sexta-feira, 1 de maio de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5769

BS"D

APROVEITANDO DE VERDADE - PARASHIOT ACHAREI MÓT E KEDOSHIM 5769 (01 de maio de 2009)

"Apesar de nunca ter terminado nem mesmo o primeiro grau, Roberto havia vencido na vida e se tornado uma pessoa muito rica. Como os negócios começaram a se expandir, ele precisou, pela primeira vez na vida, viajar de avião. Sua secretária comprou a passagem e fez o Check-in pela internet, e tudo o que ele precisou fazer foi embarcar.

Quando ele entrou no avião, viu a Primeira Classe e ficou deslumbrado com tanto luxo e comodidade. Poltronas largas e espaçosas, com bancos reclináveis e com apoio para os pés. Mas como viu que todas as pessoas passavam reto e seguiam até a outra parte do avião, ele decidiu seguir também. E olhando mais uma vez para aquelas poltronas maravilhosas, pensou: quem seriam os felizardos que viajariam com tanto luxo e conforto?

Quando chegou à Classe Econômica, viu as poltronas pequenas e apertadas. Como o avião não estava muito cheio, ele escolheu um lugar, encolheu as pernas e sentou. Quando quis ir ao banheiro, ficou meia hora na fila, enquanto os passageiros da Primeira Classe tinham um banheiro exclusivo só para eles. Na hora do jantar, recebeu uma comida sem graça, servida em descartáveis, enquanto viu que os passageiros da Primeira Classe comiam uma comida saborosa, em pratos de porcelana e com talheres de metal. Finalmente ele tentou dormir, mas não conseguia encontrar uma posição naquela poltrona apertada que mal deitava. Deu uma olhada na Primeira Classe e invejou aqueles felizardos que, com suas poltronas largas e completamente deitadas, dormiam como bebês.

Na manhã seguinte, quando o avião já se aproximava do destino, Roberto teve curiosidade de saber como era viajar de Primeira Classe. Pediu então para uma das aeromoças:

- Por favor, eu poderia aproveitar 5 minutinhos da Primeira Classe? Eu estou quebrado, não consegui dormir nada a noite inteira!

- Perdão – desculpou-se a aeromoça – mas a Companhia Aérea é muito rigorosa com estas regras, e apenas os passageiros que possuem o cartão de embarque vermelho podem usufruir da Primeira Classe.

Roberto voltou triste para sua poltrona. Quando o avião já estava pousando, retirou a carteira para pegar os documentos, viu de relance seu cartão de embarque e notou que era vermelho. Olhando mais atentamente, percebeu que estavam escritas as palavras "Primeira Classe". Ele ficou mal, que tamanho desperdício! Ele havia comprado um bilhete da Primeira Classe e, por total desconhecimento, havia viajado na Classe Econômica! Passou o dia inteiro se lamentando por ter perdido todos os prazeres e comodidades da viagem apenas por não ter sabido das regras antes"

Assim é a vida. D'us nos dá muitos prazeres, que nos ajudam na nossa "viagem" até nosso destino final. Mas muitos, por total desconhecimento, deixam de aproveitar os verdadeiros prazeres da vida...
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Acharei Mót e Kedoshim, e as duas tratam do mesmo assunto: o que fazer para chegar a um nível espiritual de Kedushá (santidade). A Parashá Acharei Mót começa nos ensinando as principais leis do dia mais sagrado do calendário judaico, Yom Kipur, e os principais detalhes de todo o serviço realizado pelo Cohen Gadol (Sumo sacerdote). Um dos principais momentos de Yom Kipur era quando o Cohed Gadol entrava no Kodesh Hakodashim (Santo dos Santos), o lugar mais sagrado do mundo, e pronunciava um dos nomes de D'us que continha 72 letras. Este nome evocava uma força espiritual tão grande que só podia ser pronunciado pelo Cohen Gadol, neste local e neste momento do ano. Depois de falar sobre Yom Kipur a Parashá então começa a descrever vários tipos de relações íntimas proibidas pela Torá, como por exemplo a relação entre parentes próximos. Mas por que a mesma Parashá que fala justamente do dia mais sagrado do ano também fala sobre relações ilícitas?

Um dos conceitos mais mal entendidos pela humanidade é o relacionamento íntimo entre o homem e a mulher. Segundo muitas religiões, qualquer contato íntimo é visto como algo sujo e pecaminoso e, portanto, proibido. Entende-se que chegar a elevados níveis de santidade só é possível através da total abstinência de prazeres mundanos, e um dos principais pontos é o voto de castidade, isto é, a total anulação do desejo humano pelo contato íntimo. Algumas religiões vão além e ensinam que o desejo deve ser controlado através de autopunição e sofrimentos auto-infligidos. De onde vieram estes conceitos? Será que esta é a visão judaica?

Muito apontam a fonte deste conceito na própria Torá. No início da criação, Adam e Chavá (Adão e Eva) foram criados no Gan Éden (Paraíso), mas por seu pecado de não escutarem o comando de D'us, caíram espiritualmente e foram expulsos. Somente depois da expulsão a Torá descreve o primeiro contato íntimo entre Adam e Chavá, que gerou Cain. Como aparentemente este primeiro contato íntimo ocorreu apenas fora do Gan Éden, muitas religiões deduziram que este era um ato pecaminoso e mundano, algo que era proibido no Gan Éden. Portanto o ideal do ser humano passou a ser voltar a este nível espiritual de antes do pecado, isto é, através do total afastamento dos prazeres materiais. Historiadores defendem a tese de que este "mito" ganhou mais força ainda na Idade Média, época em que o Clero, formado pelos sacerdotes da Igreja, possuía quase 2/3 das terras da Europa. O voto de celibato tornou-se então obrigatório para todos os sacerdotes, justamente para que os participantes do Clero deixassem, ao morrer, suas fortunas para a Igreja.

Infelizmente muitos judeus, por desconhecimento, acreditam que esta também é a visão judaica. Mas a Torá, nosso "Manual de instruções", nos ensina justamente o contrário. Rashi, famoso comentarista da Torá, diz que a forma como o versículo de Adam e Chavá foi escrito nos ensina que o relacionamento íntimo entre Adam e Chavá aconteceu dentro do Gan Éden, com o total consentimento de D'us. O judaísmo vai além e afirma que não existe nenhum prazer que a Torá proíbe, pois D'us criou o mundo de forma a podermos ter muitos prazeres na vida. O Talmud nos ensina que se uma pessoa perde a oportunidade de provar uma fruta que nunca experimentou, ela será cobrada por isso. D'us poderia nos alimentar com "cápsulas nutritivas" sem cheiro, sem gosto e sem cor, mas Ele nos deu uma grande variedade de frutas, legumes e comidas para que possamos saborear. Ele criou um mundo maravilhoso, apenas para mostrar Seu amor por nós.

Então de onde vem a idéia incorreta de que a Torá nos tira prazeres? Do preconceito com o qual olhamos o judaísmo. Olhamos as Mitzvót como algo negativo, que aparentemente nos limitam. Não podemos comer o que queremos, não podemos fazer tudo o que temos vontade nem da maneira que desejamos. Mas isso não é uma desvantagem, é um presente que D'us nos deu. Um dos principais benefícios que a Torá traz para nossas vidas, ao regrá-la com as Mitzvót, é nos dar autocontrole. Assim a pessoa pode canalizar os prazeres, para que possam ser utilizados de maneira mais completa e duradoura.

Um dos melhores exemplos para mostrar a diferença da visão judaica é justamente na área do contato íntimo entre o homem e a mulher. Em Lashon Hakodesh (língua sagrada com o qual D'us criou o mundo), a palavra "Kedushá" significa "santidade". Estranhamente, as mesmas letras, mudando apenas os pontos que representam as vogais, também formam a palavra "Kadeshá", que significa uma pessoa que vende seu corpo por dinheiro. Qual a relação entre santidade e vender corpo, que parecem coisas tão opostas? Segundo o judaísmo, quando um homem e sua mulher estão intimamente conectados, da maneira correta e com as motivações corretas, a presença de D'us paira sobre eles, pois o ato íntimo é algo muito sagrado e elevado. Porém, se a pessoa utiliza o ato íntimo apenas pensando nos seus prazeres, sem nenhuma motivação de conexão espiritual, ele se comporta como um animal, e é como se estivesse apenas vendendo seu corpo por um pouco de prazer imediato. O ato íntimo voltado ao espiritual preenche o ser humano, enquanto o ato animal somente causa ainda mais desejo e insatisfação.

Prazeres sem controle são limitados, muitas vezes nos tiram prazeres ainda maiores e podem arruinar nossas vidas. Quantas famílias não se despedaçam quando um dos cônjuges sente uma atração por outra pessoa e, por alguns instantes de prazer, joga tudo para cima? O autocontrole nos ajuda a manter um casamento feliz e estável por toda a vida. Segundo o judaísmo, o marido e a esposa precisam se separar por alguns dias todos os meses, renovando o relacionamento íntimo como se fossem recém casados. Em um mundo cada vez mais egoísta, as pessoas se preocupam apenas com o seu próprio prazer, sem se importar com o outro. O judaísmo nos ensina a pensar no prazer do outro antes do nosso próprio prazer. É por isso que a Torá traz, junto com o conceito de Yom Kipur, que representa a santidade, o conceito das relações ilícitas, que representa a imoralidade e a decadência, para nos ensinar que neste mundo, o mesmo ato pode ser feito com as motivações mais elevadas e sagradas, ou com as motivações mais baixas e animalescas.

Se prestarmos atenção na natureza, percebemos que muitos dos nossos atos cotidianos, tais como comer, beber e ter relações íntimas, também são feitos pelos animais. Isso nos ensina que, se fizermos nossos atos com as intenções corretas, podemos nos igualar aos anjos. Mas se fizermos com as intenções incorretas, estaremos nos comportando apenas como animais.

"Você come para viver ou vive para comer?"

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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Este E-mail é dedicado à Leilui Nishmat (elevação da alma) dos meus queridos e saudosos avós, Meir ben Eliezer Baruch Z"L e Shandla bat Hersh Mendel, que nos inspiraram a manter e a amar o judaísmo, não apenas como uma idéia bonita, mas como algo para ser vivido no dia-a-dia. Que possam ter um merecido descanso eterno.
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sexta-feira, 24 de abril de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT TAZRIA E METZORÁ 5769

BS"D

BRONCA QUE VALE OURO – PARASHIOT TAZRIA E METZORÁ 5769 (24 de abril de 2009)

"Um grande sábio conhecido como Chidushei Harim viveu, quando era jovem, na casa do Rebe de Kojnitz. Mas após algum tempo ele decidiu sair de lá e foi morar na casa de outro grande rabino chamado Rebe de Pshischa. Esta mudança, sem nenhum motivo aparente, causou um grande sofrimento para o Rebe de Kojnitz.

Após algum tempo muitas coisas ruins começaram a acontecer com o Chidushei Harim, e ninguém entendia, pois ele era um Tzadik, um homem correto e íntegro, por que tinha que passar por tantos sofrimentos? Mas foi o próprio Chidushei Harim que, após alguns momentos de reflexão, chegou a uma possível explicação. Como ele havia saído da casa do Rebe de Kojnitz sem dar maiores explicações, havia certamente deixado-o muito triste, e por isso estava passando por tantas dificuldades. Então as pessoas quiseram saber qual o motivo o havia feito mudar de casa e perguntaram se ele não havia se arrependido, e ele explicou:

- Não estou arrependido de maneira nenhuma, e recebo com alegria todos estes sofrimentos. Quando eu estava em Kojnitz, recebia apenas elogios e louvores, mas em Pshischa eu recebo muitas broncas e críticas. Para o meu crescimento espiritual eu não preciso de um rabino que fique me elogiando e ressaltando meus pontos fortes. Eu preciso é de um rabino que saiba apontar os meus defeitos e onde eu preciso me aperfeiçoar"

Com elogios inflamos o nosso ego, mas são com as críticas que melhoramos e crescemos espiritualmente. Os sábios da Torá souberam sempre aproveitar a oportunidade de buscar críticas para saber onde precisavam melhorar, ao invés de ficar procurando elogios e louvores.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Tazria e Metzorá, e as ambas falam basicamente sobre uma doença espiritual chamada Tzaraat, causada por algumas transgressões específicas, entre elas o Lashon Hará (falar mal dos outros) e o orgulho. E esta doença espiritual é muito confundida com a lepra, pois sua manifestação física se dava através do surgimento de várias manchas que se espalham por todo o corpo. Uma das provas que era uma doença espiritual e não física é que apenas o Cohen (sacerdote) podia diagnosticar a doença, como está escrito: "Quando estiver uma pessoa com manchas de Tzaraat, ele deve ser trazido para um Cohen (sacerdote)" (Vayikrá 13:9).

Deste ensinamento surgem dois questionamentos: se a Tzaraat era algo tão evidente, que deixava manchas na pele da pessoa, por que ela tinha que procurar um Cohen para receber o diagnóstico? E, além disso, o que acontecia se um Cohen se contaminasse com a Tzaraat, ele podia se auto-diagnosticar ou precisava procurar outro Cohen?

Explica o livro "Lekach Tov" que não existe nenhum ser humano que, em suas decisões cotidianas, não está "subornado" por seus interesses particulares. Achamos que somos racionais e corretos em todas as nossas decisões, mas se prestarmos atenção, perceberemos o quanto somos influenciados por nossas vontades, a ponto de vermos a situação de maneira exatamente oposta de como ela é de verdade. Em geral nosso ego não quer se ferir e não queremos admitir que erramos, e muitas vezes, mesmo que de forma inconsciente, negamos o que é óbvio e procuramos desculpas por nossos atos. Mas o Criador do mundo conhece suas criaturas, e por isso nos ensinou uma forma para chegarmos à verdade, independente dos nossos interesses. Essa forma é através do aconselhamento com outra pessoa, que está fora do problema e pode ver as coisas com claridade e sem nenhum interesse.

Ensinam nossos sábios que existiam dois tipos de Tzaraat. Um dos tipos causava manchas que tornavam a pessoa impura espiritualmente e obrigavam-na a passar por um processo de purificação, que incluía o total isolamento por pelo menos uma semana. Esse tempo era importante para que a pessoa pudesse refletir e entender a gravidade de suas transgressões. E havia outro tipo, cujas manchas não tornavam a pessoa impura e não era necessário o processo de isolamento e purificação espiritual. O grande problema é que ninguém gostaria de assumir que a Tzaraat veio como consequência de um erro grave, então a tendência do ser humano seria sempre olhar para si mesmo e se auto-diagnosticar como estando puro, mesmo que os sinais indicassem exatamente o contrário. É por isso que a Torá nos obrigou a procurar um Cohen, para que ele, uma pessoa completamente neutra, desse um diagnóstico livre de qualquer interesse pessoal. E é por esse motivo que mesmo um Cohen quando contraia Tzaraat precisava procurar outro Cohen para ser diagnosticado.

Este ensinamento não se limita apenas ao caso da Tzaraat, é algo que podemos utilizar no nosso cotidiano. A natureza do ser humano é saber enxergar os defeitos dos outros, mesmo que seja uma transgressão quase insignificante, e ao mesmo tempo ele tem a capacidade de ignorar completamente seus próprios erros e faltas, mesmo que sejam gigantescos. É por isso que nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): "Adquira para você um amigo". Que tipo de ensinamento é este, precisamos ir a uma loja de liquidações para comprar um amigo? Alguém já viu amigos em exposição na vitrine, ou um anúncio no jornal dizendo "Quero ser seu amigo, cobro barato"? Ensinam os comentaristas que "Compre um amigo" significa que é tão importante ter um amigo que valeria a pena pagar por isso, mesmo que fosse um valor alto. Mas para entender por que valeria a pena pagar para ter um amigo, antes precisamos entender o que a Torá chama de amigo. Será que amigo é aquela pessoa que vai conosco nas festas e viagens? Certamente não é deste amigo que a Torá está se referindo. Segundo a Torá, amigo não é aquele que sempre te faz elogios, que sempre te passa a mão na cabeça, mesmo quando você está errado, para mostrar fidelidade e "amizade". O amigo de verdade é aquele que se importa com você, e justamente por se importar, quando você erra, ele te chama a atenção, ele mostra onde você errou, ele te dá uma sacudida para te despertar. Para ter por perto uma pessoa destas, que nos coloca sempre nos caminhos corretos, valeria a pena até mesmo pagar por isso.

O ensinamento que fica para as nossas vidas é que sim podemos ver os erros dos outros, mas sem utilizar uma lente de aumento e com o único intuito de ajudá-los a melhorar. Podemos utilizar a lente de aumento apenas para buscar os nossos próprios defeitos. E mais do que tudo, devemos nos aconselhar com os nossos rabinos e verdadeiros amigos, que são aqueles que querem sempre o nosso bem e o nosso crescimento espiritual, mesmo que isso tenha quer vir através de uma bronca ou de uma crítica.

"Faça uma crítica a um sábio e ele te amará. Faça uma crítica a um tolo e ele te odiará" (Mishlei)

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 17 de abril de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ SHEMINI 5769

BS"D

A TIGELA DE MADEIRA – PARASHÁ SHEMINI 5769 (17 de abril de 2009)

"Um senhor de idade foi morar com o filho, a nora e o neto de quatro anos. Por causa da idade avançada, as mãos do velhinho eram trêmulas e a sua visão já estava embaçada, e isso o atrapalhava muito na hora de comer. A comida muitas vezes caía no chão e a bebida sempre acabava derramada na toalha. Além disso, muitas vezes ele deixava o prato de vidro cair no chão, espatifando-o. O filho e a nora começaram a ficar profundamente irritados com a sujeira, até que um dia a nora comentou com o marido:

- Precisamos tomar alguma providência a respeito do seu pai. Isto não pode continuar. Já tivemos suficiente bebida derramada, pratos quebrados e comida espalhada pelo chão!

O marido concordou, e decidiram então tomar uma providência: daquele dia em diante o velhinho comeria em um canto da cozinha, numa pequena mesa isolada, enquanto o restante da família continuaria fazendo as refeições na mesa principal. Além disso, sua comida passaria a ser servida numa tigela de madeira. E assim fizeram, isolaram o pobre velhinho, que comia sempre sozinho e humilhado. E por estarem tão distantes do velhinho na hora da comida, ninguém podia perceber as lágrimas em seus olhos. As únicas palavras que lhe diziam eram broncas e gritos quando ele deixava um talher ou a comida cair no chão. O menino de quatro anos de idade assistia a tudo em silêncio.

Certa noite, antes do jantar, o pai percebeu que o garoto estava no chão, manuseando um pedaço de madeira. O pai foi até ele e lhe perguntou o que estava fazendo com aquela madeira. O menino respondeu:

- Eu estou fazendo uma tigela para você e para a mamãe comerem quando vocês também ficarem velhos.

O garoto de quatro anos de idade sorriu e voltou ao trabalho. Aquelas palavras tiveram um impacto tão grande nos pais que eles ficaram mudos, e lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Naquela mesma noite o pai tomou o avô pelas mãos e gentilmente conduziu-o à mesa da família. Daquele dia em diante ele voltou a comer todas as refeições com a família. E o marido e a esposa já não se importavam mais quando um garfo caía, o leite derramava ou a toalha da mesa ficava suja"

Temos que tomar cuidado de como cuidamos dos nossos velhos, pois um dia também seremos velhos...
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A Parashá desta semana, Shemini, nos ensina sobre a inauguração do Mishkan (Templo Móvel). Por sete dias Moshé fez os serviços do Mishkan, mas no oitavo dia ele consagrou Aaron e seus filhos como Cohanim (sacerdotes), e a partir deste dia eles e seus descendentes foram para sempre os responsáveis pelo serviço do Templo. E assim começa a Parashá: "E foi no oitavo dia, Moshé convocou Aaron, seus filhos e os anciãos de Israel" (Vayikrá 9:1). Entendemos porque Aron e seus filhos foram chamados, já que seriam consagrados como Cohanim. Mas por que a Torá relata que os anciãos também foram chamados?

Vivemos em uma sociedade onde os mais velhos são desprezados e deixados de lado. As empresas costumam "aposentar" seus funcionários após os 60 anos pois querem "renovar" seu quadro de funcionários, e a pessoa praticamente perde seu valor na vida. Existe um problema que atualmente atinge o mundo inteiro, desde países pobres até os mais ricos: com as melhorias no campo da medicina e o baixo nível de natalidade, a população mundial tem envelhecido nos últimos anos, e com isso a população economicamente ativa vem diminuindo muito, causando problemas para a previdência social. Francis Crick, ganhador do prêmio Nobel de química pela descoberta do DNA, foi certa vez entrevistado pela revista "Nature" e questionado sobre como este problema poderia ser resolvido. Francis Crick sugeriu que pessoas com mais de 80 anos que ficassem doentes e não tivessem condições de pagar seu próprio tratamento médico não deveriam mais ser atendidas nos hospitais públicos, deveriam ser deixadas em uma maca, em um canto do hospital, para não atrapalharem os outros doentes. O que Francis Crick quis dizer é que a sociedade moderna rotula as pessoas de acordo com o quanto contribuem financeiramente. Em resumo, os velhos não servem para nada e devem ser ignorados. Será que esta é a visão judaica?

A palavra "ancião" em Lashon Hakodesh (língua sagrada na qual foi escrita a Torá) é "Zaken". Ensinam nossos sábios que a palavra "Zaken" vem das palavras "Zé she KaNá chochmá" (aquele que adquiriu sabedoria). Mas será que todo ancião tem sabedoria? A mesma pergunta surge quando observamos uma das 613 Mitzvót da Torá: "Na presença de uma pessoa idosa você deve levantar-se e você deve honrar a presença de um sábio" (Vayikrá 19:32). Por que a Torá traz junto a Mitzvá de honrar um idoso com a Mitzvá de honrar um sábio? Explicam os nossos sábios que existem diversos tipos de sabedoria. Por exemplo, "Chochma" é a capacidade de formação de idéias, "Biná" é a capacidade de análise dedutiva, "Daat" é a capacidade compreender as coisas de forma mais profunda. E além destes três tipos de sabedoria existe uma quarta, que é a "Zikná", a experiência de vida. As primeiras três sabedorias podem ser obtidas através do estudo e do esforço, mesmo por pessoas jovens. Mas a "Zikná" é a sabedoria que apenas os anciãos têm.

É por isso que a Torá ressalta que, na inauguração do Mishkan, Moshé também chamou os anciãos, para mostrar que segundo o judaísmo devemos honrar e respeitar os mais velhos por sua sabedoria de vida. E assim dizia o Rabi Akiva, um dos maiores rabinos de todas as gerações: "O povo judeu se assemelha a um pássaro. Da mesma forma que um pássaro não pode voar sem suas asas, o povo judeu também não poderia fazer nada se não fossem seus anciãos". Segundo o judaísmo, uma sociedade que não valoriza seus anciãos não sobrevive. Talvez isso ajude a explicar por que a sociedade moderna, com pouco mais de 200 anos, já está tão decadente, enquanto o judaísmo continua com seu brilho e vigor há mais de 3.000 anos.

A Torá nos ensina a recompensa de poucas Mitzvót. Uma das exceções é a Mitzvá de "Honrarás teu pai e tua mãe", na qual a Torá descreve que a pessoa recebe "Arichut Iamim" (alongamento dos seus dias). Mas a linguagem utilizada é estranha, pois ao invés de "alongamento dos dias" deveria estar escrito "multiplicação dos dias"! Uma das explicações é que os pais, por já terem passado por muitas experiências, já adquiriram muita sabedoria de vida. Portanto, aquele que honra seus pais e sabe escutar seus conselhos "alonga seu dia", isto é, aprende com a experiência de vida dos pais e perde menos tempo cometendo erros. Por isso sobra mais tempo para fazer o que realmente precisam fazer na vida.

É verdade que jovens recém saídos da universidade podem ter mais conhecimentos tecnológicos, mas para tomar decisões corretas na vida é necessário mais do que conhecimento técnico, é necessário experiência de vida, e isso nenhum jovem tem. Portanto, respeite e valorize os mais velhos.

"Não teremos tempo de cometer todos os erros. Que possamos então aprender com os erros e acertos dos outros"

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 3 de abril de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PESSACH 5769

BS"D


O CERTIFICADO - PESSACH 5769 (03 de abril de 2009)

Certa vez, quando o Rav Israel Salanter voltava de uma de suas viagens, parou para dormir em um pequeno hotel cujo dono era judeu. Mas para sua surpresa, descobriu que o dono do hotel, antes um judeu temente a D'us, agora havia abandonado completamente o cumprimento das Mitzvót da Torá. O Rav Salanter perguntou o motivo e o homem explicou:

- Há alguns dias se hospedou aqui um judeu ateu. Começamos a discutir sobre a idéia de castigo e recompensa de D'us, e ele afirmava que tudo isso era uma grande tolice. Como a discussão não chegava a lugar nenhum, ele saiu e voltou com um pedaço de carne de porco. Ele desafiou D'us, dizendo que engoliria aquela carne de porco, e se realmente existisse supervisão Divina no mundo ele imediatamente morreria engasgado, mas se nada acontecesse seria uma prova de que não existe castigo e recompensa. Após desafiar D'us com tanto desrespeito, ele engoliu o pedaço de porco e nada aconteceu. Depois disso fiquei confuso e resolvi abandonar tudo.

O Rav Salanter escutou tudo em silêncio. Quando homem terminou, ele foi para o seu quarto sem falar nada. Algumas horas depois a filha do dono do hotel voltou da escola e contou, muito contente, que havia recebido um importante certificado de música. O rav Salanter chamou-a e pediu que ela cantasse para ele, para provar que ela realmente sabia cantar. A menina se irritou com o pedido e se recusou a cantar. O Rav Salanter chamou o pai e disse que a filha era uma mal educada, pois ele havia pedido para ela cantar e ela havia se recusado. O pai questionou o comportamento da filha e ela explicou:

- Não tem sentido eu cantar para as pessoas para mostrar que eu canto bem sem que seja o momento e o lugar adequados. Fora isso, o que ele pensa, que para todo mundo que duvidar do meu talento eu vou começar a cantar para provar? Foi justamente por isso que eu recebi um certificado, para mostrar para aqueles que duvidarem da minha capacidade!

O pai achou a resposta da filha satisfatória e deu razão para ela. O Rav Salanter virou-se para o dono do hotel e disse:

- Interessante, você acha que com este certificado de papel é suficiente para que ninguém duvide da habilidade de sua filha. Mas você tem dúvidas de D'us, que já nos provou, diante dos olhos dos outros povos, a Sua supervisão particular, inclusive através de milagres abertos, como aconteceu na Saída do Egito. Além disso, Ele nos deu um certificado que comprova isso, a Torá. E não foi uma única vez, mas muitas vezes na história D'us revelou Seu poder: nos dias de Mordechai e Ester (Purim), nos dias dos Chashmonaim (Chánuka), com o profeta Eliahu e os falsos profetas de Baal (que foram todos consumidos por um fogo celestial diante dos olhos de todo o povo). Você acha que agora, para qualquer tolo que vier e disser "não acredito", D'us mudará a ordem da Criação e as leis da natureza para provar algo para ele? Quem quer de verdade conhecer D'us pode buscar as provas dentro do "certificado" eterno que Ele nos entregou, e não há necessidade de nenhuma outra prova.
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Na próxima quarta-feira de noite (08 de abril) começa a festa de Pessach, um dos pilares centrais do judaísmo, quando revivemos a saída do povo judeu do Egito. Para entender a importância deste evento basta observar que em todas as festas, inclusive no Shabat, dizemos "Zecher Lietziat Mitzraim" (em recordação à Saída do Egito). Mas por a saída do Egito é tão marcante para o povo judeu até hoje em dia? Por que relembrar com tanta frequência algo que já ocorreu há mais de 3.300 anos?

No livro "Hakuzari", o Rav Yehuda Halevi faz uma pergunta fantástica: no primeiro mandamento da Torá está escrito "Eu sou teu D'us, Quem te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão" (Shemot 20:2). Apesar de D'us realmente ter feito muitos milagres abertos durante a saída do Egito, desde as 10 pragas até a abertura do Mar Vermelho, todos os milagres foram feitos com elementos que já existiam na natureza. Porém, na criação do mundo, o milagre e a demonstração do poder de D'us foram muito maiores, pois Ele criou o universo inteiro a partir do nada. Se na saída do Egito D'us quebrou as leis da natureza, na criação do mundo Ele as criou. Portanto, já que os atos da criação revelam ainda mais o poder de D'us, então por que no primeiro mandamento da Torá não está escrito "Eu sou teu D'us, Quem criou o mundo"?

A resposta é muito interessante. A criação do mundo foi justamente com o propósito de dar ao ser humano a livre escolha, tanto para o bem quanto para o mal. Mas para nos auxiliar em nosso trabalho espiritual e nos ajudar a fazer as escolhas corretas, D'us não queria que as pessoas vivessem baseadas apenas em fé cega, Ele nos deu um intelecto para que possamos utilizá-lo e chegar à verdade. Foi justamente por esse motivo que D'us ressaltou no primeiro Mandamento da Torá "Quem te tirou do Egito", pois a saída do Egito foi um evento com milhões de testemunhas, enquanto na criação do mundo não havia nenhuma testemunha. Se o judaísmo fosse embasado apenas no fato de nosso D'us ter sido o Criador o mundo, seria fé cega, pois não haveria nenhuma prova. Mas quando D'us nos tirou do Egito, isso provou que Ele participa do mundo e supervisiona tudo o que ocorre, e todos os milagres foram vistos por três milhões de pessoas. Para que Ele não tenha que se revelar com milagres e sinais em cada geração, Ele decretou aos nossos antepassados, que presenciaram a saída do Egito, que fizessem para sempre um lembrete e um sinal de tudo o que os olhos deles viram, para que pudessem transmitir aos seus filhos e aos filhos dos seus filhos, até a última geração. Este lembrete é Pessach.

Por isso, toda vez que nos sentamos durante o Seder de Pessach e recontamos todos os detalhes da saída do Egito, não estamos apenas relembrando uma história que aconteceu aos nossos antepassados. Estamos participando, de forma ativa, de uma corrente de transmissão ininterrupta de mais de 3.300 anos, de pai para filho, da base racional do judaísmo.

Todas as vezes que D'us faz milagres abertos e quebra as leis da natureza é para nos ressaltar que a natureza também é um milagre e é Ele quem a controla. E assim diz o Ramban (Nachmanides): "A pessoa não tem parte na Torá de Moshé Rabeinu até que acredite que, em todas as coisas e acontecimentos, tudo é milagre e não existe natureza". A palavra natureza, em hebraico, é "Téva", a mesma raiz da palavra "Matbea", que significa "cunha da moeda", para nos ensinar que, através da observação da natureza e sua perfeição podemos encontrar "encunhado na moeda" o seu autor.

Dizem nossos sábios que, na criação do mundo, o versículo "E disse D'us: 'Façamos o homem' " (Bereishit 1:26) está escrito no plural "façamos" para nos ensinar que D'us, dando um exemplo de humildade, se aconselhou com os anjos para saber se criava o ser humano ou não. Os anjos foram contra, pois diziam que o ser humano terminaria se esquecendo de suas obrigações e se voltando contra o Criador. E durante todo o ano os anjos vêem nossos maus atos e relembram D'us de que não valeu a pena criar o ser humano. Mas na noite de Pessach D'us junta todos os anjos do Céu e pede para que eles desçam na Terra e vejam o que os judeus estão fazendo. Então os anjos escutam, em cada casa judia, as famílias reunidas no Seder de Pessach, louvando a D'us e recordando todos os milagres da saída do Egito, num belo gesto de "Akarat Hatov" (gratidão). Então os anjos voltam e relatam para D'us o que viram, concordando que realmente a criação do ser humano valeu a pena.

Que possamos neste ano estarmos todos reunidos com nossas famílias no Seder de Pessach, revivendo a saída do Egito e todos os seus milagres, dando nossa contribuição para que a criação do ser humano tenha mais sentido e fazendo nossa parte nesta corrente, que vai desde os nossos dias até a saída do Egito.

Shabat Shalom e Chag Sameach

Rav Efraim Birbojm

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sexta-feira, 27 de março de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ VAYIKRÁ 5769

BS"D

O BURACO É BEM MAIS FUNDO - PARASHÁ VAYIKRÁ 5769 (27 de março de 2009)

"Rogério fazia o primeiro passeio de navio da sua vida. Estava adorando a viagem, pois a vista das praias era maravilhosa e os outros passageiros eram muito divertidos. A única exceção era Jeferson, um rapaz muito esquisito que estava sempre sozinho e muito calado. Havia algo de errado com ele, mas ninguém sabia o que.

Certa noite Rogério voltava para sua cabine, depois de uma grande festa. Passando pela cabine de Jeferson, escutou ruídos estranhos, como se alguém estivesse fazendo furos. Curioso, abriu um pouquinho a porta e viu, para o seu espanto, que Jeferson abria um buraco no chão da sua cabine. O buraco já estava grande, provavelmente ele vinha trabalhando nisso fazia muitos dias.

Desesperado, Rogério foi buscar ajuda. Voltou com mais três amigos, entraram na cabine e, após alguns instantes de luta, dominaram Jeferson e o levaram até o capitão. Jeferson estava enfurecido e gritou:

- Por que vocês não me deixam em paz? Eu estou cansado desta viagem e quero abrir um buraco na minha cabine. O que importa para vocês?

- Claro que importa - explicou Rogério - pois todos nós estamos no mesmo barco, não há como afundar apenas a sua cabine. Se você abre um buraco, você afunda o barco inteiro. Por isso, a partir de agora, pense melhor antes de fazer qualquer besteira".

Assim funciona a vida. Podemos pensar que quando fazemos uma bobagem apenas nós perdemos com isso. Mas temos que saber que, na verdade, cada ato que fazemos influencia todo o mundo, não apenas a nós mesmos.
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Nesta semana começamos o terceiro livro da Torá, Vayikrá. E a Parashá Vayikrá trata principalmente do tema dos Korbanot (sacrifícios) que eram oferecidos no Mishkan (Templo Móvel) e posteriormente no Beit Hamikdash (Templo Sagrado). E assim a Torá introduz as leis dos Korbanot: "O Adam (ser humano), quando oferecer um Korban para D'us..." (Vayikrá 1:2). Mas há algo diferente neste versículo, pois normalmente quando a Torá se refere às pessoas utiliza a linguagem "Ish" e não "Adam". Então por que quando a Torá se refere aos Korbanot utiliza a linguagem "Adam"?

O Midrash (parte da Torá Oral) nos conta que a linguagem "Adam" é um lembrete do erro cometido por Adam Harishon (Adão), e foi utilizada para nos ensinar que toda vez que o ser humano transgredir, como fez Adam Harishon, deve trazer um Korban para que seu erro seja expiado. Mas por que a Torá precisa fazer esta comparação com Adam Harishon? Não seria suficiente apenas ordenar que aquele que transgrediu traga um Korban?

Quando uma pessoa trazia um Korban por um pecado cometido, não era suficiente apenas o ato externo e sem Cavaná (intenção) de trazer um animal para sacrificá-lo no Beit Hamikdash. Dentre as principais partes da Mitzvá estavam a Charatá (arrependimento pelo mau ato cometido) e a Teshuvá (decisão de retornar aos caminhos corretos). E dentro da Charatá a parte mais importante era entender o quanto o seu ato havia sido prejudicial. Quanto mais a pessoa refletisse e entendesse o quanto seu ato foi errado, maior seria a sua força para evitar esta mesma transgressão no futuro.

Muitas vezes o desejo nos faz cometer erros, apesar de sabermos que terão consequências negativas. Mas será que sabemos até onde vai o efeito dos nossos erros? Em relação a Adam Harishon, poderíamos pensar que a consequência do seu erro, ao não escutar um mandamento de D'us, foi apenas para ele mesmo, com a sua imediata expulsão do Gan Éden (Paraíso). Mas nossos sábios ensinam que as consequências são sentidas até os nossos dias. A morte, que originalmente não estava nos planos Divinos, foi decretada sobre Adam e sobre todos os seus descendentes. Também a terra, que produzia frutos em abundância e sem esforço, foi amaldiçoada por causa do erro de Adam, dificultando o sustento dele e de todos os seus descendentes. Em resumo, os dois maiores sofrimentos que afligem a humanidade - o medo da morte e a difícil luta pelo sustento - são consequências diretas do erro de Adam Harishon e nos afligem mesmo passados mais de cinco mil anos. Este é o motivo da linguagem "Adam" em relação aos Korbanot, pois cada um que trazia um Korban deveria colocar no coração as consequências do erro de Adam, para assim conseguir internalizar que o mau ato que havia cometido também era muito mais prejudicial para o mundo todo do que ele havia imaginado.

E isso não se aplica apenas para as épocas em que havia Korbanot. Da mesma forma que as consequências negativas do erro de Adam Harishon recaíram sobre ele e seus descendentes, o mesmo ocorre conosco, cada erro que cometemos tem consequências terríveis, muito além do que podemos enxergar, e devemos levar isso em conta nas nossas considerações, como nos ensinam nossos sábios: "Leve em consideração o que você ganha com uma transgressão e o que você perde" (Pirkei Avót 2:1). Com uma transgressão ganhamos prazeres materiais de pouca duração e intensidade, mas perdemos prazeres espirituais eternos e ainda influenciamos o mundo inteiro para o mau, como diz o livro Messilat Yesharim (Caminho dos Justos) que aquele que faz uma Mitzvá se eleva e eleva junto com ele todo o mundo, mas aquele que faz uma Aveirá (transgressão) se afunda e afunda com ele todo o mundo.

Precisamos também prestar atenção no lado positivo deste ensinamento, pois podemos enxergar o potencial que cada ser humano tem de influenciar todo o mundo com seus atos. Muitas pessoas se sentem deprimidas por acharem que não são importantes, que sua existência não muda nada no mundo. O judaísmo ensina que não tem sentido este sentimento de inferioridade, pois cada pequeno ato de cada ser humano pode influenciar toda a humanidade. Não sabemos onde pode chegar um bom ato, mas sabemos, por exemplo, que os méritos de nossos antepassados nos ajudam e nos protegem até hoje, mais de três mil anos depois. Por isso, ao invés de depressão, é hora de levantar as mangas e começar a construir, com cada pequeno ato, um mundo melhor.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 20 de março de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHIOT VAYAKEL E PEKUDEI 5769

BS"D

BOAS INTENÇÕES – PARASHIOT VAYAKEL E PEKUDEI 5769 (20 de março de 2009)

"O Sr. Carlos tem um amor especial pelos animais, e todos dizem que ele tem um dom para cuidar deles. Sempre os amigos telefonam pedindo seus sábios conselhos sobre os animais de estimação. Era tarde da noite quando o Sr. Carlos recebeu um telefonema do Sr. Samuel, um grande amigo que estava precisando de ajuda urgente. O Sr. Samuel havia comprado para seus filhos um aquário, para educá-los e ensiná-los a prestar atenção às necessidades dos outros. Mas os peixes, que haviam se tornado o centro das atenções na casa, começaram a morrer de uma hora para outra.

Sem demora o Sr. Carlos foi ver o que estava acontecendo. Checou o Ph da água e descobriu que estava muito baixo. Por algum motivo a água tinha ficado com uma acidez acima do normal e isto estava matando os peixes. Intrigado, começou a verificar todos os equipamentos do aquário, mas tudo parecia estar em ordem. A bombinha de ar estava funcionando, a iluminação estava adequada, a temperatura estava correta. A família do Sr. Samuel se reuniu em volta do aquário, apreensiva. O Sr. Carlos explicou que a água estava muito ácida, mas não conseguia entender o porquê. Então Israel, o filho caçula, começou a balançar a cabeça e falou:

- Será que foi a Soda limonada que eu dei para eles?" (História Real)

Queremos fazer o bem, queremos ajudar os outros, mas se não soubermos as consequências dos nossos atos, muitas vezes boas intenções podem resultar em consequências desastrosas.
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Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Vayakel e Pekudei, terminando o segundo livro da Torá, Shemot. E estas duas Parashiot tratam da execução do Mishkan (Templo Móvel), de acordo com todos os detalhes que foram ensinados nas Parashiot passadas. A pessoa escolhida para a construção foi Betzalel, como está escrito: "E disse Moshé aos filhos de Israel: 'Vejam, chamou D'us pelo nome de Betzalel... E insuflou-o com o espírito de D'us, com sabedoria, com entendimento, com conhecimento e com todo o trabalho" (Shemot 35:31,32). Por que a Torá se alonga tanto, com tantos termos de sabedoria? Por que não está escrito apenas que D'us deu a Betzalel o conhecimento técnico das atividades para que ele pudesse construir o Mishkan?

Muitas vezes vemos pessoas fazendo bons atos, como por exemplo grandes doações para causas nobres, mas não temos como saber qual a verdadeira intenção delas. Muitas vezes atos que no início pareciam ser bons se revelam, com o passar do tempo, como atos egoístas e de auto-promoção. Mas apesar de pessoas de carne e osso poderem se enganar, o Criador do mundo não se engana, Ele verifica o coração de cada criatura no universo e sabe exatamente a intenção de cada um.

Explica o Rav Chaim Vologiner que o Mishkan tinha muitas partes, algumas mais sagradas, como o Kodesh Hakodashim (lugar onde ficava a Arca Sagrada, e onde apenas o Sumo Sacerdote podia entrar, uma única vez no ano, em Yom Kipur), e outras menos sagradas. Todo o povo judeu havia doado jóias e materiais nobres para a construção do Mishkan, e certamente todos queriam que sua doação fosse utilizada no Kodesh Hakodashim. Então como fazer a distribuição correta dos materiais? É por isso que a Torá se alonga e utiliza tantos termos de sabedoria, pois D'us não deu a Betzalel apenas o conhecimento técnico das atividades do Mishkan, Ele deu também a sabedoria de enxergar exatamente a intenção de cada um dos doadores, para assim poder decidir o uso adequado de cada material doado. O que havia sido entregue com um autêntico espírito doador era destinado às partes mais sagradas, enquanto os materiais doados com motivações egoístas, como a busca de honra, eram utilizados em partes menos sagradas do Mishkan.

Isso também se aplica em nossas vidas, em qualquer ato de caridade que fazemos. Muitas pessoas doam grande fortunas apenas em busca de honra e reconhecimento público, portanto com motivações completamente equivocadas. Apesar do ato ser válido, certamente tem um valor muito menor aos olhos de D'us. E isto não vale apenas para doações milionárias, mesmo pequenas doações no nosso dia-a-dia podem estar sendo feitas com motivações incorretas. Quando damos dinheiro na rua para um pobre, nossa intenção verdadeira é aliviar um pouco da dor que ele está sentindo, ou nossa intenção, mesmo que de maneira subconsciente, é aliviar a nossa própria dor? Será que aquele dinheiro não serve para nos sentirmos melhor com nossa própria consciência? Nos preocupamos realmente com o que o outro necessita?

Também apenas boas intenções não garantem que um ato será considerado bom. Ao contrário, muitas vezes queremos ajudar, mas se não conhecermos as regras da vida podemos cometer enganos terríveis com as melhores intenções do mundo. Um exemplo é o caso que comoveu o mundo há duas semanas, de Eluana Englano, uma moça italiana que passou 17 anos em coma após sofrer um acidente de carro. Seu pai lutou por 10 anos na justiça pelo direito de terminar com o sofrimento dela através da "morte assistida", mais conhecida como eutanásia. Há duas semanas o pai realizou seu desejo após a justiça italiana aprovar a eutanásia neste caso. Eluana morreu 3 dias após a suspensão total de sua alimentação,'levando o mundo inteiro a se questionar: Será que este foi realmente um ato de bondade? Sofrimento é motivo para tirar a vida de uma pessoa? Será que o pai realmente estava pensando no sofrimento da filha, ou o que mais lhe doía era o seu próprio sofrimento?

Casos como este dividem a opinião pública, pois envolvem muitos sentimentos. O que é eticamente o correto a se fazer? É justamente nestes momentos que a Torá nos dá a tranquilidade necessária para termos a certeza de que sempre estamos fazendo o que é correto, mesmo em momentos de sofrimento e dificuldade. D'us nos dá a vida, e somente Ele pode tirá-la. Quando uma pessoa está em um estado de coma vegetativo, sua validade para o mundo terminou? Uma vida é válida apenas quando a pessoa pode trabalhar, ir à praia ou ao cinema? O que está acontecendo com a alma desta pessoa enquanto ela está em coma? Será que este sofrimento que ela está passando não pode ter bons frutos para a eternidade? Infelizmente o mundo não sabe a resposta para estas perguntas, e mesmo assim cada vez mais vem sendo permitido este ato de "bondade" que, segundo o judaísmo, é um assassinato a sangue frio encoberto por uma "roupa" mais suave chamada eutanásia.

Explica o Rav Yerucham que os nossos bons atos são comparados a uma vela. O ato se assemelha ao pavio enquanto a boa intenção se assemelha ao óleo. O potencial de iluminação está no óleo, mas sem um ato correto este potencial não se transforma em luz. Um bom ato sem uma boa intenção é como uma vela que permanece apagada. E apenas boas intenções, sem estarem acompanhadas de um bom ato, são como um combustível sem controle que, ao invés de iluminar, pode causar um grande incêndio.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

sexta-feira, 13 de março de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PARASHÁ KI TISSÁ 5769

BS"D

LIBERDADE OU ESCRAVIDÃO - PARASHÁ KI TISSÁ 5769 (13 de março de 2009)

"Moshé trabalhava na McKinsey, uma das maiores empresas de consultoria do mundo. E era muito comum que o escritório estivesse sempre cheio durante toda a noite, com os famosos "viciados em trabalho" que mal terminavam um projeto e já iniciavam um novo. Moshé era um dos "adeptos" ao hábito de trabalhar todos os dias até tarde da noite.

Em uma destas madrugadas, Moshé estava tranqüilo no escritório, terminando um projeto que tinha que entregar na manhã seguinte. Eram duas da manhã e o escritório estava cheio. De repente entrou uma mulher com duas crianças pequenas. A secretária perguntou se poderia ajudar em algo, a mulher respondeu que sim e, apontando para o filho menor, falou:

- Estou procurando o pai desta criança.

Todos pararam, e um terrível silêncio tomou conta do escritório. Moshé levantou a cabeça para ver o que estava acontecendo e levou um grande susto quando viu que era sua esposa que estava ali. Levantou-se e foi falar com ela.

- Querida, você ficou louca? São duas da manhã! O que você está fazendo aqui?

- Eu vou te explicar – respondeu a mulher, visivelmente irritada – Nosso filho acordou de madrugada e começou a chorar, chamando "papai, papai". Então eu resolvi trazê-lo aqui no seu escritório, para que ele possa te conhecer.

Na semana seguinte Moshé pediu demissão da empresa..." (História Real)

Muitas vezes a pressão do nosso cotidiano nos faz perder as coisas mais importantes da vida. Uma panela de pressão, se não tiver uma válvula de escape, explode. O ser humano também. O Shabat é a nossa "válvula de escape", um grande presente que recebemos de D'us.
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Na Parashá desta semana, Ki Tissá, a Torá termina de descrever os utensílios do Mishkan (Templo Móvel) e logo em seguida descreve a Mitzvá de Shabat, como está escrito: "Somente guardem o Meu Shabat, pois é um sinal entre Mim e vocês através das gerações, para que vocês saibam que Eu sou D'us, Quem santifica vocês" (Shemot 31:13). Mas este versículo é um pouco difícil de ser entendido. Por que a Torá usa a linguagem "somente" quando se refere à Mitzvá de Shabat, como se tivesse algo especial que as outras Mitzvót não têm?

Atualmente não é algo fácil cumprir os mandamentos de D'us com toda a nossa força sem sentir algum nível de dificuldade ou desconforto. Muitas vezes as Mitzvót podem parecer, principalmente para aqueles que estão começando, uma mala pesada. Mas explica o Maguid Mi Duvna que nem sempre foi assim. Quando o ser humano foi criado, sua vontade de cumprir Mitzvót era parte de sua natureza, tão forte quanto a vontade de comer, beber água ou dormir, e o ser humano podia sentir um grande prazer com cada Mitzvá cumprida, a mesma satisfação que sentimos quando comemos um pedaço de bolo de chocolate. Mas quando Adam Harishon (Adão) despencou espiritualmente, vítima de suas tentações, e misturou dentro de si o bem e o mal, ele perdeu esta atração natural pelas Mitzvót. Apesar das Mitzvót continuarem sendo tão vitais quanto comer ou beber, elas deixaram de satisfazer o ser humano de forma natural. Até mesmo o nosso corpo perdeu sua força, dificultando ainda mais o cumprimento das Mitzvót.

A única exceção é a Mitzvá de guardar o Shabat. Quando o homem pecou, D'us já havia entregado a ele todas as Mitzvót, menos a Mitzvá de Shabat, pois Adam foi criado no sexto dia e transgrediu no sexto dia, antes do Shabat. A Mitzvá de Shabat não recebeu nenhuma influência negativa do erro de Adam Harishon, pois ainda estava nas mãos de D'us. Portanto o Shabat continuou em sua pureza perfeita. É isso o que a Torá quer ressaltar com a palavra "somente", pois os prazeres que temos no Shabat são uma recordação do tempo em que sentíamos muita vontade e satisfação de cumprir as Mitzvót.

Mas para curtir e sentir este prazer do Shabat é preciso primeiro entender um pouco mais de sua essência. A Torá descreve que o mundo material foi criado em seis dias e no sétimo dia D'us descansou. O que significa dizer que D'us descansou? No sétimo dia o mundo não estava mais em um processo de mudanças, e então D'us adicionou ao mundo Sua última criação: a dimensão de tranqüilidade e harmonia. A Palavra "Shabat" vem da mesma raiz da palavra "Shevet", que significa "assentar-se", pois no Shabat D'us fez do mundo Seu lugar de moradia. O Zohar nos ensina que no Shabat D'us criou a harmonia entre Ele e o universo, e cada um que observa as leis do Shabat participa um pouco da eternidade de D'us.

Durante toda a semana mostramos nosso domínio sobre a natureza, criando e transformando. Mas isso acaba nos tornando escravos do mundo material. As pessoas não são mais identificadas por sua essência, e sim por suas profissões e ocupações. O Shabat é justamente o dia de liberdade, o dia de voltar a ser humano. Olhando de fora parece que o Shabat é um dia em que não se pode fazer nada, mas é justamente o contrário, é um dia que podemos nos libertar. Podemos não andar de carro, podemos não usar o computador, podemos não falar no celular, podemos não trabalhar nem pensar no projeto de segunda-feira. Podemos voltar a ter uma família, a sentarmos todos juntos e conversarmos. E principalmente podemos aprender a dar a importância correta a cada coisa que temos na vida. Resumindo, podemos diminuir as pressões e voltarmos a ser nós mesmos.

Explica o Rav Arieh Kaplan, em seu livro "Shabat, um dia de eternidade", que o Shabat nos mantém despertos para o nosso propósito na vida. É fácil se perder no mundo material, e o Shabat é um lembrete constante de que vivemos em uma realidade superior. O Shabat também nos ensina a planejar o futuro, pois da mesma forma que tudo o que comemos no Shabat precisa ser preparado antes, o mesmo vale para a nossa eternidade. O Shabat é um preparativo para os prazeres que sentiremos quando chegar a Era Messiânica, onde todos os nossos esforços poderão ser canalizados para o nosso crescimento espiritual.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

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quinta-feira, 5 de março de 2009

SHABAT SHALOM MAIL - PURIM 5769

BS"D

OLHE NAS ENTRELINHAS - PURIM 5769 (06 de março de 2009)

No 50º aniversário da morte de Iosef Vissarionovich Dzugashvili, mais conhecido como Joseph Stalin, o sanguinário ditador soviético, foi publicados nos Estados Unidos um livro chamado "Stalin's Last Crime", que traz a hipótese de que Stalin pode ter morrido envenenado. O líder soviético caiu desacordado após um jantar com com quatro membro do partido Politburo, em Blizhnaya, norte de Moscou, e agonizou durante alguns dias antes de morrer. E se ele realmente foi envenenado, como tudo indica, o principal suspeito seria Lavrenti P. Beria, o chefe da polícia secreta soviética.

O livro também conta a famosa história do "Complô dos médicos", uma falsa acusação de conspiração contra os médicos do Kremlin, na sua maioria judeus, que segundo Stalin planejavam matar os líderes comunistas para destruir a União Soviética. Em janeiro de 1953 Stalin denunciou publicamente o complô e acusou abertamente os judeus americanos, com o apoio dos Estados Unidos, de serem os mentores da conspiração.

Porém, além de relatar partes da história que são bastante conhecidas, o livro também revelou segredos que há pouco tempo atrás eram completamente desconhecidos pela grande maioria das pessoas. Em fevereiro de 1953, logo após Stalin ter denunciado publicamente que o "Complô dos médicos" era encabeçado por judeus, o Kremlin ordenou a construção de quatro campos de prisioneiros gigantescos, no Cazaquistão, na Sibéria e no Ártico norte. Era a preparação para um novo genocídio dirigido contra milhões de cidadãos soviéticos de ascendência judaica, que mal haviam se recuperado do duro golpe do Holocausto.

Porém, por uma intervenção Divina, esse novo holocausto felizmente nunca chegou a acontecer. Duas semanas após ter ordenado a construção dos campos de prisioneiros, Stalin foi ao jantar de Blizhnaya e, quatro dias depois, estava morto, com a idade de 73 anos.

É incrível ver como a história se repete, quantas vezes nossos inimigos se levantaram contra nosso povo para nos destruir, como tentou fazer Haman, mas nunca alcançaram seu objetivo. Enquanto o mundo ainda se recuperava dos horrores do Holocausto, um milagre salvava os judeus de uma nova tentativa de extermínio, e de uma forma tão oculta que a maioria das pessoas nunca ficou sabendo do grande perigo que correram.

E observando os detalhes poderemos notar algo fantástico, especialmente durante os dias que antecedem a festa de Purim, época repleta de "coincidências" felizes ao povo judeu. São nos detalhes que a mão de D'us se torna ainda mais evidente, justamente nas "entrelinhas" da história. Nikita Khrushchev, sucessor de Stalin, esteve presente no fatídico jantar do partido. Ele relatou que Stalin caiu desmaiado após o jantar, no qual havia bebido em excesso. O jantar terminou na madrugada do dia 1º de Março, data que, em 1953, correspondia ao dia 14 do mês de Adar no calendário judaico, também conhecido como Purim.

Coincidência?
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Na noite da próxima segunda-feira (09/03) começa a festa de Purim (em Jerusalém começa na noite de terça, 10/03). O Judaísmo nos ensina que o calendário é cíclico, isto é, todos anos nos reencontramos com as festas, e em cada nova volta temos a oportunidade de reviver e crescer a partir da mesma energia espiritual que influenciou aquele dia em algum momento anterior na história do povo judeu. E Purim, que não foge à regra, tem o seu próprio conjunto de oportunidades especiais.

O livro de Ester pode parecer apenas o relato de uma história que aconteceu com o nosso povo há mais de 2.000 anos atrás. Mas a Meguilá é muito mais do que isso, pois se prestarmos atenção à seqüência de eventos, começamos a notar algumas "coincidências" interessantes. Quando terminamos a Megilá, uma improvável e longa seqüência de eventos, que se conectam desde a primeira palavra do livro até a última, entendemos que na realidade nada foi coincidência. Esta é uma das principais lições de Purim, da mesma forma que fica óbvio no final da Meguilá que nada foi aleatório, que não existiu nenhuma coincidência, assim também nossa vida é tecida como parte de uma maravilhosa tapeçaria Divina, onde tudo acontece com precisão e exatidão milimétrica.

E em cada pequeno detalhe da Meguilá captamos mensagens que nos trazem ensinamentos importantes para a vida. Quando o rei Achashverosh deu plenos poderes para que Haman decretasse a "solução final" do povo judeu, Mordechai pediu, através de um mensageiro, para que a rainha Ester implorasse ao rei pela vida dos judeus. Mas a resposta de Ester foi desanimadora, pois ela não quis aceitar o pedido de Mordechai. Havia uma lei que, caso alguém fosse à sala do rei sem ter sido chamado, poderia receber imediatamente pena de morte, a menos que o rei estendesse seu cetro e permitisse a pessoa viver. Ester respondeu que no momento não poderia fazer nada pelo povo judeu, teria que aguardar ser chamada pelo rei, pois caso contrário não teria quase nenhuma chance de sair viva. Mordechai não se abalou com a recusa de Ester e novamente enviou-lhe uma mensagem, mas desta vez muito mais dura: "Mordechai mandou responder a Ester: 'Não imagine que, por estar na casa do rei, você vai escapar do destino de todos os outros judeus. Pois se você permanecer calada neste momento, o socorro e o alívio para os judeus virão de alguma outra fonte, e você e a casa de seu pai perecerão' " (Ester 4:12-14).

Que resposta foi esta que Mordechai mandou para Ester? Ele por acaso disse que Ester era a única esperança do povo judeu? Ele disse que ela deveria tentar alguma coisa, não importava quais seriam as consequências, mesmo que o risco fosse a morte dela? Obviamente que não. Ele estava dando um recado que tocou diretamente a alma de Ester. É como se ele estivesse dizendo: "Ester, se você não fizer isso pelo povo judeu, alguém vai fazer. Pois D'us não precisava de você para que o povo judeu possa ser salvo, afinal o povo judeu tem um objetivo a cumprir no mundo e D'us o salvará com ou sem a sua ajuda. A única pergunta, Ester, é esta: você vai optar por cumprir o seu papel de escrever a próxima página da história e ser contada entre aqueles que escolheram cumprir o papel pessoal para os quais foram criados, ou vai perder para sempre esta grande oportunidade? Ester, talvez a única razão de você ter se tornado rainha foi para este momento!"

Explica o rabino Chaim Levine que Mordechai estava ensinando para Ester, e também para nós, um princípio básico do judaísmo: não existem coincidências, tudo é parte de um grande plano Divino, e cada um de nós foi escolhido para cumprir um papel específico na história do mundo. Temos o livre arbítrio para escolher se queremos viver e alcançar o nosso potencial, deixando para sempre a nossa contribuição e o nosso nome escrito na história do mundo. D'us pode fazer sozinho os milagres acontecerem, e assim o fez em várias ocasiões da nossa história, como no caso da morte repentina de Stalin. Ensinam os nossos sábios que "muitos são os mensageiros de D'us", isto é, D'us tem o mundo inteiro à sua disposição para que Sua vontade se cumpra exatamente como Ele decretou. Mas muitas vezes D'us quer nos dar o mérito de participarmos como "sócios" no encaminhamento do mundo em direção ao seu propósito. A nossa escolha é aceitar nosso "papel" ou ignorá-lo.

Ester não precisou ouvir mais nada, ela entendeu bem o recado de Mordechai. Deste momento em diante Ester recebeu sobre si a responsabilidade de salvar o povo judeu. Ela pediu para Mordechai instruir o povo judeu a se arrepender e jejuar por 3 dias, aumentando assim os méritos do povo e auxiliando para que sua missão fosse um sucesso. Fora os preparativos espirituais, Ester também fez seu esforço nos assuntos materiais, arquitetando uma armadilha perfeita para derrubar para sempre Haman e cancelar seus decretos malignos. Os esforços deram certo, o povo judeu foi salvo, e Haman e sua família foram apagados da história. Ester cumpriu tão bem seu papel no mundo que um dos livros do Tanach (Bíblia judaica) leva o seu nome: Meguilat Ester.

Purim nos ensina muito mais do que apenas uma bela histórinha com final feliz. Nos ensina que, no contexto da nossa própria vida, todos nós somos como Ester. Em Purim nos recordamos da nossa responsabilidade de focar nossas energias no jogo da vida. Temos que olhar as ferramentas que D'us nos deu e canalizá-las no cumprimento do nosso papel, pois estas ferramentas e forças especiais foram colocadas dentro da alma de cada um de nós. Em Purim, temos que nos perguntar: Que diferenciais me foram dados por D'us? Como posso usar esses pontos fortes no contexto do meu trabalho espiritual? Como posso preencher o meu potencial da melhor maneira possível?

Os cabalistas dizem que cada pessoa tem seu nome escondido em algum lugar da Torá. A Torá é a maquete do mundo, e cada um tem uma participação neste projeto. As pessoas que realmente conseguirem viver em sintonia com a sua alma, que buscarem em cada instante atingir seu máximo potencial, vão saber exatamente onde encontrar o seu nome na Torá.

SHABAT SHALOM e PURIM SAMEACH

Rav Efraim Birbojm