envergonhado, e continuou – quando eu voltei para casa, não sabia mais o que fazer. Por um lado havia a promessa que eu havia feito para D'us, mas por outro lado faltava apenas um semestre para terminar o curso de agronomia. Após longos dias de reflexão decidi que primeiro terminaria o curso e depois iria para a Yeshivá, afinal, a Yeshivá já havia me esperado por tantos anos, poderia me esperar um pouco mais. E assim eu fiz, após seis meses fui para lá, mas já sem o entusiasmo inicial. Tentei acompanhar os estudos, mas tive muitas dificuldades de adaptação. A força daquele milagre aberto já havia terminado, e após dois meses eu desisti. Depois disso, nunca mais tive nenhum contato com as Mitzvót e com D'us.

Os olhos do Rav Shlomo Zalman se enchiam de lágrimas quando ele contava esta história. Ele terminava dizendo que uma alma de ouro havia se apagado para sempre apenas por não ter aproveitado o momento correto. (História real)
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Nesta semana lemos na Parashá Emor muitas leis relacionadas com os Cohanim (sacerdotes), os responsáveis por todos os serviços do Templo Sagrado. Justamente por estarem sempre envolvidos com a santidade do Templo, a Torá exige dos Cohahim um comportamento exemplar, como está escrito: "Sejam sagrados para D'us e não profanem o nome de D'us" (Vayikrá 21:6). Mas o final deste versículo parece ter sido escrito desnecessariamente, pois se já está escrito "Sejam sagrados", não é óbvio que os Cohanim não devem profanar o nome de D'us?

Explica o livro "Lekach Tov" que a Torá está nos ensinando neste versículo um dos fundamentos mais importantes do nosso trabalho espiritual neste mundo. Se estivesse escrito apenas "Sejam sagrados", poderíamos pensar que se um Cohen não conseguisse ser uma pessoa sagrada, ele poderia pelo menos viver como uma pessoa mediana. Então a Torá nos revela algo impressionante: se o Cohen não se santifica, ele automaticamente estará profanando o nome de D'us. Isto porque no nosso trabalho espiritual não existe ser mediano. Em cada instante, ou estamos santificando o nome de D'us, ou estamos denegrindo-o

E esta não é uma lei espiritual que se aplica somente aos Cohanim, se aplica a cada um de nós. Aprendemos isso do Shemá Israel, que recitamos todos os dias de manhã e de noite: "E se você escutar as Minhas Mitzvót que Eu os comando hoje... e comerás e te saciarás. Mas se cuide para que seu coração não o corrompa, e você se desviará e servirá outros deuses e se curvará diante deles". Por que não há nenhuma transição intermediária entre o início, que trata de quando estamos seguindo o caminho de D'us, e o final, que fala de servir outros deuses?

Explicam os nossos sábios que o mundo espiritual é como uma escada rolante que desce. Ou nós estamos nos esforçando e subindo, ou automaticamente estamos descendo. Não existe ficar parado. Podemos aprender isso observando a própria natureza. Tudo no mundo tem um propósito, nada é por acaso. Por que D'us criou a força da gravidade? Se quisesse, Ele poderia nos manter flutuando sobre o chão. A força da gravidade nos ensina que matéria atrai matéria, e para afastar é necessário colocar energia constantemente. Por exemplo, para um foguete sair da atração gravitacional da Terra, precisa ter um motor potente que o impulsione para cima. Mas se por acaso o motor deixar de funcionar por alguns instantes, imediatamente o foguete começa a cair, atraído pelo material. O mesmo ocorre com a nossa espiritualidade. Temos uma parte material, o corpo, que constantemente está sendo puxado e atraído pelo materialismo, pelos prazeres imediatos. Mas também temos uma parte espiritual, nossa alma, o "motor" do nosso foguete. Quando "desligamos o motor", isto é, quando deixamos o corpo controlar e decidir nossas vidas, entramos em queda livre espiritual. Para crescer é preciso esforço, deixar a alma comandar, deixar ela impulsionar. Isso só é possível vivendo uma vida com valores espirituais.

Outra "marca" desta dualidade entre o material e o espiritual é a própria Terra de Israel. O ponto mais elevado espiritualmente do mundo, o Kodesh Hakodashim (Santo dos santos) fica em Jerusalém, Israel. O ponto geográfico mais baixo do planeta também se localiza em Israel, no Mar Morto, a 400 metros abaixo do nível do mar. Coincidência? Certamente que não. Israel representa um grande potencial de espiritualidade. Se a pessoa procura em Israel a espiritualidade, não há lugar mais propício para o crescimento. Mas se a pessoa procura em Israel o materialismo, encontra muitos problemas e dificuldades. Apesar de Israel ser uma potência mundial, com grandes avanços tecnológicos, sofre com vários problemas sociais. Em locais não religiosos há muito uso de drogas e um elevadíssimo nível de violência juvenil, um dos piores do mundo. Já nas cidades onde as pessoas estão conectadas com os ensinamentos da Torá, a situação é exatamente o contrário. A cidade de Bnei-Brak, por exemplo, não tem delegacia de polícia. As frutas são vendidas na rua, isto é, o vendedor deixa na rua as frutas com o preço marcado e uma caixinha onde o comprador coloca o dinheiro.

Portanto, a Torá nos ensina que nosso objetivo é sempre estar vivendo com santidade, aproveitando as oportunidades, não deixando o crescimento espiritual para depois. A promoção na empresa pode esperar, o carro novo pode esperar, a casa nova pode esperar. Mas a espiritualidade não espera. E se a deixarmos ir embora, talvez ela não volte nunca mais.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 1 de maio de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5769

BS"D

APROVEITANDO DE VERDADE - PARASHIOT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5769 (01 de maio de 2009)

"Apesar de nunca ter terminado nem mesmo o primeiro grau, Roberto havia vencido na vida e se tornado uma pessoa muito rica. Como os negócios começaram a se expandir, ele precisou, pela primeira vez na vida, viajar de avião. Sua secretária comprou a passagem e fez o Check-in pela internet, e tudo o que ele precisou fazer foi embarcar.

Quando ele entrou no avião, viu a Primeira Classe e ficou deslumbrado com tanto luxo e comodidade. Poltronas largas e espaçosas, com bancos reclináveis e com apoio para os pés. Mas como viu que todas as pessoas passavam reto e seguiam até a outra parte do avião, ele decidiu seguir também. E olhando mais uma vez para aquelas poltronas maravilhosas, pensou: quem seriam os felizardos que viajariam com tanto luxo e conforto?

Quando chegou à Classe Econômica, viu as poltronas pequenas e apertadas. Como o avião não estava muito cheio, ele escolheu um lugar, encolheu as pernas e sentou. Quando quis ir ao banheiro, ficou meia hora na fila, enquanto os passageiros da Primeira Classe tinham um banheiro exclusivo só para eles. Na hora do jantar, recebeu uma comida sem graça, servida em descartáveis, enquanto viu que os passageiros da Primeira Classe comiam uma comida saborosa, em pratos de porcelana e com talheres de metal. Finalmente ele tentou dormir, mas não conseguia encontrar uma posição naquela poltrona apertada que mal deitava. Deu uma olhada na Primeira Classe e invejou aqueles felizardos que, com suas poltronas largas e completamente deitadas, dormiam como bebês.

Na manhã seguinte, quando o avião já se aproximava do destino, Roberto teve curiosidade de saber como era viajar de Primeira Classe. Pediu então para uma das aeromoças:

- Por favor, eu poderia aproveitar 5 minutinhos da Primeira Classe? Eu estou quebrado, não consegui dormir nada a noite inteira!

- Perdão – desculpou-se a aeromoça – mas a Companhia Aérea é muito rigorosa com estas regras, e apenas os passageiros que possuem o cartão de embarque vermelho podem usufruir da Primeira Classe.

Roberto voltou triste para sua poltrona. Quando o avião já estava pousando, retirou a carteira para pegar os documentos, viu de relance seu cartão de embarque e notou que era vermelho. Olhando mais atentamente, percebeu que estavam escritas as palavras "Primeira Classe". Ele ficou mal, que tamanho desperdício! Ele havia comprado um bilhete da Primeira Classe e, por total desconhecimento, havia viajado na Classe Econômica! Passou o dia inteiro se lamentando por ter perdido todos os prazeres e comodidades da viagem apenas por não ter sabido das regras antes"

Assim é a vida. D'us nos dá muitos prazeres, que nos ajudam na nossa "viagem" até nosso destino final. Mas muitos, por total desconhecimento, deixam de aproveitar os verdadeiros prazeres da vida...
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Acharei Mót e Kedoshim, e as duas tratam do mesmo assunto: o que fazer para chegar a um nível espiritual de Kedushá (santidade). A Parashá Acharei Mót começa nos ensinando as principais leis do dia mais sagrado do calendário judaico, Yom Kipur, e os principais detalhes de todo o serviço realizado pelo Cohen Gadol (Sumo sacerdote). Um dos principais momentos de Yom Kipur era quando o Cohed Gadol entrava no Kodesh Hakodashim (Santo dos Santos), o lugar mais sagrado do mundo, e pronunciava um dos nomes de D'us que continha 72 letras. Este nome evocava uma força espiritual tão grande que só podia ser pronunciado pelo Cohen Gadol, neste local e neste momento do ano. Depois de falar sobre Yom Kipur a Parashá então começa a descrever vários tipos de relações íntimas proibidas pela Torá, como por exemplo a relação entre parentes próximos. Mas por que a mesma Parashá que fala justamente do dia mais sagrado do ano também fala sobre relações ilícitas?

Um dos conceitos mais mal entendidos pela humanidade é o relacionamento íntimo entre o homem e a mulher. Segundo muitas religiões, qualquer contato íntimo é visto como algo sujo e pecaminoso e, portanto, proibido. Entende-se que chegar a elevados níveis de santidade só é possível através da total abstinência de prazeres mundanos, e um dos principais pontos é o voto de castidade, isto é, a total anulação do desejo humano pelo contato íntimo. Algumas religiões vão além e ensinam que o desejo deve ser controlado através de autopunição e sofrimentos auto-infligidos. De onde vieram estes conceitos? Será que esta é a visão judaica?

Muito apontam a fonte deste conceito na própria Torá. No início da criação, Adam e Chavá (Adão e Eva) foram criados no Gan Éden (Paraíso), mas por seu pecado de não escutarem o comando de D'us, caíram espiritualmente e foram expulsos. Somente depois da expulsão a Torá descreve o primeiro contato íntimo entre Adam e Chavá, que gerou Cain. Como aparentemente este primeiro contato íntimo ocorreu apenas fora do Gan Éden, muitas religiões deduziram que este era um ato pecaminoso e mundano, algo que era proibido no Gan Éden. Portanto o ideal do ser humano passou a ser voltar a este nível espiritual de antes do pecado, isto é, através do total afastamento dos prazeres materiais. Historiadores defendem a tese de que este "mito" ganhou mais força ainda na Idade Média, época em que o Clero, formado pelos sacerdotes da Igreja, possuía quase 2/3 das terras da Europa. O voto de celibato tornou-se então obrigatório para todos os sacerdotes, justamente para que os participantes do Clero deixassem, ao morrer, suas fortunas para a Igreja.

Infelizmente muitos judeus, por desconhecimento, acreditam que esta também é a visão judaica. Mas a Torá, nosso "Manual de instruções", nos ensina justamente o contrário. Rashi, famoso comentarista da Torá, diz que a forma como o versículo de Adam e Chavá foi escrito nos ensina que o relacionamento íntimo entre Adam e Chavá aconteceu dentro do Gan Éden, com o total consentimento de D'us. O judaísmo vai além e afirma que não existe nenhum prazer que a Torá proíbe, pois D'us criou o mundo de forma a podermos ter muitos prazeres na vida. O Talmud nos ensina que se uma pessoa perde a oportunidade de provar uma fruta que nunca experimentou, ela será cobrada por isso. D'us poderia nos alimentar com "cápsulas nutritivas" sem cheiro, sem gosto e sem cor, mas Ele nos deu uma grande variedade de frutas, legumes e comidas para que possamos saborear. Ele criou um mundo maravilhoso, apenas para mostrar Seu amor por nós.

Então de onde vem a idéia incorreta de que a Torá nos tira prazeres? Do preconceito com o qual olhamos o judaísmo. Olhamos as Mitzvót como algo negativo, que aparentemente nos limitam. Não podemos comer o que queremos, não podemos fazer tudo o que temos vontade nem da maneira que desejamos. Mas isso não é uma desvantagem, é um presente que D'us nos deu. Um dos principais benefícios que a Torá traz para nossas vidas, ao regrá-la com as Mitzvót, é nos dar autocontrole. Assim a pessoa pode canalizar os prazeres, para que possam ser utilizados de maneira mais completa e duradoura.

Um dos melhores exemplos para mostrar a diferença da visão judaica é justamente na área do contato íntimo entre o homem e a mulher. Em Lashon Hakodesh (língua sagrada com o qual D'us criou o mundo), a palavra "Kedushá" significa "santidade". Estranhamente, as mesmas letras, mudando apenas os pontos que representam as vogais, também formam a palavra "Kadeshá", que significa uma pessoa que vende seu corpo por dinheiro. Qual a relação entre santidade e vender corpo, que parecem coisas tão opostas? Segundo o judaísmo, quando um homem e sua mulher estão intimamente conectados, da maneira correta e com as motivações corretas, a presença de D'us paira sobre eles, pois o ato íntimo é algo muito sagrado e elevado. Porém, se a pessoa utiliza o ato íntimo apenas pensando nos seus prazeres, sem nenhuma motivação de conexão espiritual, ele se comporta como um animal, e é como se estivesse apenas vendendo seu corpo por um pouco de prazer imediato. O ato íntimo voltado ao espiritual preenche o ser humano, enquanto o ato animal somente causa ainda mais desejo e insatisfação.

Prazeres sem controle são limitados, muitas vezes nos tiram prazeres ainda maiores e podem arruinar nossas vidas. Quantas famílias não se despedaçam quando um dos cônjuges sente uma atração por outra pessoa e, por alguns instantes de prazer, joga tudo para cima? O autocontrole nos ajuda a manter um casamento feliz e estável por toda a vida. Segundo o judaísmo, o marido e a esposa precisam se separar por alguns dias todos os meses, renovando o relacionamento íntimo como se fossem recém casados. Em um mundo cada vez mais egoísta, as pessoas se preocupam apenas com o seu próprio prazer, sem se importar com o outro. O judaísmo nos ensina a pensar no prazer do outro antes do nosso próprio prazer. É por isso que a Torá traz, junto com o conceito de Yom Kipur, que representa a santidade, o conceito das relações ilícitas, que representa a imoralidade e a decadência, para nos ensinar que neste mundo, o mesmo ato pode ser feito com as motivações mais elevadas e sagradas, ou com as motivações mais baixas e animalescas.

Se prestarmos atenção na natureza, percebemos que muitos dos nossos atos cotidianos, tais como comer, beber e ter relações íntimas, também são feitos pelos animais. Isso nos ensina que, se fizermos nossos atos com as intenções corretas, podemos nos igualar aos anjos. Mas se fizermos com as intenções incorretas, estaremos nos comportando apenas como animais.

"Você come para viver ou vive para comer?"

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT TAZRIA E METZORÁ 5769

BS"D

BRONCA QUE VALE OURO – PARASHIOT TAZRIA E METZORÁ 5769 (24 de abril de 2009)

"Um grande sábio conhecido como Chidushei Harim viveu, quando era jovem, na casa do Rebe de Kojnitz. Mas após algum tempo ele decidiu sair de lá e foi morar na casa de outro grande rabino chamado Rebe de Pshischa. Esta mudança, sem nenhum motivo aparente, causou um grande sofrimento para o Rebe de Kojnitz.

Após algum tempo muitas coisas ruins começaram a acontecer com o Chidushei Harim, e ninguém entendia, pois ele era um Tzadik, um homem correto e íntegro, por que tinha que passar por tantos sofrimentos? Mas foi o próprio Chidushei Harim que, após alguns momentos de reflexão, chegou a uma possível explicação. Como ele havia saído da casa do Rebe de Kojnitz sem dar maiores explicações, havia certamente deixado-o muito triste, e por isso estava passando por tantas dificuldades. Então as pessoas quiseram saber qual o motivo o havia feito mudar de casa e perguntaram se ele não havia se arrependido, e ele explicou:

- Não estou arrependido de maneira nenhuma, e recebo com alegria todos estes sofrimentos. Quando eu estava em Kojnitz, recebia apenas elogios e louvores, mas em Pshischa eu recebo muitas broncas e críticas. Para o meu crescimento espiritual eu não preciso de um rabino que fique me elogiando e ressaltando meus pontos fortes. Eu preciso é de um rabino que saiba apontar os meus defeitos e onde eu preciso me aperfeiçoar"

Com elogios inflamos o nosso ego, mas são com as críticas que melhoramos e crescemos espiritualmente. Os sábios da Torá souberam sempre aproveitar a oportunidade de buscar críticas para saber onde precisavam melhorar, ao invés de ficar procurando elogios e louvores.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Tazria e Metzorá, e as ambas falam basicamente sobre uma doença espiritual chamada Tzaraat, causada por algumas transgressões específicas, entre elas o Lashon Hará (falar mal dos outros) e o orgulho. E esta doença espiritual é muito confundida com a lepra, pois sua manifestação física se dava através do surgimento de várias manchas que se espalham por todo o corpo. Uma das provas que era uma doença espiritual e não física é que apenas o Cohen (sacerdote) podia diagnosticar a doença, como está escrito: "Quando estiver uma pessoa com manchas de Tzaraat, ele deve ser trazido para um Cohen (sacerdote)" (Vayikrá 13:9).

Deste ensinamento surgem dois questionamentos: se a Tzaraat era algo tão evidente, que deixava manchas na pele da pessoa, por que ela tinha que procurar um Cohen para receber o diagnóstico? E, além disso, o que acontecia se um Cohen se contaminasse com a Tzaraat, ele podia se auto-diagnosticar ou precisava procurar outro Cohen?

Explica o livro "Lekach Tov" que não existe nenhum ser humano que, em suas decisões cotidianas, não está "subornado" por seus interesses particulares. Achamos que somos racionais e corretos em todas as nossas decisões, mas se prestarmos atenção, perceberemos o quanto somos influenciados por nossas vontades, a ponto de vermos a situação de maneira exatamente oposta de como ela é de verdade. Em geral nosso ego não quer se ferir e não queremos admitir que erramos, e muitas vezes, mesmo que de forma inconsciente, negamos o que é óbvio e procuramos desculpas por nossos atos. Mas o Criador do mundo conhece suas criaturas, e por isso nos ensinou uma forma para chegarmos à verdade, independente dos nossos interesses. Essa forma é através do aconselhamento com outra pessoa, que está fora do problema e pode ver as coisas com claridade e sem nenhum interesse.

Ensinam nossos sábios que existiam dois tipos de Tzaraat. Um dos tipos causava manchas que tornavam a pessoa impura espiritualmente e obrigavam-na a passar por um processo de purificação, que incluía o total isolamento por pelo menos uma semana. Esse tempo era importante para que a pessoa pudesse refletir e entender a gravidade de suas transgressões. E havia outro tipo, cujas manchas não tornavam a pessoa impura e não era necessário o processo de isolamento e purificação espiritual. O grande problema é que ninguém gostaria de assumir que a Tzaraat veio como consequência de um erro grave, então a tendência do ser humano seria sempre olhar para si mesmo e se auto-diagnosticar como estando puro, mesmo que os sinais indicassem exatamente o contrário. É por isso que a Torá nos obrigou a procurar um Cohen, para que ele, uma pessoa completamente neutra, desse um diagnóstico livre de qualquer interesse pessoal. E é por esse motivo que mesmo um Cohen quando contraia Tzaraat precisava procurar outro Cohen para ser diagnosticado.

Este ensinamento não se limita apenas ao caso da Tzaraat, é algo que podemos utilizar no nosso cotidiano. A natureza do ser humano é saber enxergar os defeitos dos outros, mesmo que seja uma transgressão quase insignificante, e ao mesmo tempo ele tem a capacidade de ignorar completamente seus próprios erros e faltas, mesmo que sejam gigantescos. É por isso que nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Adquira para você um amigo". Que tipo de ensinamento é este, precisamos ir a uma loja de liquidações para comprar um amigo? Alguém já viu amigos em exposição na vitrine, ou um anúncio no jornal dizendo "Quero ser seu amigo, cobro barato"? Ensinam os comentaristas que "Compre um amigo" significa que é tão importante ter um amigo que valeria a pena pagar por isso, mesmo que fosse um valor alto. Mas para entender por que valeria a pena pagar para ter um amigo, antes precisamos entender o que a Torá chama de amigo. Será que amigo é aquela pessoa que vai conosco nas festas e viagens? Certamente não é deste amigo que a Torá está se referindo. Segundo a Torá, amigo não é aquele que sempre te faz elogios, que sempre te passa a mão na cabeça, mesmo quando você está errado, para mostrar fidelidade e "amizade". O amigo de verdade é aquele que se importa com você, e justamente por se importar, quando você erra, ele te chama a atenção, ele mostra onde você errou, ele te dá uma sacudida para te despertar. Para ter por perto uma pessoa destas, que nos coloca sempre nos caminhos corretos, valeria a pena até mesmo pagar por isso.

O ensinamento que fica para as nossas vidas é que sim podemos ver os erros dos outros, mas sem utilizar uma lente de aumento e com o único intuito de ajudá-los a melhorar. Podemos utilizar a lente de aumento apenas para buscar os nossos próprios defeitos. E mais do que tudo, devemos nos aconselhar com os nossos rabinos e verdadeiros amigos, que são aqueles que querem sempre o nosso bem e o nosso crescimento espiritual, mesmo que isso tenha quer vir através de uma bronca ou de uma crítica.

"Faça uma crítica a um sábio e ele te amará. Faça uma crítica a um tolo e ele te odiará" (Mishlei)

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm