quinta-feira, 19 de outubro de 2017

INVESTINDO NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS - SHABAT SHALOM M@IL - PARASHÁ NOACH 5778

BS"D
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Miriam Iocheved bat Mordechai Tzvi z"l


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INVESTINDO NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS - PARASHÁ NOACH 5778 (20 de outubro de 2017)

"Sara, uma professora do ensino básico, pediu aos alunos de várias turmas da escola que fizessem uma redação sobre o que gostariam de pedir a D'us se tivessem um único pedido. De noite, quando corrigia as redações, leu uma que a deixou muito emocionada. O marido entrou justamente no momento em que ela terminava a leitura. Vendo-a com os olhos vermelhos, perguntou se havia acontecido algo. Sem falar nada, ela estendeu ao marido a redação. Ele leu em voz alta:
 
"D'us, se eu tivesse apenas um único pedido, eu Te pediria algo especial: por favor, me transforme em uma televisão, para que meus pais me tratem como eles tratam a televisão de casa. Para que olhem para mim com o mesmo interesse com que olham para a televisão, especialmente quando minha mãe assiste a sua novela favorita e meu pai assiste ao jogo de futebol do seu time do coração. Eu quero ser uma televisão e falar como aqueles homens do Jornal Nacional, pois quando eles falam, toda a família fica em silêncio para ouvir o que eles têm a dizer. Eu gostaria de ver a mamãe se admirar comigo como ela se admira quando vê o programa de moda na televisão. Eu gostaria que meu pai risse comigo como ele faz quando os artistas contam piadas na televisão. Eu gostaria que meus pais me dessem tanta atenção quanto dão para televisão, pois quando ela não funciona, imediatamente eles chamam alguém para cuidar dela. Eu gostaria de ser como a televisão e ter a companhia do meu pai quando ele chega em casa, mesmo quando está cansado. E gostaria de ser uma televisão para que minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar. Quero ser como a televisão e sentir como é quando a família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. D'us, não Te peço muito, só Te peço para que eu viva como vive a televisão da minha casa".
 
- Meu D'us, coitado deste garoto! - disse o pai, horrorizado - Será que podemos fazer algo para ajudá-lo?
 
A mãe, não contendo as lágrimas, respondeu ao marido:

- Querido, esta redação é do nosso filho..."
 
As crianças necessitam de carinho e atenção constantes. Se não os recebem na infância, tornam-se adultos carentes e egoístas. Como temos tratado os nossos filhos? Quanto tempo temos dedicado a eles?

Nesta semana lemos a Parashá Noach, que nos conta sobre o terrível dilúvio que destruiu a humanidade apenas 10 gerações após a criação do mundo. Esta tragédia veio como consequência dos seres humanos terem rapidamente se desviado dos caminhos de D'us. Apenas Noach, que se manteve íntegro, encontrou graça aos olhos de D'us e foi poupado da destruição junto com sua família. Noach passou 120 anos construindo uma arca gigantesca para que ele, sua família e poucos exemplares de cada animal do mundo pudessem se salvar. Mas há um versículo sobre a família de Noach que nos chama a atenção no final da Parashá Bereshit: "E Noach tinha 500 anos quando ele teve Shem, Cham e Yefet" (Bereshit 5:32). Em todas as gerações anteriores, a Torá registra que as pessoas tiveram filhos quando tinham por volta de 100 anos de idade. Por que Noach teve que esperar 500 anos para poder ter filhos?
 
Explica Rashi (França, 1040 - 1105) que D'us fez o seguinte cálculo: se os filhos de Noach fossem Reshaim (malvados), eles teriam sido destruídos junto com o resto da humanidade e isto teria causado muito sofrimento para Noach, que era um Tzadik (justo). Se eles fossem Tzadikim, isto causaria um enorme esforço para Noach, que teria que construir muitas arcas, uma para cada família dos seus filhos. D'us então "segurou" o nascimento dos filhos de Noach de forma que na época do dilúvio nem mesmo Yefet, o filho mais velho, tinha chegado à idade na qual poderia ser castigado com decretos Celestiais (naquela época, antes da entrega da Torá, isto ocorria apenas após a pessoa ter mais de 100 anos de idade).
 
Porém, esta explicação de Rashi é difícil de ser entendida. Qual seria a dificuldade de construir muitas arcas? Havia tempo suficiente e Noach não precisaria construir tudo sozinho, pois seus filhos o ajudariam na construção ou ele poderia contratar trabalhadores. Além disso, será que valeu a pena tirar de Noach o esforço de construir muitas arcas e, por outro lado, causar nele o terrível sofrimento de não ter filhos até chegar à idade de 500 anos?  
 
Explica o Rav Chaim Shmulevitz zt"l (Lituânia, 1902 - Israel, 1979) que, para responder esta pergunta, precisamos entender alguns acontecimentos milagrosos descritos pelos nossos sábios. Por exemplo, o Talmud (Iomá 38a) descreve que um homem chamado Nicanor quis trazer, desde o Egito até Israel, dois portões para o Beit Hamikdash (Templo Sagrado). No meio da viagem, uma forte tempestade ameaçou afundar o navio. Para aliviar o peso da embarcação, lançaram ao mar um dos portões. Porém, como a tempestade continuou castigando o navio, pensaram em jogar também o segundo portão. Mas Nicanor abraçou o portão e disse: "Me joguem ao mar junto com o portão". Neste momento a tempestade parou e a embarcação pôde seguir sua viagem. Nicanor sofreu muito por causa do portão que havia sido lançado ao mar, mas quando chegaram ao porto da cidade de Aco, em Israel, ele percebeu que o portão lançado ao mar havia milagrosamente flutuado e seguido atrás do navio. Todos os portões do Beit Hamikdash eram feitos de ouro, com exceção do portão de Nicanor, que era feito de bronze, por causa dos grandes milagres que aconteceram.
 
Também em relação ao profeta Shmuel aconteceu algo milagroso. Quando ele ainda era pequeno, sua mãe, Chana, fez para ele um manto, como está escrito: "Um pequeno manto sua mãe fez para ele" (Shmuel 1 2:19). Depois está escrito: "Um homem velho está subindo e ele está vestindo um manto" (Shmuel 1 28:14). De acordo com o Midrash, o mesmo manto que Chana fez para o profeta Shmuel quando ele era pequeno cresceu junto com ele e não se estragou, apesar de ter sido usado até a sua velhice, um grande milagre. O mesmo milagre ocorreu com o povo judeu no deserto, quando suas roupas cresciam junto com o corpo e não se estragavam. Porém, no deserto aquele milagre era necessário, já que os judeus não teriam de onde conseguir roupas novas. Mas por que foi necessário que este milagre acontecesse ao profeta Shmuel? Ele não poderia ter comprado outros mantos durante sua vida?
 
Há um ponto em comum entre estes casos: são duas situações que envolveram "Messirut Nefesh", uma entrega total da pessoa. Nicanor estava disposto a ser atirado ao mar junto com os seus portões, tamanho era o seu amor por D'us e pelo Seu Beit Hamikdash, e isto "inseriu" no portão a força de flutuar milagrosamente. Também o mesmo ocorreu em relação ao manto de Shmuel. Não era normal crianças vestirem mantos, mas o amor de Chana por seu filho era tão grande que ela fez para ele um manto. Todas as lágrimas derramadas e as Tefilót (rezas) que saíram do coração de Chana durante os 19 anos nos quais ela implorou a D'us por um filho foram "inseridos" naquele manto. Através desta força de Chana, de sua Messirut Nefesh, o próprio manto se transformou em uma fonte de amor e bondade. Quando o profeta Shmuel vestiu aquele manto, recebeu sua influência positiva e desenvolveu um enorme amor por D'us e pelo povo judeu.
 
Isto quer dizer que atos de Messirut Nefesh podem fazer com que forças especiais sejam transferidas até mesmo para objetos inanimados. Com este conceito podemos entender o que Rashi explica sobre a arca de Noach. A construção da arca não era apenas um local de proteção contra o dilúvio. Noach precisava fazer uma "construção de salvação", isto é, uma arca onde nela estivesse naturalizada uma força milagrosa de salvação. Isto somente poderia ocorrer com Messirut Nefesh. Por isso Noach teve que passar 120 anos se esforçando para construir a arca, diante das risadas dos Reshaim de sua geração. Isto transformou a arca em uma fortaleza de proteção para Noach e sua família. E a força de salvação inserida na arca foi tão intensa e incrível que, mesmo milênios depois, ela ainda ajudou a salvar o povo judeu. A forca onde Haman foi pendurado tinha a altura de 50 "Amót" (medida da Torá, cada Amá equivalendo a aproximadamente 50 cm). Esta é também a medida da largura da arca de Noach, como está escrito: "E este é o tamanho que você devem fazer a arca: 300 Amót de comprimento, 50 Amót de largura e 30 Amót de altura" (Bereshit 6:15). O Midrash nos ensina que isto não é uma coincidência, pois a forca na qual Haman foi pendurado, fato que iniciou o processo de salvação do povo judeu, foi feita com uma madeira retirada da arca de Noach, que tinha absorvido a força de salvação.
 
Isto somente poderia ser conseguido se Noach pessoalmente construísse a arca, pois somente ele encontrou graça aos olhos de D'us para ser salvo e, portanto, somente ele conseguiria naturalizar na arca a característica e a virtude da salvação. Caso ele tivesse contratado trabalhadores, que seriam os Reshaim da geração, certamente eles não conseguiriam transmitir à arca esta força. Se fosse necessário construir muitas arcas, recairia sobre Noach este esforço tremendo, um peso que provavelmente ele não conseguiria suportar. O sofrimento sentido por Noach, de aguardar 500 anos para ter filhos, foi realmente muito pesado, mas foi necessário para que Noach e seus filhos pudessem ser salvos.
 
Conclui o Rav Chaim Shmulevitz que se até mesmo objetos inanimados podem absorver forças incríveis através de atos de Messirut Nefesh, muito mais uma criança que é educada com a Messiritu Nefesh dos pais. Pais que investem na educação dos seus filhos, com muito amor e atenção, fazem com que o filho absorva forças incríveis de Messirut Nefesh e amor ao próximo. Aprendemos esta lição de Moshé Rabeinu. Ele tinha 10 nomes, cada um representando alguma qualidade incrível que ele conseguiu desenvolver durante sua vida. Porém, D'us fez questão de chamá-lo de Moshé, o nome dado por Batia, filha do Faraó, que o salvou do Nilo e o criou como se fosse seu próprio filho. Por que ela deu este nome? Pois "Moshé" vem de uma linguagem em hebraico que significa "retirar", já que Batia retirou Moshé das águas. Mas o que este nome tem de especial? Que qualidade ele revela? O ato de Batia, de retirar um bebê judeu das águas, foi um ato de Messirut Nefesh. Batia, corajosa, foi contra o decreto do seu próprio pai. Esta qualidade foi transmitida para Moshé, que com Messirut Nefesh salvou e conduziu o povo judeu pelo deserto durante os 40 anos em que foi o líder.
 
O contrário também infelizmente é válido. Atualmente muitos pais colocam a televisão como "educador" de seus filhos, pois enquanto os filhos ficam hipnotizados pelas imagens, os pais podem cuidar de seus afazeres tranquilamente. Os pais têm tempo para o Jornal Nacional, mas não têm tempo para escutar como foi o dia do filho na escola. As mães têm tempo de mandar centenas de mensagens nos grupos de whatsapp, mas não têm tempo de perceber as mensagens transmitidas pelos seus próprios filhos, quando eles precisam de uma atenção especial, palavras de incentivo ou simplesmente um abraço. Buscamos cada vez mais formas de facilitar nossa vida, como contratar babás e dar aos filhos jogos eletrônicos para que fiquem tranquilos e não nos incomodem. Assim, nos afastamos cada vez mais da Messirut Nefesh pelos nossos filhos e vemos crescer uma geração cada vez mais egoísta, com crianças já apresentando sintomas de depressão e níveis alarmantes de delinquência juvenil.
 
Não é buscando formas de facilitar a educação dos nossos filhos que construiremos um mundo mais promissor. Devemos aprender com Noach que, se queremos educar filhos com valores, com bons traços de caráter e saudáveis, fisicamente e psicologicamente, é preciso muito investimento e um trabalho duro. Mas os bons frutos fazem valer a pena o esforço.

Shabat Shalom

R' Efraim Birbojm

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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

DANDO O DEVIDO VALOR À TORÁ - SHABAT SHALOM M@IL - SHEMINI ATSERET E PARASHÁ BERESHIT 5778

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DANDO O DEVIDO VALOR À TORÁ - SHEMINI ATSERET, SIMCHÁ TORÁ E PARASHÁ BERESHIT 5778

"Os ministros estavam voltando ao palácio com uma coroa magnífica que havia sido encomendada para a coroação do novo rei. O ouro e as centenas de pedras preciosas faziam com que a coroa tivesse um brilho muito especial. Os ministros traziam a coroa com todo o cuidado, pois ela tinha um valor inestimável. Quando se aproximavam dos portões da cidade, viram alguns camponeses que trabalhavam no campo. Os ministros então resolveram fazer uma brincadeira, pois sabiam que eram pessoas muito simples e ignorantes. Eles mostraram aquela magnífica coroa, deixando os camponeses impressionados. Então um dos ministros perguntou:
 
- Vocês trocariam suas pás e enxadas por esta coroa?

- A coroa realmente é linda, nunca vi nada tão magnífico - disse um dos camponeses, sem pensar muito - mas de que adianta trocarmos nossas ferramentas por esta coroa? Se não tivermos como cultivar a terra, de onde virá nosso sustento?

- Como você é tolo! - disse um dos ministros, dando uma gargalhada - Se você tivesse esta coroa, poderia vendê-la por milhares de moedas de ouro. Com o dinheiro você poderia comprar todos esses campos e contratar seus próprios trabalhadores. Não só você teria seu sustento garantido, mas também todas as suas futuras gerações"

Esta coroa é a nossa preciosa Torá, de valor inestimável. Mas infelizmente investimos tanto no nosso trabalho que acabamos deixando a nossa Torá de lado. Para não nos comportarmos como os camponeses da história, vale a pena "trocarmos" um pouco do nosso tempo de trabalho pelo precioso estudo da Torá. O crescimento pessoal e os benefícios eternos que receberemos valem muito mais do que todo o ouro, dinheiro e pedras preciosas do mundo.

Nesta 4ª feira de noite (11 de outubro) começaremos uma nova Festa do calendário judaico, Shemini Atseret, que literalmente significa "O Oitavo, o dia da parada". Apesar da proximidade com a Festa de Sucót, Shemini Atseret é uma Festa independente, com seus próprios simbolismos e significados. Nossos sábios decidiram que justamente neste dia terminamos o ciclo anual de leitura da Torá e, por isto, o dia também é chamado de "Simchá Torá" (literalmente "A alegria da Torá"). Temos o costume de dançar alegremente com todos os Sifrei Torá que estão na sinagoga. De manhã, após lermos a última Parashá da Torá, "Vezot HaBrachá" (literalmente "E esta é a Benção"), que traz as Brachót que Moshé deu a cada uma das tribos de Israel antes de sua morte, imediatamente recomeçamos o ciclo de leitura, lendo um pequeno trecho da primeira Parashá, Bereshit (literalmente "No princípio"). Fora de Israel, por comemorarmos dois dias de Yom Tov, Simchá Torá foi fixado apenas no 2º dia de Shemini Atseret.
 
No Shabat, que já não coincide com Shemini Atseret, nós lemos a Parashá Bereshit inteira. Esta Parashá descreve a criação do mundo e de seus primeiros habitantes, Adam e Chavá. Há algo muito interessante no início da Parashá que nos chama a atenção. Normalmente Rashi, comentarista da Torá, costuma ser muito sucinto em suas explicações. Porém, logo na primeira palavra da Torá, "Bereshit", Rashi se estende muito em seu comentário. Ele traz uma pergunta em nome do Rebe Ytzchak: "Por que a Torá começou neste ponto, "No princípio", ao invés de ter começado diretamente no versículo "Este mês será para vocês" (Shemot 12:2), que traz a primeira Mitzvá da Torá entregue ao povo judeu, a Mitzvá de Rosh Chodesh (Santificação do novo mês)?". 
 
Mas o que significa esta pergunta do Rebe Yitzchak? É verdade que, se observarmos todo o primeiro livro da Torá, Bereshit, e também o início do segundo livro, Shemot, perceberemos que a Torá traz apenas histórias e narrativas, descrevendo desde a criação do mundo, passando pelo nascimento e vida dos nossos patriarcas, pela escravidão egípcia e chegando à escolha de Moshé Rabeinu como o salvador do povo judeu. Porém, o que o Rebe Ytzchak está sugerindo, que a Torá fosse apenas um compêndio de Mitzvót? Há algo de errado no fato da Torá contar histórias? Além disso, percebemos que mesmo depois da entrega da primeira Mitzvá, a Torá continua contando muitas histórias, como os detalhes da libertação dos judeus no Egito e muitos dos eventos que ocorreram durante os 40 anos em que o povo judeu permaneceu no deserto. Por que o Rebe Ytzchak se incomodou com as histórias do início da Torá, contadas antes do início das Mitzvót, mas aparentemente não se incomodou com as histórias que se estendem por toda a Torá?
 
Explica o Rav Zev Leff que, para entender a pergunta do Rebe Ytzchak, precisamos antes de tudo entender qual é o propósito da Torá. O Rambam (Maimônides) (Espanha, 1135 - Egito, 1204) nos ajuda a encontrar uma resposta simples e direta. Em relação às leis sobre a vinda do Mashiach (Leis dos Reis 12:2), o Rambam escreve que a Torá nos deu pouquíssimas informações sobre este assunto. Os detalhes não foram revelados nem mesmo aos profetas e sábios. Pelo fato destes detalhes terem sido ocultados, o Rambam conclui que este assunto não deve ser o foco do nosso estudo de Torá, pois é um estudo que não trará a pessoa ao amor e temor a D'us.
 
Das palavras do Rambam aprendemos algo incrível: o propósito do estudo da Torá é trazer a pessoa ao amor e ao temor a D'us. A palavra "Torá" vem da raiz "Horaá", que significa "orientação", nos indicando que o papel da Torá é nos guiar em nossos esforços de nos aproximarmos de D'us. Portanto, faz sentido que a Torá contenha apenas o que auxilia neste objetivo, isto é, as Mitzvót. Se a Torá é um "manual de instruções", então não tem sentido constar nela assuntos cujo objetivo seja apenas trazer contextos históricos ou científicos.

Este mesmo conceito pode ser percebido nas palavras finais da Meguilat Ester: "E todos os atos de poder e a força de Mordechai... não estão escritos no Livro das Crônicas dos reis da Média e da Pérsia?" (Esther 10:2). Por que a Meguilat Ester faz referências ao Livro das Crônicas da Média e da Pérsia? Alguma vez este livro esteve em nossas mãos, para que pudéssemos buscar nele informações adicionais em relação à Mordechai? De acordo com o Rav Yechezkel Abramsky zt"l (Bielorússia, 1886 - Israel, 1976), este versículo tem como objetivo colocar a Meguilat Esther na perspectiva correta. A Meguilat Esther não é um livro de história. Se alguém deseja saber detalhes históricos do que aconteceu, que busque nos livros da Média e da Pérsia, pois a Meguilat Esther é apenas uma fonte de quem busca amor e temor a D'us, não de quem quer detalhes históricos.
 
Esta mesma mensagem é transmitida através da contagem das primeiras gerações da humanidade. No final da Parashá Bereshit, a Torá descreve as 10 gerações entre Adam e Noach, enquanto no final da Parashá Noach a Torá descreve as 10 gerações entre Noach e Avraham. Porém, há diferenças entre estas duas contagens. Na descrição das 10 primeiras gerações, a Torá traz detalhes em relação ao representante de cada geração: qual era sua idade quando nasceu seu principal descendente, quanto tempo ele viveu depois do nascimento deste filho e em que idade faleceu. Porém, na contagem das 10 gerações seguintes não está descrito as idades de falecimento e nem a confirmação de que eles realmente faleceram. Por que estas diferenças? Explica o Avos D'Rav Nasan que a Torá trouxe as informações sobre as 10 gerações entre Adam e Noach e as 10 gerações entre Noach e Avraham para nos ensinar duas lições importantes. As primeiras 10 gerações nos ensinam o quanto D'us pode ser paciente com o ser humano e adiar Sua fúria, mesmo quando as pessoas se desviam completamente do Seu caminho. As próximas 10 gerações nos ensinam que uma única pessoa, como fez Avraham, pode receber a recompensa de 10 gerações inteiras que não cumpriram seu propósito no mundo. Para transmitir o ensinamento da paciência de D'us, era importante saber que aquelas pessoas viveram, tiveram filhos e morreram em idades muito avançadas. Foi por isso que a Torá se alongou e trouxe todas estas informações. Porém, para transmitir que Avraham recebeu a recompensa de 10 gerações, não era necessário saber os detalhes destas gerações. Pelo fato de ser irrelevante em relação à mensagem que a Torá queria transmitir, então estes detalhes foram todos omitidos.
 
Isto nos ajuda a entender porque a narrativa da Torá nem sempre segue uma ordem cronológica. Como o propósito da Torá é colocar em nosso coração amor e temor a D'us, então a ordem que resulta em uma melhor forma de ensinar certa lição tem preferência até mesmo sobre a verdadeira ordem cronológica em que os eventos ocorreram.

Com estas explicações podemos finalmente entender de forma mais profunda o questionamento do Rebe Ytzchak trazido por Rashi. Se o propósito de cada palavra contida na Torá é nos guiar em direção a D'us, então a essência verdadeira da Torá são as Mitzvót. Quando alguém escreve um livro, normalmente começa já informando ao leitor qual é a natureza do material que está contido neste livro. Se o principal da Torá são as Mitzvót, então o Rebe Ytzchak questiona o porquê do "Escritor" não ter começado Seu livro com as Mitzvót. Mesmo que depois viessem histórias e narrativas, ao começar com as Mitzvót já seria criado um padrão para o livro, deixando claro que mesmo as narrativas que viessem posteriormente estariam incluídas na eterna mensagem de amor e temor a D'us. Porém, ao começar a Torá com histórias e narrativas, então haveria o risco de não ser perfeitamente entendida da mensagem de que a Torá é um guia de comportamento. Foi isto o que provocou o questionamento do Rebe Ytzchak.
 
De acordo com o Zohar (fonte mística da Torá), todas as narrativas da Torá são, na realidade, Mitzvót disfarçadas de histórias. Nenhuma palavra está na Torá apenas para nos ensinar algum contexto histórico ou alguma informação desnecessária, tudo nos leva a amar e temer a D'us. Devemos, portanto, ver a Torá com outros olhos e saber que cada história e cada detalhe devem nos ensinar algo sobre a forma de nos conectarmos a D'us.
 
A Torá não é apenas um livro de sabedoria. Livros de sabedoria não necessariamente precisam influenciar o comportamento da pessoa que o lê. Grandes gênios das artes, das áreas humanas e das ciências tiveram um caráter repreensível. Quando um certo filósofo famoso, que lecionava Moral e Ética em uma das mais renomadas universidades americanas, foi acusado de levar uma vida imoral, ao invés de assumir suas falhas e se comprometer a melhorar, ele disse publicamente: "Da mesma forma que um professor de geometria não precisa ser um triângulo, então um professor de Moral e Ética não precisa levar uma vida moral". A Torá, ao contrário, tem o objetivo de influenciar o comportamento e o caráter daquele que a estuda. Muitas vezes a Torá é comparada ao fogo, pois da mesma forma que o fogo deixa uma marca quando passa por uma pessoa, assim também a Torá tem o objetivo de deixar uma marca na pessoa.
 
É por isso que em Simchá Torá nós dançamos com a nossa Torá e recomeçamos com muita alegria a sua leitura, pois reconhecemos e agradecemos que a Torá não é como os outros livros que apenas ensinam sabedorias. A Torá nos ensina a como viver da maneira correta, a como cumprirmos o nosso objetivo. Cada palavra, cada Mitzvá e cada história trazem ensinamentos eternos. E, acima de tudo, a Torá nos deixa uma marca, nos faz crescer e, a cada dia, nos transforma em pessoas melhores.

CHAG SAMEACH E SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm

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